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sexta-feira, 4 de junho de 2021

Eu Em-si Individualizado - Cultura & Comuna na Batalha de Termópilas.

Os homens de poucas palavras são os melhores”. William Shakespeare

     Na história social da civilização todo povo que atinge um certo grau de desenvolvimento sente-se naturalmente inclinada à prática da educação. Ela é o princípio por meio do qual a comunidade humana conserva e transmite a sua peculiaridade tanto física quanto espiritual. Uma educação consciente pode mudar a natureza física do homem e suas qualidades, elevando-lhe a capacidade a um nível superior. Mas o espírito conduz progressivamente à descoberta de si mesmo e cria, pelo conhecimento do mundo exterior e interior, formas melhores de existência humana. A natureza do homem, na sua dupla estrutura corpórea e espiritual, cria condições especiais para a manutenção e transmissão da sua forma peculiar e exige organizações físicas e espirituais, ao conjunto dos quais damos o nome de educação. Nela, a educação, o homem com sua prática social, atua a mesma força vital, criadora e plástica, que espontaneamente impele todas as espécies vivas à conservação e propagação de seu tipo social. É nela, porém, que essa expressão social atinge o mais alto grau de intensidade, através do esforço consciente do conhecimento e da vontade, dirigida para a consecução de um fim. Em nenhuma parte, o influxo da comunidade nos seus membros tem maior força que no constante ato de educar, em conformidade com o próprio sentir, cada nova geração. A política assenta nas leis e normas escritas e não escritas que a unem e unem os seus membros. O conceito de sociedade está fundamentalmente ligado aos fatores territoriais, culturais, políticos e históricos que unem os seus indivíduos.                     

            Toda geração é assim o resultado da consciência viva de uma norma que rege uma comunidade humana, quer se trate da família, de uma classe social ou de uma profissão, quer se trate de um agregado mais vasto, como um grupo étnico ou um Estado. A educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu destino exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e, uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valões que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valões válidos para cada sociedade. À estabilidade das normas válidas corresponde a solidez dos fundamentos da educação. Da dissolução e destruição das normas advém a debilidade, a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer ação educativa. Acontece isto quando a tradição é violentamente destruída ou sofre decadência interna. Fora de dúvida, a estabilidade não é o indício seguro de saúde, porque reina também nos estados de rigidez senil, nos momentos finais de uma cultura: assim sucede na China confucionista pré-revolucionária, nos fins da Antiguidade, nos últimos dias dos Judaísmo, em períodos da história da Igrejas, da arte e das escolas científicas. Segundo Jaeger (2011), é grande a impressão gerada pela fixidez quase intemporal da história do antigo Egito, através de milênios; mas também entre os Romanos e a estabilidade histórica comunal das relações sociais e políticas foi considerada como o valor mais alto e apenas se concedeu justificação limitada aos anseios e ideais inovadores. 

             O Helenismo ocupa uma posição singular na história. Uma achega de nossa parte se torna supérflua segundo esse aspecto, em que conceito e objeto, o padrão de medida e o que deve ser testado estão presentes na consciência mesma. Aliás, somos também poupados da fadiga da comparação entre os dois, conceito e objeto, e do exame propriamente dito. Assim já que para Friedrich Hegel em sua Fenomenologia (2007), a consciência se examina a si mesma, também sob esse aspecto, só nos resta o puro observar. A consciência, por um lado, é consciência do objeto; por outro lado, a consciência de si mesma é consciência do que é verdadeiro para ela, e consciência de seu saber da verdade. Enquanto ambos são para a consciência, ela mesma é sua comparação: é para ela mesma que seu saber do objeto corresponde ou não a esse objeto. O objeto parece, de fato, para a consciência, ser somente tal como ela o conhece. Parece também que a consciência não pode chegar por detrás do objeto, como ele é, não para ela, mas como é em si; e que, portanto, também não pode examinar seu saber no objeto. Mas justamente porque a consciência sabe em geral sobre um objeto, já está dada a distinção entre [um momento de] algo que é, para a consciência, o Em-si, e um outro momento que é o saber ou o ser do objeto para a consciência. O exame se baseia sobre essa distinção que é uma distinção dada. Caso os dois momentos não se correspondam nessa comparação, parece que a consciência deva então mudar o seu saber para adequá-lo ao objeto. Porém, na mudança de saber, de fato se muda também para ele o objeto, pois o saber presente era essencialmente um saber do objeto; junto com o saber, o objeto se torna também um outro, pois pertencia essencialmente esse saber. Com isso, vem-a-ser para a consciência: o que antes era o Em-si não é em si, ou seja, só era em si para ela. Quando descobre a consciência em seu objeto que o seu saber não lhe corresponde, tampouco o objeto se mantém absolutametne firme.


            No entanto, há muita coisa ainda em jogo, se bem atendemos, no puro ser que constitui a essência dessa certeza, e que ela enuncia como sua verdade. Uma certeza sensível efetiva não é apenas essa pura imediatez, mas é um exemplo da mesma. Entre as diferenças sem conta que ali se evidenciam, achamos em toda parte a diferença-capital, a saber: que nessa certeza ressaltam logo para fora do puro ser os dois estes para o que nos interessa, um este, como Eu, e um este como objeto. Para nós, refletindo essa diferença, resulta que tanto um como o outro não estão na certeza sensível apenas de modo imediato, mas estão, ao mesmo tempo, mediatizados. Eu tenho a certeza por meio de um outro, a saber: da Coisa; e essa está igualmente na certeza mediante um outro, a saber, mediante o Eu. Essa diferença entre a essência e o exemplo, entre a imediatez e a mediação, quem faz não somos nós apenas, mas a encontramos na própria certeza sensível; e deve ser tomada na forma em que se encontra, e não como nós à determina-la. Na certeza sensível, um momento é posto como o essente simples e imediato, ou como a essência: o objeto. O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é em-si, mas por meio de um Outro: o Eu, um saber que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto faz que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido – enquanto o saber não é, se o objeto não é. O objeto deve ser examinado, a ver se é de fato, na certeza sensível mesma, aquela essência que ela lhe atribui; e esse seu conceito, de ser uma essência, corresponde ao modo como se encontra na certeza sensível. Isto é, consiste numa crítica ao saber imediato, o seu ponto de partida aquel em que a consciência mais ingênua se torna capaz de distinguir entre si mesma e seu objeto.

            Portanto, a própria certeza sensível deve ser indagada: Que é o isto? Se o tomarmos no duplo aspecto de seu ser, como o agora e como o aqui, a dialética que tem nele vai tomar uma forma tão inteligível quanto ele mesmo. À pergunta: que é o agora? Respondemos, por exemplo: o agora é a noite. Para tirar prova concreta da verdade dessa certeza sensível basta uma experiência simples. Anotamos por escrito essa verdade; uma verdade nada perde por ser anotada, nem tampouco porque a guardamos. Vejamos de novo, agora, neste meio-dia, a verdade anotada; devemos dizer, então, que se tornou vazia. O agora que é noite foi conservado, isto é, foi tratado tal como se ofereceu, como um essente; mas se mostra, antes, como um não-essente. O agora mesmo, bem que se mantém, mas como um agora que não é noite. Também em relação ao dia que é agora, ele se mantém em movimento como um agora que não é dia, ou seja, mantém-se como um negativo em geral. Portanto, esse agora que se mantém não é um imediato, mas um mediatizado, por ser determinado como o que permanece e se mantém porque outro – ou seja, o dia e a noite não é. Com isso, o agora é tão simples ainda como antes: agora; e nessa simplicidade é indiferente aquilo que se joga em torno dele. Como o dia e a noite não são o seu ser, assim também ele não é o dia e a noite; não é afetado por esse seu ser-Outro. Nós denominamos, como diz precisamente Hegel, um universal um tal Simples que é por meio da negação; nem isto nem aquilo – um não-isto -, e indiferente também a ser isto ou aquilo. O universal, portanto, é de fato o verdadeiro da certeza sensível.  O objeto, que deveria ser o essencial, agora é o inessencial da certeza sensível; isso porque o universal, no qual o objeto se tornou, não é mais aquele que deveria ser essencialmente para a certeza sensível; pois ela agora se encontra no oposto, isto é, no saber que era inessencial.

          Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito Absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata. 

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida diante das agruras do sujeito que tem como escopo a relação subjetiva extraordinária entre a vida e a morte. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta.

Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade. A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as suas contribuições mais expressivas ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. À existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada.

Termópilas é um desfiladeiro localizado na Grécia Central que serviu de lugar praticado para a violenta batalha entre persas e espartanos. O conflito foi provocado pelo anseio do persa Xerxes de dominar o território e o povo espartano, o que foi negado pelo rei e general de Esparta de 491 a. C até a data de sua morte em 480 a.C. durante a batalha de Termópilas. Uma de suas ações mais importantes se deu por ocasião da invasão da Grécia pelos persas, em 481 a.C. Defendendo o desfiladeiro das Termópilas, que une a Tessália à Beócia, Leónidas e uma tropa de aproximadamente 7000 homens, sendo que apenas 300 eram espartanos, conseguiram repelir os ataques iniciais. Mas Xerxes I, rei da Pérsia, foi auxiliado pelo pastor Efialtes que o conduziu por um caminho que contornava o desfiladeiro, e pôde cercar o exército de Leónidas. Restavam apenas 300 espartanos e pouco mais de 1000 soldados tespienses e tebanos, que decidiram resistir lutando até a morte. Em 462 a.C. Efialtes foi responsável pela reforma do Areópago, controlado pela aristocracia, limitando o seu poder para julgar apenas os casos de homicídio e os crimes religiosos. Antes do século V a. C., o Areópago representava o conselho dos anciãos relativamente semelhante ao Senado romano. A origem do nome não é clara.

