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quarta-feira, 3 de maio de 2023

Meu Nome é Sara – Confissão, Partisans & Vida Aterrorizada.

                                                  “O normal e os estigmatizados não são pessoas, mas perspectivas”. Erving Goffman  

     

          A confissão permanece ainda hoje, a matriz geral que rege a produção do discurso verdadeiro sobre o sexo. Entretanto, ela se transformou consideravelmente. Durante muito tempo permaneceu solidamente engastada na prática da penitência. Mas, pouco a pouco, a partir do protestantismo, da Contra-Reforma, da pedagogia do século XVIII e da medicina do século XIX, perdeu sua situação ritual e exclusiva: difundiu-se, foi utilizada em toda uma série de relações sociais: crianças e pais, alunos e pedagogos, doentes e psiquiatras, delinquentes e peritos. As motivações sociais e os efeitos dela esperados se diversificaram, assim como as formas que toma: interrogatórios, consultas, narrativas autobiográficas ou cartas, que são consignados, transcritos, reunidos em fichários, publicados e comentados. Mas a confissão se abre, senão a outros domínios, pelo menos a novas maneiras de percorrer tais domínios. Não se trata somente de dizer o que foi feito – o ato sexual – e como; mas de reconstituir nele e a seu redor, os pensamentos e as obsessões que o acompanham, as imagens, os desejos, mas modulações e a qualidade do prazer que o contém. Pela primeira vez, segundo Foucault (1984: 62-67), uma sociedade se inclinou a solicitar e ouvir a confidência dos prazeres individuais. Disseminação, dos procedimentos de confissão, localização múltipla de sua coerção, extensão de seu domínio: constituiu-se, progressivamente, um grande arquivo dos prazeres do sexo.  

            Durante muito tempo, à medida que se constituía, tal arquivo apagou-se. Passou sem vestígios, pois assim o desejava a confissão cristã, até que a medicina, a psiquiatria, e também a pedagogia, começaram a solidificá-lo: Campe, Sazmann, depois Kaan, Kraft-Ebing, Tardieu, Mole e Havelock Ellis reuniram com cuidado toda esta pobre lírica do despropósito sexual. Ellis desenvolveu outros conceitos psicológicos importantes, tais como autoerotismo e narcisismo, os quais foram posteriormente aprofundados pelas pesquisas realizadas por Sigmund Freud. Assim as sociedades ocidentais começaram a manter o registro infinito de seus prazeres. Estabeleceram o herbário, instauraram a classificação desses prazeres; descreveram tanto as deficiências cotidianas quanto as estranhezas ou as exasperações. Momento importante: é fácil rir dos psiquiatras do século XIX, que se desculpavam, com ênfase, dos horrores a que tinham, que dar a palavra, evocando os “atentados aos costumes” ou as “aberrações dos sentidos genésicos”. A “ciência do sexo” no século XIX se organizaria tendo como representação a fisiologia da reprodução e como medicina da sexualidade. Nesse momento os prazeres mais singulares eram solicitados a sustentar um discurso de verdade sobre si, discurso que deveria articular-se não mais aquele que fala do pecado e da salvação, da morte e da eternidade – mas ao que fala do corpo e da vida – o discurso da proeminência da ciência nas sociedades. 

Bastava para tornar trêmulas as palavras; constituía-se, então, essa coisa improvável: uma ciência-confissão, ciência que se apoiava nos rituais da confissão e em seus conteúdos, ciência que supunha essa extorsão múltipla e insistente e assumia como objeto o inconfessável-confesso. Escândalo, e, em todo caso, repulsão do discurso científico, institucionalizado no século XIX, quando assumiu todo esse discurso inferior. Paradoxo e metodológico também: as longas discussões sobre a possibilidade de constituir uma ciência do sujeito, a validade da introspecção, a evidência da experiência, ou a presença para si da consciência respondia em dúvida, a esse problema que era inerente ao funcionamento dos discursos de verdade, em nossa sociedade: poder-se-ia articular a produção da verdade, segundo o velho modelo jurídico-religioso da confissão e a extorsão da confidência segundo a regra do discurso científico?  Deixemos falar aqueles que acreditam que a verdade do sexo foi elidida mais rigorosamente do que nunca, no século XIX, por um temível mecanismo de barragem e por um déficit central do discurso. Déficit não, mas digamos, sobrecarga, reduplicação de discursos, mais exagerada do que insuficiente; em todo caso, interferência entre duas modalidades de produção da verdade: os procedimentos da confissão e a discursividade científica. E em vez de contar os erros e as ingenuidades dos moralistas que, no século XIX, povoaram os discursos de verdade sobre o sexo, seria melhor delimitar os procedimentos pelos quais essa vontade de saber relativa ao sexo, que caracteriza o Ocidente moderno, fez funcionar os rituais da confissão nos esquemas da regularidade científica; de que maneira se chegou a constituir essa imensa e tradicional extorsão de confissão sexual em formas científicas?

1. Através de uma codificação clínica do “fazer falar”; combinar a confissão com o exame, a narração de si mesmo com o desenrolar de um conjunto de sinais e de sintomas decifráveis; o interrogatório cerado, a hipnose com a evocação das lembranças, as associações livres: eis alguns meios para reinscrever o procedimento da confissão num campo de observações cientificamente aceitáveis. 2. Através do postulado de uma causalidade geral e difusa: o dever de dizer tudo e o poder de interrogar sobre tudo encontrarão sua justificação no princípio de que o sexo é dotado de um poder causal inesgotável e polimorfo. O acontecimento mais discreto na conduta sexual – acidente ou desvio, déficit ou excesso – é, supostamente, capaz de provocar as consequências mais variadas ao longo de toda a existência; não há doença ou distúrbio para os quais o século XIX não tenha imaginado pelo menos uma parte da etiologia sexual. O princípio do sexo “causa de tudo e de nada” é o inverso teórico de uma exigência técnica: fazer funcionar numa prática de tipo científica os procedimentos de uma confissão que, ao mesmo tempo, deveria ser total, meticulosa e constante. Os perigos ilimitados que o sexo traz consigo justificam o caráter exaustivo da inquisição a que é submetido. 3. Através de um princípio de latência intrínseca à sexualidade: se é preciso arrancar a verdade do sexo por meio da técnica da confissão, não é, simplesmente, porque ela seja difícil de dizer, ou porque esteja submetida às interdições da decência. O funcionamento do sexo é obscuro; porque escapar faz parte de sua natureza e sua energia, assim como seus mecanismos esquivam; porque seu poder causal é, em parte, clandestino.  

O século XIX desloca a confissão ao integrá-la a um projeto de discurso científico; ela não tende mais a tratar somente daquilo que o sujeito gostaria de esconder, porém, daquilo que se esconde ao próprio sujeito, e que só se pode revelar progressivamente e através de uma confissão da qual participam o interrogador e o interrogado, cada um por seu lado. O princípio de uma latência essencial à sexualidade permite articular a coerção de uma confissão a uma prática científica. É bem preciso arrancá-la, e à força, já que ela se esconde. 4. Através do método da interpretação: não é somente porque aquele que ouve tem o poder de perdoar, de consolar e de dirigir que é necessário confessar. É que o trabalho da verdade a ser produzida, caso se queira validá-lo cientificamente, deve passar por essa relação. A verdade não está unicamente no sujeito, que a revelaria pronta e acabada ao confessá-la. Ela se constitui em dupla tarefa: presente, porém incompleta e cega em relação a si própria, naquela que fala, só podendo completar-se naquele que a recolhe. A este incumbe a tarefa de dizer a verdade dessa obscura verdade: é preciso duplicar a revelação da confissão pela decifração daquilo que ela diz. Aquele que escuta não será simplesmente o dono do perdão, o juiz que condena ou isenta: será o dono da verdade. Sua função é hermenêutica. Seu poder em relação à confissão não consiste somente em exigi-la, antes dela ser feita, ou em decidir após ter sido proferida, porém em constituir, através dela e de sua decifração, um discurso de verdade. O século XIX tornou possível fazer funcionar os procedimentos de confissão na formação regular de um discurso científico, fazendo dela não mais uma prova, mas um sinal e, da sexualidade, algo a ser interpretado. 5. Através da medicalização dos efeitos da confissão: a obtenção da confissão e seus efeitos são recodificados na forma de operações terapêuticas.

O que significa, inicialmente, que o domínio do sexo não será mais colocado, exclusivamente, sob o registro da culpa e do pecado, do excesso ou da transgressão e sim no regime que, aliás, nada mais é do que sua transposição do normal e do patológico; define-se pela primeira vez, uma morbidez própria do sexual; o sexo aparece como um campo de alta fragilidade patológica: superfície de repercussão para outras doenças, mas também centro de uma nosografia própria, a do instinto, das tendências, das imagens, do prazer e da conduta. O que quer dizer, também, que a confissão ganhará sentido e se tornará necessária entre as intervenções médicas: exigida pelo médico, indispensável ao diagnóstico e eficaz, por si mesma na cura. A verdade cura quando dita a tempo, quando dita a quem é devido e por quem é, ao mesmo tempo, seu detentor e responsável.  Enfim, consideremos os grandes marcos históricos: em ruptura com as tradições da ars erotica, nossa sociedade constituiu uma scientia sexualis. Mais precisamente atribuiu-se a tarefa de produzir discursos verdadeiros sobre o sexo, e isto tentando ajustar, não se dificuldade, o antigo procedimento da confissão às regras do discurso científico. A scientia sexualis, desenvolvida a partir do século XIX, paradoxalmente, guarda como núcleo o singular rito da confissão obrigatória e exaustiva, que constituiu, no Ocidente cristão, a primeira técnica para produzir a verdade do sexo. Desde o século XVI este rito fora desvinculado do sacramento da penitência e, por intermédio da condução das almas e da direção espiritual – ars artium – emigrou para a pedagogia, para as relações entre adultos e crianças, para as relações familiares, a medicina e a psiquiatria. Nas relações de poder, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade: utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de apoio, de articulação às mais variadas estratégias.

Em todo caso, há quase cento e cinquenta anos, um complexo dispositivo foi instaurado para produzir discursos verdadeiros sobre o sexo: um dispositivo que abarca amplamente a história, pois vincula a velha injunção da confissão aos métodos da escuta clínica. E, através desse dispositivo, pode aparecer algo como a “sexualidade” enquanto verdade do sexo e de seus prazeres. A “sexualidade” é o correlato dessa prática discursiva desenvolvida lentamente, que é a scientia sexualis. As características fundamentais dessa sexualidade não traduzem uma representação mais ou menos confundida pela ideologia, ou um desconhecimento induzido pelas interdições; correspondem às exigências funcionais do discurso que deve produzir sua verdade. No ponto de interseção entre uma técnica de confissão e uma discursividade científica, lá onde foi preciso encontrar entre elas alguns grandes mecanismos de ajustamento (técnica de escuta, postulado de causalidade, princípio de latência, regra da interpretação, imperativo de medicalização), a sexualidade foi definida como sendo, “por natureza”, um domínio penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização; um campo de significações a decifrar; um lugar de processos ocultos por mecanismos específicos; um foco de relações causais infinitas, uma palavra obscura que é preciso, em tempo, desencavar e escutar. A história da sexualidade – que funcionou no século XIX como domínio de verdade específica – deve ser feita do ponto de vista de uma história dos discursos. O filme My Name is Sara, também reconhecido como The Occupation, é um drama biográfico norte-americano de 2019, dirigido por Steven Oritt, estrelado por Zuzanna Surowy, Eryk Lubos e Michalina Olszańska. 

É baseado na vida da sobrevivente do Holocausto, Sara Góralnik, a menina polonesa e judia que, aos 13 anos de idade, perde a família, vítima dos nazistas, e vai para a Ucrânia com a identidade de outra pessoa. Lá, ela é acolhida por fazendeiros, mas descobre segredos sombrios de seus novos amigos. Os partisans judeus participaram do movimento de resistência judaica contra a Alemanha nazista e seus colaboradores durante a devastadora 2ª guerra mundial (1939-1945). Eles lutaram militarmente constituindo-se com a formação de grupos nas florestas. Partisan é um membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada região. Os partisans operavam atrás das linhas de frente inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação política, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem durante a guerra imperialista. O termo é reconhecido durante a guerra global para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã, principalmente no Leste Europeu. Na Iugoslávia, o movimento partisan, liderado pelo guerrilheiro comunista Josip Broz Tito (1892-1980), foi responsável por quase toda a resistência contra o Eixo e ainda teve de lutar contra os croatas fascistas da Ustaše, aliados dos nazistas. Tito tornar-se-ia o presidente do país unificado. Ele nasceu com filiação de pai croata e mãe eslovena na aldeia de Kumrovec, historicamente no âmbito da formação da Áustria-Hungria, atualmente Croácia.

          Aldeia de Kumrovec pertence ao condado de Zagorje-Krapina. Ele está localizado no Noroeste da Croácia, na fronteira com a Eslovénia. A aldeia tem menos de 300 habitantes, enquanto o município de Kumrovec tem cerca de 1500. Esta aldeia está escondida no verde das colinas croatas de Zagorje, perto do rio Sutla. A apenas uma hora de carro de Zagreb fica Kumrovec, que podemos chamar de museu rural. Sendo o berço do lendário Josip Broz Tito, e escondendo vistas interessantes como um monumento ao hino nacional croata, não admira que Kumrovec seja famosa entre turistas locais e internacionais. Kumrovec possui uma riqueza de coleções e exposições históricas. A aldeia étnica Staro Selo parece exatamente como a era que representa - o final do século XIX e o início do século XX. O museu “ao ar livre” apresenta-lhe a vida e os costumes tradicionais do povo de Zagorje. O Memorial de Jasenovać, atualmente dirigido por Slavko Goldstein, possui uma lista de 59 188 nomes de vítimas desse local; essa lista foi compilada por assessores do governo comunista iugoslavo. Como esse processo foi algo impreciso, estima-se que a lista mencione entre 60 e 75% do total de vítimas, elevando o número de mortos nesse complexo à faixa entre oitenta e cem mil. O antigo administrador do Memorial, Simo Brdar, é um diretor, historiador e poeta de Kozarska Dubica e sua esposa Karina, famosa professora e atriz lituana, organizaram  programas que afirmam a cultura lituana, russa e sérvia no Ginásio Aleksandar Pushkin, em Kaunas, quando estimou em torno de 365 mil mortos em Jasenovac.

            As análises dos estatísticos Vladimir Žerjavić e Bogoljub Kočović são similares às do memorial. Em toda a Iugoslávia, o número estimado de mortes de sérvios chega a 487 mil, de acordo com Kočović, e 530 mil segundo Žerjavić, de um total de 1 014 000 ou 1 027 000 mortos, respectivamente. Žerjavić declarou que 197 mil civis sérvios foram assassinados no NDH, sigla em croata para o Estado Independente da Croácia, sendo 78 mil como prisioneiros em Jasenovac, bem como 125 mil combatentes dessa etnia. No entanto, esses dados foram acusados como sendo artificialmente inflados devido ao crescimento do nacionalismo sérvio. Žerjavić e Kočović estimaram a taxa de crescimento populacional dos sérvios na Bósnia, dentro do Estado Independente da Croácia, como 1,1%, a mesma taxa média de crescimento da Iugoslávia como um todo. Na verdade, a taxa de crescimento era de 2,4% entre 1921 e 1931, passando para 3,5% entre 1949 e 1953; acredita-se que eles tenham subestimado a taxa de crescimento populacional sérvia para diminuir a contagem de mortos dessa etnia. O Museu do Holocausto de Belgrado compilou uma lista de mais de 77 mil nomes de vítimas de Jasenovac. O museu era dirigido por Milan Bulajić – que apoiava uma estimativa de setecentas mil vítimas ao todo. Atualmente, o museu defende que o número de mortos está na casa dos oitenta mil. Os primeiros campos de concentração Ustaše foram formados em 1941 e dissolvidos em outubro de 1942. O complexo de Jasenovac foi construído entre agosto de 1941 e fevereiro de 1942. Os campos de concentração anteriores, Krapje e Bročica, foram fechados em novembro de 1941. Outros três campos (Ciglana, ou Jasenovac III), Kozara (Jasenovac IV) e Stara Gradiška (Jasenovac V) funcionaram até o final da ocupação, em 1944. O número de prisioneiros segundo estimativas varia de oitenta a 100 mil, trezentos a 350 mil até 700 mil em contextos de interação social e política e de reestruturação de tempo-espaço.

        A palavra estatística deriva do Neolatim Statisticum Collegium: Conselho de Estado, do Italiano “statista” compreendido na literatura como “estadista” ou “político”. O alemão Statistik, introduzido por Gottfried Achenwall em 1749, designava “a análise de dados sobre o Estado”, significando a “ciência do Estado” então chamada “Aritmética Política” (“political arithmetic”). Gottfried Achenwall (1719-1772), historiador e jurista alemão, é considerado um intelectual que mais significativamente contribuiu para o desenvolvimento da Statistik - uma ciência que guarda muito poucas relações com a atual estatística, pois concernia à descrição abrangente das características sócio-político-econômicas dos diferentes Estados. Achenwall estudou nas universidades de Jena, Halle e Leipzig, sendo nomeado em 1748, docente junto à Universidade de Göttingen. Por mérito em 1761, obteria nesta mesma universidade o cargo de professor de Direito Natural e Política. A sua obra mais relevante sobre a relação entre estatística e Estado é o  “Abriß der neuen Staatswissenschaft der vornehmen Europäischen Reiche und Republiken” (1749), título que seria alterado posteriormente para “Staatsverfassung der Europäischen Reiche im Grundrisse”.

Na pesquisa a palavra adquiriu o significado usual de coleta e classificação de dados em geral através de Sir John Sinclair (1754-1835). O propósito original da “statistik” que era fornecer os dados a serem usados pelo governo e organizações sociais se restringe na modernidade à coleta de dados sobre Estados nacionais e regiões, em grande parte através de órgãos estatísticos nacionais e internacionais, em particular, os censos demográficos obtidos de instituições privadas que fornecem dados regulares sobre as populações, Adolphe Quételet (1796-1874), em suas obras: “Recherches sur la population, les naissances, les décès, les prisons, les` dépôts de mendicité, etc., dans le royaume des Pays-Bas` (1827), “Sur l`homme et le developpement de ses facultés, essai d`une physique sociale” (1835), “Sur la statistique morale et les principes qui doivent en former la base” (1848), “Anthropométrie, ou Mesure des différentes facultés de l`homme” (1870) contribuíram notadamente para os estudos criminológicos. Os jornais contemporâneos coletam dados de ocorrências desse tipo de crime desde que a contagem estatística começou a ser disponibilizada na forma de “Crimes Violentos Letais Intencionais” (CVLIs).

O pensamento queteletiano está fundado na ideia de que a ciência moderna é a via mais elevada para o acesso ao conhecimento das leis divinas que regem o mundo tanto natural como social, bem como o único conhecimento que possibilita a intervenção do ser humano no mundo, o que torna a ciência um conhecimento necessário para o governo dos homens. Em seu primeiro livro, publicado em 1835, considerou o homem enquanto parte de uma espécie e, assim, formulou o conceito de homem médio: “a medida de todos os homens”. Para tanto, considerou não apenas a média aritmética de medida e peso dos homens, mas, principalmente, suas dispersões e concluiu que a “curva normal” poderia ser acomodada às médias aritméticas. Assim, desenvolveu o conceito da estatística, analisando pormenorizadamente a teoria da probabilidade, abordando o problema da carência de organização na coleta de dados que pudessem satisfatoriamente demonstrar as características sociais de um povo ou uma nação. Em 1846, propôs a organização de censos. Exemplificou seu estudo estatístico do chamado “homem médio” com a criminalidade social, que apresentaria resultados habituais em relação a diferentes países e classes sociais, estudo esse que seria a “Pesquisa sobre a Propensão de Cometer Crimes em Diferentes Idades”.

          A palavra ustaše é plural de ustaša, e descreve uma pessoa que participa de um ustanak, levante, em croata. Os ustaše tinham como objetivo estabelecer uma Croácia pura do ponto de vista racista – assim sendo, pessoas de origem sérvia e bósnia eram seu principal alvo. Sobre essa forma de genocídio, os ministros Mile Budak, Mirko Puk e Milovan Žanić declararam, em maio de 1941, que as três principais metas Ustaše eram: converter um terço dos sérvios ao catolicismo; exterminar um terço dos sérvios residentes na Croácia; expulsar/deportar o terço restante. Uma contradição da ideologia nazifascista seguida pelos Ustaše era o fato etno-histórico de que os croatas são de etnia eslava e, portanto, considerados racialmente inferiores aos olhos dos mentores nazistas. Assim, os ideólogos Ustaše elaboraram uma teoria sobre a suposta origem “gótica” dos croatas, visando melhorar seu status aos olhos dos alemães. Para os ustaše, os bósnios eram considerados croatas islâmicos. Estes não eram formalmente perseguidos pelos ustaše; inclusive, alguns alistaram-se em divisões das Waffen-SS nazistas, como a divisão Handschar, comandada por Amin al-Husayni, e a Kama, chefiada por Edmund Glaise von Horstenau, então adido militar do Terceiro Reich na Croácia e pelo coronel Viktor Pavicic. Os princípios básicos do movimento ustaše foram enunciados por Ante Pavelić (1889-1959) em seu manifesto Princípios do Movimento Ustaše, em 1929.

O maior e mais famoso deles foi o de Jasenovać, comandado por Dinko Sakić que fugirá para a Argentina ao final da guerra, sendo descoberto e levado a julgamento em solo croata em 1998, condenado a vinte anos de prisão. Não se sabe ao certo o número exato das vítimas dos ustaše, e as estimativas existentes confirmam que dezenas ou até mesmo centenas de milhares de inocentes foram mortos com a disseminação desses campos de concentração, ou mesmo fora deles. Mas o número de judeus mortos é bastante confiável: 32 mil pereceram em território croata durante a 2ª guerra mundial. Mais de 40 mil ciganos iugoslavos também vieram a ser assassinados; com relação ao número de sérvios vitimados pelos Ustaše, as estimativas estão aproximadas entre 172 mil a 197 mil. As atrocidades cometidas pelos ustaše eram tão grotescas que horrorizaram até mesmo os nazistas, que tiveram que intervir para frear o terrorismo ustaše. Livros didáticos de História editados durante o regime comunista na Iugoslávia afirmam que o número de vítimas dos ustaše chega a 700 mil pessoas somente em Jasenovać. Este número foi citado com base em um cálculo de perdas demográficas de população, a diferença entre a população atual e a de formação do período bélico pré-guerra, somando-se aí um eventual crescimento populacional impedido pelo conflito.

Era Poglavnik, o equivalente de Führer ou Duce em servo-croata. Após a invasão pela Alemanha nazista em 6 de abril de 1941, a Jugoslávia foi desmembrada e Ante Pavelić tornou-se o líder do Estado Independente da Croácia. Pavelić tratou então de dar forma ao plano Ustaše para a “purificação” do seu novo país, segundo a célebre fórmula do deputado Mile Budak: “matar um terço, exilar um terço e converter o outro terço” da população sérvia ao Catolicismo. Campos de concentração tais como o de Jasenovac foram estabelecidos e a Legião Negra Ustaše varria as vilas da Sérvia a “pente fino”, prendendo os judeus e ciganos que encontravam. Ante Pavelić logo estabeleceu uma “nova ordem”, baseado no culto da nação, do Estado e sua figura. Pavelić promoveu o culto da personalidade, aparecendo como o “reviver da Croácia” e dando a impressão político-ideológica de que “a Independência era unicamente devido a seu trabalho duro e sacrifício”. Estabeleceu um novo juramento de fidelidade ao novo estado, obrigatório para todos os funcionários do país, Pavelić incluído como representante da soberania nacional. A ditadura perseguiu caracteristicamente judeus, sérvios, ciganos, homossexuais e da oposição croata especialmente comunistas. Clara Stauffer não aparece como uma mentira. Com dinheiro, com energia, com contatos, com ideologia, com duplicidades como espanhola e alemã, nazista e falangista, esportista de competição e propagandista da opressão da Seção Feminina - braço do partido fascista Falange Espanhola -, generosa com os seus e implacável com o restante da humanidade, “ela comandou de seu apartamento madrilenho uma rede clandestina que ajudou 800 criminosos de guerra a burlar a Justiça internacional a partir de 1945” (cf. Constela, 2017).

O fervor por justiça, que foi diminuindo à medida que esquentava a chamada Guerra Fria (1947-1991) e “esfriava” a 2ª guerra mundial (1939-1945), chegou a “salpicar” a própria Clara, também reconhecida como Clarita. Ela foi a única mulher que figurou na lista de 104 pessoas que o Conselho de Controle Aliado pediu em 1947 ao ministro espanhol dos Assuntos Exteriores, Alberto Martín-Artajo (1905-1979), que fossem entregues para julgamento. Nem Clara, filha do diretor da cervejaria Mahou e íntima amiga e correligionária da dirigente falangista Pilar Primo de Rivera, ou outra da lista foram entregues pelo regime de Franco, que protegeu alguns dos mais seletos membros da indústria de extermínio do Terceiro Reich, do croata Ante Pavelic ao belga Léon Degrelle. Depois de passar leis antissemitas, abriu campos de concentração e extermínio como o campo de concentração de Jasenovac, onde foram mortas cerca de 60 mil pessoas. Ao fim da guerra, com a derrota das forças fascistas, Pavelić fugiu para a Áustria e depois para a Itália, chegou a Roma em 1946, disfarçado de monge e usando passaporte espanhol. Durante esse ano e no próximo, ele residiu no Pontificio Collegio Croato Di San Girolamo a Roma. Chegou à Espanha, sob a ditadura de Franco e que abrigou exilados fascistas e nazistas de países. Morreu em hospital alemão em Madri, em 28 de dezembro de 1959, e foi enterrado nesta cidade, no Cemitério de San Isidro.

Os ustaše tentaram exterminar sérvios, judeus, ciganos ou quaisquer outros que a eles se opusessem ou não professassem a fé católica, incluindo-se aí alguns comunistas croatas. Aliando-se às tropas nazistas, em 1941, os ustaše criaram campos de concentração para isolar com base numa política de terror as suas vítimas. O maior e mais famoso deles foi o de Jasenovać, comandado por Dinko Sakić que fugirá para a Argentina ao final da guerra, sendo descoberto e levado a julgamento em solo croata em 1998, condenado a vinte anos de prisão. Não se sabe ao certo o número exato das vítimas dos ustaše, e as estimativas existentes confirmam que dezenas ou até mesmo centenas de milhares de inocentes foram mortos com a disseminação desses campos de concentração, ou mesmo fora deles. Mas o número de judeus mortos é bastante confiável: 32 mil pereceram em território croata durante a 2ª guerra mundial. Mais de 40 mil ciganos iugoslavos também vieram a ser assassinados; com relação ao número de sérvios vitimados pelos Ustaše, as estimativas estão aproximadas entre 172 mil a 197 mil. As atrocidades cometidas pelos ustaše eram tão grotescas que horrorizaram até mesmo os nazistas, que tiveram que intervir para frear o terrorismo ustaše. Livros didáticos de História editados durante o regime comunista na Iugoslávia afirmam que o número de vítimas dos ustaše chega a 700 mil pessoas em Jasenovać. Este número foi citado com base em um cálculo de perdas demográficas, i. e., a diferença respectiva entre a população atual e a de formação do período bélico pré-guerra, somando-se aí um eventual crescimento populacional impedido pelo conflito geracional da guerra.

       Convocado, destacou-se tornando-se sargento-mor mais jovem do Exército Austro-Húngaro. Depois de ser gravemente ferido e capturado pelos russos da 1ª grande guerra (1914-1918), foi enviado para um campo de trabalho nos Montes Urais. Ele participou de alguns eventos da Revolução Russa em 1917 e da subsequente Guerra Civil. Após seu retorno aos Bálcãs em 1918, ingressou no recém-criado Reino da Iugoslávia, onde filiou-se ao Partido Comunista da Iugoslávia (KPJ). Tendo assumido o controle de fato do partido em 1937, foi formalmente eleito secretário-geral em 1939, e posteriormente presidente, cargo que ocupou até sua morte. Durante a 2ª guerra mundial, após a invasão nazista na região beligerante, liderou o movimento guerrilheiro iugoslavo, os Partisans (1941–1945). Movimento de resistência representa o conjunto de iniciativas levado a cabo por um grupo de pessoas que defendem uma causa normalmente política, na luta contra um invasor num país ocupado. O termo pode também se referir a qualquer esforço organizado por defensores de um ideal comum contra uma autoridade constituída. Assim, movimentos sociais de resistência podem incluir qualquer milícia, ou guerrilha de guerrilha armada que luta contra uma autoridade, governo ou administração imposta e estabelecida. No final da guerra, os guerrilheiros com o apoio dos Aliados, desde meados de 1943, assumiram o poder sobre a Iugoslávia. 

A reorganização política da Alemanha após a 1ª grande guerra (1914-18) ficou reconhecida como a República de Weimar, cidade onde foi elaborada a Constituição que deu as novas diretrizes políticas e administrativas ao país. O nazismo articulou-se dentro da República de Weimar com vários partidos políticos e facções paramilitares que fizeram pressão contra o novo poder instituído. Entre essas outras facções, havia o movimento Espartaquista comunista influenciada pela Revolução Russa, de 1917 e liderada por Rosa Luxemburgo. Em 1923, os nazistas articularam um golpe no Estado da Baviera e acabaram sendo presos e condenados. Em 1933, após o parlamento alemão ter sido incendiado e o crime ter sido reportado aos militantes comunistas, os nazistas passaram a pressionar o presidente Paul von Hindenburg (1847-1934) a lhe dar maiores poderes. foi um militar alemão que comandou o Exército Imperial Alemão durante a 1ª grande guerra e posteriormente serviu como Presidente da República de Weimar de 1925 até sua morte. Hindenburg é geralmente lembrado como o homem que, como Presidente alemão, nomeou o líder nazista Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha. Ele e Hindenburg se detestavam, mas ele se referia a Hitler como um “cabo boêmio”.

O filme Meu Nome é Sara (2019), realizado pelo cineasta norte-americano Steven Oritt apresenta a dramatização de um relato etnográfico, protagonizado pela personagem judia Sara Guralnick (Zuzanna Surowy). Após se separar do irmão em uma fuga pelas florestas da Ucrânia, em 1942, Sara assumindo a identidade de uma amiga, Mania Romanchuck, é acolhida pelo casal Nadya (Michalina Olszanska) e Pavlo (Eryk Lubos), que lhe oferece comida e abrigo em troca de trabalho duro nas atividades agrícolas de sua fazenda e nos cuidados com seus dois filhos pequenos. A partir daí inicia-se a dupla ornada, marcada por inúmeras adversidades, pela manutenção de seu segredo, e por consequência de sua própria vida, ao mesmo tempo em que adentra a intimidade de seus “empregadores”, que também escondem seus próprios segredos. A jornada de Sara é resumida a um acúmulo de provações embebidas no processo inevitável de rotinização política, per se baseado na história religiosa, com direito a interpretação de imagens da verdadeira Sara e formas de encerramento sobre os anos seguintes de sua vida. Não que sua história social e política não deva ser respeitada, ignorada, ou ainda que não mereça um retrato à própria altura. Contudo, este oferecido por Oritt raramente consegue romper a particularidade de sua interpretação. Aquele de forma repetida e forçada, pressionou Hindenburg para nomeá-lo como Chanceler, mas este recusou o pedido.

Embora com 84 anos e a saúde precária, Hindenburg foi convencido a candidatar-se a Presidente para as eleições de 1932, pois era considerado o único candidato que podia derrotar o nazista Adolf Hitler. Hindenburg foi reeleito na segunda volta. Embora se opusesse a Hitler, a deterioração da estabilidade política da República de Weimar permitiu-lhe ter um papel importante na ascensão ao poder do Partido Nazi. Hindenburg dissolveu o parlamento, por duas vezes, em 1932, e acabou por nomear Hitler como Chanceler da Alemanha em janeiro de 1933. Em fevereiro, emitiu o chamado Decreto de Fogo do Reichstag que suspendia várias liberdades civis e, em março, assinou a Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933 na qual o parlamento dava à administração de Hitler poderes legislativos. Hindenburg morreu no ano seguinte, após o qual Hitler declarou que o lugar de Presidente ficava vazio e, como “Führer und Reichskanzler”, ele próprio era o Chefe de Estado. Com a morte de Hindenburg, em 1934, o líder nazista agregou à sua tirania pessoal os títulos de chanceler, presidente e Führer dos alemães. 

O regime adota um caráter político absolutamente totalitário. As características principais do nazismo, enquanto ideologia instituída no poder, derivaram-se das ideias neste período após o golpe de Estado. O controle da população por meio da propaganda política era uma de suas principais motivações. O uso do rádio e do cinema foi decisivo para que as ideias nazistas fossem propagadas. O antissemitismo era uma dessas ideias fundamentais. O ódio aos judeus, a quem o líder nazista atribuía a culpa por problemas que a Alemanha enfrentava, sobretudo problemas de ordem econômica, intensificou-se no período de propaganda nazista. Esse fato culminou no Holocausto com a morte de mais de 6 milhões em campos de concentração. Associado ao antissemitismo, estava a noção racista e eugenistas da “superioridade do homem branco germânico”, ou da “raça ariana”, e a construção de um “espaço vital” para que essa raça construísse seu império mundial. Esse espaço vital compreendia vastas regiões do continente europeu, que segundo os planos de mentores nazistas deveriam ser invadidas e conquistadas pelos povos germânicos, já que a raça estava incumbida, por sua pretensa “superioridade”, de se tornar “senhora” sobre os outros povos.  

Dos 9 milhões de judeus que residiam na Europa antes do Shoah, cerca de dois terços foram mortos; estatisticamente mais de 1 milhão de crianças, 2 milhões de mulheres e 3 milhões de homens judeus morreram durante este período. A força policial foi reforçada através da incorporação de membros de organizações paramilitares nazistas como policiais auxiliares. O genocídio nazista contra os judeus representou parte de um conjunto mais amplo de atos de repressão e de assassinatos em massa agregados, e também cometidos pelos nazistas contra vários grupamentos étnicos e políticos entreguerras na Europa, e particularmente alemã. Entre as principais vítimas não judias encontram-se, outrossim, grupos estritos de ciganos, poloneses, comunistas, homossexuais, prisioneiros de guerra soviéticos, Testemunhas de Jeová e portadores de deficiência física. Segundo estimativas recentes, baseadas em números obtidos desde a queda da União Soviética, ou União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS) uma nação comunista entre 1922 e 1991, morreram em torno de 12 milhões de civis. Eslavos e prisioneiros de guerra foram mortos quando, após haverem silenciado-os, expandiram o terror a outros marginalizados.

Bibliografia geral consultada.

RAMA, Carlos, La Ideologia Fascista. Barcelona: Ediciones Jucar, 1979; GOFFMAN, Erving, Estigma - Notas Sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. 4ª edição. São Paulo: Editora LTC, 1981; FOUCAULT, Michel, História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. 5ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984; KASPI, André; PIÉTRI, Nicole; SCHOR, Ralph, Le Deuxième Guerre Mondiale: Chronologie Commentée. Bruxelles: Éditions Complexe, 1995; HOBSBAWM, Eric, Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914-1991. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1995; DUCCIO, Demetrio, Raccontarsi: L`autobiografia come Cura di Sé. Milano: Cortina Raffaello Editore, 1996; ULLMANN, Reinholdo Aloysio, Amor e Sexo na Grécia Antiga. Porto Alegre: Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2007; HERF, Jeffrey, The Jewish Enemy: Nazi Propaganda during World War II and the Holocaust. Cambridge: Editor Belknap Press, 2008; HALIMI, André, La Délation sous l`Occupation. Paris: Le Cherche Mídi, 2010; NARCIZO, Makchwell Coimbra, A Negação do Shoah na História: Uma Análise dos Trabalhos “Negacionistas” enquanto História e o Problema da Administração da Memória. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de História. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2012; LÉVINAS, Emmanuel, Difícil Libertad: Ensayos sobre el Judaísmo. Madrid: Chaparros Editores, 2004; Idem, A Violência do Rosto. São Paulo: Editora Loyola, 2014; JUNQUEIRA, Flávia, A Teatralidade na Vida Cotidiana. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; FERREIRA, Adelino Alcides Abrunhosa, Cuidado de Si e Metanoia em Michel Foucault. Tese de Doutoramento em Filosofia Moral e Política. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2015; BACH, Augusto, Michel Foucault e a História Arqueológica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Metodologia das Ciências. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2016; CONSTENLA, Tereixa, “Clarita, a mulher que ajudou 800 nazistas a fugir da justiça”. In: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/25/; PEREIRA, Rodrigo Serra, Contratos Existenciais: Pressupostos e Consequências. Tese de Doutorado. Faculdade de Direito. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2022; entre outros.

sábado, 5 de agosto de 2017

Um Brinde à Vida - Cinema & Amizade em Berck-Sur-Mer.

                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!”. Sigmund Freud

       

A palavra comuna, na Idade Média, é a designação para a cidade que se tornava emancipada pela obtenção de carta de autonomia fornecida pelo rei. Atualmente, na França, o termo se refere à menor subdivisão administrativa do território. Em Portugal o termo remete às comunas universitárias, residências que formam habitação e clube de estudantes universitários, ou à administração de conselho. É desconhecida da Idade Média em Portugal: os termos que indicam comunidade urbana com personalidade jurídica são ou eram chamados de urbes, burgos, conselhos ou municípios. Berck é uma comuna francesa na região administrativa de Nord-Pas-de-Calais, no departamento de Pas-de-Calais. A comuna francesa representa a unidade básica de organização territorial da França, que perfaz um número considerável em comparação com outros países europeus: 36 681, contra aproximadamente 13 000 na Alemanha, 8 000 na Espanha e na Itália e 4 500 em Portugal. As outras subdivisões territoriais, condicionando os espaço,  um lugar praticado são: o cantão, o arrondissement, o departamento e a região.
As raízes do movimento comunal encontram-se nas aspirações dos burgueses das cidades que queriam liberdade, segurança, isenção de impostos feudais e justiça própria; estas exigências resultavam do desenvolvimento comercial, que era afetado pela rigidez das estruturas feudais. Embora apresentem características semelhantes aos municípios portugueses, nem as cartas comunais francesas são comparáveis a forais, que na maioria dos casos não passam de listas de encargos a satisfazer à coroa pelos conselhos. Nos próprios burgos onde a burguesia mercantil predominava como o Porto, e o grau de sujeição ao rei diminuía dificilmente se poderá falar de “autonomia política” no sentido comunal. As comunas eram grandes unidades de produção rural, abrangendo a agricultura e pequenas indústrias. Cada comuna estruturava-se de forma coletiva e centralizada. Os lotes agrícolas familiares, distribuídos na reforma agrária de 1950, foram eliminados. A terra, colocada sob o controle social das comunas. As comunas organizavam a vida social e a educação das crianças. A implantação desse sistema teve impacto sobre a vida familiar, diminuindo a força tradicional da autoridade paterna.


Inspirado na vida da mãe de seu diretor e roteirista, Jean-Jacques Zilbermann, “Um brinde à vida” (2016) é uma saudação, com uma extraordinária sensação de revelar as complexidades e minudências da vida. - Jean-Jacques Zilbermann s`est inspiré de l`histoire de sa mère, Irène, qui rejoignait ses amies de déportation à la mer, enfin “à Auschwitz-les-Bains”. O longa-metragem parte da experiência concreta dela e outras duas amigas sobreviventes do campo de concentração Auschwitz e acompanha seu reencontro mais de uma década depois da terrível experiência full-time no campo de concentração. Em 1960, três mulheres deportadas de Auschwitz, que não se viam desde o pós-guerra, se reencontram numa praia do norte da França. Durante esses poucos dias, tudo ocorre como uma primeira vez para Helen, Rose, e Lili: as primeiras refeições de verdade juntas, o saborear do sorvete, o primeiro mergulho no mar, uma traição. Uma semana de risos, canções, mas também de conflitos e historias de amor e amizade.

Os primeiros campos nazistas foram erguidos na Alemanha em março de 1933, imediatamente depois que Adolf Hitler se tornou Chanceler e seu Partido nazista recebeu o controle da polícia pelo Ministro do Interior do Reich, Wilhelm Frick, e pelo Ministro do Interior prussiano, Hermann Göring. Usado para aprisionar e torturar adversários políticos e sindicalistas, os campos inicialmente reuniram cerca de 45 mil prisioneiros. As SS de Heinrich Himmler assumiram o controle total da polícia e dos campos de concentração em toda a Alemanha em 1934-35. Himmler expandiu o papel dos campos para manter os chamados “elementos racialmente indesejáveis”, como judeus, deficientes, homossexuais, criminosos e ciganos. O número de pessoas nos campos, que caiu para 7 500, cresceu novamente para 21 000 no início da 2ª guerra mundial e atingiu o pico em 715 000 em janeiro de 1945.

Os campos de concentração foram administrados desde 1934 pela Inspetoria dos Campos de Concentração em 1942 fundida na SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt e eram guardadas pela SS-Totenkopfverbände. Os estudiosos do Holocausto estabelecem uma distinção entre os campos de concentração e os campos de extermínio, que foram estabelecidos pela Alemanha nazista para o assassinato em massa em escala industrial de judeus nos guetos por meio de câmaras de gás. O campo de concentração de Dachau foi criado com a finalidade de deter opositores políticos. O uso da palavra “concentração” emerge da ideia de confinar as pessoas em um só lugar porque pertencem a um grupo que é considerado indesejável de alguma forma. O próprio termo se originou em 1897, quando os “campos de reconcentração” foram criados em Cuba pelo general Valeriano Weyler.

No passado, o governo dos Estados Unidos da América usou campos de concentração contra nativos americanos e os britânicos também os usaram durante a Segunda Guerra dos Bôeres. Entre 1904 e 1908, o Schutztruppe do Exército Imperial Alemão operou campos de concentração no Sudoeste Africano Alemão como parte do genocídio dos hererós e namaquas. Quando os nazistas chegaram ao poder na Alemanha, eles rapidamente se mudaram para suprimir toda a oposição real e potencial. O público em geral foi intimidado pelo terror psicológico arbitrário que era usado pelos Tribunais Especiais (Sondergerichte). Especialmente durante os primeiros anos de existência, quando esses tribunais "tiveram um forte efeito dissuasivo" contra qualquer forma de protesto político.  

O primeiro campo na Alemanha, Dachau, foi fundado em março de 1933. O anúncio da imprensa disse que “o primeiro campo de concentração deve ser aberto em Dachau com acomodação para 5 000 pessoas. Todos os comunistas e - quando necessário - Reichsbanner e social-democratas que põem em perigo a segurança do Estado devem se concentrar ali, visto que a longo prazo não é possível manter os presos nas prisões do governo sem sobrecarregá-las”. Dachau foi o primeiro campo de concentração regular estabelecido pelo governo de coalizão alemão do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista) e do Partido Popular Nacionalista (dissolvido em 6 de julho de 1933). Heinrich Himmler, então Chefe de Polícia de Munique, descreveu oficialmente o lugar como “o primeiro campo de concentração para prisioneiros políticos”.

Do ponto de vista topológico em meio às sequências que nos ajudam a entender melhor essa personagem alçada ao protagonismo, sobretudo suas dificuldades oriundas das cicatrizes de guerra, o diretor Jean-Jacques Zilbermann prepara o terreno para a reunião das mulheres, ponto de virada que traz consigo uma mudança no compasso do longa-metragem. O reencontro de Hèlene, Lily (Johanna ter Steege) e Rose (Suzanne Clément), mediado pela quase onipresença do sol, não mais da sombra claustrofóbica dos campos de concentração, acontece numa cidade do litoral francês que contrasta evidentemente com os cenários lúgubres do cárcere. No que tange ao comportamento das amigas, há uma estratégia bem definida de acordo com a personalidade delas. Hélene é tímida, sente-se impelida a cuidar dos que igualmente sofreram. Lilly lida de forma vaga com o passado, ora falando, ora calando. Rose, por sua vez, ostenta a fina camada de felicidade que esconde uma tristeza profunda. Contudo, Hèlene precisa falar de Auschwitz, recordar as circunstâncias que Rose quer deixar completamente para trás, se possível trancadas a sete chaves no recôndito da memória. Lily prefere questionar os preceitos do judaísmo, fazendo às vezes de mediadora, quando não de figura materna.
As primeiras cenas de Um Brinde à Vida ocorrem em Auschwitz, naqueles dias em que os alemães esvaziam o famigerado campo de concentração. Entre execuções e o terrorismo das experiências que ainda ditavam as regras no ocaso do lugar de ódio e crueldade, duas amigas tentam fazer com que uma terceira se junte a elas na chamada “Marcha da Morte”, episódio histórico que marcou a transferência dos judeus para outros campos nazistas, onde aparentemente tinham chances de sobreviver. Esse prólogo marcado pela opressão totalitária e por uma imagem cuja concepção revela a atrocidade revivida pela memória não é exatamente um filme marcadamente sisudo. Mas é no âmbito da memória fustigada que acompanhar a démarche de Hèlene (Julie Depardieu), que tenta a todo custo retomar contato com as amizades construídas durante a barbárie nos faz entender o processo e as mazelas de reconstituição da memória. Ela se casa com um homem marcado pela violência física da intolerância dos partidários de Hitler e anuncia recorrentemente num jornal a busca por suas companheiras de degredo.
Metodologicamente a memória representa o armazenamento de informações e fatos obtidos através de experiências ouvidas ou vividas. A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a passagem do tempo. É um processo que conecta pedaços de memória e reconhecimentos a fim de gerar novas ideias, ajudando através dos detalhes a tomar decisões diárias. A corrupção da consciência, fenomenologicamente falando, no sentido que emprega Merleau-Ponty funciona como a “essência da consciência para o mal”, ou, “essência da percepção para o mal”, posto que: a consciência só começa a ser determinando um objeto, e mesmo os fantasmas de uma “experiência interna” só é possível por empréstimo à experiência externa. Memória, segundo diversos estudiosos, desde Hegel e Marx à maturação da hermenêutica filosófica, desde à compreensão da sociologia e à aproximação com a psicanálise freudiana é factualmente a base do conhecimento humano. E como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao cotidiano da vida privada e acumulamos nossas experiências para utilizarmos com eficácia durante a vida.
A realização de Jean-Jacques Zilbermann consegue aproveitar plenamente o potencial da temática, principalmente nessa interessante proposta de apresentar faces distintas de um mesmo anseio, o de mitigar as dores da guerra, ora através da religião e seus símbolos, ora através da transgressão sexual, como ocorre nas cenas de sexo dentro do banheiro químico na comuna francesa de Nord-Pas-de-Calais. Freud tinha uma concepção psicológica do ser humano. Sua teoria é de grande influência na psicologia atual e, além do contínuo debate sobre sua aplicação no tratamento médico, também é, frequentemente, discutida e analisada como obra de literatura e cultura geral. Depois que o pai de Freud falece, em 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, dedica-se a analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua infância e, assim, determinando as raízes de suas próprias neuroses.

Sigismund Schlomo Freud reconhecido profissionalmente como Sigmund Freud, foi um médico neurologista criador da psicanálise. Freud, como se tornara reconhecido, nasceu em uma família judaica, em Freiberg in Mähren, na época pertencente ao Império Austríaco, atualmente, a localidade é denominada Příbor, e pertence à República Tcheca. Freud iniciou seus estudos pela utilização da técnica da hipnose no tratamento de pacientes com histeria, como forma de acesso aos seus conteúdos mentais. Ao observar a melhora dos pacientes tratados pelo médico francês Charcot, elaborou a hipótese de que a causa da histeria era psicológica, e não orgânica, distanciando-se das correntes positivistas que associavam a determinação biológica da espécie. Essa hipótese serviu de base para outros conceitos desenvolvidos posteriormente por Freud, como o do inconsciente. Fatos como a descrição de pacientes curados através do diálogo por Josef Breuer e a morte do colega Ernst von Fleischl-Marxow por dose excessiva do antidepressivo da época, a cocaína, levaram-no ao abandono das técnicas de hipnose e de drogas para criar um novo método: a cura pela fala, ou seja, a psicanálise, que utilizava a interpretação de sonhos e a livre associação como acesso ao inconsciente.

Suas teorias sociais e seus tratamentos terapêuticos foram controversos na aparentemente conservadora Viena do fim do século XIX, e continuam a ser debatidos presentemente. Sua concepção de teoria é de grande influência na psicologia e, além do contínuo debate sobre sua aplicação terapêutica no tratamento médico, também é, frequentemente, discutida e analisada como obra de literatura e cultura geral nas humanidades. A psicossociologia tem como representação abstrata do indivíduo o estudo de problemas comuns à psicologia e à sociologia, particularmente a maneira como o comportamento individual é influenciado pelos grupos aos quais a pessoa pertence. Por exemplo, no estudo dos criminosos a psicologia estuda a personalidade latente do criminoso moldada pela educação do criminoso. A sociologia estuda o comportamento teórico e prático do próprio grupo num processo de interação em geral: os métodos que o grupo criminoso usa para recrutar membros e a maneira como o grupo muda ao longo do tempo. Psicossociologia estuda o comportamento do criminoso, que é criado pelo grupo ao qual pertence, como os jovens que moram no mesmo quarteirão do bairro.

Existem muitos fatores sociais que podem afetar a psicologia dos outros. Um exemplo disso são as chamadas panelinhas sociais. Se alguém é aceito em seu grupo desejado ou não, isso muda a maneira como eles pensam sobre si mesmos e as pessoas ao seu redor. Amizades em idades jovens enquanto crescem também têm muito a ver não apenas com o desenvolvimento psicológico, mas também com habilidades sociais e comportamento social. O mesmo vale para as leis comuns na sociedade. Se o grupo de um indivíduo decide obedecer por eles ou não, isso afeta a visão desse indivíduo sobre a lei e seu grupo como um todo. A maneira como as pessoas podem agir ou falar dita a maneira como os outros as veem em uma sociedade. Por exemplo, os indivíduos podem ver a autoridade de muitas maneiras diferentes, dependendo de suas experiências e do que os outros lhes disseram. Por isso, com base no conhecimento social de autoridade das pessoas, suas opiniões e ideias são muito diferentes.  Cada indivíduo tem seu próprio processo de pensamento psicológico único e pessoal no qual eles usam para analisar o mundo ao seu redor. As pessoas internalizam e processam fatores sociológicos de maneira relativa ao seu processo de pensamento psicológico. Essa relação é recíproca, pois a sociedade pode alterar e transformar as maneiras que as pessoas pensam e, ao mesmo tempo, a sociedade pode ser influenciada pelo pensamento psicológico exteriorizado dos indivíduos dentro da própria sociedade. Devido a isso, pode-se ver como a psicologia é fundamental para ajudar o sociólogo a interpretar os efeitos dos fatos sociais no comportamento de um indivíduo numa sociedade determinada.

Tais anotações tornam-se a fonte etnográfica para a obra “A Interpretação dos Sonhos”. Durante o curso desta autoanálise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade em relação a seu pai. É o que constitui o famoso “complexo de Édipo”, que se torna o “coração”, por assim dizer, da teoria de Freud sobre a origem da neurose em todos os seus pacientes investigados. Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras em que contém suas teses principais no ensaio: “A Interpretação dos Sonhos” e “A psicopatologia da vida cotidiana”. Freud criou o termo “psicanálise” para designar a complexa relação entre um método, uma teoria e uma técnica para investigar cientificamente os processos inconscientes e de outro modo inacessíveis do psiquismo.
Portanto, se não há vida privada da consciência é porque a consciência só tem como obstáculo o caos, que não é nada. Mas em uma consciência que constitui tudo, ou, antes, que possui eternamente a estrutura inteligível de todos os seus objetos, assim como na consciência empirista que não constitui nada, a atenção permanece um poder abstrato, ineficaz, porque ali ela não tem nada para fazer (cf. Eatwell, 1996; Fritzsche, 1998). A consciência não está menos intimamente ligada aos objetos em relação aos quais ela se distrai do que aqueles aos quais ela se volta. A memória do campo de concentração Auschwitz é sempre referida pela memória pela presença de quatro crematórios. Auschwitz I, o principal campo do complexo de Auschwitz, foi a primeira das unidades a serem estabelecidas, nas proximidades da cidade polonesa de Oswiecim. Sua construção teve início em maio de 1940, em um quartel de artilharia usado anteriormente pelo exército polonês na região de Zasole, subúrbio de Oswiecim. O campo foi se expandindo continuamente por meio da utilização do processo de trabalho escravo contemporâneo. A câmara improvisada estava localizada no porão da prisão (Bloco 11). Mais tarde, uma câmara de gás fixa foi construída dentro do crematório. A ideologia nazista do campo é baseada realmente em um vídeo originalmente rodado em 1941, ipso facto, historicamente produzido e irradiado pela intelligentsia nazista.
Nesta análise psicanalítica fundada por Sigmund Freud, o indivíduo se constitui como um ente à parte do social e que compõe o nível de análise social. Freud refere-se aos aspectos que compõem um estado instintivo humano e que acaba por se tornar inibido em prol da convivência em comunidade. A inibição destes aspectos, que são instintivos, consiste numa privação de características que são inatas aos homens, e, esta própria privação, acaba por consistir em determinados descontentamentos. Neste sentido, os homens em civilização ou civilizados demonstram-se descontentes na busca de sua felicidade, pois seus instintos não são prontamente atendidos em sociedade. No seu ensaio: “O mal-estar da civilização”, Freud elabora uma discussão filosófico-social a partir de sua teoria psicanalítica. O autor desenvolve a ideia pragmática segundo a qual, em sociedade, “não há avanço sem perdas”. A ideia central que desenvolve nesta obra é a de que a civilização é inimiga da satisfação dos instintos humanos. A sociedade modifica a natureza humana individual, constitui o homem como membro da comunidade, adaptando-o a um processo vital que torna o indivíduo um ente social.
Um Brinde à Vida representa um drama cotidiano para celebrar a amizade, que afinal pode ser para alguns o grande remédio das enfermidades da alma. Cultura judaica é o nome dado ao conjunto de tradições passadas de geração à geração pelo Judaísmo oriundas dos tratos religiosos, do local em que a comunidade judaica foi radicada e da era em que a comunidade judaica viveu. Entre os rituais, podemos citar a circuncisão dos meninos (aos 8 dias de vida ) e o Bar Mitzvah que representa a iniciação na vida adulta para os meninos e a Bat Mitzvah para as meninas (aos 12 anos de idade). Os homens judeus usam o “kippa”, pequena touca, que representa o respeito a Deus no momento das orações. Nas sinagogas, existe uma arca, que representa a ligação entre Deus e o Povo Judeu. Nesta arca são guardados os pergaminhos sagrados da Torá. Entre os rituais, podemos citar a circuncisão dos meninos (aos 8 dias de vida) e o Bar Mitzvah que representa a iniciação na vida adulta para os meninos e a Bat Mitzvah para as meninas aos 12 anos de idade. Os homens judeus usam o “kippa”, pequena touca, que representa o respeito a Deus no momento das orações. Nas sinagogas, existe uma arca, que representa a ligação entre Deus e o Povo Judeu. Nesta arca são guardados os pergaminhos sagrados da Torá. As festividades judaicas vão desde a comemoração de um aniversário, um Bar-Mitzvá a feriados como o Purim e o Pessach. Os judeus são  festivos e a música é usada como forma de culto como a vários relatos etnográficos da torá ou mesmo em celebrações como pessach, purim e bar mitzvá.
Enfim, como é representado no filme: “Um brinde à vida”, as refeições para os judeus têm grande importância e requerem preparação e cuidado especial. Uma palavra resume o essencial dos preparativos da refeição judaica: “pureza” (“casherut”). Quer se trate do alimento ou dos utensílios de cozinha, da louça de mesa ou da qualidade dos convivas, a máxima atenção deve ser prestada à sua pureza. Esta pureza diz respeito à santidade de Israel e de seus filhos. Por meio dela, comer e beber se tornam atos de culto. Cada refeição se revela como “memória” da Aliança, que não cessa de separar seu povo das nações pagãs, idólatras. Nesse espírito de preparação para a refeição judaica encontram-se tipos de purificação: a) lavar as mãos. Essa prescrição é particularmente importante. O Talmude narra cerca de seiscentas prescrições a respeito e um tratado é inteiramente consagrado às maneiras de proceder.  Não se deve hesitar em “percorrer um caminho de quatro milhas a fim de obter água pura para lavar as mãos”.
Esse hábito social que alguns pensam provir de Salomão e outros de Hillel e de Shammai Chab é prática de sacerdotes, que lavavam as mãos antes de comerem sua parte das oferendas. Em seguida, leigos piedosos, como os fariseus, o adotaram antes que se tornasse um costume universal. Mesmo seus opositores acabaram por se submeter a ele. É que o rabi Aquiba, após tê-lo contestado, utilizava a reduzida ração de água que lhe era concedida na prisão para lavar as mãos na hora da refeição; b) Ter feito abluções – esta prescrição era complementar da precedente: - Para (comer alimentos) não consagrados, do dízimo ou da oblação, basta lavar as mãos; mas para o que é santo (ofertas do Templo e que não podiam ser consumidas a não ser em seu recinto) deve-se tomar um banho; no que diz respeito às águas de purificação do pecado, se as mãos estiverem impuras, é o corpo inteiro que é tido por impuro (e torna-se necessário tomar banho). O ensinamento de Jesus liga esse costume do banho à volta do mercado; c) lavagem ritual das taças, vasos e pratos – o judaísmo contemporâneo continua muito atento às prescrições que dizem respeito aos utensílios de cozinha e à louça. Tais preceitos, visando pôr em prática as injunções do livro dos Números 31,22-24, eram atuantes na época mitológica de Jesus. É a semelhantes debates que Jesus se refere em sua polêmica com os escribas e os fariseus (cf. Mt. 23,25). Poderíamos até descobrir um efeito social específico, nestes termos, através das decisões da escola Jâmnia sobre a obrigação natural de purificar primeiramente o interior das taças ou dos pratos. As regras de culto religioso que regem a escolha dos alimentos, a distinção entre os que são puros ou impuros, são uma das mais consideráveis prescrições do judaísmo.
Bibliografia geral consultada.
BARTHES, Roland, Mitologias. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972; HELLER, Agnes, Sociologia della Vita Quotidiana. Roma: Editore Riuniti, 1975; BOURDIEU, Pierre, “L’ Identité et la Représentation. Eléments pour une Réflexion Critique sur l’Idée de Région”. In: Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n˚ 35, 1980; XENAKIS, Françoise, Zut! On a Encore Oublie Madame Freud. Paris: Éditions Hachette, 1984; DURAS, Marguerite, Les Lieux de Marguerite Duras. Entretiens avec Michelle Porte. Paris: Éditions Minuit, 1987; ELIAS, Norbert, El Proceso de la Civilización: Investigaciones Sociogenéticas y Psicogenéticas. 2ª edición. México: Fondo de Cultura Económica, 1989; FLEM, Lydia, L`homme Freud. Paris: Éditions Seuil, 1991; EATWELL, Roger, Fascism. A History. London: Viking/Penguin Editor, 1996; FRITZSCHE, Peter, Germans into Nazis. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998; WACQUANT, Loïc, Parias Urbanos: Marginalidad en la Ciudad a Comienzos del Milênio. Buenos Aires: Ediciones Manantial, 2001; LE GOFF, Jacques, História e Memória. 5ª edição. Campinas (SP): Editora da Universidade de Campinas, 2003; BOBBIO, Norberto, Il Futuro della Democrazia. 1ª edição. Itália: Einaudi Editore, 2005; ELIAS, Norbert & SCOTSON, John, Au-delà de Freud: Sociologie, Psychologie, Psychanalyse. Paris: Éditions La Découverte, 2010; FREUD, Sigmund, Malaise dans la Civilisation. Paris: Éditions Payot. Coll. Petite Bibliothèque Payot, 2010; Idem, Au-delà du Principe de Plaisir. Paris: Éditions Payot. Coll.  Petite Bibliothèque Payot, 2010; SANTOS, Lucileide Vieira, Felicidade ao Longo da Vida. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde. Lisboa: Escola de Psicologia e Ciências da Vida. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, 2016; NÓBREGA, Karynna M. Barros de, Da Voz em Off à Palavra Escrita: O Testemunho do Corpo Falante em O Escafandro e a Borboleta. Tese de Doutorado. Coordenação Geral de Pós-Graduação. Programa de Doutorado em Psicologia Clínica. Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2017; entre outros.  

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dante Alighieri – Os Templários e a Mobilidade Social dos Bancos.

     Ubiracy de Souza Braga*
 
“O mundo é cego, e tu vens exatamente dele”. Dante Alighieri

 












A “Divina Comédia” narra uma viagem imaginária de Dante Alighieri. O poeta romano Virgílio, seu autor clássico preferido, é o guia no caminho pelo “Inferno” e “Purgatório”, onde se encontram personalidades históricas e muitos poderosos deste período histórico. No Paraíso, Dante é levado por sua amada Beatriz, a um final feliz. O sentido original da palavra “commedia”, em italiano, era oposto ao de tragédia, que terminava mal para os personagens. O poema tem estrutura épica, base filosófica, e foi escrito na língua toscana, muito próxima do italiano contemporâneo. No final do século 13, Dante Alighieri afirmava que essa língua chamada de “vulgar”, isto é, o vernáculo, era ainda mais nobre que o latim, pois não era artificial e nem privilégio de poucos letrados. A decisão de Dante de escrever seu grande poema em italiano, a língua falada pelo povo - e a inovação, no século seguinte, com o surgimento da imprensa de tipos móveis, foram marcos na alfabetização e na liberalização da sociedade europeia. O poeta foi médico-farmacêutico, mas não estava interessado na profissão. Entrou na corporação de ofício dos boticários por causa de uma lei de 1295, que reservava os cargos públicos a nobres membros de alguma Corporação de Artes e Ofícios. 


            Dante combateu ao lado dos cavaleiros florentinos, em 1289, contra os de Arezzo. De 1295 a 1300, fez parte do Conselho dos Cem, que governava a cidade. Ele chefiou uma delegação de embaixadores de Florença a Roma, para negociar a paz com o papa Bonifácio 8º, que enviara uma tropa para pacificar a região da toscana. Exceto Dante, a comitiva retornou à cidade. Enquanto ele estava retido pelo papa, a cidade foi ocupada por uma facção rival, que matou a maioria dos membros do partido ao qual o poeta era ligado. Dante Alighieri foi condenado ao exílio pelo novo governo de Florença. Se fosse capturado por soldados da cidade provavelmente seria queimado vivo. Após passar por vários principados, em 1318, ele foi convidado para ser hóspede de Guido Novello da Polenta, príncipe de Ravena, onde morreu em 1321, o mesmo ano em que terminou de escrever os versos acerca do Paraíso, a parte final de sua “Divina Comédia”.  O conhecimento é a arma mais poderosa do ser humano civilizado. Assim como a prensa de Gutenberg significou a retirada do monopólio da produção textual da Igreja, a criação de espaços públicos para consulta e leitura de livros foi o passo decisivo da popularização dos saberes acumulados pelo homem ao longo da história.
           A Biblioteca de Malatesta Novello em Cesena, Itália, é considerada a primeira biblioteca pública nunca no mundo. Inaugurado em 1452, o edifício era propriedade do município da cidade e permitiu aos leitores fazerem uso livremente de sua coleção. Como a Itália foi o berço do Renascimento cultural que viria a transformar definitivamente o modo como se vive em sociedade, a extravagância foi logo copiada em países como Inglaterra, Portugal, Espanha e Alemanha. A “Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão” (“Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici), reconhecida como Cavaleiros Templários, Ordem do Templo ou simplesmente como “Templários”, foi uma ordem militar de Cavalaria. A organização existiu por cerca de dois séculos na Idade Média, fundada no rescaldo da Primeira Cruzada de 1096, com o propósito original de proteger os cristãos que voltaram a fazer a peregrinação a Jerusalém após a sua conquista. Os seus membros fizeram voto de pobreza e castidade para se tornarem monges, usavam mantas brancas com a característica cruz vermelhas, e o seu símbolo passou a ser um cavalo montado por dois cavaleiros, onde originalmente se estabeleceram o monte do Templo em Jerusalém, onde existira o Templo de Salomão, e se ergue a atual Mesquita de Al-Aqsa e do voto de pobreza e da fé em Cristo denominando-se “Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”.           
O sucesso dos Templários esteve comparativamente vinculado ao das Cruzadas. Quando a Terra Santa foi perdida, o apoio à Ordem reduziu-se. Rumores acerca da cerimônia de iniciação secreta dos Templários criaram desconfianças, e o rei Filipe IV de França - também conhecido como Felipe, O Belo - profundamente endividado com a Ordem, começou a pressionar o papa Clemente V para que tomasse medidas contra eles. Em 1307, muitos dos membros da Ordem em França foram detidos e queimados publicamente. Em 1312, o papa Clemente dissolveu a Ordem. O súbito desaparecimento da maior parte da infraestrutura europeia da Ordem, base sobre a qual se eleva sua teologia, deu origem a especulações e lendas, que mantêm o nome dos templários vivo até aos dias atuais. O banco é uma das maiores invenções da era medieval. Como a Ordem dos Templários possuía milhares de terras com castelos fortificados e bem guardados, os templários se ofereciam para guardar os pertences de qualquer nobre ou comerciante por uma pequena taxa de manutenção.


 
Como os templários gozavam da imagem naturalizada de “heróis do cristianismo” e da sua correta conduta ética, conseguiram a confiança de diversos reis e nobres que submeteram suas fortunas aos templários. O banco templário ainda oferecia mais dois importantes serviços com valor de troca. O primeiro era o empréstimo de ouro que devia ser devolvido com a correção monetária com juros “caso você quisesse manter a cabeça grudada no pescoço”. O segundo era uma carta de crédito para comerciantes e peregrinos. Essas pessoas podiam trocar seu dinheiro por uma carta de crédito nominal, feita com um código complexo e secreto que podia ser trocada pelo mesmo valor em dinheiro em qualquer posto templário por uma aparente pequena taxa de juros. E como garantia se você falsificasse a carta e tentasse lucrar com o dinheiro dos templários, sua pena seria a morte ou a mão decepada. Esse sistema econômico foi tão eficiente que a Ordem dos Templários pode ser considerada historicamente a primeira multinacional globalizada de sucesso do mundo ocidental.
Com o florescimento do comércio no fim da Idade Média, a função de banqueiro se tornou algo muito comum em termos de prosperidade comercial para o desenvolvimento na Europa. Nas feiras da Europa Central, quando as pessoas chegavam com valores em ouro para trocar por outro produto, era o banqueiro quem fazia a pesagem de moedas, avaliação da autenticidade e qualidade dos metais, em troca de uma comissão. Com o passar do tempo, os banqueiros passaram a aceitar depósitos monetários e, em troca, o banco emitia uma espécie de certificado. Todavia, foi após a percepção de que nem sempre as pessoas retiravam tudo o que haviam depositado, ou seja, sempre haveria dinheiro para circular, que surgiu a ideia de conceder empréstimos mediante o pagamento de juros. Esta foi a base para o enriquecimento dos banqueiros, que deixaram de ser simplesmente “cambistas” ou agiotas. Contudo, a cobrança de juros era algo de total desaprovação da Igreja, aspecto que explica o porquê da existência de muitos judeus no ramo bancário na história econômica
O mais famoso agiota da literatura viveu em Veneza se chamava: Shylock, personagem de William Shakespeare, do “Mercador de Veneza”. Em termos absolutos, o valor de troca de um bem pode ser medido em termos da quantidade média de horas de trabalho necessárias para produzi-lo. Por contraste, o preço do bem é normalmente medido em unidades monetárias. O assunto empréstimo foi central neste romance, o agiota Shylock se dispõe a emprestar o dinheiro em troca de uma garantia da parte do amigo de Barsanio, o comerciante Antônio. Em qualquer empréstimo o risco das coisas dar errado é grande, e talvez seja por isso, que as pessoas que emprestam dinheiro precisam economicamente ser compensadas, com um valor pago pelo que emprestou além do montante emprestado que é chamado de juros. Mas porque Shylock se tornou o grande vilão do valor de troca entre pessoas? Eles eram um dos muitos judeus agiotas que viviam nos guetos de Veneza.A cidade os tolerava, pois eram os únicos que poderiam fornecer o serviço comercial que os mercadores cristãos eram proibidos de fazer, e poderiam cobrar juros pelos seus empréstimos. Por isso que os maiores banqueiros foram judeus. Os judeus se sentavam em suas mesas, as suas “tavule” em seus bancos, os “banci”, raiz da palavra italiana para “bancos”, num local conhecido por Banco Rosso. Pinturas de Giorgio Vasari, Frederico Zuccari e Domenico di Michelino retratam bem a crença de um inferno para os agiotas. No final da historia Shylok é proibido de cobrar o meio quilo de carne de Antônio exigido no empréstimo em caso de inadimplência. O tribunal o proíbe de derramar sangue de um veneziano, por ele ser judeu a lei determina ainda a perda de seus bens por planejar a morte de um cristão. Então porque ele confiou o empréstimo, como é acentuado como um grande vilão do romance de William Shakespeare – “Mercador de Veneza”?  A explicação é histórica e sociológica no que permite compreendermos a particularidade da relação entre trabalho e valor. 
            No final da Idade Média, com o aumento das atividades econômicas, dos ofícios, do lucro e da tentativa de autonomia dos comerciantes, desenvolve-se a imagem do usurário na sociedade e no âmbito cultural. A nobreza apoiada pelo clero sente-se abalada estruturalmente, pois tem seus interesses ameaçados por esta nova classe que surge. No tempo de Francisco de Assis e da senhora Pobreza, a verdade é que os pobres eram desprezados e a usura vista nos comerciantes, que se tornavam agiota, podia ser um meio de ascensão social freado apenas pelo espantalho do inferno. A prática do ócio era um pecado visto que o clero e a nobreza, do século XIII ao XVI sentem-se ameaçados por um grupo que está cada dia ganhando mais poder econômico, e por consequência, poder político na Europa. Este grupo é chamado por Marx como burguês, os comerciantes locais. Eles, muitas vezes, utilizavam-se do privilégio de ter dinheiro de sobra, virando agiotas. Este ato foi condenado pela Igreja e pela nobreza medieval. Ora, é um comerciante que não faz um trabalho físico que irá provar sua dedicação para com Deus. Você simplesmente senta em sua cadeira, espera seus clientes virem e pedir seu dinheiro emprestado, para assim você vender “tempo” à este cliente.
Durante a época de Shakespeare, a agiotagem era uma ocupação comum entre os judeus, devido à crença entre os cristãos da época de que a usura era um pecado, e por ser uma das poucas profissões que era permitido aos judeus exercerem na Europa medieval, tendo em vista que as leis proibiam qualquer outro tipo de ocupação.  Na peça teatral, Shylock é um agiota judeu que empresta dinheiro a seu rival cristão, Antônio, colocando como fiança uma libra da carne de Antônio. Quando este, após se ver falido, não consegue pagar o empréstimo, Shylock exige “a libra de carne”, como vingança por Antônio tê-lo insultado e cuspido anteriormente. Neste meio tempo, a filha de Shylock, Jéssica, foge com um amigo de Antônio, Lourenço, e se tornou uma cristã, levando dinheiro e joias de sua herança, aumentando ainda mais o ódio e a fúria de Shylock. A prática do ócio era um pecado visto que o clero e a nobreza, do século XIII ao XVI sentem-se ameaçado por uma classe embrionária. Este “grupamento social” é representado pela burguesia, os comerciantes locais. Eles, muitas vezes, utilizavam-se do privilégio de ter dinheiro de sobra, virando agiotas. Este ato foi condenado pela Igreja e pela Nobreza Medieval. Ora, pois, você é um comerciante que não faz um trabalho físico que irá provar sua dedicação para com Deus. Você senta em sua cadeira, espera seus clientes virem e pedir seu dinheiro emprestado para assim você vender “tempo” a este cliente. 
O objetivo era apenas proteger o bem.  No entanto, a moeda homogênea e sem carimbo pode ser facilmente utilizada pelo banco para novos empréstimos, já que nada garante que a sua moeda está guardada nas reservas bancárias.  No caso de um banco com 100% de reservas sobre depósitos, de fato seu dinheiro está guardado no cofre.  Mas quando se trata de reservas fracionárias, o banco está se alavancando em cima do seu dinheiro, e é falsa a afirmação de que seu depósito está disponível para saque a qualquer momento.  Isso só funciona quando algumas poucas pessoas resolvem resgatar suas economias - quando muitos decidem sacar seus depósitos ao mesmo tempo, o banco não tem lastro para honrar sua dívida com os depositantes.  Uma corrida bancária expõe um fato oculto pelos bancos: a total falta de liquidez de quase todos eles que desfrutam de multiplicação monetária através do crédito sem lastro.  Nem sempre foi assim, como demonstra Murray Rothbard.  O esquema de reservas fracionárias não passa de uma fraude, segundo o economista. 
A produção de mercadorias e a circulação desenvolvida de mercadorias com a formação de um mercado global, através do comércio, constituem os pressupostos históricos em que aquele surge o mercado mundial e abrem no século XVI a moderna constituição biográfica do capital. Se abstrairmos do conteúdo material da circulação de mercadorias, da troca dos diversos valores de uso, e considerarmos apenas as formas econômicas que este processo gera, encontraremos então como seu último produto no âmbito da circulaçãoo dinheiro. Este último produto da circulação de mercadorias é a primeira forma fenomênica do capital. Historicamente, o capital contrapõe-se à propriedade fundiária, por toda a parte e em primeiro lugar, sob a forma de dinheiro, como fortuna em dinheiro, capital mercantil e capital usurário. Contudo, não é necessário voltarmos atrás à génese do capital para reconhecermos o dinheiro como a sua primeira forma fenomênica. A mesma história desenrola-se diariamente diante dos nossos olhos. Cada novo capital pisa o palco: o mercado de mercadorias e de  trabalho ou mercado que se transforma em capital através de processos determinados.


Os bancos assumem o compromisso de pagar seus depósitos imediatamente, mas não são capazes de honrar este compromisso com todos os depositantes.  Estariam insolventes.  Isso seria ilegal com todos os outros bens, menos com o dinheiro. A circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital. Como portador consciente deste movimento, o possuidor de dinheiro torna-se capitalista. A sua pessoa, ou antes, a sua algibeira, é o ponto de partida e o ponto de chegada do dinheiro. O conteúdo objetivo daquela circulação - a valorização do valor - é o seu fim subjetivo e apenas na medida em que a crescente apropriação da riqueza abstrata é o único motivo propulsor das suas operações ele funciona como capitalista ou como “capital personificado”, dotado de vontade e consciência. O valor de uso não é, portanto, nunca de tratar como fim imediato do capitalista. E também não o ganho singular, mas apenas o movimento incansável do ganhar. Este impulso absoluto de enriquecimento, esta caça apaixonada ao valor é comum ao capitalista e ao entesourador: mas enquanto que o entesourador é o capitalista louco, o capitalista é o entesourador racional. A incansável multiplicação do valor, a que o entesourador aspira na medida em que tenta salvar o dinheiro da circulação, alcança-a o capitalista esperto quando o entrega de novo à circulação. Com razão afirmava o fabuloso Barão de Itararé: “O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro”.
Bibliografia geral consultada:
BUSIGNANI, Alberto, I Diamanti dell’arte – Botticelli. Firenze: Sadea Editore, 1965; BOSCO, Umberto, Dante la vita e le opere. Torino: ERI, 1966; NAPOLEONI, Claudio, Smith, Ricardo, Marx. Considerazioni sulla storia del pensiero econômico. Torino: Boringhieri Editore, 1970; LUCCHESI, Marco Américo, Breve Introdução ao Inferno de Dante - Poesia e Teologia. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 1986; MAURO, Walter, Invito alla lettura di Dante Alighieri. Milano: Gruppo Ugo Mursia Editore, edizione 5, 1990; BARBER, Malcolm Barber, The New Knighthood: A History of the Order of the Temple. Cambridge University Press, 1994; DEMURGER, Alain, Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002; SOARES DE AZEVEDO, Mateus, A Inteligência da Fé: Cristianismo, Islã, Judaísmo. Rio de Janeiro: Editor Record, 2006; ALIGHIERI, Dante, Tutte le opere - Divina Commedia, Vita Nuova, Rime, Convivio, De vulgari eloquentia, Monarchia, Egloghe, Epistole, Quaestio de aqua et de terra. Introduzione di Italo Borzi. Commenti a cura di Giovanni Fallani, Nicola Maggi e Silvio Zennaro. Roma: Newton Compton Editori, 2007; PIKETTY, Thomas, Le Capital au XXIe siècle. Colecção Les Livres du Nouveau Monde. Paris: Éditions Du Seuil; 2013; JONES, Gareth Stedman, Karl Marx: Grandeza e Ilusão. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2017; outros.
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* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE).