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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Von Martius - História, Etnologia & Comunicação Social.

                                                                                                     Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

Von Martius não foi o único a fazer uma proposta de regionalização do Brasil”. Julia Kovensky

                
                                    
            Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) chegou ao Brasil há 200 anos como um dos integrantes da Missão Austríaca em companhia da imperatriz Leopoldina por ocasião de seu casamento com dom Pedro I (1798-1834). A Expedição Austríaca ao Brasil (Österreichischen Brasilien-Expedition) foi uma grande expedição de investigação científica destinada a explorar o Brasil, com destaque para as áreas da Botânica, da Zoologia e da Etnologia, organizada e financiada pelo Império Austríaco e realizada entre 1817 e 1835. A missão austríaca de 1817 trouxe um conjunto de sábios e artistas destacados. Compunham o séquito da arquiduquesa os zoólogos Johan Baptiste Von Spix e Johann Natterer; os botânicos Karl Friedrich Philipp von Martius, Johann Sebastian Mikan e Johann Emanuel Pohl, além do pintor Thomas Ender. A expedição fica meio ano na província do Rio de Janeiro para preparar a viagem, tendo contratada uma equipe de apoio, composta de guias, tropeiros, escravos e índios, que viabilizariam a parte técnica e operacional da expedição. A aventura do jovem botânico alemão percorreu mais de 10 mil km do Brasil por assim dizer inóspito. Esse trabalho resultou na obra Reise in Brasilien (“Viagem pelo Brasil”), concluída pelos cientistas em 1831, além da Flora Brasiliensis, conduzida por Von Martius até sua morte (1868) e dando continuidade por 65 cientistas até a publicação, em 1906. 
           - “A Flora Brasiliensis ainda é a maior obra de flora já feita no mundo, com o maior número de espécies e gêneros descritos”, afirma Rafaela Forzza, pesquisadora e curadora do Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. - “Até hoje nenhum botânico brasileiro trabalha sem ela”. O Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ou apenas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, é um instituto de pesquisas e jardim botânico localizado no bairro do Jardim Botânico, na zona sul do município do Rio de Janeiro. Representa uma das mais belas e bem preservadas áreas verdes da cidade, exemplo da diversidade da flora brasileira e estrangeira. Nele podem ser observadas cerca de 6 500 espécies, distribuídas por uma área de 54 hectares, ao ar livre e em estufas. A instituição é responsável pela coordenação da Lista de Espécies da Flora do Brasil e pela avaliação de risco de extinção destas espécies. A instituição abriga, ainda, monumentos de valor histórico, artístico e arqueológico e a mais completa biblioteca do país especializada em botânica, com mais de 32 000 volumes e o maior herbário do Brasil, que possui 600 mil amostras desidratadas, número de 2014, com uma média de 20 mil novas amostras incorporadas anualmente, informatizadas e disponíveis na página da instituição. A sua origem remonta à transferência da corte portuguesa para o Brasil, entre 1808  e 1821. A corte fixou-se no Rio de Janeiro, desde 1763 sede do Brasil, uma colônia portuguesa, e agora alçada à condição de sede do império português, propiciando-lhe diversas oportunidades e melhorias. 
           Dentre essas destaca-se a implantação de uma fábrica de pólvora na sede do antigo Engenho da Lagoa, de propriedade de Rodrigo de Freitas, cujas ruínas dos muros integram os limites da instituição. Por decreto real de 13 de junho de 1808, o príncipe-regente Dom João, em nome de sua mãe “incapacitada” - Dona Maria I -, “manda tomar posse do engenho e terras denominadas da Lagoa Rodrigo de Freitas”, para criar o Jardim de Aclimação, com a finalidade de “aclimatar as plantas de especiarias oriundas das Índias Orientais: noz-moscada, canela e pimenta-do-reino”. No mesmo ano, a 11 de outubro, recebeu o nome de Real Horto, e no dia seguinte em 12 de outubro, o Príncipe-regente assinou um decreto real criando o cargo de feitor para a fazenda da Lagoa. Os primeiros exemplares de plantas que o integraram vieram do Jardim La Pamplemousse, nas ilhas Maurício, pelas mãos de Luiz de Abreu Vieira e Silva, que os ofereceu ao Príncipe-regente. Entre eles encontrava-se a chamada “Palma Mater”.  A sua direção foi inicialmente entregue ao general Carlos Antônio Napion (1808) e, em seguida, ao brigadeiro dom João Gomes da Silveira Mendonça, marquês de Sabará, que o dirigiu de 1808 a 1819. Em 1810, o prussiano Kancke transformou-o em uma estação experimental, recebendo, nessa função, mais de 800 000 réis por ano. Nos viveiros, já havia mudas de cânfora, nogueira, jaqueira, cravo-da-índia e outras plantas do Oriente.

                                  

Em termos administrativos, o alvará de 1º de março de 1811 “Cria a Real Junta de Fazenda dos Arsenais, Fábricas, e Fundição da Capitania do Rio de Janeiro e uma Contadoria dos mesmos Arsenais (...) dirigindo também um estabelecimento de um jardim botânico da cultura em grandes plantas exóticas que mando que se haja de formar na dita fazenda da Lagoa (...)”. No ano seguinte (1812), chegaram, ao Real Horto, as primeiras mudas de chá Camellia sinensis, planta denominada anteriormente como Tea viridis, enviadas de Macau pelo senador daquela colônia portuguesa no Extremo Oriente, Dom Rafael Botado de Almeida. Visando dinamizar essa cultura, em 1814 o Príncipe-regente faz trazer para trabalhar no jardim um grupo de cerca de 300 chineses. O decreto real de 11 de maio de 1819 anexa o Real Horto ao Museu Real, criado no ano anterior, por decreto real de 6 de junho de 1818. Pelo Decreto Real de 22 de fevereiro de 1822, a instituição, que, desde 1808, se encontrava subordinada ao Ministério dos Negócios da Guerra, passou para a alçada do Ministério dos Negócios do Reino. O Decreto Real de 11 de maio de 1819 anexa o Real Horto ao Museu Real, criado no ano anterior, por decreto real de 6 de junho de 1818. Pelo decreto real de 22 de fevereiro de 1822, a instituição, que, desde 1808, se encontrava subordinada administrativamente ao Ministério dos Negócios da Guerra, passou para a alçada do Ministério dos Negócios do Reino.  

Com a proclamação da República brasileira (1889), no ano seguinte passou a ser denominado como Jardim Botânico. A partir de então, receberia diversos visitantes ilustres, como Albert Einstein (1925) e a rainha Isabel II do Reino Unido em novembro de 1968, entre outros, transformando-se em cartão-postal da cidade. Entre os nomes de pesquisadores que lhe estão ligados destaca-se o de Manuel Pio Correia (1874-1934),  um botânico português. Naturalista, botânico, geólogo e pesquisador, nascido na cidade do Porto, em Portugal, filho do editor e livreiro Ignacio Corrêa, dedicou-se ao estudo da Botânica aplicada, ressaltando aspectos científicos, econômicos e industriais das plantas. Membro de mais de uma dezena de instituições científicas. Os trabalhos desenvolvidos por este naturalista deram origem a importantes publicações, dentre as quais os seis volumes do Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas (1926) pelo Ministério da Agricultura. Sua bibliografia completa inclui cerca de 150 trabalhos. Quando faleceu, era pesquisador do Museu de História Natural de Paris.

