“O talento
revela-se exatamente porque esconde a sua perfeição”. William Shakespeare
Quando alguma pessoa apresenta uma
desenvoltura perfeita ao desempenhar determinada atividade, dizem que ela tem
um “dom” ou “talento” para aquilo. Apesar de ser empregado de formas
semelhantes, o significado da palavra “dom” é diferente da definição de “talento”
e, portanto, representam características distintas. Dom vem do latim “donus”,
que significa dádiva, presente. Nessa perspectiva, trata-se de uma capacidade
inata para desempenhar com destreza e maestria determinada tarefa, até mesmo em
aspectos que elas parecem mais complexas para a maioria de um conjunto determinado
de pessoas. Podemos citar, como exemplo, uma criança que demonstra desde cedo
uma “afinidade eletiva” muito grande para tocar determinado instrumento. Quando
falamos em facilidade em executar ou aprender determinada atividade, vale
lembrarmos que o significado da palavra “dom” não tem como sinônimo apenas a
representação do critério da genialidade. Já que essa condição social ocorre
somente com alguns indivíduos determinados e devido a questões psíquico-físicas. E
que estão sendo desvendadas através das investigações pluridisciplinares pela
ciência. entendida como uma associação livre de disciplinas que concorrem para uma realização. Mas que cada disciplina não tenha que modificar a visão das coisas e os seus próprios métodos.
É através da língua dos sinais
que a família Bélier se comunica, saudável e positivamente como se demonstra no
filme, La Famille Bélier, comédia
dramática francesa realizada pelo cineasta Éric Lartigau. O filme foi lançado
nos cinemas franceses a 17 de dezembro de 2014. Na família Bélier, Paula, a filha
de 16 anos, é a intérprete indispensável para muitas das tarefas diárias de
seus pais e irmãos, todos eles agricultores surdos, menos ela, que fala por
telefone, lida com o banco ou facilita-lhes a compreensão no consultório médico,
e, sobretudo relacionado à manutenção da granja. Paula representa a tradutora
da sua família. Um dia, um professor de música descobre seu talento pelo canto
e anima Paula para que participe de um prestigioso concurso musical em Paris, o
que lhe daria acesso a uma boa carreira e aos estudos universitários. No
entanto, esta decisão significa aparentemente deixar para trás sua família,
desnorteada e inquieta pela iniciativa escolar e para quem o conceito da música
resulta alheio, Paula começa a dar primeiros passos como adulta, ainda que
enfrente a incompreensão dos pais, as dúvidas sobre a sua vocação musical, o
abandono das responsabilidades com a família e a incerteza sobre a crescente
atração por um rapaz de sua idade. Enquanto isso, seu pai, Rodolphe Bélier,
insatisfeito com as ações políticas programadas do prefeito da cidade, decide concorrer às
eleições municipais, apesar de ser portador de deficiência no processo social de comunicação visual.
Uma
língua de sinais é uma língua que procede no âmbito da comunicação visual, que
surge nas comunidades de pessoas surdas ou se deriva de outras línguas de
sinais. Assim como as línguas orais-auditivas, uma língua de sinais é
considerada pela linguística como língua natural, pois atende a todos os
critérios linguísticos como qualquer língua. Por seu canal comunicativo ser
diferente das línguas orais-auditivas, as línguas de sinais são denominadas
como línguas de modalidade visuoespacial. Os sinais, ou seja, as palavras, são
articulados essencialmente pelas mãos e percebidos através da visão. Na
língua de sinais, os sinais não são gestos. Os sinais são símbolos arbitrários,
legitimados e convencionados pelos falantes de uma língua de sinais, assim como
as palavras são em uma língua oral. Por meio de uma língua de sinais, o surdo
ou pessoa com deficiência auditiva têm acesso à informação e à comunicação. Existem línguas de sinais e países com línguas de sinais têm recebido o status
de língua oficial. Durante muitos anos, o oralismo, técnica defendida por Alexandre Graham Bell, foi a única forma aceitável de/para comunicação com as pessoas surdas. O famoso Congresso de Milão, de 1880, teve um impacto negativo sobre as línguas de sinais no mundo.
Nesse congresso, os presentes, influenciados pelas ideias de Graham
Bell, decidiram pela proibição da língua de sinais como método de educação de
surdos. Assim, a língua falada oralmente foi imposta às pessoas surdas, e
decretou-se, sem fundamentação científica alguma, que o oralismo deveria
constituir a única forma de ensino. Diante disso, as línguas de sinais por mais
de 100 anos foram violentamente proibidas e banidas dos típicos espaços escolares. Mesmo
com a imposição do Congresso de Milão, as línguas de sinais resistiram. Muitos linguistas se dedicaram a estudar diferentes línguas de
sinais. O pioneiro foi o linguista norte-americano William Stokoe (1919-2000), intitulado como o “pai
da linguística das línguas sinalizadas”, concluiu que as línguas de sinais
apresentam aspectos linguísticos de uma língua genuína, no léxico, na sintaxe
e na sua capacidade de gerar infinitas sentenças e que deveriam ser pesquisadas
e estudadas pela linguística. Ao contrário do que acreditam, a língua de
sinais não é universal.
Assim
como as línguas orais, a variação linguística está presente também nas línguas
de sinais. É grande a variedade de línguas de sinais ao redor do mundo, onde há
mais de 140 línguas de sinais. São línguas completas, outras complexas, mas com
a sua própria gramática e léxico. Cada país tem a sua, ou até mais de uma,
língua de sinais. Tomando como exemplo alguns países lusófonos, vemos que
utilizam diferentes línguas de sinais: no Brasil existe a Língua Brasileira
de Sinais (LIBRAS) e a Língua de Sinais Kaapor Brasileira, em Portugal
existe a Língua Gestual Portuguesa (LGP), em Angola existe a Língua
Angolana de Sinais (LAS), em Moçambique existe a Língua de Sinais Moçambicana
(LMS). Assim como acontece nas línguas faladas oralmente, existem variações
linguísticas dentro da própria língua de sinais, isto é, regionalismos e/ou
sotaques. Essas variações se devem a ligeiras diferenças culturais e
influências diversas no sistema de ensino do país, por exemplo. Há também
outros fatores sociais e culturais que favorecem à diversidade e à mudança linguística,
como, por exemplo, a extensão e a descontinuidade territorial e os contatos com
outras línguas.
Além disso, deve-se levar em conta que diferenças culturais são
fatores naturais, históricos e sociais de condicionamento nos modos de representação e sobretudo, de interpretação do mundo. Assim, os
surdos sentem as mesmas dificuldades que os ouvintes quando necessitam
comunicar com outros que utilizam uma língua diferente. Há
também uma língua de sinais, análoga ao Esperanto, reconhecida como Gestuno,
também reconhecido como língua de sinais internacional, é uma língua artificial
e é utilizada em convenções e competições internacionais, visando estabelecer
uma comunicação internacional. Não se sabe historicamente quando as línguas de
sinais se iniciaram. Mas, sua origem remonta possivelmente à mesma época ou a
épocas anteriores àquelas em que foram sendo desenvolvidas as línguas orais.
Uma pista interessante para esta possibilidade das línguas de sinais terem se
desenvolvido primeiro que as línguas orais é o fato social concreto que o bebê
humano desenvolve a coordenação motora dos membros antes de se tornar capaz de
coordenar o aparelho fonoarticulatório. As línguas de sinais são criações
espontâneas do ser humano e se aprimoram exatamente da mesma forma que as
línguas orais. Nenhuma língua é superior ou inferior a outra, cada língua se
desenvolve e expande na medida da necessidade ou utilidade de uso de seus
usuários.
O
Esperanto é a representação social da língua planejada mais falada no mundo. Ao
contrário da maioria das outras línguas planejadas, o esperanto já saiu dos
níveis de projeto de publicação de instruções e semilíngua de uso em algumas
poucas esferas da vida social. Seu iniciador, o médico judeu Ludwik Lejzer
Zamenhof (1859-1917), publicou a versão inicial do idioma em 1887. Seu objetivo teve como intenção criar
uma língua de mais fácil acesso e aprendizagem. E que servisse como língua
franca internacional para toda a população mundial e não, apenas como erroneamente se supõem, para substituir todas as línguas existentes historicamente. O Esperanto é
empregado com utilidade de uso comunicativo em viagens, correspondência, intercâmbio cultural, convenções,
literatura, ensino de línguas, televisão e transmissões de rádio. Alguns
sistemas estatais de educação oferecem cursos opcionais de esperanto, e há
evidências de que auxilia na aprendizagem dos demais idiomas. Apesar da facilidade gramatical, o Esperanto
enfrenta dificuldade de ser adotado como língua auxiliar universal. É formado pela junção do radical esper (com
origem no latim sperare, “esperar”), da desinência ant (própria
do particípio presente) e da desinência o (dos substantivos). Significa,
portanto, “aquele que espera”, “aquele que tem esperança”. Ludwik Lejzer
Zamenhof vivia em Białystok (Polônia), na época Império Russo. Em Białystok,
moravam muitos povos e falavam-se muitas línguas, o que dificultava a
compreensão e comunicação, mesmo nas mais cotidianas situações, o que o motivou a criar uma
língua auxiliar neutra, a fim de solucionar o problema. Durante a adolescência,
criou a primeira versão de Esperanto, chamada lingwe universala, uma
espécie de “esperanto arcaico”.
O seu pai, conseguiu fazê-lo prometer trabalhar no seu idioma para se dedicar aos estudos. Zamenhof então foi para
Moscou estudar Medicina. Em
uma de suas visitas à terra natal, descobriu que seu pai queimara todos os
manuscritos do seu idioma. Zamenhof pôs-se então a reescrever tudo, adicionando
melhorias e fazendo a língua evoluir. O primeiro livro sobre o esperanto foi
lançado em 26 de julho de 1887, em russo, contendo as 16 regras gramaticais, a
pronúncia, alguns exercícios e um pequeno vocabulário. Logo depois, mais
edições do Unua Libro foram lançadas em alemão, polaco e francês. O
número de falantes cresceu rapidamente nas primeiras décadas, primordialmente
no Império Russo e na Europa Oriental, depois na Europa Ocidental, nas
Américas, na China e no Japão. Muitos desses primeiros falantes vinham de outro
idioma planificado: volapük. As primeiras revistas e obras originais em
esperanto começaram a ser publicadas. Em 1905, aconteceu o pioneiro Congresso
Universal de Esperanto, em Bolonha-sobre-o-Mar, na França, juntando quase mil
pessoas, de diversas nacionalidade e povos. Em 1906, foi fundado, no Brasil, o
primeiro grupo esperantista: o Suda Stelaro, em Campinas.Colabora em desfazer as crenças presentes em nossa sociedade,
de que “os surdos possuem prejuízos intelectuais, ou são pessoas infantis”.
