quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

João Havelange, Taça Jules Rimet & FIFAgate Globalizado.

                                                                            “Eu faço esporte, eu não faço política”. João Havelange  

        

       Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, reconhecido no mundo esportivo global, como João Havelange, nasceu no Rio de Janeiro em 8 de maio de 1916, vindo a falecer na mesma cidade em16 de agosto de 2016. Filho do belga Faustin Havelange, um comerciante de armas radicado no Rio de Janeiro, onde possuía uma grande propriedade que se estendia pelos atuais bairros de Laranjeiras, Cosme Velho, na zona sul e Santa Teresa, no centro do Rio de Janeiro, desde a infância se dedicou aos esportes. Foi atleta olímpico, advogado, empresário, e dirigente esportivo brasileiro. No Fluminense Futebol Clube, foi escoteiro e atleta, infantil, juvenil e adulto, destacando-se em vários esportes, inclusive no futebol, tendo sido em 1931 campeão carioca juvenil. Ainda nesta década graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) com a bela edificação na praia de Icaraí, e competiu como nadador nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. Como atleta, participou das Olimpíadas de 1936, nas provas de natação dos 400 metros e 1500 metros livre. Também esteve na edição de 1952, com o time de polo aquático. Foi presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA) de 1974 até 1998, tendo organizando seis Copas do Mundo. Foi o segundo presidente com maior tempo no cargo, depois de Jules Rimet, que a presidiu durante 33 anos (1921-1954). Posteriormente, foi dirigente de esporte, inicialmente na Federação Paulista de Natação, já que residia em São Paulo em 1948. Quando retorna ao Rio de Janeiro em 1952, torna-se presidente da Federação Metropolitana de Natação e vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD).

        Na década de 1930 John Maynard Keynes iniciou uma transformação radical no pensamento econômico, opondo-se às ideias da economia neoclássica que defendiam que os mercados livres ofereceriam automaticamente empregos aos trabalhadores contanto que eles fossem flexíveis na sua procura salarial. Após a eclosão da 2ª Guerra Mundial, as ideias econômicas de Keynes foram adotadas ideologicamente pelas principais potências econômicas do Ocidente. Durante as décadas de 1950-60, a popularidade das ideias keynesianas refletiu-se positivamente na influência de seus conceitos sobre as políticas públicas de grande número de governos ocidentais. A influência de Keynes na política econômica, no entanto, declinou na década de 1970, parcialmente com resultados de problemas que começaram a afligir as economias norte-americana e britânica como a Crise do Petróleo de 1973, e também devido às críticas de Milton Friedman e outros economistas liberais em relação à capacidade do Estado de regular o ciclo econômico com políticas fiscais. Entretanto, o advento da crise econômica global do final da década de 2000 causou uma releitura do pensamento keynesiano. A economia keynesiana forneceu a base teórica para os planos dos presidentes norte-americanos Franklin Roosevelt e Barack Obama, do primeiro-ministro britânico Gordon Brown e de outros líderes mundiais para evitar a ocorrência de uma grande recessão nos moldes da crise de 1929.

Em 1999, a influente revista Time nomeou Keynes como uma das 100 pessoas mais influentes do século XX, dizendo que “sua ideia radical de que os governos devem gastar o dinheiro que não têm, pode ter salvado a economia da localidade temporariamente”. Keynes defendeu uma política económica de Estado intervencionista, através da qual os governos usariam medidas fiscais e monetárias para mitigar os efeitos adversos dos ciclos econômicos como recessão, depressão e booms. Além de economista, Keynes era um funcionário público, um patrono das artes, um diretor do Banco da Inglaterra, um conselheiro de várias instituições de caridade, um escritor, um investidor privado, um colecionador de arte e um fazendeiro de imponente estatura, com 1,98 metros de altura. O impacto da teoria geral do emprego, do juro e da moeda nos meios acadêmicos e na formulação de políticas públicas excedeu o que normalmente seria esperado (cf. Keynes, 1992). A razão para seu extraordinário sucesso, frente a defesa de longo tempo da “doutrina herdada” e à recepção geralmente negativa nos círculos não acadêmicos no período de sua publicação, em 1936, é que “a obra tinha alguma coisa para todos”. É curioso salientar que, apesar do peso que a política fiscal assume nas interpretações feitas a partir de Keynes, na Teoria Geral, mais especificamente numa edição brasileira de 1996, tal expressão é vista apenas seis vezes, além de uma vez como nota de rodapé. As suas ideias e as dos seus seguidores foram adotadas por vários governos ocidentais e também por muitos governos do chamado “terceiro mundo”. Constituem a essência da política econômica mantida nos Estados Escandinavos, cujas populações desfrutam dos melhores padrões de vida do mundo. A sua influência começou a diminuir a partir dos anos 1970 com a ascensão dos monetaristas, provocada pela crise do dólar norte-americano de 1971, durante o governo Nixon, quando os Estados Unidos se viram obrigados a interromper a conversibilidade do dólar em ouro, mas ressurge depois de 1986 com a publicação do teorema de Greenwald-Stiglitz e o surgimento dos economistas neokeynesianos. Em 1998, em meio à crise asiática, o economista Paul Krugman afirmava que “Keynes é ainda mais importante hoje do que há 50 anos”.

Mas ele como economista esteve envolvido em assuntos públicos numa posição ou outra, particularmente em questões de comércio e finanças. Este aspecto de sua carreira está em perfeita consonância com a abordagem predominantemente pragmática; a economia como ciência pura era-lhe muito menos interessante do que a economia a serviço de políticas. Com efeito, a contribuição de Keynes à teoria e à prática de economia política tem de ser vista em perspectiva, tendo como background os anos de guerra e entreguerras, a fim de ser plenamente compreendida e apreciada. Estes anos foram marcados pela interrupção das relações de comércio e do padrão-ouro durante a 1ª grande guerra, seguindo-se primeiramente a inflação, a instabilidade da taxa de câmbio e os desequilíbrios do balanço de pagamentos, e mais tarde pela deflação e desemprego em massa em escala internacionalizada. O exame teórico desses fenômenos catastróficos e, mais importante sob o ponto de vista de Keynes, as soluções práticas para os problemas criados por estes mesmos fenômenos estavam na ordem do dia. Com a irrupção da 2ª guerra mundial, John Maynard Keynes dedicou-se a questões concernentes às finanças de guerra e ao restabelecimento final do comércio internacional e de moedas estáveis. Suas ideias sobre estes assuntos foram divulgadas em um panfleto Como Pagar a Guerra, publicado em 1940, e no Plano Keynes para o estabelecimento de uma autoridade monetária internacional que ele propôs em 1943. Embora seu plano tenha sido rejeitado, a proposta que foi adotada em 1944 na Conferência de Bretton Woods, da qual participou como líder na delegação britânica, refletia claramente a influência e, sobretudo, a importância social de seu pensamento econômico.

         Conquistada a Jules Rimet, o Brasil levou 24 anos para vencer outra Copa do Mundo. Nesse intervalo, o futebol-arte deu um breve suspiro, mas fracassou diante da Itália, na Copa da Espanha, em 1982. Sobre aquela seleção, e sua rápida, mas marcante trajetória, que encantou o mundo global do futebol, há outro lúcido livro de João Saldanha, O Trauma da Bola, com artigos publicados em seu tempo, vários dos quais, se não o explicam, certamente ajudam a entender algumas das razões da inesperada derrota. Em contrapartida, em termos editoriais, 1982 foi repleto de simbolismo. Com efeito, o ano marca, como muitos analisaram, a entrada em campo de alguns dos precursores dos estudos acadêmicos sobre o futebol. Talvez porque o país começasse a caminhar mais decididamente para retomar o caminho da democracia, já que vivíamos a transição conservadora do regime autoritário para uma ordem liberal conservadora. E, com isso, os símbolos nacionais, como o hino, a bandeira e, no caso dos esportes, a própria seleção, já chamada por Nelson Rodrigues, de “a pátria em chuteiras e calções”, voltassem a ser “repatriados” pelo povo brasileiro. Além disso, a seleção comandada por Telê Santana parecia contribuir adotando o estilo que marcara nosso futebol, ou seja, o “futebol-arte”, ou, como descrevera Gilberto Freyre, o “futebol dionisíaco”. Em 1982, foi lançado Universo do Futebol, dos antropólogos Roberto DaMatta, Luiz Felipe Baeta Neves, Simoni Lahud Guedes e Arno Vogel. Tratava-se de iniciativa quase inédita entre pesquisadores e professores para superar preconceitos, ainda não de todo suprassumido sobre o tema no meio acadêmico.

      Ao mesmo tempo, a imprensa Oficial do Estado de São Paulo publicou uma coletânea de ensaios, tão importante e diversificada quanto à anterior, organizada por José Carlos Meihy e José Sebastião Witter, com a participação de Robert Levine e Matthews Shirts, dois brasilianistas. No ano seguinte, após realizar pesquisas no Brasil, a socióloga norte-americana Janet Lever lançaria A Loucura do Futebol, deixando ainda mais evidente o desprezo dos intelectuais brasileiros pelo tema. Desde então, muita coisa mudou, tanto nas universidades e centros de pesquisas, como no futebol, sobretudo fora das quatro linhas. E muitos desses estudos e pesquisas têm sido publicados, formando, ao lado de trabalhos jornalísticos, a base da bibliografia sobre o tema no Brasil, como bem se observa no material aqui arrolado por Lúcia Gaspar e Virginia Barbosa. Como não poderia deixar de ser, o surgimento e a violência das torcidas organizadas, não apenas como fenômeno relacionado ao futebol, mas também social, passaram a chamar a atenção de estudiosos. As pesquisas a respeito têm enfocado as ações coletivas dos torcedores no contexto da crescente violência urbana e alguns já foram transformados em livro. É o caso da premiada pesquisa Torcidas Organizadas de Futebol, de Luiz Henrique de Toledo, que abriu caminho para o livro Os Perigos da Paixão, de Rosana Teixeira, Torcer, Lutar, ao Inimigo Massacrar, de Rodrigo Monteiro, e Dos Espetáculos de Massa às Torcidas Organizadas, de Tarcyanie Cajueiro Santos, que possibilitam uma visão acurada do problema nos dois principais centros do país, que formam o eixo São Paulo e Rio de Janeiro. Há os estudos de Maurício Murad e, sobretudo, de Heloísa Helena Baldy dos Reis, que procuram dar conta do fenômeno mundial que aflige os torcedores nos estádios de futebol e torcedores e não-torcedores em suas cercanias por todo o País (cf. Barreto, 2014).

       Foi a entidade brasileira responsável pela organização de todo esporte no país fundada em 20 de agosto de 1914 e criada com a pretensão de fomentar toda a prática desportiva no país. A primeira entidade esportiva nacional foi criada por clubes cariocas e paulistas em 8 de junho de 1914, chamada Federação Brasileira de Sports (FBS). A ideia era montar uma seleção brasileira para enfrentar a Argentina na disputa da Copa Roca, promovida pelo presidente argentino Alejo Julio Argentino Roca Paz (1843-1914). A 21 de junho de 1916, a FBS passou a chamar-se Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Em 24 de setembro de 1979, após passar por modificações em sua estrutura, a CBD passou a se chamar Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sobretudo como consequência de um decreto da Fédération Internationale de Football Association, reconhecida pelo acrônimo FIFA, é uma organização sem fins lucrativos, segundo o qual todas as entidades nacionais de futebol deveriam ser voltadas unicamente para o desenvolvimento nacional deste esporte. Este não era o caso da CBD, que, naquela conjuntura ocupava-se do fomento de aglutinação a todos os esportes olímpicos, incluindo o popular futebol. Cada modalidade tem a sua própria confederação,  sendo que a entidade pública que faz o papel de desenvolver o esporte contemporâneo através de uma estratégia global e articulando com todas as modalidades de desporto é o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Antes de cada esporte ter a sua confederação própria, tinham como referência a CBD “entidade com voz máxima no Brasil”. Somente após a extinção da CBD, em 1979, no regime militar de João Batista de Figueiredo, o último general presidente, foi renomeada Confederação Brasileira de Futebol (CBF). No ano subsequente, portanto, a organização do campeonato nacional de futebol passou a ser liderada pela Confederação Brasileira de Futebol.  

            A relação dos 704 jogadores inscritos na Copa do Mundo de 1998 (cf. Folha de São Paulo, 4/06/1998), demonstra que a démarche da globalização no mundo contemporâneo é definitiva no futebol. Das 32 seleções, apenas 5 têm todos os 22 jogadores atuando no país que representam de acordo com a nacionalidade e cidadania.  Curiosamente países como a Arábia Saudita, Espanha, Inglaterra, Japão e México formam esse grupo extraordinários de sociedades nacionalistas. Do lado oposto, as seleções mais globalizadas são Nigéria, com todos os atletas no exterior, e Iugoslávia e Paraguai, cada uma com apenas três jogadores atuando no próprio país. Os dados estatísticos revelam que a Europa continua atraindo as grandes estrelas do futebol. Os líderes no ranking de clubes que cederam mais jogadores para a Copa da França são todos europeus. Juntos, Barcelona (Espanha), Celtic (Escócia), PSV Eindhoven (Holanda) e Internazionale e Milan, da Itália, cederam 54 atletas, o equivalente a 2,5 seleções. No caso do Barcelona, oito dos jogadores estão servindo à seleção espanhola. O escocês Celtic e o iraniano Pirouzi, igualmente com oito atletas cedidos, são a base das equipes de seus países.  O mais globalizado dos grandes clubes, por sua vez, é o Chelsea, da Inglaterra, que cedeu jogadores para oito seleções - além de um atleta para Inglaterra, distribuiu jogadores para Holanda, Noruega, Itália, Jamaica, Croácia e Nigéria. A média de idade dos 704 jogadores da Copa do Mundo é de 27,0. Supondo que a numeração básica do futebol (1 a 11) indique os atletas que começarão jogando, os titulares têm 27,7 anos em média, contra 26,3 dos reservas.

Comparativamente entre as médias de idade das seleções nacionais refletem, em parte, os indicadores sociais dos quatro continentes presentes no Mundial da França. As equipes europeias, representantes da região em que nasceu o futebol, têm, na média, 27,9 anos. As seleções mais velhas são Alemanha, com 29,8, e Bélgica e Escócia, com 29,3. O vovô deste Mundial de 1998 é o goleiro titular da Escócia, Jim Leighton, que na partida de estreia contra o Brasil, dia 10, estará com 39 anos e 10 meses. As seleções da América, primeiro continente a adotar o esporte, vêm a seguir, com 26,8 anos. A seleção brasileira, com média de 27,6 anos - o meia Emerson, 22 anos, substituiu o atacante Romário, 32 anos -, supera essa média estatística continental. As equipes asiáticas e as africanas têm respectivamente 25,7 e 25,5 anos. A seleção de Camarões é a mais jovem, com 23,8 anos. O garoto do Mundial, o camaronês Samuel Eto`o, com 17 anos e 3 meses neste dia 10 do corrente, pode se tornar o mais jovem atleta de uma Copa do Mundo de futebol, depois de Edson Arantes do Nascimento, Pelé que tinha apenas 17 anos quando o mundo do futebol o reverenciou pela primeira vez. Foi em 1958, na Copa do Mundo da Suécia, que o menino de Três Corações, em Minas Gerais,  começou a escrever a sua história como “o maior jogador de todos os tempos”. O recorde atual é do irlandês Norman Whiteside, que jogou 1982 com a idade de 17 anos e 5 meses.

            Em primeiro lugar, Juno Moneta, um epíteto da deusa romana Juno, era a protetora dos recursos financeiros. Por conta disto, todas as moedas da Roma Antiga foram cunhadas em seu templo, o Templo de Juno Moneta, que ficava no cume do Monte Capitolino, uma das sete colinas sobre as quais foi fundada a cidade de Roma, por quatro séculos, até finalmente o local ser alterado para outro, próximo do Coliseu, durante o reinado de Domiciano. Assim, “moneta” passou a significar “Casa da Moeda” em latim, um termo utilizado em obras de escritores antigos como Ovídio, Marcial, Juvenal e Cícero. Este sugere que o nome deriva do verbo “monere”, pois, durante um terremoto, uma voz vinda deste templo teria exigido o sacrifício expiatório de uma porca grávida, uma referência à antiga lenda romana de que os gansos sagrados de Juno teriam alertado o comandante Marco Mânlio Capitolino sobre o avanço dos gauleses em 390 a. C. Juno Moneta é o nome utilizado para Mnemósine, mãe das musas, por Lívio Andrônico em sua tradução da Odisseia, e por Higino, que cita Júpiter e Moneta como pais das musas. O nome Mnemósine (“memória”) estava ligado a Juno Moneta, que mantinha em seu templo um minucioso registro histórico dos eventos. Devido à vizinhança do templo com a casa onde se cunhavam os denários, as moedas tomaram esse nome: dinheiro.

            Se a Europa resolveu criar “uma moeda sem Estado”, em 1992, isso não se deveu unicamente por pragmatismo, mas também porque esse arranjo institucional foi concebido no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, num momento em que se imaginava que os bancos centrais teriam a função única “de ver a banda passar”, ou seja, de manter a inflação baixa. Depois da estagflação que ocorreu nos anos 1970, no Estados Unidos da América obteve uma expansão excessiva do crédito e demanda agregada durante a década anterior, que fez elevar o endividamento comparativamente tanto do governo norte-americano quanto das empresas e dos consumidores, que pelo método econométrico retirem-na da chamada estagnação ou armadilha da liquidez. Após um merecido ciclo de virtuoso-crescimento-econômico, que toda economia ou país-viável, merece de conformidade com a doutrina de John Maynard Keynes é o que caracteriza esse conceito. Os governos, assim como a opinião pública, se deixam convencer de que os bancos centrais deveriam ser independentes do poder político e ter por objetivo único uma meta de inflação baixa. Foi assim que se tornou possível “criar uma moeda sem Estado e um banco central sem governo”. Essa visão inerte dos bancos centrais quebrou após o impacto social da crise mundial de 2008. Daí o papel crucial dessas instituições em casos de grave crise e o caráter totalmente inapropriado do programa institucional europeu.    

Ipso facto, o keynesianismo consiste numa organização político-econômica, oposta às concepções liberais, fundamentada na afirmação do Estado como agente indispensável de controle da economia, com objetivo de conduzir a um sistema de pleno emprego. Tais teorias tiveram uma enorme influência na renovação das teorias clássicas e na reformulação da política de livre mercado. A escola keynesiana se fundamenta no princípio de que o ciclo econômico não é autorregulado como pensam os neoclássicos, uma vez que é determinado pelo “animal spirit” dos empresários. É por esse motivo, e pela incapacidade do sistema capitalista conseguir empregar todos “os que querem trabalhar”, que Keynes defende a intervenção do Estado na economia. A teoria atribuiu ao Estado o direito e o dever de conceder benefícios sociais que garantam à população um padrão mínimo de vida como a criação do salário mínimo, do seguro-desemprego, da redução da jornada de trabalho que então superava 12 horas diárias e a assistência médica gratuita. O keynesianismo ficou reconhecido também, ao nível ideológico como o “Estado de bem-estar social”, ou de forma estrita “Estado Escandinavo”. Neste sentido, entendemos que somente uma unificação das dívidas públicas da chamada “zona do euro”, ou ao menos entre os países-membro que a desejem, permitiria sair dessas reais contradições.

      A proposta da economia alemã de criar “fundos de redenção” é um bom ponto de partida reformista na economia, mas falta-lhe um componente político. É impossível decidir com vinte anos de antecedência qual o ritmo exato de “redenção”, ou seja, o ritmo no qual o estoque da dívida comum seria levado à meta desejada. Tudo dependeria de diversos parâmetros, a começar pela conjuntura econômica. Para decidir o ritmo de desendividamento comum, isto é, em última instância, o déficit público da zona do euro, seria necessário criar um verdadeiro Parlamento do Orçamento da zona do euro. Mas depender do Parlamento Europeu existente também gera um claro conflito com as soberanias nacionais, o que torna problemáticas as decisões sobre os déficits orçamentários nacionais. Isso explica porque as transferências de competência para o Parlamento Europeu foram sempre muito limitadas no passado e sem dúvida devem permanecer assim provavelmente por um bom tempo, caso não haja guerras mundiais. Já seria o momento de se dar conta e criar, uma Câmara Parlamentar adaptada à vontade de unificação expressa pelos países da zona do euro cujo abandono da soberania monetária refere-se à representação mais clara se medirmos as consequências políticas do ato.

            Portanto, a fronteira entre o capital público e o privado está longe de ser tão clara como ás vezes imaginamos desde a queda do Muro de Berlim. O mercado e o voto são apenas duas maneiras polarizadas de organizar as decisões coletivas. Novas formas de participação e de governo ainda estão para ser inventadas. O ponto essencial é que essas diferentes formas de controle democrático do capital dependem, em grande medida, da obtenção do grau de informação econômica de que as pessoas dispõem. A transparência econômica e financeira não é apenas um desafio fiscal, mas principalmente, um desafio político de governança democrática e de participação social nas decisões. Desse ponto de vista, o desafio não envolve apenas a transparência financeira sobre os patrimônios e sobre a renda no nível individual – que não tem de fato um interesse em si, salvo talvez em circunstâncias muito particulares, como dos líderes políticos, ou num contexto em que a falta de confiança (cf. Luhmann, 2005) não possa ser corrigida de outra maneira. Enfim, sem objetivamente a correta transparência contábil e sobretudo financeira (cf. Hilferding, 2011); sem uma informação crítica compartilhada, não pode haver democracia econômica. Para que a democracia venha um dia a retomar o controle do capitalismo, é necessário, portanto, partir do princípio de que as formas genuínas de democracia e do capital estão e sempre estarão para ser reinventadas. Lembra-nos Friedrich Nietzsche quando descreve arqueologia das chamadas “revoluções retrógradas” e funestas dos alemães contra o progresso da Europa. Fazendo a Reforma, renovaram o cristianismo, impedindo a sua ruína pelo triunfo das vozes no âmbito da extensão criadora e histórica da Renascença.

Em segundo lugar, depois que a primeira Revolução Social transformara os camponeses de seu estado de semisservidão em proprietários livres, Napoleão confirmou e regulamentou as condições sob as quais podiam dedicar-se à exploração do solo francês que acabava de lhes ser distribuído e saciar sua ânsia juvenil de propriedade. Mas o que, agora, provoca a ruína do camponês francês é precisamente a própria pequena propriedade, a divisão da terra, a forma de propriedade que Napoleão consolidou na França; justamente as condições materiais que transformaram o camponês feudal em camponês proprietário, e Napoleão em seu imperador. Contudo, duas gerações bastaram para produzir o resultado inevitável: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento progressivo do agricultor. A forma “napoleônica” de propriedade, que no princípio do século dezenove constituía a condição para a libertação e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se no decorrer desse século na lei do seu escravizamento e pauperização. Neste sentido, entende Marx (1973; 1978), que a pequena propriedade, nesse escravizamento ao capital a que seu desenvolvimento inevitavelmente conduz, transformou a massa da nação francesa em trogloditas. Dezesseis milhões de camponeses vivem em antros, a maioria dos quais só dispõe de uma abertura, outros apenas duas e os mais favorecidos apenas três. As janelas são para uma casa o que os cinco sentidos são para a cabeça. A ordem burguesa, que no princípio do século pôs o Estado para montar guarda sobre a recém-criada pequena propriedade premiou-a com lauréis, tornou-se um vampiro que suga como sanguessuga, atirando-o no caldeirão alquimista do capital. Esses animais hermafroditas com 32 cérebros, nove pares de testículos e uma mandíbula com três filas de cem dentes cada uma, sempre foram e são essenciais para a prática da medicina.

A situação dos camponeses franceses nos fornece a resposta ao enigma das eleições de 20 e 21 de dezembro de 1851, que levaram o segundo Luís Bonaparte ao topo do Monte Sinai,   não para receber leis, mas para ditá-las. Como autoridade executiva que se tornou um poder independente, Bonaparte considera sua missão salvaguardar “a ordem burguesa”. Mas a força dessa ordem burguesa está na classe média. Ele se firma, portanto, como representante da classe média, e promulga decretos nesse sentido. Não obstante, ele só é alguém devido ao fato de ter quebrado o poder político dessa classe média e de quebrá-lo novamente todos os dias. Consequentemente, afirma-se como o adversário do poder político e literário da classe média. Mas ao proteger seu poder material, gera novamente o seu poder político. A causa deve, portanto, ser mantida viva; o efeito, porém, onde se manifesta, tem que ser liquidado. Mas isso não pode se dar sem ligeiras confusões de causa e efeito, pois em sua mútua influência ambos perdem seus caracteres distintivos. Bonaparte gostaria de aparecer “como o benfeitor patriarcal de todas as classes”. Mas não pode dar a uma classe sem tirar da outra. Assim, impelido pelas exigências contraditórias de sua situação e estando ao mesmo tempo, como um prestidigitador, ante a necessidade de manter os olhares do público fixados sobre ele, como substituto de Napoleão, por meio de surpresas constantes, isto é, ante a necessidade de executar diariamente um golpe de Estado em miniatura, Bonaparte lança a confusão em toda a economia burguesa, viola tudo que parecia inviolável à revolução de 1848, torna alguns intolerantes em face da revolução, outros aspectos desejosos de revolução, e produz uma verdadeira anarquia em nome da ordem, ao mesmo tempo que despoja de seu halo toda a máquina de estado, profana-a e torna-a ao mesmo tempo desprezível e ridícula, pois, prossegue Marx, “o culto do Manto Sagrado de Treves ele o repete em Paris sob a forma do culto do manto imperial de Napoleão”.

Mas quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Luís Bonaparte, “a estrutura de bronze de Napoleão ruirá do topo da Coluna Vendôme” (cf. Marx, 1978: 126). Desde então do ponto de vista da análise das classes sociais a referência à Marx tem ocupado lugar central para aqueles que pretendem entender a sua progênie, ou, sua certidão de nascimento. Os interesses dos camponeses, portanto, já não estão mais, como ao tempo de Napoleão, em consonância, mais sim em oposição com os interesses da burguesia, do capital. Por isso os camponeses encontram seu aliado e dirigente natural no proletariado urbano, cuja tarefa é derrubar o regime burguês. Mas o governo forte e absoluto – e esta é a segunda idée napoléonienne que o segundo Napoleão tem que executar – é chamado a defender pela força essa ordem material. Melhor dizendo, essa ordre matériel serve também de mote em todas as proclamações de Bonaparte contra os camponeses rebeldes. Finalmente, produz um excesso de desempregados para os quais não há lugar nem no campo nem nas cidades, e que tentam, portanto obter impostos governamentais como uma espécie de esmola respeitável, provocando a criação de postos no governo. Com os novos mercados que abriu a ponta da baioneta, com a pilhagem do continente, Napoleão devolveu com juros os impostos compulsórios. Esses impostos serviam de incentivo à laboriosidade dos camponeses, ao passo que agora despojam seu trabalho de seus últimos recursos e completam sua incapacidade de resistir ao pauperismo.

A primeira tentativa infrutífera de golpe de Estado por Luís Bonaparte teve lugar em Estrasburgo, em 1836. Sua segunda tentativa, igualmente infrutífera, ocorreu em Boulogne, onde desembarcou em 1840 para se proclamar imperador (cf. Marx, 1978). A lei de 31 de maio de 1850 representou o golpe de Estado da burguesia. As vitórias até então conquistadas sobre a revolução tinham tido apenas um caráter provisório. Viam-se ameaçadas assim que cada Assembleia Nacional saía de cena. Dependiam dos riscos de uma nova eleição geral, e a história das eleições a partir de 1848 demonstrava irrefutavelmente que a influência moral da burguesia sobre as massas populares ia-se perdendo na mesma medida em que se desenvolvia seu poder efetivo. A 10 de março o sufrágio universal declarou-se contrário à dominação burguesa; a burguesia respondeu pondo fora a lei do sufrágio universal. A lei de 31 de maio era, portanto, uma das necessidades da luta de classes. Por outro lado, a Constituição estabelecia um mínimo de dois milhões de votos para tornar válida a eleição do presidente da República. Se nenhum dos candidatos à presidência recebesse o mínimo de sufrágios, a Assembleia Nacional deveria escolher o presidente entre os três candidatos. Na época em que a Assembleia Constituinte elaborara essa lei as listas eleitorais registravam dez milhões de eleitores. Em sua opinião, portanto, um quinto do eleitorado era suficiente para tornar válida a eleição presidencial.

A lei de 31 de maio cortou das listas eleitorais pelo menos três milhões de votantes, reduziu para sete milhões o número de eleitores e, não obstante, manteve o mínimo legal e dois milhões de votos para a eleição presidencial. Elevou, por conseguinte o mínimo legal e um quinto para quase um terço dos eleitores, ou seja, fez tudo para retirar a eleição do presidente das mãos do povo e entrega-la nas mãos da Assembleia Nacional. Assim, através da lei eleitoral de 31 de maio, o partido da ordem parecia ter tornado seu domínio duplamente garantido, entregando a eleição da Assembleia Nacional e do presidente da República ao setor mais estacionário da sociedade. E, não obstante, o poder estatal não “está suspenso no ar”. Bonaparte representa, ao nível ideológico uma classe determinada, e justamente a classe mais numerosa da sociedade francesa, os pequenos (Parzellen) camponeses que constituem uma imensa massa humana, cujos membros vivem em condições sociais semelhantes, mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Assim, “como os Bourbons representavam a grande propriedade territorial e os Orléans a dinastia do dinheiro, os Bonaparte são a dinastia dos camponeses, ou seja, a massa do povo francês. O eleito do campesinato não é Bonaparte que o dissolveu. Durante 3 anos as cidades haviam conseguido falsificar o significado da eleição de 10 de dezembro e roubar aos camponeses a restauração do Império. A eleição de 10 de dezembro de 1848 só se consumou com o golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851” (cf. Marx, 1978: 115).

Historicamente o lastro monetário simbolizava a integração do continente que, no século XX, enfrentou duas guerras mundiais e uma divisão ideológica que quase provocou uma terceira. Hoje, porém, o “euro” é sinônimo de incertezas, numa crise que ameaça a futuro da segunda maior economia do planeta. A Eurozona é composta por 17 dos 27 Estados-membros da União Europeia: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos e Portugal. Na ocasião em que o euro foi instituído, Dinamarca, Suécia e Reino Unido optaram por não aderir ao projeto e mantiveram suas moedas locais. O euro é usado diariamente por aproximadamente 332 milhões de cidadãos europeus. A moeda também é a 2ª maior reserva monetária internacional tanto quanto comercial, atrás somente do dólar norte-americano. Economicamente a categoria salário representa um dos principais meios da expropriação e desvalorização do trabalho e, portanto, de subsunção real das relações de produção capitalista.

            É sobre sua base material que se levanta um mundo encantado de aparências e ilusões. A publicação do ensaio de Marx, Salário, Preço e Lucro, refere-se à palestra que proferiu em duas sessões no mês de junho de 1865, perante o Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também reconhecida como “Primeira Internacional”, de fato a primeira organização operária a superar fronteiras nacionais, reunindo membros de países da Europa e dos Estados Unidos da América. Nessa ocasião, o pensamento filosófico de Marx sobre economia política já estava absolutamente amadurecido. Há 20 anos ele se dedicava ao assunto tendo escrito várias obras parciais em que, à base da crítica da economia política, foi decantando seus pontos de vista sobre as formas econômicas fundamentais do capitalismo, cujo corpo definitivo convergiu para sua obra O Capital (1973) da qual o primeiro livro viria a lume  em 1867. A palestra de Marx surgiu como fio condutor da I Internacional de Trabalhadores, fundada menos de um ano e da qual se diferenciavam pelo menos quatro correntes.  

Uma delas, a maior numericamente, era representada pelos operários ingleses ligados às Trade Unions que subestimavam a importância da ação política da classe operária e entre os quais havia mesmo quem defendesse a opinião, ontem como hoje, de que a elevação dos salários teria como consequência o aumento do custo de vida e, portanto, não melhoraria a condição social dos trabalhadores. Marx pretendeu refutar esses pontos de vista e elevar o nível de consciência teórica dos dirigentes ingleses. Para tanto, estabeleceu-se quatro objetivos para sua palestra: 1) desvelar a opinião economicista de que “os preços das mercadorias são determinados ou regulados pelos salários”; 2) demonstrar que a variação geral dos salários “para cima” ou “para baixo” leva à variação da taxa geral de lucro em sentido inverso e, tendem a reduzir necessariamente os salários dos trabalhadores; 3) demonstrar que as tentativas periódicas dos trabalhadores para conseguirem um aumento de salários são ditadas pelo próprio fato de o trabalho se achar como equivalente às mercadorias, 4) que havia possibilidades de conquistas sociais na luta pela elevação dos salários, limitadas pela “ação do capital”, de os trabalhadores se organizarem, politicamente, contra o sistema de exploração, a fim de aboli-lo.

            Marx chamava a atenção para o fato da quantidade de trabalho necessário para produzir uma mercadoria variar constantemente ao variarem as forças produtivas do trabalho aplicado. Proporcionalmente quanto maiores são as forças produtivas do trabalho, mais produtos se elaboram num tempo de trabalho dado, e quanto menores são, menos se produzem na mesma unidade de tempo. Daí que quanto maior é a força produtiva do trabalho, menos trabalho se inverte numa dada quantidade de produtos e, portanto, menor é o valor destes produtos. Marx analiticamente restabeleceu o equivalente econômico do valor-trabalho: “estão na razão direta do tempo de trabalho invertido em sua produção e na razão inversa das forças produtivas do trabalho empregado”. O preço de uma mercadoria representa a expressão em dinheiro do valor dessa mercadoria. O valor-trabalho e o bem produzido por seu trabalho estabelece uma razão monetária segundo a qual à mercadoria que requer mais trabalho para ser produzida, deveria corresponder uma maior remuneração do trabalhador que praticamente sozinho a produz. Este valor no final do produto traria maior igualdade do preço nas relações de trabalho. 

            Assim como o poder ofensivo de um esquadrão de cavalaria ou o poder defensivo de um regimento de infantaria são essencialmente diferentes dos poderes ofensivos e defensivos de cada um dos cavaleiros ou soldados da infantaria tomados individualmente, também a soma total das forças mecânicas exercidas por trabalhadores isolados difere da força social gerada quando muitas mãos atuam simultaneamente na mesma operação indivisa, por exemplo, quando se trata de erguer um fardo pesado, girar uma manivela, ou remover um obstáculo. A tecnicidade, o pensamento, a locomoção e a mão aparecem interligadas num movimento ao qual o homem dá seu significado histórico, mas ao qual nenhum membro do mundo animal é completamente estranho. Sem libertação da mão não há gesto técnico (instrumento) prolongamento da mão - nem instrumento - órgão da máquina - nem objeto fabricado. Nesses casos o efeito social do trabalho combinado, ou não poderia em absoluto ser produzido pelo trabalho isolado, ou o poderia apenas em um período de tempo muito mais longo, ou em escala muito reduzida. Não se trata somente do aumento da capacidade de desempenho da força produtiva individual realizada por meio da técnica adquirida na cooperação, mas da criação da força produtiva que tem de ser por si mesma, uma força de massas de trabalhadores concretos.   

Os palitos de fósforos feitos em papelão apareceram anos mais tarde e o responsável por esta invenção foi Joshua Pusey, um conhecido advogado norte-americano da Pensilvânia que amava fumar charutos. Um dia, Joshua foi convidado para jantar pelo prefeito da Filadélfia e ao se vestir, reparou que a caixa de fósforos que levava no bolso de seu colete era grande demais. Joshua Pusey levou adiante uma ideia e em 1889 patenteou fósforos de papelão, mas oito anos se passaram antes que alguém mostrasse interesse por seu invento. Fato que ocorreu em 1897, quando a Companhia de Ópera Mendelsohn o procurou. Frederick II encomendou um edifício, então todos os trabalhos começaram em julho de 1741, o que foi a primeira parte do Fórum Fredericianum. Embora não estivesse totalmente concluída, o Court Opera foi inaugurado por Cleopatra e Cesare, de Carl Heinrich Graun, no dia 7 de Dezembro de 1742. Esse evento marcou o início dos 250 anos de sucesso da cooperação entre a Ópera Estatal de Berlim com a Orquestra Estatal de Berlim. Em 1842, Gottfried Wilhelm Tauber instituiu a tradição de concertos regulares sinfônicos. No mesmo ano, Giacomo Meyerbeer conseguiu que Gaspare Spontini se tornasse diretor musical geral. Felix Mendelssohn também realizou concerto nesse ano. Eles queriam algo de diferente para divulgar a abertura da estação nova-iorquina. Pusey então utilizou “fósforos de papel” com o nome da companhia impresso.

Os fósforos de papelão começaram a vender com incrível rapidez. Anos mais tarde, Joshua Pusey vendeu sua patente para a Diamond Match Company. Ipso facto, a Diamond Match Company tem suas raízes em várias empresas do século XIX. No início da década de 1850, Edward Tatnall, de Wilmington, Delaware, recebeu uma receita em inglês para fazer jogos por um conhecido de negócios, William R. Smith. O simples contato social que provoca, afirma Marx (1973), na maior parte dos trabalhos produtivos, emulação e excitação particular dos espíritos vitais que elevam o rendimento dos trabalhadores individuais, fazendo com que uma dúzia de indivíduos forneça, numa jornada de trabalho simultânea de 144 horas, um produto total maior do que doze trabalhadores isolados, ou cada um deles trabalhando 12 horas. Embora muitos indivíduos possam executar simultânea e conjuntamente a mesma tarefa, ou o mesmo tipo de trabalho de cada um, como parte do trabalho total, podem representar diferentes fases do próprio processo de trabalho, fases que o objeto de trabalho percorre com maior rapidez graças à manufatura e cooperação. O objeto de trabalho percorre o mesmo espaço em menos tempo. Por um lado, sociologicamente a cooperação possibilita estender o lugar praticado no âmbito espacial do trabalho, razão pela qual é exigida em certos processos de trabalho devido á própria configuração espacial do objeto de trabalho, como na drenagem da terra, no represamento, na irrigação, na construção de canais, estradas, ferrovias etc.

A circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital. De meados de junho a meados de setembro é verão na Europa, sendo julho e agosto mais movimentados porque é exatamente quando quase todo mundo está de férias. O comércio que nada mais é do que a representação da produção de mercadorias e circulação desenvolvida de mercadorias formam os pressupostos históricos e metodológicos a partir dos quais o capital emerge. O comércio e o mercado mundiais inauguram, no século XVI, a história social moderna do capital. Se abstrairmos a categoria social do comércio material da circulação de mercadorias, isto é, da troca dos diversos valores de uso, e considerarmos apenas as formas econômicas que esse processo engendra, encontraremos, como seu produto final, dinheiro. Ao deixar a esfera da circulação interna, o dinheiro se despe de suas formas locais de padrão de medida dos preços, de moeda, de moeda simbólica e de símbolo de valor, e retorna à sua forma original de barra de metal precioso. No comércio mundial, as mercadorias desdobram seu valor merceológico. O produto necessário da circulação das mercadorias é a forma de manifestação do capital.

João Havelange já havia se formado em Direito e atuava comercialmente como advogado e acionista, além de ocupar o cargo de Diretor Executivo da tradicional Viação Cometa, pioneira empresa de transporte rodoviário de passageiros que opera na rota dos estados cafeeiros de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. Também em 1952, brilhou como jogador de polo aquático nas Olimpíadas de Helsinque. Em 1956, comandou a delegação brasileira nas Olimpíadas de Melbourne. De 11 de janeiro de 1958 a 10 de janeiro de 1975 presidiu a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) - que congregava neste período 24 esportes e não somente o futebol, como sucessor de Sylvio Correa Pacheco.  Durante este período, o futebol brasileiro obteve reconhecimento mundial no ápice de sua história social e política como organização, tendo em vista que se consagrou tricampeão mundial de futebol com a conquista das Copas do Mundo na Suécia (1958), no Chile (1962), e no México (1970). Filho de um belga comerciante de armas, afirmou em entrevista no programa da SporTV, Histórias com Galvão Bueno, que após a morte de seu pai, recebeu convite de uma empresa belga para dar continuidade aos negócios do comércio de armas, mas não aceitou tal convite por ter verdadeira aversão a armas, por se tratar de instrumento de morte e violência. Em 1º de setembro de 1960 foi eleito comendador da Ordem da Instrução Pública e, a 28 de fevereiro de 1961, comendador da Ordem do Infante D. Henrique e no Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1963. Com mais de 40 anos de mandato ininterrupto, foi decano desse órgão.

Foi um dos dois únicos brasileiros membros do COI, juntamente com o ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman. Em 13 de novembro de 1963, Havelange foi elevado a grande-oficial da Ordem da Instrução Pública. Em 1974, os jogadores brasileiros, respaldados pela vitória em 1970 e insatisfeitos com as “críticas nevrálgicas” ou o papel de “cão de guarda” (watchdoge role) da imprensa, assinaram um Manifesto em que prometiam não falar mais com os jornalistas, episódio que ficou conhecido como o Manifesto de Glascow. O boicote durou pouco tempo, inferindo certo estranhamento na relação cordial entre os jogadores e membros da Seleção e os jornalistas na Copa do Mundo de 1974. A cada crise na Seleção, a ameaça da greve de entrevistas ressurge. Em 1985, o Brasil perdeu pela primeira vez para a Colômbia, em um amistoso em Bogotá. Os jogadores decidiram parar de dar entrevistas, com o apoio do treinador Evaristo de Macedo que foi afastado três dias depois. Em italiano existe uma expressão para definir essas situações chamada o “silenzio stampa”. Ela surgiu em 1982, quando, após três empates consecutivos nos três primeiros jogos da Copa, o técnico Enzo Bearzot decretou disciplinarmente que até o fim da Copa ninguém mais concederia entrevistas: apenas um jogador falava, o goleiro Dino Zoff, capitão da equipe. Daí por diante na competição mediante o silêncio a Itália só venceu, eliminando Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha Ocidental e conquistando pela terceira vez a Copa do Mundo. Caso parecido ocorreu com a França em 1998, mas não com toda a imprensa, nem toda a seleção.

            O Atleta do século, Edson Arantes do Nascimento, nasceu na pequena cidade de Três Corações no dia 23 de outubro de 1940, para coloca-la aí como astro no mapa do mundo. Filho de Dondinho, ex-jogador de futebol e de Dona Celeste, Pelé teve a infância difícil como os milhões de brasileiros pobres de seu tempo, especialmente quando seu pai, logo após ser contratado pelo Clube Atlético Mineiro, em seu primeiro jogo teve uma grave lesão de joelho que o retirou para sempre do futebol, mas sua arte, anos depois se refletiria também no filho. Nessa época Pelé e os irmãos usavam roupas de segunda mão e as vezes roupas costuradas de sacos de estopa de carregar farinha. Não tinham dinheiro para sapatos. Havia dias em que sua família tinha uma única refeição, que Dona Celeste fazia, pão com uma fatia de banana, complementada com arroz e feijão que um tio trazia. Sempre havia a preocupação sobre de onde viria a próxima refeição. No entanto, Pelé sempre enfatizou, “não passamos fome”. A dura vida da família melhorou um pouco, quando seu pai conseguiu emprego em Bauru, em um armazém do dono do clube de futebol da cidade, o Bauru Atlético Clube e para o interior de São Paulo se mudou com toda a família. Atleta e ídolo que elevou a auto estima de milhões de pessoas pobres como ele em sua infância e adolescência, em todo o mundo globalizado, especialmente nos países oprimidos pelo imperialismo em todo o mundo. Além do Santos futebol Clube, Pelé também vestiu as camisas da Seleção Brasileira, do New York Cosmos, Vasco da Gama e do Clube de Regatas Flamengo e da seleção da Nigéria, quando promovia uma excursão do Fluminense no país africano, em 1978. Este fato social e contratual é reconhecido por vários povos africanos, que tem em Pelé seu próprio reconhecimento.  

A devoção mundial começou na Copa do Mundo de 1958, onde após surgir no Santos Futebol Clube, dois anos antes e no campeonato Paulista de 1958 iria marcar 58 gols em 38 partidas. A Copa realizada na Suécia iria ver pela primeira vez um país tropical vencer na Europa, algo inimaginável e quase abominável para a sociedade europeia. Ali, começaria o reinado do maior jogador de futebol de todos os tempos, Pelé. Negritude que Pelé, em filme realizado em homenagem, Pelé Eterno veio enfatizar, o orgulho de ser negro, de ter nascido em uma família de negros. Em 1970, o Brasil tornou-se o primeiro tricampeão do mundo e ficou em definitivo com a Taça Jules Rimet, batizada em homenagem ao dirigente que presidiu a FIFA entre 1921 a 1954. O troféu oficial, erguido por Bellini (1958), Mauro (1962) e Carlos Alberto Torres (1970), acabou vivendo peripécias dignas do filme O Roubo da Taça (2016): desaparecimento nos anos 1930, um resgate por um cão treinado em 1966 e roubo da sede da CBF no início dos anos 1980. Esculpida em desenho da deusa grega Nice, representando o triunfo e a glória, a Jules Rimet não recebeu este nome inicialmente. A princípio, foi chamada de Vitória, só sendo renomeada em 1946. O galardão foi criado para o Mundial do Uruguai, conquistado pelos anfitriões, em 1930. Após a Itália ser bicampeã (1934 e 1938), ficou no país mediterrâneo provisoriamente até a edição seguinte, como determinava a regra. Com a eclosão da 2ª guerra mundial (1938-1945), não houve disputas em 1942 e 1946. Em 1938, Ottorino Barassi, italiano e vice-presidente da FIFA, retirou às escondidas o objeto de um banco e o acondicionou em caixa de sapatos sob sua cama. Assim, impediu o risco de ser subtraída pelos nazistas, que vinham se apropriando de relíquias e obras de arte nos países que invadiam.


Em 1966, às vésperas da Copa na Inglaterra, a Jules Rimet desapareceu repentinamente e foi encontrada embrulhada em papéis de jornal pouco antes do início do Mundial por um cão chamado Pickles, quando este passeava com seu dono em um subúrbio de Londres. O animal ficou famoso e a taça pôde ser entregue aos britânicos, que venceram a Alemanha na decisão. Em 1970, a superseleção brasileira comandada por Zagallo, que tinha, entre outros, Rivellino, Jairzinho, Tostão, Pelé e Gerson, levou o Brasil ao tricampeonato e ficou com a posse definitiva do troféu. Em 1983, ele foi roubado da sede da Confederação Brasileira de Futebol e nunca mais encontrado. Por ingenuidade da segurança, a réplica estava em um cofre, enquanto o original, exposto em uma redoma de vidro para exposição na sala de troféus da confederação. A proteção foi quebrada em um assalto promovido por três pessoas - uma delas, Sérgio Peralta, trabalhava na entidade como representante do Atlético-MG. Prevaleceu a versão ideológica de que a honraria foi derretida, mas há dúvidas a respeito. Em 2016, Guy Oliver, curador do museu da Fifa, disse em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo que a entidade não acreditava na tese vulgarizada do derretimento e que haveria buscas para resgatá-la em torno de mais de três.

Virulentamente criticado antes e durante a Copa pelo maior jornal esportivo francês, o L’Equipe, o treinador Aimé Jacquet não se mostrou nem um pouco magnânimo depois de conquistar o título na decisão contra o Brasil. Momentos depois da partida, pronunciou uma frase que se tornou imortal na França: “Je ne pardonnerai jamais”. A cúpula do jornal acabaria caindo naquela conjuntura. Naquele mesmo dia, naquele mesmo estádio, o ex-jogador e treinador da equipe derrotada, o brasileiro Roberto Lobo Zagallo, explicava aos perplexos jornalistas o problema ocorrido com o craque Ronaldo. O repórter Mauro Leão, do popular jornal carioca O Dia, perguntou, então: “Por que você o escalou?”. Foi o bastante para provocar em Zagallo uma reação de fúria digna do capitão Dunga. Não foi a primeira diatribe de Zagallo – um ano antes, ao conquistar na Bolívia a Copa América, depois de muitas críticas, o técnico virou-se para uma câmera e disse outra frase célebre – “Vocês vão ter que me engolir!” – que marcou os jornalistas para sempre. Em seu ersatz os técnicos brasileiros têm verdadeiro horror da imprensa e daqueles que os tornam primus inter pares: os torcedores. Existe também uma simetria simbólica entre Copa do Mundo e eleições gerais que se estende à própria dinâmica de disputa no futebol. Ambas funcionam como representação social da finitude de um processo, se já não é um truísmo, encerramento e início de um ciclo histórico cujos rumos serão definidos pelo resultado das duas competições, a saber: a disputa presidencial e dos demais cargos num pleito eleitoral replicam os embates emocionais de um jogo com estratégias, dramas e, por fim, o confronto direto nos debates. Impedidos de decretarem vitória, os protagonistas transferem para o público o sentimento da responsabilidade da decisão, o que, paradoxalmente, confere ao ritual no espaço antrópico com idêntico grau de imprevisibilidade normal de uma partida.

Eleito para a FIFA em 1974, João Havelange permaneceu à frente da entidade até 1998. Com uma equipe de trabalho competente, organizou seis Copas do Mundo de Futebol, visitou 186 países e trouxe a poderosa China comunista, desligada por mais de 25 anos por razões políticas, de volta à FIFA. Criou também os Campeonatos Mundiais de Futebol nas categorias infanto-juvenil, juvenil, juniores e feminina. Neste período, torna-se amigo de Horst Dassler, herdeiro da pioneira marca esportiva Adidas, e dono da International Swimming League (ISL), considerada no mercado esportivo a maior empresa de marketing esportivo do mundo, que comercializava os direitos de transmissão televisiva e publicidade das Copas do Mundo de futebol e das Olimpíadas. Não por acaso, a 21 de junho de 1991 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Quando deixou a Presidência da FIFA, em 1998, já eleito Presidente de Honra, passou a se dedicar como humanista ao trabalho filantrópico junto às Aldeias Internacionais SOS, as quais se estabeleceram na maior parte do mundo globalizado por meio de suas associações nacionais patrocinado pela entidade em 131 países. Em abril de 2013, aos 96 anos de idade, renunciou à Presidência de honra da FIFA para escapar de qualquer punição por seu envolvimento em casos de corrupção naquela federação. No livro Foul! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-Rigging and Ticket Scandals (2006), o jornalista político Andrew Jennings “descreve Havelange como um dirigente corrupto”. Segundo Jennings, o filho do fundador e ex-diretor da Adidas, Horst Dassler, comprou votos de delegados indecisos na primeira eleição de Havelange. Dois anos depois, o brasileiro retribuiu o favor entregando a Dassler “o poder exclusivo sobre a comercialização dos principais torneios mundiais”.  

A revista Veja trouxe na edição de 14 de maio do presente ano que 452 milhões de reais foi o faturamento da Confederação Brasileira de Futebol em 2013. Descreve que é o maior faturamento da história econômica da organização que é totalmente privada. Segundo a revista, o presidente Jose Maria Marin, presidente da empresa, aumentou sua arrecadação em 277% desde o curso do ano de 2007. Detalhe importante, 278 milhões de reais da empresa vieram de patrocínios de grandes empresas, talvez a maior fonte de renda da organização. É justamente por isso que se é o João, o Pedro ou o Antônio que estão jogando pouco faz a diferença. Dito de outro modo: no caso do futebol, como quase tudo no mundo, está nas mãos de organizações poderosas, muitas multinacionais, como o Barcelona, por exemplo. É óbvio, tal como reza a “cartilha do mercado”, que os proprietários de clubes de futebol e quem vive dele não desejam dividir o lucro socialmente. A Copa do Mundo é somente a cristalização de tudo isso. A Ambev teve lucro líquido ajustado de R$ 2,35 bilhões no segundo trimestre, alta de 9,7% ante mesmo período de 2017, puxado por aumento de dois dígitos na receita líquida, com maiores vendas de cerveja durante a Copa do Mundo. Sem ajuste, o lucro foi R$ 2,424 bilhões, alta de 14,1%, disse a gigante de bebidas. As mercadorias correm de lá para cá e muitas delas sonham com dias melhores, com patrocínios milionários, times reconhecidos e, tudo dando certo, carreira em uma boa organização que seja da Europa porque jogar na América Latina ou na África é permanecer quase na periferia do espetáculo do futebol. Na periferia é muito mais difícil virar celebridade, mas é fácil cair no ostracismo ou virar político de segunda divisão.

O termo Watergate foi criado para abranger uma série de atividades clandestinas e muitas vezes ilegais realizadas por membros do governo de Richard Nixon. Essas atividades incluíam “truques sujos”, como escutas clandestinas a escritórios de opositores políticos e assédio a grupos ativistas e figuras políticas. As atividades foram trazidas à luz depois que cinco homens foram apanhados invadindo a sede do Partido Democrata no complexo Watergate, em Washington, D.C., em 17 de junho de 1972. O The Washington Post investigou a história; os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward confirmaram em um informante conhecido como “Garganta Profunda”, mais tarde revelado como sendo Mark Felt, diretor associado do FBI, para ligar os homens ao governo Nixon. O Presidente minimizou o escândalo como sendo mera política, chamando os artigos de notícias de tendenciosos e enganosos. Uma série de revelações deixou claro que o Comitê para Reeleger o Presidente Nixon, e mais tarde a Casa Branca, estavam envolvidos em tentativas de sabotar os democratas. Assessores seniores como o advogado John Dean, da Casa Branca, enfrentaram acusações; no total, 48 funcionários foram condenados por irregularidades. Em julho de 1973, o assessor Alexander Butterfield testemunhou sob juramento ao Congresso norte-americano, afirmando que Nixon tinha “um sistema de registro secreto com suas conversas e telefonemas no Salão Oval”. Estas fitas foram citadas por Archibald Cox, Procurador Especial de Watergate; Nixon forneceu transcrições das conversas, mas não as fitas reais, citando ter privilégio executivo. Com a Casa Branca e Cox em conflito, Nixon demitiu Cox em outubro, no que ficou reconhecido como “Massacre de Sábado à Noite”; Archibald Cox foi substituído por Leon Jaworski.

Em novembro, os advogados de Richard Nixon revelaram que uma fita de áudio das conversas realizadas na Casa Branca em junho de 1972 apresentava uma lacuna de 18 minutos e meio. Rose Mary Woods, secretária pessoal do Presidente, reivindicou a responsabilidade, alegando que acidentalmente limpou a seção ao transcrever a fita, mas sua narrativa foi amplamente zombada. A lacuna, embora não seja uma prova conclusiva de irregularidades do presidente, lançou dúvidas sobre a declaração de Nixon de que não tinha conhecimento do encobrimento que de fato correu etc. A corrupção na FIFA já existia historicamente desde o início do século XX, como observara Machado (2020), mas passou a ser mais investigada e denunciada com a chegada ao poder do brasileiro João Havelange, que foi denunciado de receber propinas por contratos milionários com empresas de marketing e de TV nos seus 24 anos à frente da entidade máxima do futebol mundial; bem como com o suíço Joseph Blatter, apadrinhado de João Havelange e que sofreu uma verdadeira chuva de dinheiro falso em uma coletiva no dia 20 de julho de 2015, numa surge na imagem espetacular que ficou famosa no processo de comunicação global, proporcionada por um protesto do comediante inglês Simon Brodkin. A investigação começou no dia 9 de maio de 2013, quando o empresário José Hawilla, falecido aos 74 anos em 2018 vítima de problemas respiratórios, foi abordado pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) no hotel Mandarin, em Miami, Estados Unidos da América (EUA) onde estava hospedado. J. Hawilla, proprietário da empresa de marketing esportivo Traffic e fundador da TV TEM, afiliada da Rede Globo de televisão no interior do estado de São Paulo. Ele teria participado diretamente de negociatas com a FIFA e, com a vantagem de não ser preso, foi multado e ajudou a delatar o esquema de corrupção. Depoimentos revelam que dirigentes da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), CBF e da rede Globo teriam participado do escândalo de corrupção denominado “FIFAgate”, o maior escândalo de corrupção da história do futebol e um dos maiores escândalos de corrupção em geral do mundo.

O diretor executivo da empresa argentina de marketing Torneos y Competencias, Alejandro Burzaco, denunciou que a rede Globo de Televisão teria tido participação no “FIFAgate”. O escândalo foi tão grande que resultou no suicídio do advogado argentino Jorge Delhon, que se jogou em frente a um trem depois do mesmo Burzaco declarar que lhe pagou subornos milionários. Além da Globo, estariam envolvidos no esquema de corrupção as empresas Fox Sports, dos Estados Unidos; e Televisa, do México. O esquema funcionava da seguinte forma: As empresas de marketing esportivo negociavam diretamente com os dirigentes esportivos da FIFA, Conmebol e CBF os direitos de transmissão televisiva de campeonatos organizados por estas instituições. O valor dos direitos televisivos adquiridos pelas empresas de marketing era menor do que o negociado diretamente com os representantes das empresas de televisão, que pagavam mais pelo direito de transmitir os campeonatos, incluindo na diferença o suborno, que era repassado para os dirigentes esportivos, dando o direito, sem licitação, sem concorrência livre e com exclusividade, das empresas televisivas de transmitir os campeonatos de futebol, como a Copa do Brasil, Copa América e Copa do Mundo.

O FIFAgate também atingiu o então presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que foi banido da FIFA e impedido de viajar para fora do Brasil, apesar de não ter sido preso, o que aconteceu com o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, que ficou quase cinco anos preso nos Estados Unidos da América, condenado por crimes de corrupção, segundo Machado (2020), tendo sido libertado em abril de 2020 por conta da idade avançada (87 anos) e pelo risco de contágio pela Covid-19, doença que se tornou uma pandemia. Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange e presidente da CBF de 1989 até 2012, a qual foi dedicado um capítulo no livro The Country of Football (2014), de Roger Kittleson, também foi denunciado por inúmeros casos de corrupção, inclusive teve sua prisão pedida nos Estados Unidos e extradição na Espanha por conta de propinas recebidas do contrato com a fornecedora de material esportivo da seleção brasileira, Nike, presidida por Sandro Rosell, que viria a ser presidente do Barcelona e que foi preso justamente por lavagem de dinheiro e organização criminosa. Estaria envolvida o grupo de mídia mais poderoso do Brasil, a Rede Globo de Televisão, que “teria pago propinas pelo direito de transmissão de jogos de campeonatos de futebol sem licitação, sem concorrência livre e com exclusividade”. No dia 28 de maio de 2019 foram presas na Espanha pessoas de formação diversa que estariam envolvidas em manipulação de resultados de jogos de futebol no país, inclusive na primeira divisão nacional.

O escândalo de corrupção da Espanha teria envolvido jogadores dos clubes de futebol Valladolid, Huesca, Deportivo de La Coruña e Getafe. As estatísticas representam os resultados da observação (cf. Chapoulie, 1973). Nelas os fatos são reconstituídos. No entanto a observação empírica é um processo de indefinição apriorístico do objeto. O estatístico seleciona da realidade certo recorte ideológico (amostragem) segundo seus próprios interesses. As estatísticas apresentam uma medida dos diferentes aspectos da realidade, incluindo sua prévia seleção. O grande problema encontrado pela aplicação da análise estatística é que embora ela possa ser utilizada na produção de conhecimento nos mais variados ramos da ciência e da política, seu grau de previsão varia na mesma medida em que se deixam de lado variáveis aparentemente consideradas desprezíveis ou insignificante, mas que no conjunto da análise acabam por afetar o resultado dos dados e inferências obtidas. Hoje, devido ao uso técnico e político generalizado da utilização de dados estatísticos pela economia e pelo conjunto das ciências sociais e aplicadas, uma desconfiança surge na medida em que a certeza de que a apreensão de dados técnicos e estatísticos seja capaz de apreender e reinterpretar corretamente a realidade. Além da manipulação de resultados, a investigação descobriu que as estatísticas, como números de escanteios, faltas e cartões, também eram regularmente manipulados.

No processo político-ideológico de limpeza dos bastidores do futebol mundial, o Caso Fifa teve desdobramentos importantes em 2017. Em um esforço para demonstrar que é vítima de dirigentes mal-intencionados, e não uma organização criminosa, a entidade que comanda o esporte entregou em março à Justiça dos Estados Unidos da América e da Suíça o resultado de quase dois anos de investigações internas, em um documento de mais de 1.300 páginas. – “A Fifa se comprometeu a realizar uma investigação completa e abrangente dos fatos, para que pudéssemos responsabilizar os malfeitores do futebol e cooperar com as autoridades”, afirmou o então presidente da FIFA, Gianni Infantino. “Concluímos essa investigação e entregamos as provas às autoridades, que continuarão a perseguir aqueles que se enriqueceram e abusaram de suas posições de confiança no futebol. A Fifa vai agora voltar o seu foco para o jogo, para os torcedores e jogadores em todo o mundo”. Enquanto as investigações continuavam, uma das peças-chave do caso morreu: o dirigente norte-americano Chuck Blazer. Ex-membro do Comitê Executivo da FIFA, Blazer, 72 anos, foi o primeiro delator do escândalo de corrupção que veio à tona em maio de 2015. Ele havia confirmado o pagamento de propina para que as sedes das Copas de 1998 (França) e 2010 (África do Sul) tivessem vantagens na disputa contra as demais concorrentes. Mas foi historicamente no fim de 2017 que o FIFAgate como caso de polícia ficou reconhecido mundialmente, em referência comparativa a outro caso emblemático de corrupção nos EUA, o Watergate, período que revelou seus principais capítulos.

Em novembro, dois anos e meio após a eclosão do escândalo na Suíça, três dos 42 réus no processo começaram a ser julgados no Tribunal do Brooklyn, em Nova York: José Maria Marin (ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol), Manuel Burga (ex-presidente da Federação Peruana de Futebol) e Juan Ángel Napout (ex-presidente da Conmebol). Todos se declararam inocentes. O procurador-assistente dos Estados Unidos, Keith Edelman, declarou a membros do júri que “os cartolas foram parte de uma conspiração para aceitar propinas de empresas de marketing esportivo em troca de lucrativos direitos de marketing para torneios de futebol, incluindo a Copa América e a Copa Libertadores”. Marin foi detido em 27 de maio de 2015, em Zurique. Depois de cinco meses, foi extraditado aos Estados Unidos, onde cumpre prisão domiciliar em seu apartamento na 5ª Avenida, no arranha-céu Trump Tower, em uma das regiões mais valorizadas de Nova York. A defesa do brasileiro passou os últimos anos tentando enfraquecer a acusações contra ele. O dirigente pediu, por exemplo, à Justiça norte-americana a anulação da acusação de participação de “grupo conspiratório”, o equivalente à formação de quadrilha, o que pode agravar a sua pena, e teve o recurso indeferido.

Com o julgamento em pauta na Corte do Brooklyn, os advogados de Marin buscaram distanciar o dirigente da acusação de recebimento de propina em contratos relacionados à Copa do Brasil, Libertadores e Copa América e afirmaram à juíza Pamela Chen que quem tomava as decisões na CBF era Marco Polo Del Nero, então vice-presidente e atual comandante da entidade. – “Marin sempre estava com Del Nero. Mas era Del Nero quem tomava as decisões. Marin estava fora, estava à margem”, afirmou Charles Stillman. O advogado comparou a corrupção no futebol internacional a um jogo de futebol infantil do qual Marin não participou. “Ele era como o jovem do lado de fora do campo, colhendo margaridas e olhando ao redor enquanto outros estavam correndo a pleno vapor”. A defesa de Del Nero negou a participação do seu cliente em atos ilícitos e reafirmou que o presidente da CBF não é réu no processo. O processo na Justiça norte-americana revelou a participação da Rede Globo no escândalo de corrupção; a emissora carioca foi tema recorrente nos depoimentos prestados. Em documento obtido pelo R7, a Globo foi citada 14 vezes por Alejandro Burzaco, ex-diretor da empresa de marketing Torneos y Competencias e um dos principais delatores do escândalo de corrupção que corroeu as estruturas do futebol mundial. De acordo com Burzaco, “a Globo pagou 15 milhões de dólares em propinas para assegurar exclusividade na transmissão das Copas do Mundo de 2026 e 2030”. O dinheiro teria sido enviado por meio do ex-diretor Marcelo Campos Pinto para a T&T, braço na Holanda da empresa de Burzaco em associação com a brasileira Traffic, de J. Hawilla, e posteriormente repassado para uma conta na Suíça de Julio Grondona, ex-presidente da Associação de Futebol Argentino e ex-vice-presidente da Fifa responsável por cuidar dos direitos de transmissão para a América Latina. Grondona morreu em 2014.




No documento da Corte de Nova York que contém a transcrição do depoimento, Alejandro Burzaco também revela as propinas pagas aos réus do caso, entre eles José Maria Marin, que teria recebido 2,7 milhões de dólares. Além disso, o delator relatou um encontro ocorrido em 2013, durante reunião do Comitê Executivo da FIFA, com Marco Polo Del Nero, Marin e J. Hawilla. Na ocasião, os dirigentes brasileiros teriam reclamado do atraso do pagamento de propinas relacionadas à venda de direitos de transmissão. Principal patrocinadora da seleção brasileira e suspeita de pagar suborno em contratos com a Confederação Brasileira de Futebol, a Nike foi citada no depoimento de Luis Bedoya, ex-presidente da Federação Colombiana de Futebol. De acordo com o cartola, a empresa de material esportivo teria oferecido propinas para fechar contrato com a seleção colombiana em 2010. A proposta teria ocorrido durante reunião de Bedoya com um represente da companhia em Buenos Aires, na Argentina. Apesar da suposta tentativa de suborno, os Cafeteros fecharam com a Adidas, principal concorrente da Nike. Líder da indústria de material esportivo, a Nike já é investigada pela Justiça dos Estados Unidos pelo contrato com a seleção brasileira avaliado em 160 milhões de dólares. Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, é suspeito de ter dividido com o empresário J. Hawilla, da Traffic, empresa de marketing esportivo, uma propina de 30 milhões de dólares por terem fechado o acordo recordista em cifras em 1996. Um dos intermediários do negócio foi o então chefe da empresa Nike no Brasil, Sandro Rosell, que anos mais tarde se tornaria o presidente do Barcelona e amigo íntimo de Ricardo Teixeira. Quem também revelou como funcionava a negociata inescrupulosa no alto escalão do futebol mundial foi o executivo brasileiro J. Hawilla, proprietário da empresa de marketing esportivo Traffic e acionista da TV TEM, afiliada da Rede Globo no interior de São Paulo.

Em 2014, Hawilla passou a colaborar com as autoridades americanas, se declarou culpado por crimes de corrupção e obstrução de Justiça e concordou em pagar 151 milhões de dólares (R$ 494 milhões) ao governo dos Estados Unidos. Em seu depoimento, ele assumiu ter pago subornos a dirigentes esportivos desde 1991, quando firmou o segundo contrato de sua empresa com a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) pelos direitos de transmissão da Copa América de 1993 a 1997. O executivo disse não recordar exatamente os valores, mas estimou ser algo entre 400 mil dólares e 600 mil dólares. – “Foi um erro. Me arrependo muito. Abriu-se a possibilidade de pedirem mais dinheiro cada vez que um contrato se renovava”, resumiu o ex-diretor da Traffic no Tribunal do Brooklyn. Além disso, J. Hawilla confirmou depósitos a Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, por intermédio de doleiros. Ele começou pagando 1 milhão de dólares (R$ 3,2 milhões), depois aumentou para 1,2 mi, 1,5 mi, 2 mi, 2,5 mi e finalmente 3 milhões de dólares (R$ 9,7 milhões). Teria pago propina para garantir que a seleção brasileira enviasse seus melhores atletas à Copa América - o mesmo foi feito com Julio Grondona, ex-presidente da AFA, e a equipe da Argentina. – “Fundei uma empresa. Paguei milhões em subornos a dirigentes. Ganhei muito dinheiro. Fui preso, menti ao FBI [Polícia Federal dos EUA]. Resolvi colaborar. Gravei pessoas. Me arrependo muito”, finalizou J. Hawilla em seu depoimento. O dono da Traffic apresentou gravações telefônicas entre ele e o ex-presidente do Flamengo Kléber Leite, da Klefer Marketing Esportivo.

Os grampos indicam que os executivos brasileiros teriam discutido o pagamento de subornos para o atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Marco Polo Del Nero, e seus antecessores José Maria Marin e Ricardo Teixeira. Em um dos áudios, que seria de 2014, Hawilla teria tentado induzir Leite a assumir sua participação no esquema de corrupção, no que o interlocutor, suspeito, respondeu: - “Acho que por telefone é perigoso, sabe? Melhor falarmos sobre isso pessoalmente”, afirmou Kléber Leite. O Jornal da Record teve acesso aos áudios apresentados ao tribunal de Nova York pelo delator do caso Fifa. Os direitos de transmissão da Copa do Brasil de 2013 e 2014 foram adquiridos pela Traffic, porém, meses depois a empresa de J. Hawilla e a Klefer firmaram um acordo para compartilhar custos e lucros da competição entre 2013 e 2022. Com as propinas devidamente pagas, o delator brasileiro gravou secretamente José Maria Marin durante um jantar em Miami, em abril de 2014, e perguntou ao então presidente da CBF sobre o pagamento do suborno. “Nós resolvemos tudo”, teria respondido Marin. “Foi muito bom”, completou o ex-presidente da CBF. Por nota, a Rede Globo negou todas as acusações e afirmou que “não é parte nos processos que correm na Justiça norte-americana”; os advogados de José Maria Marin refutam a participação de seu cliente em qualquer evento ilícito; José Roberto Batochio, que defende Del Nero no caso, afirmou que no período compreendido pela investigação seu cliente não era presidente da CBF e, portanto, não assinou contratos sob suspeita; Ricardo Teixeira também diz serem inverídicas as acusações contra ele, mas não descarta comparecer à Corte caso seja intimado formalmente; Kléber Leite respondeu à reportagem por meio de um comunicado da Klefer, no qual a empresa acusa a denúncia de Hawilla de “mentirosa e irresponsável”; a Nike se pronunciou por meio da porta-voz da empresa, Ilana Finley, que repudiou “qualquer forma de manipulação ou propina” e afirmou que a empresa “está e seguirá cooperando com as autoridades”; J. Hawilla se declarou culpado e concordou em devolver R$ 494 milhões às autoridades norte-americanas.

Bibliografia Geral Consultada:

CHAPOULIE, Jean-Michel, “Sur l`Analyse Sociologique des Groupes Professionnels”. In: Revue Française de Sociologie, nº XIV, 1973; pp. 86-114; MARX, Carlos, El Capital. Crítica de la Economía Política. Libro Primero. Buenos Aires: Editorial Cartago, 1973; Idem, O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. 4ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1978; AMBROSE, Stephen Edward, Nixon: The Triumph of a Politician 1962-1972. Nova Iorque: Editor Simon & Schuster, 1989; KEYNES, John Maynard, Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Editora Atlas, 1992; LUHMANN, Niklas, Confianza. Barcelona: Editorial Anthropos, 2005; KARNAL, Leandro et alii, História dos Estados Unidos: das Origens ao Século XXI. São Paulo: Editor Contexto, 2007; JENNINGS, Andrew, Jogo Sujo: O Mundo Secreto da Fifa: Compra de Votos e Escândalo de Ingressos. São Paulo: Editora Panda Books, 2011; HILFERDING, Rudolf, Il Capitale Finanziario. Milano: Editore Mimesis, 2011; PENNA, Adriana Machado, Esporte Contemporâneo: Um Novo Templo do Capital Monopolista. Tese de Doutorado. Faculdade de Serviço Social. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2011; PEREIRA, José Mario e SILVIA, Marta Vieira, João Havelange - O Dirigente Esportivo do Século XX. São Paulo: Editora Comitê Olímpico Brasileiro Cultural; Editora Casa da Palavra, 2011; BRINATI, Francisco Ângelo, Maracanazo e Mineiratzen: Imprensa e Representação da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1950 e 2014. Tese de Doutorado. Faculdade de Comunicação Social. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2015; Artigo: “FIFA Gate: ¿Por qué se llama así al caso de corrupción de la federación de fútbol?”. In: https://rpp.pe/futbol/05/12/2015; CHADE, Jamil, Política, Propina e Futebol: Como o Padrão Fifa Ameaça o Esporte mais Popular do Planeta. Rio de Janeiro: Editora Taylor & Francis Group Objetiva, 2015; BAYLE, Emannuel; RAYNER, Hervé, “Sociology of a Scandal: The Emergence of FIFAgate”. In: Soccer & Society. San Diego: Editor Taylor & Francis Group, 2016; ROCHA, Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto, A Dança das Cadeiras: A Eleição de João Havelange à Presidência da FIFA (1950-1974). Tese de Doutorado. Departamento de História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; MACHADO, Wesley Barbosa, “O FIFAgate e Outros Recentes Escândalos de Corrupção no Futebol Brasileiro e Mundial e os Fenômenos da Midiatização e da Hipermercantilização do Futebol”. In: Ludopédio. São Paulo, vol. 137, nº 68, 2020; FREIRE, Vitor Daronco, A CBD e Suas Disputas de Poder (1966-1974). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Faculdade de Educação Física. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2021; entre outros.  

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Giorgio Rosa - Cinema, Erotismo & Invenção da Comuna Ilha das Rosas.

 

                                   Regra é, em primeiro lugar, gestão da vida quotidiana”. Max Weber   

            A comuna italiana é a unidade básica de organização territorial da Itália, equivalente ao município no Brasil e em Portugal, onde é também chamado concelho. Sua estrutura é constituída pelo sindaco, equivalente ao prefeito no Brasil e ao presidente da câmara municipal em Portugal; pelo conselho comunal (consiglio comunale) equivalente a Câmara de Vereadores no Brasil, que é composto pelo sindaco e por um número variável de conselheiros comunais eleitos; e pela junta comunal (giunta comunale), um grupo de assessores escolhidos pelo sindaco. A comuna é o ente local fundamental, autônomo e independente, segundo princípios consolidados na Idade Média, que se estendeu do século V ao século XV. Seu início foi marcado pela queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e o fim pela tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 e parcialmente retomados pela Revolução Francesa, disposto no Artigo 114 da Constituição da República Italiana. Cada comuna pertence a uma província, mas o governo provincial não é intermediário nas relações das comunas com as regiões ou com o Estado italiano. Por ter personalidade jurídica, a comuna pode ter relações diretas com a Região e com o Estado e, de fato, sendo as competências da região muito mais amplas do que as de uma província, a comuna mantém mais relações com a região.

A subdivisão em circunscrições territoriais é praticamente obrigatória para comunas maiores, sendo consideradas aquelas que superam os 100 mil habitantes, a fim de proporcionar uma participação social mais direta da população na administração. A cada circunscrição, são delegados poderes previstos em Estatuto. Comunas pequenas e médias, por sua vez, são divididas em frações (frazioni em italiano), equivalentes aos distritos no Brasil. A fração (frazione), todavia, não tem autonomia administrativa, sendo apenas uma divisão geográfico-estatística. Em 2001, havia, na Itália, 8 101 comunas. Posteriormente, foram criados Baranzate e Cavallino-Treporti. Destas 8 103, cem superam os 50 mil habitantes, sendo que 80 são capitais de província. Poucas comunas podem exibir o status de cidade. Esta condição é conferida por um decreto específico do presidente da República Italiana, a partir de sua iniciativa autônoma ou de uma proposta do Governo ou do comune interessado. Aquelas consideradas como cidades possuem um brasão com características heráldicas específicas. O longa-metragem, que é ambientado em Rimini, na Itália dos anos 1960, demonstra a démarche de Giorgio Rosa, um engenheiro e inventor que tem o talento para construir tudo o que desejaNa história política contemporânea a Comuna de Paris representou o primeiro governo operário de homens e mulheres, fundado em 1871 por ocasião da resistência popular ante a invasão por parte do Reino da Prússia. 

A história comparada registra algumas experiências incipientes de regimes comunais, impostos como afirmação revolucionária da autonomia da cidade. A mais importante delas tem como representação a Comuna de Paris que surge no bojo da insurreição popular de 18 de março de 1871. Durante a guerra franco-prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional Francesa uma maioria de deputados monarquistas francamente favoráveis à capitulação ante a Prússia. A população de Paris, no entanto, opunha-se a essa política. Louis Adolphe Thiers, elevado à chefia do gabinete conservador, tentou esmagar os insurretos. Estes, com o apoio da Guarda Nacional, derrotaram as forças legalistas, obrigando os membros do governo a abandonar Paris, onde o comitê central da Guarda Nacional passou a exercer comando e autoridade. O poder comunal manteve-se durante cerca 72 dias. Seu esmagamento revestiu-se de extrema crueldade letal do Estado francês. De acordo com dados estatísticos mais de 20 000 communards foram executados pelas forças públicas de Thiers. O governo durou oficialmente de 26 de março a 28 de maio, enfrentando não só o invasor alemão como também tropas francesas, pois a Comuna fora um movimento de revolta ante o armistício assinado pelo governo nacional transferido para Versalhes após a derrota na guerra franco-prussiana. Os alemães tiveram que libertar militares franceses vencidos prisioneiros de guerra para auxiliar na tomada de Paris.

Analogamente desde à Comuna de Paris quase sempre em meio a enfrentamentos sangrentos, é uma história política na qual figuram Louise Michel e Rosa Luxemburgo, Walter Benjamin, André Breton e Daniel Guérin, chegando até ao subcomandante Marcos e aos altermundistas. O governo revolucionário foi formado por uma federação de representantes de bairro. Uma das suas primeiras proclamações foi a “abolição do sistema da escravidão do salário de uma vez por todas”. A guarda nacional se misturou aos soldados franceses, que se amotinaram e massacraram seus comandantes. O governo oficial, que ainda existia, covarde, fugiu, junto com suas tropas leais, e Paris ficou sem autoridade. O Comitê Central da federação dos bairros ocupou este vácuo de poder, e se instalou na prefeitura. O comitê era formado por blanquistas, membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, proudhonistas e uma miscelânea de indivíduos não afiliados politicamente, a maioria trabalhadora braçal, escritores, simpatizantes e artistas. Eleições foram realizadas em todos os níveis da administração pública. A polícia foi abolida e substituída pela guarda nacional. A educação foi secularizada. A previdência social foi instituída e uma comissão de inquérito sobre o governo anterior. Decidiu-se por trabalhar pela abolição da escravidão do salário: 90 representantes foram eleitos, 25  trabalhadores e a maioria foi constituída de pequeno-burgueses, mas os trabalhadores revolucionários maioria. Vale lembrar que em semanas, a recém-nomeada Comuna de Paris introduziu mais reformas que os governos nos dois séculos anteriores combinados.

Como Louise Michel construiu sua imagem? Através do que os historiadores denominam erroneamente o espontaneismo pelo seu romantismo, ou seja, seu gosto pela desmedida, seu gosto pela erudição e pela aventura. Jules Michelet testemunha o que as mulheres, no “imaginário feminino”, representaram ao espírito da luta do século XIX. Louise Michel ganhou sua grandeza enquanto mulher por encarnar tão bem o século XIX. Seus companheiros e suas companheiras históricas nela se reconheciam, e ela não desmereceu suas amizades. Pagou um preço alto pela sua vida de mulher: um celibato ostentado como arma de liberação, que relegou Louise Michel durante um bom tempo às lembranças acadêmicas empoeiradas do passado. Nossa juventude turbulenta era pouco inclinada a entusiasmar-se por esse gênero de modelo. Aliás, ainda hoje apenas os anarquistas federados a celebram. Numerosos são os que preferem a marxista Rosa Luxemburgo, talvez em função de sua afirmação interpretada e compreendida do ponto de vista da política e da sexualidade. O que determina a escolha de um ponto de vista sobre o sujeito e o mundo são os objetivos pragmáticos. Deixamos de lado a posse de uma teoria fundada em exigências lógicas ou achados empíricos incontestáveis. Poder, interesse, dominação, realidade material, são indispensáveis à análise que nos habituaram a aceitar como verdadeira, pela força ou pela persuasão dos costumes. Para efeitos da ação, só existem eventos descritivos. A descrição preferida do intérprete será a mais adequada às suas convicções morais e não a mais iluminada pela Razão. Política é regulação da existência coletiva, poder decisório, disputa por posições de mando no mundo, confrontos entre formas. Violência em última análise         

Assim, é também diferente da produção simbólica porque se exercita sobre o interesse dos agentes sociais, quando não sobre o seu próprio corpo. Não produz mensagens, discursos cotidianos, produz obediências, obrigações, submissões, controles. Poder, na modernidade, é uma relação social de mando e obediência. São decisões tomadas politicamente que se impõe a todos num determinado território ou unidade social. Todavia, convertem-se em atividades coercitivas, administrativas, jurídico-judiciárias e deliberativas. Eis a grande questão: o processo político diz respeito a pergunta: "Quem pode o quê sobre quem"? A mesma pulsão escópica frequenta a ficção que cria leitores, que muda de legibilidade a complexidade urbana. Não é mais suficiente para compreender as estruturas de poder deslocar para os dispositivos e os procedimentos técnicos uma multiplicidade humana, capaz de transformar, disciplinar e depois gerir, classificar e hierarquizar todos os desvios concernentes à aprendizagem, saúde, justiça, forças armadas ou trabalho. Na política, lembra Certeau (2018), o que faz andar são relíquias de sentido e às vezes seus detritos, os restos invertidos de grandes ambições. Nome que no sentido preciso da memória deixaram de ser próprios. Nesses núcleos simbolizadores se esboçam e talvez se fundem três funcionamentos distintos (mas conjugados) das relações políticas entre práticas espaciais e significantes: o crível, o memorável e o primitivo.           

Historicamente em 1956, Jacques Cousteau lançou seu primeiro documentário em cores, chamado como seu livro anterior, The Silent World. Este filme mudou para sempre a ideia das pessoas sobre os oceanos e a magia da vida que contêm. O documentário fundamenta um método de trabalho e processo de comunicação tornando-se no primeiro documentário submarino produzido na França. Anteriormente, no ano de 1943, Cousteau produziu outro documentário, Épaves (Naufrágios), onde utilizou os dois primeiros protótipos do Scaphandre Autonomo CG45, ou simplesmente Aqualung, tecnicamente o primeiro protótipo do que se tornaria o equipamento de mergulho autônomo que reconhecemos pelo nome de SCUBA criado pelo engenheiro Émile Gagnan. Em 1947 o suboficial Maurice Farques pode ser considerado em acidente de trabalho  (cf. Kawamura, 1979), o primeiro mergulhador a morrer utilizando o Aqualung. Em 1948 Cousteau transforma o seu documentário no seu primeiro livro que levou o mesmo nome do documentário. Em 1948 Cousteau à bordo da corveta Élie Monnier com Philipper Tailliez, Frédéric Dumas, Jean Alinart e Michel Ichac empreendeu a primeira campanha e técnica de exploração submarina envolvendo testes físicos e científicos. Nesta campanha realizaram-se a primeira exploração arqueológica com mergulho autônomo quando descobriram o naufrágio do barco romano em Mahdía na Tunísia. O antigo barco naufragado foi encontrado próximo à praia de S`Arenal, na ilha de Maiorca, na Espanha. Em meio aos destroços, foram descobertas 93 ânforas de estilo greco-romano. A técnica de interpretação sobre a embarcação remonta ao período do Império Romano e tem aproximadamente em torno de 1,8 mil anos. Esta operação técnica é reconhecida socialmente como “o primeiro mergulho científico da história”. 

Em 1949 Cousteau deixa a Marinha e funda a Campanha Oceanográfica Francesa. Em 1950 o filantropo inglês Thomas Loel Evelyn Bulkeley Guinnes arrendou para Cousteau, pela quantia simbólica de 1 franco ano, o caça minas inglês HMS J-026 então convertido em um navio oceanográfico e rebatizado com o nome de Calypso. 2Historicamente os primeiros relatos de mergulho vêm na antiguidade, quando usavam a técnica para o resgate de armamentos e alimentos. No Japão e na Coréia, há mais de 4 mil anos a. C, já existiam mergulhadores especializados “em caçar pérolas no fundo do mar”. A tecnologia foi se desenvolvendo e a principal responsável pelo desenvolvimento das técnicas de mergulho foram as guerras, já que para resgatar armamentos e atacar o inimigo foram criados novos métodos de trabalho para mergulhar. No século XX houve um desenvolvimento espetacular na parte dos equipamentos. Tecidos pesados foram trocados por roupas de borracha. Não se pode deixar de mencionar o francês Jacques- Yves Cousteau, que no ano de 1943, em plena ocupação nazista alemã, mergulhou pela primeira vez na Costa Provençal, tendo até 20 metros com auxílio de um aparelho que ele mesmo inventou: o Aqualung, “um composto híbrido que se traduz por pulmão aquático”, que abriu caminho para novos e modernos equipamentos de mergulho. 

O mergulho nasceu da questão da vontade humana desde Aristóteles, Cícero, Santo Tomás de Aquino, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, a sociedade seria fruto de um impulso associativo natural do homem aliado à vontade e desejo de explorar tecnicamente o mundo submarino. Apesar de estar tão presente em nossa vida, o mar ainda é o maior, mais intrigante e desconhecido habitat terrestre. Milhares de descobertas realizadas através dos séculos por mergulhadores, além de ajudarem a narrar a história do homem, criaram um tipo de esporte que é muito praticado no mundo todo. Das técnicas milenares, utilizadas para a busca comercial de alimentos e armamentos, até as modernas tecnologias empregadas em mergulhos cada vez mais ousados e profundos, vidas ficaram pelo caminho. Mas, certamente o sonho desses mergulhadores não foi certamente em vão. A “modernidade vagueia” livre para quem quiser se arriscar no mergulho, sob certas condições normais de temperatura e pressão, dispõe das condições sociais e técnicas de explorar a vida marinha com grande margem de  erro e segurança. Para a atleta de mergulho livre com 4 recordes mundiais e 8 latino-americanos, Karol Mariechen Meyer, praticante de mergulho em apneia. É a recordista em número de recordes mundiais para o Brasil, em toda a história social do esporte, o mergulho é um esporte possível de atualização como qualquer outro. - “Para mergulhar não precisamos ser um Pelizari, uma Tanya Streeter, basta termos vontade de estarmos na água, alguns minutos a mais sem respirar para podermos descer nas profundezas, ficar mais tempo na piscina, ou então, percorrer uma grande distância submersa”.  Os primeiros relatos etnográficos da história do mergulho são do Japão e da Coréia cerca de 4 mil anos antes dos relatos bíblicos de Cristo.         

A Ilha da República da Rosa (Respubliko de la Insulo de la Rozoj) representou uma micronação de curta duração em uma plataforma feita pelo homem no Mar Adriático, a 11 quilômetros (6,8 mi) do mar costa da província de Rimini, Itália. Foi construída pelo engenheiro italiano Giorgio Rosa, que se autoproclamou seu presidente e a declarou Estado independente em 1º de maio de 1968. A Ilha Rose tinha seu próprio governo, moeda, correio e estabelecimentos comerciais, e a língua oficial era o esperanto. No entanto, nunca foi formalmente reconhecido como um Estado soberano por nenhum país do mundo. Vista pelo governo italiano como uma manobra persuasiva de Rosa para arrecadar dinheiro dos turistas e ao mesmo tempo evitar a tributação nacional, a Ilha Rose foi ocupada pelas forças policiais italianas em 26 de junho de 1968, sujeita ao bloqueio naval e, finalmente, demolida em fevereiro de 1969. A entidade que se instalaria na plataforma artificial recebeu o nome, em esperanto, de Libera Teritorio de la Insulo de la Rozoj, que mais tarde se tornou Esperanta Respubliko de la Insulo de la Rozoj (República Esperanto da Ilha de Roses). Seu periódico oficial intitulava-se Osservatore Domenicano, publicado em colaboração com os padres dominicanos de Bolonha, uma ordem religiosa católica que tem como objetivo a pregação da palavra e mensagem de Jesus Cristo e a conversão ao cristianismo. Fundada em Toulouse, França, em 22 de dezembro de 1216 por São Domingos de Gusmão, um sacerdote castelhano, o qual era originário de Caleruega, e confirmada pelo Papa Honório III. Os dominicanos não são monges, mas sim frades: Professam voto de obediência a Deus, à Bem-Aventurada Virgem Maria, a São Domingos, ao Mestre Geral e às leis dos irmãos pregadores,  aos quais Rosa estava intimamente ligado. Acredita-se que o termo em esperanto Rozoj foi emprestado do sobrenome de Giorgio Rosa, projetista e construtor da plataforma artificial, bem como o criador e inspirador da entidade estatal, como de seu desejo de “ver as rosas desabrocharem no mar”.

O mar Adriático é uma parte do mar Mediterrâneo, um golfo muito alongado fechado ao norte. Ele banha o norte e o leste da Itália e o oeste dos Bálcãs. Os países banhados pelo mar são a Itália, a Eslovênia, a Croácia, a Bósnia e Herzegovina, o Montenegro e a Albânia, possuindo diversos portos importantes, destacando-se Veneza (Mestre) e Trieste, que foi por muito tempo a saída marítima do Império Austro-Húngaro para o mar Mediterrâneo. Certo dia, ele resolve construir por si mesmo uma ilha no Mar Adriático, que acabou ganhando o nome de “Ilha das Rosas”. – L’incredibile storia dell’isola delle rose (Itália, 2020) é o tipo de história em Rimini que os avós contam aos filhos e netos”, explica o produtor do filme, Matteo Rovere à BBC. - “É uma história muito famosa, mas apenas em Rimini. Achamos que era uma história incrível, e muito estranho que não soubéssemos dela”. Ou seja, “85% do que o filme mostra aconteceu de fato, e apenas 15% foi alterado ou incluído na história original, porque ela já era, por si só, fantástica”, diz o produtor do filme. A história começa em 1967, quando Giorgio Rosa se propôs a construir uma micronação, que pretendia ser um símbolo de liberdade. Como seu filho ressalta também à British Broadcasting Corporation (BBC), a construção de L’Isola delle Rose exigiu conhecimento técnico. Entre os personagens do filme estão: Elio Germano como Giorgio Rosa, além de Matilda de Angelis, Fabrizio Bentivoglio, Luca Zingaretti, François Cluzet, Thomas Wlaschiha, Leonardo Lidi, Alberto Astorri e Violetta Zironi.

Em 1968, o engenheiro italiano Giorgio Rosa não apenas projetou, ou como inventor social, como também financiou a construção de uma plataforma de 400 m² suspensa por pilares de aço. A estrutura foi construída na costa de Rimini, um pouco além das águas territoriais italianas, “o que significava que estava fora do controle das autoridades”. Giorgio se autoproclamou presidente e o declarou Estado independente – a República da Ilha Rosa. As autoridades jurídicas ficaram insatisfeitas com o fato de a Ilha das Rosas ter sido construída “sem permissão e estar se beneficiando do turismo enquanto evitava as leis fiscais”. Além de alegar que a ilha “estava sendo usada para bebida e jogos de azar”, alguns políticos até sugeriram que a ilha representava uma ameaça à ideologia de segurança nacional e poderia fornecer “cobertura para submarinos nucleares soviéticos, em um esforço para prejudicar sua reputação”. Apenas 55 dias após a Declaração de Independência da ilha em 24 de junho de 1968, os italianos enviaram forças militares para assumir o controle com a força bruta da política. Eles intimidaram com os canhões de navios de guerra em 11 de fevereiro de 1969 e também com dinamite. Dias depois, uma tempestade submergiu totalmente a estrutura.

A cultura fornece ao pensamento as suas condições de formação, de concepção, de conceitualização. Impregna, modela e eventualmente governa os conhecimentos individuais. Trata-se não tanto de um determinismo acadêmico, mas sociológico dos colegiados exteriores quanto de uma estruturação interna. A cultura e, via cultura, a sociedade estão no interior do conhecimento humano. Edgar Morin (2008) foi quem precisou a tese segundo a qual “o conhecimento está na cultura e a cultura está no conhecimento”. Um ato cognitivo individual é, ipso facto, um fenômeno cultural e todo elemento do complexo cultural coletivo atualiza-se em uma to cognitivo individual. Assim como os seres vivos tiram sua possibilidade de vida do seu ecossistema, o qual existe a partir de inter-retroações entre seres vivos, os indivíduos só podem formar e desenvolver o seu conhecimento no seio de uma cultura, a qual só ganha vida a partir das inter-retroações cognitivas entre os indivíduos: as interações cognitivas dos indivíduos regeneram a cultura que as regenera. Tal concepção torna inseparáveis cultura e  individuo, mas permite também conceber, segundo a concepção de autonomia/dependência, a autonomia relativa dos indivíduos como conhecimento. As nossas percepções estão sob controle, não apenas de constantes fisiológicas e psicológicas, mas, também, de variáveis culturais e históricas. A percepção visual é submetida a categorizações, conceitualizações, taxionomias, que influenciarão o reconhecimento e a identificação das cores, formas, objetos. 

            Para o que nos interessa, nunca é demais repetir que o conhecimento intelectual se organiza em função de paradigmas que selecionam, hierarquizam, rejeitam as ideias e as informações, bem como em função de significações mitológicas e de projeções imaginárias individual (sonho) e coletivas (mitos, ritos, símbolos). Assim se opera a chamada “construção social da realidade”, para lembramos de Peter Berger & Thomas Luckmann, mas, digamos antes a co-construção social da realidade, visto que a realidade se constrói também a partir de dispositivos cerebrais, em que o real se substancializa e se dissocia do irreal em que se arquiteta a visão de mundo, em que se concretizam a verdade, o erro, a mentira. Para conceber a sociologia, em particular, do conhecimento, é necessário, portanto, conceber não apenas o enraizamento do conhecimento na sociedade e a interação conhecimento/sociedade, mas, sobretudo, o anel recursivo no qual o conhecimento é produto/produtor de uma realidade sociocultural que comporta intrinsecamente uma dimensão cognitiva. Os homens de uma cultura, pelo seu modo de conhecimento, produzem a cultura que produz o seu modo de conhecimento. A cultura gera os conhecimentos que regeneram a cultura. O conhecimento depende de múltiplas condições socioculturais, as quais, em retorno, condiciona. Ao considerar-se o conhecimento é produzido por uma cultura, dependente de uma cultura, integrado a uma cultura, pode-se ter a impressão de que nada seria capaz de libertá-lo. Mas isso seria capaz de ignorar as potencialidades de autonomia relativa, no interior de todas as culturas, dos espíritos individuais, como na invenção de Giorgio Rosa.

            Os indivíduos, afirma Morin, não são todos, e nem sempre, mesmo nas condições culturais mais fechadas, máquinas triviais obedecendo impecavelmente à ordem social e às injunções culturais. Isso seria ignorar que toda cultura está vitalmente aberta ao mundo exterior, de onde tira conhecimentos objetivos e que conhecimentos e ideias migram entre culturas. Seria ignorar que a aquisição de uma informação, a descoberta de um saber, a invenção de uma ideia, podem modificar uma cultura, transformar uma sociedade, mudar o curso da história. Hoje, o conhecimento genético e o conhecimento nuclear dependem e concretizam o poder de vida e de morte em germe no princípio do conhecimento. Pensando assim, o conhecimento está ligado, por todos os lados, à estrutura da cultura, à organização da social, à práxis teórica e histórica. Ele não é apenas condicionado, determinado e produzido, mas é também condicionante, determinante e produtor, o que demonstra de maneira evidente a aventura do conhecimento. E, sempre e por toda parte, o conhecimento transita pelos espíritos individuais, que dispõem de autonomia potencial, a qual pode, em certas condições, atualizar-se e tornar-se um pensamento pessoal. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas inferiores da sociedade.  As sociedades culturalmente liberais não utilizam mais esse modo de repressão, embora persistam nelas várias intimidações desviantes de formação, de atualização disciplinar, de conceitos e categorias, com seus subaspectos de conformismo, exercendo uma prevenção contra o desvio e aos limites aos quais não deve ultrapassar, as palavras a não proferir, os conceitos a desdenhar, as teorias a não desprezar.

São os desafios de sua vida pessoal que o inspiram a criar “o seu próprio país em alto mar”. Ao expressar sua criatividade por meio de invenções na Itália dos anos 1960, o engenheiro só consegue se envolver em problemas com a lei. Fica claro que toda sua “improvisação” também causa o fim de seu relacionamento com Gabriella (Matilda de Angelis), que ainda gosta dele, mas que não consegue lidar com sua instabilidade. Frustrado, Rosa resolve fugir do mundo real e criar um lugar onde ele e pessoas como ele poderiam viver, se divertir e se expressar socialmente como bem entendessem. Depois de construir a comunidade/plataforma denominada Ilha das Rosas, com ajuda de seu amigo Maurizio (Leonardo Lidi) e de atrair turistas com ajuda do Club promoter Wolfgang Rudy Neumann (Tom Wlaschiha), o sonho de Giorgio Rosa parece estar, na realidade, se concretizando. Porém, ao solicitar o reconhecimento do país pela Organização das Nações Unidas, o mundo real novamente se torna um problema. O governo italiano vê a empreitada como uma afronta ao país e emprega diversos métodos para demover Rosa e os quatro outros cidadãos da República da Ilha de Rosa de montarem um país de fato. A questão é que, de um jeito ou de outro, a ideia não estava fadada ao fracasso. Se não fosse a Itália, algum outro país acabaria tendo motivos para ir contra a Ilha de Rosa. A Itália o fez por motivos geopolíticos e para evitar a criação de um perigoso precedente, mas as possibilidades de problemas são infinitas. Na prática, a pesca, o petróleo, os custos e a burocracia para se manter a ilha iriam rapidamente viabilizá-la como país.  O termo burocracia surgiu na segunda metade do século XVIII. Inicialmente empregado para designar a estrutura administrativa estatal, formada pelos funcionários públicos no âmbito de formação dos Estados nacionais. Eram responsáveis por áreas relacionadas aos interesses coletivos da sociedade, como as universidades, as forças armadas, a polícia e a justiça.

A burocracia moderna não representa apenas uma forma avançada de organização administrativa, com base no método racional e científico, mas uma forma de dominação legítima que regem o funcionamento da burocracia e sintetizam as formas de relações de poder contemporaneamente. Em sua essência burocracia e burocratização são processos inexoráveis, inevitáveis e crescentes, institucionalizados e presentes em qualquer tipo de organização de natureza pública ou privada. Além disso, a organização burocrática no sentido político é condição sine qua non para o desenvolvimento de uma nação ou Estado. Por ser indispensável ao seu funcionamento - gestor dos serviços públicos - e de todas as atividades econômicas e políticas particulares no âmbito técnico e social da divisão do trabalho. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição representativa da sociedade, em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que devem ser cumpridos. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida que influencia negativa ou positivamente atribuições e responsabilidades sociais. A organização do serviço público separa a repartição do domínio privado do funcionário e, em geral a burocracia segrega a atividade oficial como algo distinto da esfera da vida privada. Os conflitos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. - “quando se estabelece plenamente, a burocracia está entre as estruturas sociais mais difíceis de se destruir”.

Neste sentido, para Michel de Certeau a Cidade-conceito se degrada. E isto significa que a enfermidade de que afeta a razão que a instaurou e seus profissionais é igualmente a das populações urbanas? Talvez as cidades se estejam deteriorando ao mesmo tempo que os procedimentos que as organizaram. Mas é necessário desconfiar dessas análises. Os ministros do saber sempre supuseram o universo ameaçado pelas mudanças que abalam as suas ideologias e os seus lugares. Mudam a infelicidade ou a ruína de suas teorias em teorias da ruína. Quando transformam em “catástrofes” os seus erros e extravios, quando querem aprisionar o povo no “pânico” de seus discursos, será necessário, mais uma vez, que tenham razão? Ao invés de permanecer no terreno de um discurso que mantém o seu privilégio invertendo o seu conteúdo, pode-se enveredar por outro caminho: analisar as práticas microbianas, singulares e plurais, que em um sistema urbanístico deveria administrar ou suprimir e que sobrevivem a seu perecimento; seguir o pulular desses procedimentos que, muito longe de ser controlados ou eliminados pela administração panóptica se reforçaram em uma proliferação ilegitimada, desenvolvidos e insinuados nas redes de vigilância, combinados segundo táticas ilegíveis, mas estáveis a tal ponto de que constituem regulações cotidianas e criatividades sub-reptícias que se ocultam somente graças aos dispositivos e aos discursos. Nessa conjuntura da década de 1960 presente de uma contradição entre o modo coletivo da gestão e o modo individual de uma reapropriação, nem por isso essa pergunta deixa de ser essencial, caso se admita que as práticas de espaço tecem como efeito as condições determinantes da vida social. A racionalização da cidade acarreta a sua mitificação nos discursos estratégicos, cálculos baseados na hipótese ou na necessidade de sua destruição por uma decisão final. Assim funciona a Cidade-conceito, lugar de transformações e apropriações, objeto de intervenções, mas sujeito sem cessar enriquecido com novos atributos: ela é ao mesmo tempo a maquinaria e o herói da modernidade, sob os discursos que a ideologizam, proliferam as astúcias e as combinações de poderes de fato sem identidade, legível, sem tomadas apreensíveis, sem transparência racional tornando-a impossíveis de gerir. 

Além disso, o Giorgio Rosa da vida real escondia outras características. Sua ilha artificial já foi considerada uma espécie de paraíso hippie, mas ela também tinha o papel de paraíso fiscal para seu proprietário, que arrecadava dinheiro com as atividades turísticas. Além disso, Rosa já foi descrito pelo jornal conservador Il Foglio como “um ex-fascista com impulsos anarco-libertários; um cara que, depois de ter sido um soldado em Salò, foi condenado como desertor” e que fugia das opressões do paternalismo da Igreja Católica, do maternalismo do partido Democracia Cristã e do anticapitalismo dos comunistas. Entretanto, as afiliações políticas de Rosa jamais são abordadas em A Incrível História da Ilha das Rosas, que apresenta suas motivações como resultado de um pueril desejo de liberdade. Dado que suas liberdades como cidadão italiano eram plenamente garantidas, esse era talvez mais um desejo de não se responsabilizar pelas consequências de seus próprios atos, como Maurizio fazia ao roubar dinheiro de seu pai e culpar os trabalhadores pobres que vinham de outra parte da Itália. É por isso que a versão narrada em A Incrível História da Ilha das Rosas é muito mais sobre amadurecimento do que sobre aspirações políticas e econômicas. O resultado é uma comédia, cujo aspecto dramático funciona muito bem, apesar de seu caráter utópico ser nada muito profundo ou inesquecível. O que temos como background é a revelação fílmica de um debate político que inicia sua história em torno de 268 a. C., na foz do rio Arímino, constituindo uma área que havia sido habitada pelos etruscos, os úmbrios, os gregos e os gauleses.

A República Romana fundou a colônia de Arímino, provavelmente por causa do nome do rio próximo, Arimino. A cidade era tida como um bastião contra os gauleses invasores e também como uma ponta-de-lança para conquistar a planície de Padana. Rimini estava numa junção de estradas conectando a Itália central (Via Flamínia) e o norte da Itália (Via Emília, que levava à Placência e à Via Popília) e ela também permitia o comércio fluvial e marítimo. No século VI a. C., ela foi tomada pelos gauleses. Após a derrota final deles em 283 a.C., ela retornou para os úmbrios e se tornou, em 263 a.C., “uma colônia latina muito útil para os romanos durante a última das guerras gálicas”. A cidade foi envolvida historicamente nas conquistas de guerras civis, mas permaneceu fiel ao partido popular e seus líderes, primeiro Mário e depois Júlio César. Após ter cruzado o Rubicão, este fez seu lendário apelo às legiões no fórum de Rimini. A cidade atraiu a atenção e muito de espetacularização de diversos imperadores romanos, incluindo Augusto, que fez muito pela cidade, e Adriano em particular. Este grandioso período em sua história foi personificado pela construção de prestigiosos monumentos como o Arco de Augusto, a ponte de Tibério, o anfiteatro. A crise no mundo romano foi marcada pela destruição causada pelas estratégias de invasões e pelas guerras, mas também pelo testemunho de palácios de oficiais do império e as primeiras igrejas, o símbolo da difusão do Cristianismo, que realizou um importante Concílio de Rimini em 359 d.C.      

            Na engenharia (cf. Kawamura, 1979; Ramos, 1987) e comparativamente também no caso da construção na arquitetura, a construção civil representa a execução do projeto previamente elaborado, abstratamente, seja de uma edificação (monumento) ou a forma de uma obra de arte, que são obras de maior porte destinadas a infraestrutura como pontes, viadutos ou túneis. É a execução de todas as etapas do projeto da fundação ao acabamento, consistindo em construir o que consta em projeto, respeitando as técnicas construtivas e as normas técnicas vigentes. No Brasil, o termo reforma é o mais utilizado quando se trata de fazer alguma ampliação, inovação, ou restauração, ou apenas uma pintura, ou a troca de um piso cerâmico de um imóvel, seja comercial, industrial ou residencial. Os termos construção e obra também são utilizados. Construção civil é o termo que engloba a confecção de obras como casas, edifícios, pontes, barragens, fundações de máquinas, estradas, aeroportos e outras infraestruturas, onde participam engenheiros civis e arquitetura em colaboração com técnicos de outras disciplinas. O termo construção civil e engenharia civil são originados de uma época em que só existiam apenas duas classificações para a engenharia civil e militar, cujo conhecimento técnico-científico, por exemplo de engenharia militar, era destinada apenas aos militares de carreira e a engenharia civil destinada aos demais cidadãos. A engenharia civil, que englobava todas as áreas, foi se dividindo em várias compatimetalizações, como exemplo, a engenharia elétrica, mecânica, química, naval, etc. A engenharia naval deu origem à construção naval, ambas eram agrupadas apenas na grande área da civil.

           A Arquitetura compreende uma forma de comunicação de massa que está bastante difundida. É uma operação precisa que se dirige a grupos humanos para satisfazer algumas de suas exigências e convencendo-os a viver de determinado modo. Também em relação a essa problemática sociológica a Arquitetura parece ter as mesmas características. Basta inferirmos, segundo Eco (1976) no ensaio: A Arquitetura: Comunicação de Massa?, também em relação a essa problemática a Arquitetura parece ter as mesmas características das mensagens-massa: 1) O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso; 2) O discurso arquitetônico é psicacógico: com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, o qual não apenas significa funcionalidade, mas promove e induz, no mesmo sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica; 3) O discurso arquitetônico é fruído na desatenção, ao contrário se pensarmos de forma comparada como se frui a arte, na ciência, na política que requer absorção, atenção, devoção à obra que interpretar, respeito pelas intenções do remetente); 4) a mensagem arquitetônica pode carregar-se do ponto de vista das relações de comunicação e trabalho de significados sem que o destinatário perceba estar com eles interpretando uma traição. O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso. 

          O discurso arquitetônico é psicacógico: com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, que promove e induz no sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica. Seu discurso é fruído na transformação mágica de desatenção. Analogamente como na produção do discurso fílmico e televisivo, as estórias em quadrinhos, os romances policiais, ao contrário como se frui na arte, que requer absorção, atenção, devoção à obra que se vai interpretar, respeito pelas formas de criação do autor.  Na esfera da vida social a luta política é uma das questões que sempre marcaram a dialética entre capital e trabalho. Mas a esfera social onde a ideologia manifesta mais explicitamente seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo da atividade política. O sujeito da ação política é alguém que quer conhecer o quadro em que age; que quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer. Mas, ao mesmo tempo, é um sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações particulares - sua e dos outros -  para agir. A política é levada, assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das “motivações particulares”. Os caminhos trilhados pela política evitam uma opção explícita por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa indiferença. São frequentes as combinações desses elementos em termos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. É nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Em termos histórico e político, Microestado é um Estado independente territorialmente pequeno, em sua maioria,  e também são pouco povoados.

 Dentre os 204 países do mundo, 24 se classificam como microestados. Com exceção do poderoso Vaticano, todos os demais encontram-se em regiões exclusivas de montanhas ou ilhas. Sobre o mar houve apenas a tentativa efêmera do Engenheiro Giorgio Rosas em torno do liberal Stato dell`Isola delle Rose (cf. Vaccarezza, 2006; Araújo, 2008)). Com exceção de Singapura, do ponto de vista da análise comparada, todos são Estados territoriais que se caracterizam por ter menos de um (01) milhão de habitantes. Aqueles economicamente mais importantes, em segundo lugar, são respectivamente: Singapura, o microestado mais populoso do mundo constituindo uma pequena ilha ao sul da Malásia com mais de cinco milhões de habitantes; Mônaco, um enorme bairro de 33 mil habitantes, tendo à beira o Mar Mediterrâneo e aos pés dos Alpes, na França; Vaticano, um quarteirão murado de 900 habitantes na cidade de Roma, na Itália, é sede da Igreja Católica Apostólica Romana, é o menor país católico do mundo tanto em área quanto em população; San Marino, um conjunto de pequenas vilas medievais de 30 mil habitantes, no topo do Monte Titano, também na Itália, mas numa área rural, e não encravada em uma cidade, como o Vaticano; Liechtenstein um principado de castelos e vilas medievais de 35 mil habitantes, numa região de difícil acesso dos Alpes, entre a Áustria e a Suíça; e Bahrein, um pequeno sultanato islâmico formado por 33 ilhas situadas no meio do golfo Pérsico. 

Com extensão territorial de 10.365.456 km², a Europa é o segundo menor continente da Terra, superando apenas a Oceania (8,5 milhões de km²). O continente europeu abriga 49 países, que apresentam dimensões bem variadas, como o maior país do mundo (Rússia) e o menor (Vaticano). Na Europa Ocidental estão localizadas seis nações (Mônaco, Andorra, San Marino, Malta, Liechtenstein e Vaticano), cujas dimensões são inferiores à república federativa do Brasil formada pela união de 26 estados federados, 5 568 municípios e do Distrito Federal. Entretanto, esses pequenos países, denominados também miniestados, apresentam elevado padrão socioeconômico, com destaque para o turismo. Os Estados soberanos estão localizados nas seguintes regiões: sete na Oceania, sete na América Central, seis na Europa Ocidental, dois no Oceano Índico, além do Bahrein no Oriente Médio, e Singapura no Sudeste Asiático. Os seis microestados da Europa estão representados por Malta, Andorra, Liechtenstein, San Marino, Mônaco e Vaticano. Com exceção do Bahrein, todos esses países têm sua economia baseada solidamente no turismo, com um pequeno apoio da agricultura e pesca. Também oferecem à sua população um elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 7 a 9 pontos, em uma escala adaptada de 0 a 1, para 0 a 10. A maioria dos microestados constituiu-se por iniciativa e luta entre povos que, no decorrer da história social e política, buscaram o reconhecimento de sua autenticidade culturalmente e a eficácia simbólica de sua soberania, ainda que em reduzido espaço territorial.

Muitas dessas nações conquistaram sua Independência a partir da década de 1960, com o processo de descolonização europeia na África, na Ásia, na Oceania e na América Central. Atualmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a soberania de 24 micropaíses. É possível afirmar que o padrão de vida da população da maioria dos micropaíses é bom, pois em geral apresentam um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que varia estatisticamente de médio (0,500 a 0,799) a elevado (0,800 e mais). Vários micropaíses ocupam posição de destaque no cenário político mundial, por sua importância econômica, política, cultural ou ambiental. Singapura, no Sudeste da Ásia, por exemplo, é um país considerado altamente industrializado, produtor de tecnologias avançadas, centro financeiro e portuário e tem PIB maior do que países como Chile e Uruguai. O Baréin é um importante produtor de petróleo na região do Oriente Médio, com grande refinarias e petroquímicas. Mas Andorra, Listenstaine e São Marinho, na Europa, são verdadeiros patrimônios da humanidade porque reúnem construções arquitetônicas da Idade Média de grande valor histórico e artístico. Quiribáti, Palau e Tonga, no Oceano Pacífico, estão assentados sobre atóis coralígenos, cuja preservação é imprescindível para o equilíbrio do ecossistema marinho de todo o planeta.

Bibliografia Geral Consultada.

PAONE, Pasquale, “Il caso dell'Isola delle Rose”. In: Rivista di Diritto Internazionale, 1968;  Artigo: “Nuovo Stato al largo di Rimini su un`isola artificiale. Assediato dalle motovedette della Finanza”. In: Il Messaggero, 26/06/1968; DURAND, Pierre, Louise Michel ou la Révolution Romantique. Paris: Éditeurs Français Réunis, 1971; LYOTARD, Jean-François, Économie Libidinale. Paris: Éditions de Minuit, 1974; ECO, Umberto, A Estrutura Ausente. Introdução à Pesquisa Semiológica. 3ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; KAWAMURA, Lili Katsuco, Engenheiro: Trabalho e Ideologia. 1ª edição. Campinas: Editora da Universidade de Campinas, 1979; COHEN, Anthony Paul, The Symbolic Construction of Community. Londres/Reino Unido: Editor Tavistock, 1985; RAMOS, Marcelo Agra, “A Ideologia dos Engenheiros”. In: Rev. Adm. Empres. vol.27 nº2. São Paulo, Apr./June 1987; SERVIER, Jean, La Utopia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1982; PACCALET, Yves, Jacques-Yves Cousteau: Dans l`Océan de la Vie: Biographie. Paris: Les Éditions Jean-Claude Lattès, 1997; TAYLOR, Charles, As Fontes do Self: A Construção da Identidade Contemporânea. São Paulo: Edições Loyola, 1997; VACCAREZZA, Fabio, “Il Libero Stato dell`Isola delle Rose”. In: Il Collezionista, dicembre 2006; MORIN, Edgar, O Método: A Ideias, Habitat, Vida, Costumes, Organização. 4ª edição. Porto Alegre: Editora Sulina, 2008; ARAUJO, Rogério Bianchi de, Utopia e Antiutopia Contemporânea: A Utopia da Cidadania Planetária e a Antiutopia da Sociedade de Consumo. Tese de Doutorado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008; GOFFMAN, Erving, Estigma: La Identidad Deteriorada. Madrid: Amorrotu Editores, 2009CERTEAU, Michel de, A Invenção do Cotidiano: (1): Artes de Fazer. 22ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; GORDON, Jill, O Mundo Erótico de Platão: Das Origens Cósmicas à Morte Humana. São Paulo: Edições Loyola, 2015; SAMANTHA, Lodi-Corrêa, Entre a Pena e a Baioneta: Louise Michel e Nadehzda Kruspskaia, Educadoras em Contextos Revolucionários. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas, 2016; PEDROSO, Sandra Pires de Toledo, O Tempo da Utopia. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; ROSA, Giorgio, L`Isola delle Rose. La vera storia tra il fulmine e il temporale. Bologna: Persiani Editore, 2020; CORREIA, André Rezende Soares, As Relações entre Soberania e Governo em Jean-Jacques Rousseau. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2021; entre outros.