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro encontra-se tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1937. Em 1991, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO) considerou-o como Reserva da Biosfera. Naquele momento, quando o jardim passava por dificuldades de manutenção e conservação, um grupo de empresas públicas e privadas formou-se para auxiliá-lo. Como resultado das parcerias, em 1992 o orquidário e a estufa de violetas foram renovados, além de procedida uma limpeza no lago. Em 1995, foi construído o Jardim Sensorial, com plantas aromáticas e placas indicadoras em braile, permitindo a visitação por portadores de deficiência visual. Posteriormente, uma nova estufa para as bromélias foi construída. No início do século XXI, o muro do jardim na rua Pacheco Leão foi demolido, dando lugar a uma grade, melhorando a sua integração tornando transparente a visibilidade paisagística no bairro. Como reconhecimento pela importância científica, foi rebatizado como Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em 1998, ficando afeto ao Ministério do Meio Ambiente. Em 2002, tornou-se uma autarquia federal.  


        Desconhecido pela etnografia, mas que marcaria um importante acontecimento teórico e prático na história da escrita e da representação da filologia para o conhecimento da flora nacional, então representada de forma exótica e quase inatingível no âmbito do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos). Formado em medicina, entretanto, dedicou-se às ciências naturais.
  Desnecessário dizer que as “ciências naturais” constituem uma classificação que abarca as áreas da ciência que visam a estudar a natureza em seus aspectos mais gerais e fundamentais, isso é, o universo como um todo, que é entendido como regulado por regras ou leis de origem natural e com validade universal, fazendo-o de forma a focar-se nos aspectos físicos e não no homem ou em aspectos comportamentais. Além do uso tradicional, a expressão ciências naturais é por vezes usada no dia-a-dia como sinônima de história natural. Neste sentido, “ciência natural” pode estar subentendendo biologia e talvez alguma das chamadas ciências da Terra, em oposição às ciências físicas, como astronomia, física e química. Em tempos medievais, o estudo natureza era reconhecido como filosofia natural. No final destes tempos e início da modernidade, a interpretação filosófica da natureza foi sendo substituída por uma aproximação científica através da utilização do método indutivo.
             A Filosofia da natureza é a expressão usada para descrever o estudo da natureza, tanto do ponto de vista que chamamos científica ou empírica, tanto do ponto de vista metafísico, de uma ciência geral de movimento e mudança, o movimento sendo entendido como qualquer tipo de mudança, como mudança de qualidade ou de lugar. Como o nome sugere a filosofia natural é interessada com esses movimentos e mudanças que ocorrem naturalmente, tal como geração, crescimento, e movimentos espontâneos como do coração e digestão, a queda de corpos e os movimentos circulares das esferas celestes. Num sentido mais restrito ela se destinava a todo o trabalho de análise e síntese de experiências comuns adicionados aos argumentos relativos à descrição e compreensão da natureza. O termo ciência, emergirá só mais tarde, depois de Galileu, Descartes e Newton e para o desenvolvimento de uma investigação experimental independente e de natureza matemática, governada por um método.
            Na literatura a influência do extraordinário Goethe, formando um ambiente que mais tarde ele denominaria, com argúcia, seu “bom treinamento intelectual pré-escolar”. Ipso facto Viena na virada para o século XX viveu momentos e circunstâncias díspares de decadência e inovação, unidade e multiplicidade, cosmopolitismo e provincianismo, propiciando o florescimento de criatividade tal que a vida cultural e política posterior seriam marcadas por seus traços de gênio e de bom humor, culpa e redenção, angústia e beleza. Os sábios eram pensadores de fora do ambiente filosófico acadêmico cuja obra Wittgenstein lera ainda bem moço, como Karl Kraus, o “feroz crítico” da cultura e da linguagem do final do Império Habsburgo que lhe causou forte impressão, por sua insistência na integridade pessoal. Sua obra inseria-se no âmbito da crise da linguagem, quando a preocupação geral referia-se à autenticidade da expressão simbólica na arte e na vida pública.
           Outra expressão histórica dessa crise representava a crítica analítica interpretativa da linguagem de Fritz Mauthner, autor que perseguiu uma meta kantiana, a derrota da especulação metafísica, substituindo a “crítica da razão” por uma “crítica da linguagem”, sendo sua obra mais tributária de Hume e de Mach. Seu método, entretanto, era psicologista e historicista: a crítica da linguagem faz parte da psicologia social. O conteúdo da crítica era empirista, pois consideravam que a linguagem funda-se nas sensações. Seu resultado foi cético - a razão idêntica à linguagem. Se acreditarmos que esta última não serve para a apropriação da realidade. O fenomenólogo Ludwig Wittgenstein, acertadamente, opõe sua própria crítica lógica da linguagem à de Mauthner, primeiro que identificou a filosofia com a crítica da linguagem. Os trabalhos de Ibn al-Haytham e Francis Bacon popularizaram essa aproximação, e assim ajudando a forjar a revolução técnico-científica.         
No século XIX o estudo a ciência recebeu atenção maior dos profissionais e instituições, e ao fazê-lo surgiu o nome moderno de ciência natural. O termo cientista foi criado por William Whewell em 1834. Enfim, o termo ciência natural é também usado para distinguir esses campos que usam o método científico para estudar a natureza, das ciências sociais e ciências humanas, que usam o método científico para estudar o comportamento e sociedade humana e das ciências formais, como a matemática e lógica, que usam uma metodologia distinta. Como grupo, as ciências naturais se diferenciam das ciências sociais, por um lado, e das artes liberais, como as ciências humanas, por outro lado. Não por acaso, a biologia tende a se interessar objetivamente com as características, classificação e comportamento dos organismos,  como as espécies desde Charles Darwin, foram formadas e as interações acrescidas da análise social, entre cada uma e com o ambiente.
Von Martius percorreu o Brasil durante três anos chegando até o alto Amazonas, reunindo material que lhe permitiu publicar extensa e importante obra. De volta à Alemanha, foi nomeado professor da Universidade de Munique (1826) e diretor do Jardim Botânico dessa cidade (1832). Chegando ao Rio de Janeiro a 15 de julho de 1817, iniciou imediatamente expedições científicas nos arredores da capital. Seguiu para São Paulo e, depois, permanecendo vários meses na província de Minas Gerais.  Internou-se no sertão, fazendo contato com índios “antropófagos” e, subindo o rio São Francisco, chegou ao interior de Goiás. Atravessou a Bahia, Pernambuco e, transpondo a Serra Dois Irmãos, visitou as províncias do Piauí e Maranhão. Partindo de Belém do Pará, percorreu o fabuloso rio Amazonas, terminando a viagem em Santarém, de onde embarcou para a Europa. No decorrer dessa viagem, reuniu cerca de 6.500 espécies de plantas, sem contar o material etnográfico e filológico que a ele igualmente se deve. A principal coleção de plantas está conservada no Museu Real de Munique.
Com os dados obtidos no Brasil, Von Martius publicou também: “História Natural das Palmeiras”; “Novos Gêneros e Espécies de Plantas”; “Desenhos Selecionados das Plantas Criptogâmicas Brasileiras”; e “Sistema dos Remédios Vegetais Brasileiros”. Vale lembrar que Von Martius também contribuiu para o estudo e pesquisa etnográfica e da linguística indígenas com as obras Contribuição para a etnografia e a linguística da América, especialmente do Brasil e Glossário das Línguas Brasileiras, reunindo os termos indígenas coligidos por Spix. Ambos descreveram sua etnologia no livro Viagem pelo Brasil, nos Anos de 1817 a 1820. De volta à Alemanha Von Martius iniciou a organização das informações, que resultou em Flora Brasiliensis, o mais abrangente levantamento da flora, com a descrição de 22.767 espécies – 19.629 brasileiras e 5.689 que eram novas para a ciência do período histórico da etnologia – e 3.811 desenhos de plantas, suas flores, frutos e sementes.