Obviamente os surdos ainda sofrem discriminação e consequente isolamento
social, este último amenizado, no filme, pelo fato social de serem três surdos
na composição familiar e também por Paula ser a interprete em suas interações
com os não surdos. Vale esclarecer que a expressão surda-muda é equivocada
porque advém de uma crença comum que os surdos são também mudos e da negação
dialética da alteridade pelo fato de não ouvirem. A audição é importante no
aprendizado da fala, mas os mudos não o fazem porque possuem prejuízo crônico no
aparelho fonador, o que não acontece com os surdos, que podem aprender a falar,
embora seja difícil e necessite bastante investimento. Além disso, os surdos
não detém a linguagem oral, mas possuem a possibilidade da língua dos sinais
que não deixa de ser uma forma de linguagem. Família
nuclear é termo usado para definir um grupo familiar composto por um par de
adultos que devido a relações sexuais ocorridas e correntes entre o par que se
uniu por relações, as mais diversas possíveis, tais como: físico, psíquico,
emocional, espiritual, social, político, dentre outras, se houver, é que
permitiu o surgimento dos parentes de primeiro grau e seus filhos. As
estruturas familiares de um casal e seus filhos estiveram presentes na Europa
Ocidental e na Nova Inglaterra, no século XVII, influenciada pela igreja e por
governos teocráticos.
O surgimento e desenvolvimento da industrialização e o
capitalismo, a família nuclear tornou-se uma unidade social financeiramente
viável. O termo família nuclear apareceu pela primeira vez no início do curto século
XX. Definições de sentido histórico sociológico, tornarma-se alternativas que evoluíram para incluir
unidades familiares chefiadas por pais do mesmo sexo, com o distanciamento da
influência da igreja e familiares adultos talvez adicionais que assumem um papel
de coabitação parental; neste último caso, também recebe o nome de família
conjugal. A rigor, uma família nuclear ou conjugal consiste meramente de pais e
filhos, ainda que muitas vezes inclui, em função de certas condições sociais um
ou dois outros parentes, bem como, um pai ou mãe viúva ou irmão solteiro de um
ou outro cônjuge.
A
tese deste libelo francês é original: uma garota tímida descobre talento para o canto, o que gera problemas sociais e familiares caso queira
seguir esta carreira. Escolher o caminho da música representaria cortar o
cordão umbilical, algo doloroso para todos os envolvidos. A maior diferença
etnográfica, neste caso, está na família de Paula: seu pai, sua mãe e o irmão
são surdos-mudos. Por ser a única capaz de escutar, Paula trabalha como
intérprete nas negociações comerciais da fazenda familiar, e se encarrega de
traduzir a linguagem de sinais para os amigos e vizinhos. O talento vocal da
filha ganha outro significado a partir do momento em que antiteticamente não
pode ser apreciado pelos pais. A música também funciona como válvula de escape
à vida de dependência nas relações familiares - não é à toa que a canção
principal deste drama musical, Je Vole, sugere um rito de passagem, da fuga
da adolescência para a passagem à fase adulta. Por este fator social, “A
Família Bélier” (2014) representa um aparecer social mais dinâmico do que os filmes
que retratam a música como passagem da categoria simples ao concreto que revela
um talento providencial. O talento tende a associar-se à habilidade inata e à criação, embora se possa desenvolver com a prática e treino. A habilidade inata é a
aptidão, competência, destreza ou faculdade adquirida e desenvolvida pela
consciência em retrovidas, ou melhor, em períodos de intermissão, manifestando-se
espontânea e naturalmente na ressoma intrafísica atual.
O filme é beneficiado pelo ponto de vista naturalista do diretor Eric Lartigau: a deficiência auditiva da família é vista sem piedade ou vitimização.O cineasta
deve ter aprendido com o sucesso de “Intocáveis” - onde a imobilidade física
pode ser abordada com humor - contanto que se mantenha o respeito e evite o
paternalismo. O ambiente bucólico também é tratado com puro realismo, sem
insinuações de monotonia ou atraso. Mesmo o ambiente escolar e as conversas
entre os adolescentes, repletas de gírias e falas rápidas, funcionam como bom
retrato das gerações. As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações
e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo dado problema.
O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz
surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção
ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, em um
mesmo âmbito social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma
adesão concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional.
Mas
a forma como grupos de uma mesma conexão geracional lidam com os fatos
históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais
no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto macrossociológico da
sociedade. As atuações exemplares chamam atenção. Para o papel dos pais, foram
escolhidos dois ícones do cinema francês e belga, respectivamente: Karin Viard
e François Damiens. Ambos transitam com facilidade entre a comédia e o drama,
individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) essencialmente
nesta história, e se equilibram de modo eficaz, já que o estilo contido de
Damiens completa a gesticulação exagerada de Viard. Hilários em cena, eles
também demonstram respeito no retrato de surdos-mudos. O elo talvez mais fraco
do elenco é a protagonista Louane Emera, candidata do programa The Voice na França, e que faz os seus
primeiros passos no cinema. Seu início como atriz é promissor, e ainda pode se
desenvolver muito, mas a falta de experiência dramática fica visível em cenas
importantes como o clímax na Radio France, uma sociedade de serviço público,
criada pelo Estado em 1° de janeiro de 1975 que gere as estações da rádio
pública metropolitana assim como várias formações musicais.
Na excêntrica família Bélier, todos os membros são surdos-mudos com exceção da jovem Paula, filha mais velha do casal Rodolphe e Gigi. Por conta ela acaba sendo a intérprete da família em quase todas as situações, sendo de extrema importância para a relação da família com o mundo exterior. Vivendo em uma fazenda, a principal rotina de todos é
cuidar dos animais e das plantações da propriedade, mas Paula ainda precisa
reservar um tempo para os estudos. Apesar de ser tímida e viver uma vida quase
reclusa, ela não deixa de ser como todas as outras adolescentes de sua idade:
tem uma melhor amiga inseparável, um namoro mal resolvido e o mais importante
de tudo, sonhos. Incentivada pelo seu professor Thomasson, Paula descobre um dom seu até então desconhecido: o de
cantar, e a começar a sonhar na carreira musical. E todas
de extrema qualidade, graças à classe de voz de Leouane Emera, reconhecida por
ter participado da edição francesa do programa de televisão The Voice. Sua singularidade é a valorização apenas da voz de um competidor, não julgando a sua aparência
ou desempenho de palco, como diferença similares um artista pronto e não moldá-lo. Apesar de ser muito parecido com a questão referente aoo dom em definição, o talento se distingue por conter justamente uma habilidade técnica que pode ser desenvolvida ou aperfeiçoada.
Trata-se de um gosto especial, uma aptidão, uma predisposição espontânea a
algo, que atinge sua plenitude por meio de muito treino, disciplina e
perseverança. Nesse sentido, ser muito bom em determinada atividade somente
depende de você. Mas além da paixão pelo que faz, é necessário que seja
comprometido, disciplinado com suas atividades e, principalmente, que esteja em
constante treinamento. Apesar do significado da palavra dom estar diretamente
relacionado a alguma característica social com a qual nascemos ele somente
poderá tornar-se visível mediante a prática. Nesse caso, seus sentimentos
(inconsciente), pensamentos (razão) e comportamentos devem bem conduzidos para
serem utilizados, talvez, de forma produtiva. Freud salientou a importante
relação entre o comportamento de um ser humano adulto e certos episódios de sua
infância, mas resolveu preencher o considerável hiato entre causa e efeito com
atividades ou estados do aparelho mental. Em relação aos costumes e comportamentos
sociais, ele contribuiu para antropologia tendo como referência o método
clínico que praticou e desenvolveu.
A
psicanálise interpreta as manifestações da psique, as tendências sexuais (ou
libido), e as fórmulas morais e limitações condicionantes do indivíduo. São
dois os fundamentos da teoria psicanalítica: 1) Os processos psíquicos são em
sua imensa maioria inconscientes, a consciência não é mais do que uma fração de
nossa vida psíquica total; 2) Os processos psíquicos inconscientes são
dominados por nossas tendências sexuais reprodutivas. Nesse sentido, o psicanalista Freud
pretendeu descrever e explicar a vida humana tanto do ponto de vista pessoal e
individual, mas também pública e social, de forma mítica recorrendo a essas tendências sexuais
a que chamou de libido. Com esse termo, o pai da psicanálise designou a
“energia sexual” de maneira mais geral e indeterminada. Assim, por exemplo, em
suas primeiras manifestações sociológicas, a libido liga-se as funções vitais,
se entendermos que no bebê que mama, o ato de sugar o seio materno provoca
outro prazer além daquele natural de obter alimento e esse prazer passa a ser buscado por si
mesmo.
Na
abordagem psicanalítica fundada por Sigmund Freud, o indivíduo se constitui
como um ente à parte do social e que compõe o nível de análise social. Freud
refere-se aos aspectos que compõem um estado instintivo humano e que acaba por
se tornar inibido em prol da convivência em comunidade. A inibição destes
aspectos, que são instintivos, consiste numa privação de características que
são inatas aos homens, e, esta própria privação, acaba por consistir em
determinados descontentamentos. Neste sentido, os homens em civilização ou
civilizados demonstram-se descontentes na busca de sua felicidade, pois seus
instintos não são prontamente atendidos em sociedade. No seu ensaio: “O
mal-estar da civilização”, Freud elabora uma discussão filosófico-social a
partir de sua teoria psicanalítica. O autor desenvolve a ideia pragmática
segundo a qual, em sociedade, “não há avanço sem perdas”. A ideia central que
desenvolve nesta obra é a de que a civilização é inimiga da satisfação dos
instintos humanos. A sociedade modifica a natureza humana individual, constitui
o homem como membro da comunidade, adaptando-o a um processo vital que torna o
indivíduo um ente social.
Segundo
Freud, o conteúdo do inconsciente é, muitas vezes, reprimido pelo Ego. Para “driblar”
a repressão, as ideias inconscientes “apelam” aos mecanismos definidos por
Freud n`AInterpretação dos Sonhos,
como deslocamento e condensação. Estes dois seriam relacionados, na linguística
por Romain Jacobson à metonímia e metáfora, respectivamente. Portanto, as
representações de ideias inconscientes manifestam-se nos sonhos como símbolos,
tanto metafóricos quanto metonímicos. Aplicando o conceito à fala, o
inconsciente consegue expelir ideias recalcadas através dos chistes ou atos
falhos. Antes, são mecanismos da fala que articulam ideias aparentes com ideias
reprimidas, são meios sociais pelos quais é possível exprimir os “instintos
primitivos”. Semelhante à análise dos sonhos, a análise da fala seria um
caminho psicanalítico para investigar os desejos ocultos do homem e as causas
das psicopatologias. – “É na palavra e pela palavra que o inconsciente encontra
sua articulação essencial”. Deste modo, Freud cria uma inter-relação entre os
campos da linguística e da psicanálise, que será retomada por estudiosos
posteriores, como ocorre precisamente nos Séminaire
de seu maior intérprete, Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), mas que não trataremos
agora.
Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do
“Estádio do Espelho”. O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com
fenômenos como amor e ódio. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma,
então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao
Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da
psicanálise. Esse registro é o do simbólico, é o campo da linguagem, do
significante. Claude Lévi-Strauss afirmava que “os símbolos são mais reais que
aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no
que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é
o “Grande Outro” que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – “o
inconsciente é o discurso do Outro”, “o desejo é o desejo do Outro”. O campo de
ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta,
através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim,
naqueles fenômenos que Lacan nomeia como “formações do inconsciente”. A isto se
refere decisivamente o lacanianismo “o inconsciente é estruturado como uma
linguagem”.
Ipso facto, não há estatuto lacaniano de psicanálise.
E até fica evidente que o próprio Lacan está às voltas com um problema. E que
ele evolui, tenta soluções, o que leva seus alunos a periodizar seu ensino, e a
admitir, conduzidos por uma leitura atenta, que ele talvez tenha dito, senão
tudo e o contrário de tudo, pelo menos, que tenha tomado às avessas suas teses
aparentemente mais garantidas. Desse estudo rigoroso do ensino de Lacan, nasce
a pergunta: “que é ser lacaniano?” e essa pergunta de identificação, e de
papéis, passa a ser: “qual é o problema lacaniano na psicanálise?”. Ser
lacaniano torna-se uma questão de exercício pleno, uma questão nova quando a
resposta “ser lacaniano é ser freudiano” já não satisfaz. No entanto, essa
resposta é um convite de Lacan. Mas isso só podia ser dito, em relação a essa
variedade de freudismo, o anafreudismo, que se impôs nos últimos anos da
existência de Freud, dominando a psicanálise durante vários decênios, sendo
considerada uma interpretação sociológica do freudismo, canônica, dogmática, de
certos elementos da doutrina de Freud. Considerando este anafreudismo, era
então possível responder “ser lacaniano nada mais é do que ser freudiano”.
Nas
trocas de presentes se misturam os sentimentos e as pessoas. Misturam-se as
almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. As regras de generosidade
descritas por Mauss são bem definidas pelo valor e a interdição freudiana que
se liga ao fato de que o tabu ainda subsiste entre nós, como Freud considerou
no prefácio da primeira edição de “Totem e Tabu”, em 1913. As considerações
sobre o kula, enquanto grande potlatch
leva os estudos etnológicos de Malinowski ao tema da dádiva na medida em que
significa um comércio cujas particularidades são típicas dos povos das ilhas
Trobriand. A interdição como dever recíproco estabelecido entre devedores e
credores, orienta o movimento cíclico e regular das transações. O penhor dado
condiciona-se ao zelo e a transferência, essa transmissão para um terceiro em
outro kula configura a circulação dos signos de riqueza e traduzem o orgulho do
possuidor que, por sua vez, não pode guarda-los por muito tempo. - “O kula, sua
forma essencial, não é senão um momento, o mais solene, de um vasto sistema de
prestações e de contraprestações que, em verdade, parece englobar a totalidade
da vida econômica e civil das Trobriand”. Os
exemplos analisados por Mauss no Ensaio sobre a Dádiva (2003) não
representam casos isolados dessa instituição nas tribos da África, Melanésia,
Polinésia, América do Sul e do Norte.
Em nossas práticas cotidianas e costumes
não é raro o aparecimento de rivalidades e distintas formas de conflitos que
caracterizam a troca de presentes. As manifestações são múltiplas, no entanto,
carregam o mesmo cerne encontrado naquelas sociedades. Mauss destaca no caso
polinésio o aspecto religioso e moral por trás do dever de retribuir o presente
recebido, nele o que pode ser compensado ou trocado equivalem aos tesouros,
talismãs, objetos sagrados, inclusive tradições e rituais mágicos. Os elementos
essenciais do potlatch giram em torno dos seguintes critérios: “(...) honra, do
prestígio, do mana que a riqueza confere, e o da obrigação absoluta de
retribuir as dádivas sob pena de perder esse mana, essa autoridade, esse
talismã e essa fonte de riqueza que é a própria autoridade”. Os aspectos históricos do que hoje entendemos como direito das obrigações são também abordados nesse livro, inclusive quanto ao aspecto diacrônico da origem da distinção, nas sociedades semíticas, grega e romana, entre a obrigação e a prestação não gratuita, de um lado, e a dádiva, do outro. Aquisições recentes da civilização, de acordo com ele, com possível origem em fase anterior, sem a mentalidade fria e calculista de dádivas trocadas, em que se fundem pessoas e coisas tal como pode ser deduzido em vestígios do direito romano, ou nas leis da Germânia, ou Código de Manu da cultural da Índia antiga.
O peso marcante da propriedade em nossos dias aproxima-se daquilo que para o
direito maori anima espiritualmente a
coisa colocada em circulação, que tende naturalmente ao retorno para o seu
local de origem. A questão da recusa da obrigação de dar e receber, por sua
vez, equivale a declaração de guerra, pois o vínculo estabelecido é
eminentemente espiritual na concepção nativa. Outro aspecto interessante
relatado etnograficamente por Mauss diz respeito a noção de economia e moral
por trás do presente trocado com os deuses. Não é totalmente desconhecido,
tendo em vista que as práticas religiosas ligadas ao cristianismo, de modo
ilustrativo, são guiadas pela troca de favores e presentes em agradecimento às
benesses vindas do céu, seja por intermédio da Trindade divina, dos santos ou
demais entidades celestes. Sobre o “sacrifício-contrato” Marcel Mauss explica
da seguinte forma: A destruição sacrificial tem por objetivo ser, precisamente,
uma doação a ser necessariamente retribuída. Não
é só para manifestar poder, riqueza e desprendimento que escravos são mortos,
que óleos são queimados, que o cobre é lançado ao mar e até mesmo
casas suntuosas são incendiadas. Assim, é também para sacrificar aos espíritos e aos
deuses, em verdade confundidos com suas encarnações vivas, os portadores de
seus títulos, seus aliados iniciados. Em poucas palavras, sobre as sociedades
melanésias Mauss entendeu o complexo sistema de economia estabelecido
entre aqueles povos. Por meio das dádivas
feitas e retribuídas eles substituem o sistema de compra e venda e operam de
modo semelhante aos nossos. No caso do noroeste americano, a diferença
existente diz respeito a violência e ao exagero que chega a suscitar o que
Mauss chamou de prestações totais simples, ou seja, uma certa desproporção em
relação aos conceitos jurídicos observados na Melanésia. A certeza da
retribuição das dádivas que circulam nesta e na Polinésia é garantia
própria da coisa posta em circulação. A particularidade desta dádiva é o
termo, o tempo para que a contraprestação seja executada. Nas palavras
do autor: “a dádiva implica necessariamente a noção de crédito”. Não menos
importante, como já foi mencionado aqui, é a noção de honra. Enfim, a ascensão
de Paula na música não é súbita, mas fruto de trabalho, e seu tutor neste caminho,
interpretado peloótimo Eric Elmosnino,
que também não é um homem generoso, apenas um professor arrogante que por acaso
descobre o dom da aluna.
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Práticas Pedagógicas e o Aluno com
Deficiência Intelectual: Uma Intervenção Colaborativa sobre os Processos de
Ensino e Aprendizagem na Perspectiva Histórico-Cultural. Tese Doutorado em
Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro, 2012; SAAVEDRA, Claudia Carla Echenique, Shakespeare Além do Espaço Tempo: Uma Conversa sobre Direitos Humanos nas Tragédias Titus Andronicus, Ricardo III e Macbeth. Tese de Doutorado. Instituto de Artes. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2014; REIS, Flaviane, A Docência na Educação Superior: Narrativas das Diferenças Políticas de Sujeitos Surdos. Tese de Doutorado. Programa de Pòs-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Uberlândia: Universidade Federal de Ubelândia, 2015; GARCIA, Renata Rodrigues de Oliveira, Qualidade de Vida da Pessoa Surda no Ambiente Familiar. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. Faculdade de Medicina. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2016; RUZZA, Mara Lopes Figueira de, A Inclusão Educacional do Sujeito Surdo: Direito Garantido ou Reprimido? Dissertação de Mestrado. Programa de Educação: Currículo. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2016; BASTO, Renata Muniz Prado, Identificação e Promoção do Talento Feminino: Conhecendo Trajetórias e Despertando Potenciais. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde. Brasília: Universidade de Brasília, 2018; SOUZA, Gelida Fonseca de, Relações Familiares entre Surdos e Ouvintes: Análise de Narrativas Biográficas. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2018; entre outros.
“Como fica forte uma pessoa quando está
segura de ser amada!”. Sigmund Freud
A
palavra comuna, na Idade Média, é a
designação para a cidade que se tornava emancipada pela obtenção de carta de
autonomia fornecida pelo rei. Atualmente, na França, o termo se refere à menor
subdivisão administrativa do território. Em Portugal o termo remete às comunas
universitárias, residências que formam habitação e clube de estudantes
universitários, ou à administração de conselho. É desconhecida da Idade Média
em Portugal: os termos que indicam comunidade urbana com personalidade jurídica
são ou eram chamados de urbes, burgos, conselhos ou municípios. Berck é uma
comuna francesa na região administrativa de Nord-Pas-de-Calais, no departamento
de Pas-de-Calais. A comuna francesa representa a unidade básica de organização
territorial da França, que perfaz um número considerável em comparação com
outros países europeus: 36 681, contra aproximadamente 13 000 na Alemanha, 8
000 na Espanha e na Itália e 4 500 em Portugal. As outras subdivisões
territoriais, condicionando os espaço,
um lugar praticado são: o
cantão, o arrondissement, o
departamento e a região.
As
raízes do movimento comunal
encontram-se nas aspirações dos burgueses das cidades que queriam liberdade,
segurança, isenção de impostos feudais e justiça própria; estas exigências
resultavam do desenvolvimento comercial, que era afetado pela rigidez das
estruturas feudais. Embora apresentem características semelhantes aos
municípios portugueses, nem as cartas comunais francesas são comparáveis a
forais, que na maioria dos casos não passam de listas de encargos a satisfazer
à coroa pelos conselhos. Nos próprios burgos onde a burguesia mercantil
predominava como o Porto, e o grau de sujeição ao rei diminuía dificilmente se
poderá falar de “autonomia política” no sentido comunal. As comunas eram
grandes unidades de produção rural, abrangendo a agricultura e pequenas
indústrias. Cada comuna estruturava-se de forma coletiva e centralizada. Os
lotes agrícolas familiares, distribuídos na reforma agrária de 1950, foram
eliminados. A terra, colocada sob o controle social das comunas. As comunas
organizavam a vida social e a educação das crianças. A implantação desse
sistema teve impacto sobre a vida familiar, diminuindo a força tradicional da
autoridade paterna.
