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terça-feira, 18 de outubro de 2022

O Menu – Chef Celebridade & Sátira Cinematográfica Norte-Americana.

                             Ele não é um mero chef, é um contador de histórias”. In: O Menu (filme, Mark Mylod, 2022)                    

                        

             The Menu tem como representação social a relação dialeticamente assustadora entre um filme de terror e o “humor negro americano” dirigido por Mark Mylod e produzido por Adam McKay e Betsy Koch através de sua produtora Hyperobject Industries de cinema e televisão americana. É uma editora, escritora e fundadora de organizações sem fins lucrativos americana. Filha do bilionário Charles Koch, ela fundou a editora Catapult em 2015. Koch fundou e fez doações para diversas organizações envolvidas na pesquisa e no estudo popular da consciência (cf. Morin, 1998), da autopercepção e da terapia psicodélica. Mylod é um realizador pari passu de cinema e televisão e produtor executivo britânico. Começou a sua carreira extraordinária no mundo da comédia, realizando programas televisivos britânicos como Shooting Stars - Unviewed and Nude (1996), O Riso ao Poder, graças aos quais recebeu dois BAFTA TV Awards. Posteriormente, realizou episódios de séries dramáticas como Shameless (versão britânica), No Limite, Entourage - Vidas em Hollywood, The Affair e A Guerra dos Tronos. Destacou-se ao realizar episódios da série dramática Succession (2018–2023), da HBO, pela qual venceu dois Emmys. Recebeu aclamação e notoriedade por realizar episódios como “This Is Not for Tears” (2019), “All the Bells Say” (2021) e “Connor`s Wedding” (2023). Durante esse período, realizou o filme de sátira O Menu (2022), que foi bem recebido pela crítica cinematográfica. The Menu é estrelado por Anya Taylor-Joy e Nicholas Hoult como “um jovem casal que viaja para uma ilha para comer em um restaurante exclusivo dirigido por um chef misterioso”, interpretado por Ralph Fiennes. Hong Chau, Janet McTeer, Judith Light e John Leguizamo. Lançado em 18 de novembro de 2022, pela Searchlight Pictures.

           Escólio: Tyler Ledford e sua namorada Margot Mills viajam de barco para Hawthorn, um restaurante exclusivo localizado em uma ilha particular operado pelo Chef celebridade Julian Slowik. Os outros convidados são a crítica gastronômica Lillian Bloom e seu editor Ted; os frequentadores ricos Richard e Anne Leibrandt; o astro de cinema fracassado George Diaz e sua assistente pessoal Felicity Lynn; os parceiros de negócios Soren, Dave e Bryce; e a mãe alcoólatra de Slowik, Linda. O grupo faz um tour pela ilha com o maître Elsa, que observa que Margot não seria a convidada designada de Tyler. O jantar começa com Slowik apresentando uma série de pratos, durante os quais ele entrega monólogos cada vez mais perturbadores. Para o terceiro prato, verdades incômodas sobre cada convidado são expostas por meio de imagens impressas a laser em tortilhas. Durante o quarto prato, o subchefe Jeremy comete suicídio. Quando Richard tenta sair, a equipe corta seu dedo anelar esquerdo como um aviso para que os convidados fiquem. Insatisfeito com as tentativas do investidor anjo Doug Verrick de se envolver na gestão de Hawthorn, Slowik faz com que ele seja afogado na frente dos convidados. O quinto prato começa com Slowik se permitindo ser esfaqueado por Katherine, uma funcionária que ele havia assediado sexualmente. As convidadas jantam com Katherine enquanto os homens têm a chance de escapar da ilha por meio de um jogo de esconde-esconde, mas a equipe de Slowik pega todos eles.

 Quando Lillian tenta ganhar o favor de Katherine oferecendo ajuda para abrir seu próprio restaurante, Katherine revela que foi ela quem sugeriu matar os convidados e a equipe. Slowik explica que cada convidado foi escolhido porque contribuiu para que ele perdesse sua paixão por seu ofício ou porque ganha a vida explorando o trabalho de artesãos de alimentos como ele. Ele anuncia que todos estarão mortos no final da noite. Como a presença de Margot não foi planejada, Slowik lhe dá em particular a escolha de morrer com a equipe ou com os convidados. Quando ela hesita, ele escolhe a equipe. Margot revela que é uma acompanhante chamada Erin, cujos clientes incluíam Richard, a quem ela parou de conhecer porque ele a contratou para fingir ser sua filha. Slowik revela que Tyler foi informado de que os convidados seriam mortos. Apesar disso, ele estava tão zeloso em participar do ofício de Slowik que manteve isso em segredo e contratou Margot para substituir sua ex-namorada porque Hawthorn não acomoda clientes solitários. Slowik convida Tyler para cozinhar e sua performance não corresponde às suas pretensões. Slowik o humilha detalhando seus erros culinários, então sussurra em seu ouvido, e um Tyler desanimado sai da cozinha. Slowik pede para Margot ir ao defumadouro e pegar um barril necessário para a sobremesa. Ao sair da cozinha, ela descobre que Tyler se enforcou em um armário.                        


No caminho, Margot entra furtivamente na casa de Slowik, onde é atacada por uma Elsa ciumenta. Após uma briga, Margot a esfaqueia fatalmente. Depois de ver um prêmio de funcionário do mês emoldurado mostrando Slowik como um cozinheiro jovem e feliz preparando hambúrgueres em um restaurante de Greasy Spoon, Margot encontra um rádio, pede ajuda e retorna ao restaurante com o barril. É um restaurante pequeno e barato, geralmente especializado em pratos rápidos. O termo também é usado no Reino Unido, com o termo informal “caff” para café, para se referir a um pequeno restaurante privado que tradicionalmente serve frituras e outras refeições rápidas. Um oficial da Guarda Costeira chamado Dale chega. Depois que os convidados se convencem de que foram salvos, Dale se revela um cozinheiro disfarçado e retorna à cozinha. Margot confronta Slowik por sua culinária “sem amor” e reclama que ainda está com fome. Quando ele pergunta o que ela gostaria, Margot pede um cheeseburger e batatas fritas preparadas sem a pretensão de uma refeição requintada. Slowik encontra alegria em atender pessoalmente sua refeição. Depois de uma mordida, Margot elogia a comida e pede para levá-la “para viagem”. Slowik permite que ela saia, e Margot escapa no barco da Guarda Costeira atracado nas proximidades. A sobremesa é um prato de s`more, um petisco tradicional para fogueiras noturnas popular nos Estados Unidos e no Canadá, consistindo de um marshmallow assado no fogo e uma camada de chocolate entre duas fatias de graham cracker. O Dia Nacional dos S`mores é comemoração anual em 10 de agosto. 

Entretanto, elevado para o qual a equipe decora o restaurante com molhos e biscoitos graham triturados, depois veste os convidados com estolas de marshmallow e fezzes de chocolate. Slowik incendeia o restaurante, detonando o barril e matando os convidados, a equipe e a si mesmo. Margot observa o fogo do barco, come seu cheeseburger e limpa a boca com uma cópia do menu. Em abril de 2019, foi anunciado que Emma Stone e Ralph Fiennes estrelariam The Menu, com Alexander Payne como diretor. Em dezembro, o roteiro apareceu na Black List anual, pesquisa que demonstra os filmes mais populares ainda em processo de desenvolvimento. Em maio de 2020, a Searchlight Pictures detinha os direitos de distribuição, e Payne e Stone deixaram o filme, como é de praxe, devido a conflitos de agenda, com Mark Mylod substituindo Payne como diretor. Em junho de 2021, Fiennes voltou ao elenco, com Anya Taylor-Joy em negociações para substituir Stone. Ela seria confirmada no próximo mês, além de Hong Chau e Nicholas Hoult se juntarem ao elenco. John Leguizamo, Janet McTeer, Judith Light, Reed Birney, Rob Yang, e Aimee Carrero se juntariam em setembro. Em outubro, Paul Adelstein, Arturo Castro, Mark St. Cyr, Rebecca Koon e Peter Grosz foram confirmados como parte do elenco. As filmagens começaram em 3 de setembro de 2021, em Savannah, Geórgia, com o diretor de fotografia Peter Deming. Christopher Tellefsen é o editor do filme. O desenho da cidade possibilita uma fácil circulação, por consequência das grades, praças e edifícios comunitário, possui um traçado urbano planejado que possibilita uma jornada simples para os pedestres, empreendimentos comerciais mistos; de fácil acesso e tráfego calmo de veículos.

O Iluminismo teve um papel social importante no plano urbano de Savannah, por ser considerada uma cidade que nasceu baseada em princípios iluministas, colocados em prática por Oglethorpe, foi um general e filantropo inglês, considerado o fundador do estado de Geórgia, Estados Unidos da América. Como reformador social, ele esperava reassentar um contingente dos “pobres dignos” da Grã-Bretanha no Novo Mundo, concentrando-se inicialmente naqueles em prisões de devedores.  Seu modelo urbano enfatiza a busca da igualdade social através do pensamento e métodos racionais para resolver os problemas físicos e sociais da sociedade, esse aspecto do plano urbanístico é conhecido particularmente por estar relacionado a promoção da igualdade social através do design urbano próprio e tangível da cidade, um problema muita das vezes abordado superficialmente no urbanismo. O filme foi lançado nos cinemas norte-americanos em 18 de novembro de 2022, como vimos, pela Searchlight Pictures. Em Portugal e no Brasil, foi lançado em 1° de dezembro de 2022. O Menu arrecadou US$ 38,5 milhões nos Estados Unidos e Canadá, e US$ 41,1 milhões em outros territórios, totalizando US$ 79,6 milhões em todo o mundo. No Rotten Tomatoes, 88% das 314 resenhas dos críticos são positivas, com nota média de 7,5/10. O consenso do site diz: “Embora seu comentário social dependa de ingredientes básicos, The Menu serve comédia negra com muito sabor”. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 71 em 100, com base em 45 avaliações, indicando “críticas geralmente favoráveis”.

 

Uma forma discreta de superar contradições reais ou abstratas supostas por um conjunto de práticas e saberes sociais, é atribuir as teses inconciliáveis a momentos distintos e sucessivos na reprodução de determinada mentalidade. Mas a questão que se coloca é: estará sujeita à indignação de fatores que se pode atribuir o fato de ocorrer na origem da civilização ocidental, e somente nela, o surgimento de fenômenos culturais dotados de um desenvolvimento universal em seu valor e significado? Isto porque os conhecimentos empíricos, as reflexões sobre os problemas do mundo e da vida social, a sabedoria filosófica e teológica mais profunda não se restringe à ciência. Não queremos perder de vista que um dos principais episódios da Querela dos Antigos e dos Modernos gira em torno de uma tradução da Ilíada. O debate não se restringe à doutrina ou arte poética, mas à genealogia da imitação das obras gregas em pintura e escultura, além da base da alimentação como principal fonte de alimentos. O ambiente favoreceu a criação de cabras e ovelhas, no lugar de vacas; pratos com carne bovina são mais raros. Pratos com peixes são mais comuns, especialmente nas regiões litorâneas e nas ilhas. A culinária é tradicional da Grécia, de características mediterrânicas, e que partilha diversas características com as culinárias da Itália, dos Balcãs, da Turquia e do Oriente Médio em geral. 

A culinária grega contemporânea é tipicamente mediterrânea, e utiliza azeite, grãos, pão, vinho, peixes, queijos, presunto e tipos de carnes, incluindo aves e coelho.  Entre os ingredientes estão a carne de cordeiro, ou de porco, azeitonas kalamata, queijo feta, folhas de uva, abobrinha e iogurte. Entre as sobremesas camel e as nozes, algumas utilizando massa filo, como a baclavá, um tipo de pastel elaborado com pasta de nozes trituradas, envolvida em massa filo e banhada em xarope ou mel, existindo variedades que incorporam pistache, avelãs e sementes de gergelim, papoula ou outros grãos. A origem é no Médio Oriente, feito com massa folhada muito fina geralmente recheada com frutos secos como amêndoas ou pistachos e coberta com mel ou calda. A Grécia tem uma tradição culinária antiga, além de ser o berço da filosofia ocidental, com uma história de vários milênios, quando ao longo do tempo, esta culinária evoluiu e absorveu diversas influências, e acabou influenciando, por sua vez, as culinárias de outras regiões. Os nomes de muitos dos pratos atuais vêm da tradição otomana e revelam suas origens árabes, persas e turcas, como mussaca, uma espécie de lasanha feita de berinjela, carne moída e tomate assados; baclavá, massa filo doce com recheio típico; tzatziki, do turco cacık, iogurte com alho e pepino picado; yuvarlakia e kefthedhes (almôndegas). A maioria destas palavras entrou no vocabulário do idioma grego durante o período otomano, que durou de 1299 a 1922, porém já havia contato anterior tanto com os persas quanto com os árabes. Alguns destes pratos podem ser pré-otomanos, tendo adotado simplesmente o nome utilizado pelos turcos para designá-los; os dolmades, por exemplo, feitos com folhas de videira, também eram consumidos pelos bizantinos.

Para que possamos melhor especificar a questão tópica as quais derivam os grupos sociais particularmente dedicados às ideias e ao conhecimento, isto é, a clericatura, denominam todas as coisas: pessoas, objetos, sensações, sentimentos e a intelligentsia, faremos uma  distinção sobre a posição da classe intelectual e as duas culturas nas sociedades arcaicas, nas quais há, com frequência, uma extraordinária acumulação de savoir-faire e de conhecimentos sobre a vida vegetal e animal, os homens possuem por vezes um saber escondido ás mulheres, e essas, um saber desconhecido dos homens: os anciãos são, em geral, portadores da experiência e da sabedoria e há, entre os feiticeiros ou xamãs, um conhecimento visionário que é fonte, segundo Morin (1998), de terapias e de atos mágicos. São comuns ao conjunto da sociedade, por um lado, um rico pensamento cosmogônico e cosmológico, expresso sob a forma de mitos e, por outro lado, uma sabedoria de vida concentrada em máximas e provérbios. Nas sociedades teocráticas da Antiguidade, os saberes cosmológicos, mágico, mitológico e religioso foram concentrados nos mesmos espíritos, na casta de Sacerdotes/Magos. As verdades supremas, de caráter esotérico, não podiam ser divulgadas e o acesso a elas exigia uma iniciação longa, mas na Idade Média ocidental a instrução é privilégio dos clérigos. 

Que os rostos dos atores sociais célebres sejam frequentemente reproduzidos pode parecer algo anódino. Na verdade, trata-se de um fenômeno novo que traduzia o lugar que o teatro assumia na vida urbana do século XVIII, que se inscrevia também em uma transformação mais ampla da cultura visual. Com frequência imagina-se que a celebridade moderna esteja ligada à reprodução maciça das imagens, caraterística do século XX. As novas tecnologias de produção e de reprodução da figura humana, a partir da fotografia, e sobretudo com o cinema e a televisão, teriam transformado a história da celebridade, para fazer a visibilidade a forma dominante da notoriedade. É incontestável que essas tecnologias tenham transformado de maneira considerável o universo midiático, bom como nossa relação com a imagem. Os retratos das estrelas estão, disponíveis profusamente, fixos ou móveis, em close ou mesmo com teleobjetiva. No entanto, uma transformação da cultura visual já acontecera ao longo do século XVIII, fundada em inovações técnicas, como a gravura em couro a buril e a água-forte, que permitiam tiragens bastante importantes, outrora inacessíveis para a gravura em madeira, e imagens mais fiéis. A mutação era sobre social e cultural. Nos grandes centros urbanos, os retratos eram cada vez mais visíveis, em todas as formas de suporte – dos retratos pintados, expostos nos salões da Academia, as figuras de porcelana que se tornaram na moda, passado pelas inúmeras gravuras vendidas nas bancas dos comerciantes. 

Mas a celebridade não se reduz à visibilidade e à presença de imagens: ela se alimenta, na mesma medida, de narrativas, de discursos, de textos, como demonstra o jornalismo de fofoca. Também no âmbito do impresso, as mutações foram decisivas do século XVIII. O público alfabetizado conheceu um crescimento, e a relação com o livro, com a leitura, transformou-se largamente. Atividade erudita nos séculos precedentes, a leitura muda doravante de estatuto, conforme demonstrado pelo sucesso dos romances, dos impressos baratos, e, sobretudo, dos jornais, que se multiplicam, a partir do século XVII, por toda a Europa. Os jornais literários e as gazetas políticas, sobretudo, chamaram a atenção dos historiadores. Os primeiros asseguram a comunicação intelectual entre meios eruditos, ao lado das correspondências pessoais, que haviam estruturado, a primeira República das Letras. Os segundos inauguraram uma nova era de informação política, que não circula mais unicamente sob a forma de correspondências manuscritas ou rumores orais, mas por meio de organismos de imprensa. Para os teóricos do espaço público, foi por meios dos jornais, e nos lugares de sociabilidade reservados à sua leitura coletiva e ao seu comentário, que o uso público da razão se forjou no século das Luzes. Quando Kant, em O Que é o Iluminismo?  descreve a Auflarklärung como um processo de emancipação individual e coletivo permitido pelo uso que cada um faz da razão “diante do público que lê” (cf. Lilti, 2018), refere-se aos leitores de jornais. E foi, em um deles, nomeado Berlinische Monatsshcrift, que esse texto famoso apareceu em 1784, no quadro de um debate sobre as questões do casamento religioso.

 Alguns anos mais tarde, Hegel poderá chegar a escrever que a leitura do jornal da manhã tornou-se “a prece do homem moderno”. Entretanto, ao lado dos homens eruditos e políticos que relatam as notícias diplomáticas e políticas, recenseiam as novidades científicas e literárias ou acolhem debates intelectuais, existem, no século XVIII, outros jornais, cada vez mais numerosos, muitos deles mais interessados na atualidade da alta sociedade e na cultural, no sentido amplo. Eles oferecem a seus leitores as notícias dos espetáculos e dos lançamentos literários, dos principais acontecimentos literários e políticos, mas também os faits divers mais notórios e, cada vez mais, anedotas sobre a vida, pública e privada, das pessoas célebres. Por mais que esses periódicos tenham chamado menos a atenção dos historiadores, eles contribuíram de maneira decisiva para moldar a consciência das camadas médias urbanas de que elas constituíram um público. A atualidade era alimentada tanto por faits divers e escândalos quanto por tratados e batalhas. O conjunto dessas transformações marca a entrada em uma nova era midiática, que, espirituosamente, um historiador propôs chamar de Print 2.0, para indicar que se trata de uma verdadeira guinada na história do impresso, de seus usos e de seus efeitos. 

A comunicação mediatizada, que difunde textos e imagens para um público indefinido, ilimitado, torna-se uma condição ordinária da comunicação e concorre com as formas tradicionais fundadas na oralidade, na co-presença e na reciprocidade. As próprias condições da celebridade são profundamente transformadas por ela: as cadeias da reputação estendem-se, e ser confrontado com o nome ou a imagem de pessoas que jamais se encontrará em carne e osso torna-se cada vez mais frequente. A notoriedade de alguns indivíduos muito conhecidos emancipa-se dos círculos tradicionais em que circulava o reconhecimento da corte, os salões, os espectadores de teatro, as academias e as redes eruditas e, projeta no “espaço público” um conjunto de representações – de discursos e de imagens – destinadas a um público indefinido e anônimo de leitores e de consumidores, de curiosos e de admiradores. Essa circulação potencialmente ilimitada e incontrolável de representações os constitui como figuras públicas. Mas a questão é: onde se viam retratos de pessoas vivas, antes do século XVIII? Nas moedas em que figurava o rosto do soberano; nos palácios, em que os cortesãos podiam admirar os retratos do rei; nos palacetes aristocráticos em que os donos da casa se faziam voluntariamente retratar ao lado a galeria de seus ancestrais. Tratava-se, antes de tudo, de uma representação de poder, político ou social. O retrato do rei era, concretamente, um simulacro do poder, e que tinha uma eficácia própria para representar o poder e de ser, de algum modo, o próprio poder, em sua força e em seu prestígio, o mesmo podendo ser dito da força sociopolítica que “emanava” dos retratos aristocráticos.

Seria possível objetar que havia, no século XVII, retratos de alguns escritores, como Corneille ou Molière. Inversamente, pode-se lembrar que não existe nenhum retrato, em vida, de Rabelais. O reinado de Luís XIV já marcara uma clara ascensão do retrato, com a criação da Academia de pintura e de escultura, na qual os retratistas eram admitidos, e o sucesso de Pierre Mignard e, depois, de Hyacinthe Rigaud. No entanto, os retratos permaneceriam essencialmente ligados ao universo da corte e da alta nobreza, na qual tinham uma função política e sentimental. Dificilmente deixava-se que fossem copiados. Até o início do século XVIII, a existência de retratos sinalizava o acesso de algumas raras figuras culturais a um estatuto social excepcional, sobretudo no quadro de instituições a acadêmicas. Eles circulavam unicamente em espaços restritos e estavam quase sempre integrados em uma relação interpessoal. Possuir o retrato de alguém era uma honra calcada na dignidade do modelo, mas também na exibição de um laço direto, familiar ou de amizade. Quando Samuel Sorbière, que admirava Thomas Hobbes e muito contribuiu para a difusão de sua obra na Europa, quis obter seu retrato, teve que lhe pedir autorização pessoalmente para mandar copiar um retrato já existente, que pertencia a Thomas de Martel: “Peço-lhe do modo mais sério do mundo, certo de que examinareis com benevolência meu pedido e desconsiderará obrigatoriamente minha ousadia”. Em 1658, escreve-lhe que seu maior prazer é poder falar dele e de sua obra com seus amigos e contemplar “o retrato na minha coleção”. O retrato substitui o amigo ausente, inscreve-se em um regime de familiaridade, de afeição e de admiração.

A sua presença honra Sorbière, pois demonstra que ele mantém laços diretos de amizade com o modelo. Em 1661, Hobbes aceita posar no ateliê de Samuel Cooper para seu grande amigo John Aubrey, afim de agradecer-lhe por tê-lo permitido cair nas graças de Charles II.  A clericatura significa na origem o Estado eclesiástico, mas, já no século XV, o clérigo tornou-se a pessoa instruída, o letrado, o sábio e, embora dentro da Igreja, ele se diferencia do padre. Depois, a maior parte do saber moderno escapou à clericatura da Igreja e o termo clérico laicizou-se e profissionalizou-se. À antiga clericatura, sucedeu a intelligentsia, aos clérigos, sucederam os intelectuais. O termo intelligentsia vem-nos da Rússia do século XIX e designa o conjunto de pessoas instruídas, cultivadas, por oposição à massa rural ou urbana que não teve acesso à escola, ou mesmo à escrita. Mais intensivo que o “intelectual”, da teoria de Antônio Gramsci especifica as duas esferas de ação, de divisão do trabalho intelectual na luta política de organização da cultura entre letrado (abstrato) da classe dominante e orgânico (concreto) da classe subalterna, para a análise de Edgar Morin, a intelligentsia engloba não apenas letrados e professores, mas, também, funcionários e burgueses educados, abrangendo, assim, um grande número de categorias sociais. Ela compreende as profissões que produzem ou reproduzem saber (professores, pesquisadores), ideias (filósofos), formas (artistas, arquitetos, designers), ou ainda, cuja qualidade do trabalho profissional depende do manejo das ideias (advogados), do saber (experts) ou da concepção (engenheiros).

A intelligentsia em função do caráter intelectual/espiritual dos produtos da atividade de seus membros (saber, ideias, coisas do espírito) e não pela atividade intelectual/espiritual em si mesma, de que são desprovidos muitos membros, como práticas manuais, como o artesanato, a caça, a pesca, que demandam inteligência constantemente desperta, de que muitos são desprovidos.  Isto quer dizer o seguinte: a intelligentsia contemporânea engloba categorias muito diferentes. Ela avoluma-se e diversifica-se com o desenvolvimento, em paralelo à intelligentsia humanista, de uma intelligentsia científica e de uma intelligentsia tecnicista. Mais do que isso, os intelectuais são membros da intelligentsia, mas os membros da intelligentsia não são necessariamente intelectuais. Escritores, artistas, advogados, pesquisadores não são, enquanto tais, “intelectuais”. Para que se tornem intelectuais é necessário que, a partir, mas para além da sua arte e da sua ciência, auto instituam-se como tais, isto é, autorizem-se a tratar dos problemas gerais/fundamentais de importância moralmente, socialmente, politicamente; assumam-se assim general problems setters/solvers. A noção de intelectual não pode reduzir-se a uma categoria socioprofissional; ao contrário, ela perpassa as categorias: muitos escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados consideram-se e são considerados exclusivamente como escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados; outros, consideram-se e são considerados como intelectuais porque intervêm na vida pública, seja pelo ensaio, pelo artigo de jornal, seja em função de uma tribuna política. Roland Barthes, escritor, crítico literário e filósofo dizia que o escritor (écrivain) escreve para escrever, e que o escritor-intelectual (écrivant) escreve para exprimir propriamente ideias. Os que são écrivains e écrivants são ao mesmo tempo e espaço social, filósofos, escritores e ensaístas, talvez possam ser considerados os mais representativos dos intelectuais, visto que a atividade social e política de intelectuais em geral, ignoram as categorias especializadas e tratam os problemas ignorados pelas categorias sociais especializadas. 

Alguns pratos tiveram influência italiana, especificamente veneziana, como o pastitsio, o makaronia me kima (macarrão com carne), encontrado principalmente na Anatólia e na Ásia Menor, de influência grega. Segundo a mística, o kleftikó, cordeiro assado cujo significado pode ser traduzido como uma “carne roubada”, tem sua origem nas ovelhas e cabras que os kleftes, espécie de “guerreiros-bandidos” que habitavam historicamente as regiões montanhosas, roubavam e cozinhavam posteriormente num poço fechado, para que a fumaça não atraísse a atenção. Também deve-se levar em conta que essa periodização está relacionada à história da Europa e do Oriente Próximo como precursor das civilizações que se desenvolveram no Mediterrâneo, culminando com Roma. Essa visão se consolidou com a historiografia que surgiu no século XIX, que fez da escrita da história uma ciência e uma disciplina acadêmica. Se repensarmos os critérios que definem o que é a Antiguidade do resto do mundo, não é possível pensar em outros critérios e datas balizadoras no âmbito da história. Sem temor a erro em oposição ao estatuto privilegiado atribuído à visão e à audição, na tradição da cultura ocidental, o gosto, segundo Agamben (2017), é classificado como o sentido mais baixo, cujos prazeres o homem codivide com outros animais e a cujas impressões não se mistura “nada de moral”. Também nas Lições sobre Estética de Hegel (1817-1829), o gosto é oposto aos dois sentidos “teoréticos”, visão e audição, porque “não se pode degustar uma obra de arte como tal, porque o gosto não deixa o objeto livre para si, mas tem a ver com ele de modo realmente prático, dissolvendo-o e consumindo-o”.

Por outro lado, em grego, em latim e nas línguas modernas que dele derivam, é um vocábulo etimologicamente ligado à esfera do gosto que designa o ato do conhecimento: “O sapiente é assim chamado por causa da palavra saber (Sapiens dictus a sapore), pois, assim, como o gosto é a apropriado à distinção do sabor, do mesmo modo o sapiente tem a capacidade de conhecer as coisas e as suas causas, na medida em que tudo o que ele conhece, ele o distingue segundo um critério de verdade”, enuncia ainda no século VII uma etimologia (livro X, 240) de Isidoro de Sevilha; e, nas lições de 1872 sobre os filósofos pré-platônicos, o jovem filólogo Nietzsche nota a propósito da palavra grega sophós, “sábio”: etimologicamente ela pertence à família de sapio, degustar, sapiens, o degustante, saphēs, perceptível do gosto. Nós falamos do gosto na arte: para os gregos, a imagem do gosto é ainda mais ampla. Uma forma redobrada, Sísyphos, de forte gosto (ativo); também sucus pertence a esta família, dizia Nietzsche. O prazer proporcionado pela comida é um fator social preponderante da vida depois da alimentação bendita de sobrevivência. Mas enquanto o gosto é a reação química entre o alimento e as papilas gustativas, o sabor é a riqueza de sensações que o paladar em conjunto com o olfato proporciona; sem olfato, não há 80% do sabor que começa quando sentimos o cheiro da comida no prato que se aproxima de nós. Quando, no curso dos séculos XVII e XVIII, começa-se a distinguir uma faculdade específica à qual são atribuídos o julgamento e o gozo da beleza, é precisamente termo gosto à sua acepção própria, que se impõe na maior parte das línguas europeias para indicar aquela forma especial de saber que goza do objeto belo e aquela forma especial de prazer que julga a beleza.   Com a sua habitual lucidez, Immanuel Kant, individua, de fato, desde a primeira página da Crítica do Juízo (1790), o “enigma” do gosto em uma interferência entre saber e prazer.        

 Desde o início, o problema do gosto se apresenta assim como aquele de um “outro saber”, (um saber que não pode dar razão em seu ato de conhecer), mas dele goza; nas palavras de Montesquieu: “a aplicação pronta e requintada de regras que nem sequer conhecemos” e de um outro prazer, (um prazer que conhece e julga), de acordo com o que está implícito na definição de gosto de Montesquieu como “mesure du plaisir”; o conhecimento do prazer, precisamente, ou o prazer do conhecimento, se nas duas expressões se dá ao genitivo um valor subjetivo, e não apenas objetivo. A estética moderna de Baumgarten, se construiu como uma tentativa de indagar a especificidade desse “outro saber” e de fundar a sua autonomia do conhecimento intelectual (cognitio sensitiva) ao lado da lógica. Desse modo, configurando a relação social entre eles como aquela entre duas formas autônomas no interior do mesmo processo gnosiológico, ela deixava, porém, na sombra precisamente o problema fundamental, que, como tal, deveria ser interrogado: por que o conhecimento está assim originalmente dividido e por que ele mantém, de modo igualmente original, uma relação com a doutrina do prazer, isto é, com a ética? Situar o gosto como lugar privilegiado no qual vem à luz a fratura do objeto do conhecimento, em verdade e beleza, e do telos ético do homem, em conhecimento e prazer, caracteriza de modo essencialmente a metafísica ocidental.

A gastronomia nasceu desse prazer intenso e constituiu-se como a arte e a habilidade técnica de cozinhar e de associar aos alimentos o máximo benefício num tempo determinado. Cultura antiga, a gastronomia esteve na origem de grandes transformações sociais e políticas. A alimentação vem passando por longas etapas do desenvolvimento humano, junto com a evolução do estágio de nômade caçador ao de homem sedentário, quando este descobriu a importância da agricultura e da domesticação dos animais. A fixação à terra trouxe uma maior abundância de comida, provocou um aumento demográfico, e consequente processo que levou a um aparente esgotamento dos recursos e migração para novos locais a explorar. Houve apenas duas importantes exceções na história antiga: o Egito e a Mesopotâmia, devido à fertilidade trazida das águas do Nilo, Tigre e Eufrates, que se mantiveram constantes em sua duração do tempo. A riqueza proporcionada pela abundância trouxe a curiosidade pela novidade e pelo exotismo. O homem que viajava, o comerciante, não só levava aquilo que faltava numa região como introduzia novos alimentos, criando necessidades imprescindíveis ao desenvolvimento do seu comércio. O transporte de alimentos provocou a necessidade cultural de aditivos: o aroma da resina de alguns vinhos gregos foi induzido pelo fato de se utilizar a resina em tempos remotos para tratar os odores de cabra que o vinho continha.

Começando pela origem palavra gastronomia, que tem a sua raiz no grego e faz parte da união de duas outras palavras: gaster, que significa estômago e nómos, que significa “leis que governam”. A gastronomia é entendida como subsistência, como leis que governam o estômago. Sobre a sua história, propriamente dita, o que se revela pela pesquisa é que ela não é tão antiga quanto muitos de nós imaginamos, uma vez que, na Idade Média as pessoas se preocupavam mais se realmente conseguiriam encontrar algo para comer e menos no como comeriam.  De acordo com alguns historiadores, foi no reinado de Luís XIV (1638-1715) que a gastronomia teve a sua origem, quando os nobres da França passaram a elaborar e definir regras e normas sobre o que realmente seria “comer bem ou comer mal”. No entanto, somente em 1801 é que a palavra gastronomia surgiu e foi utilizada pela primeira vez, como título de um poema de Joseph Berchoux (1760-1838). A partir destes fatos etnográficos é que a culinária francesa se tornou tão tradicional e passou a ser reconhecida como símbolo de sofisticação na alimentação, fazendo com que percebêssemos diferenças elementares entre comer em decorrência da necessidade biológica e comer como forma de celebrar um ritual etnográfico.                          

Segundo Norbert Elias, quando narra a questão tópica: Dos Costumes Medievais (2011: 70 e ss.) lembra que a Idade Média nos deixou um grande volume de informações sobre o que era considerado comportamento socialmente aceitável. Neste particular, também preceitos sobre a conduta às refeições tinham importância muito especial. Comparativamente ele admite que comer e beber nessa época ocupavam uma posição muito mais central na vida social do que temos, quando propiciavam, com frequência, embora nem sempre, o meio e a introdução às conversas e do convívio social. Religiosos cultos redigiam às vezes, em latim, normas de comportamento que servem de testemunho do padrão vigente na sociedade que se desenvolvia lentamente. Hugo de São Vitor, por exemplo, falecido em 1641, em seu De Instituitone Novitiarum, estuda entre outras questões. O judeu batizado Petrus Alphonsi tratou delas em sua obra Disciplina Clericaris, em princípios do século XII; Johannes von Garland dedicou aos costumes e, em especial, às maneiras à mesa, parte dos 662 versos latinos que, em 1241, apareceram sob o título Morale ScolarumAlém dessas normas sobre comportamento discutidas pela sociedade religiosa de fala latina, a partir do século XIII, documentos correspondentes nas várias línguas leigas – acima de tudo, no início, procedentes das cortes da nobreza guerreira.  As primeiras notícias sobre as maneiras que prevaleciam na alta classe secular são, fora de dúvida as que vêm da Provença e da vizinha e aparentada Itália. 

O primeiro trabalho alemão sobre a courtoisie é também de autoria de um italiano, chamado Thomasin von Zirklaria, e intitulado O Convidado Italiano (Der Wälsche Gast), traduzido por Ruckert para o alemão moderno. Thomasin von Zirclaere, também chamado Thomasîn von Zerclaere ou Tommasino Di Cerclaria, era um poeta lírico italiano do alto alemão médio. O poema épico Der Wälsche Gast é o único trabalho preservado. Outra obra de Thomasin von Zirklaria, em italiano, transmite-nos o título alemão uma forma antiga do conceito de “cortesia” (Höflichkeit). Refere-se ele a esse livro, que se perdera, como um “Buoch von der hüfscheit”, um fac-símile do manuscrito de Heidelberg. Originários dos mesmos círculos da tradição cavalaria-corte são os 50 Courtoisies de autoria de Bonvicino da Riva e o Hofzuch (Maneiras Cortesãs), atribuído a Tannhäuser. Essas normas também ocasionalmente encontradas nos grandes poemas épicos da sociedade cavalheirosa, como, por exemplo, o Roman de la Rose, do século XIV. O Book of Nature, escrito em versos ingleses provavelmente no século XV, já é um compêndio de comportamento para o jovem nobre a serviço de um grande senhor, como, resumidamente, o The Babees BookAlém disso existe, principalmente em versões dos séculos XIV e XV, mas provavelmente, em parte pelos menos, mais antiga me tema, uma série inteira de poemas chamados mnemônicos a fim de inculcar boas maneiras à mesa. Tischzuchten de variada extensão e nas mais diversas línguas. A aprendizagem de cor como meio para educar ou condicionar desempenhava um papel muito mais importante na sociedade medieval, onde os livros eram relativamente raros e caros, e esses preceitos rimados em um dos meios usados para gravar na memória da pessoa o que ela devia e não devia fazer em sociedade, e acima de tudo à mesa. 

Esses Tischzuchten, ou disciplina à mesa, como trabalhos medievais sobre maneiras de autores conhecidos, não são produtos individuais no sentido moderno, registro das ideias singulares de determinada pessoa em uma sociedade extensamente individualizada. Segundo, Norbert Elias, não foi feito ainda um estudo mais minucioso dessas modificações ocorridas no comportamento medieval. Basta mencioná-las, não esquecendo que esse padrão medieval não era destituído de movimento interno e certamente não foi o princípio nem o “primeiro degrau” do processo de civilização, nem representa, como se afirmou vezes, inclusive na perspectiva materialista de Friedrich Engels que não está só, nas agruras do sujeito, o estágio de “barbarismo” ou “primitividade”, como é provável ocorrer ainda por diante. A humanidade em seus ciclos de transformação vegetal e humana percebeu as virtudes da associação de plantas aromáticas aos alimentos para lhes exaltar o sabor, contribuir para a sua conservação e permitir uma melhor e mais saudável e concupiscente assimilação por parte do corpo. A expressão sociológica “realismo mágico” é empregada desde os fins dos anos 1940 para denominar um tipo de ficção literária hispano-americana que se contrapunha ao realismo e ao naturalismo do século XIX e contra a chamada “novela da terra”, um tipo de regionalismo muito produzido e difundido nas primeiras décadas do século XX. A fase mais expressiva desse estilo literário ocorreu por volta década de 1940, com Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier e Arturo Uslar Pietri. Este último, inclusive, foi o primeiro autor a empregar a expressão “realismo mágico”, em sua obra Letras y Hombres de Venezuela (1948). Para esse notável escritor, o realismo mágico incorporou o mistério humano à realidade, que passa a ser negada em sua tentativa de sempre tender a expressar o real lógico-racional. Em primeiro lugar, talvez tenham sido os desafios característicos de uma época da história social que transformaram a cultura da América Latina em um vasto arsenal de fatos sociais surpreendentes, insólitos, brutais, incríveis, encantados; isto é, uma profusão de fantasias, maravilhas e barroquismos.  

                

Os impasses e as façanhas de uma época permitem reler o passado e o presente. É como se um novo horizonte iluminasse de repente todo o vasto mural da história, revelando fatos e feitos que adquire outro movimento, som, cor. O romancista pode ser um cronista “fora do tempo”, narrando o imaginado e o acontecido segundo a luz que o ilumina. Nesse sentido ele pode representar um estilo de olhar na medida em que o realismo mágico parece uma superação do realismo social, crítico. Tem sido visto como um estilo diferente, novo. O sentido de fabuloso pode ser compreendido no romance de Juan Rulfo, Pedro Páramo, adaptado à cena pelo Teatro. A história passa-se numa aldeia fantasma, na cercania da fazenda da Meia-lua, num território do México oitocentista dominado por quatro gerações de Páramos. Juan Preciado vem em busca do pai, Dom Pedro, mas encontra apenas morte, de lugares algures no túmulo que nos é narrada. A obra mistura magia e realidade, mortos e vivos convivendo entre si. Pesadelos, delírios, memórias, vozes do além, os fragmentos não se distinguem, nem se separam bem dos pensamentos do leitor, tal é o poder de sugestão de Juan Rulfo que, narrados, misturam-se nos sonhos de quem os lê. Emerge da época em que ele estaria esgotado, ou revelando limitações. A fabulação como meios de expressão, abre horizontes novos à imaginação. Entre as soluções mais frequentes estão a desintegração da lógica linear de consecução e de consequência do relato, de cortes na cronologia fabular, da multiplicação e simultaneidade dos espaços práticos da ação; caracterização polissêmica dos personagens e atenuação da qualificação diferencial do herói; maior dinamismo nas relações entre o narrador e o narrativo, o relato e o discurso, através da diversidade das localizações, da auto-referencialidade e do questionamento da instância abstrata produtora da ficcionalização do real. 

Muitos reconhecem que a transição histórica do realismo social ao mágico ocorre simultaneamente à redescoberta das culturas de índios e negros.  São crenças, tradições, estórias, lendas e mitos que expressam outras formas de ser, outros sentidos da vida e trabalho, do tempo e espaço. Muitas guerras se fizeram pela apropriação de recursos alimentares, que de uma forma geral, são escassos regionalmente e conferem poder a quem domina a gestão desses recursos. A título de exemplo, a busca das especiarias foi um dos fatores demográficos que contribuíram para a chamada Era dos Descobrimentos. A arte do gosto da comida motivou Leonardo da Vinci, a inventar vários acessórios de cozinha. Precursor da nouvelle cuisine française, Da Vinci fundou, com outro sócio, o restaurante A Marca das Três Rãs, na cidade de Florença. A gastronomia despertou curiosas sensibilidades em músicos, como Rossini, e em escritores portugueses e estrangeiros. O culto dos prazeres da mesa chegou ao ponto de fazer com que os aficionados se juntassem em associações gastronómicas como a belga Ordre des Agathopédes em 1585, a francesa Confrérie de la Jubilation, ou o português Clube dos Makavenkos em 1884, para além de exemplos mais recentes como o Slow Food, um movimento e uma organização não governamental fundado por Carlo Petrini em 1986, tendo como objetivo promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o ambiente, em reação ao Fast-food tem como símbolo, um caracol, é o nome genérico dado ao consumo de refeições servidas em tempo como ocorre com os sanduíches, pizzas e pastéis, entre outros. O primeiro tratado sobre gastronomia foi escrito por Jean Anthelme Brillat-Savarin que em 1825, publicou o estudo Fisiologia do Paladar, cujo título completo pretende difundir o abstrato sobre o gosto, tendo como escopo uma obra teórica, estruturada para gastrônomos, por um membro de várias sociedades literárias e científicas. Sua distinção considera a gastronomia uma ciência ou uma arte.

Enfim, a sátira é uma técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema relacional aos indivíduos, organizações, estados, geralmente como forma de intervenção política ou outra, com o objetivo de provocar ou evitar uma mudança. O adjetivo satírico refere-se ao autor da sátira. A paródia pode estar relacionada com a sátira. A paródia imita outra forma de arte, de uma forma especulativa exagerada, para criar um efeito cômico, ridicularizando, geralmente, o tema e estilo da obra parodiada. Ainda que por vezes as técnicas próprias da sátira e da paródia se sobreponham, não são sinónimas. A sátira nem sempre é humorística - por vezes chega a ser trágica. A paródia é, inevitavelmente de carácter cómico. A paródia é imitativa por definição - a sátira não tem de o ser. O humor satírico tenta, muitas vezes, obter um efeito cômico pela justaposição da sátira com a realidade. O principal objetivo da sátira é político, social ou moral e não cómico. O humor satírico tende, pois, para a sutileza, ironia e uso do efeito de poder cômico do deadpan, impassibilidade do humorista, como se não percebesse o ridículo das situações que apresenta. Nas sociedades célticas, cria-se que uma sátira composta por um bardo tinha efeitos físicos, semelhantes a uma maldição. Ainda podemos falar de sátiras e paródias audiovisuais, que nada mais são do que as reproduções da sátira ou da paródia como as conhecemos através de meios audiovisuais, como a televisão, o cinema e a internet.

A sátira e a paródia aqui ganham elementos novos, pois passa-se a trabalhar com o jogo de imagens e sons, sendo esses dois os principais elementos com que se irá criar o efeito cômico ou o efeito crítica-ironia, e não mais através somente do texto e de sua interpretação. O leitor da sátira e da paródia passa ao espectador desses estilos que em última análise podem se manifestar em qualquer linguagem. Uma das características da sátira antiga é a apropriação paródica dos mais diversos gêneros literários da Antiguidade, incluindo uma heterogeneidade estilística em que prosa e verso encontravam-se misturados no mesmo texto. O que caracteriza a irreverência satírica é o seu caráter denunciador e moralizador. O objetivo da sátira é atacar os males da sociedade, o que deu origem à expressão latina: castigat ridendo moris, como “castigar os costumes pelo riso”. Por seu caráter denunciador, a sátira é essencialmente paródica, pois constrói-se através do rebaixamento de personalidades reais ou fictícias, instituições e temas que, segundo as convenções clássicas, deveriam ser tratados em estilo elevado. Ou seja: a sátira ri de assuntos e pessoas sérias, para denunciar o que há de insensibilidade por trás da fachada “nobre” impingida à sociedade. Portanto o riso satírico é diametralmente oposto à idealização épica. Sendo o riso satírico em geral extremamente sarcástico, o grotesco é um dos procedimentos favoritos do satirista, que costuma mostrar a deformação grotesca do corpo do personagem satirizado como uma alegoria dos seus defeitos morais.

Num restaurante, o cardápio, ementa ou menu é a lista onde constam as opções de pratos, bebidas e vinhos disponíveis para o cliente. Um menu pode ser à la carte, quando o cliente escolhe livremente entre as opções do cardápio, ou table d`hôte, quando a sequência dos pratos é predeterminada. Os itens disponíveis para o consumidor escolher podem estar agrupados em várias categorias sociais, dependendo da hora do dia ou do evento. Um cardápio de café da manhã no mundo ocidental usualmente inclui ovos, torradas e/ou frutas. Cardápios de almoço e jantar, em contrapartida, incluem itens de porções de comida e entradas. Historicamente “cardápio” origina-se da junção dos termos latinos charta, “papel”, e dapum, genitivo de dapes, “iguarias”. “Ementa” origina-se do termo latino ementa (ideia, pensamento no sentido literário acadêmico). “Menu” deriva do francês menu. Há pelo menos duas versões acerca da origem do cardápio, menu, carta, ementa, e de quando essa lista começou a ser utilizada. O primeiro cardápio documentado está no acervo público do Museu do Palácio de Versalhes, e data de 21 de junho de 1751. Foi o extraordinário menu de um Banquete oferecido pelo rei Luís XV da França à comunidade financeira. Last but not least, listava em torno de 48 pratos, sopas, carnes e sobremesas. Foi desenhado pelo artista e calígrafo Brain de Sainte-Marie (1753), cuja técnica consiste em traçar uma determinada forma de escrita de forma elegante e regular. 

Por extensão de sentido, caligrafia passou a denominar a escrita em geral, a forma pessoal como cada indivíduo imprime ao escrever. A caligrafia é muitas vezes chamada a “arte da escrita bela”. Embora não documentado, teria havido um cardápio mais antigo, conforme os alemães, que se dizem seus inventores. Em abril de 1521, o duque Heinrich Brunswick-Wolfenbüttel (1564-1613) fez com que seus cozinheiros escrevessem, num pergaminho, a lista dos pratos servidos no banquete de abertura da Dieta de Worms, a qual considerou Martinho Lutero, compositor de hinos, professor e ex-frade agostiniano alemão, como fora da lei. Ipso facto, a carta é uma lista organizada de bebidas ou pratos, permitindo ao cliente uma escolha variada e diversificada, podendo arranjar uma enorme escolha de combinações. Existem vários tipos de cartas como cartas de restaurante, vinhos, bar, snack-bar etc. Ementa é um conjunto organizado de itens fixos, aos quais o cliente tem um leque de escolha muito limitado, podendo fazer um número muito baixo de combinações. Existem vários tipos de ementa. Ementa Fixa: Entrada, prato principal (um ou dois) e sobremesa. Ementa Fixa com opção: (com uma ou mais opções). Entrada ou Sopa, dois pratos principais, fruta ou doce. As ementas podem ainda incluir o serviço de queijos. Uma família é um conjunto de iguarias que têm a sua natureza ou ordem de participação na refeição. As famílias estão organizadas de uma maneira lógica e tradicional, que, no entanto, pode ser alterada consoante as necessidades ou gosto do responsável.

Bibliografia Geral Consultada.

HELLER, Agnes, O Quotidiano e a História. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1972; Idem, Sociologia della Vita Quotidiana. Roma: Editore Riuniti, 1975; LÉVI-STRAUSS, Claude, Olhar Escutar Ler. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1977; VAN GENNEP, Arnold, Os Ritos de Passagem. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1978; APPADURAI, Arjun, “Gastro-politics in Hindu South Asia”. In: American Ethnologist, vol. 8, nº 3, 1981, pp. 494–511; MORIN, Edgar, O Método 4 – As Ideias, Habitat, Vida, Costumes, Organização. 4ª edição. Porto Alegre: Editora Sulina, 1998; KANGUSSU, Imaculada, Theoria Aesthética em Comemoração ao Centenário de Theodor W. Adorno. Porto Alegre: Escritos Editora, 2005; BIZARRO, Maristela Sanches, A Relação Humano-Máquina no Imaginário Cinematográfico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005; LEZO, Denise, Arquitetura, Cidade e Cinema: Vanguardas e Imaginário. Dissertação de Mestrado. Escola de Engenharia de São Carlos. Universidade de São Paulo, 2010; DEJEAN, Joan, A Essência do Estilo: Como os Franceses Inventaram a Alta-costura, a Gastronomia, os Cafés Chiques, o Estilo, a Sofisticação e o Glamour. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2010; ELIAS, Norbert, O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Volume 1. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2011; BENEMANN, Nicole Weber, “Estética e Experiência do Gosto: Contribuições para o Debate sobre Paladar, Gastronomia e Arte”. In: Terrisuras. Pelotas. Volume 3, nº 2, p. 331-338, jul./dez, 2015; SALAZAR, Viviane Santos, Aquisição e Desenvolvimento de Recursos Estratégicos de Restaurantes Gastronômicos: Estudo de Multicasos na América Latina. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Administração. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2015; LILTI, Antoine, A Invenção da Celebridade (1750-1850). 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2018; DONNELLY, Matt, “Judith Light Joins Anya Taylor-Joy and Ralph Fiennes in Searchlight`s The Menu (Exclusive)”. In: Variety, 30 de agosto de 2021; GROBAR, Matt, “The Menu Teaser: Ralph Fiennes. Chef Menaces Anya Taylor-Joy & Nicholas Hoult in Searchlight`s Horror-Comedy”. In: Deadline, 1º de junho de 2022; entre outros.

sábado, 7 de novembro de 2020

Gambito da Rainha - Rosto, Jogo de Xadrez & Ritos de Passagem.

                                                                                                                                                       Ubiracy de Souza Braga

Os ritos são no tempo o mesmo que o domicílio é no espaço”. Antoine de Saint-Exupéry

            Anya também interpretou a personagem Sandie Collins no filme de suspense psicológico Última Noite em Soho (2021). Foi aclamada por “atriz do momento”, e fez a minissérie mais vista da Netflix, The Queen`s Gambit (2020), que lhe rendeu na dramaturgia cinematográfica sua primeira vitória no Globo de Ouro. É uma minissérie de drama e amadurecimento norte-americana de 2020 baseada no romance homônimo de Walter Tevis, de 1983. A minissérie foi criada por Scott Frank e Allan Scott. Começando em meados da década de 1950 e prosseguindo até a década de 1960, a história segue a vida de uma órfã prodígio do xadrez em sua ascensão ao topo do mundo do xadrez enquanto lutava com problemas emocionais, problemas com drogas e dependência de álcool. Escólio: Depois de quatro semanas, ela se tornou a minissérie com script mais assistida. Segundo um levantamento estatístico realizado pelo JustWatch, foi a série mais assistida em 2020, ao comparar com as outras plataformas de streaming. Foi aclamado pela crítica pela atuação de Anya Taylor-Joy como Beth Harmon, bem como pelos valores de cinema e produção. Também recebeu uma resposta positiva da comunidade de xadrez e afirma-se que aumentou o interesse do público pelo jogo. The Queen`s Gambit recebeu 18 indicações no 73º Primetime Emmy Awards, incluindo Melhor Série Limitada.

A série ganhou dois Prêmios Globo de Ouro: Melhor Minissérie ou Telefilme e Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme por Taylor-Joy. Ela também ganhou o Critics ´Choice Television Award de Melhor Atriz em Filme/Minissérie e o Screen Actors Guild Award de Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme. A história social começa em Lexington, Kentucky, onde Beth, de nove anos, depois de perder a mãe em um acidente de carro, é levada para um orfanato onde aprende xadrez com o zelador do prédio, Sr. Shaibel. Como era comum durante a década de 1950, o orfanato distribuía pílulas tranquilizantes diárias para as meninas para “equilibrar sua disposição”, o que se transformava em um vício para Beth. Ela rapidamente se torna uma forte jogadora de xadrez devido às suas habilidades de visualização, que são aprimoradas pelos tranquilizantes. Alguns anos depois, Beth é adotada por Alma Wheatley e seu marido de Lexington.  Ao se ajustar à sua nova casa, Beth entra em um torneio de xadrez e vence-o, apesar de “não ter experiência anterior em xadrez competitivo”. Ela faz amizade com várias pessoas, incluindo o ex-campeão estadual de Kentucky, Harry Beltik, o campeão nacional dos Estados Unidos da América, Benny Watts, e o jornalista e colega jogador, D.L. Townes. À medida que Beth chega ao topo do mundo do xadrez e colhe os benefícios financeiros de seu sucesso, sua dependência de drogas e álcool vai se aprofundando.

O título da série refere-se a uma abertura de xadrez de mesmo nome. A história começa em meados da década de 1950 e prossegue até a década de 1960. Do ponto de vista técnico-metodológico em 19 de março de 2019, a Netflix deu à produção um pedido de série que consistia em seis episódios. A série foi dirigida por Scott Frank, que também escreveu com Allan Scott. Os dois também são produtores executivos ao lado de William Horberg. Scott estava envolvido nas tentativas de colocar o livro na tela desde 1992, quando comprou os direitos do roteiro da viúva de Walter Tevis. A série foi lançada em 23 de outubro de 2020, com sete episódios em vez da ordem original de seis episódios. O ex-Campeão Mundial de Xadrez, Garry Kasparov, e o treinador de xadrez, Bruce Pandolfini, atuaram como consultores. Pandolfini havia consultado Tevis antes da publicação do livro cerca de 38 anos antes, chegando ao título “The Queen's Gambit”. Pandolfini, junto com os consultores, John Paul Atkinson e Iepe Rubingh, planejou várias centenas de posições de xadrez para serem usadas em várias situações nas cenas. Kasparov desenvolveu momentos críticos na história, como quando um jogo real de 1998 entre os grandes mestres Arshak Petrosian e Vladimir Akopian foi aprimorado para demonstrar a habilidade de Beth, ou um jogo de 1993 entre Vasyl Ivanchuk e Patrick Wolff tornou-se o protótipo do jogo decisivo no último episódio.

                                

    Xadrez é simultaneamente considerado um esporte, uma técnica, uma arte e uma  ciência. É classificado como um jogo de tabuleiro de natureza competitiva para dois jogadores. A forma atual do jogo surgiu no sudoeste da Europa na segunda metade do século XV, durante a efervescência do Renascimento, após ser desenvolvido através de antigas origens persas e indianas. O Xadrez pertence à mesma família do Xiangqi e do Shogi. Segundo historiadores do enxadrismo todos eles se originaram do Chaturanga, que se praticava na Índia no século VI. No jogo de xadrez existe uma cultura de classificação ideal-típica weberiana, de forma a oferecer um recurso analítico do tipo puro (abstrato) com o objetivo de criar tipologias puras, destituídas de caráter avaliativo, a saber: o xadrez ocidental, o xadrez turco, xadrez chinês (Xiangqi) xadrez árabe (Xatranje), xadrez coreano (Janggi), xadrez japonês (Shogi), xadrez indiano (Chaturaji), xadrez tailandês (Makruk), xadrez indonésio e xadrez etíope (Senterej). Há muitas semelhanças entre tais jogos, com os membros compartilhando uma raiz comum. No xadrez gambito representa um sacrifício de peão para obter vantagens estratégicas. Ela advem originalmente do italiano gambetto, rasteira, passa-pé, historicamente incorporada à cultura do xadrez depois de ser usada em atividades menos intelectuais.

         São encontradas características da arte e ciência nas composições enxadrísticas e em sua concepção de teoria. Na terminologia enxadrística, os jogadores de xadrez são reconhecidos como enxadristas. O xadrez, por ser um jogo que se articula em seu modus operandi a estratégia e tática, não envolve sorte como elemento. A única exceção é o sorteio das cores inicialmente no jogo, já que as pedras brancas sempre fazem o primeiro movimento e teriam em tese uma singular vantagem estratégica de visibilidade do movimento e raciocínio nos passos iniciais do jogo. Esse fenômeno é demonstrado por um grande número de dados estatísticos e comentado por inúmeros enxadristas profissionais. A Península Ibérica é uma região situada geograficamente no sudoeste da Europa. É dividida na sua maior parte por Portugal e Espanha; também pelo principado de Andorra, Gibraltar, e pequenas frações do território de soberania imperialista francesa ocidentais e norte dos Pirenéus, até ao local onde o istmo está situado. Na passagem do primeiro milênio da nossa era, o jogo já estava difundido por toda a Europa, chegando a Península Ibérica no século X, sendo citado no manuscrito do século XIII, o Libro de los juegos, que discorria sobre o Xatranje, entre outros jogos.

Em todas as sociedades determinados momentos na vida de seus membros são  marcados positivamente por cerimônias especiais, reconhecidas como ritos de iniciação ou ritos de passagem (cf. Gennep, 2011). Mais do que representarem uma transição particular para o indivíduo, essas cerimônias representava igualmente a sua progressiva aceitação e participação na sociedade dentro da qual estava inserido, tendo, tanto o cunho individual quanto o coletivo. As estruturas intelectuais entre o nascimento e o período de 12 anos a 15 anos surgem lentamente, mas de acordo com os estágios do desenvolvimento, é extremamente regular e comparável aos estágios de uma embriogênese. Seu tempo e espaço, no entanto, pode variar de um a outro indivíduo e também de um a outro meio social em que algumas crianças avançam rapidamente e outras lentamente. Todas essas cerimônias, no entanto, marcavam pontos de desprendimento. A convivência com algumas pessoas devia ser deixada e novas pessoas passavam a constituir o grupo de relacionamento direto. Muitas vezes, a cada uma dessas cerimônias, a pessoa trocava de nome, representando que aquela identidade não mais existia - ela era uma nova pessoa. Nas sociedades contemporâneas, muitos ritos de passagem subsistiram outros, tornaram-se esvaziados do conteúdo simbólico. A troca linguística do símbolo representada pura e simplesmente pela ostentação, acaba criando em sociologia chama-se desestruturação do padrão social.

O carisma, como força criadora, lembrava Max Weber (cf. Bolda, 2020), passa a segundo plano ante o domínio, que se consolida em instituições duradouras, e só se torna eficiente nas emoções de massa de curta vida, de feitos incalculáveis, como nas eleições e ocasiões semelhantes. Não obstante, continua sendo um elemento muito importante da estrutura social, embora decerto num sentido muito modificado. Desejam ver essas posições transformadas de relações de poder apenas de fato em um cosmo de direitos adquiridos, e saber que, assim estão santificadas. Esses interesses constituem o motivo mais forte para a observação dos elementos de uma natureza objetificada dentro de uma estrutura do domínio. O carisma autêntico opõe-se de forma absoluta a essa forma objetivada. Não apela para uma ordem imposta ou tradicional, nem baseia suas pretensões nos direitos adquiridos. O carisma autêntico baseia-se na legitimação do heroísmo pessoal ou da revelação pessoal. Não obstante, precisamente essa qualidade do carisma como poder extraordinário, supranatural, divino, o transforma, depois de sua rotinização, numa fonte adequada para a aquisição legítima de poder soberano pelos sucessores do herói carismático. O carisma rotinizado continua a funcionar em favor de todos aqueles cujo poder e posse são garantidos pela força soberana, e que dependem, portanto, da existência sempre continuada de tal poder. 

O avanço sempre crescente da disciplina processa-se irresistivelmente com a racionalização do atendimento das necessidades econômicas e políticas. Esse fenômeno universal restringe cada vez mais a importância do carisma e da conduta perfectível e diferenciada individualmente.  William Camp é um ator norte-americano inicialmente ativo no teatro, mas assumiu papéis simultaneamente de personagem no cinema e na televisão. Em 2002, ele deixou a atuação e mudou temporariamente de profissão (como cozinheiro e mecânico), apenas para retornar dois anos depois em Tony Kushner`s Homebody / Kabul, pelo qual ganhou um Off-Broadway Theatre Awards. Camp foi criado em Massachusetts e é filho de Patricia L., uma bibliotecária, e de Peter B. Camp, que era um diretor assistente na Groton School. Ele frequentou a Universidade de Vermont , onde jogou hóquei interno. Ele se casou com a atriz Elizabeth Marvel em 4 de setembro de 2004. Eles têm um filho. Ele se tornou reconhecido por interpretar papéis coadjuvantes em filmes como Lincoln (2012), 12 Years a Slave (2013), Love and Mercy (2015), Loving (2016), Molly`s Game (2017), Vice (2018), Wildlife ( 2018) e Joker (2019), bem como a minissérie da HBO The Night Of  (2016). Ele foi indicado ao prêmio Tony por seu papel no revival da peça The Crucible em 2016 na Broadway e The Outsider em 2020, e a minissérie da Netflix The Queen`s Gambit em 2020.  A Netflix é uma provedora global de filmes e séries de televisão via streaming sediada em Los Gatos, Califórnia, Estados Unidos e que atualmente possui mais de 160 milhões de assinantes.

Fundada em 1997 a empresa surgiu originalmente como prestação de serviços de entrega de DVD pelo correio. Reconhecida simplesmente como Disney, é uma companhia multinacional estadunidense de mídia de massa sediada no Walt Disney Studios, em Burbank, Califórnia. A expansão do streaming, disponível nos Estados Unidos a partir de 2007, começou pelo Canadá em 2010. Hoje, mais de 190 países têm acesso à plataforma. Sua primeira websérie original de sucesso foi House of Cards, lançada em 2013. A empresa produz centenas de horas de programação original em diferentes países do mundo, querendo aprimorar-se nas aplicações e em novas programações. Os planos foram apresentados no Mobile World Congress em Barcelona, Espanha. Em setembro de 2016 a empresa anunciou que planeja ter 50% do catálogo composto de produções originais. A Netflix confirmou sua preferência por filmes e websérie exclusivas, contrapondo grandes sucessos do cinema, que podem ser vistos em outras plataformas. Para se diferenciar, a empresa planeja investir 5 bilhões de dólares na produção ou aquisição de conteúdo original, segundo informa a Reuters. Dentre as séries originais, destacam-se Stranger Things, Narcos, dentre outras. Em maio de 2018, a Netflix - um serviço de trransmissão online - ultrapassou a The Walt Disney Company e se tornou a empresa de entretenimento com maior valor de mercado do mundo dos negócios em torno de 153 bilhões de dólares. A minissérie começou a tomar forma em 2018, mas já faz quase 30 anos que o produtor executivo e co-criador Allan Scott adquiriu os direitos da produção.

Sua ideia original era fazer um filme. Ele chegou a trabalhar com cerca de cinco diretores, Heath Ledger foi o último. Além de dirigir, a estrela australiana também iria atuar no longa-metragem ao lado de Ellen Page, escalada como protagonista, mas faleceu em 2008 durante a produção. Isso fez com que Allan Scott e o outro produtor executivo, William Horberg, deixassem o filme de lado provisoriamente por um tempo. Foi Horberg que retomou os trabalhos após se apaixonar pela direção de Scott Frank em Godless. – “Escrevi uma carta de fã mesmo porque realmente amei a série e o formato dela”. Os três então passaram a conversar sobre o projeto e perceberam que o formato ideal para contar a história de Beth com todos os recursos que ela merecia seria uma minissérie. Depois não foi muito difícil convencer a Netflix a embarcar junto na comercialização.

Além disso, mutatis mutandis - em termos simplificados lembramos que a sincronicidade representa  uma experiência em que ocorrerem dois ou mais eventos que coincidem de uma maneira que seja significativa para a pessoa (ou pessoas) que vivenciaram essa “coincidência significativa”, e além disso, onde esse significado sugere um padrão subjacente, uma sincronia. O termo foi utilizado pela primeira vez em publicações científicas em 1929, porém Carl Jung demorou ainda mais 21 anos para concluir a obra: Sincronicidade: Um Princípio de Conexões Acausais (1991), onde expõe e propõe o início da discussão temática sobre o assunto. Uma de suas últimas obras resultou da elaboração mais demorada devido à complexidade do tema e da impossibilidade de reprodução dos eventos em ambiente controlado. Do ponto de vista conceitual difere da coincidência, pois não implica somente na aleatoriedade das circunstâncias de tempo e espaço, mas num padrão subjacente ou dinâmico que é expresso através de eventos ou relações significativos. Na sincronicidade, os eventos não têm relação causal e sim, uma relação de significado. A sincronicidade não tem nada a ver com a serendipidade; são dois fenômenos diferentes igualmente importantes.

Foi este princípio, que segundo Carl Jung sentiu abrangido por seus conceitos de arquétipo e inconsciente coletivo, justamente o que uniu de forma interdisciplinar o  médico psiquiatra Jung ao físico Wolfgang Pauli, dando início às pesquisas em Física e Psicologia. Ocorre que a sincronicidade se manifesta às vezes atemporalmente e/ou em eventos energéticos acausais, e em ambos os casos são violados princípios associados em conformidade ao paradigma científico vigente. As leis naturais são verdades estatísticas, absolutamente válidas ante magnitudes macrofísicas, mas não microfísicas. Isto implica um princípio de explicação diferente do causal. Cabe a indagação se em termos muito gerais existem não somente uma possibilidade senão uma realidade de acontecimentos acausais. A acausalidade é suportável somente quando parece impensável a relação de causalidade. Ante a casualidade só resulta viável a avaliação numérica ou a utilização do método estatístico. As agrupações ou séries de casualidades hão de ser consideradas casuais enquanto de seu ponto de vista não se ultrapasse os limites dentro da. “observação da probabilidade”. Isto é, se ultrapassado, implica-se um princípio acausal ou “conexão transversal de sentido” na compreensão do evento.            

            A prática do xadrez na União Soviética foi apoiada pelo governo comunista e a manutenção da supremacia soviética de campeões mundiais um assunto político de Estado. O jogo foi tratado como metáfora para os confrontos do comunismo e o capitalismo no contexto da guerra fria. Durante sua existência, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) patrocinou vários eventos de gênero neste âmbito de nível nacional e internacional, tais como campeonatos mundiais masculinos, femininos, Torneio de Candidatos e torneios internacionais de alto nível como o Torneio de xadrez de Moscou de 1925, o Torneio de xadrez de Moscou de 1935 e o Torneio de xadrez de Moscou de 1936. No século XX, após a segunda guerra mundial, todos os campeões mundiais, tanto no campeonato masculino quanto no feminino (até 1991), foram de origem soviética ou russa, com a exceção Bobby Fischer em 1972 e Anand em 2000. O regime soviético incentivava o esporte, fundado o que ficou conhecida como escola soviética no xadrez, que preparou grandes mestres do mais alto nível como Mikhail Botvinnik, Vassily Smyslov, Tigran Petrosian, Mikhail Tal, Boris Spassky, Anatoly Karpov, Garry Kasparov, Paul Keres, David Bronstein, Efim Geller e Victor Korchnoi.

            Alexander Ilyin-Genevsky foi o primeiro bolchevique a incentivar o xadrez como uma atividade útil aos revolucionários, tendo conseguido organizar o primeiro campeonato soviético de xadrez na década de 1920 com um suporte financeiro do Estado de cem mil rublos, o primeiro patrocínio estatal para o jogo. Genevsky iniciou também uma coluna de xadrez em um jornal e abriu um clube de xadrez financiado pelo Estado. Entretanto foi Nikolai Krylenko quem efetivamente transformou o xadrez em um instrumento estatal. Fiel aliado de Vladimir Illich Lenin, Krylenko foi comissário de guerra e presidente da primeira federação soviética de xadrez. Sob seu comando foi organizado o Torneio de xadrez de Moscou de 1925 e foi fundada a revista 64 do qual era Editor. Krylenko também recusou a participação da União Soviética na fundação da FIDE, que acontecera em 1924 na França. O Estado então patrocinou outras competições internacionais na capital Moscou (1935) e Moscou (1936) que qualificaram Mikhail Botvinnik como principal jogador e um possível desafiante ao título mundial. 

            Beth começa como uma menina de orfanato sem estilo definido e aos poucos vai ficando mais e mais glamorosa ao mesmo tempo em que transita por personas diversas tentando se encontrar. – “Talvez por ela ser uma mulher no mundo dos homens sem modelos femininos para se inspirar, ela acaba pegando os exemplos que estão ao seu redor. Beth está sempre mudando, mas a sua consciência como mulher participa desse movimento. - Ela tenta parecer legal, mas sempre parece perder o ponto, comenta a figurinista Gabriele Binder, responsável pelo visual da personagem. Ela própria fez uma parte das roupas, enquanto outras vieram das melhores lojas de fantasias da Europa. Daniel Parker cuidou da maquiagem e do cabelo de época, elementos fundamentais nessa evolução constante da personagem. O tom do cabelo de Beth no livro é castanho e foi Daniel quem sugeriu de colocá-la ruiva na minissérie – o diretor, que já estava com isso em mente, aprovou na hora. – “Eu amei a ideia de que, não importa onde Beth esteja, mesmo que ela tente desesperadamente se encaixar, ela irá se destacar como um polegar dolorido. Eu queria que o público pudesse vê-la imediatamente”. Após o término do confronto enxadrista, decerto polarizado pela guerra fria, os jogadores soviéticos começaram a se destacar em competições e venceram uma série de match pela via do rádio contra a equipe dos Estados Unidos da América e Reino Unido. 

Botvinnik venceu o Campeonato Mundial de Xadrez de 1948, competição organizada pela FIDE com os principais jogadores Samuel Reshevsky, Max Euwe, Paul Keres e Vasily Smyslov, dando início a uma era de domínio soviético de campeões mundiais que continuou com Smyslov, Mikhail Tal, Tigran Petrosian e Boris Spassky. O título mundial feminino, que havia ficado vago com a morte de Vera Menchik durante a guerra, também foi dominado pelos soviéticos, conquistado por Lyudmila Rudenko, Elisaveta Bykova, Olga Rubtsova, Nona Gaprindashvili e Maia Chiburdanidze. No Mundial de xadrez de 1972, Spassky perdeu o título mundial para o norte-americano Bobby Fischer e os soviéticos rapidamente se articularam para tentar recuperar a coroa. Dois dos mais fortes jogadores, Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi, eram candidatos a receber o apoio do governo além do próprio Spassky. O governo decidiu apoiar Karpov por ser mais novo e estar em ascensão. Devido às pressões políticas que já vinha sofrendo, Korchnoi então desertou do país após participar de um torneio em Amsterdã, deixando mulher e filho para trás. Ele acabou se tornando o principal adversário soviético nos anos seguintes e o desafiante ao título nos mundiais de 1978 e 1981, além de crítico do regime comunista. Após Fischer não defender o título no Mundial de 1975, Karpov foi declarado campeão por ter vencido Korchnoi na final do Torneio de Candidatos de 1974. No ciclo seguinte, Korchnoi venceu o chamado torneio de candidatos, tendo a complexa coincidência factual de ter enfrentado três soviéticos, disputou o Mundial de Xadrez de 1978 como apátrida. Os jogadores fizeram uma série de acusações mútuas e por fim Karpov manteve o título. Campeonato Mundial de Xadrez é uma competição que determina o campeão mundial do esporte. Homens e mulheres são elegíveis a disputar este título.

 Existe também um evento apenas para mulheres, com o título Campeonato Mundial Feminino de Xadrez, e competições para juniores, juvenis, seniores para mais de 50 anos e computadores. Algumas mulheres jogaram as competições do campeonato mundial absoluto, como Maia Chiburdanidze, Susan Polgar e Judit Polgar. A que obteve mais sucesso foi a húngara Judit Polgar, que chegou nas quartas de finais do campeonato mundial de 1999 e na final do campeonato de 2005. O primeiro campeonato mundial ocorreu em 1886, quando os dois principais enxadristas de seu tempo, Wilhelm Steinitz e Johannes Zukertort, enfrentaram-se. No período de 1886 a 1946, o campeonato não era organizado por uma entidade ainda, o campeão escolhia o adversário e organizava o desafio. De 1948 a 1993, a organização do campeonato foi feita pela FIDE, a Federação Internacional de xadrez. Em 1993, o campeão Garry Kasparov rompeu com a FIDE e criou a PCA, dando início a um campeonato paralelo. Esta situação durou até 2006, quando o título foi novamente reunificado. Ainda em 2006, as duas entidades de xadrez foram unificadas. Para saber quem seria o novo campeão, a FIDE promoveu um match entre o campeão da FIDE (Veselin Topalov) e o da PCA (Vladimir Kramnik), com Kramnik consagrando-se campeão. No ano de 2007, Viswanathan Anand venceu Kramnik. Em novembro de 2013, Anand perdeu o título para o jovem Norueguês Sven Magnus Øen Carlsen, o primeiro do ranking, com um rating Elo em torno de 2870. É um mestre de xadrez norueguês, campeão mundial de xadrez clássico desde 2013, foi campeão mundial de xadrez rápido em 2014, 2015, 2019 e campeão mundial de xadrez blitz nos anos de 2009, 2014, 2017, 2018 e 2019.

O Dia Internacional do Enxadrismo é comemorado anualmente dia 19 de novembro, data de nascimento de José Raúl Capablanca y Graupera (1888-1942), que possuía um excepcional conhecimento em grandes finais de jogo e rápido raciocínio, considerado um dos maiores enxadristas de todos os tempos. O único cubano a consagrar-se campeão mundial. A partida de xadrez é disputada em um tabuleiro de casas claras e escuras. Cada enxadrista controla dezesseis peças com diferentes formatos e características culturais de sua origem. O objetivo político da partida é dar xeque-mate no rei adversário. Teóricos do enxadrismo desenvolveram estratégias para se atingir este objetivo. As competições enxadrísticas oficiais tiveram início ainda no século XIX, sendo Wilhelm Steinitz considerado o primeiro campeão mundial de xadrez. Existe também o campeonato internacional por equipes realizado a cada dois anos, a Olimpíada de Xadrez. Desde o início do século XX, duas organizações competitivas de caráter mundial de globalização do esporte, a Federação Internacional de Xadrez e a Federação Internacional de Xadrez Postal vêm organizando eventos que congregam a seleção dos melhores enxadristas do mundo. O atual campeão do mundo é o norueguês Magnus Carlsen e a mulher campeã mundial (2018) é a chinesa Ju Wenjun. O enxadrismo foi reconhecido como esporte pelo Comitê Olímpico Internacional, recentemente, em 2001, tendo sua olimpíada e campeonatos mundiais em todas as suas categorias.        

Cada jogador inicia a partida com 16 peças. O rei é a peça principal do jogo e se move para todos os lados de uma em uma casa. A dama movimenta-se em todas as direções (coluna, fila ou diagonal) sendo uma peça muito poderosa pelo seu raio de ação. O seu raio de ação diminui à medida que existam peças nas casas em que ela ataque. Na posição inicial, por exemplo, a dama possui o seu caminho bloqueado por suas próprias peças. Quando o rei está ameaçado por qualquer peça adversária, diz-se que ele está em xeque. Nesta situação, deve-se dizer ao adversário a palavra xeque. Para o jogador escapar do xeque basta movimentar o rei para uma casa que não esteja sendo atacada pela dama branca. O xeque-mate tem como representação o término da uma partida. A palavra xeque-mate tem sua origem na palavra árabe xāyh māka, derivada do persa xāh māt, que tem como significado: “o rei está morto”. Se o rei estiver em xeque e não existirem casas para o rei ocupar que não estejam ameaçadas, então “o rei está em xeque-mate”. Quando o rei não está em xeque e as casas que o cercam estão ameaçadas, “a partida está empatada”, pois o rei está afogado. A torre movimenta-se em colunas e filas. Uma torre é poderosa quando situada no centro do tabuleiro pode atacar 14 casas. 

            O bispo move-se pelas diagonais. Cada jogador começa a partida com um par de bispos, um que percorre as casas pretas e outro pelas casas brancas. O bispo no centro do tabuleiro ataca um total de 13 casas. O cavalo possui um movimento particular bastante diferente das demais peças. Para simplificar, digamos que o cavalo pula em L: duas casas na horizontal ou vertical, como uma torre, e depois uma casa acima ou abaixo (se foi movido na horizontal), ou à direita ou à esquerda (se foi movido na vertical). O cavalo é a única peça que “salta sobre as outras”. Se o cavalo sair de uma casa branca irá parar em uma casa preta e vice-versa. O peão só anda para frente de casa em casa. Quando está na posição inicial, ele pode avançar duas casas. Os peões não capturam as peças em seu movimento no tabuleiro como as demais. A captura é feita em diagonal. Quando o peão atravessar o tabuleiro e chegar à última casa do outro lado do tabuleiro deve obrigatoriamente ser trocado por “outra peça que pode ser uma dama, torre, bispo ou cavalo, independente do jogador ter perdido ou não estas peças”. No xadrez, a palavra peça tem três significados, dependendo do contexto. Pode significar qualquer peça física do conjunto, incluindo peões. Quando usada neste sentido, peça é sinônimo para peça de xadrez. 

Durante a partida, o termo normalmente é utilizado excluindo os peões, isto é, referindo-se apenas a dama, torre, bispo, cavalo ou rei. Neste contexto, as peças podem ser divididas em três grupos: peça maior (dama e torre), peça menor (bispo e cavalo) e o rei. Em frases como: “ganha uma peça”, “perde uma peça” ou “sacrifica uma peça”, refere-se somente ao bispo e cavalo. A dama, torre e o peão são especificados pelo nome nestes casos, como: “perde a torre” ou “sacrifica um peão”. O contexto deve fazer a intenção do significado clara. No âmbito da história comparada o desenvolvimento e forma das peças de xadrez estimulou a imaginação de artistas, artesãos e desenhistas em todos os países e culturas, do qual a sociedade criou peças que refletiam o espírito e cultura do ambiente. A grande maioria dos conjuntos de peças abstratas, porém mesmo estas singularidades têm qualidade artística. Alguns trabalhos de artes representam conjuntos modernos desenhos de conjuntos de peças de xadrez, tais como o conjunto modernista criado pelo entusiasta do xadrez e dadaísta Man Ray (1890-1976), nascido Emanuel Radnitzky, foi um dos nomes mais importantes do movimento da década de 1920, responsável por inovações artísticas na fotografia. Muda-se na infância para Nova Iorque. Estudante de arquitetura, engenharia e artes plásticas, inicia-se na pintura ainda jovem. Em 1915 conhece o pintor francês Marcel Duchamp, com quem funda “o grupo dadá nova-iorquino”. Em 1921 contata com o movimento surrealista em particular na pintura. Trabalha como fotógrafo para financiar a pintura e, com a nova atividade, desenvolve a sua arte, a raiografia, ou fotograma, criando imagens abstratas (obtidas sem o auxílio da câmara) mas com a exposição à luz de objetos previamente dispersos sobre o papel fotográfico. Como cineasta, produz filmes surrealistas, como L`Étoile de Mer (1928), com o auxílio de uma técnica chamada “solarização”, pela qual inverte parcialmente os tons da fotografia.

Peças de xadrez para o jogo são usualmente as figuras mais altas do que largas.  Por exemplo, o modelo do Rei no padrão Staunton, conjunto de oficial de peças a ser utilizada em competições da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), fundada em 20 de julho de 1924, Paris. Tendo Alexander Rueb como um de seus fundadores sendo eleito o seu primeiro presidente (1924-1949), presidida por Kirsan Ilyumzhinov, desde 1995 até 2018 quando passou a ser o seu presidente Arkady Dvorkovich. No xadrez utiliza-se um sistema etnográfico para anotar as jogadas na partida chamada do ponto de vista técnico-metodológico Notação Algébrica. Os princípios da notação algébrica respectivamente são: a) Cada casa é identificada por uma letra e um número (e4); b) Um movimento é o desenho da peça que será movimentada e a casa para onde se moverá em seu destino (¥h7 significa bispo para h7); c) Se o movimento é uma captura, insere-se um x depois da peça; d) Se duas peças do mesmo tipo podem ir para uma casa, insere-se uma coordenada de partida (¤fe2, ¦8d7); e) Para movimento de peão, escreve-se a casa para onde o peão vai (c4); f) Se o movimento for uma captura, procede-se como na regra anterior, mas acrescenta-se a coluna de partida (cxd4); g) Se o movimento envolver uma promoção, a figura da peça promovida vai no final (gxf8£); h) Os movimentos são numerados em pares com as peças brancas movendo por primeiro; i) Outros símbolos: - é xeque; - é xeque-mate; 0-0 é roque pequeno; 0-0-0 é roque longo; j) Pontuação pode ser adicionada depois do lance da seguinte forma: ! lance bom; !? lance interessante; !! lance muito bom; ? erro; ?? erro grave; k) Uma partida pode terminar em 1-0 (vitória das brancas), ½-½ (empate), ou 0-1 (vitória das pretas).   

Ju Wenjun nascida em Xangai, 31 de janeiro de 1991 é uma jogadora de xadrez chinesa. Ao defender seu título em 2018, ela se consagrou bicampeã do mundo da modalidade. Ela obteve varias participações nas Olimpíadas de Xadrez defendendo seu país. Wenjun participou da edição de Dresden 2008, Khanty-Mansiaky 2010, Istambul 2012 e Tromsø 2014 tendo ajudado a equipe chinesa a conquistar três medalhas de prata em 2010, 2012 e 2014. Individualmente, seus melhores resultados foram medalha de prata em 2010 e uma de bronze em 2014. Participou também do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2004 na qual foi eliminada na segunda rodada por Elisabeth Pähtz, do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2006 na qual foi eliminada nas oitavas de final por Maia Chiburdanidze, do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2008 na qual foi eliminada na segunda rodada por Antoaneta Stefanova, do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2010 na qual foi eliminada nas quartas de final por Humpy Koneru, do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2012 na qual foi eliminada na semifinal por Anna Ushenina e do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2015 na qual foi eliminada na segunda rodada por Natalia Pogonina.

A série da Netflix O Gambito da Rainha (2020),  para descrever a vida genial da enxadrista Beth Harmon, uma garota fictícia criado pelo escritor norte-americano Walter Tevis em seu romance. A empresa teve imaginação sociológica para atrair o público, com um recorte especial pela escolha do elenco da minissérie homônima, já que o enredo não cumpriria o trabalho num primeiro momento. Ao colocar Anya Taylor-Joy no papel principal, a empresa garantiu que os fãs da atriz ao menos ficassem curiosos pela produção, mesmo que não tivessem que compreender nada de xadrez. O Gambito da Rainha demonstra, sem dúvida alguma, uma das melhores atuações na carreira da jovem atriz Anya Taylor-Joy. O Gambito da Rainha acompanha a vida de Beth Harmon desde a conturbada infância até o estrelato e carreira internacional de enxadrista. De uma atuação impecável, Johnston incorpora a teimosa de poucas palavras Beth Harmon. Sua aparição é essencial para introduzir o espectador na história social, além de contextualizar problemas individuais que a protagonista terá que lidar com as consequências mais tarde. O vício adquirido de ingerir calmantes disponibilizados pelo orfanato, questões com a sexualidade e o início de uma paixão que se tornará um enorme talento: o xadrez. Ipso facto, queremos dizer com isso que há sinais indiciaristas no sentido da cinebiografia de  Stone Tevis, um escritor e contista hispano-americano. 

            O grande responsável por apresentar o jogo para a órfã é justamente o zelador do local Shaibel, um senhor disciplinado e inteligente, pouco sociável e rabugento no primeiro momento. Mas que acaba tornando-se uma das pessoas mais especiais da vida de Beth Harmon, que faz questão de mencioná-lo e agradecê-lo em todos os seus momentos de sucesso como enxadrista profissional nos episódios subsequentes. Shaibel, como um mestre ensina as principais regras do método e jogadas para Beth aprender literalmente esforçando-se o que constrói sua principal característica como competidora: o V de vitória, o raciocínio esmerado, humildade de reconhecer a derrota e acima de tudo a jogada-chave que  tornará praticamente a marca registrada de Beth Harmon como enxadrista profissional, O Gambito da Rainha, não por acaso que dá nome à série. Anya Taylor-Joy nasceu em Miami, Flórida, sendo a mais nova de seis crianças. Sua mãe é espanhola-inglesa e seu pai escocês-argentino. Anya se mudou para Buenos Aires  criança e falava apenas espanhol antes da vinda para Londres aos seis anos de idade.

Ela estudou na escola preparatória Hill House, em Kensington, bem como na Northlands School, uma escola bilíngue na Argentina e na Queen`s Gate School, em Londres. Anya também estudou balé. Anya Taylor-Joy ganhou destaque ao interpretar Thomasin no filme de terror chamado The Witch. O filme estreou no Festival Sundance de Cinema em 2015, e foi lançado oficialmente em 2016. Paralelamente, Taylor-Joy recusou uma oferta de um papel em uma série do Disney Channel. Em 2016, Taylor-Joy estrelou o filme de ficção científica Morgan, dirigido por Luke Scott. O filme foi lançado no dia 2 de setembro de 2016. Ela também interpretou uma mulher próxima de Barack Obama no filme Barry, de Vikram Gandhi, que narra a história social do jovem negro na Universidade Columbia em 1981. Em 2017 protagonizou o filme de terror psicológico: Fragmentado, no qual interpretou a personagem Casey Cooke, “uma garota sequestrada por um homem com múltiplas personalidades”. Voltou a interpretar Casey no filme: Glass, lançado em 18 de janeiro de 2019, tornando Unbreakable a primeira parte da série de filmes Unbreakable e a última parte da trilogia fílmica.

Na vida real aos 10 anos de idade, seus pais o internaram num “lar de cuidados paliativos” quando Walter ficou gravemente doente e a família se mudou para o Kentucky, onde tinha comprado terras. Vale lembrar que aos 11 anos, Walter viajou o país de trem, sozinho, para reencontrá-los. Muito tímido, foi convocado pela Marinha dos Estados Unidos da América e aos 17 anos “serviu” ao quartel de marinheiros desenvolvendo aprendizado de carpinteiro à bordo do USS Hamilton, no Oceano Pacífico. Depois de sua dispensa do serviço militar, Walter terminou o colégio em 1945 e ingressou na Universidade de Kentucky, onde recebeu um bacharelado (1949) e um mestrado (1954) em literatura inglesa. Foi por volta dessa época acadêmica no processo de formação ainda como estudante regular, quando trabalhava em uma casa de jogos de  bilhar, que Walter Tevis publicou um conto que se passava num lugar semelhante, para uma de suas aulas teóricas de ensaio e de escrita no College.  Em seguida, Walter cursou o workshop de escrita criativa de Iowa, onde recebeu um certificado em 1960.

É importante também destacar a atuação de Moses Ingram interpretando Jolene, a colega de dormitório de Beth. A personagem não precisa fazer tantas aparições quanto os espectadores gostariam de ver, todavia a sua presença na vida da enxadrista é de extrema importância, principalmente nos momentos finais. Jolene acaba ficando para trás no enredo quando a protagonista é adotada aos treze anos por um tradicional casal de Lexington, no Kentucky cujos cidadãos assistem a tensão política da chamada Guerra Fria crescer a todo vapor na década de 1960. Esse momento de transição na vida de Beth funciona também como uma metáfora da desordem, para que a garota possa, finalmente, escolher a pessoa que deseja se tornar no mundo real, e seguindo a paixão de criança, um de seus primeiros passos fora do orfanato é justamente se inscrever num torneio de xadrez local. Como uma novela, Beth passa pelos primeiros momentos no colégio público e se familiariza com a boa ideia de ter pais adotivos, um quarto de menina só pra si e uma rotina bem-vinda na constituição de sua identidade. 

A jovem, que agora está entrando na adolescência, também passa a reconhecer aos poucos seu próprio corpo e viver sua primeira menstruação, mas é nesse momento que O Gambito da Rainha comete talvez sua primeira “interdição”, que pode passar despercebido para alguns telespectadores, por justamente repetir algo que repetidamente vemos na vida. Tudo é repetição na série do tempo em relação a essa imagem simbólica. A representação do próprio passado é repetição por insuficiência e prepara essa outa repetição constituída pela metamorfose no presente. Já observara Gilles Deleuze, no plano da análise filosófico, que não há fatos sociais de repetição na história, mas a repetição é a condição histórica sob a qual algo novo é efetivamente produzido. Não é à reflexão do historiador que se manifesta uma semelhança na religião entre Lutero e Paulo, na política entre a Revolução de 1789 e a República Romana etc., mas é antes de tudo por eles mesmos que os revolucionários no sentido marxista do termo são determinados a viver como “romanos ressuscitados” antes de se tornarem capazes da ação que começaram por repetir ao modo de um passado próprio: logo, em condições tais que eles se identificaram necessariamente com uma figura  do passado histórico.

A repetição, segundo o filósofo, “é uma condição da ação antes de ser um conceito da reflexão” (cf. Deleuze, 2018: 130). Para ele, só produzimos algo novo à condição de repetir uma vez ao modo que constitui o passado e outra vez no presente da metamorfose. E o que é produzido, o absolutamente novo, é, por sua vez, apenas repetição, a terceira repetição, desta vez por excesso, a repetição do futuro como eterno retorno. Com efeito, ainda que possamos expor o eterno retorno como se ele afetasse toda a série ou o conjunto do tempo, o passado e o presente como também o futuro, tal exposição permanece apenas introdutória, tem apenas um atípico valor problemático e indeterminado (sobre a morte), apenas a função de colocar o problema do “eterno retorno”. Em sua verdade esotérica, o terno retorno só concerne e só pode concernir ao terceiro tempo da série. É somente aí que ele se determina. Eis que ele é literalmente  chamado de crença do futuro, crença no futuro. O eterno retorno só afeta o novo, isto é, o que é produzido sob a condição da insuficiência e por intermédio da metamorfose.  

 Depois de se formar, escreveu para o Departamento de Rodovias do Kentucky e deu aulas de Ciências, Inglês e também Educação Física no Ensino Médio de várias cidades no interior do estado, como Hawesville e Carlisle. Walter também deu aulas na Universidade do Norte do Kentucky, na Universidade de Kentucky e na Universidade Estadual do Sul de Connecticut. Em 1957, Walter se casou com Jamie Tevis, com quem ficou viveu até 1977. Curiosamente Walter deu aulas de literatura e escrita criativa na Universidade de Ohio de 1965 a 1978, onde tornou-se professor Titular. Lutando contra o alcoolismo e se recuperando de um divórcio difícil, Walter se demitiu da Universidade de Ohio e se mudou para Nova Iorque, onde retomou o hábito da escrita e se tornou escritor em período integral. No começo de 1984, Walter descobriu que tinha contraído um câncer de pulmão. Ele morreu em Nova Iorque, em 9 de agosto de 1984 e foi sepultado no jazigo da família em Richmond, uma cidade independente e capital do estado da Virgínia, fundada em 1607 e incorporada como condado em 1782.   

Enfim, no filme O Gambito da Rainha (2020), o trágico e o cômico, a história, a fé, do ponto de vista do “eterno retorno”, eis que o presente e o passado, são apenas dimensões do futuro: o passado, como condição, e o presente, como agente da mudança social. A segunda síntese, da memória, constituía o tempo como um passado puro, do ponto de vista de um fundamento que faz com que o presente  passe e dele advenha outro. A síntese do tempo constitui desta forma um futuro que afirma de uma só vez o caráter incondicionado do produto em relação a sua condição e a sua independência da obra em relação a seu autor ou ator. O presente, o passado e o futuro se revelam como Repetição através das três sínteses, mas de modos muito diferentes. O presente é o repetidor, o passado é a própria repetição, mas o futuro é o repetido. O segredo da repetição, em seu conjunto, está no repetido, como duas vezes significado. A repetição régia é a do futuro, que subordina as duas outras e as destitui de sua autonomia. Com efeito, não queremos perder de vista que a primeira síntese diz respeito ao conteúdo e à fundação do tempo; a segunda diz respeito a seu fundamento, mas, para além das duas primeiras, a terceira assegura a ordem, o conjunto, a série e o objetivo final do tempo.

Uma filosofia da repetição passa por todos os “estágios”, condenada a repetir a própria repetição. Mas, através desses estágios, ela assegura seu programa: fazer da repetição a categoria do futuro; servir-se como estágios e deixa-las pelo caminho, com uma das mãos, lutar contra o Hábito; com a outra, lutar contra a Mnemósina; recusar o conteúdo de uma repetição que bem ou mal permite “extrair” a diferença (Habitus); recusar a forma de uma repetição que compreende a diferença, mas para subordiná-la ainda ao conteúdo comparativo de Mesmo e Semelhante (Mnemósina); e que assim nos faz recusar comparativamente os ciclos simples demais, tanto aquele submetido a um presente habitual (ciclo costumeiro) quanto aquele que organiza um passado puro (ciclo memorial ou imemorial); transformar o fundamento da memória em simples condição por insuficiência, mas também a fundação do hábito em falência do (habitus), em metamorfose do agente; expulsar o agente e a condição em nome da obra ou do produto; fazer da repetição não aquilo que se “extrai”  diferença, nem aquilo que compreende a diferença como variante, mas o pensamento e a produção social do “absolutamente diferente”; fazer com que, para si mesma, a repetição seja a diferença em si mesma.    

Beth Harmon acaba entregando tudo de si em cada partida, jogando como se fosse a última de sua vida, e é por isso que as derrotas são tão sentidas pela enxadrista, que acaba descontando toda a frustração em calmantes e garrafas de whisky. Não demora muito para o espectador ver a protagonista em sua mais vulnerável e miserável forma, disposta até a desistir da brilhante carreira que construiu no xadrez. A garota vence todas as partidas que são colocadas à sua frente e não demora muito para seu nome ser reconhecido por todo o país, amedrontando seus futuros adversários e atiçando a curiosidade dos mais famosos profissionais de xadrez norte-americanos. Nesse meio-tempo, o espectador acompanha o crescimento da protagonista no esporte título após título nos mais diversos torneios acompanhados de sua mãe adotiva, uma dona de casa que é abandonada pelo marido logo após adotar Beth. Alma Wheatley (Marielle Heller) dá seu total apoio à filha adotiva e é a primeira pessoa do mundo real que reconhece o talento de Beth no xadrez, mas acaba revivendo o vício da protagonista por pílulas, além de dar margem para que ela desenvolva alcoolismo talvez por sofrer o drama.

         Anya Josephine Marie Taylor-Joy é a mais nova de seis irmãos. A mãe de Anya nasceu na Zâmbia, África, de pai inglês e mãe espanhola, ao passo que o pai de Anya nasceu na Argentina, de ancestralidade inglesa e escocesa. Apesar de ter nascido em Miami, duas semanas após o seu nascimento, a família de Anya se mudou para a cidade do seu pai, Buenos Aires, onde ela viveu até os seis anos de idade. Porém, devido aos problemas políticos da Argentina, os pais de Anya resolveram se mudar para Londres, no Reino Unido, em 2002. Quando chegou a Londres, Anya só sabia falar espanhol e teve algumas dificuldades de adaptação ao novo país. Ela estudou na escola preparatória Hill House, em Kensington, bem como na Northlands School, uma escola bilíngue na Argentina, e na Queen`s Gate School, em Londres. Anya também estudou balé.  Anya Josephine nascida em Miami, em 16 de abril de 1996 é uma atriz e modelo norte-americana e britânica. Após ser aclamada pela crítica especializada em sua estreia no filme de terror de conjuntura The Witch (2015), Taylor-Joy recebeu reconhecimento adicional por seu papel no filme de terror psicológico intitulado: Fragmentado (2016) e na sua continuação Glass (2019). Estrelou o drama Thoroughbreds (2017) e interpretou Emma Woodhouse na comédia Emma (2020), baseada no romance de Jane Austen.

Junto com o anúncio da série, foi anunciado que Anya Taylor-Joy seria a protagonista. Em janeiro de 2020, foi anunciado que Moses Ingram havia se juntado ao elenco da série. Após o anúncio da data de estreia da minissérie, foi anunciado que Bill Camp, Thomas Brodie-Sangster, Harry Melling e Marielle Heller haviam sido escalados para os papéis principais. Como a maior parte das filmagens foram realizadas em Berlim, Alemanha, os papéis menores foram preenchidos principalmente por atores britânicos e alemães. Garry Kímovich Kasparov, nascido com o nome Garry Kimovich Weinstein, Bacu, em 13 de abril de 1963 é um Grande Mestre e ex-campeão mundial de xadrez, escritor e ativista político nascido na República Socialista Soviética do Azerbaijão, União Soviética. É considerado por muitos o maior enxadrista de todos os tempos. Kasparov foi o jogador mais novo a se tornar campeão mundial de xadrez em 1985, quando tinha 22 anos na final do mundial. Em 2002 Ruslan Ponomariov com apenas 18 anos se tornou o mais jovem Campeão Mundial de toda história do xadrez. Manteve o título mundial de melhor jogador oficial da Federação Internacional de Xadrez até 1993, quando uma disputa com a FIDE o levou a criar uma organização rival, a Professional Chess Association. Ele continuou a vencer o Campeonato Mundial de Xadrez Clássico pela PCA, até ser derrotado por Vladimir Kramnik em 2000 sem ganhar uma única partida. Garry é largamente conhecido por ser o primeiro campeão mundial de xadrez que jogou uma partida contra um computador, quando perdeu para o Deep Blue em 1997.

As conquistas de Kasparov incluem ser classificado como o número um do mundo de acordo com o rating ELO quase continuamente de 1986 até sua aposentadoria em 2005. Ele mantém, também, o recorde de Chess Oscars, tendo recebido o prêmio onze vezes. O Oscar do Xadrez é um prêmio honorário concedido anualmente de 1967 a 1988 e de 1995 a 2013 por jornalistas ao melhor jogador do ano anterior. O Oscar foi inicialmente concedido pela Associação Internacional de Imprensa de Xadrez fundada em 1967. Esta associação foi renomeada na Olimpíada de Xadrez de 1968 em Lugano. Em 1967, ao término do torneio de xadrez de Palma de Maiorca, a AIPE concedeu seu primeiro Oscar a Bent Larsen, declarado o melhor grande mestre do ano de 1967. Nos anos subsequentes, após votação entre jornalistas, a associação anunciava a lista dos dez melhores jogadores do ano. O fundador da associação, o espanhol Jordi Puig Laborda, que coordenou as votações, morreu em 1988 e sua associação foi dissolvida em 1989, após conceder o Oscar de 1988 a Garry Kasparov. Interrompido em 1989, o Oscar foi retomado de 1995-1996 (Garry Kasparov) a 2013-2014 (Magnus Carlsen), com a coordenação da revista russa de xadrez 64. O Oscar foi novamente interrompido em 2014 com o fim da publicação da revista. Entre 1984 e 1990, Kasparov foi membro do Comitê Central de Komsomol e membro do Partido Comunista da União Soviética.

Ele anunciou sua aposentadoria do xadrez profissional em 10 de março de 2005, para dedicar seu tempo à política e à escrita. Formou o movimento United Civil Front, e tornou-se membro do The Other Russia, uma coalizão de oposição à administração de Vladimir Putin. Ele foi candidato para presidente nas eleições de 2008, mas depois desistiu. Ele foi barrado por falta de encontrar um espaço suficientemente grande de aluguel para montar o número de adeptos que está legalmente exigido para endossar tal candidatura o levou a se retirar. Kasparov culpou “obstrução oficial” para a falta de espaço disponível. Embora ele é amplamente considerado no Ocidente como um símbolo da oposição a Putin, ele foi impedido de o escrutínio presidencial. O clima político na Rússia supostamente faz com que seja difícil para os candidatos da oposição para organizar. Embora altamente considerado, no Oriente, como um símbolo de oposição a Putin, o apoio de Kasparov na Rússia era fraco. Em 14 de abril de 2007 Kasparov foi preso com quase outras 200 pessoas ao participar de um protesto contra o Kremlin, e ficou detido por cerca de dez horas, além de ter sido multado em mil rublos. Em novembro do mesmo ano, foi novamente preso, em um protesto contra Vladimir Putin e ficou detido desta vez por cinco dias. Em 2013, partiu para o exílio, dada a intensificada hostilidade do regime de Wladimir Putin para com a crescente oposição. Desde 2012, foi presidente da Fundação de Direitos Humanos, sendo sucedido em 2024 por Yulia Navalnaya, outra opositora russa, e viúva de Alexei Navalny.

Bibliografia geral consultada.

PENNICK, Nigel, Jogos dos Deuses: A Origem dos Jogos de Tabuleiro segundo a Magia e a Arte Divinatória. São Paulo: Editor Mercuryo, 1992; MACHADO, Nilson José, Matemática e Língua Materna: Análise de uma Interpretação Mútua. São Paulo: Editora Cortez, 1997; HUIZINGA, Johann, Homo Ludens: O Jogo como Elemento da Cultura. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999; CERTEAU, Michel de, L`Invenzione del Quotidiano. Roma: Edizione Lavoro, 2000; MAFFESOLI, Michel, El Instante Eterno. El Retorno de lo Trágico en las Sociedades Posmodernas. Buenos Aires: Ediciones Paidós, 2001; ASLAN, Odette, O Ator no Século XX: Evolução da Técnica. Rio de Janeiro: Editora Perspectiva, 2007; EDMONDS, David; EIDINOW, John, Bobby Fischer se Fue a la Guerra: El Duelo de Ajedrez más Famoso de la Historia. Buenos Aires: Ediciones Debate, 2007; ROCHA, Wesley Rodrigues, O Jogo e o Xadrez: Entre Teorias e Histórias. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em História. Goiânia: Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2009; PEREIRA, Kariston, O Raciocínio Abdutivo no Jogo de Xadrez: A Contribuição do Conhecimento, Intuição e Consciência da Situação para o Processo Criativo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2010; SILVA, Wilson da, Raciocínio Lógico e Jogo de Xadrez. Em Busca de Relações. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2010; GENNEP, Arnold van, Os Ritos de Passagem. 3ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2011; SOUZA, Juliano de, O Xadrez em Xeque – Uma Análise Sociológica da História Esportiva da Modalidade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Departamento de Educação Física. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2010; COURTINE, Jean-Jacques, História do Rosto: Exprimir e Calar as Emoções (do século 16 ao começo do século 19). Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; CUSTÓDIO, José Antônio Loures; AFIUNE, Pepita de Souza, “O Ethos Religiosos na Antiguidade: A Origem Ritualística dos Jogos de Tabuleiro”. In: Revista de Artes. Faculdades de Artes do Paraná. Curitiba, vol. 20, n° 1, jan./jun., 2019; pp. 128-145; MENEGHEL, Gustavo Amâncio Bonetti, O Conteúdo Teórico do Conceito de Xadrez. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Mestrado em Educação. Criciúma: Universidade do Extremo Sul Catarinense, 2019; BOLDA, Bruna dos Santos, A Elaboração da Sociologia de Max Weber ficou mais Compreensível? Análise Comparativa do Esquema Conceitual Sobre Algumas Categorias da Sociologia Compreensiva (1913) e Conceitos Sociológicos Fundamentais (1921). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2020; entre outros.