Cem anos depois da publicação do último dos 40 volumes, a obra acaba de ganhar uma inédita versão eletrônica, cujo desenvolvimento é encabeçado pelo botânico George Shepherd, professor do Instituto de Biologia (IB) da Universidade de Campinas, no qual esboçaram imagens da natureza e da sociedade brasileira em três tomos, editados em 1823, 1828 e 1831, e cuja edição brasileira, promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), data de 1938. Tendo sido um evidente sucesso literário, o livro de Spix e de Von Martius recebeu inúmeras edições na Europa, sendo ilustradas por numerosos desenhos da autoria de Thomas Ender, que deixou mais de 700 aquarelas sobre o Brasil, do próprio Von Martius, além de outros membros da expedição. Ender também foi responsável por ilustrações para as viagens de Johann Emanuel Pohl (1951). Muitos de seus diversos desenhos da região do Rio de Janeiro e da província de São Paulo somente viriam a ser conhecidos após sua morte, em 1875.  
A expedição científica de Johan Baptiste von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius ao Brasil, realizada entre 1817 e 1820, deu primícias das mais relevantes num vasto leque temático, que abrange tanto as respectivas especialidades destes viajantes naturalistas, a zoologia e a botânica, como outros campos do saber. Essa empresa tem sido unanimemente aclamada pelo conhecimento que produziu no âmbito da botânica, o acervo etnográfico que reuniu é atualmente orgulho do Museu Etnográfico de Munique, e os historiadores, que por sua vez, presentemente citam e discutem com interesse a proposta de Von Martius sobre o tema “Como se deve escrever a História do Brasil?”. Entre as obras do cientista na área das ciências sociais, encontra-se o texto: “Como se deve escrever a história do Brasil”, no qual ele propunha que o relato da história brasileira desse valor à contribuição das três raças para a formação do país, à língua e aos costumes indígenas, à atuação dos jesuítas e ao modo de vida colonial, entre outros aspectos. A obra demonstra a preocupação com uma história que levasse em conta o passado nacional, comum a todos os brasileiros. Com esse texto, Von Martius venceu um concurso promovido em 1840 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Da zoologia e a mineralogia à linguística, a música e a vida social e política, esses viajantes esquadrinharam e pensaram o processo civilizatório, e os resultados foram dados a conhecer em várias dezenas de publicações editadas.  
Etnograficamente o tamanho e variedade do material coletado possibilitaram ao botânico Von Martius, com a ajuda de especialistas de todos os países, publicar o maior estudo já feito sobre flora de determinado país, Flora Brasiliensis, obra que veio à luz entre 1840 a 1906, e onde são descritas e catalogadas mais de 20 mil espécies de vegetais, dos quais mais de cinco mil pela primeira vez. Como resultado da longa expedição ao Brasil, Martius publicou, junto com Spix, a obra Viagem ao Brasil. Tendo sobrevivido ao zoólogo por quarenta anos, Martius pôde, além dessa obra, dedicar ao Brasil vasta e proveitosa atividade científica. A maior realização desse notável botânico foi a monumental Flora Brasiliensis, que iniciou em 1840 e dirigiu até 1868. Depois de sua morte, a obra foi continuada por outros colaboradores, sendo concluída em 1906. Em 15 volumes, com 20.773 páginas, e 3.811 gravuras, classifica 850 famílias com mais de 8 mil espécies descritas. Contribuíram para sua publicação Fernando I, imperador da Áustria, Luís I, rei da Baviera, e Pedro II, imperador do Brasil.
Já numa primeira aproximação às principais publicações realizadas por Martius permite verificar que nos encontramos diante de uma obra com indícios um conteúdo estético. Seja no âmbito do Atlas de Viagem pelo Brasil (1817-1820), na História Naturalis Palmarum (1823-1850) ou na monumental Flora Brasiliensis (1840-1906), salta à vista que a utilização de imagens é muito mais do que um simples complemento ao texto. As ilustrações oferecem uma informação a mais, elas contribuem a compor um discurso de abrangência maior que o das rigorosas e unívocas formulações científicas. É através de construções poéticas, sejam estas em linguagem verbal ou visual, em literatura ou em imagens plásticas, que Martius procura descobrir e por ao alcance dos  leitores uma compreensão abrangente do mundo, fundada tanto no saber sistemático, como na intuição estética. O cientista de Munique contribuiu de forma contundente na constituição da identidade brasileira, não só com estudos do espaço antrópico e sua história, mas a partir da interpretação da natureza desse vasto império.
Von Martius conheceu pessoalmente a Johann Wolfgang von Goethe em setembro de 1824, em Weimar. O naturalista e o poeta estabeleceram uma relação cordial, que transparece na correspondência que mantiveram durante seis anos; esta evidencia como Goethe acolheu Von Martius no âmbito das suas afinidades eletivas. O botânico compartilhou com o poeta as meditações complexas sobre a sua compreensão dos fenômenos naturais, em especial do mundo das plantas, e lhe enviou os cadernos da sua Historia Naturalis Palmarum, à medida que estes iam sendo publicados. E Goethe acusava rapidamente o recebimento destas missivas, e claro, cordialmente, sempre com comentários elogiosos. Por sua vez, Goethe escreveu, em 1824, uma resenha de várias páginas sobre os dois primeiros fascículos da história das palmeiras, publicados em 1823. O poeta ofereceu uma breve descrição dos dois cadernos e das 49 pranchas que contêm, chamando a atenção para as duas técnicas que foram utilizadas na elaboração das gravuras: a utilização da água-forte para as pranchas dedicadas à anatomia das plantas e litografia para as vistas das palmeiras no seu hábitat natural - vale dizer, as representações sociais adquiridas no processo de apropriação  da paisagem.
No filme: Les Beaux Jours d’Aranjuez (2016), o cineasta Wim Wenders, dá forma às folhas e ao céu, dá forma à peça de Peter Handke, um exemplo sóbrio de como se pode oferecer densidade ao texto.  O desejo de ver e de tornar visível, bem como o seu fundamento – a crença na possibilidade de que a imagem possa servir como prova da existência – é um motivo recorrente em outros filmes de Wenders, em: “Alice in den Städten” (1974), que tira um retrato a Philip Winter (Rüdiger Vogler) e que lhe oferece, para que Philip saiba “como é que se parece”. Ou do périplo de Sam Farber (William Hurt), em: “Bis ans Ende der Welt” (1991), para demonstrar caras e lugares do mundo inteiro à mãe cega. Poder entrever numa tela a luz de uma estação, como se aquele dia estivesse diante de nós, é algo apreciável, pelo menos para aqueles que às vezes, não se contêm e dizem de um filme que “é muito bonito”. Belos eram os dias de Aranjuez e belas são as cores deste filme. Belas são as suas faces, os seus olhos e belo é o verde das folhas visíveis. As origens do Palácio Real de Aranjuez remontam ao reinado de Filipe II, monarca que propôs edifica-lo, em 1561, sendo os planos definitivos da autoria de Juan Bautista de Toledo, o arquiteto do El Escorial. Quando Toledo faleceu, em 1567, o seu discípulo Juan de Herrera foi encarregado de rematar a obra. Depois da conclusão de uma parte do palácio, o projeto foi abandonado até ao reinado de Filipe V, o primeiro rei da Casa de Bourbon. Poucos anos depois de se concluir o projeto segundo os planos originais, o palácio sofreu um incêndio. Foi então que o filho de Filipe V, Fernando VI encarregou o arquiteto e pintor italiano Santiago Bonavía que atuou na Espanha durante o século XVIII,   da sua reconstrução, o qual respeitou a estética do edifício, apenas introduzindo algumas alterações que ainda hoje são visíveis.
Na Europa, a intervenção humana para organizar a natureza era reconhecida como “arte dos jardins”,até aproximadamente meados do século XIX. Esta atividade intelectual criadora consistia principalmente na representação gráfica da paisagem, posteriormente identificada como paisagismo, que significava uma visão paisagística do ambiente humano, portanto, uma noção mais ampla do que “jardim”. A concepção ocidental de paisagem foi formulada na Europa, mas também teve influências recebidas das experiências que povos do Mediterrâneo, Oriente Médio e Extremo Oriente tiveram com seu próprio ambiente. Na metade do século XIX, estudos de vegetação para análise da paisagem trabalhavam com tipologias de unidades de vegetação e eram retomadas em uma tipologia maior de unidades paisagísticas. Em níveis diferentes, de tempo e espaço, as unidades paisagísticas foram assimilando progressivamente componentes físicos e evidentemente, com o surgimento da sociologia, sociais. Entre os geógrafos há um consenso de que a paisagem, embora tenha sido estudada com ênfases diferenciadas, resulta da relação dinâmica de elementos físicos, biológicos e antrópicos. E que ela não é apenas um fato natural, mas social, pois inclui a existência humana. Tanto a escola alemã, como a francesa, dão ênfase a aspectos diferentes da paisagem. A geografia alemã tem herança naturalista, desde o barão Alexander von Humboldt (1769-1859); a francesa, por outro lado, desenvolveu observações empíricas quanto à região, formada pelas culturas e sociedades em cada espaço de forma natural.