Inspirado
na vida da mãe de seu diretor e roteirista, Jean-Jacques Zilbermann, “Um brinde
à vida” (2016) é uma saudação, com
uma extraordinária sensação de revelar as complexidades e minudências da vida. -
Jean-Jacques Zilbermann s`est inspiré de l`histoire de sa mère, Irène, qui
rejoignait ses amies de déportation à la mer, enfin “à Auschwitz-les-Bains”. O
longa-metragem parte da experiência concreta dela e outras duas amigas
sobreviventes do campo de concentração Auschwitz e acompanha seu reencontro
mais de uma década depois da terrível experiência full-time no campo de concentração. Em 1960, três mulheres
deportadas de Auschwitz, que não se viam desde o pós-guerra, se reencontram
numa praia do norte da França. Durante esses poucos dias, tudo ocorre como uma
primeira vez para Helen, Rose, e Lili: as primeiras refeições de verdade juntas,
o saborear do sorvete, o primeiro mergulho no mar, uma traição. Uma semana de
risos, canções, mas também de conflitos e historias de amor e amizade.
Os
primeiros campos nazistas foram erguidos na Alemanha em março de 1933,
imediatamente depois que Adolf Hitler se tornou Chanceler e seu Partido nazista
recebeu o controle da polícia pelo Ministro do Interior do Reich, Wilhelm
Frick, e pelo Ministro do Interior prussiano, Hermann Göring. Usado para
aprisionar e torturar adversários políticos e sindicalistas, os campos
inicialmente reuniram cerca de 45 mil prisioneiros. As SS de Heinrich Himmler
assumiram o controle total da polícia e dos campos de concentração em toda a
Alemanha em 1934-35. Himmler expandiu o papel dos campos para manter os
chamados “elementos racialmente indesejáveis”, como judeus, deficientes,
homossexuais, criminosos e ciganos. O número de pessoas nos campos, que caiu
para 7 500, cresceu novamente para 21 000 no início da 2ª guerra mundial e
atingiu o pico em 715 000 em janeiro de 1945.
Os
campos de concentração foram administrados desde 1934 pela Inspetoria dos
Campos de Concentração em 1942 fundida na SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt e
eram guardadas pela SS-Totenkopfverbände. Os estudiosos do Holocausto
estabelecem uma distinção entre os campos de concentração e os campos de
extermínio, que foram estabelecidos pela Alemanha nazista para o assassinato em
massa em escala industrial de judeus nos guetos por meio de câmaras de
gás. O campo de concentração de Dachau foi criado com a finalidade de deter
opositores políticos. O uso da palavra “concentração” emerge da ideia de
confinar as pessoas em um só lugar porque pertencem a um grupo que é
considerado indesejável de alguma forma. O próprio termo se originou em 1897,
quando os “campos de reconcentração” foram criados em Cuba pelo general
Valeriano Weyler.
No
passado, o governo dos Estados Unidos da América usou campos de concentração contra
nativos americanos e os britânicos também os usaram durante a Segunda Guerra
dos Bôeres. Entre 1904 e 1908, o Schutztruppe do Exército Imperial Alemão
operou campos de concentração no Sudoeste Africano Alemão como parte do
genocídio dos hererós e namaquas. Quando os nazistas chegaram ao
poder na Alemanha, eles rapidamente se mudaram para suprimir toda a oposição
real e potencial. O público em geral foi intimidado pelo terror psicológico
arbitrário que era usado pelos Tribunais Especiais (Sondergerichte).
Especialmente durante os primeiros anos de existência, quando esses tribunais
"tiveram um forte efeito dissuasivo" contra qualquer forma de
protesto político.
O
primeiro campo na Alemanha, Dachau, foi fundado em março de 1933. O anúncio da
imprensa disse que “o primeiro campo de concentração deve ser aberto em Dachau
com acomodação para 5 000 pessoas. Todos os comunistas e - quando necessário -
Reichsbanner e social-democratas que põem em perigo a segurança do Estado devem
se concentrar ali, visto que a longo prazo não é possível manter os presos nas prisões
do governo sem sobrecarregá-las”. Dachau foi o primeiro campo de concentração
regular estabelecido pelo governo de coalizão alemão do Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista) e do Partido Popular
Nacionalista (dissolvido em 6 de julho de 1933). Heinrich Himmler, então Chefe
de Polícia de Munique, descreveu oficialmente o lugar como “o primeiro campo de
concentração para prisioneiros políticos”.
Do
ponto de vista topológico em meio às sequências que nos ajudam a entender
melhor essa personagem alçada ao protagonismo, sobretudo suas dificuldades
oriundas das cicatrizes de guerra, o diretor Jean-Jacques Zilbermann prepara o
terreno para a reunião das mulheres, ponto de virada que traz consigo uma
mudança no compasso do longa-metragem. O reencontro de Hèlene, Lily (Johanna
ter Steege) e Rose (Suzanne Clément), mediado pela quase onipresença do sol,
não mais da sombra claustrofóbica dos campos de concentração, acontece numa
cidade do litoral francês que contrasta evidentemente com os cenários lúgubres
do cárcere. No que tange ao comportamento das amigas, há uma estratégia bem
definida de acordo com a personalidade delas. Hélene é tímida, sente-se
impelida a cuidar dos que igualmente sofreram. Lilly lida de forma vaga com o
passado, ora falando, ora calando. Rose, por sua vez, ostenta a fina camada de
felicidade que esconde uma tristeza profunda. Contudo, Hèlene precisa falar de
Auschwitz, recordar as circunstâncias que Rose quer deixar completamente para
trás, se possível trancadas a sete chaves no recôndito da memória. Lily prefere
questionar os preceitos do judaísmo, fazendo às vezes de mediadora, quando não
de figura materna.
As
primeiras cenas de Um Brinde à Vida
ocorrem em Auschwitz, naqueles dias em que os alemães esvaziam o famigerado
campo de concentração. Entre execuções e o terrorismo das experiências que
ainda ditavam as regras no ocaso do lugar de ódio e crueldade, duas amigas
tentam fazer com que uma terceira se junte a elas na chamada “Marcha da Morte”,
episódio histórico que marcou a transferência dos judeus para outros campos
nazistas, onde aparentemente tinham chances de sobreviver. Esse prólogo marcado
pela opressão totalitária e por uma imagem cuja concepção revela a atrocidade
revivida pela memória não é exatamente um filme marcadamente sisudo. Mas é no
âmbito da memória fustigada que acompanhar a démarche de Hèlene (Julie Depardieu), que tenta a todo custo
retomar contato com as amizades construídas durante a barbárie nos faz entender
o processo e as mazelas de reconstituição da memória. Ela se casa com um homem
marcado pela violência física da intolerância dos partidários de Hitler e
anuncia recorrentemente num jornal a busca por suas companheiras de degredo.
Metodologicamente
a memória representa o armazenamento
de informações e fatos obtidos através de experiências ouvidas ou vividas. A
memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental
e deteriora-se com a passagem do tempo. É um processo que conecta pedaços de
memória e reconhecimentos a fim de gerar novas ideias, ajudando através dos
detalhes a tomar decisões diárias. A corrupção da consciência,
fenomenologicamente falando, no sentido que emprega Merleau-Ponty funciona como
a “essência da consciência para o mal”, ou, “essência da percepção para o mal”,
posto que: a consciência só começa a ser determinando um objeto, e mesmo os
fantasmas de uma “experiência interna” só é possível por empréstimo à
experiência externa. Memória, segundo diversos estudiosos, desde Hegel e Marx à
maturação da hermenêutica filosófica, desde à compreensão da sociologia e à aproximação
com a psicanálise freudiana é factualmente a base do conhecimento humano. E como
tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao cotidiano da vida privada e acumulamos nossas
experiências para utilizarmos com eficácia durante a vida.
A
realização de Jean-Jacques Zilbermann consegue aproveitar plenamente o
potencial da temática, principalmente nessa interessante proposta de apresentar
faces distintas de um mesmo anseio, o de mitigar as dores da guerra, ora
através da religião e seus símbolos, ora através da transgressão sexual, como
ocorre nas cenas de sexo dentro do banheiro químico na comuna francesa de Nord-Pas-de-Calais.
Freud tinha uma concepção psicológica do ser humano. Sua teoria é de grande influência
na psicologia atual e, além do contínuo debate sobre sua aplicação no
tratamento médico, também é, frequentemente, discutida e analisada como obra de
literatura e cultura geral. Depois que o pai de Freud falece, em 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, dedica-se a analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua infância e, assim, determinando as raízes de suas próprias neuroses.
Sigismund
Schlomo Freud reconhecido profissionalmente como Sigmund Freud, foi um médico
neurologista criador da psicanálise. Freud, como se tornara reconhecido, nasceu
em uma família judaica, em Freiberg in Mähren, na época pertencente ao Império
Austríaco, atualmente, a localidade é denominada Příbor, e pertence à República
Tcheca. Freud iniciou seus estudos pela utilização da técnica da hipnose
no tratamento de pacientes com histeria, como forma de acesso aos seus
conteúdos mentais. Ao observar a melhora dos pacientes tratados pelo médico
francês Charcot, elaborou a hipótese de que a causa da histeria era psicológica,
e não orgânica, distanciando-se das correntes positivistas que associavam a
determinação biológica da espécie. Essa hipótese serviu de base para outros
conceitos desenvolvidos posteriormente por Freud, como o do inconsciente. Fatos
como a descrição de pacientes curados através do diálogo por Josef Breuer e a
morte do colega Ernst von Fleischl-Marxow por dose excessiva do antidepressivo
da época, a cocaína, levaram-no ao abandono das técnicas de hipnose e de drogas
para criar um novo método: a cura pela fala, ou seja, a psicanálise, que
utilizava a interpretação de sonhos e a livre associação como acesso ao
inconsciente.
Suas
teorias sociais e seus tratamentos terapêuticos foram controversos na
aparentemente conservadora Viena do fim do século XIX, e continuam a ser
debatidos presentemente. Sua concepção de teoria é de grande influência na
psicologia e, além do contínuo debate sobre sua aplicação terapêutica no
tratamento médico, também é, frequentemente, discutida e analisada como obra de
literatura e cultura geral nas humanidades. A psicossociologia tem como
representação abstrata do indivíduo o estudo de problemas comuns à psicologia e
à sociologia, particularmente a maneira como o comportamento individual é
influenciado pelos grupos aos quais a pessoa pertence. Por exemplo, no estudo
dos criminosos a psicologia estuda a personalidade latente do criminoso moldada
pela educação do criminoso. A sociologia estuda o comportamento teórico e
prático do próprio grupo num processo de interação em geral: os métodos que o
grupo criminoso usa para recrutar membros e a maneira como o grupo muda ao
longo do tempo. Psicossociologia estuda o comportamento do criminoso, que é
criado pelo grupo ao qual pertence, como os jovens que moram no mesmo
quarteirão do bairro.
Existem
muitos fatores sociais que podem afetar a psicologia dos outros. Um exemplo
disso são as chamadas panelinhas sociais. Se alguém é aceito em seu grupo
desejado ou não, isso muda a maneira como eles pensam sobre si mesmos e as
pessoas ao seu redor. Amizades em idades jovens enquanto crescem também têm
muito a ver não apenas com o desenvolvimento psicológico, mas também com habilidades
sociais e comportamento social. O mesmo vale para as leis comuns na sociedade.
Se o grupo de um indivíduo decide obedecer por eles ou não, isso afeta a visão
desse indivíduo sobre a lei e seu grupo como um todo. A maneira como as pessoas
podem agir ou falar dita a maneira como os outros as veem em uma sociedade. Por
exemplo, os indivíduos podem ver a autoridade de muitas maneiras diferentes,
dependendo de suas experiências e do que os outros lhes disseram. Por isso, com
base no conhecimento social de autoridade das pessoas, suas opiniões e ideias
são muito diferentes. Cada indivíduo tem
seu próprio processo de pensamento psicológico único e pessoal no qual eles
usam para analisar o mundo ao seu redor. As pessoas internalizam e processam
fatores sociológicos de maneira relativa ao seu processo de pensamento
psicológico. Essa relação é recíproca, pois a sociedade pode alterar e
transformar as maneiras que as pessoas pensam e, ao mesmo tempo, a sociedade
pode ser influenciada pelo pensamento psicológico exteriorizado dos indivíduos
dentro da própria sociedade. Devido a isso, pode-se ver como a psicologia é
fundamental para ajudar o sociólogo a interpretar os efeitos dos fatos sociais no comportamento de um indivíduo numa sociedade
determinada.
Tais
anotações tornam-se a fonte etnográfica para
a obra “A Interpretação dos Sonhos”. Durante o curso desta autoanálise, Freud
chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por
sua mãe e a uma hostilidade em relação a seu pai. É o que constitui o famoso
“complexo de Édipo”, que se torna o “coração”, por assim dizer, da teoria de
Freud sobre a origem da neurose em todos os seus pacientes investigados. Nos
primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras em que contém suas teses
principais no ensaio: “A Interpretação dos Sonhos” e “A psicopatologia da vida
cotidiana”. Freud criou o termo “psicanálise” para designar a complexa relação
entre um método, uma teoria e uma técnica para investigar cientificamente os
processos inconscientes e de outro modo inacessíveis do psiquismo.
Portanto,
se não há vida privada da consciência
é porque a consciência só tem como obstáculo o caos, que não é nada. Mas em uma
consciência que constitui tudo, ou, antes, que possui eternamente a estrutura
inteligível de todos os seus objetos, assim como na consciênciaempirista que
não constitui nada, a atenção permanece um poder abstrato, ineficaz, porque ali
ela não tem nada para fazer (cf. Eatwell, 1996; Fritzsche, 1998). A consciência não está menos intimamente ligada
aos objetos em relação aos quais ela se distrai do que aqueles aos quais ela se
volta. A memória do campo de concentração Auschwitz é sempre referida pela memória
pela presença de quatro crematórios. Auschwitz I, o principal campo do complexo
de Auschwitz, foi a primeira das unidades a serem estabelecidas, nas
proximidades da cidade polonesa de Oswiecim. Sua construção teve início em maio
de 1940, em um quartel de artilharia usado anteriormente pelo exército polonês
na região de Zasole, subúrbio de Oswiecim. O campo foi se expandindo
continuamente por meio da utilização do processo de trabalho escravo
contemporâneo. A câmara improvisada estava localizada no porão da prisão (Bloco
11). Mais tarde, uma câmara de gás fixa foi construída dentro do crematório. A ideologia
nazista do campo é baseada realmente em um vídeo originalmente rodado em 1941, ipso facto, historicamente produzido e irradiado pela intelligentsia nazista.
Nesta análise psicanalítica fundada por Sigmund Freud, o indivíduo se constitui
como um ente à parte do social e que compõe o nível de análise social. Freud
refere-se aos aspectos que compõem um estado instintivo humano e que acaba por
se tornar inibido em prol da convivência em comunidade. A inibição destes
aspectos, que são instintivos, consiste numa privação de características que
são inatas aos homens, e, esta própria privação, acaba por consistir em
determinados descontentamentos. Neste sentido, os homens em civilização ou
civilizados demonstram-se descontentes na busca de sua felicidade, pois seus
instintos não são prontamente atendidos em sociedade. No seu ensaio: “O
mal-estar da civilização”, Freud elabora uma discussão filosófico-social a
partir de sua teoria psicanalítica. O autor desenvolve a ideia pragmática
segundo a qual, em sociedade, “não há avanço sem perdas”. A ideia central que
desenvolve nesta obra é a de que a civilização é inimiga da satisfação dos instintos humanos. A
sociedade modifica a natureza humana individual, constitui o homem como membro
da comunidade, adaptando-o a um processo vital que torna o indivíduo um ente social.
Um Brinde à Vida representa um drama cotidiano para celebrar a
amizade, que afinal pode ser para alguns o grande remédio das enfermidades da
alma. Cultura judaica é o nome dado ao conjunto de tradições passadas de
geração à geração pelo Judaísmo oriundas dos tratos religiosos, do local em que
a comunidade judaica foi radicada e da era em que a comunidade judaica viveu. Entre
os rituais, podemos citar a circuncisão dos meninos (aos 8 dias de vida ) e o Bar Mitzvah que representa a iniciação
na vida adulta para os meninos e a Bat
Mitzvah para as meninas (aos 12 anos de idade). Os homens judeus usam o “kippa”,
pequena touca, que representa o respeito a Deus no momento das orações. Nas
sinagogas, existe uma arca, que representa a ligação entre Deus e o Povo Judeu.
Nesta arca são guardados os pergaminhos sagrados da Torá. Entre os rituais,
podemos citar a circuncisão dos meninos (aos 8 dias de vida) e o Bar Mitzvah que representa a iniciação
na vida adulta para os meninos e a Bat
Mitzvah para as meninas aos 12 anos de idade. Os homens judeus usam o “kippa”,
pequena touca, que representa o respeito a Deus no momento das orações. Nas
sinagogas, existe uma arca, que representa a ligação entre Deus e o Povo Judeu.
Nesta arca são guardados os pergaminhos sagrados da Torá. As festividades
judaicas vão desde a comemoração de um aniversário, um Bar-Mitzvá a feriados como o Purim
e o Pessach. Os judeus são festivos e a música é usada como forma de culto
como a vários relatos etnográficos da torá ou mesmo em celebrações como pessach, purim e bar mitzvá.
Enfim,
como é representado no filme: “Um brinde à vida”, as refeições para os judeus
têm grande importância e requerem preparação e cuidado especial. Uma palavra
resume o essencial dos preparativos da refeição judaica: “pureza” (“casherut”).
Quer se trate do alimento ou dos utensílios de cozinha, da louça de mesa ou da
qualidade dos convivas, a máxima atenção deve ser prestada à sua pureza. Esta
pureza diz respeito à santidade de Israel e de seus filhos. Por meio dela,
comer e beber se tornam atos de culto. Cada refeição se revela como “memória”
da Aliança, que não cessa de separar seu povo das nações pagãs, idólatras. Nesse
espírito de preparação para a refeição judaica encontram-se tipos de
purificação: a) lavar as mãos. Essa prescrição é particularmente importante. O
Talmude narra cerca de seiscentas prescrições a respeito e um tratado é
inteiramente consagrado às maneiras de proceder. Não se deve hesitar em “percorrer um
caminho de quatro milhas a fim de obter água pura para lavar as mãos”.
Esse
hábito social que alguns pensam provir
de Salomão e outros de Hillel e de Shammai Chab é prática de sacerdotes, que
lavavam as mãos antes de comerem sua parte das oferendas. Em seguida, leigos
piedosos, como os fariseus, o adotaram antes que se tornasse um costume
universal. Mesmo seus opositores acabaram por se submeter a ele. É que o rabi
Aquiba, após tê-lo contestado, utilizava a reduzida ração de água que lhe era
concedida na prisão para lavar as mãos na hora da refeição; b) Ter feito
abluções – esta prescrição era complementar da precedente: - Para (comer
alimentos) não consagrados, do dízimo ou da oblação, basta lavar as mãos; mas
para o que é santo (ofertas do Templo e que não podiam ser consumidas a não ser
em seu recinto) deve-se tomar um banho; no que diz respeito às águas de
purificação do pecado, se as mãos estiverem impuras, é o corpo inteiro que é
tido por impuro (e torna-se necessário tomar banho). O ensinamento de Jesus
liga esse costume do banho à volta do mercado; c) lavagem ritual das taças,
vasos e pratos – o judaísmo contemporâneo continua muito atento às prescrições
que dizem respeito aos utensílios de cozinha e à louça. Tais preceitos, visando
pôr em prática as injunções do livro dos Números 31,22-24, eram atuantes na
época mitológica de Jesus. É a semelhantes debates que Jesus se refere em sua
polêmica com os escribas e os fariseus (cf. Mt. 23,25). Poderíamos até
descobrir um efeito social específico, nestes termos, através das decisões da
escola Jâmnia sobre a obrigação natural de purificar primeiramente o interior
das taças ou dos pratos. As regras de culto religioso que regem a escolha dos
alimentos, a distinção entre os que são puros ou impuros, são uma das mais
consideráveis prescrições do judaísmo.
Bibliografia
geral consultada.
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Réflexion Critique sur l’Idée de Région”. In: Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n˚ 35, 1980; XENAKIS,
Françoise, Zut! On a Encore Oublie Madame Freud. Paris: Éditions
Hachette, 1984; DURAS, Marguerite, Les
Lieux de Marguerite Duras. Entretiens avec Michelle Porte. Paris: Éditions Minuit,
1987; ELIAS, Norbert, El Proceso de la Civilización:
Investigaciones Sociogenéticas y Psicogenéticas. 2ª edición. México: Fondo
de Cultura Económica, 1989; FLEM, Lydia, L`homme Freud. Paris: Éditions
Seuil, 1991; EATWELL,
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Viking/Penguin Editor, 1996; FRITZSCHE, Peter, Germans into Nazis. Cambridge, Mass.: Harvard University Press,
1998; WACQUANT, Loïc, Parias Urbanos:
Marginalidad en la Ciudad a Comienzos del Milênio.Buenos Aires:
Ediciones Manantial, 2001; LE GOFF, Jacques, História e Memória. 5ª edição. Campinas (SP): Editora da
Universidade de Campinas, 2003; BOBBIO,
Norberto, Il Futuro della Democrazia.
1ª edição. Itália: Einaudi Editore, 2005; ELIAS, Norbert & SCOTSON, John, Au-delà de Freud: Sociologie, Psychologie, Psychanalyse.
Paris: Éditions La Découverte, 2010; FREUD, Sigmund, Malaise dans la Civilisation. Paris: Éditions Payot. Coll. Petite
Bibliothèque Payot, 2010; Idem, Au-delà
du Principe dePlaisir. Paris:
Éditions Payot. Coll. Petite
Bibliothèque Payot, 2010; SANTOS, Lucileide Vieira, Felicidade ao Longo da Vida. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde. Lisboa: Escola de Psicologia e Ciências da Vida. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, 2016; NÓBREGA, Karynna M. Barros de, Da Voz em Off à Palavra Escrita: O Testemunho do Corpo Falante em O Escafandro e a Borboleta.Tese de Doutorado. Coordenação Geral de Pós-Graduação. Programa de Doutorado em Psicologia Clínica. Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2017; entre outros.
“O trabalho não justifica a existência. A
gente trabalha para existir e vice-versa”. John Lennon
O
ponto de partida para a constituição do sujeito – diz Alexandre Kojève, nascido
Aleksandr Vladimirovič Koževnikov, leitor de Hegel – é o desejo, “mas não um
desejo dirigido a uma coisa qualquer no mundo”. O homem se torna humano “quando
deseja outro desejo”. Abre-se assim um novo viés de liberdade, que se manifesta
antes de tudo como um desejo de reconhecimento e produz uma luta de morte por
puro prestígio – o ato fundante da história, o ato antropogênico por
excelência. Mas para que haja história, é preciso que haja relação social entre
homens vivos, lembrava Marx, no ensaio que o encaminhava para a maturidade. A
luta não pode terminar com a aniquilação de um dos lados, colocando sua
liberdade acima da vida. Todavia, estabelece-se uma relação que se desenvolve
concentrada neste segundo polo, outra atividade essencial ao projeto do homem:
o trabalho humano.
A dialética que assim se estabelece é um dos pontos culminantes do
pensamento desde a Antiguidade, em todas as épocas e sua conclusão é
surpreendente: “o homem integral, livre, satisfeito com o que é, o homem que se
aperfeiçoa”.Não
é o senhor nem o escravo, mas sim o escravo que consegue suprimir sua sujeição.
Isto é Hegel, um homem admirável. A célebre metáfora do senhor e do escravo,
tão popularizada na tradição ocidental, foi criada por Hegel e utilizada por
muitos pensadores no século XX. Ela aparece, em seu primeiro momento, na Fenomenologia do Espírito (1807). Desse
modo, qualquer aproximação da metáfora em si ou mesmo do ponto de vista compreensivo do seu sentido, necessita de
uma análise da obra e do contexto social onde a mesma se insere. Diferentemente das
muitas lições e cursos que Friedrich Hegel ministrou e que, posteriormente, foram transformados
em aulas, sua escrita é bastante diferente. Neste âmbito podemos
notar a clara oposição de Hegel ao posicionamento kantiano. A segunda
significação é cultural, isto é, a “consciência vive num determinado contexto e
época”. Já a terceira significação é histórica, ou seja, “a consciência do
indivíduo e da cultura caminha para uma ciência na história”. Somente a partir de tais cruzamentos é que podemos compreender a dialética do
senhor e do escravo em Hegel.
Friedrich Hegel
que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio
primeiro uma dúvida universal que só é própria per se da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho
aberto pela consciência e a história detalhada de seu longo processo de formação. Ou seja, a
Fenomenologia do Espírito vem a ser a representação de uma história concreta da
consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que
em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história
do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é
necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos
filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas
em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos
diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a
categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o
assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que
conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é
necessário começar pela representação, que não sendo totalmente exata
permite, no entender da dimensão de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do
sistema abstrato de interpretação per se do método dialético, para poder
alcançar a transformação social da representação numa noção clara e exata.
A passagem da representação
abstrata, para o conceito claro e
concreto é mediada através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento
dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e
objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia
Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia
Absoluta seria uma existência puramente abstrata se a noção de que procede não fosse mais
que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por “um
giro negativo sobre si mesma”, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a
determinação mais simples e primeira como ponto de partida que o espírito pode estabelecer é o Eu, a
faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida.
Chama-se idealidade precisamente esta supressão da
exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação,
transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto
consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva
através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que
conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico,
como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. O espírito finito se encontra-se numa união
imediata com a natureza, a seguir em oposição e finalmente em
identidade com esta. Porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente,
o espírito finito é a ideia. Mas ideia que girou sobre si mesma e que
existe por si em sua realidade.
A
Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza,
produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua
exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois,
ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece
a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim
a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças,
sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se
a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto
e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua
atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel
ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à
existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante.
O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como
consciência em geral eu tenho um objeto; uma vez que eu existo e ele está na
minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente produzir-se para fora de
si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que
ele é. Em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade
não são nada. O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão.
Ou melhor, a possibilidade para
isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em
nada a criança, sobremodo o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma
possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por
exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que
nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser
expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem,
chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para
Hegel é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o
desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele
é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, em si, em
objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo,
então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os
pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer,
todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não
possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no
interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se
objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do
mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o
homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do
homem: a liberdade.
O
europeu sabe de si, afirma Hegel, é
objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se
conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua
substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem.
Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem
relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se
também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber
libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o
segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também
por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A
terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são
somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que
já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte haveria ali uma variação,
mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em
essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser
tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o
simples, o ser em si não seja negado.
A questão diz respeito a saber: por
que a dialética do “Senhor e do Escravo” é necessária para a compreensão da
ideia de liberdade? São representações sociais
instrumentais de um dialogo racional entre duas consciências que por sua vez
foram imaginadas por Hegel que brilhantemente utilizou o dialogo entre as duas
consciências para chegar ao reconhecimento de si e para si, permitindo chegar a
ideia de liberdade, uma liberdade pautada pelo respeito mutuo. E a exata
importância e posição que ocupam as duas consciências, que inicialmente em
guerra e posteriormente pelo amadurecimento que as leva a ideia de liberdade
pautada em limitadores essenciais para a convivência harmoniosa. Reconhecer a
si mesmo e ao outro é uma forma de ver nossos limites e dos demais, respeitando
e sendo respeitado são elementos necessários para a paz e a liberdade. Hegel se
utiliza habilmente desta metáfora. A dialética do “senhor e do escravo” é um
processo de liberdade estabelecido nas relações de reconhecimento. Neste
sentido a figura humana de John Lennon é representativa da ideia filosófica de Immanuel Kant a Friedrich Hegel de liberdade, mas o autor não existe fora da
linguagem e cultura.
Daí
o fato cultural que reitera o etnocentrismo quando interpretamos que toda
cultura opera assim uma divisão entre ela mesma, que se afirma como
representação por excelência do humano, e os outros, que participam da
humanidade apenas em grau menor. O discurso que as sociedades primitivas fazem
sobre si mesmas, discurso condensado nos nomes que elas se dão, é, portanto
etnocêntrico de uma ponta á outra: afirmação da superioridade de sua existência
cultural, recusa de reconhecer os outros como iguais. O etnocentrismo aparece
então como a “coisa” do mundo mais bem distribuída e, desse ponto de vista pelo
menos, a cultura do Ocidente não se distingue das outras. Convém mesmo,
aprofundando um pouco mais a análise, pensar o etnocentrismo como uma
propriedade formal de toda formação cultural, como imanente à própria cultura.
Pertence à essência da cultura ser etnocêntrica, na medida exata em que toda
cultura se considera como a cultura por excelência. Noutras palavras, a
alteridade cultural nunca é apreendida como “diferença positiva”, mas sempre como
inferioridade segundo uma interpretação cultural subjetiva de dominância tipicamente hierárquica.
Um
exemplo conspícuo refere-se ao tratamento do tema “orientalismo”, comumente
utilizado para definir o estudo constituído por todas as sociedades fora do
contexto histórico, teórico e ideológico ocidental, da cultura global europeia,
– quando utilizamos a noção “pós-orientalismo”. Por duas razões: a) É correlata
à filosofia dita “pós-moderna”; b) Trata-se de um eclético e elusivo movimento
social caracterizado por sua crítica à filosofia ocidental. Começando como um
movimento de crítica da filosofia Continental, foi influenciada pela
fenomenologia, pelo estruturalismo e pelo existencialismo, incluindo Soren Kierkegaard e Martin Heidegger. Sofreu influências, também, em certo grau
associado ao desenvolvimento do positivismo no âmbito da filosofia analítica de Ludwig Wittgenstein. Para a
maior parte dos pensadores, a filosofia pós-moderna reproduz a volumosa
literatura da teoria crítica. Outras áreas, na falta de melhor expressão, de produção estética e filosófica incluíram a “desconstrução” e as
áreas que começam com o prefixo “pós”, como no sentido da diversidade “pós-estruturalismo”, o
“pós-marxismo” e o “pós-feminismo”.
O
Oriente, sociologicamente falando, é uma entidade autônoma dotada de múltiplas
identidades com suas respectivas localizações territoriais. O que seria então
esse Orientalismo cuja definição permite afirmar que o Oriente é uma invenção
do Ocidente? Segundo Said (1990) esse conceito tem diversos significados, mas
que de modo geral reflete a forma específica pela qual o Ocidente europeu
reproporiam ao nível ideológico e cultural a designação do que é o Oriente.
Assim, o Orientalismo não necessariamente estabelece uma relação dialética e
real de identificação real com o Oriente e sim, inversamente é a ideia que o
Ocidente faz dele. Nesse sentido o Oriente ajudou a definir a Europa ou o
Ocidente de forma transcendente com sua imagem, ideia, personalidade e
experiência contrastantes. O Oriente na visão do Orientalismo então é o “lugar
do exótico”. Analiticamente precisamos tornar do ponto de vista teórico,
prático e afetivo o exótico em familiar.
A
noite de 8 de dezembro de 1980 trouxe uma notícia ruim para o mundo inteiro. O ex-Beatle
John Lennon havia sido baleado. Ainda não se sabia por quem nem por quê, e
a perplexidade se tornou ainda maior quando ficou claro que os tiros disparados
vieram da arma de um fã esquizofrênico que horas antes havia pedido um
autógrafo do artista na capa de seu novo Long Play. Como se fosse o desfecho de
uma tragédia teatral, a morte de John Lennon interrompia sua volta ao mundo da
música. Distante durante cinco anos da indústria fonográfica, quando resolveu
“assar pães e cuidar de seu filho”, Lennon havia acabado de gravar um disco em
parceria com sua mulher, Yoko Ono. Era uma espécie de diálogo entre eles, com
músicas apaixonadas, mas trazendo uma visão amadurecida da relação. Em
entrevistas, John demonstrava otimismo com seu retorno à arte e com o mundo. Após o deslumbramento nos anos 1960, e a “bad trip”
dos anos 1970, os anos 1980 pareciam promissores. Mas a promessa não se
cumpriria.