Etimologicamente em grego antigo, πάγος pagos significa “grande pedaço de rocha”. Areios poderia ter vindo de Ares ou do Erinyes, pois em seu pé foi erguido um templo dedicado às Erínias onde os que eram considerados assassinos costumavam encontrar abrigo para não enfrentar as consequências de seus atos criminosos. Mais tarde, o Romanos referido à colina rochosa como “Mars Hill”, após Marte, a versão romana do deus grego da guerra. Perto do Areópago também foi construída a basílica de Areopagitas Dionísio. Comparativamente sua composição era restrita aos que pelo status ocuparam cargos públicos importantes, neste caso o de Arconte. Em 594 a. C, o Areópago concordou em transferir suas funções para Solon para reforma. Ele instituiu reformas democráticas, reconstituiu seus membros e devolveu o controle à organização. Sob as reformas de Clístenes promulgadas em 508/507 a. C, o Boule (βουλή) ou conselho, foi expandido de 400 para 500 homens, e foi formado por 50 homens de cada um dos dez clãs ou phylai (φυλαί). Em 462 a. C., Efialtes passou por reformas que privaram o Areópago de quase todas as suas funções, exceto a de um tribunal de homicídio em favor de Heliaia, o tribunal supremo da Atenas antiga. A opinião generalizada entre os acadêmicos é de que a origem de seu nome é o verbo Ήλιάζεσθαι, que significa συναθροίζεσθαι, “congregar”. Esta medida foi impopular entre os aristocratas e levou ao seu assassinato em 461 a. C.

A investigação moderna abriu imensamente o horizonte da história. A oikoumene dos Gregos e Romanos clássicos, que durante dois mil anos coincidiu com os limites do mundo, foi rasgada em todos os sentidos do espaço e perante o nosso olhar surgiram mundos espirituais até então insuspeitados. Quando deixa de ser um povo particular e nos inscreve como membros num vasto círculos de povos, começa a aparição dos Gregos. Foi por essa razão que a esse grupo de povos Werner Jaeger designou de helenocêntrico. É este o motivo porque, no decurso de nossa história, voltamos constantemente à Grécia. Este retorno e esta espontânea renovação de sua influência não significa que lhe tenhamos conferido, pela sua grandeza espiritual, uma autoridade imutável, fixa e independente do nosso destino. O fundamento de nosso regresso reside nas próprias necessidades vitais, por mais variadas que elas sejam através da História. É claro que, para nós e para cada um dos povos deste círculo, a Grécia e Roma aparecem como algo de radicalmente estranho. Esta separação analítica funda-se em parte no sangue e no sentimento, em parte na estrutura do espírito e das instituições, e ainda na diferença da respectiva situação histórica; mas entre esta separação e a que sentimos ante os povos orientais, distintos pela sua raça e pelo espírito, a diferença é gigantesca. Não se trata inclusive de um sentimento apenas de parentesco racial. É preciso distinguir a história nesse sentido quase antropológico da história que se fundamenta na união espiritual viva e ativa e na comunidade de um destino, quer seja o do próprio povo, quer o de um grupo de povos estreitamente unidos. Só nesta particularidade histórica se tem uma íntima compreensão e contato criador entre uns e outros. Só nela existe uma comunidade de ideais e de formas sociais e espirituais que se desenvolvem e crescem independentes das múltiplas interrupções e mudanças através das quais varia, se cruza, choca, desaparece e se renova uma família de povos diversos na genealogia.   

         Esta comunidade existe na totalidade dos povos ocidentais e entre estes e a Antiguidade clássica. Se considerarmos a história nesse sentido profundo, no sentido de uma comunidade radical, não poderemos supor-lhe como cenário o planeta inteiro e, por mais que alarguemos os nossos horizontes geográficos, as fronteiras dessa história jamais poderão ultrapassar a antiguidade daqueles que há vários milênios traçaram seu destino. Não é possível dizer até quando a Humanidade continuará a crescer na unidade de sentido que tal destino lhe assinala, pois o objetivo teórico e histórico de Werner Jaeger é apresentar a formação do homem grego, a paidéia, no seu caráter particular e no seu desenvolvimento histórico. Não se trata de um conjunto de ideias abstratas em sua generalidade, mas da própria história da Grécia na realidade concreta do seu destino vital. Contudo, essa história vivida já teria desaparecido há longo tempo se o homem grego não a tivesse criado na sua forma perene. A ideia de educação representava para ele o sentido de todo o esforço humano. Era a justificação última da comunidade e individualidade humana. Mesmo os imponentes monumentos da Grécia arcaica são perfeitamente inteligíveis a esta luz, pois foram criados no mesmo espírito que os gregos consideraram a totalidade de sua obra criadora em relação aos outros povos da Antiguidade de que foram herdeiros. Augusto concebeu a missão do Império Romano em função da ideia da cultura grega. Sem a concepção grega da cultura não teria existido a Antiguidade como unidade histórica e mundo ocidental.

       É historicamente indiscutível que foi a partir do momento em que os gregos situaram o problema da individualidade no cimo de seu desenvolvimento filosófico que principiou a história da personalidade europeia. Roma e o Cristianismo agiram sobre ela. E da inserção desses fatores brotou o fenômeno do Eu individualizado. Mas não podemos entender de modo radical e preciso a posição do espírito grego na história da formação dos homens, se tomarmos um ponto de vista moderno. Vale mais partir, segundo Jaeger, da constituição rácica do espírito grego. A vivacidade espontânea, a sutil mobilidade, a íntima liberdade que, embora tenham parecido condições do rápido desabrochar daquele povo na inesgotável riqueza de formas que nos surpreende e espanta ao contato com os escritores gregos de todos os tempos, dos mais primitivos aos mais modernos, não tem as suas raízes no cultivo da subjetividade, como atualmente acontece; pertencem à sua natureza. Os gregos tiveram o sendo inato do que significa natureza. Sendo o conceito elaborado por eles em primeira mão, tem indubitável origem na sua constituição espiritual. Muito antes de o espírito grego ter delineado essa ideia, eles já consideravam as coisas do mundo numa perspectiva tal que nenhuma delas lhes aparecia como parte isolada do resto, mas sempre como um todo ordenado em conexão viva, na e pela qual tudo ganhava posição e sentido. Esta concepção é orgânica, porque nela todas as partes são consideradas membros de um todo. Sua tendência é clara de apreensão das leis do real.

            O estilo e a visão artística entre eles surgem, em primeiro lugar, como talento estético. Assentam num instinto e num simples ato de visão, não na deliberada transferência de uma ideia para o reino da criação artística. A idealização da arte, no entanto, só mais tarde aparece, no período clássico. Até na oratória grega encontramos os mesmos princípios formais que vemos na cultura ou na arquitetura. As formas literárias dos gregos surgem organicamente, na sua multíplice variedade e elaborada estrutura, das formas naturais e ingênuas pelas quais o homem exprime a sua vida, elevando-se daí à esfera ideal da arte e do estilo. Também na oratória, a sua aptidão para dar forma a um plano complexo e lucidamente articulado deriva simplesmente do sentido espontâneo e madurecido das leis que governam o sentimento, o pensamento e a linguagem, o lugar onde esta ideia reaparece mais tarde na história, ela é uma herança dos gregos, e aparece sempre que o espírito humano abandona a ideia de um adestramento em função de fins exteriores e reflete na essência a própria educação. O fato de os gregos terem sentido esta tarefa como algo grandioso e difícil e se terem consagrado a ela com ímpeto sem igual não se explica nem pela sua visão artística nem pelo espírito teórico. Desde as primeiras notícias que se disseminam na história da filosofia e que se têm deles, encontramos o homem no centro do seu pensamento. 

            A forma humana dos seus deuses, o predomínio evidente do problema da forma humana na sua escultura e na sua pintura, o movimento consequente da filosofia desde o problema do cosmos até o problema do homem, que culmina em Sócrates, Platão e Aristóteles; a sua poesia, cujo tema inesgotável desde Homero até os últimos séculos é o homem e o seu duro destino no sentido pleno da palavra; e, finalmente, o Estado grego, cuja essência só pode ser correspondida sob o ponto de vista da formação do homem e da sua vida inteira: o grego é o antropoplástico. Tudo são raios de uma única e mesma luz, expressões de um sentimento vital antropocêntrico que não pode ser explicado nem derivado de nenhuma outra coisa e que penetra todas as formas do espírito grego. Assim, impossível não admitir que, entre os povos, a língua de Homero é, naturalmente, um problema em si. Mas adverte: trata-se de uma língua que ninguém nunca falou, afirma Knox (2011: 19). É uma língua artificial, poética – como propõe o estudioso alemão Witte, “a língua dos poemas homéricos é uma criação de versos épicos”. Era também uma língua difícil. Para os gregos da era dourada, o século V a. C., no qual inevitavelmente pensamos quando dizemos “os gregos”, o idioma de Homero estava longe de ser claro e era repleto de arcaísmos, no vocabulário, na sintaxe e na gramática, e incongruências: palavras e formas extraídas de diferentes dialetos e estágios distintos de desenvolvimento da língua. Na realidade, ninguém nem sonharia em empregar a linguagem de Homero, à exceção dos bardos épicos, sacerdotes oraculares e parodistas eruditos. Isso não significa que Homero fosse um poeta conhecido apenas de eruditos e estudantes; pelo contrário, os épicos homéricos eram familiares como as palavras do cotidiano na boca dos gregos comuns. 

          Conservaram sua influência na língua e na imaginação dos gregos por sua excelente qualidade literária – a simplicidade, rapidez e objetividade da técnica narrativa, a genialidade e emoção, a grandeza e a tocante humanidade dos personagens – e por conceder aos gregos, de forma memorável, imagens de seus deuses e do saber ético, político e prático de sua tradição cultural. As maiores obras do helenismo são monumentos de uma concepção do Estado de grandiosidade sem par, cuja cadeia se desenrola numa série ininterrupta, desde a idade heroica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos, e no qual o indivíduo e a comunidade social travam a sua última batalha no tereno da filosofia. Todo o futuro humanismo deve estar essencialmente orientado para o fato fundamental de toda a educação grega, a saber: que a humanidade, o “ser do Homem” se encontravam essencialmente vinculado às características do homem como ser político. O fato de os homens mais importantes da Grécia se considerarem sempre a serviço da comunidade é índice da íntima conexão que com ela tem a vida espiritual criadora. No entanto, os grandes homens da Grécia não se manifestam como profetas de Deus, mas antes como mestres independentes do povo e formadores dos seus ideais. Mas por mais pessoal que esta obra do espírito seja, na sua forma e nos seus propósitos, é considerada pelos seus autores, com vigor infatigável, uma função social. A trindade grega do poeta, do homem de Estado e do sábio encarna a mais alta direção da nação. É a íntima  liberdade, a qual se sente vinculada por conhecimento, e até pela mais alta lei divina, a serviço da totalidade, que se desenvolveu o gênio criador dos gregos até chegar à sua plenitude educadora, acima do virtuosismo intelectual e artístico da moderna civilização individualista.

Seria necessário escrever uma história da arte grega que essente como espelho dos ideais que dominam a sua vida. Também se deve dizer que até o século IV a arte grega é fundamentalmente a expressão do espírito da comunidade. Não é possível compreender o ideal agônico, revelado nos cantos pindáricos aos vencedores, sem conhecer as estátuas que nos mostram os vencedores olímpicos na sua encarnação corporal, ou as dos deuses, como encarnação das ideias gregas sobre a dignidade da alma e do corpo humanos. O templo dórico é sem dúvida, o mais grandioso monumento que deixou à posteridade o gênio dórico e o seu ideal de estrita subordinação do individual à totalidade. Habita nele a força poderosa que torna historicamente atual a vida de outrora que ele eterniza, e a fé religiosa que o inspirou. Sem dúvida, os verdadeiros representantes da paidéia grega não são os artistas mudos – escultores, pintores, arquitetos -, mas os poetas e os músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores, quer dizer, os homens de Estado. No pensamento grego, o legislador encontra-se, em certo aspecto, muito mais próximo do poeta que o artista plástico: é que ambos têm uma missão educadora, e só o escultor que forma o homem vivo tem direito a esse título. Assim, a história da educação grega, para o que nos interessa, coincide substancialmente com a da literatura. Esta é, no sentido originário que lhe deram os seus criadores, a expressão do processo de autoformação do homem grego. Independentemente disto, não possuímos nenhuma tradição escritas dos séculos anteriores à idade clássica além do que nos resta dos seus poemas. Assim, mesmo tomando a história no seu mais amplo sentido, uma só coisa nos torna acessível a compreensão daquele período: a evolução e a formação do homem na poesia e na arte. A história determinou que só isso ficasse da essência inteira do homem. Não podemos traçar o processo de formação dos gregos daquele tempo senão a partir do ideal de homem que precisamente formaram.

 Rodrigo Junqueira Reis Santoro, nascido em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1975 é um ator e dublador brasileiro. Conhecido no Brasil por suas perspicazes participações em novelas, tornou-se reconhecido internacionalmente por sua atuação nas séries de televisão Lost (2004), que seguiu a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical, após o avião que viajava de Sydney, Austrália para Los Angeles, Estados Unidos cair em algum lugar do Oceano Pacífico, e Westworld (2016), baseada no filme homônimo de 1973 sobre um parque de diversões futurista, escrito e dirigido pelo norte-americano Michael Crichton, e também em sua continuação, Futureworld, de 1976. A série foi oficializada no segundo semestre de 2013, com encomenda de dez episódios para a primeira temporada, dirigidas por Jeffrey Jacob Abrams, nascido em Nova Iorque, que se tornou escritor, diretor e produtor de cinema e televisão dos Estados Unidos da América (EUA). Jacob Abrams, concentra sua ação e seus questionamentos filosóficos em um complexo espaço e lugar praticado de parques habitados por androides assustadoramente similares a humanos. Rodrigo interpretou Xerxes I em 300 e 300: A Ascensão do Império. O ator é filho de Francesco Santoro, engenheiro italiano com origens em Paola, província de Cosença, Calábria, e Maria José Junqueira dos Reis, uma artista brasileira de ancestralidade portuguesa. Estudante de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Santoro cursava a Oficina de Atores da rede TV Globo no bairro Jardim Botânico quando “foi reprovado num teste para a minissérie Sex Appeal”. Apesar disso, naquele ano, conseguiu papel inicial na novela Olho no Olho (1993). A trama tem início em Roma, quando Armando (Stênio Garcia) revela, em confissão ao padre Guido Bellini (Tony Ramos), que é procurado por uma organização criminosa chefiada por um jovem paranormal. Foi escrita por Antônio Calmon, com a colaboração de Maria Carmem Barbosa, e outros, e com direção geral e de núcleo de Ricardo Waddington. Depois, entrou no elenco de Minha Pátria (1994). Em 1995, ganhou seu primeiro papel de destaque na televisão, o Serginho, de Explode Coração (1995). Seu personagem envolvia-se com mulher mais madura que ele, interpretada por Renée de Vielmond. Dois anos depois, viveu um dos personagens centrais da novela O Amor Está no Ar (1997). Repetindo sua atuação em novelas, seu personagem, Léo, envolve-se com outra mulher madura, Sofia, de Betty Lago.

Diferentemente do outro Folhetim, dessa vez, ele fica balançado também por sua querida filha, a jovem Luísa, de Natália Lage. No ano seguinte, interpretou um frei que se apaixona por uma prostituta na minissérie Hilda Furacão (1998). Em 2001, no papel de um jovem internado num manicômio pela própria família, no filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, Santoro foi premiado como melhor ator em múltiplas participações ocorridas nos festivais de cinema de Brasília (DF), Recife (PE), Rio de Janeiro e países latino-americanos. E no longa-metragem Abril Despedaçado, um filme de franquia suíço-franco-brasileiro de 2001, do laureado cineasta Walter Salles, indicado ao Globo de Ouro, em 2002, como melhor filme estrangeiro, no qual interpretou Tonho, “um homem quieto que mora no sertão”. Em seguida interpretou a travesti Lady Di, do filme Carandiru, sobre o maior massacre de presidiários em São Paulo, sob a direção do cineasta argentino Hector Babenco, em 2003. Nesse ano integrou o elenco da novela Mulheres Apaixonadas, em que interpretou Diogo. Casado com a histérica Marina, papel de Paloma Duarte, é pela prima Luciana, de Camila Pitanga, que ele nutre uma paixão machadiana avassaladora. Durante esse trabalho pediu afastamento breve da novela, para dar polimento na carreira internacional. Filmou uma participação na produção norte-americana Charlie`s Angels: Full Throttle (2003), em que “apareceu por minutos num papel sem texto”. Também esteve presente no filme Love Actually, filme irlando-franco-britano-estadunidense de 2003, do gênero comédia, no qual atua em parceria com Elisha Cuthbert, Emma Thompson, Bill Nighy, entre outros, e fez par romântico com Laura Linney, atriz norte-americana, vencedora de dois Globo de Ouro e indicada ao Óscar.

Em 2005, ao lado da hors concours Nicole Kidman, Rodrigo Santoro gravou “um comercial milionário para um perfume da Chanel”. Nesse mesmo ano, após recusar o convite para protagonizar a novela Bang Bang (2005), um faroeste que satiriza o Brasil e tem como fio condutor o desejo de vingança e justiça do herói no ano de 1881, na fictícia cidade de Albuquerque. Ben Silver (Bruno Garcia) tem um passado triste: aos 8 anos, viu sua família e outros colonos serem dizimados por pistoleiros mascarados durante uma festa. Ele escapou da tragédia e ouviu um colono moribundo sussurrar o nome que jamais sairia de sua memória: “Bullock”. Essa é a razão para que, 20 anos depois, Ben Silver retorne à cidade para se vingar do mandante da chacina.  Mas também protagonizou as duas jornadas da minissérie Hoje é Dia de Maria (2005). Em 2006 estreou na televisão internacional ao interpretar Paulo, personagem da 3ª temporada da série Lost, de televisão norte-americana de drama e ficção científica que seguiu a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo e que estreou no Brasil em março de 2007, no canal pago a cabo AXN de televisão por assinatura de propriedade da Sony Pictures Entertainment. No fim de 2006 foi indicado, à frente do talentoso Brad Pitt, para o ranking dos “homens mais sensuais” do mundo ocidental, promovido pela revista People. Em 2007, Rodrigo apareceu como vilão na produção canadense 300, do diretor Zack Snyder. Na história social, adaptada dos quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley, despontou como o rei persa Xerxes I, papel para o qual teve que inovar a fisiognomonia e raspar completamente o cabelo e cobrir o rosto com dezenas de piercings. Foi indicado ao “Prêmio MTV Movie de melhor vilão”, ao lado de magníficos atores como Jack Nicholson e Meryl Streep. Em 2008, encenou para o longa-metragem Os Desafinados (2008), quando tomou aulas de piano.

            A fisiognomonia teve sua origem na Índia, quando antigos habitantes daquele país estudavam rugas no corpo, as causas e as origens das mesmas. Mais tarde foi levada para a China, onde foi estudada e desenvolvida como diagnóstico e hoje é tida como uma subdivisão da medicina chinesa. Segundo a fisiognomonia os traços sociais da face podem auxiliar em um diagnóstico preciso e ainda indicar um tratamento correto em qualquer área médica, estética, nutricional ou psicológica, e a sua técnica consiste em uma avaliação completa do indivíduo. As marcas e traços que surgem no nosso corpo são registos dos nossos hábitos de vida, podendo servir como indicadores de desequilíbrios diversos. O rosto é movimento. O século XVIII prolonga essa concepção surgida no século anterior e vai dar-lhe uma amplitude e intensidade novas: se a expressão continua sendo movimento do rosto, será agora mais ressaltada a sua vivacidade, a sua energia. Uma estética da mímica do rosto como gesto facial, segundo Courtine e Haroche (2016: 121), desenvolve-se assim na segunda metade daquele século. Encontra-se aí o sensualismo dos filósofos, quer perpassa a fisiognomonia, o teatro, a pintura. Elabora-se um pensamento complexo sobre um tema histórico e pontual, revelando a oposição entre corpo em repouso e corpo em movimento, privilegiado em detrimento daquele. Assim J. G. Lavater distingue a “fisiognomonia” que “revela o caráter em repouso da “patognomonia” que detecta “o caráter em movimento”, ressaltando a importância desta última. Assim também para Johann Jakob Engel (1741-1802) ao tomar parte no debate sobre a interpretação do ator teatral, cujo rosto se torna gesto com o nome hoje comum “aparência”. Ele concebe a mímica do ator como verdadeira linguagem do movimento facial, de que temia dar conta com um sistema ordenado de gestos ao mesmo tempo sensíveis e enérgico. A tout court a representação e a percepção do gesto de que “fala” a expressão facial se transformara. Sua linguagem é uma linguagem interior. A pintura do retrato malgré o ilustra com o ligeiro tremor da tinta pastel nos retratos de Quentin de La Tour, ou Chardin, traduz a delicadeza do movimento fisionômico.

A linguagem do sentimento possui uma tonalidade e uma temporalidade que lhe são próprias. Assim cada paixão tem sua cor; e cada paixão s decompõe em uma miríade de instantes que se distinguem pelas sutilezas de suas nuances. Um tempo sempre mais fugitivo desliza sobre o rosto e modifica suas percepções. Esse tempo do sensível que no final do século XVIII vê oscilar sobre a fisiognomia é um tempo complexo, que não se reduz à sombra fugitiva do sentimento. Não há, pois, na expressão espontânea do olhar, “nenhum intervalo, or assim dizer, entre o sentimento e seu efeito, ressalta Engel. Mas um domínio absoluto do rsoto é quase impossível, no orgânico alguma coisa que escapa ao império da vontade. Uma praga corrói a máscara do cortesão, que cai pouco a pouco em pedaços. O rosto é por vezes tomado pelo movimento interior, faísca instantânea que já percebe, mas ainda não conseguimos identificar. Com efeito, são várias temporalidades cujos períodos se entrecruzam na fisionomia: tempo fulgurante da agitação involuntária, tempo súbito da emoção, tempo efêmero da paixão e ainda o tempo de ciclos mais longos da evolução orgânica, que é o tempo irreversível das metamorfoses da idade sobre o rosto orgânico que lentamente leva o corpo ao seu fim. Neste caso, lembramos de Max Weber num ensaio sobre a objetividade do conhecimento científico-social admite, “fim é a representação de um resultado que se converte em causa de uma ação”.  A expressão é, então, o próprio indivíduo. E, no indivíduo, a expressão é ao mesmo tempo universal e singular. Portanto, não há nada no homem que não seja expressão como ao andar. 

Em 2009, retornou à televisão ao fazer uma participação Especial na minissérie Som & Fúria, produzida pela O2 Filmes e exibida pela Rede Globo em 2009 no papel do publicitário Sanjay. Em 2010, no longa-metragem Meu País, interpretou Marcos, um executivo, casado e bem-sucedido que viveu fora do país por anos devido ao desafeto com a família, mas se vê obrigado a retornar, após um derrame cerebral sofrido pelo pai. Foi confirmado e emplaca em mais um filme de Hollywood, Black Oasis, caracterizado como biográfico que narra a história social da falecida atriz Susan Cabot. A produção teve a direção de Stephan Elliott e trazia Rose McGowan no papel de Cabot, esposa do personagem de Rodrigo. Em fevereiro de 2015, iniciou as filmagens do remake de Ben-Hur no papel de Jesus, e em outubro confirmado que o ator voltaria após 12 anos em que participou de Velho Chico, uma telenovela produzida pela TV Globo e exibida de 14 de março a 30 de setembro de 2016, com 172 capítulos escrita com a autoria de Benedito Ruy Barbosa, fazendo o papel do protagonista Afrânio na primeira fase, ao lado de Carol Castro. A Batalha das Termópilasmutatis mutandis - foi travada no contexto social e político da Second Persian invasion of Greece entre uma aliança de pólis gregas liderados pelo rei de Esparta Leônidas I e o Império Aquemênida de Xerxes I. Curiosamente a batalha durou três dias e desenrolou-se no desfiladeiro das Termópilas (Portões Quentes) em agosto ou setembro de 480 a. C. É um lugar na Grécia, onde existia uma passagem costeira estreita na Antiguidade. Seu nome deriva de suas fontes sulfurosas. Os Portões Quentes são “o local de nascentes de águas quentes” e na mitologia grega sua idealização representa uma das entradas cavernosas para o Hades. Ao mesmo tempo ocorreu a Batalha de Artemísio.

A invasão persa foi uma resposta tardia à Primeira Guerra Médica, Guerras Greco-Persas, Guerras Persas ou Guerras Medas são designações dadas aos conflitos bélicos entre os antigos gregos e o Império Aquemênida durante o século V a. C., de 499 até 449 a. C. A colisão entre o mundo político fragmentado dos gregos, representado pelos aqueus, jônios, dórios e eólios, e o enorme e poderoso império dos persas começara pela disputa sobre a Jônia na Ásia Menor, quando as colônias gregas da região, especialmente Mileto, tentaram livrar-se do fabuloso domínio persa, que havia terminado com a vitória de Atenas na Batalha de Maratona. Xerxes reuniu um vasto exército e uma marinha para conquistar toda a Grécia e, em resposta à iminente invasão, o general ateniense Temístocles propôs que os aliados gregos bloqueassem o avanço do exército persa no desfiladeiro das Termópilas, enquanto bloqueavam o avanço da marinha persa no estreito de Artemísio. Um exército aliado formado por aproximadamente 7 000 homens marchou ao norte para bloquear a passagem no verão de 480 a. C. O exército persa, que, segundo estimativas modernas seria composto por 300 000 homens, chegou à referida passagem no final de agosto ou início de setembro. Em um número bem inferior, os gregos detiveram o avanço persa durante sete dias. Durante dois dias de batalha uma pequena força liderada por Leônidas bloqueou a única maneira que o imenso exército persa poderia usar para entrar na Grécia. Após o 2º dia de batalha, um residente chamado Efialtes traiu os gregos. Sabendo que suas linhas seriam ultrapassadas, Leônidas descartou a maior parte do exército grego, para proteger a sua retirada, juntamente com 300 espartanos, 700 téspios, 400 tebanos e talvez algumas centenas de soldados, sendo que, porém, a maioria dos quais morreu na batalha. 

Na etnologia, lembra Marc Augé (2014), as cosmogonias das sociedades estudadas  adoravam relatar a origem do mundo. Essas sociedades facilmente reduziam o mundo aos limites do imediato, cujo horizonte não ultrapassava o alcance de suas visões matinais. As sociedades contemporâneas, após terem ultrapassado esse horizonte, após terem estabelecido relações de toda espécie com os outros, a começar do comércio à guerra, após terem descoberto que a terá é redonda, foram tentadas a imaginar o futuro de toda a humanidade. As utopias universais passaram então a substituir as cosmogonias particulares. O etnólogo refere-se às grandes narrativas da Modernidade, evocadas pelo filósofo Jean-François Lyotard. Os horrores do século XX lhes desferiram um golpe fatal e hoje nos defrontamos com os ilusórios e provavelmente utilizamos esforços dos panoramas do pensamento liberal de construir por sua vez um mito: o do mundo global e do consumo generalizado, que confirma a constatação de um crescimento da desigualdade não somente entre os implicados no prodigioso progresso dos conhecimentos humanos e os excluídos tanto do conhecimento quanto do consumo. Cada qual assume progressivamente. E desta forma, compreende o etnólogo que renunciando a sonhar o porvir, vemo-nos empenhados em levar o inventário do presente como se quiséssemos frear o ritmo das destruições imagináveis que operam em nome da eficácia da demografia e da produção; inscrevemos o patrimônio da humanidade as zonas mais impressionantes aos nossos olhos; criamos “parques naturais” e conservamos amostras de espécies ameaçadas de extinção.

 Alguns fósseis submarinos ainda não foram explorados, algumas espécies raras ainda precisam ser estudadas, mas para o essencial tudo está definido, segundo Augé: tudo se passa como se programássemos a vinda de alguns turistas interplanetários, de alguns visitantes curiosos em nos conhecer e que, v indos de longe, tão se demorariam nas diferenças de detalhes, mas somente se interessariam pelo homem genérico habitando o Planeta Terra. No passado já enviamos ao espaço amostras de nosso know-how, ou seja, o conhecimento de normas, métodos e procedimentos em atividades, especialmente as que exigem formação técnica ou científica, à guisa de mensagem a um destinatário desconhecido, por precaução, como se joga uma garrafa ao mar. No mundo contemporâneo, por um movimento inverso, damos a impressão de tentar colocar um pouco de ordem no interior da casa, na expectativa de uma eventual visita.  Cada qual assume progressivamente uma consciência mais ou menos clara da prodigiosa mudança em escala que afeta a história dos humanos. Agora entendemos mais claramente a proposição de Pascal, feita há quatro séculos: temos consciência de apenas ocupar um ínfimo cantão do universo. Bilhões de sistemas solares em nossa galáxia e bilhões no universo da imaginação rapidamente se esgota ao tentar conceber o infinito. Existe sem dúvida mais verdade no espetáculo silencioso dos carrosséis desmontados, dos terraços desertados e dos hotéis de venezianas fechadas que na alegria dos atropelos estivais, ou como diz o dramaturgo William Shakespeare, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, ou “a verdadeira substância da ambição é a sombra de um sonho”. Este chame retoma a lição das ruínas no imaginário individual e coletivo e nos convida a sentir, compreender e admitir que o desaparecimento, o silêncio e a morte sustentam a vida social, a mais efervescente. Mas essa constatação ela mesma não poderia ser feita em qualquer época. Houve na história épocas criativas e otimistas nas quais as provações mais violentas não eram vividas como roçando levemente o não sentido e o nada. 

Se hoje a representação do real de análise e de um universo pós-humano é quase concebível é porque, vir secundis adversisque, o futuro da sociedade planetária que sofre para definir-se. O encontro, mais uma vez, contrariamente à hereditariedade, à herança e ao destino, é o teste da alteridade: por essa razão o termo significa tanto empatia quanto enfrentamento, e a abertura do tempo, da ventura, da liberdade. É por isso que as mitologias tentaram de antemão ocupar o terreno: o cruzamento, espaço ideal do encontro, é balizado, simbolizado e protegido para evitar que se transforme em lugar de “desagradáveis encontros”. A mitologia grega, com Édipo e Laio, fez dele o espaço no qual se cumpria a profecia do oráculo Delfos, e a mitologia psicanalítica o transformou em símbolo da maldição original que pesaria sobre todo os indivíduos humanos. Dessa forma, a criação literária e artística definiu o lugar problemático da  aventura individual e coletiva. Seria um começo absoluto e ocasião de encontros inéditos, ou ilusão suprema de uma humanidade alienada à fatalidade da origem? A tensão entre sentido e liberdade atinge aqui seu auge. Ela se exprime, da forma mais banal e mais trivial possível, em nossa relação social com as artes menores, que são ao mesmo tempo as mais cotidianas e as mais compartilhadas, como a canção. Refrão, cantilena, cantiga mil vezes ouvida de um sanfoneiro ocasional que dedilha e esfola sua sanfona em um vagão de metrô para subtrair alguma moeda de um público por ele cativado? Em todos os episódios da vida individual e coletiva, somos sensíveis aos fenômenos de usura que à vezes podemos ser tentados a imputar às traições de uns ou outros, mas que a alguma distância, sem dúvida mais grave, eles nos aparecem como irremediavelmente ligados á simples ação do tempo, de envelhecimento quase biológico, como no filme peruano...suscitando-nos em contrapartida grandes nostalgias.

Bibliografia geral consultada.

MINOUMI, Simon-Claude, Les Chrétiens d`Origine Juive dans L`Antiquité. Paris: Editeur Albin Michel. Cool. Présence du Judaïsme, 2004; HEGEL, Friedrich, Fenomenologia do Espírito. 4ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007; MORETTI, Franco, Signos e Estilos da Modernidade: Ensaio sobre a Sociologia das Formas Literárias. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007; SILVA, Uiran Gebara, “Antiguidade Tardia como Forma de História”. In: Anos 90. Porto Alegre, vol. 16, nº 30, pp. 77-108, dez., 2009; JAEGER, Werner Wilhelm, Paidéia: A Formação do Homem Grego. 5ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010; MOURA, Elvis Dion Domingues, Os 300 Espartanos de Frank Miller: Traço, Cor e Nankin Reinterpretam o Mito da Pós-Modernidade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2010; HOMERO, Odisseia. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011; ASSUMPÇÃO, Luis Filipe Bantim, Discurso e Representação sobre as Práticas Rituais dos Esparciatas e dos seus Basileus na Lacedemônia do Século V a. C. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2014; SILVA, Ricardo Barbosa da, Culto à Guerra: Uma Abordagem Historiográfica do Militarismo na Esparta Clássica. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de Ciências Humanas. Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2017; BERNARDO, Gabriel Cabral, “Heródoto e a Miragem Espartana: Um Estudo sobre a Caracterização dos Reis de Esparta nas Histórias”. In: Revista de Estudos sobre a Antiguidade Phaine. Brasília, vol. 1, nº 2, 2017; VIRGOLINO, Mariano Figueiredo, Redes, Stásis e Estabilidade na Grécia Antiga: Um Estudo em Cultura Política. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em História Social. Instituto de História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2018; BARROS, Eudenia Magalhães, Contingências da Vida: Sobre Corpos Transformados em um Mundo Feito para Capacitados. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2021; entre outros.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Evangelismo & Autoridade - A Estultícia do Sr. Ministro da Educação.


Ubiracy de Souza Braga

 “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Clarice Lispector


            Clarice Lispector foi uma escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, mas declarava, quanto a sua brasilidade, ser pernambucana, sendo considerada uma das escritoras mais importantes do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka. A escritora dizia não ter aparentemente nenhuma ligação com a Ucrânia e que sua “verdadeira” pátria era o Brasil. Pouca gente se dá conta de que uma das escritoras mais talentosas da literatura brasileira viveu em Maceió. Trata-se de Clarice Lispector, que passou alguns anos de sua infância na capital alagoana. Inicialmente, a família passou um breve período em Maceió, até se mudar para o Recife, onde Clarice cresceu e onde, aos oito anos, perderia a mãe. Aos quatorze anos de idade, transfere-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, onde a família estabilizou-se, e onde o seu pai viria a falecer, em 1940. Sua obra literária representa cenas cotidianas e enredos psicológicos, considerada uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Predomina em suas obras o nível de análise psicológico, visto que o narrador segue o fluxo do pensamento e o monólogo interior das personagens.

As ações sociais, quando ocorrem, destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. São comuns enredarem-se histórias sem começo, meio ou fim. Por isso, ela se dizia, do ponto de vista da criação, ser mais que uma escritora, irradiando uma ideia afetiva nas palavras, porque registrava em palavras aquilo que sentia. Mais que histórias, seus livros apresentam impressões. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa se concentra no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado, pelo menos inusitado para a personagem. Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa se concentra no espaço mental das personagens.

Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado, pelo menos inusitado para a personagem. Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa se concentra no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo. Mas esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado - pelo menos inusitado para a personagem. Ocorre a “epifania” como a representação do momento em que a personagem sente uma “luz iluminadora” de sua consciência, contraditória, no sentido hegeliano, que a fará despertar para a vida contradições, perplexidades que noutra instância nela não fariam a menor diferença. Milton Ribeiro ao lado de Sikêra Júnior e Jair Bolsonaro que posaram para foto exibindo placa de “CPF cancelado”, expressão utilizada para se referir a mortos em confronto com policiais no Brasil.

           Autoridade é uma prática social que um indivíduo tem por possuir determinado conhecimento, que está ligado à liderança, compostura e comando. Representa a base social de certos tipos de organização hierarquizada. Refere-se à prática social que tem como objetivo levar as pessoas a perceberem e respeitarem as normas, julgando sua legitimidade e avançando no desempenho concreto da democracia, no estabelecimento do bem maior. Na esfera da vida social a luta política é uma das questões que sempre marcaram a dialética capital versus trabalho. Mas a esfera social onde a ideologia manifesta mais explicitamente seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo da atividade intelectual. O autoritarismo, ao contrário, está ligado às práticas e saberes antidemocráticas e antissociais. Representa a imposição condicionada “pelo uso da força bruta da política”, como acentuava Marx, e geralmente as decisões se restringem às vontades do próprio indivíduo ou estritamente ligadas a ele, decerto no âmbito pessoal, profissional, governamental. Quando existe autoridade, as pessoas agem motivadas afetivamente por quem a detém, diante do alcance conspícuo do que objetiva. 
            No senso comum em torno dos hábitos o termo ideologia é sinônimo ao termo ideário, contendo o sentido neutro de conjunto de ideias, de pensamentos, de doutrinas ou de visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para suas ações sociais e, principalmente, políticas. Quando é o autoritarismo que prevalece, de mil formas, as pessoas também agem, porém não existe motivação pessoal; existe sim, medo, censura e ameaças constantes. O sujeito da ação política é alguém que quer reconhecer o quadro em que age; que quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer. Mas, ao mesmo tempo, é um sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações particulares, sua e dos outros para agir. A política é levada a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das motivações particulares. Mas vale lembrar que os caminhos trilhados na política e na universidade em geral evitam a opção nítida por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa e absurda indiferença. São frequentes as combinações de elementos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Sua atividade interpretativa também pode ser criativa, de modo que ao interpretar um caso, determinado ator social aplicaria e criaria um direito novo, praticamente legislando.



            A aglutinação dos ministérios tem um papel simbólico negativo. Os Ministros de Estado não são meros auxiliares do presidente da República no exercício do Poder Executivo e na direção superior da Administração Federal, pois representam uma dimensão econômica ou política de governo e da nação propriamente dita. Os Ministros de Estado são responsáveis pelos Ministérios e são escolhidos pelo presidente da República através de nomeação. Por ser um cargo de confiança do presidente, esses Ministros podem ser exonerados a qualquer tempo, não tendo qualquer estabilidade (art. 84, I). Os requisitos para que um indivíduo assuma o cargo de Ministro de Estado, cargo de provimento em comissão (de confiança), devem estar em conformidade com o art. 87, caput: - ter mais de 21 anos de idade; se encontrar em pleno gozo de direitos políticos; ser brasileiro ou naturalizado, exceto o Ministro de Estado da Defesa, que deverá ser preenchido por brasileiro nato, desde a Constituição Federal.
Formalmente competem aos Ministros, além de outras atribuições estabelecidas na Constituição e na lei, as dispostas no parágrafo único do art. 87 da CF/88: exercer a orientação, coordenação e supervisão dos órgãos e entidades da administração federal na sua competência e referendar os atos e decretos assinados pelo Presidente da República; expedir instruções para a execução das leis, decretos e regulamentos; apresentar ao Presidente da República relatório anual de sua gestão no Ministério; praticar os atos pertinentes às atribuições que lhe forem outorgadas ou delegadas pelo Presidente da República. Em conformidade com o artigo 88 da Constituição Federal (CF), foi criada a Lei n° 9.649, de 27 de maio de 1988, para disciplinar, conforme a Lei Maior, sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios. A ideia maquiavélica de criar um superministério da Economia, fundindo Fazenda, Planejamento, Indústria e Comércio, ameaça diretamente a autonomia da Zona Franca de Manaus (ZFM) e pode resultar no fechamento da Suframa. Além do Ministério da Indústria, Comércio e Serviços ser extinto na fusão. Politicamente a pasta do governo federal é a responsável pelo funcionamento da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
            O título de ministro de Estado é usado com significados que variam entre países. Pode ser usado como o título de um membro do governo de estatuto superior ao dos restantes ministros, como o título de todos os ministros do governo ou como o título de membros do governo de estatuto inferior ao dos ministros do gabinete. O titular de Ministério, de livre escolha do presidente da República, responsável pela supervisão dos órgãos da administração federal enquadrados em sua área de competência econômica, social ou política. É julgado pelo Senado Federal nos crimes de responsabilidade conexos com o do presidente da República. São Ministros de Estado os titulares dos Ministérios, bem assim o Chefe do Gabinete Civil, o Chefe do Gabinete Militar, o Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. O Ministro de Estado do Planejamento chefia a Secretaria de Planejamento e Coordenação. As atribuições administrativas e legislativas do Ministro de Estado competem em expedir instruções para a execução das leis, decretos e regulamentos; apresentar ao Presidente Relatório Anual de sua gestão no Ministério; praticar os atos pertinentes às atribuições que lhe forem outorgadas ou delegadas pelo Presidente da República. Os ministros da Educação no Brasil, desde 1979, tiveram um curto período de gestão, alcançando em média somente dois (2) anos no cargo, devido à instabilidade provocada por crises políticas e econômicas governamentais.


            Um estudo de ideologias da administração não está preocupado com as origens do “espírito capitalista”, mas sim com as “armas ideológicas” empregadas na luta pela ou contra a industrialização. E quando ideologias são formuladas para defender um conjunto de interesses econômicos, é mais esclarecedor examinar a estratégia de argumentação do que insistir em que o argumento é autointeressado. Afinal, o país atravessou nessas quatro décadas períodos  de graves crises econômicas e de instabilidade política, como o impeachment casuístico de dois presidentes da República. O ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), cuja gestão durou 12 meses de trabalho, destaca que tentou encarar como “prioritária a diminuição do analfabetismo no país”. Segundo a  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), com dados referentes ao ano de 2016, o Brasil ainda tem cerca de 11,8 milhões de analfabetos. A pesquisa realizada pelo estatal IBGE “indica dados reais que 7,2% das pessoas maiores de 15 anos não sabem ler, comparativamente entre os negros, o percentual chega a 9,9%”. 
          Ao que parece a educação vem sendo num continuun ad infinitum o calcanhar de Aquiles do governo autoritário peselista eleito de forma turva pouco mais de um ano. O professor colombiano Ricardo Vélez Rodríguez caiu como fruta madura no ministério da Educação. Crítico do Enem escreveu no início da posse que o órgão responsável pela  aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) entende as provas “mais como instrumentos de ideologização do que como meios sensatos para auferir a capacitação dos jovens no sistema de ensino” (cf. O Globo, 23/11/2018) e com afinidade ao dístico “Escola sem Partido”, ele é professor-colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, um município no interior do estado de Minas Gerais. Localiza-se na Zona da Mata mineira, a sudeste da capital do estado. - “Gostaria de comunicar a todos a indicação de Ricardo Vélez Rodríguez, filósofo, autor de mais de 30 obras, atualmente professor Emérito da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, para o cargo de Ministro da Educação”. O professor é um (des) conhecido na comunidade científica fora do métier militar.

Ele admitiu que fosse indicado pelo didata e polemista reacionário Olavo de Carvalho para comandar a Pasta. A indicação do professor ocorreu um dia depois da bancada evangélica vetar o educador Mozart Neves, diretor do Instituto Ayrton Senna. Ele era crítico do projeto Escola sem Partido, uma das principais armas do ex-militar eleito. O procurador regional do Distrito Federal, Guilherme Schelb era cotado para o ministério da educação. Schelb admitiu ter apoio “muito significativo” da bancada evangélica e reafirmou ser a favor do movimento Escola Sem Partido. Depois que saiu o anúncio de Vélez Rodríguez, Schelb “parabenizou” o presidente pela indicação. No texto, diz que é preciso “refundar” o Ministério da Educação (MEC)  no “contexto da valorização da educação para a vida e a cidadania a partir dos municípios” e que será o ministro da Educação para tornar realidade a proposta externada Jair Bolsonaro (PSL), de “Mais Brasil e Menos Brasília”. É critico de nomes que foram pensados para o MEC, como a da presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Maria Inês Fini. Para ela o Exame Nacional do Ensino Médio, prova que ela é responsável atualmente, é um “instrumento de ideologização”. Existe neutralidade  axiológica na educação, na religião, na medicina, nos desportos, na ciência em geral?
O inexperiente ministro da Educação assume o cargo envolvido em polêmicas e com um ministério que sofreu demissões desde o início do governo. O MEC já teve ao menos 14 demissões, sendo que dois cargos estratégicos ainda estão vagos: a secretaria da Educação Básica e a presidência do INEP. Além da preocupante falta de experiência em educação e gestão pública, Abraham Weintraub é seguidor do astrólogo Olavo de Carvalho. Demonstra um estranho alinhamento ideológico pari passu às pautas neoliberais e de extrema-direita afirmando que irá combater o chamado “marxismo cultural”. Ideologicamente a uma suposta forma de marxismo, alegadamente adaptada a termos culturais pela extraordinária Escola de Frankfurt, que teria se infiltrado nas sociedades com o objetivo de destruir suas instituições e valores tradicionais através do estabelecimento de uma “sociedade global, igualitária e multicultural”. A Escola de Frankfurt constituiu-se em um grupo pluralista de intelectuais que na primeira metade do século passado produzira um pensamento reconhecido como Teoria Crítica. Dentre eles temos Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Walter Benjamim, e outros, que desenvolveram teses sobre estruturas de poder e dominação econômica, política, cultural e psicológica da civilização industrial avançada.
Abraham Weintraub é professor universitário da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 2014. Sua produção acadêmica não traz menção à educação, mas à economia financeira, principalmente ao nebuloso tema da Previdência Social. Especializados em Previdência, os irmãos Weintraub têm tratado, na transição, da proposta de reforma da área, mas também de outros temas, como a independência do Banco Central. Em 2015, o ministro fundou o Centro de Estudos em Seguridade (CES), que se apresenta como uma associação civil sem fins lucrativos fundados por professores dos cursos de Atuária e Contabilidade da Universidade Federal do Estado de São Paulo. O CES, segundo publicação no jornal Estadão em 2018 poderia ser o alvo que desencadeou uma sindicância em curso contra os irmãos Weintraub. Isto porque o Centro de Estudos de Seguridade foi a única instituição a apoiar a realização da Cúpula Conservadora das Américas, evento idealizado pelo filho do presidente da República. Abraham e Arthur falaram sobre economia no evento. Dois de seus colegas consultados pela reportagem do jornal Estadão disseram que ele teve uma passagem discreta pela universidade porque parecia se dedicar mais aos seus projetos do que à Academia.
Em 2014, apoiou a campanha presidencial de Marina Silva (Rede), em 1994,  eleita senadora da República, pelo estado do Acre, com a maior votação, sendo a pessoa mais jovem a ocupar o cargo de senador no Brasil. Antes de enveredar na carreira acadêmica, Abraham Weintraub atuou no Banco Votorantim e na Quest Corretora. A aproximação dos irmãos Weintraub com presidente se iniciou há quase dois anos, por intermédio de Onyx Dornelles Lorenzoni (DEM), o ministro da Casa Civil. Ao mesmo tempo ganhou a confiança do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho mais engajado com as estratégias de violência das milícias do presidente como é sabido e noticiado de domínio público. Em princípio, Abraham atuaria no ministério da Economia como um dos principais responsáveis por elaborar a (demagógica) reforma da Previdência. Mas o ministro Paulo Guedes preferiu nomear alguém com experiência legislativa para a função de secretário especial de Previdência e Trabalho. Era necessário convencer parlamentares sobre a necessidade de se aprovar a reforma. Assim, a vaga ficou com o ex-deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN). Abraham Weintraub acabou sendo remanejado na secretaria executiva da Casa Civil. Seu irmão Arthur Weintraub, tornou-se chefe da assessoria especial da Presidência. Vale lembrar que a capacidade de crer parece estar em recessão no campo político. A tática é a arte do fraco. O poder se acha amarrado à sua visibilidade.

Mas a vontade de “fazer crer”, de que vive a instituição, fornecia nos dois casos um fiador à busca de amor e/ou de identidade. Importa então interrogar-se sobre os avatares do crer em nossas sociedades e sobre as práticas originadas a partir desses deslocamentos. Durante séculos, supunha-se que fossem indefinidas as reservas de crença. Aos poucos a crença se poluiu, como o ar e a água. Percebe-se ao mesmo tempo não se saber o que ela é. Tantas polêmicas e reflexões sobre os conteúdos ideológicos em torno valor do voto e os enquadramentos institucionais para lhe fornecer não foram acompanhadas de uma elucidação acerca da natureza do ato de crer. Os poderes antigos geriam habilmente a autoridade. Hoje são os sistemas administrativos, sem autoridade, que dispõem de mais força em seus “aparelhos” e menos de autoridade legislativa. A 1ª mulher que se tornou presidenta da República no Brasil foi Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi reeleita com mais de 54 milhões de votos. A candidata petista venceu o segundo turno com 51,64% dos votos válidos, fazendo com que esta fosse considerada a eleição mais acirrada no Brasil após a redemocratização da República federativa ocorrida em 1985.
Ipso facto o presidente da República anunciou seu novo ministro da Educação: Carlos Decotelli, oficial de reserva da Marinha, o terceiro ocupante do comando do Ministério da Educação e Cultura (MEC) no atual governo, depois da demissão de  Weintraub e de Vélez. A nomeação de Decotelli foi vista como mais um aumento de protagonismo militar no governo Bolsonaro, neste caso, particularmente, da Marinha. De perfil mais moderado que seu antecessor, Decotelli é um acadêmico e também o primeiro ministro negro de Bolsonaro. Durante alguns meses no ano passado, entre fevereiro e agosto, ele comandou o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia ligada ao MEC que costuma ser alvo de disputas em qualquer governo, por gerir um orçamento bilionário (de R$ 55 bilhões em 2019) e ser responsável por financiar alguns dos principais programas da educação básica pública nos municípios, como transporte e infraestrutura escolar. Um dos programas priorizados no período pelo fundo, o Educação Conectada, ganhou as manchetes meses depois, quando a Controladoria-Geral da União encontrou inconsistências em um edital de R$ 3 bilhões de um pregão para a compra de equipamentos de tecnologia educacional.
Foi nomeado ministro da Educação em 25 de junho de 2020, mas cinco dias depois renunciou antes de assumir o cargo, em virtude de uma série de controvérsias em relação à titulação acadêmica informada em seu currículo, não chegando a tomar posse. Em 2008, Decotelli defendeu dissertação de mestrado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apresentando uma dissertação com o tema Banrisul: do PROES ao IPO com Governança Corporativa. Em junho de 2020, logo após a nomeação como Ministro da Educação, Decotelli foi acusado literalmente por Thomas Conti, professor do Insper, “de ter plagiado pelo menos 10% da sua dissertação de mestrado, concluída em 2008, a partir de um relatório da Comissão de Valores Mobiliários publicado em fevereiro do mesmo ano. Segundo Conti, 4.200 palavras foram copiadas diretamente desse relatório para a dissertação”.  Em 2009, cursou um doutorado em Administração na Universidade Nacional de Rosário, na Argentina. Apesar de nunca o ter finalizado, apresentava-se no currículo vitae na Plataforma Lattes como tendo concluído o doutorado, com a tese: Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja, orientada por Antônio de Araújo Freitas Jr. No ato presidencial da nomeação como Ministro da Educação brasileira, Decotelli foi apresentado por Jair Messias Bolsonaro como doutorado por aquela universidade.
O Conselho da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração, da qual o pastor Milton Ribeiro, novo ministro da Educação, é reverendo, parabenizou a escolha do presidente Jair Bolsonaro (ex-PSL) para a pasta da Educação. Em nota, o conselho da igreja, sediada em Santos (SP), afirmou que a nomeação do pastor para o Ministério da Educação (MEC) é “o triunfo da integridade, da sólida confiança em Deus e da convicção de que a família é projeto de Deus”. - Um homem não pode receber coisa alguma, se do céu não lhe for dada (João 3, 27), declarou João Batista. “É assim que recebemos a nomeação de nosso pastor: como obra de Deus e não de homem”, escreveu o conselho pastoral. O novo titular da Educação, pastor Milton Ribeiro, disse, em vídeo publicado após o 2° turno das eleições de 2018, que o existencialismo – filosofia que coloca o indivíduo como centro do pensamento – é algo que estão ensinando “para os nossos filhos na universidade” para incentivar uma “prática totalmente sem limites do sexo”, o que demonstra ignorância simbólica sobre sexualidade de um ultraconservador.
Atualmente, o pastor Milton Ribeiro é reverendo da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração, em Santos. Ao anunciá-lo como ministro da Educação, o presidente frisou seu doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (2006). A universidade já confirmou a autenticidade do título acadêmico, mas a tese não discutiu políticas públicas. O trabalho dissertou sobre a educação escolar como “pressuposto da organização institucional calvinista e não apenas seu resultado”. O novo ministro é especializado também no estudo do Velho Testamento. Quem o reconhece diz que não há nele uma postura ideológica, de acreditar que os professores de história são comunistas - e que é um homem educado e discreto. Sua indicação está sendo atribuída ao Ministro-chefe da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, e ao ministro da Justiça, André Mendonça, também presbiteriano. Ele não teria agradado necessariamente a ala evangélica que apoia o presidente. O grupo havia indicado o atual reitor do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), Anderson Correa. – “Milton é indicação do ministro da Justiça, que é presbiteriano como ele. Não posso falar nada contra o novo ministro porque seria uma injustiça, eu não o conheço. Mas não venha dizer que ele é apoiado por evangélicos, que nós não temos nada com isso. É uma escolha do presidente junto com o ministro da Justiça”, disse Silas Malafaia (cf. Cafardo e Soares, 2020).
O tema da diferença e da identidade cultural assim como o reconhecimento da diversidade e da diferença apresenta-se como irredutível a esquemas explicativos gerais eficazes. É justamente isso que torna o debate profícuo e particularmente criativo e aberto. A sua riqueza consiste justamente na multiplicidade de perspectivas que interagem. Que não podem ser reduzidas a um único código e/ou a um único esquema proposto como modelo transferível universalmente. Tal debate polissêmico e polifônico é motivado, contudo, por uma necessidade teórica, histórica e ideológica que se manifesta nas mais diferentes práticas sociais. Na governabilidade o estereótipo resulta  um instrumento que justifica a incoerência de atitudes, assim como comportamentos pessoais e perversos individual (o sonho) ou coletivamente (os mitos) no âmbito dos conflitos sociais e políticos gerados nas sociedades. O poder é legitimado através da mediação da autoridade. Enquanto legitimidade pressupõe consenso mais ou menos explícito e generalizado, onde a legitimação refere-se ao modo de obtenção desse consenso entre os membros de uma coletividade. Da natureza da legitimação derivam os tipos de obediência, bem como o caráter e os efeitos sociais do seu exercício.
As declarações do novo ministro da educação contrariam a lei. No Brasil, vigora  desde 2015 a Lei da Palmada de nº 13.010 que mudou o Estatuto da Criança e do Adolescente (lei 8.069/90) e o Código Civil Brasileiro (lei 10.406/02) “para estabelecer o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante”. Para o ministro da Educação, a correção dos filhos “não ocorrerá por meios justos e métodos suaves”. Para ele, esse tipo de abordagem surtiria efeito específico apenas em crianças mais desenvolvidas, ou superdotadas. - “A correção necessária para a cura não vai ser obtida por meios justos e métodos suaves. Talvez uma porcentagem muito pequena de crianças precoces, superdotadas é que vai entender o seu argumento. Deve haver rigor, desculpe, severidade”. Filhos ‘devem sentir dor’ para aprender. É o que diz o novo ministro da Educação o Pastor Milton Ribeiro, como consta em um vídeo de uma de suas pregações. Nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido político) para assumir o comando do Ministério da Educação (MEC), o pastor evangélico defende que os pais apliquem castigos físicos como forma de educar e obter a “correção necessária para a cura”.

Em 2018, em suas declarações Ribeiro afirmou que o existencialismo estava sendo ensinado nas universidades, e que estava incentivando os alunos a terem relações sexuais desconsiderando quem é o parceiro: - Para contribuir ainda mais em termos negativos para uma prática totalmente sem limites do sexo veio a questão filosófica do existencialismo, em que o momento é que importa. Não importa se é A, B, se é homem ou se é mulher, se é esse, se é aquele, se é velho, se é novo. Não interessa. O que interessa é aquele momento. […]. É isso que eles estão ensinando para os nossos filhos na universidade. Ribeiro também culpou os métodos anticoncepcionais, como a pílula do dia seguinte, pela má conduta sexual: - O mundo foi perdendo a referência do que é certo e do que é errado em termos de conduta sexual. E isso foi trazendo muitas dificuldades porque agora a gravidez indesejada não é mais um risco.

Durante uma pregação intitulada “A vara da disciplina”, proferida por Ribeiro em uma igreja presbiteriana em abril de 2016, Ribeiro defende o castigo físico para a educação de uma criança. Segundo ele, “essa ideia que muitos têm de que a criança é inocente é relativa”, que um bom resultado “não vai ser obtido por meios justos e métodos suaves” e que as crianças “devem sentir dor”. Em 11 de julho de 2020 – um dia após a nomeação de Ribeiro para o Ministério da Educação –, devido ao clamor público a respeito de sua posição, Ribeiro apagou a gravação em vídeo da pregação de seu canal no YouTube. Em 16 de julho de 2020, durante seu discurso de posse, afirmou: “Jamais falei em violência física na educação escolar e nunca defenderei tais práticas, que fazem parte de um passado a que não queremos voltar”. Em setembro de 2020, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ministro Milton Ribeiro relacionou a homossexualidade a “famílias desajustadas”, tendo afirmado: - “Acho que o adolescente, que muitas vezes, opta por andar no caminho do homossexualismo, tem um contexto familiar muito próximo, basta fazer uma pesquisa. São famílias desajustadas, algumas. Falta atenção do  pai, falta atenção da mãe”.

Na visão do ministro, os alunos com deficiência na mesma sala que os alunos sem deficiências “atrapalhava o aprendizado dos outros, porque a professora não tinha equipe, não tinha conhecimento para dar a ela, atenção especial”. Ainda segundo o ministro, existem crianças com “um grau de deficiência que é impossível a convivência”. Em uma tentativa de se explicar, ministro afirmou que “atrapalham, deixa eu explicar para vocês. Nós temos, hoje, 1,3 milhão de crianças com deficiência que estudam nas escolas públicas. Desse total, 12% têm um grau de deficiência que é impossível a convivência” e explicou a ação do governo, ao dizer que “em vez de simplesmente jogá-los dentro de uma sala de aula, pelo ´inclusivismo`, nós estamos criando salas especiais para que essas crianças possam receber o tratamento que merecem e precisam”. Para o ministro, os reitores das universidades federais não podem ser 'esquerdistas, nem lulistas'. Segundo ele, os reitores: - “Não precisa ser bolsonarista. Mas não pode ser esquerdista, nem lulista. Reitor tem que cuidar da educação e ponto final. E respeitar todos que pensam diferente”.

Palmatória ou férula é um instrumento de poder, geralmente de madeira, usado para castigar alguém com golpes na palma da mão. No contexto da monarquia, surgem os infantes: o termo vem do latim, como “o que não fala”, e começa a ser utilizado a partir de 1205, em Portugal, para falar dos príncipes: o infante é o que ainda está sendo criado, por isso ainda não fala, por razões da idade. Diferente das outras crianças, as plebeias, o príncipe infante é aquele que um dia estará autorizado a falar o direito, ditando-o para a sociedade. Para alcançar a categoria de adulto no âmbito da história social da infância e ser criado, virtudes cristãs precisariam ser normalizadas, para assim, governar bem. Baseada em racionalidade teológico-cristã e uma educação como modelo de progresso da razão, ocorre a ratio de uma criatura frágil e maleável, que será dominada pelas deformações morais decorrentes do pecado original se for deixada à própria sorte.  A alma infantil é dominada pela anarquia que poderá ser contida, no entanto, por meio do exemplo e da correção da família cristã e dos mestres qualificados.
O castigo representou o principal meio disciplinar encontrado para doutrinar essas criaturas indomáveis: o mestre modela os hábitos infantis, visando resfriar e canalizar a natural abundância de calor do caráter inquieto da infância para o fim superior do autocontrole. Historicamente o uso da palmatória foi introduzido pelos jesuítas, como forma de disciplinar os indígenas resistentes ao processo de aculturação seletiva. O papel decisivo em sua formação foi representado pela escravidão que, operando como força distribalizadora, desgarrava as novas criaturas das tradições ancestrais. São produto tanto da deculturação redutora de seus patrimônios tribais indígenas e africanos, quanto da aculturação seletiva desses patrimônios e criatividade face ao novo meio de reprodução da vida. A prática foi perpetuada pelo monopólio da escravidão africana. Os senhores a utilizavam em inúmeros castigos aplicados aos negros desobedientes. No século XIX, quando a educação dava seus primeiros passos de caracol, a palmatória disseminou do controle social da senzala para a escola.
Ele se insere com a Lei Imperial de 15 de outubro de 1827, que, entre diversas prescrições, incide sobre a proibição dos castigos físicos nas escolas, substituindo-os pelo de cunho moral. Contudo, os resultados frustrados levaram ao regresso da palmatória, a qual passa a obter conteúdo de sentido nos corredores e no interior das salas de aula. O processo social de comunicação, ensino, aprendizagem e controle do tempo em seu ersatz estão intimamente vinculados à divisão social do trabalho, a construção das idades sociais, decorrente da formação em especial, das crianças e adolescentes. As representações sociais sobre o trabalho e as práticas dos jovens que se desenvolve, que se expressa na justificação e legitimidade da vigilância e na supervisão dos tempos e dos movimentos. As minúcias com que são elaborados os calendários escolares, os programas, os horários e as atividades são exemplos evidentes de que um dos papéis sociais centrais desempenhados pelas instituições escolares é a normalização da educação. Com base nisso, se estabeleciam os ritmos disciplinares.
Essas instituições representam uma relação de poder permeada pelo controle, distribuição do tempo e usos dos espaços escolares, onde se executam as atividades com regularidade e em etapas bem delimitadas. Por exemplo: horário para ingresso, horário para saída, tempo de cada aula, intervalos regulados entre uma aula e outra, tempo para recreio. As instituições educativas prescrevem minuciosamente cada uma das atividades que devem ser executadas num determinado tempo, um tempo medido, controlado, disciplinado. O espaço por excelência de vivência e controle do corpo discente é na prática a sala de aula, isso não implica dizer que não existam outros espaços ocupados pelos alunos: o pátio, os corredores, os banheiros, a biblioteca, a sala do diretor, etc. Diversos são os espaços de circulação, contudo nenhum se equipara ao espaço da sala de aula. Do ponto de vista pedagógico, as carteiras individuais são consideradas as mais aptas para as escolas. Elas possibilitavam uma maior distância entre os alunos, coibindo, dessa forma, bagunças e desordens. Isolava securitariamente os corpos, em razão de normas, garantindo a disciplina, o estudo, e a melhor vigilância por parte do professor. A base para esse nexo causal em que se dá a relação social da vivência é a categoria do significado. Tal categoria social corresponde a um apoio sólido que aparece como uma unidade de conjunto onde age o pensamento, os sentimentos e a vontade. Considerando que há um balanço parte e todo no nexo da vivência, o que garante o equilíbrio para esse balanço. 

 É a categoria do significado que para Wilhelm Dilthey, nada mais é do que a integração num todo que nós encontramos junto e nos remete ao significado e sentido contido na relação parte-todo que encontra na vivência e é seu fundamento. É neste sentido que consideramos que vida e as mudanças sociais de seus principais momentos estruturais fazem que a concepção do mundo sempre e em toda a parte se expresse em oposições, embora sobre um fundo comum. Portanto é  na arte, na religião e no pensamento que encarnam os ideais que atuam na existência de um povo. Por conseguinte, toda a mundividência é produto da história. A historicidade revela-se como uma propriedade fundamental da consciência humana. Os sistemas filosóficos não constituem uma exceção. Como as religiões e as obras de arte, contêm uma visão da vida particular e do mundo, inserida na vitalidade das pessoas que os produziram e em consonância com as épocas em que vieram à luz do dia; traduzem uma determinada atitude afetiva, caracterizam-se pela imprescindível energia lógica, porque o filósofo procura trazer a imagem do mundo à clara consciência e ao mais estrito urdimento cognitivo. Neste esforço de reflexão teórica e de trabalho dos conceitos, que gera uma circunspecção potenciada, é que reside o valor prático da atitude filosófica.
Como o centro da compreensão está na vida como um todo estruturado, mas sempre resultando da relação entre individualidades, é possível perceber a conexão entre a ética e a teoria compreensiva. Em verdade uma concepção da teoria, ao longo de quase meio século, permeada lado a lado por um motivo básico: uma unidade cuja garantia de existência é a presença do sentido. Há uma démarche que atravessa o homem, e nesta noção de sentido está a marca de uma concessão fatal a uma metafísica.  Ele desejava evitar tanto quanto o empirismo dos positivistas, desde que fique clara a dimensão de ser criador de significados, que não é simplesmente a noção ampla de vida, mas sua unidade constitutiva, a vivência, representada em toda experiência humana. Ipso facto, a história é suscetível de conhecimento porque é obra humana; nela o sujeito e objeto do conhecimento formam uma unidade. Nessa direção chega-se à formulação final da concepção de Dilthey. Seus elementos são: vivência, expressão e compreensão. A vivência surge nesse ponto, como algo especificamente social – pela sua dimensão intersubjetiva, e cultural – pela sua dimensão significativa -, para além do seu nível psicológico ou mesmo biológico porque guarda na memória. Trata-se de um ato reflexivo de consciência, que propõe e persegue fins num contexto intersubjetivo.
O Ministério da Educação representa o calcanhar de Aquiles dos programas governamentais desde a redemocratização retomada em 1985. Há uma disputa interna historicamente constituída na área da educação sobre qual projeto de governo deve ser institucionalizado. Os grupos de burocratas em conflito poderiam ser chamados de “pragmáticos” e “ideológicos”. Os primeiros tem como representação a ideologia de segurança nacional desenvolvida entre os militares, que foram os primeiros a serem envolvidos na campanha de Jair Bolsonaro (PSL). Este grupo social inclui ao menos um coronel que tem afinidades eletivas com o atual ministro. Os segundos são extremistas seguidores declarados do escritor fascista Olavo de Carvalho, e também ex-alunos do ministro demissionário Ricardo Vélez. Parte da elite militar no Ministério de Educação e Cultura pode ser considerada pragmática e compõe o grupo que ajudou na elaboração das propostas messiânicas de Bolsonaro. Dentre as propostas, estava a defesa da educação a distância, a criação de colégios militares em capitais e a modernização da gestão na pasta. Os seguidores do falso filósofo Olavo de Carvalho se incorporaram  depois da controversa vitória de Bolsonaro, articulada pelas estratégias de força em torno da demanda securitária, a moralidade dos costumes, a previsível desqualificação do Estado (corrupto e paternalista) e a na explosão do debate, a rica temática da intolerância interpessoal, facilitada pela mídia tiveram atritos com os que já participavam das discussões sobre educação desde iniciada campanha. 
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