Depois de uma breve descrição das 10 vistas de conjuntos paisagísticos contidos nestas duas primeiras entregas, o poeta anota que, nos seus comentários, dedicará particular atenção ao aspecto estético, e imediatamente se justifica com uma interessante observação: “podemos afirmar que é precisamente isto o que constitui um complemento aos ganhos da viagem, que obtiveram estes homens notáveis. O que chama de complemento aos ganhos da viagem (cf. Diener, 2011) - quanto empreitada naturalista – é a apreensão sensível e intuitiva do fenômeno natural, que vai além da mera coleta de amostras e do registro científico”. É neste sentido que a constituição iconográfica da História Naturalis Palmarum passou a ser reconhecida precisamente por ter materializado uma forma de representação científica botânica que se estrutura além da ilustração dos aspectos fito-morfológicos, pois incluiu também o registro do hábitat da planta, o que por sua vez, ela contribui a configurar. É claro que este procedimento traduz comparativamente os avanços nos conceitos elaborados por Alexander von Humboldt na elaboração da obra Geografia das Plantas (Tübingen, 1807), princípios estes que o cientista de Berlim traspassou aos “artistas viajantes”, impulsionando-os a percorrer algumas das mais diversas regiões do planeta com o propósito de registrar a natureza empiricamente, mas de forma claramente integradora. Mas o horizonte artístico de Von Martius ganhou, decisivamente, no diálogo com Wolfgang Goethe, uma dimensão inovadora a mais. 
Esta diz respeito a uma persistente ênfase aos elementos intuitivos, às associações livres de idéias e ao empenho por apreender e representar o universo em linguagem simbólica, tanto em composições visuais como em formulações poéticas. A relação cooperativa francamente amistosa, que havia surgido entre estes dois homens, foi o que permitiu que o cientista se sentisse à vontade para comentar aspectos da sua sensibilidade na apreensão da América e do mundo natural. Mesmo nos dias de hoje, com o absoluto predomínio global de instituições que mantêm intercâmbio científico intercontinental, com informação em tempo real e prestigiosas instituições de pesquisas nas Américas, Europa e Ásia, não é fácil manter esta relação cooperativa que poderia se manter através dos jogos de linguagens e assim por diante. Enfim, Von Martius certamente entusiasmou-se, segundo Erwin Theodor, pelo empreendimento que lhe ocupou boa parte do tempo entre 1828 e 1831, anos em que redigiu o terceiro volume da sua Viagem pelo Brasil. Na exploração do Amazonas, entre 1819 e 1820, havia entrado em contato com os índios, coletando informações de muitas tribos, como seu caráter antropológico, etnológico e a distinção de suas culturas. Trabalhos esparsos, independentes, revelam interesses mais amplos e multiformes.
Ao seu privilegiado talento convinha o gênero do romance, surpreendendo sua habilidade fabulatória no ensaio: Viagem pelo Brasil, onde aparece o seguinte trecho: - “Como este relatório de viagem pretende ser também um espelho da nossa vida íntima e ao amigo leitor não deseja só oferecer notícias objetivas de nossas observações, seja permitido ao editor inserir aqui uma folha do seu diário, testemunho de fato diferente da formação acostumada, da disposição de espírito e da compreensão daquele aspecto inesquecível”. E eis o início da descrição de um dia nos trópicos. - Compreendo melhor o que é o historiador da natureza. Diariamente lanço-me na meditação do grande e indescritível quadro da natureza e, embora esteja fora de meu alcance compreender sua finalidade divina, ele me enche de deliciosas emoções. São três horas da manhã; levanto-me da rede porque não consigo mais dormir de excitação; abro as venezianas e olho para esta noite escura e solene. Magníficas brilham as estrelas, e o rio resplandece com o reflexo da lua poente. Como tudo que é quieto e misterioso em torno de mim! Ando com o lampião para a fresca varanda e contemplo os meus queridos amigos, as árvores e arbustos ao redor da casa. Alguns estão dormindo com as folhas bem dobradas, outros, porém, que descansam de dia se elevam tranquilos na noite sossegada; poucas flores estão abertas, só vocês, perfumadas sabem de Paulínias, saudais o caminhante com a mais delicada fragrância, e você, altiva e sombria mangueira, cuja copa folhuda me protege contra o sereno noturno. Por mais de duas páginas segue o registro do que Martius nota a “sequência dos sempre idênticos fenômenos naturais”.  
Bibliografia geral consultada.

LACOMBE, Américo Jacobina, Cartas de Karl Friedrich Philipp von Martius a Paulo Barbosa da Silva. Rio de Janeiro: Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, 1991; MARTIUS, Carl Friedrich Philip von; SPIX, Johann Baptiste von, Viagem pelo Brasil (1817-1820). Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981; Idem, Frei Apolônio - Um Romance do Brasil. Introdução e apresentação de Erwin Theodor. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992; Idem, A Viagem de von Martius: Flora Brasiliensis. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora Index, 1996; FITTKAU, Ernst Josef, “Johann Baptist Ritter von Spix: primeiro zoólogo de Munique e pesquisador no Brasil”. In: Hist. cienc. Saude. Rio de Janeiro, vol. 8, supl. pp. 1109-1135, 2001; SCHELLING, Friedrich, Las Edades del Mundo. Madrid: Ediciones Akal, 2002; ASSIS JUNIOR, Heitor de, Relações de Von Martius com Imagens Naturalísticas e Artísticas do Século XIX. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2004; CAUQUELIN, Anne, A Invenção da Paisagem. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007; KOVENSKY, Julia, “Iconografia”. In: Um Guia para o Instituto Moreira Sales. Rio de Janeiro: Editora Instituto Moreira Sales, 2008; DIENER, Pablo, “Nação e Natureza na Obra sobre o Brasil de C. F. Ph. Von Martius”. In: XVI Congresso Internacional de AHILA: El Nacimiento de la Libertad en la Península Ibérica y Latinoamérica. San Fernando, Espanha, 6-9 de setembro de 2011; DIENER, Pablo & COSTA, Maria de Fátima (Org.), Um Brasil para Martius. Rio de Janeiro: Fundação Miguel de Cervantes, 2012; REINALDO, Gabriela, “O Começo do Terrível - O Legado de Von Martius entre a Ciência e a Ficção na Representação da Natureza Brasileira”. In: Visualidades. Vol. 12, n° 2, pp. 113-141, jul./dez, 2014; GOBBI, Nelson, “Mostra revela como as obras de Von Martius ajudaram a criar a imagem de Brasil”.  In: https://oglobo.globo.com/03/02/2017; CAMPOS, Pedro Moacyr, “Um Naturalista e a História”. In: Revista de História, 43, n° 87 (2017): 241-248; UCHÔA, Raphael Bezerra da Silva, A Ruína dos Povos: Raça Americana e Saber Selvagem na Ciência de Carl F. Ph. von Martius (1794-1868). Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2018;  entre outros.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

C. Wright Mills - College, Meio Acadêmico & Artesanato Intelectual.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

O trabalhador intelectual forma-se à medida que trabalha para o aperfeiçoamento de seu ofício”. Wright Mills

           
          
            Charles Wright Mills nasceu em Waco, Texas, em 28 de agosto de 1916. Cursou a graduação em sociologia e o mestrado em filosofia na Universidade do Texas em Austin. Em seguida, tentou fazer seu doutorado em sociologia na Universidade de Chicago, mas desistiu por não ter conseguido uma bolsa de estudos. Foi então, em 1939, estudar na Universidade de Wisconsin, onde defendeu, em 1942, sua tese de doutorado, “A Sociological Account of Pragmatism: Na Essay on the Sociology of Knowledge”. Wright Mills transferiu-se em 1941 para a Universidade de Maryland (College Park), onde ministrou aulas de sociologia. Nos anos seguintes, colaborou com Hans H. Gerth em dois livros: a extraordinária coletânea de textos de Max Weber, intitulada: From Max Weber: Essays in Sociology, publicado em 1946 - seu maior best-seller, ainda reimpresso mais de 60 anos após sua publicação - e a etnologia Character and Social Structure, que viria a ser publicado em 1953. Em 1945, Mills mudou-se para Nova York, indo trabalhar no Bureau of Applied Social Research a convite de seu fundador e diretor, o sociólogo Paul Lazarsfeld. Ali, teve acesso a farto material empírico, quando trabalhou coordenando equipes de investigadores e pôde adquirir habilidades em métodos e técnicas de pesquisa quantitativa. 
           Apesar da admiração que inicialmente sentia por Paul Lazarsfeld, aos poucos as relações sociais entre os dois se deterioraram, até o rompimento completo, em 1952. Paul Lazarsfeld foi educado na Universidade de Viena, onde obteve em 1925 o seu Doutoramento em Matemática Aplicada com uma tese intitulada: Die Perihewegung des Merkur, publicada na Revista Zeitsdhrift für Phisik que procurava apresentar uma solução matemática à função einsteiniana sobre “o movimento na órbita do planeta Mercúrio a partir do cálculo do seu perigeu”. Após o doutoramento, fundou, em 1929, um Instituto de Pesquisa para Psicologia Social Aplicada na capital austríaca. Em 1933 emigrou para os Estados Unidos da América, foi diretor do Gabinete de Pesquisa Radiofônica na Universidade de Princeton depois de receber um fundo da Fundação Rockfeller para a pesquisa sobre Sociologia e Psicologia associada à comunicação social. Em 1940, o seu projeto mudou-se para a Universidade de Columbia, ao qual o seu gabinete foi nomeado de Bureau of Applied Social Research. Foi docente do Departamento de Sociologia desta universidade até 1970. Na Escola de Columbia, foi o precursor de uma corrente do estudo da comunicação social iniciada em 1940, na Universidade de Columbia.
        Concomitantemente ao trabalho no Bureau, Mills começou a lecionar na Universidade de Columbia em 1947, nela permanecendo até sua morte, em 1962. Ao longo desses 15 anos, Mills foi uma figura marginal no ambiente acadêmico de Columbia. As relações pessoais com alguns colegas foram difíceis. Como uma das terríveis consequências, não ensinava na pós-graduação. O lado positivo é que tinha como vantagem tempo de Dedicação Exclusiva (DE) para dedicar-se à pesquisa e à escrita heterodoxa. A educação superior norte-americana tem as suas origens nos programáticos College, fundados sob a inspiração dos preceitos do protestantismo puritano, a partir do início do século XVII. A universidade norte-americana, contudo, é relativamente tardia. Somente a partir da Guerra Civil de 1861 foi se constituindo gradativamente um sistema de educação superior, no seio do qual emergiu a moderna universidade. Apoiado em revisão de literatura e consulta a outros documentos, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma análise sócio-histórica do processo de constituição e consolidação do sistema de educação superior norte-americano no período compreendido entre a década de 1860-1920. 
          O início do período é marcado não só pela Guerra Civil, mas pela assinatura do Morrill Act (1862) que pôs em cena o Estado como ator na área da educação superior norte-americana. Seu final é marcado pela consagração da educação superior de massa. Quando os primeiros britânicos se estabeleceram na América do Norte, a Europa estava submersa em conflitos religiosos. Tentando escapar das interdições protestantes buscaram no novo continente refúgio para o livre exercício da fé e também a liberdade para erguer uma sociedade, cujos pilares fossem lançados sob os preceitos do protestantismo puritano. Com este intuito do século XVII, um grupo de colonos se estabelecia em New Plymouth, Nova Inglaterra, tendo redigido para reger suas vidas o Pacto de Mayflower, inspirado em ideias puritanas radicais. Pouco depois, outro grupo se fixou ao Norte, atraindo outros protestantes britânicos, de modo que na década de 1630 a região contava com população de 20 mil habitantes. Considerando a educação um instrumento para interpretar a vontade divina, os colonizadores do Massachussets destinaram uma quantia do orçamento da comunidade para a construção de uma instituição de ensino, o que resultou, em 1636, na inauguração de um College, que passaria a chamar-se, em 1638, a extraordinária Harvard College, a faculdade de graduação da Universidade de Harvard, uma universidade de pesquisa da Ivy League, em Cambridge, Massachusetts. Fundado em 1636, o Harvard College é a escola original da Harvard University, a mais antiga instituição de ensino superior dos Estados Unidos e uma das mais prestigiadas do mundo.
            Na organização de Harvard estavam à frente graduados, a maioria vinda do Emmanuel College da Universidade de Cambridge, fundada sob os auspícios dos puritanos. Harvard se constituiu como espelho da instituição britânica com seu currículo, destinado a formar o futuro clérigo. Para a sua direção à Corte Geral de Massachussets nomeou uma comissão da própria Corte, que ganhou autonomia ao tornar-se, em 1642, o seu Board of OverseersA segunda instituição de educação superior nos Estados Unidos foi o College of William and Mary. Inaugurado em 1693, na Virgínia, por James Blair, um clérigo escocês anglicano. Esta foi a primeira instituição de ensino, em terras norte-americanas, a ser criada sob a chancela da coroa britânica. O terceiro College teve a sua história ligada à criação da colônia de New Haven, ao Sul de Massachussetts, e incorporada à colônia de Connecticut, cuja Assembleia autorizou, em 1701, a criação de um Collegiate School, em Saybrook, sob o controle dos puritanos. Em 1716 a instituição foi transferida para New Haven, tornando-se o New Haven College, o qual, em seguida, teria o seu nome mudado para Yale College. Foi de Yale que saiu Jonathan Dickinson, fundador e primeiro diretor do College of New Jersey. Criado, em 1746 o College foi transferido para Newark até 1756, e transferido para Princeton, nome que, mais tarde, o identificaria. 
            O quinto, o College of Philadelphia, atual University of Pennsylvania, teve as suas origens nas intenções de cidadãos daquela localidade de criar uma escola pública de caridade para crianças pobres. Mais tarde a instituição foi transformada na Publick Academy in the City of Philadelphia e, finalmente, em 1755, no College and Academy of Philadelphia. A despeito da atual Columbia University proclamar-se a quinta mais antiga instituição norte-americana de educação superior, os estudiosos apontam o King`s College, fundado em 1754 e que lhe deu origem, como o sexto College criado no período de transição colonial. Com isto, o College of Rhode Island, atual Brown University, o Rutgers College, fundado como Queen`s College, a Rutgers University, e o Dartmouth College seriam os últimos dos nove College criados nas antigas colônias britânicas que constituíram os Estados Unidos da América. Os College seguiram padrões britânicos, organizando-se como instituições voltadas para educação baseada no ensino religioso e das línguas clássicas, predominando os College residenciais com tutorado dos docentes, com contribuição moral tão importante quanto a intelectual.  

                          
            Foi em Nova York que Wright Mills publicou o núcleo de sua contribuição para as ciências sociais, uma trilogia sobre a sociedade norte-americana contemporânea, na qual analisava seus três estratos principais: os líderes sindicais, em New Men of Power (1948); as classes médias, em White Collar: The American Middle Classes (1951), seu primeiro sucesso para além dos muros acadêmicos; e a elite, em The Power Elite (1956). Estes dois últimos livros tiveram várias edições e foram publicados em mais de uma dezena de línguas. No ano acadêmico de 1956-57 Mills foi professor visitante na Universidade de Copenhague, financiado pela Fullbright. Não havia nenhum motivo especial para ir à Dinamarca, como explicou numa carta a Hans Gerth: - “Bem, porque eles pediram por mim; ninguém mais o fez. Segundo, eu gosto da ideia de ir a esse pequeno país”. Na Europa, completou boa parte do manuscrito The Sociological Imagination, que viria a ser publicado em 1959, livro no qual fazia uma análise crítica das “escolas” que dominavam o campo sociológico, principalmente as tradições cujos expoentes foram, Paul Lazarsfeld e Talcott Parsons (1902-79). Ficou famosa a “tradução abreviada” que Mills fez, no capítulo 2 (“Grande Teoria”), de extensos trechos retirados das 555 páginas de The Social System (1951) de Parsons, afirmando que o livro poderia ser reduzido, sem perda de conteúdo, a 150 páginas de “inglês direto”. Mesmo assim, continuava Mills, o resultado não seria muito impressionante.
            Nestes livros o autor critica as principais correntes da sociologia norte-americana, representadas pela chamada “Grande Teoria” (Talcott Parsons) e pelo “Empirismo Abstrato” (Paul Lazarsfeld); adverte que uma tentativa de destruição de Cuba por parte dos Estados Unidos da América  poderia desencadear condições e possibilidades da terceira guerra mundial; propõe-se a divulgar o marxismo em seu país, através de um alentado volume de quase 500 páginas; esmiúça, de maneira polêmica, a sociedade norte-americana, através do reconhecido ensaio: A Elite do Poder. De acordo com seu amigo Irving Louis Horowitz, autor de C. Wright Mills, an American Utopian, (1983), após a publicação desse texto, “as grandes instituições 'filantropóides' - com uma única e honrosa exceção - recusaram todos os seus pedidos de bolsas” para pesquisa. Mills esteve no Rio no final de outubro de 1959, convidado para participar do Seminário Internacional Resistências à Mudança: Fatores que Impedem ou Dificultam o Desenvolvimento, realizado no Museu Nacional e promovido pelo Centro Latino-Americano de Pesquisa em Ciências Sociais, dirigido pelo sociólogo Luiz Costa Pinto (1920-2002).  
Neste Seminário, Wright Mills apresentou o trabalho “Remarks on the Problem of Industrial Development”, que foi criticado pelos marxistas brasileiros Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Paschoal Leme, presentes ao evento. Durante sua estada no Rio de Janeiro, Mills escreveu uma carta a Tovarich, um colega russo imaginário (em russo, a palavra significa camarada) com o qual começara a se “corresponder” (sem ter nunca publicado esse material em vida) entre 1956 e 1957, em sua primeira longa temporada na Europa. A carta, intitulada: “What does it mean to be an intellectual?”, foi publicada postumamente e encontra-se traduzida pela primeira vez para o português. Em dezembro de 1960, às vésperas de participar de um debate em cadeia nacional de televisão com Adolf A. Berle Jr. embaixador no Brasil entre 1945 e 1946 sobre a política externa norte-americana para a América Latina, C. Wright Mills sofreu um sério infarto do miocárdio. Sobreviveu, mas fagilmente por apenas mais 15 meses. Em 20 de março de 1962, morreu em sua casa, de outro ataque cardíaco, aos 45 anos de idade.
            Charles Wright Mills foi um sociólogo norte-americano obtendo o mestrado em Arte, Filosofia e Sociologia pela Universidade do Texas, e doutorado em Sociologia e Antropologia pela Universidade de Wisconsin. Foi professor de Sociologia das Universidades de Maryland e Columbia. Tornou-se reconhecido principalmente por seu livro: A Imaginação Sociológica, publicado originalmente nos Estados Unidos da América em 1959. Nele o autor faz um apelo para que sociólogos não deixem a imaginação e a criatividade de lado, ao exercerem sua profissão, em favor de uma pretensa objetividade e neutralidade do trabalho científico. As grandes obras e os intelectuais na história social em geral não abriram mão de sua reflexividade e criatividade, além de uma postura crítica diante da realidade e da teoria a respeito do individualismo partindo da premissa do utilitarismo em contraposição ao egoísmo utilitário de Herbert Spencer e dos economistas. Uma das críticas comum à sociologia era ser mais acessível à compreensão do grande público no âmbito de massificação da sociedade de classes.

         Depois de formado, Wright Mills foi nomeado professor de Sociologia na Universidade de Maryland. Quatro anos depois trabalhou como professor pesquisador na Columbia University`s Bureau of Appled Social Research. Em seguida assumiu o cargo de professor no Departamento de Sociologia, onde permaneceu lecionando até sua morte. O escopo de suas pesquisas refere-se à desigualdade social, ao poder das elites, o declínio da classe média, e na relação melindrosa entre os indivíduos e a sociedade, como também na importância de uma perspectiva histórica, como parte fundamental do pensamento sociológico. Ipso facto, a mais influente obra de Wright Mills foi de fato A Imaginação Sociológica (1959), onde apresenta os três componentes que formam o arcabouço da imaginação sociológica: a história, a biografia e a estrutura social, que permitem um olhar para além de seu ambiente local, no sentido de fornecer informações e desenvolver razões, a fim de se perceber com lucidez o que está acontecendo no mundo ao seu redor e como está refletindo dentro de si mesmo.
A obra que procura conscientizar, não só os sociólogos, mas a todos os envolvidos, das ligações existentes entre o ambiente social pessoal imediato e o mundo social impessoal que está a sua volta e que colabora para moldar a reflexão das pessoas. Outras publicações importantes do bravo pensador são: A Elite do Poder (1956), a profecia, As Causas da Terceira Guerra Mundial (1958), A Revolução em Cuba (1960) e Os Marxistas (1962). Mills foi leitor atento da obra de Max Weber, tendo editado nos EUA uma compilação de textos deste último, juntamente com Hans H. Gerth, obra que ficou intitulada, From Max Weber: Essays in Sociology, traduzida para o português como Ensaios de Sociologia, em 1974, pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Mills e Gerth apresentam uma importante reflexão sobre a obra de Max Weber articulada a um escorço biográfico deste autor e um autêntico Apêndice: Do Artesanato Intelectual, onde apresenta uma etnologia propriamente dita da pesquisa científica. Para Mills, a racionalidade do mundo ocidental não produziu a indispensável libertação do ser humano, já que as principais ideologias desenvolvidas - capitalismo e socialismo - não se mostraram aptas a prever e controlar intensos processos de mudanças sociais. Esta crítica faz parte da tese de que o intelectual deveria manter postura crítica e reflexiva na realidade, e tomar parte nos debates públicos de seu tempo.
Apesar do seu desaparecimento precoce Charles Wright Mills (1916-1962) teve tempo para desafiar ideias e preconceitos sociais, e para se afirmar como uma figura inovadora e inevitável da sociologia. Abalou grandes nomes das ciências sociais com críticas analíticas severas a tradições teóricas importantes. Num dos seus livros de maior destaque, A Imaginação Sociológica (1959), criticou a tendência para manipular a evidência histórica e assim produzir um “colete de forças trans-histórico”, onde identificou outro entrave ao progresso das ciências humanas naquilo a que chamou “grã teoria”, ou seja, obcecado na crença de que o objetivo das ciências sociais é o de construir “uma teoria sistemática da natureza do homem e da sociedade”. A “grã-teoria” está tão preocupada em fazer revelações abstratas da sociedade que evita lidar com os grandes problemas sociais.  Inicialmente, o termo foi usado com uma conotação irônica para referir-se a várias teorias sobre formas generalizadas da sociedade.
A sua postura crítica e independente dos grandes centros de poder ficou clara também noutra das suas mais importantes obras, A Elite do Poder (1956), onde desenvolve uma explicação da estrutura de poder da sociedade norte-americana do pós-guerra e afirma que as três esferas institucionais mais importantes nesta sociedade são as esferas política, industrial e militar, cada vez mais interdependentes. Conclui Mills que os EUA são dominados por uma única elite poderosa composta pelos dirigentes destas três esferas institucionais. Wright Mills é um dos mais importantes teóricos da escola conflitual e um grande crítico tanto do ponto de vista consensual como do ponto de vista funcionalista, ambos dominantes na sociedade norte-americana do seu tempo. Compreende na obra que as decisões políticas determinam as atividades econômicas e os programas militares. Tem-se uma economia política articulada de diversas maneiras às instituições e decisões militares. Os líderes desses domínios do poder formam a elite do poder da América. Wright Mills acrescenta que essa estrutura social sofreu, historicamente, pequenas alterações na preponderância dos três setores-chave e discrimina essa dinâmica em cinco fases.
Na primeira, explica que coincidiam a vida social, as instituições econômicas, a organização militar e a ordem política formando uma “elite multifacetada”, sem nenhuma polarização entre os meios de poder. A segunda, durante o século XIX, caracteriza como de ascendência social da ordem econômica, a qual na terceira fase consolida a sua supremacia tendo como dependentes as ordens militar e política, com a subordinação do Estado aos grandes interesses monetários. O quarto período se dá no contexto social da chamda Grande Depressão de 1929, onde o estabelecimento do Estado do bem-estar social propiciou o fortalecimento do poder político num cenário economicamente em crise. A quinta e atual fase é caracterizada como de ascensão militar, em função das questões relacionadas à defesa e às relações de âmbito internacionais. Apesar dessas proposições, é salientada a ideia da inter-relação entre os poderes e, por fim, a critica à visão marxista hegemônica de classe dominante, pois, segundo Mills, esse termo carrega apenas o significado econômico (classe) e político (dominante), esvaziando o terceiro e muito importante vértice do triângulo referido da elite: o poder militar
O dia 24 de outubro de 1929 é considerado popularmente o marco inicial da Grande Depressão, mas a produção industrial norte-americana já havia começado a cair a partir de julho do mesmo ano, causando um período de leve recessão econômica que se estendeu até 24 de outubro, quando valores de ações na bolsa de valores de Nova Iorque, a New York Stock Exchange, caíram drasticamente, e tornou-se notícia no ocidental mundo com o crash da bolsa de valores. Assim, milhares de acionistas perderam, literalmente da noite para o dia, grandes somas em dinheiro. Muitos perderam tudo o que tinham. Essa quebra na bolsa de valores piorou drasticamente os efeitos da recessão já existente, causando grande deflação e queda nas taxas de venda de produtos, que por sua vez obrigaram ao encerramento de inúmeras empresas comerciais e industriais, elevando assim drasticamente as taxas de desemprego. O colapso continuou no dia 28 e no dia 29 de outubro. Os efeitos da Depressão foram sentidos no mundo inteiro, bem como sua intensidade, variaram de país a país. Outros países, além dos Estados Unidos, que foram duramente atingidos pela queda da economia na Depressão foram a Alemanha, Países Baixos, Austrália, França, Itália, o Reino Unido e o Canadá. Em países pouco industrializados, ou em vias de desenvolvimento, como a Argentina e o Brasil, que não conseguiu vender o café que tinha para outros países, a Grande Depressão segundo alguns economistas acelerou o processo de industrialização.
Praticamente não houve nenhum abalo na União Soviética, que, tratando-se de uma economia socialista, estava econômica e politicamente fechada para novas tecnologias. Entre 1929 e 1932, o PIB mundial caiu em cerca de 15%. Em comparação, o PIB mundial caiu em menos de 1% entre 2008 e 2009 durante a Grande Recessão. Os efeitos negativos da Grande Depressão atingiram seu ápice nos Estados Unidos em 1933. Neste ano, o Presidente americano Franklin Delano Roosevelt aprovou uma série de medidas reconhecidas como New Deal. Essas políticas econômicas, adotadas quase simultaneamente por Roosevelt nos Estados Unidos e por Hjalmar Schacht na Alemanha foram racionalizadas pelo Keynesianismo enquanto obra clássica. Alguns estudiosos alegam que o New Deal, juntamente com programas de ajuda social realizados por todos os estados americanos, ajudou a minimizar os efeitos da Depressão a partir de 1933, enquanto outros pesquisadores discordam dessa visão. A maioria dos países atingidos pela Grande Depressão passaram a recuperar-se economicamente a partir de então. Em alguns países, a Grande Depressão foi um dos fatores primários que ajudaram a ascensão de regimes ditatoriais, como os nazistas na Alemanha. O início da 2ª guerra mundial (1939-1945) terminou com os efeitos remanescentes da Grande Depressão nos principais países atingidos, muito embora vários economistas neoclássicos discordem disso. 
À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos norte-americanos, Mills buscava escrever mais e mais para o grande público. Além de artigos em revistas como: New Leader, Politics, New York Times Magazine e Dissent, escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a antropóloga Margaret Mead. Em The Causes of World War Three (1958), Mills tratou da corrida nuclear; em Listen, Yankee: The Revolution in Cuba (1960), da fase inicial da revolução cubana, livro escrito em seis semanas após uma visita que Mills fizera a Cuba em agosto de 1960, foi um enorme sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, colocou o FBI à sua espreita. O livro baseou-se em extensas entrevistas gravadas com Fidel Castro, Che Guevara e outros líderes da revolução social, além de jornalistas, militares e intelectuais. Fidel Castro teria então contado a Mills que lera The Power Elite durante a guerrilha.  Mills acreditara que os revolucionários cubanos pudessem seguir por uma via socialista independentes.   Durante sua estada na Europa, completou boa parte de The Sociological Imagination, apresentando em 1957 as versões do livro num Seminário em Copenhague.
Neste ano, Mills mencionou, numa carta a um amigo, que os manuscritos incluíam “uma [versão] completamente reescrita e, acredito de primeira linha, de um ensaio inédito Sobre o Artesanato Intelectual” (“On Intellectual Craftsmanship”). A primeira versão do texto foi escrita em abril de 1952, segundo anotação de Mills no manuscrito, e distribuída para uso em sala de aula em 1955. O texto completo foi publicado em Society, vol.17, n° 2, janeiro 1980, pp.63-70. O texto acabou sendo publicado como apêndice de The Sociological Imagination e tornou-se a parte mais universalmente conhecida e elogiada do livro. Metodologicamente é em torno da ideia de “artesanato intelectual” que a coletânea de textos de C. Wright Mills foi organizada. Além do famoso Apêndice, foram reunidos quatro outros textos curtos, representando  um meio de trabalho que nos ajudam a melhor a compreesão sociológica dessa ideia: um trecho de White Collar que explica o tipo ideal weberiano do artesanato, algo que tornou-se um anacronismo na experiência moderna do trabalho descrito no capítulo 2; uma palestra, inédita em português, realizada por Mills numa convenção para designers, na qual defende o teor abstrato do modelo artesanal como um valor central para seres humanos não alienados, disposto no capítulo 3; a seção inicial de A imaginação Sociológica, na qual apresenta aquilo que a imaginação sociológica pode nos oferecer, ao esclarecer a inter-relação entre biografia e história no capítulo 4; e, per se um texto sobre a posição do intelectual e de seu ofício diante das questões públicas no capítulo 5.
C. Wright Mills faz, em “Sobre o artesanato intelectual”, um relato pessoal, dirigido aos que se iniciam nas Ciências Sociais, de como procede em seu ofício. A imagem de um “ofício” – e sua associação com as idéias de “artesanato” e “oficina” – se contrapõe à visão do trabalho do cientista social como alguém que testa hipóteses construídas a partir de leis gerais e aplicadas através de métodos controláveis. No trabalho do cientista social não haveria fórmulas, leis, receitas, e sim méthodos, no sentido original grego da palavra: via, caminho, rota para se chegar a um fim. O “artesão intelectual” de que trata Mills deve ser visto como um “tipo ideal”, no sentido weberiano do termo – algo que não é encontrado em forma “pura” na realidade social, mas que, construído pelo pesquisador a partir do exagero de algumas propriedades de determinado fenômeno, nos ajuda a compreendê-lo. Nesse sentido, ver o trabalho de pesquisa como um ofício ressalta a importância da dimensão existencial na formação do pesquisador. Isso não quer dizer que se devam explicar os resultados do trabalho a partir da biografia, como ocorre em tolas reuniões científicas; não estamos falando de fenômenos psicanalíticos ou coisas do gênero. Trata-se, como Mills tende a enfatizar a indissociabilidade, para o “artesão intelectual”, entre sua vida e seu trabalho - ideia próxima à que um autor brilhante como Georg Simmel chamaria de “autocultivo” através da prática de seu ofício.
   Enquanto um bricoleur, o artesão intelectual está atento para combinações não-previstas de elementos, evitando normas de procedimento rígidas que levem a um “fetichismo do método e da técnica”: - Estimule a reabilitação do artesão intelectual despretensioso, e tente se tornar você mesmo tal artesão. Deixe que cada homem seja seu próprio metodologista; deixe que cada homem seja seu próprio teorizador; deixe que teoria e método se tornem parte da prática de um ofício. A manutenção de um arquivo como o proposto por Mills - tarefa que ele realizava com lápis e papel, mas que hoje pode igualmente ser realizada com um computador – gera o hábito da auto-reflexão sistemática, através da qual o cientista social aprende como manter seu mundo interior desperto, relacionando aquilo que está fazendo intelectualmente e o que está experimentando como pessoa. Como disse Gláucio Soares (1991), “arquivos deste tipo são, essencialmente, uma conversa íntima e solitária”. Wright Mills procura seguir sua própria exortação de que a apresentação do trabalho do sociólogo deve ser realizada em linguagem a mais clara e simples possível, evitando ao máximo o jargão e o hermetismo – “para superar a prosa acadêmica, temos de superar primeiro a pose acadêmica”.
No Apêndice: Sobre o Artesanato Intelectual, dá vários exemplos concretos a seus leitores daquilo que defende, a partir de sua própria prática, em particular com a pesquisa que levou à redação de A elite do poder. Como um mestre-artesão que procura passar aos aprendizes de seu ofício aquilo que aprendeu ao longo de seu caminho. O conhecimento é uma escolha tanto de um modo de vida quanto de uma carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual forma-se a si próprio à medida que trabalha para o aperfeiçoamento de seu ofício artesanal; para realizar suas próprias potencialidades, e quaisquer oportunidades que surjam em seu caminho ele constrói um caráter que tem como núcleo as qualidades do bom trabalhador. Isto significa que deve aprender a usar sua experiência de vida pari passu em seu trabalho intelectual: examiná-la e interpretá-la continuamente. Neste sentido, o artesanato é o centro de você mesmo, e você está pessoalmente envolvido em cada produto intelectual em que possa trabalhar. Dizer que você pode “ter experiência” significa que seu passado influencia e afeta seu presente, e que ele define sua capacidade de experiência futura. Como sociólogo, é preciso controlar a ação orientada, recíproca e complexa, apreender o que pratica e classificá-lo. Somente dessa maneira pode esperar usá-lo para guiar e testar sua reflexão e moldar a si mesmo como um artesão intelectual. Mas como fazê-lo? Deve organizar um arquivo temático, o que é subentendido na maneira do sociólogo dizer: mantenha um diário. Muitos escritores notáveis e evidentemente criativos mantêm seus diários. É  um processo disciplinar, indicando as condições teóricas e práticas, além das possibilidades formadas pela necessidade de reflexão crítica, sistemática e global em que o sociólogo vive seu próprio drama social.
Bibliografia geral consultada.
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