John
Lennon já havia se envolvido com política e movimentos sociais desde o final
dos anos 1960, quando apoiou os Panteras Negras e a luta contra o
envolvimento norte-americano na guerra do Vietnã. Não por acaso, muitos veem
seu assassinato como um complô político, uma vez que o artista estava voltando
a chamar a atenção da mídia. Morador de Nova Iorque, Lennon se sentia no centro
do mundo, e desde os Beatles estava acostumado a ser porta-voz de vários
segmentos sociais. A trama que aponta o Federal Bureau of Investigation
(FBI) uma unidade de polícia do Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América (USA), servindo tanto como uma polícia política de investigação quanto simultaneamente um serviço de inteligência interno agindo cirurgicamente como contra
inteligência. O FBI tem jurisdição investigativa sobre as violações de mais de
duzentas categorias de crimes federais. Seu lema é Fidelity, Bravery, Integrity,
correspondente às iniciais FBI propriamente ditas.
Seu
quartel-general no J. Edgar Hoover Building está localizado em Washington, D. C.
Cinquenta e seis escritórios locais estão localizados nas principais cidades de
todo os Estados Unidos da América, bem como comparativamente em espaços de mais
de 400 agências residentes em cidades menores por todo o gigante país, e mais
de 50 escritórios internacionais estão localizadas em embaixadas
norte-americanas ao redor do mundo. FBI como mandante de sua morte parece
bastante improvável, mas a recente descoberta dos papéis guardados pelo
escritório de investigações americano a respeito de Lennon acaba por alimentar
divagações conspiratórias. Delírios à parte, após sua morte, é um
exercício interessante imaginar como o músico estaria atuando frente a questões
mundiais como a busca por uma cultura de “desenvolvimento sustentável” e as
intervenções norte-americanas nas questões políticas e sociais do Oriente
Médio.
Como
John Lennon agiria hoje é, obviamente, uma incógnita. Nascido durante a 2ª guerra
mundial e influente na cultura dos anos 1960, o cantor passeou por movimentos
sociais importantes, como a luta por igualdade racial, o feminismo e o
pacifismo hippie. Seu engajamento como artista foi tímido durante os anos 1960,
uma vez que os Beatles preservavam sua imagem apolítica, mas, ainda com o
grupo, o músico lançou a música Revolution, em que afirmava que “todos nós
queremos mudar o mundo”, mas que não contassem com ele somente para matar seres
humanos ou mesmo para carregar fotos de Mao Tsé-Tung. - “Seria melhor você
libertar sua cabeça”, ele diz na composição da letra. Talvez a maior preocupação de John Lennon
tenha sido renovar o conceito abstrato de utopia como meta a ser atingida pela humanidade. Se o ex-Beatle
foi influente, também sofreu influências da cultura a qual estava submetido. As experiências com
alucinógenos e meditação abstrata levaram-no a perceber que toda revolução
começava na cabeça, e não deveria haver nela os limites impostos pelas relações
sociais. A utopia seria o ponto de partida, a pedra de toque para que as
relações se desenvolvessem.
Neste aspecto vale uma digressão teórica, histórica e ideológica. O
Massacre de Nanquim, também reconhecido como o Estupro de Nanquim,
foi um episódio de assassinato em massa e estupros em massa cometidos por
tropas do Império do Japão contra a cidade de Nanquim, na China, durante a
Segunda Guerra Sino-Japonesa, na 2ª guerra mundial. O massacre ocorreu durante
um período de seis semanas a partir de 13 de dezembro de 1937, o dia em que os
japoneses tomaram Nanquim, que na época era a capital chinesa. Durante este
período, dezenas de milhares, se não centenas de milhares de civis chineses e
combatentes desarmados foram mortos por soldados do Exército Imperial Japonês.
Estupros e saques também ocorreram. Vários dos principais perpetradores das
atrocidades, na altura rotulados como crime de guerra, mais tarde foram
julgados e considerados culpados pelo Tribunal Militar Internacional para o
Extremo Oriente e pelo Tribunal de Crimes de Guerra de Nanquim, e executados.
Outro autor chave, o príncipe Asaka, um membro da Família Imperial, escapou da
acusação por ter imunidade concedida pelos Aliados. O número de mortos no
massacre não pode ser preciso. A maioria dos registros militares japoneses
sobre os assassinatos foram deliberadamente destruídos ou mantidos em segredo
após a rendição do Japão, em 1945.
O Tribunal Militar Internacional
para o Extremo Oriente estimou, em 1948, que mais de 200 mil chineses foram
mortos no incidente. A estimativa oficial da China é de mais de 300 mil mortos,
com base na avaliação do Tribunal de Crimes de Guerra de Nanquim em 1947. O
número de mortos tem sido ativamente contestado entre os estudiosos desde a
década de 1980, com estimativas que variam de 40 mil a mais de 300 mil seres
humanos mortos. Edgar Morin é um dos
principais representantes contemporâneos da análise de estudos da complexidade,
que inclui perspectivas anglo-saxônicas e de origem latinas. Sua abordagem é
reconhecida dubiamente como pensamento complexo ou paradigma da complexidade.
Mas o filósofo não se identifica como analista “teórico da complexidade”. Nem
pretende limitar suas pesquisas às chamadas concepções de “ciências da complexidade”.
Pois, menos se distingue entre perspectivas restritas, limitadas, e amplas ou
mesmo generalizadas da reflexão sobre a complexidade. Em 1941, adere ao Partido
Comunista, “num momento em que se sentia, pela primeira vez, que uma força
poderia resistir à Alemanha nazista”. Entre 1942 e 1944, como tenente das
forças combatentes francesas, adotou o codinome Morin, que conservaria em
diante. Durante a Libération, é transferido para a Alemanha ocupada, como adido
ao Estado Maior do Primeiro Exército Francês na Alemanha (1945), e como chefe
do Departamento de Propaganda do governo militar francês (1946).
Escreve
seu primeiro livro, L`An Zéro de l`Allemagne, publicado em 1946, no qual
descreve a condição do povo alemão no pós-guerra, sendo apreciado por Maurice
Thorez, que o convida a escrever para a revista Lettres françaises. A
partir de 1949, distancia-se do Partido Comunista Francês, do qual será
excluído em 1951, por suas posições críticas. Aconselhado por Georges
Friedmann, que conheceu durante a ocupação e com o apoio de Maurice
Merleau-Ponty, de Vladimir Jankélévitch e Pierre George, entra para o Centre
National de la Recherche Scientifique (CNRS) em 1950. Começa a escrever L`Homme
et la Mort que será editado a seguir, em 1951. Em 1955 coordena um comitê
político contra a guerra da Argélia e defende particularmente Messali Hadj,
pioneiro da luta anticolonial e um dos próceres da Independência da Argélia. Em
1960, funda, na École des Hautes Études en Sciences Sociales - Sociologie,
Anthropologie, Histoire (EHESS), o Centro de Estudos de Comunicação de
Massa (CECMAS), com o sociólogo Georges Friedmann e o estudioso da
linguística Roland Barthes, com a intenção de adotar uma abordagem
transdisciplinar do tema, e fundaram a inovadora revista Communications. Edgar Morin é também fundador da revista Arguments
(1957-1963). Em 1963, casa-se com a artista plástica de origem
quebecoise-caribenha Joahnne, com quem viaja ao Brasil diversas vezes. De 1978
a 1975, integrou o “Grupo dos Dez”, onde absorveu contato com as três teorias
que fundamentariam a teoria da complexidade:
cibernética, teoria da informação e teoria dos sistemas.
Em
1973, publica o livro L`Paradigme Perdu: La Nature Humaine. Este livro
foi o ponto de partida para a construção do Método, série de livros, onde Edgar
Morin explica minuciosamente a sua teoria da complexidade. Nomeado diretor de
pesquisa do CNRS em 1970, será entre 1973 e 1989, um dos dirigentes do Centro
de Estudos Transdisciplinares da EHESS, sucessor do CECMAS. A principal obra de
Edgar Morin é a constituída por seis volumes, mas é em particular em La
Méthode que o pensador propõe o conceito de complexidade, a ideia-chave do
método, que em seus volumes foi escrita durante três décadas e meia. Trata-se
de uma das maiores obras de epistemologia. Inicia seus primeiros manuscritos de
La Méthode, em 1973, com a publicação do livro: O Paradigma Perdido:
a Natureza Humana, uma transformação epistemológica por questionar o
fechamento ideológico e paradigmático das ciências, além de apresentar uma
alternativa à concepção de paradigma encontrada no pensamento de Thomas Kuhn. A
razão cartesiana impôs um paradigma. Ela nos ensinou a separar a razão da des-razão.
Temos que religar o que a ciência cartesiana e as universidades contemporâneas através
da divisão técnica do trabalho separaram. Ainda que as condições socioculturais
e evidentemente políticas sejam distintas das condições biocerebrais, estão
ligadas por um nó górdio: as sociedades existem e as culturas só se formam,
conservam, transmitem e desenvolvem através das interações cerebrais ou
espirituais entre os indivíduos.
A
cultura, que caracteriza as sociedades humanas, é organizada/organizadora via o
veículo cognitivo da linguagem, a partir, segundo Morin, do “capital cognitivo
coletivo” dos conhecimentos adquiridos, das competências aprendidas, das
experiências vividas, da memória histórica, das crenças míticas de uma
sociedade. E, dispondo de seu capital cognitivo, a cultura institui as
regras/normas que organizam a sociedade e governam os comportamentos
individuais. Estas regras geram processos sociais e regenera globalmente a complexidade
social adquirida por essa mesma cultura. Assim, a cultura não deve ser
compreendida pelas metáforas estruturais, que são termos impróprios em uma
organização recursiva onde o que é produzido e gerado torna-se produtor e
gerador daquilo que o produz ou gera. Isso facto, cultura e sociedade estão em
relação geradora mútua; nessa relação, não podemos esquecer as interações entre
indivíduos, eles próprios portadores ou transmissores de cultura, que regeneram
a sociedade, a qual regenera a cultura. Daí a tese sociológica segundo a qual,
“se a cultura contém um saber coletivo acumulado em uma memória social, se é
portadora de princípios, modelos, esquemas de conhecimento, se gera uma visão
de mundo, se a linguagem e o mito são partes constitutivas da cultura, então a
cultura não comporta somente uma dimensão cognitiva: é uma máquina cognitiva
cuja práxis é cognitiva”.
É
neste sentido próprio de saber cognitivo que uma cultura abre e fecha as
potencialidades bioantropológicas do conhecimento. Ela as abre e atualiza
fornecendo aos indivíduos o seu saber acumulado, a sua linguagem, os seus
paradigmas, a sua lógica, os seus esquemas, os seus métodos de aprendizagem,
métodos de investigação, de verificação, etc., mas, ao mesmo tempo, ela as
fecha e inibe com as suas normas, regras, proibições, tabus, o seu
etnocentrismo, a sua autossacralização, a sua ignorância de ignorância.
Ainda aqui, o que abre o conhecimento é o que fecha o conhecimento. Desde o seu
nascimento, o ser humano conhece não só por si, para si, em função de si, mas,
também pela sua família, pela sua tribo, pela sua cultura, pela sua sociedade,
para elas, em função delas. Assim, o conhecimento de um indivíduo alimenta-se
de memória biológica e de memória cultural, associadas na própria memória, que obedece
a várias entidades de referência, diversamente presentes nela. Tudo o que é
linguagem, lógica, consciência, tudo o que é espírito e pensamento,
constitui-se na encruzilhada dialógica entre dois princípios de tradução, um
contínuo, o outro descontínuo (binário).
De fato as
aptidões individuais que são organizadoras do cérebro humano necessitam de condições
socioculturais para se atualizarem, as quais necessitam das aptidões do
espírito humano para se organizarem individual e socialmente. A cultura está
nos espíritos, vive nos espíritos, os quais estão na cultura, vivem na cultura.
Meu espírito conhece através da minha cultura, vivem na cultura. Meu espírito
conhece através da minha cultura, mas, em certo sentido, a minha cultura
conhece através do meu espírito. Assim, portanto, as instâncias produtoras do
conhecimento se coproduzem umas às outras; há uma unidade recursiva complexa
estabelecida entre produtores e produtos do conhecimento, ao mesmo tempo em que
há relação hologramática entre cada uma das instâncias, cada uma
contendo as outras e, nesse sentido, cada uma contendo o todo enquanto todo.
Falar em complexidade é falar de interação simultaneamente complementar,
concorrente, antagônica, recursiva e hologramática entre essas instâncias
cogeradoras do reconhecimento. Mas não é apenas essa complexidade que
permite compreender a possível autonomia relativa do espírito e no sentido
técnico do cérebro individual.
Como
artista, John Lennon demonstrava sua vontade de expressão com músicas cada vez mais
experimentais e letras que deveriam ser entendidas mais pela associação de
ideias do que pela sua coerência. Em 1971, foi lançada sua canção reconhecida, Imagine,
cuja letra é simples e direta. Apesar de usar imagens simplórias, como o
convite a imaginar um mundo sem fronteiras, sem religiões e onde se viva em
fraternidade constante, a música não deixa de ser um coroamento de sua
ideologia utópica. Lennon não se importava com a impossibilidade prática de sua
proposta, porque sabia que a arte não pode se limitar a isso, mas também não se
sentia impedido de tentar levar seu pensamento utópico para a práxis. Suas
manifestações políticas com Yoko Ono, seja no Bed-in, em que passaram
dias sobre uma cama dando entrevistas pregando a paz, seja apoiando
explicitamente os Panteras Negras, grupo norte-americano que consagrava
a luta armada contra o racismo, podem ser contraditórias, mas eram também um aspecto
fulminante de sua tentativa de refletir e almejar na prática uma sociedade
igualitária.
Autorizada
por Yoko Ono, “As Cartas de John Lennon”, de autoria do jornalista Hunter
Davies, é uma biografia inédita de John Lennon realizada por meio de cartas: para a
família, namoradas, amigos, jornais, advogados, incluindo a lavanderia. As
quase 300 cartas, cartões, notas, bilhetes, telegramas, listas diversas, foram
arranjadas em ordem cronológica, sempre precedidas de informações complementares
do escritor Hunter Davies. Todas com um tom cômico, sábio, poético e muitas
vezes comovente. Poucos sabem da reação de John Lennon à maioria das emoções,
fosse tristeza, alegria, raiva ou entusiasmo: “A Ars Dictaminis”. Nascido em
1936 na Escócia, Davies tornou-se mundialmente conhecido ao escrever a única
“biografia autorizada” dos Beatles. Autor de dezenas de biografias, romances e
contos infantis, ele colabora profissionalmente nas redações do “The New
Statesman”, “The Sunday Times” e “Daily Mail”. Em setembro de 2002, Davies
relançou “The Beatles”, sua mais famosa obra. Depois de trinta anos do livro
original, foram acrescentados à nova versão novos fatos sobre o que aconteceu
depois de 1968, na vida dos Beatles, como a morte de John Lennon, o casamento
de Paul McCartney, a morte de George Harrison suas carreiras e seus sucessos, e
como os quatro Beatles influenciam milhões de pessoas pelo mundo.
Nascida
numa família rica, Yoko Ono teve oportunidade de estudar em Gakushin, uma das
mais exclusivas escolas do Japão. Durante este período estudou também piano
clássico e canto. Na 2ª guerra mundial deslocou-se frequentemente entre cidades
do Japão e Estados Unidos até 1952, quando se mudou definitivamente para Nova
Iorque. A partir de então frequentou a faculdade de música Sarah Lawrence, onde
conheceu importantes músicos de vanguarda, que posteriormente seriam inspiração
para o surgimento do grupo “Fluxus”, entre eles John Cage. Em 1956 casa-se,
contra a vontade de seus pais, com Toshi Ichiyanagi e com ele divide um loft em
Manhattan, o qual, pouco tempo depois, tornar-se-ia laboratório para as
“performances” de Yoko e as experiências sonoras de John Cage. Rejeitando o
auxílio financeiro da família, começa a lecionar arte japonesa e música em
escolas públicas.
Com
a repercussão de suas obras, Yoko é convidada em 1966 a realizar uma exposição
individual. Nesta exposição, foi exposta a obra: “Ceiling Painting”, uma
instalação na qual uma escada conduz o observador até um vidro no teto, onde há
uma lupa presa para que se leia a pequena inscrição: “Yes!”. O músico John
Lennon, então membro da banda The Beatles, estava presente à exposição, e seu
encantamento com a obra despertou interesse pela produção artística de Ono. A
inspiração para a instalação ocorreu quando acordou certo dia ela notou que
Anthony Cox, seu ex-marido, não estava lá, não havia voltado na noite passada,
deixando uma sensação de “estar pela metade”. A partir do fim da década de
1960, Yoko Ono e John Lennon começam a produzir composições de vanguarda.
Lennon se separa de sua primeira esposa, casa-se com Yoko em março de 1969. Em
9 de outubro de 1975, nasce o filho do casal, Sean.
Desnecessário
dizer Yoko Ono é mais do que a viúva de John Lennon. Cantora e artista
plástica vanguardista japonesa, Yoko foi uma das integrantes do grupo Fluxus – movimento que combinava “happenings”,
“performances”, fotografias, colagens, objetos, concertos musicais e festivais “multimidiáticos”
e que obteve projeção nos anos 1960. Voltada para a arte conceitual, ela é considerada uma das pioneiras na inclusão do
espectador no processo criativo, isto é, um convite ao abandono do
comportamento contemplativo do público e a interação com a obra – uma postura
ativa. Yoko Ono, além de ser uma exploradora da arte conceitual e da
“performance”, também tem uma posição feminista. Viva com seus 82 anos
de idade, canta com o filho, Sean Lennon. - “Na minha idade Featured image eu deveria ser de certo
jeito. Por favor, não me impeçam de ser do jeito que eu sou. Eu não quero ser
velha e doente como muitos da minha idade. Por favor, não criem mais uma pessoa
velha. (…). Deixe-me ser livre. Deixe-me ser eu! Não me façam ficar velha com o
seu pensamento e suas palavras sobre como eu deveria ser. Vocês não precisam ir
aos meus shows. Eu estou entregando uma tremenda energia com minha voz, porque
isso sou eu. Receba a minha energia e se cale…”.
Enfim,
a biografia é um gênero literário em que o autor narra a “história da vida” de
uma pessoa ou de várias pessoas. De um modo geral as biografias contam a vida
de alguém. Em certos casos a biografia inclui aspectos da obra dos biografados,
como por exemplo, Plutarco, em suas Bíoi parálleloii, numa
abordagem muitas vezes de um ponto de vista crítico e não apenas historiográfico.
Em francês, o termo “biographie” é documentado em 1721; no inglês, a palavra “biography”
foi documentada em 1791 e na forma “biografia” já em 1683; em espanhol, “biografia”,
e, em português, biografia, aparecem somente na segunda metade do século XIX. Com o tempo é comum se solicitar a “biodata” de pessoas que produzem trabalhos
artísticos, científicos etc. Este termo remete à vida e às experiências de
trabalho, bem como a itens que revelem suas opiniões, valores, crenças e
atitudes. Os dados estatísticos transcritos nesta
categoria contêm, por muitas vezes, o tipo da informação ou conteúdo de sentido que um resumo de trabalho
acadêmico, podendo também incluir a descrição dos atributos físicos e imagens.
Ainda
na Inglaterra, em 1971, John Lennon datilografou uma carta a Paul e Linda que
se tornou conhecida dos estudiosos dos Beatles como “a arenga de John”. Não se
sabe se houve uma versão final, que tenha sido enviada, nem se não passou de
rascunho. Existe uma insinuação de que a carta foi roubada em certo momento.
Ela veio a público em 2001, quando apareceu à venda na Christie’s. Em 2011 ela reapareceu em um leilão na Califórnia. Em
algum momento, alguém recobriu os palavrões – mas dá para vê-los e entendê-los
–, e o próprio John acrescentou palavras e frases à mão. Ele responde a uma
carta aparentemente escrita por Linda, em nome de Paul e dela mesma,
transtornada com as afirmações que John fazia deles, os motivos da separação, a
origem dos Beatles. John Lennon demonstra-se constrangido por ter aceito a Master in Business Administration, e “por ter deixado ser convencido
a não revelar seu desejo de se separar dos Beatles”. Sente-se magoado com o
modo que ele e Yoko Ono foram tratados –, não apenas pelos músicos Linda e
Paul McCartney. Ele estava furioso com tanta coisa que a carta, concreta ou abstrata, em sua forma histórica-documental “transpira raiva”.
Bibliografia geral consultada.
HELLER, Agnes, Sociologia
della Vita Quotidiana. Roma: Editore Riuniti, 1975; DUMONT, Louis, “Casta,
Racismo e Estratificação”. In: Hierarquias em Classes. Org. por Neuma
Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974; DURAND, Gilbert, Science de l’
Homme et Tradition. Paris: Berg International, 1979; SAID, Edward, Orientalismo:
O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Editora Companhia das
Letras, 1990; BENJAMIN, Walter, Magia e Técnica, Arte e Política. Obras
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político
(UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará.