segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Leandro Konder: Parti Pris Marxista & Sentido Abstrato da Ideologia.

Ubiracy de Souza Braga

Foucault paga o preço de seu pioneirismo e descarta cedo demais a questão da ideologia”. Leandro Konder

        Leandro Augusto Marques Coelho Konder (1936-2014) foi um filósofo erudito marxista. Primogênito do médico-sanitarista Valério Régis Konder e Ione Marques Coelho.  Tinha um irmão mais novo, o jornalista Rodolfo Konder (1938-2014) e a irmã mais nova, Luíza Eugenia Konder, dois filhos e dois netos. Seu pai foi figura marcante na vida política brasileira. Ele não começou a vida na medicina social, mas tentou se tornar psiquiatra. Foi médico em hospício, mas desistiu e mudou seu caminho. - O negócio dele era a ação, tendo participado de algumas atividades paralelas à chamada revolução de 1935 e, por causa delas, acabou sendo preso. - Já casado com minha mãe, que estava grávida, ele teve de fugir. Em Petrópolis, minha mãe entrou em trabalho de parto. Mas assim que ele entrou na casa de saúde, foi preso. Assim, afirma Leandro Konder: - “nasci dando origem à prisão do meu pai, o que já me garante vinte anos de análise”. Com 15 anos ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) onde exerceu sua militância teórica e prática por mais de trinta anos. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1984, obteve o título de doutor em filosofia pela UFRJ. Atuou como advogado criminalista e, depois, advogado trabalhista, até ser demitido dos sindicatos em que trabalhava, em função do golpe político-militar de 1º de abril de 1964. Foi professor concursado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. Atuante escritor, foi autor de dezenas de obras em diversas concepções do conhecimento científico-social, como filosofia, estética, sociologia, história e educação.

            O município de Petrópolis, onde nasceu, é localizado no interior do estado do Rio de Janeiro, também reconhecido pelo processo civilizatório como Cidade Imperial. Ocupa uma área de 795,798 km² e sua população no ano de 2018, quatro anos após sua morte, era em torno de 305 687 habitantes segundo a estimativa técnica censitária do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Além de ser a maior e mais populosa cidade da região Serrana Fluminense e da região geográfica intermediária de Petrópolis, também detém os dados de maior Produto Interno Bruto (PIB) e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) regional. O gentílico municipal de Petrópolis é petropolitano. Petrópolis é, em análise comparada, a cidade mais segura do estado do Rio de Janeiro e a sexta cidade mais segura do Brasil, mas de tipo-ideal estatístico, segundo classificação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), uma fundação pública federal vinculada ao Ministério da Economia, criada em 1964 como Epea e assumindo o nome atual durante o movimento militar em 1967. A cidade é sede do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), uma unidade criada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Fundada por iniciativa do Imperador Dom Pedro II  seu nome vem em decorrência da junção da palavra em latim Petrus (Pedro) com o grego Pólis (cidade), formando “Cidade de Pedro”. É frequentemente chamada de “Cidade Imperial”, por ter sido a rota gozosa de Dom Pedro “para seus momentos de lazer e repouso”. Foi capital estadual temporariamente por decreto entre 1894 e 1902 devido à questão da Revolta da Armada.

            A revolta teve pouco apoio político e popular na cidade do Rio de Janeiro, onde a partir de 13 de setembro diversas unidades encouraçadas trocaram tiros com a artilharia dos fortes em poder do Exército. Mas houve sangrenta batalha na Ponta da Armação, em Niterói, área guarnecida por aproximadamente 3 mil governistas, os quais eram compostos entre outros por batalhões da Força Pública e da Guarda Nacional. No final do século XIX, os jovens letrados do interior do país viviam um dilema: ou cercear suas capacidades na província, com escassas possibilidades para acolhê-los, ou desaparecer no anonimato da Corte, saturada de homme de lettres. Igualmente como muitos outros, João Capistrano de Abreu preferiu seguir para a Corte, talvez acreditando naquilo que - segundo ele mesmo chegou a escrever - seria o lema de todo provinciano ingênuo: “vir, ver e vencer”. A bordo do navio Guará, que o conduzia de Fortaleza para o Rio de Janeiro, por conta dos acontecimentos da revolta, durante o governo de José Tomás da Porciúncula, médico e político brasileiro que governou o estado do Rio de Janeiro entre 1892 e 1894, a capital do Rio de Janeiro, a cidade de Niterói, foi transferida para a cidade de Petrópolis em 1894, de onde só retornou em 1903. Sem chance de vitória na baía da Guanabara, os revoltosos dirigiram-se para sul do país. Alguns efetivos desembarcam na cidade de Desterro, atual Florianópolis, e tentaram, inutilmente, articular-se com os federalistas gaúchos. O presidente da República, apoiado pelo Exército brasileiro e pelo Partido Republicano Paulista (PRP) conteve o movimento militar em março de 1894, para o que fez adquirir, às pressas, no exterior, por meio do empresário e banqueiro estadunidense Charles Ranlett Flint, alguns navios de guerra, a chamada “frota de papel”. Essa frota, adquirida nos Estados Unidos da América, foi também denominada pelos governistas Esquadra Flint e viajou do porto de Nova York até a bela baía de Guanabara na capital Rio de Janeiro tripulada por mercenários estadunidenses. De acordo com Joaquim Nabuco, as tropas contratadas para auxiliar o governo federal eram “a pior escória de flibusteiros americanos”. Em março de 1894 a rebelião estava praticamente vencida. O rigor militar de Floriano Peixoto ante os dois movimentos revolucionários lhe valeu o cognome autoritário Marechal de Ferro.

            - Quem pela primeira vez me pôs nas mãos um livro de Lukács foi meu pai, Valério Konder. Como secretário do Movimento Brasileiro dos Partidário da Paz (cf. Ribeiro, 2003), ele viajava com muita frequência. Ao passar por Paris, ouviu de um companheiro francês que acabara de ser lançada a edição de um livro marxista húngaro que fazia crítica literária: La Signification Présente du Réalisme Critique (Collection Les Essais, n° 95. Gallimard Parution 1960). Ganhei-o de presente e fiquei entusiasmado com a leitura. Logo procurei outros livros do autor, e comprei uma edição em castelhano de La Destrucción de la Razón (1954). Impressionado com a leitura do livro, aproveitei uma vinda de José Guilherme Merquior ao Rio de Janeiro e comprei com ele; também troquei cartas com Carlos Nelson Coutinho. E, sabendo que Lukács tinha uma relação com o Movimento Húngaro dos Partidários da Paz, consegui, com ajuda de meu pai, o endereço do filósofo húngaro. Passei a escrever para ele a partir de 1961. De 1963 a 1970, Carlos Nelson Coutinho e eu mantivemos uma curiosa correspondência com Lukács, que mais tarde viria a ser publicada num volume intitulado: Lukács – A Atualidade do Marxismo (2002), organizado pelos professores Maria Orlanda Pinasssi e Sergio Lessa. Com o apoio do editor Ênio Silveira, afirma Leandro Konder, organizei uma coletânea de escritos de Georg Lukács e a submeti pessoalmente ao próprio filósofo, que alterou seu plano inicial, por ele considerado deficiente em matéria de unidade, sugerindo que a coletânea se limitasse a ensaios à literatura. No começo de 1965 foi finalizado pela editora marxista Civilização Brasileira: Ensaio sobre Literatura.

            O segundo livro foi encomendado para sair numa coleção intitulada Vida e Obra, da editora José Álvaro. A editora sugeriu Mao Tsé-tung, eu sugeri Kafka; minha proposta foi aceita e, em menos de quatro meses, redigi o volume. Kafka, Vida e Obra também teve boa receptividade. Apesar de continuar admirando Lukács, me permiti um ato de insubordinação: minha apreciação de Kafka deixa transparecer um enorme encanto diante da literatura desse genial escritor. Mas Leandro Konder evitou endossar as restrições feitas pelo filósofo húngaro ao escritor tcheco. E para sua agradável surpresa, o amigo Michael Löwy, 38 anos mais tarde, em seu belo livro Franza Kafka Reveur Insonius (Stock, 2004), ainda lembrou de seu livro e falou dele com simpatia, citando uma observação sua sobre o humor em Kafka. O terceiro livro foi Os Marxistas e a Arte (1967). Relendo-o, mais tarde, percebeu que algumas questões eram bem mais complexas do que supunha e que alguns autores mereceriam uma atenção que ele nem sempre conseguira ter. O capítulo dedicado a Walter Benjamin, por exemplo, é flagrantemente insatisfatório: baseia-se tão-somente na leitura do ensaio benjaminiano sobre reprodutibilidade técnica da obra de arte. Deixa de lado conceitos fundamentais da estética do magnífico ensaísta alemão. De maneira geral, seus primeiros livros, afirma Konder, foram bem acolhidos pela crítica. - Algumas pessoas que me incentivaram esperavam muito de mim. Lembro-me, contudo, de ter me preocupado bastante com a disparidade que sentia entre meus conhecimentos “teóricos” e as necessidades práticas da luta política, especialmente da política cultural. Voltaremos a este aspecto do significado abstrato do conceito de ideologia de Karl Marx & Friedrich Engels (2007). 

            Em 1968 participou da delegação brasileira organizada por seu amigo Luiz Mário Gazzaneo ao Congresso da Juventude, em Sófia, na Bulgária, onde estabeleceu contato com a delegação tcheca que se queixou da grosseria com que era tratada pelas autoridades búlgaras. Dias depois, as tropas do pacto de Varsóvia, lideradas pela União Soviética, invadiram a Tchecoslováquia, pondo fim à simpática experiência da Primavera de Praga (“um comunismo com rosto humano”). Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder condenaram por escrito, no Correio da Manhã (8/12/1968), a invasão. Em 1969 viajou para Berlim para receber uma medalha concedida pelo Movimento dos Partidários da Paz, como homenagem póstuma a seu pai. Viajou em companhia do escultor Honório Pessanha, premiado autor de um busto de Luiz Carlos prestes. Passaram dois dias em Dakar, esperando a passagem para Moscou e Berlim (Oriental), que os traria um funcionário da Aeroflot, uma companhia estatal de aviação russa.  Aproveitou a ida a Berlim para desdobrar a passagem de volta e parar em Budapeste, onde fez uma entrevista com ninguém menos que – adivinhem – Georg Lukács!  Fazia anos que nosso filósofo enviara recortes com tudo que saía na imprensa sobre ele e sobre seus escritos, mesmo que ele não pudesse lê-los, por não saber português. Não os lia, mas via seu nome, às vezes sua foto, e agradecia. Portanto, quando lhe pedi a entrevista, ele não podia negá-la. A entrevista concedida por Lukács saiu no Jornal do Brasil, no dia 4 de julho de 1969, com o título A Autocrítica do Marxismo, escolhido para driblar a censura, fato social que o fez comemorar a publicação com os jornalistas: era a primeira vez, depois do AI-5, que um jornalão falava do marxismo numa manchete e dava tamanho espaço a um dos seus mais destacados teóricos. Segundo Russ Stanton, a crise no mercado imobiliário acertou em cheio a publicidade na mídia impressa. Enquanto isso, a publicidade online cresce, mas em ritmo considerado lento. Para compensar, a empresa vai fazer o que quase todos os jornais merceologicamente já fazem: combinar as redações de mídia impressa e online em uma única operação sob o mesmo orçamento. 

       A crise na mídia impressa norte-americana é geral. Os jornalões como o New York Times e o Washington Post seguem o mesmo caminho. Comparativamente jornais de médio porte em cidades menores fazem o mesmo. A crise na mídia impressa norte-americana tem outras causas além dos problemas econômicos enfrentados pelos Estados Unidos da América – que incluem o preço da gasolina e os gastos bilionários com a invasão do Iraque. Em 1974, o general Ernesto Geisel tomou posse da presidência da República com um discurso de abertura política chamado de “distensão”, o que na prática significaria a diminuição da censura, investigar as denúncias de torturas e dar maior participação aos civis no governo. Todavia, o governo enfrentava dois infortúnios: na política a derrota nas eleições parlamentares e na economia crise mundial do petróleo. Além disso, o general Ednardo D`Ávila Mello, comandante do II Exército, afirmava que os comunistas estariam infiltrados no governo de São Paulo, na época chefiado por Paulo Egydio Martins, ministro da Indústria e Comércio no governo Castello Branco e governador de São Paulo (1975-1979), o que criou uma certa contradição entre estes. Nesta conjuntura, política e de crise econômica iniciada em 1973, a linha dura no comando sentiu-se ameaçada, e em 1975 a repressão continuava bastante forte. O Centro de Informações do Exército (CIE) se voltou essencialmente contra o os membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), um partido político que se define sociologicamente como uma organização de militantes e de formação de quadros revolucionários que se formam na luta de classes, na organização do proletariado e no estudo das obras dos pensadores socialistas Karl Marx e Friedrich Engels, do qual o jornalista Vladimir Herzog era militante ativo, mas que em tese não desenvolvia atividades sociais clandestinas.    

    O projeto aparente de redemocratização concebido pelo movimento militar golpista liderado por Ernesto Geisel previa um conjunto de medidas políticas ditas “liberalizantes”, cuidadosamente controladas pelo Executivo Federal. Isso incluía a suspensão parcial da censura prévia aos meios de comunicação social e a revogação gradativa de alguns dos mecanismos mais explícitos de coerção legal presentes no conjunto das leis em vigor, que cerceavam as liberdades públicas e democráticas e os direitos individuais e constitucionais. É preciso salientar que o projeto de “distensão” não refletia a cidadania, tanto por parte de Geisel como dos militares que participavam do governo. Na verdade, a distensão era um projeto preconizado como uma saída para que as Forças Armadas se retirassem do poder. Depois de dez anos de ditadura militar, período em que três generais governaram o país, as Forças Armadas se desgastaram. Em entrevista exclusiva concedida a Cylene Dworzak Dalbon, a publicitária Clarice Herzog fala do “terrível outubro de 1975”, quando seu marido, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado dentro das dependências do DOI-CODI pelos órgãos de repressão da ditadura. Foram presos outros jornalistas ligados ao Vlado e da TV Cultura, o Markum, o Anthony, Rodolfo Konder, o Sérgio Gomes. Foi um momento extremamente tenso.  Esperávamos, afirma Cylene Dalbon que o Vlado fosse preso - devido a essas prisões, e discutimos muito sobre qual seria o teor de seu depoimento – o que nunca passou pelas nossas cabeças é que ele acabaria morto. Naquele momento estava no Partido. Ele nunca foi ligado à à esfera da vida política, ele não era comunista – aliás, era bastante crítico ao partido.

– Na verdade, o Vlado era um intelectual, ligado a teatro, cinema, que desejava um mundo melhor, um mundo onde as ideias pudessem ser discutidas e respeitadas. Naquela conjuntura existiam duas forças sociais contra a ditadura militar: uma era a igreja e a outra o PCB. Como o Vlado era judeu, optou pelo Partido – a sua área de atuação como militante era a discussão da situação cultural no país – a produção artística, nos vários níveis, estava sendo totalmente massacrada pela censura. O motivo da forte repressão contra o PCB, é que ele estava se tornando uma nova e forte frente e enfrentando a ditadura. Mas aconteceu o que não esperávamos que acontecesse: afinal, apesar do Vlado estar envolvido com o partido comunista, tínhamos empregos, passaporte, residência fixa e não éramos envolvidos com a luta armada”. A violência repressiva do Estado e o controle sobre quase todos os setores da sociedade, além da ausência de liberdades civis, haviam conduzido o país a uma situação insustentável do regime de força que caracterizava a ditadura militar. Além disso, o fato de os militares terem assumido diretamente o governo, ocasionou uma politização negativa dentro das Forças Armadas, desvirtuando os propósitos constitucionais da instituição militar. A aparente anarquia e a desordem, promovida por setores militares radicais, permearam sem exceção todos os governos da ditadura, e tinham sua origem justamente na politização no interior da instituição militar. Portanto, é apropriado interpretar sociologicamente a “distensão” como um sinal da impossibilidade de os militares se manterem indefinidamente no poder.

Não por acaso, Leandro Konder, no ensaio: Em Torno de Marx (2010) é taxativo. O pensamento de Marx está sendo submetido a uma severa revisão. Por mais brilhante que tenha sido á época de sua criação no século XIX, por mais notável que tenha sido sua marca no século XX, o marxismo se ressente das graves derrotas que tem sofrido neste início do século XXI. Marx, como sabemos, escreveu muito, mais do que o necessário. A edição Marx-Engels-Werke tem 45 volumes. Mas como ocorre com os grandes sistemas de pensamento, a ideias de Marx organizadas como doutrina, sendo algumas de forma contextualizadas, outras sofreram uma simplificação excessiva, justificadas em nome tanto da emergência editorial, como da urgência da ação. A redução do aspecto filosófico de seu pensamento às formulas meramente teórico-políticas dificultava aos leitores o entendimento dos conceitos abstratos em Economia Política, mas principalmente através do significado abstrato da concepção de ideologia no quadro geral do pensamento político burguês. Outra dificuldade de espaço e lugar precisa ser lembrada. Alguns manuscritos imprescindíveis e específicos da filosofia de Marx só foram publicados após sua morte ocorrida em 1883. A Ideologia Alemã, sob suspeita do partido político só foi publicada e muito mal em 1932.  Os Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 também foram publicados em 1932. Os Grundrisse. Manuscritos Econômicos de 1857-1858. Esboços de Crítica da Economia Política (2011), que originariam O Capital, foram publicados em 1939, porém só circularam amplamente no final da 2ª guerra mundial, a partir de 1945. Em seu ersatz do século XXI, nenhum dos grandes problemas analisados por Marx (cf. Elster, 1989) foram resolvidos pelo capitalismo global. O que está realmente vivo no pensamento de Marx?

Imprescindível de seu legado materialista é o método de análise. Os economistas do século XVIII, por exemplo, começam a análise sempre por uma totalidade viva: a população, Nação, Estado, diversos Estados, mas acabam sempre por formular, através da análise, algumas relações geris determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc. A partir do momento em que esses fatores isolados foram mais ou menos fixados e teoricamente formulados, surgiram sistemas econômicos que, partindo de noções simples tais como o trabalho, a divisão do trabalho, a necessidade, o valor de troca, se elevavam até o Estado, as trocas internacionais e o mercado mundial. Este segundo método é evidentemente o método científico correto. De acordo com Marx, o concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações, logo, unidade da diversidade. É por isso que ele é para o pensamento um processo de síntese, um resultado, e não um ponto de partida, apesar de ser o verdadeiro ponto de partida e, igualmente o ponto da observação imediata e da representação. O primeiro passo reduziu a plenitude da representação a uma determinação abstrata; pelo segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento. Por isso, afirma Marx, Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento, que se concentra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movimenta por si mesmo, enquanto que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é para o pensamento precisamente a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir como concreto espiritual.

Para a consciência – e a consciência filosófica considera que o pensamento que concebe constitui o homem real e, por conseguinte, o mundo só é real quando concebido -, portanto, o movimento das categorias surge como ato de produção real – que concebe um simples impulso do exterior, o que é lamentado – cujo conteúdo é o mundo; e isto é exato na medida em que a totalidade concreta enquanto totalidade-de-pensamento, enquanto concreto-de-pensamento, é de fato um produto do pensamento, da atividade de conceber; ele não é pois, de forma alguma o produto do conceito que engendra a si próprio, que pensa exterior e superiormente à observação imediata e à representação, mas um produto da elaboração de conceitos a partir da observação imediata e da representação. O todo, afirma Marx, na forma em que aparece no espírito como todo-de-pensamento, é um produto do cérebro pensante, que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, de um modo que difere da apropriação desse mundo pela arte, pela religião, pelo espírito prático. Antes como depois, o objeto real conserva a sua independência fora do espírito; e isso durante o tempo em que o espírito tiver uma atividade meramente especulativa, meramente teórica. Por consequência, nunca é demais repetir, também o emprego do método teórico é necessário que o objeto, a sociedade, esteja constantemente presente no espírito como dado primeiro. Em relação à propriedade, a categoria mais simples surge, pois, como a relação de comunidades simples de famílias ou de tribos.              

Na sociedade num estágio superior, ela aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida. Mas pressupõe sempre o substrato concreto que se exprime por uma relação de posse. O dinheiro pode existir e existiu historicamente antes de existir o capital, os bancos, o trabalho assalariado, etc. Nesse sentido, podemos dizer que a categoria de trabalho mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido ou, pelo contrário, relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que existiam já historicamente antes que o todo se desenvolvesse no sentido que encontra a sua expressão numa categoria concreta. Assim, abstração mais simples, que a economia política moderna coloca em primeiro lugar e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece, no entanto, sob esta forma abstrata como verdade prática enquanto categoria da sociedade mais moderna. Poder-se-ia dizer que esta indiferença constituída nas relações sociais em relacionadas a forma determinada de trabalho, que se apresenta noutros países como produto histórico, se manifesta como uma disposição natural. Este exemplo do  trabalho mostra com toda evidência que até as categorias mais abstratas, ainda que válidas – precisamente por causa de sua natureza abstrata – para todas as épocas, não são menos, sob a forma determinada desta mesma abstração, o produto de condições históricas e só se encontram plenamente te válidas nestas condições e no quadro de pensamento destas condições.                                

O filósofo materialista Leandro Konder se defrontou com o que se constituiria a questão central de sua Tese de Doutorado em Filosofia (cf. Konder, 1988; 2010): o que aconteceu com as ideias de Marx ao serem assimiladas pelos brasileiros que se dispunham a nelas se apoiar para transformar a sociedade? Se nós marxistas - afirma - estávamos numa situação ruim, cabia-nos investigar quais haviam sido os erros e as carências que nos deixaram tão enfraquecidos. Contudo, uma nova desgraça, entretanto, se abateu sobre mim: fui preso. Vivi a semana mais desagradável de toda minha vida. Fui trancafiado num cubículo do quartel da Polícia do Exército, e submetido à “lei” geral da tortura, então adotada naquele local. Num primeiro momento, protestei e exigi, como advogado, a presença da Ordem dos Advogados Brasileiros. O sujeito que me ouvia se limitou a advertir: - Fecha já essa latrina, senão vai receber uma porrada no meio dos cornos. Aplicaram-me choques elétricos, para me convencer a “colaborar”, quer dizer, entregar-lhes o endereço de José Salles, secretário de organização do PCB, que era na época casado com Marly Vianna, irmã de Giseh de quem ele estava se separando. - Expliquei que, por motivo de segurança, José Salles não podia dar seu endereço para um militante. Portanto, eu mão sabia. Mas eles custaram um pouco a se convencer disso.

            O nome Partido Comunista do Brasil havia sido usado primeiramente pelo antigo PCB, fundado em 25 de março de 1922. Enquanto o PCB abandonava em definitivo a figura de Joseph Stálin, o PCdoB manteve o ex-líder soviético como uma de suas referências teóricas ao lado de Marx, Engels e Lênin. Na mesma época, a crise entre a União Soviética e a China atingiu o seu auge, quando o líder revolucionário chinês Mao Tsé Tung criticou o processo político de desestalinização em curso na União Soviética, e acusou Khrushchev de “desvios oportunistas e reformistas”. Posteriormente o PCB alterou seu nome para Partido Comunista Brasileiro, fundado com a presença de 9 delegados, representando diversos grupos regionais e que somavam um total de 73 membros. Mas sabemos que um bom número de militantes fundadores era libertário. De nove membros militantes que fundaram o PCB somente o barbeiro Abílio de Nequette e Manoel Cendón são de fato socialistas, enquanto os restantes vinculam-se aquele movimento. Uma leitura atenta da obra de Otávio Brandão, escrita em 1924 sob pseudônimo de Fritz Mayer, Agrarismo e Industrialismo, as revoluções pequeno-burguesas de 1922 e 1924, cometeram erros graves, anterior à sua adesão ao PCB em 15 de outubro de 1922, verifica as influências anarquista e mística delineada nos ensaios, que se traduzem no predomínio do questionamento teórico, esquemático e acentuadamente ideológico, resistindo traços da doutrina anarquista mesmo considerado em algumas de suas posições pós-adesão.

A chamada “desestalinização” refere-se ao processo de rever como o culto da personalidade e do sistema político stalinista foi criado pelo líder soviético Josef Stalin. A desestalinização começou tecnicamente em 1953 após a morte de Stalin, “mas não era oficial” até 1956, após o discurso secreto de Nikita Khrushchev, então secretário do Comitê Central da União Soviética, e liberado após o XX Congresso do PC da URSS. Com sua morte, Stalin foi sucedido por uma liderança coletiva. Os homens fortes da central soviética na altura eram Lavrentiy Beria, a cargo do Ministério do Interior, Nikita Khrushchev, Primeiro Secretário do Comitê Central do Partido Comunista e Georgi Malenkov, Premier da União Soviética. O processo de desestalinização começou com um fim ao papel do trabalho forçado em grande escala na economia, mas que persiste na sociedade. O processo de libertar prisioneiros dos Gulag foi iniciado por Béria, mas ele foi logo retirado do poder. Nikita Khrushchev, em seguida, emergiu como um dos mais poderosos políticos soviéticos. No discurso “Sobre o Culto à Personalidade e suas Consequências” para a sessão fechada do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 25 de fevereiro de 1956, Nikita Khrushchev chocou seus ouvintes denunciando duplamente, por um lado, o regime ditatorial e, por outro, o culto da personalidade de Josef Stalin. Ele também atacou os crimes políticos cometidos pelos associados de Lavrenti Pavlovitch Beria, político e chefe da NKVD na Geórgia. Beria. É lembrado como o executor do Grande Expurgo de Stalin na década de 1930, tendo-o presidido.  

            Ao contrário do que se acredita, o discurso secreto não significou a primeira dissidência dos novos governantes da União Soviética em relação a Stalin. Antes do discurso, já se haviam dado os primeiros passos em direção ao fim da estrutura repressiva que reinava no país. De fato, o discurso baseia-se em parte nas conclusões obtidas pela chamada Comissão Chvernik, um grupo especial do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, criado a 31 de janeiro de 1955 com o fim de investigar a repressão contra os delegados do XVII Congresso do Partido, ocorrido em 1934. Ao final dos trabalhos, a comissão reuniu evidências suficientes para denunciar que, entre os anos de 1938 e 1939, durante os momentos mais agitados do Grande Expurgo, mais de um milhão e meio de membros do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) haviam sido acusados de realizar “atividades antissoviéticas”, e pelo menos 680 mil haviam sido executados. Estudos contemporâneos ampliam essa cifra para mais que o dobro. O número foi estabelecido considerando as listas que haviam sido assinadas pelo próprio Stalin. A partir de 1956, os novos dirigentes do Estado comunista enfrentaram o lento processo de reabilitação social dos chamados “velhos bolcheviques” e liberação política dos internos dos campos de trabalhos forçados. As vítimas dos chamados “processos de Moscovo” só foram reabilitadas em plenitude por volta da Abertura política em torno da década de 1988.                       

Quando prenderam Leandro Konder, também aprisionaram sua irmã e uma namorada de família típica conservadora, que não se interessava (talvez) nem um pouco por política. Lurdinha – Maria de Lourdes, a namorada católica, que mais tarde se tornou importante museóloga, foi solta depois de três dias; ele ficou preso oito dias; e sua mãe, inexplicavelmente, permaneceu trancafiada 11 dias. Assim que saiu da prisão, começou a preparar sua ida para o exílio. Dois casais alemães, completamente estranhos ao comunismo, um era socialdemocrata; o outro, democrata-cristão, se dispuseram a ajuda-lo, por pura solidariedade humana: Caio e Maritta Koch-Weser e Margareth e Lothar Kraft. Leandro aproveitou e fez um curso de alemão, inicialmente em companhia de Lígia e Regina (secretárias das editoras Paz e Terra e Civilização Brasileira), Carlos Nelson Coutinho e Leon Hirzman. Em português não há uma palavra específica para responder a uma pergunta formulada negativamente. Se alguém, por exemplo, nos pergunta: - “Você não vai ao cinema hoje”, se me limito a responder “sim” ou “não”, a resposta será ambígua. Por isso, nós responderíamos à pergunta repetindo o verbo: “vou, sim”.             

Os alemães possuem a palavra doch, que não tem tradução em português. Foi aí que Leon Hirszman protestou, dizendo: “tem tradução, sim”. Em português a tradução é “sem essa!”. Dentre os cinco, Leandro Konder foi o único a prosseguir no estudo. E se preparou para ir para a Alemanha em 1972, para uma temporada bem mais longa, que veio a ser de seis anos e meio fora do Brasil. Orientado por um despachante, solicitou um visto de saída, pagando taxa de urgência como se morasse lá. O mesmo policial que lhe deu o visto solicitou a informação ao Rio de Janeiro, que naquela época demorava dias para retornar. Veio a informação solicitada: - Eu não podia deixar o país. Mas o visto já havia sido entregue e Leandro Konder já estava a caminho da Europa. A publicação do volume coletivo intitulado Realismo e Antirrealismo na Sociedade Brasileira, na época dirigida pelo poeta Moacir Félix, amenizou um pouco a tristeza de quem partia. O livro continha também textos de Carlos Nelson, Luiz Sérgio Henriques, José Paulo Netto e Gilvan Ribeiro. O pequeno “exército de Bracaleone” dos lukacsianos brasileiros estava crescendo.  Georg Lukács tinha morrido, porém seus discípulos (os integrantes da Escola de Budapeste) procuravam ajudá-lo a encontrar um espaço em alguma universidade alemã para fazer seu doutorado. As agudas divergências filosóficas e políticas entre nós – afirma Leandro – não impediram que os integrantes do grupo, cada vez menos lukacsianos, fossem solidários comigo. Agnes Heller tomou a iniciativa de escrever para o professor Hans Heinz Holz, da Universidad de Marburg/Lahn, me recomendando; e ele aceitou ser meu orientador.                        

Antes do debate extraordinário suscitado pelos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de juventude de Marx e os seguidores, tanto à esquerda quanto à direita da filosofia de Friedrich Hegel, o tema da ideologia, “entendido como o registro de pressões deformadoras atuando sobre o processo de elaboração do conhecimento”, segundo Konder (2002) é um tema recorrente à história das ideias e muito antigo.  Trata-se de uma questão e tema que não pode ficar limitado à percepção sensível direta: precisa construir interpretações abstratas, baseadas em informações que não podem ser imediatamente cotejadas com a experiência vivida pelo observador. O sujeito se abstrai da multiplicidade das sensações, da percepção imediata, e se fixa em determinados elementos culturais, que vão sendo desdobrados e postos em conexão uns com os outros. O desenvolvimento das ciências depende da teoria, da abstração. Ao mesmo tempo, ele não proporciona ao conhecimento nenhuma garantia de que não haverá descaminhos. Ipso facto, pode em princípio, causar transtornos muito superiores aos que costumam ser acarretados pelas limitações cada vez mais sofisticadas pela limitada percepção da explicação empírica.                          

O espírito individual pode alcançar a sua autonomia relativa como sujeito, jogando com a dupla dependência que, ao mesmo tempo, o constrange, limita e alimenta. Pode jogar, pois há margem, entre hiatos, aberturas, defasagens. Entre o bioantropológico e o sociocultural, o ser individual e a sociedade. Assim, a possibilidade de autonomia relativa do espírito individual está inscrita no princípio de seu conhecimento disciplinar. E isso em nível de seu conhecimento cotidiano, quanto em nível de pensamento seja filosófico ou científico. Não por acaso, na explicação teórica científico-social, um dos níveis de análise de interpretação da realidade mais importantes da filosofia, a teoria do conhecimento, vem se ocupando, de um modo ou de outro, de algumas das questões que integram a problemática daquilo que, a partir do século XIX, viria a ser designado, numa categoria social, como ideologia.  Isto quer dizer o seguinte, de forma proporcional e inversamente: quanto mais o sujeito conhece, mais ele se dá conta do quanto desconhece. E foi essa constatação que levou Nicolau de Cusa (1401-1464), no início desta fase histórica do Renascimento, a sustentar a ideia da douta ignorância, isto é, a tese de que “o verdadeiro sábio é o que se sabe ignorante”. O pensador renascentista propunha uma nova forma e maneira de pensar o conhecimento. Ele dizia: não podemos conceber a infinitude de Deus, só podemos lidar com uma concepção humana do infinito, por isso o conhecimento que temos das coisas finitas que compõem o nosso mundo é sempre limitado, imperfeito. 

Deus representa o Absoluto Máximo, é absolutamente incomparável, pois nosso conhecimento do real é obtido por comparação e inevitavelmente em contradições. Só nos cabe, então, segundo Cusa, ser humildes, debruçar-nos com modéstia sobre as contradições do mundo em que vivemos. Ocorre que em diversas ocasiões hic et nunc na história da filosofia, surgiram reflexões segundo as quais, além das enormes dificuldades intrínsecas da construção social do conhecimento, o esforço cognitivo do conhecer enfrenta, pressões deformadoras provenientes de alguns elementos constitutivos da cultura e da sociedade onde o sujeito cognoscente vive. Uma das reflexões mais vigorosas dedicadas a esse tema, ainda nas franjas do Renascimento, pode ser encontrada no ensaio: Novum Organum, do inglês Francis Bacon (1561-1626), preocupado com a exagerada abstratividade das teorias tradicionais, herdadas na démarche histórica da Idade Média, levou a uma enérgica revalorização do conhecimento que permanecesse próximo do nível empírico, da experiência, da observação direta dos fatos. Para ele, era preciso levar os seres humanos “ao trato das coisas”, para ajuda-los a se libertar do cipoal de noções falsas ou ilusões que lhe eram inculcadas a que Bacon chamava de ídolos.

De acordo com Francis Bacon, quatro eram as representações ou espécies de ídolos: os ídolos das tribos, os ídolos das cavernas, os ídolos do foro e os ídolos do teatro. Os primeiros eram as conveniências específicas em torno do gênero humano, que os homens acreditavam que são, automaticamente, a expressão correta da realidade da natureza e do mundo. Os ídolos da caverna eram as conveniências de cada indivíduo como tal, que levam cada pessoa a acreditar que sua opinião tem, naturalmente validade geral. Os ídolos do foro provinham da comunicação social entre os indivíduos através da linguagem e da imperfeição das palavras, o que resulta “numa adaptação dos homens à inépcia comunicativa”. Havia ainda os ídolos do teatro, resultantes do fato social que todas as ideias – filosóficas, científicas ou meras crendices e superstições – chegam á alma crédula da população na forma de “verdades” encenadas, sancionadas pela autoridade encarnada da tradição e fortalecidas pela capacidade de simplificar as ideias, tornando-as agradáveis e lisonjeiras para as pessoas. Embora combata a representação dos ídolos, Bacon descreve um quadro pouco alentador, que reconhece de maneira bastante realista, nas condições de seu tempo, a força colossal de que esses ídolos dispõem.

Outro pensador renascentista que abordou a questão da ideologia, segundo Konder, “sem nomeá-la”, foi o francês Michel de Montaigne, que denunciava a “estreiteza ideológica” de sua própria cultura, ela europeia. Observando a conquista da América e o brutal desrespeito com que os conquistadores lidavam com as culturas de outros povos (os outros), Montaigne escreveu: - “Nós os chamamos de bárbaros ou povos do [chamado] Novo Mundo, porém nós os superamos em todos tipos de barbárie”. Dois séculos mais tarde, outro pensador francês, Diderot, retomou a crítica de Michel de Montaigne à presunção do eurocentrismo e procurou aprofundar sua análise do fenômeno, no Suplemento à viagem de Bougainville. Diderot sugere que a pretensão de universalidade da cultura dos conquistadores e o comportamento predatório dos europeus no processo de expansão colonial estavam ligados à espinhosa questão da propriedade privada. Para um filósofo do Século das Luzes ainda não era possível aprofundar a reflexão sobre a complicada relação entre a busca da universalidade do conhecimento, de um lado, e os desejos individuais e interesses particulares, de outro. No primeiro diálogo do livro, um personagem afirma que os selvagens possuem a terra em comum e assim levam uma vida mais pacífica que a dos civilizados, já que “toda guerra nasce de uma pretensão comum à mesma propriedade”. No segundo diálogo, um velho taitiano recrimina os brancos, dizendo-lhes: - “Aqui, tudo é de todos. E vocês chegaram para estabelecer uma diferença entre o teu e o meu”.

O Iluminismo tendia a confiar demasiado no conhecimento. Os iluministas tendiam a acreditar que todas as questões, em princípio, poderiam ser adequadamente resolvidas no plano da teoria, se recebessem um tratamento teoricamente correto. Para eles, era difícil pensar que mesmo as boas teorias precisam, modestamente, se remeter à vida, à ação, à história. Havia na perspectiva abstrata dos teóricos das Luzes um otimismo em torno da palavra otimismo surgido na primeira metade do século XVIII. Embora alguns dos campeões da causa ilustrada tenham sido perseguidos e encarcerados pela repressão, eles tinham confiança no futuro e tendiam a crer que o poder de persuasão da argumental racional e a difusão de conhecimentos científicos produziram efeitos devastadores sobre as bases mais resistentes dos males humanos; a ignorância, o preconceito e a superstição. Essa confiança no que estavam e no que estavam pensando animava os pensadores nas batalhas das ideias que travavam; porém, ao mesmo tempo, lhes atenuava as inquietações quando se debruçavam sobre si mesmos e se perguntavam sobre a legitimidade e a confiabilidade de seus conhecimentos. O período napoleônico, agravou esses abalos, atingindo a consciência de amplos setores humanos, alterando seu estado de espírito. As pessoas não conseguiam mais se satisfazer com explicações racionalistas tranquilizadoras, ao se verem envolvidas em situações de tensão e incertezas. Foi então que Destutt de Tracy (2012), retomando ideias dos clássicos das Luzes, especialmente de Condillac, publicou seu livro Elementos de ideologia, em 1801.  Ele não estava sozinho; ele integrava um grupo de intelectuais – os ideólogos – que se dispunham a prestar aos detentores do poder uma assessoria esclarecedora, orientando-os no sentido de promover o aprimoramento das instituições. 

Para passar a uma reflexão mais aprofundada sobre a questão abstrata da ideologia, os teóricos imbuídos de espírito crítico radical precisavam assimilar um pressuposto que ainda não estava disponível nas condições da cultura francesa: uma nova abordagem dos problemas do sujeito como construtor do conhecimento (Immanuel Kant) e como criador da própria realidade conhecida (Friedrich Hegel). Mas o termo sujeito é mais complexo do que se imagina. Vale a pena recorrer à etimologia, para atentar compreendê-lo melhor. A palavra existia no latim medieval, escolástico, empregada em contraposição a objectus. Em sua origem latina, anterior ao seu uso medieval, subjectus é o particípio passado do verbo subjecere, ou subicere, que, entre muitos outros sentidos, significa submeter, subjugar; é composto de sub (embaixo) e jacere (jogar). Subjectus, em assim sendo, significa arremessado (lançado) embaixo (sub) de algo ou de alguém. Isto quer dizer o seguinte: significaria sujeitado, subordinado (posto por uma ordem) ou subalterno, posto sob o comando de um alter, de um outro. Em sua acepção mais antiga, o termo significava, pois, redução à passividade: o sujeito sujeitado. Esse sentido ainda marca a palavra francesa sujet, que podemos traduzir para o português também como assunto, isto é, o tema, a matéria, o objeto de um relato etnográfico ou de uma conversa. Contudo, paralelamente à história antiga, o termo passou a se firmar com um sentido novo, na linha da distinção entre sujeito e objeto, já presente em escritores latinos e pari passu no latim escolástico.           

A reflexão de Marx sobre a questão da ideologia passou a se desenvolver criticamente a partir do famoso “ajuste de contas de sua consciência filosófica com Hegel”. Foi na Crítica do Direito Público Hegeliano, escrita em Kreuznack, uma cidade localizada no estado da Renânia-Palatinado, Alemanha, em meados de 1843, que Marx se insurgiu contra o modo de Hegel interpretar a relação do Estado com a sociedade civil. Os Manuscritos de Kreuznach formam um momento único na história da filosofia, momento em que um pensador ainda imaturo enfrentou, num combate decisivo, a obra de um filósofo consagrado, no seu momento de mais extremado conservadorismo. E não se intimidou com a estatura de seu adversário. Ao contrário, encarou-o com sabedoria e irreverência, seguindo o desenrolar de sua argumentação por meio de citações do texto que se faziam acompanhar de uma refutação indignada e ferina. Sem o instrumental necessário de preparação abstrata da teoria para tal confronto intelectual, Marx serve-se, em grande parte, do materialismo antropológico de Ludwig Feuerbach, com o qual este apresenta a sua crítica da religião, como também da filosofia rousseauniana, para realizar a pretendida crítica analítica da política; esta consubstanciada no Estado prussiano justificado pelo conservadorismo político de Friedrich Hegel. Mas Marx permanecerá enredado inicialmente no idealismo hegeliano, embora com perspectivas de superação de tal idealismo estacionário que, ao fundir ser e pensar, real e racional, finito e infinito, acaba por aceitar toda a sorte de injustiças sócio-políticas do momento político. Isto é, segundo sua concepção dialética que só deve ser justificada pela apresentação do próprio sistema, e exprimir não como substância, mas precisamente como sujeito.

 A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é representação da negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade se reinstaurando, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ipso facto tese e a antítese, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim. Friedrich Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que, para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. Neste sentido, a clareza não seria adequada para conceituar o próprio objeto. Introduziu um sistema de pensamento para compreender a história da filosofia e do mundo, chamado geralmente dialética: uma progressão abstrata na qual cada movimento surge, pois, como solução das contradições inerentes ao movimento anterior.

Marx vinha de um período de interpretação de mais de seis anos de percurso hegeliano, sabia quanto devia ao autor da Fenomenologia do Espírito, mas se dava conta de que a abordagem da vida política pelo mestre encerrava uma grave distorção, segundo Konder, que antes não havia sido notada. Na incisiva ruptura com o ponto de vista hegeliano, Marx atribuía-lhe um formalismo inaceitável. O Estado, invenção dos homens, resultado da atividade concreta deles, era transformado por Hegel numa chave - formal - pela qual se abria a porta para a compreensão do sentido do movimento dos seres humanos. Marx percebeu o equívoco e o destacou: - “Não é a Constituição que faz o povo, mas o povo que faz a Constituição”.  A situação em que os homens criaram e continuam criando seus Estados torna o equívoco hegeliano compreensível. O Estado é uma criação de homens divididos, confusos, alienados. Foi o que Marx observou quando escreveu: “O ser humano é o verdadeiro princípio do Estado, mas é o ser humano não livre. O Estado, então, é a democracia da não-liberdade, a consumação da alienação. A ideia de uma construção teórica “distorcida”, porém ligada a uma situação histórica ensejadora de distorção, é, no pensamento de Marx, desde o primeiro momento de sua articulação original, uma ideia que vincula a ideologia à alienação ou ao estranhamento.  

Isto é, a existência do Estado como um “corpo estranho”, que submete a sociedade ao seu controle, impondo a sua ordem, é um sintoma da alienação, do estranhamento – do fenômeno que Marx costuma chamar de Entfremdung, em alemão – resultante dos movimentos históricos nos quais os seres humanos que compõem a sociedade atuam muito desunidos e perdem a capacidade de se realizar no mundo que estão empenhados em dominar. É inevitável que os indivíduos sejam levados a alimentar a ilusão de um Estado racional, adequado à promoção da lei no funcionamento da sociedade. Essa maneira de conceber o Estado como lugar onde a razão prevalece foi o que Marx, em 1843, criticou mais incisivamente em Friedrich Hegel. Nessa crítica da concepção de teoria que se deu conta do que era, de fato, uma construção ideológica. Marx percebeu com clareza que a concepção hegeliana suavizava, atenuava, a contradição entre a sociedade e o Estado, pois a perspectiva hegeliana não era suficientemente ampla para observar o movimento geral dessa relação contraditória e encaminhar criticamente o pensamento na direção da direção do quadro constituído. Os horizontes de Hegel permaneciam estrangulados pela ótica da propriedade privada e Friedrich Hegel conseguia olhar para o Estado, afinal, era o ângulo interno “do qual o próprio Estado se via”. O Estado se considera universal, por isso não se dá conta do quanto está envolvido, comprometido com a propriedade privada. Marx escreveu: Qual é o poder do Estado político sobre a propriedade privada?

É o próprio poder da propriedade privada, sua essência trazida à sua existência. E o que resta ao Estado político em oposição a essa essência? A ilusão de que é determinante, quando, de fato, é determinado. Trata-se de uma ilusão ideológica. Os seres humanos que pertencem a sociedades profundamente divididas são levados a misturar e confundir o universal e o particular. Em seus escritos da segunda metade de 1843, Marx insistia em proclamar que esses seres humanos ainda não haviam conseguido se tornar indivíduos “de um novo tipo”, capazes de compreender a realidade simultaneamente a partir da ótica de suas respectivas singularidades e a partir da ótica do gênero humano. Marx se apoiava numa concepção de Ludwig Feuerbach para criticar Friedrich Hegel e caracterizava, feuerbachianamente, o indivíduo típico burguês como alguém que ainda não era “ein wirkliches Gattungswesen”, isto é, “um verdadeiro ser da sua espécie”. Por quê?  Segundo Konder, ainda estava prisioneiro de um horizonte estreito e, quando tentava se elevar ao nível da universalidade, enrolava-se em consideradas abstrações pseudo-universais. Nessa direção abstrata, os indivíduos se distanciam uns dos outros. Mesmo no ensaio de Marx a questão judaica fustiga a ilusão de uma universalidade que é pressuposta, porém, se acha, em geral, posta fora do alcance das pessoas. Os homens tentam pensar o quadro histórico das condições em que se encontram, procuram alcançar uma visão de conjunto, porém se perdem nas falaciosas “boas intenções”, ou naquilo que Marx caracterizava como a “abstratividade inócua da religião”. A filosofia que não supera os limites da perspectiva da burguesia se perde num círculo vicioso. Marx propunha uma crítica analítica implacável.

A proximidade em Londres com o movimento operário proporcionava a Marx um ponto de apoio para a crítica radical da sociedade burguesa, uma crítica que Hegel ainda não conseguia fazer. Marx estava convencido de que, sem ir à raiz da alienação, era impossível encaminhar eficazmente a luta para superá-la. Com o crescente movimento operário se tornava possível para o pensamento crítico fundar uma postura revolucionária nova e viabilizar a construção de uma alternativa à sociedade hegemonizada pelas formas institucionalizadas pela burguesia. Pela sua inserção na novas ação histórica transformadora, o pensamento podia alcançar uma compreensão da realidade que reagiria às distorções ideológicas e fortaleceria as ações desalienadoras no mundo alienado. Instalado em Paris, Marx tratou de aprofundar sua reflexão na trilha recém-aberta. Do ângulo dos trabalhadores, procurou elaborar uma original filosofia do trabalho. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, Marx escreveu: - “Toda a chamada história universal é apenas a produção do ser humano pelo trabalho humano”. A questão crucial com que Marx se defrontava era: por que o trabalho se transformou numa atividade tão desagradável, tão sofrida, para os trabalhadores? Por que, no trabalho, a força vira impotência, a criação se torna castração, a humanização resulta em desumanização?  

Depois de iniciar sua fecunda colaboração com Engels, Marx tratou de aprofundar seus estudos de economia política, ajudado pelo amigo e colaborador. Juntos os dois escreveram A Sagrada Família (2019), em áspera polêmica como os neo-hegelianos Bruno e Edgar Bauer, e conforme o senhor Szeliga e Jules Faucher, entre outros. Acusaram-nos de conceber a história como uma força que movia os seres humanos, uma espécie de “sujeito metafísico”, que reduziria os “indivíduos humanos” à condição de seus “carregadores”. Ao subestimarem a importância da atividade concreta dos homens, os neo-hegelianos, na esteira do pensamento de Hegel, tendiam a ver o movimento dos seres humanos como determinado pelo movimento das ideias. Tanto Marx quanto Engels acusavam os neo-hegelianos de cultivarem uma “superstição política”: a de que o Estado organizava racionalmente os indivíduos atomizados na sociedade, pois atribuíram a um dos fatores dela (o Estado) a tarefa de superá-la. Em seu metabolismo os dois pensadores sabiam que o Estado não pairava acima da sociedade e percebiam que ela abria espaço para o fortalecimento de uma ideologia individualista, que induzia as pessoas a minimizarem a interdependência existente entre elas, isto é, incitava os indivíduos a se pensarem descontextualizadamente, fora da história abstrata. Ipso facto, o tema da ideologia foi retomado á parte, em volumoso livro que os pensadores dialéticos elaboraram em conjunto.

A boa novidade é que a significação do conceito em seu ersatz já tinha se tornado tão notável para eles que o termo apareceu, como nas manchetes de jornais como título da obra: A Ideologia Alemã (2007). Ambos insistiram na crítica analítica a Bruno Bauer, mas também comparativamente voltavam suas enérgicas análises histórico-filosóficas contra Max Stirner e no materialismo de Ludwig Feuerbach. Lá esclareciam um de seus pressupostos essenciais na abordagem dos fenômenos ideológicos: a convicção de que “os seres humanos elaboraram até agora falsas representações a respeito deles mesmos, do que são ou deveriam ser”, pois, “as criações das cabeças deles desbordaram, agigantaram-se sobre a própria cabeça. Criadores, os homens se curvaram diante de suas próprias criações”.  No longo ensaio e definitivo ilustram sua crítica às distorções ideológicas da tradição idealista subjetiva, que supervaloriza o poder das representações, com um exemplo sarcástico: o de um sujeito que insiste em convencer os outros de que os homens só se afogam porque, ao caírem na água, ficam presos à ideia de que são mais pesados que a água. Caso se libertem o pensamento do peso, conseguirão flutuar.

A contribuição de Marx à crítica crítica dos representantes da ideologia considerava os intelectuais alemães, por força das condições sociais e históricas específicas e da tradição peculiar, merecedores de uma análise especificamente implacável. Segundo Marx, o atraso em que a sociedade Alemã se encontrava tendia a fazer as “cabeças pensantes” caírem na tentação de supor que as desvantagens práticas materiais poderiam ser facilmente compensadas por pretensas vantagens espirituais de natureza especulativa. Os neo-hegelianos não conseguiam pensar com suficiente radicalidade, como não possuíam suficiente espírito crítico e autocrítico; deixavam-se envolver demasiadamente com as ambições paroquiais e conflitos periféricos, por isso não compreendiam nem o que se passava na Europa nem o que estava acontecendo na própria Alemanha. A nenhum desses filósofos - observou Marx - ocorreu indagar qual pode ser a conexão da filosofia alemã com a realidade alemã, isto quer dizer, “da reflexão crítica com as condições materiais em que vivem os críticos”. Marx demonstrava que havia avançado em sua caracterização sociológica da ideologia. E se dava conta de que essa incapacidade precisava ser compreendida historicamente pela consciência dos homens. – Quando, em toda ideologia, os seres humanos e suas relações aparecem de cabeça para baixo, como uma câmara escura, esse fenômeno também ocorre em função do processo histórico da vida, tal como a inversão dos objetos no negativo das fotografias decorre imediatamente de razões físicas”.                 

Servindo-se desse fio condutor, Marx concluiu que a possibilidade de que a consciência se iludisse da sua própria natureza tinha surgido no processo em que os seres conscientes promoveram a dilaceração do liame social que os unia.  Ipso facto, a divisão do trabalho só se torna efetivamente divisão a partir do momento em que se efetua uma cisão entre o trabalho material e o espiritual. Desse momento em diante, a consciência está em condições de se emancipar do mundo e entregar-se à “pura” teoria, teologia, filosofia, moral etc. Para Konder (2002), esta passagem expressa notadamente que, a origem remota da ideologia, então, estaria na divisão social do trabalho, ou, o que é, a mesma coisa, na propriedade privada. Marx é explícito nessa equiparação: - “divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas; o que uma diz sobre a atividade é o que a outra diz sobre o produto da atividade”. Como sabemos, vale lembrar que o extraordinário e volumoso livro dedicado à crítica da ideologia alemã e seus consortes não chegou a ser publicado durante a vida de Marx que extraiu outra consequência da divisão social do trabalho e constatou que o exercício do poder espiritual exigia que a própria classe dominante se dividisse. E de fato as frações da classe dominante abriam espaço e tempo social no seu ínterim, para que alguns pensadores ou ideólogos ativos se dedicassem a elaborar as representações adequadas à classe, incluindo nelas as ilusões necessárias à reprodução da vida.

Para se desincumbirem eficazmente de sua tarefa, estes pensadores, ou teóricos  precisam acreditar no que fazem; precisam estar convencidos de que estão construindo um conhecimento plenamente verdadeiro. Precisam buscar a universalidade. E isso confere aos “produtos” que elaboram a preciosa possibilidade de chegarem a alcançar algum conhecimento real importante. Melhor dizendo, Marx inferiu de forma interdisciplinar, no prefácio à edição francesa sob a iniciativa de Maurice La Châtre, publicar a tradução de O Capital (1872) em fascículos que de fato “eis uma desvantagem contra a qual nada posso fazer, a não ser prevenir e premunir os leitores ávidos pela verdade. Não existe uma estrada real para a ciência, e somente aqueles que não temem a fadiga de galgar suas trilhas escarpadas têm chance de atingir seus cumes luminosos”. Compreende-se, portanto, que Marx tenha se dedicado a fundo e ao cabo a analisar o sentido abstrato da ideologia e da economia política enquanto distorções culturais que ele sabia serem ideológicas, como a inversão da filosofia de Hegel, as teorias econômicas de Smith e Ricardo, ou os romances de Balzac, autor legitimista e católico sobre o qual Marx chegou a pensar em escrever um ensaio. Nas obras desses ideólogos, cuja perspectiva se limitava aos horizontes da burguesia, o bravo pensador socialista e dialético encontrava magníficos elementos de conhecimento, que o ajudavam a refletir criticamente sobre a sociedade de seu tempo.  Em sua abordagem em torno da cultura está presente o cuidado de incorporar ao movimento do pensamento crítico que se emancipava, revolucionário per se quaisquer elementos que embora provenientes das obras de autores de inspiração conservadora, proporcionassem conhecimentos mais fecundos do que certamente algumas banalidades eventualmente encontráveis nos escritos de autores considerados talvez mais progressistas.

A Conferência Comemorativa de Marx (1983), lembrava Hobsbawm (2001), que tenho a honra de proferir este ano, rememora a morte de Karl Marx, razão pela qual é realizada em 15 de março. Entretanto, este ano rememoramos não apenas o 85º aniversário de sua morte, mas também o 150º de seu nascimento, assim como estamos a poucos meses do centenário da publicação do primeiro volume de O Capital, seu mais importante trabalho teórico, e próximo do 50º aniversário da grande Revolução de Outubro de 1917, o resultado prático de maior alcance de todos os seus trabalhos. Há, pois, vários aniversários, todos relacionados com Karl Marx, que podemos celebrar conjuntamente nesta ocasião. Entretanto, talvez haja uma razão ainda mais oportuna pela qual esta noite seja uma boa ocasião cujo nome é hoje tão conhecido de todos que já não precisa ser descrito nem mesmo na placa comemorativa que o Conselho da Grande Londres colocou na casa, em Soho, onde viveu pobremente e onde agora os fregueses de um famoso restaurante ceiam com prodigalidade. Trata-se de uma razão que Marx, com o seu sentido da ironia da história, teria apreciado enquanto nos reunimos nesta noite. 

Marx e Engels depositaram grandes esperanças no movimento operário inglês da década de 1840. Mais do que isto, suas esperanças de uma revolução europeia dependiam em grande medida das mudanças no país capitalista mais avançado, o único com um movimento consciente do proletariado a nível das massas. Isto não ocorreu. A Inglaterra permaneceu relativamente imune à revolução de 1848. Entretanto, ainda durante algum tempo, Marx e Engels continuaram a esperar por um ressurgimento dos movimentos na Inglaterra e no continente. Em princípios da década de 1850, ficou claro que uma nova era de expansão capitalista começara tornando a revolução muito menos provável; e quando nem sequer a grande crise mundial seguinte - a de 1857 – levou de fato a um renascimento do cartismo, tornou-se óbvio que já não esperaram muito dele durante o resto da vida de Marx e suas referência ao movimento expressam uma crescente decepção. Marx e Engels não foram, evidentemente, os únicos a expressar este desapontamento na esfera dinâmica da política. Se ambos deploraram a “falta de brio dos velhos cartistas” no movimento social da década de 1860, o mesmo fizera os sobreviventes não-marxistas do período heróico, como por exemplo Thomas Cooper. Duas observações, breves, são dignas de nota ao tratarmos a questão.

A primeira é que esta “aparente contaminação burguesa dos operários ingleses”, este “aburguesamento do proletariado inglês” fará muitos de nós lembrar o que tem ocorrido no movimento operário durante o período ainda mais prolongado de expansão e prosperidade capitalista que notadamente estamos vivendo. Karl Marx e Friedrich Engels foram, evidentemente, cuidadosos em evitar a superficialidade teórica dos sociólogos acadêmicos, que pensam que “aburguesamento” significa a conversão dos trabalhadores em cópias modestas da classe média, uma espécie de “mini-burguesia”. Não era assim e Marx o sabia muito bem. A segunda observação, que também tem sua relevância para a conjuntura atual, é que os meados da era vitoriana não levaram Marx a se tornar um Fabiano ou um revisionista bernsteiniano que é o mesmo comparativamente que um Fabiano em roupagem marxista. O que fizeram foi alterar suas perspectivas estratégicas e táticas. Podem tê-lo levado a ser pessimista a curto prazo do movimento da classe operária na Europa Ocidental, especialmente depois e 1871, mas não a abandonar a convicção de que a emancipação da espécie humana era possível, nem de que deixaria de fundar-se no movimento proletário. Ele era e continuou a ser um socialista revolucionário, não porque tenha negligenciado as tendências contrárias ou subestimado suas forças – não tinha quaisquer ilusões sobre o movimento operário inglês ocorrido nos anos 1860 e 1870 -, mas porque não as considerava tout court como historicamente decisivas.   

Os representantes políticos de uma classe podem alcançar níveis excepcionalmente elevados de eficiência em suas ações históricas, apesar das limitações de seus horizontes ideológicos. Os representantes literários, como já observara Michael Löwy e mesmo Leandro Konder, podem produzir expressões vigorosas, dignas de admiração irrestrita, apesar das limitações de seus horizontes ideológicos. Como admirador das epopeias de Homero, das tragédias de Ésquilo e de Sófocles, do teatro de Shakespeare, Marx sabia quanto seria vã e ridícula qualquer tentativa de desqualificar esses autores através da invocação das marcas deixadas pela ideologia em suas obras. Também no exame das categorias e dos conceitos mais abstratos do pensamento filosófico, Marx reconhecia a capacidade de tais construções analíticas perdurarem e, ao ser compreendidas por pessoas de outros tempos e de outras culturas, demonstrarem sua universalidade. O que o ator de O Capital não podia admitir era que esses conceitos e essas categorias capazes de perdurar fossem postos fora da história. Para genuíno pensador comunista, era evidente que eles perduravam na história. Na perspectiva de Marx, as discussões a respeito da universalidade e singularidade, ou a respeito do duradouro e do efêmero deveriam se articular com o tema dos valores, isto é, deveriam levar em conta a existência de valores bem distintos conferidos pelos seres humanos ao que lhes convém momentânea ou circunstancialmente e ao que significa muito para eles, em geral, e é reconhecido como importante socialmente no âmbito das histórias de lutas da humanidade.  

O ponto de partida de análise é a relação social que se estabelece através dos indivíduos produzindo em sociedade. O caçador e pescador individuais e isolados, de que partem Smith e Ricardo, pertencem às inocentes ficções do século XVIII. São robinsonadas que não exprimem de forma alguma, como parecem crer alguns historiadores da civilização, da literatura e posteriormente com a Sétima Arte, uma simples reação contra os excessos de requinte e um regresso a um estado de natureza especulativo e mal compreendido em filosofia. Do mesmo modo o contrato social de Rousseau, que estabelece, entre indivíduos independentes por natureza, relações e laços por meio de um pacto, nem por isso se acha mais assentado em um tal naturalismo. Não passa de aparência, aparência por trás das relações de ordem puramente estética nas pequenas e grandes “robinsonadas” na sociedade de classes que vem se preparando desde o século XVI e que, no século XVIII, caminhava a passos de gigante para a maturidade de suas relações. Nesta sociedade onde reina a livre concorrência, o indivíduo aparece isolado dos laços naturais que fazem dele, em épocas históricas anteriores, um elemento de um conglomerado humano determinado e delimitado. Quanto mais se recua na história, mais o indivíduo – e, por conseguinte, também o indivíduo produtor – se apresenta num estado de dependência, membro de um conjunto mais vasto; este estado começa por se manifestar totalmente natural na família, e na família ampliada até as dimensões da tribo; depois, nas diferentes formas de comunidades provenientes da oposição e da fusão das tribos. Só no século XVIII, as diferentes formas do conjunto social passaram a apresentar-se ao indivíduo como um simples meio de realizar seus objetivos peculiares, como uma necessidade exterior.

Assim, sempre que falamos de produção social, é à produção num estágio determinado de desenvolvimento social que nos referimos – à produção de indivíduos vivendo e sociedade. Não há produção possível sem trabalho passado acumulado; esse trabalho será a habilidade que o exercício repetido desenvolveu e fixou na mão do selvagem. Entre outras coisas, o capital é, também, um instrumento de produção, é também trabalho passado, objetivado. Logo, segundo Marx, o capital é uma relação natural universal e eterna; mas com a condição de negligenciar precisamente o elemento específico, o único que transforma em capital o instrumento de produção, o trabalho acumulado. Imediatamente, o consumo é também produção, à semelhança da natureza, em que o consumo dos elementos e das substâncias é a produção da planta. É evidente que através da alimentação, por exemplo, forma particular de consumo, o homem produz o seu próprio corpo. Trata-se de produção consumidora. Mas, objeta a economia, esta produção que se identifica com o consumo é uma segunda produção, resultante da destruição do primeiro produto. Na primeira, o produtor objetiva-se; na segunda, pelo contrário, é o objeto que ele criou que se personifica. Esta produção consumidora – apesar de constituir uma unidade imediata da produção e do consumo, é essencialmente diferente da produção propriamente dita.

A unidade imediata, em que a produção social coincide com o consumo e o consumo com a produção, deixa subsistir a dualidade intrínseca de e entre ambos. Portanto, a produção é imediatamente consumo, o consumo imediatamente produção. Cada um é imediatamente o seu contrário. Mas opera-se simultaneamente um movimento intermediário entre os dois termos. A produção é a intermediária do consumo, a quem fornece os elementos materiais. Por seu lado, o consumo é também o intermediário da produção, dando aos produtos o motivo que os justifica como produtos. Só no consumo o produto conhece sua realização. Sem produção não há consumo; mas sem consumo não há produção, porque neste caso a produção não teria nenhum objetivo. O consumo produz duplamente a produção, porque pelo consumo o produto se torna realmente produto através da relação estabelecida como fetiche. O consumo cria a necessidade de uma nova produção, por conseguinte a razão ideal, abstrata, o móbil interno da produção sua condição prévia. Mas a produção não é apenas imediatamente consumo, nem o consumo imediatamente produção; igualmente a produção não é apenas um meio para o consumo, nem o consumo um fim para a produção, no sentido em que cada um dá ao outro o seu objeto, a produção o objeto exterior do consumo, o consumo o objeto figurado da produção.

De fato, cada um não é apenas imediatamente o outro, nem apenas intermediário do outro: cada um, ao realizar-se, cria o outro, cria-se sob a forma do outro. É o consumo que realiza plenamente o ato da produção ao dar ao produto o seu caráter acabado de produto, ao dissolvê-lo consumindo a forma objetiva independente que ele reveste, ao elevar à destreza, pela necessidade de repetição, a aptidão desenvolvida no primeiro ato da produção; ele não é somente o último ato pelo qual o produto se torna realmente produto, mas o ato pelo qual o produtor se torna também verdadeiramente produtor. A produção motiva o consumo ao criar o modo determinado do consumo, e originalmente em seguida o apetite do consumo, a faculdade de consumo sob a forma de necessidade. O consumo enquanto necessidade é um fator interno da atividade social produtiva; mas esta é o ponto de partida da realização e, por conseguinte, o seu fator predominante, o ato em que todo o processo novamente se desenvolve. O indivíduo produz um objeto, e pelo consumo deste regressa a si mesmo, mas não o faz enquanto indivíduo produtivo e que se produz. O consumo surge como momento histórico do primeiro ato humano. Nossos olhos estão sendo condicionados para enxergarem coisas que se movimentam. Objetos na relação social por trás dos quais desaparecem os sujeitos que promovem os seus próprios deslocamentos. A condensação é o resumo das ideias que têm pontos em comum e analogia entre si.

A própria linguagem cotidiana reforça o condicionamento, quando nos leva a dizer: o pão subiu, a manteiga baixou, o açúcar sumiu, o leite melhorou, os fósforos pioraram etc. Difundem-se por toda a parte e com repetição e insistência as imagens de uma objetividade ilusória, que encobre e mascara a presença da subjetividade cultural, quer dizer, disfarça a realidade das iniciativas contraditórias e das motivações contrastantes de seres humanos divididos. São impelidos a agir comunicativamente sem poder ter plena consciência da ação que empreendem. E é no contexto dessa reflexão que Marx escreve uma de suas frases mais reconhecidas, citadíssima como caracterização da situação social criada pela ideologia: Sie wissen es nicht, aber sie tun es. Já no seu tempo a atualidade de pensar os meios de trabalho mediante os quais funciona a ideologia é que o significado abstrato revela sua singularidade que envolve a sociedade inteira. A crescente imposição de procedimentos quantificadores e de critérios quantitativos, inclusive nos meios acadêmicos impede através da ilusão ideológica que as pessoas que vivem do trabalho acadêmico de pesquisa, ciência e tecnologia, reconheçam a importância da análise abstrata da ideologia que permeiam a existência delas. 

Como força de trabalho é expressa na criatividade sociológica do sujeito humano, que chamamos sociologia das emoções que é comercializada. É o poder do homem de acrescentar valor à matéria-prima que lhe é submetida que é posto no balcão dos cargos e das profissões para ser negociado. A trajetória de Karl Marx & Friedrich Engels foi marcada por ásperas controvérsias. Foi questionada não só pelo significado abstrato da ideologia, não só por análises teóricas de grupos de conservadores comprometidos com os horizontes da burguesia, mas também por escritores progressistas e ativistas e líderes socialistas, ligados ao movimento operário, que os achavam demasiado radicais ou autoritários. Na conceituação da ideologia, por exemplo, alguns textos dos magnânimos autores do Manifesto Comunista sublinham com certa unilateralidade, em função das necessidades do combate, a dimensão da precária consciência. Engels, numa carta a Franz Mehring, empenhado em educar a curto prazo o crítico alemão, no espírito gozoso da militância socialista mais combativa, escreveu: - “A ideologia é um processo que o chamado pensador executa certamente com consciência, mas com uma falsa consciência. As verdadeiras forças motrizes que o motivam permanecem ignoradas; de outra forma, não se trataria de um processo ideológico”. Se nos detivermos no exame da tese com o filósofo Leandro Konder, que a ideologia é um processo e reconhecemos que quem o executa é um sujeito movido por uma falsa consciência, porém não podemos deixar de levar em conta, também, que o processo da ideologia é maior do que a reprodução da falsa consciência, que ele não se reduz à falsa consciência, já que incorpora necessariamente em seu movimento conhecimentos verdadeiros. Os conceitos se ligam a avaliações que, por sua vez, nos remetem a circunstâncias específicas, culturais, de modo que mesmo as teorias mais abstratas podem precisar de observações capazes de relacioná-las a um quadro vivo de pensamento e referências historicamente concretos. 

Quando Marx comparou a inversão acarretada pela representação ideológica à inversão promovida pela técnica da fotografia na câmara escura (nos negativos), ele não estava caracterizando com rigor científico a estrutura do funcionamento da ideologia; estava apenas recorrendo a uma imagem sugestiva, que lhe foi inspirada por uma invenção muito recente, que na época exercia poderoso fascínio sobre as pessoas, inclusive o próprio Marx. Tais distorções sociológicas não se explicam mediante o emprego de uma fórmula extraída da física, da óptica. Os problemas concernentes à ideologia nos remetem a um processo complexo. Ipso facto, o que Marx fez com o seu conceito de ideologia foi justamente chamar atenção dos seus contemporâneos para uma questão atual e de enorme importância e que talvez não comporte uma solução cabal e conclusiva, nem a curto, nem a médio prazo. Os marxistas do final do século XIX e sobretudo do século XX, em sua maioria, adotaram uma concepção acadêmica dedutivamente sociológica da ideologia como ilusão, limitando-se ao recurso técnico de identificar as formas diretas mais simples da expressão dos interesses materiais de classe  sobre o discurso abstrato da ideologia, nos programas de ação ou na produção artística. A adoção desta concepção estreita da ideologia era facilitada por um duplo movimento, bastante curioso, de admiração do processo disciplinar de Marx e, ao mesmo tempo, desconhecimento global de sua obra e sobre a aplicação do método abstrato de análise.  A ideologia como criação humana é eterna.

Bibliografia geral consultada.

RIBEIRO, Jayme Fernandes, Os Combatentes da Paz: A Participação dos Comunistas Brasileiros na Campanha Pela Proibição das Armas Atômicas (1950). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2003; KONDER, Leandro, Lukács. Porto Alegre: L&PM Editores, 1980; KONDER, Leandro, FIGUEIREDO, Eurico de Lima & CERQUEIRA FILHO, Gisálio (Org.), Por que Marx? Rio de Janeiro: Editora Graal, 1983; KONDER, Leandro, Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1977; Idem, O Marxismo na Batalha das Ideias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984; Idem, A Derrota da Dialética. A Recepção das ideias de Marx no Brasil até o começo dos Anos Trinta. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1987; Idem, O Futuro da Filosofia da Práxis. O Pensamento de Marx no século XXI. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1992; Idem, A Questão da Ideologia. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2002; Idem, Hegel. A Razão Quase Enlouquecida. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1991; Idem, Memórias de um Intelectual Comunista. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2008; Idem, Em Torno de Marx. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010; TEIXEIRA FILHO, Francisco Luciano, O Lugar do Indivíduo em O Capital de Karl Marx. Dissertação de Mestrado.  Programa de Pós-graduação em Filosofia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2012; DESTUTT de TRACY, Antoine, Oeuvres Complètes. Editeur Claude Jolly. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 2012; OLIVEIRA, Jorge Luís de, O Marxismo como Teoria Revolucionária na Formação Político-Educativa dos Trabalhadores versus a Formação Político-Sindical Cutista: Um Exame Onto-crítico. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2012; MASSUIA, Rafael da Rocha, A Recepção das Ideias Estético-Literárias de Lukács em Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho: Análise de suas Produções Teórico-Críticas. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara: Universidade Estadual Paulista, 2013; FRAZÃO, Cicero Rommel Sales, A Concepção de Ideologia em Marx. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Mestrado Acadêmico em Filosofia. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2015; REICHHARDT, David Creimer, A Multidão Silenciosa: Vladimir Herzog, Assassinado (São Paulo, 1975): Etnografia de um Evento. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Campinas: Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2015; LUNATCHÁRSKI, Anatoli, Revolução e Arte. 1ª edição. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2018; entre outros.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Judas, Messias Negro - Fred Hampton & Partido dos Panteras Negras.

                                                 Se você for me honrar, lembre-se de mim e trabalhe pelo povo”. Fred Hampton                          

Fred Hampton nasceu em Summit, em 30 de agosto de 1948 e faleceu na cidade de Chicago, em 4 de dezembro de 1969. Foi um ativista e revolucionário afro-americano marxista-leninista, presidente da filial de Illinois do Partido dos Panteras Negras (BPP) e vice-presidente do BPP nacional. Hampton e o também Pantera Negra Mark Clark foram assassinados durante uma batida realizada por uma unidade tática da Procuradoria do Estado do Condado de Cook, em conjunto com o Departamento de Polícia de Chicago e o Gabinete Federal de Investigação em dezembro de 1969. A operação política que resultou nas mortes de Fred Hampton e Mark Clark (1947-1969) fazia parte das ações coordenadas pelo Counter Intelligence Program, um programa conduzido pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) dos Estados Unidos com o objetivo de “vigiar, infiltrar, desacreditar e perturbar ativistas e críticos do governo”. Os registros demonstram que os recursos da Counter Intelligence Program tiveram como alvo grupos e indivíduos que o FBI considerou subversivos, incluindo organizações feministas, o Partido Comunista, opositores da Guerra do Vietnã, ativistas dos direitos civis e dos negros, por exemplo Martin Luther King Jr. (1929-1968) e o Partido dos Panteras Negras, ambientalistas e protetores dos direitos dos animais, movimentos sociais de Independência, incluindo Independência de Porto Rico, uma ilha caribenha e um território não incorporado dos Estados Unidos, uma variedade de organizações que faziam parte da chamada Nova Esquerda que surgiram nos Estados Unidos à partir da década de 1960, marcando uma evolução em relação à esquerda tradicional, que era concentrada no ativismo trabalhista. Ela abrange protestos contra a Guerra do Vietnã (1955-1975), o movimento pelos direitos civis e luta por justiça social envolvendo questões de classe, gênero, raça e sexualidade.

O termo também se refere a um movimento mais contemporâneo, associado a figuras como Alexandria Ocasio-Cortez, que defende políticas progressistas como o combate às mudanças climáticas e a desigualdade através da tributação financeira de ricos e da universalização da saúde. Especificamente a grupos de supremacia branca como a Ku Klux Klan, uma organização que tem por base a formação de grupo de ódio de base protestante, de extrema-direita, supremacista branco e extremista cristão, que defende correntes reacionárias de nacionalismo branco, anti-imigração e, especialmente em iterações posteriores, o nordicismo, uma ideologia racialista que afirma a superioridade da chamada “raça nórdica” e considera-a em perigo de extinção, o anticatolicismo, a discriminação, hostilidade ou preconceito contra o catolicismo, a Igreja Católica, seus padres ou seus adeptos. Esse fenômeno pode se manifestar através de diversas formas de intolerância, como discursos de ódio, perseguições e oposição a dogmas e práticas, sendo historicamente ligado a debates políticos e sociais e o antissemitismo, o ódio, preconceito e discriminação contra os judeus, sendo uma forma de racismo que pode se manifestar individualmente ou de forma organizada, desde expressões de ódio até violência e políticas de perseguição, historicamente expressos através do terrorismo voltado a grupos ou indivíduos aos quais eles politicamente se opõem. Todos as três encarnações do grupo haviam clamado notadamente pela “purificação” da sociedade estadunidense e todos são considerados organizações de extrema-direita e o grupo de extrema-direita Partido dos Direitos dos Estados Nacionais.  

A análise marxista tem sido aplicada a diversos temas e tem sido mal interpretada e modificada durante o curso de seu desenvolvimento interno, resultando em numerosas e às vezes contraditórias teorias que caem sob a rubrica de “marxismo” ou “análise marxista”, mais próximo da ideologia do que da concepção de método de interpretação da realidade social. O marxismo baseia-se na explicação materialista do desenvolvimento da sociedade, tendo como ponto de partida as atividades econômicas necessárias para satisfazer as necessidades materiais da sociedade humana. A forma de organização econômica ou modo de produção é compreendida como a origem, ou pelo menos uma influência direta, da maioria dos outros fenômenos sociais - incluindo as relações sociais, sistemas políticos e jurídicos, moralidade e ideologia. Assim, o sistema econômico e as relações sociais são chamadas de infraestrutura e superestrutura. À medida que as forças sociais e produtivas, principalmente a tecnologia melhoraram, as formas existentes de organização social tornam-se ineficientes e asfixiam o progresso. Estas ineficiências se manifestam como contradições sociais na forma da luta de classes. Na análise marxista, conflitos de classe dentro do capitalismo surgem devido à intensificação das contradições entre produção mecanizada e produtiva e a socialização realizada pelo proletariado, além da propriedade privada e da apropriação do produto excedente na forma de mais-valia por uma minoria de proprietários privados chamados de burguesia. Como a contradição torna-se aparente para o proletariado, a agitação social entre as duas classes antagônicas se intensifica, culminando em uma revolução social.

                            


O eventual resultado a longo prazo dessa revolução seria o estabelecimento do socialismo - um sistema socioeconômico baseado na propriedade cooperativa dos meios de produção, na distribuição baseada na contribuição e produção organizada diretamente para o uso. Marx formulou a hipótese de que, como as forças produtivas e a tecnologia continuam a avançar, o socialismo acabaria por dar lugar a uma fase comunista de desenvolvimento social em uma sociedade sem classes, erigida na propriedade comum e no princípio “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. O marxismo desenvolveu-se em diferentes ramos e escolas de pensamento. Algumas vertentes colocam uma maior ênfase em determinados aspectos do marxismo clássico, enquanto rejeitam ou tiram a ênfase de outros aspectos do marxismo, às vezes combinando a análise marxista com conceitos não marxistas. Outras variantes do marxismo veem algumas de suas características como uma força determinante no desenvolvimento social - como o modo de produção, de classe, relações de poder ou propriedade - enquanto discutem outros aspectos como menos importantes ou irrelevantes. Apesar de compartilhar premissas semelhantes, as diferentes escolas de pensamento do marxismo podem chegar a conclusões contraditórias entre si. Por exemplo, diferentes economistas marxistas têm explicações contraditórias de crise econômica e previsões diferentes para o resultado de tais crises. Além disso, diferentes variantes teóricas e práticas do marxismo aplicam a análise marxista para estudar diferentes aspectos da sociedade, por exemplo, crises econômicas ou feminismo.

Estas diferenças teóricas levaram vários partidos socialistas e comunistas e movimentos políticos a adotar diferentes estratégias políticas para alcançar o socialismo e defender diferentes programas e políticas entre si. Um exemplo disso é a divisão entre socialistas revolucionários e reformistas que surgiram no Partido Social-Democrata Alemão (SPD) durante o início do século XX. Da mesma forma, embora os bolcheviques da Rússia terem declarado o leninismo e, posteriormente, o marxismo-leninismo como o único desenvolvimento legítimo do marxismo, os mencheviques e muitos outros sociais-democratas em todo o mundo considerou-os desvios totalitários. Depois do marxismo-leninismo, surgiria o marxismo-leninismo-maoismo, formalizado pelo Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso, e do marxismo-leninismo-maoismo, o marxismo-leninismo-maoísmo-Pensamento Gonzalo se desenvolveria. As diversas compreensões marxistas da história social e política têm sido adotadas por acadêmicos nas disciplinas de arqueologia e antropologia, estudos midiáticos, ciência política e filosofia. Em janeiro de 1970, um júri realizou um inquérito e determinou a morte de Hampton e Clark como “homicídio justificável”. Porém, uma ação civil foi posteriormente movida em nome dos sobreviventes e dos parentes de Hampton e Clark, sendo “resolvida” em 1982 em um Acordo de U$ 1,85 milhão compartilhado pela Cidade de Chicago, o Condado de Cook e o governo federal cada um pagando um terço do montante a um grupo de nove autores.

Hampton nasceu em 30 de agosto de 1948, na atual Summit, Illinois, e cresceu em Maywood, dois subúrbios de Chicago. Seus pais haviam se mudado para o norte da Louisiana, como parte da Grande Migração de Afro-Americanos no início do século XX para o sul. Os dois trabalharam na Argo Starch Company. Quando jovem, Hampton era talentoso tanto na sala de aula quanto no campo de atletismo, e desejava muito jogar no campo central do New York Yankees. Ele se formou com honra na Proviso East High School em 1966. Após sua graduação, Hampton se matriculou no Triton Junior College, nas proximidades de River Grove, Illinois, onde se formou em direito. Ele planejava se familiarizar com o sistema legal, usá-lo como defesa contra a polícia. Mais tarde, quando ele e seus colegas Panteras Negras seguiram a polícia em seu programa de supervisão comunitária, atentos à brutalidade policial, eles usaram seu conhecimento da lei como defesa. No dia 3 de dezembro de 1969, William O`Neal, um informante do FBI infiltrado no partido, drogou secretamente Hampton, colocando uma pílula para dormir em sua bebida. Pouco depois, os agentes da lei iniciaram uma batida matinal no apartamento de Hampton. Mesmo não possuindo mandado de prisão por porte de armas, eles entraram no apartamento com armas de fogo e logo iniciaram os disparos. Mark Clark, que estava guardando Hampton, foi morto no local. Hampton e sua noiva, Deborah Johnson (também chamada de Akua Njeri), estavam dormindo em seu quarto. Eles ficaram feridos, mas sobreviveram ao tiroteio. Quando um oficial percebeu que Hampton não havia sido morto, ele atirou duas vezes na cabeça do ativista. Johnson, que esperava um filho com Hampton, não foi morta. Os outros sete Panteras Negras presentes foram acusados ​​de vários crimes graves, incluindo tentativa de assassinato, violência armada e várias acusações de armas. Uma investigação do Departamento de Justiça revelou que a polícia de Chicago havia disparado até 99 tiros e os Panthers dispararam apenas uma vez, as acusações foram retiradas.      

Judas e o Messias Negro tem como representação social um filme norte-americano de drama histórico biográfico de 2021, dirigido e produzido por Shaka King, nascido em 7 de março de 1980, é um diretor, roteirista e produtor de cinema americano. Ele é mais reconhecido por dirigir e ser coautor do filme biográfico de 2021, que escreveu o roteiro com Will Berson, baseado em uma história da dupla e de Kenny e Keith Lucas. Uma cinebiografia de Fred Hampton estava em desenvolvimento há vários anos, com os irmãos Lucas e Will Berson escrevendo e apresentando roteiros desde 2014. A versão de Berson quase foi produzida com F. Gary Gray na direção, mas Stephen King foi contratado para dirigir quando o projeto não se concretizou. O elenco se juntou ao projeto em 2019, com a aprovação da família de Hampton, e as filmagens começaram naquele outono em Ohio. O filme narra a traição de Fred Hampton (interpretado por Daniel Kaluuya), presidente da seção de Illinois do Partido dos Panteras Negras no final da década de 1960 em Chicago, por William O`Neal (interpretado por LaKeith Stanfield), um informante do FBI. Jesse Plemons, Dominique Fishback, Ashton Sanders, Darrell Britt-Gibson, Lil Rel Howery, Algee Smith, Dominique Thorne e Martin Sheen também fazem parte do elenco. O Federal Bureau of Investigation (FBI), é o principal órgão federal de aplicação da lei e serviço de inteligência doméstica dos Estados Unidos.

Sua missão é proteger o país de ameaças à segurança nacional, como terrorismo, cibercrime e espionagem, além de investigar violações de leis federais. Opera sob a jurisdição do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e é uma agência com foco principal dentro do país.  Suas funções políticas principais são: Ações de inteligência e investigação de crimes. Prioridade: Proteger os Estados Unidos de ataques terroristas. Outras investigações: Incluem cibercrime, crime organizado transnacional, corrupção pública, violações de direitos civis e outros crimes de grande porte. Jurisdição: Principalmente doméstica, mas também investiga crimes contra americanos no exterior. Possui 56 escritórios de campo nos Estados Unidos da América e mais de 400 agências residentes em cidades menores. Foi originalmente estabelecido em 1908 como o Bureau of Investigation (BOI) e renomeado para Federal Bureau of Investigation (FBI) em 1935. Filho único, Shaka King nasceu em 7 de março de 1980 em Crown Heights e cresceu em Bedford-Stuyvesant, ambos no Brooklyn, Nova York. A família da mãe era de Barbados uma ilha do Caribe Oriental e uma nação independente da British Commonwealth e Panamá, enquanto a família de seu pai era do Panamá. Ambos trabalhavam como professores da rede pública e eram “muito afrocentrados”. A educação inicial de King ocorreu nos bairros de East Harlem e Fort Greene. Ele frequentou uma escola preparatória predominante frequentada por brancos em Bay Ridge durante o Ensino Fundamental e Médio. Mas foi no Ensino Médio que ele descobriu sua paixão pela escrita criativa.

King estudou Ciência Política e fez seu primeiro curso de produção cinematográfica no Vassar College. Depois de se formar, praticou roteiro enquanto trabalhava como conselheiro e tutor de jovens. Em 2007, ingressou em um programa de pós-graduação em cinema na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, onde foi aluno do extraordinário cineasta Spike Lee. A tese de King para seu mestrado em Belas Artes resultou no longa-metragem Newlyweeds. O primeiro longa-metragem de King, Newlyweeds, é sobre um jovem casal de “espírito livre” que vive em Bedford-Stuyvesant e prefere consumir maconha e haxixe. O filme estreou no Festival de Cinema de Sundance de 2013. Ele apresentou seu próximo filme, Mulignans, no programa de Curtas-Metragens Narrativos dos EUA no Festival de Cinema de Sundance de 2015. Seu curta-metragem de 2017, LaZercism, estrelado por Lakeith Stanfield, narra a história social de um mundo em que pessoas brancas sofrem de “glaucoma racial”. Stanfield também aparece no segundo longa-metragem de King, Judas and the Black Messiah, no qual Daniel Kaluuya interpreta o papel de Fred Hampton. O longa-metragem foi indicado a seis premiações, incluindo indicações específicas para King nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme. Mais recentemente, ele fechou um contrato de exclusividade com a FX Productions para desenvolver programas de televisão. Angelique Jackson da conceituada revista Variety observou que King é um daqueles “cineastas negros [que] estão oferecendo um olhar sem retoques sobre o legado da era dos direitos civis dos anos 1960, examinando a história torturada do racismo na América...”.

            Em 1968, William O`Neal, um jovem de 19 anos com “pequenos delitos, é preso em Chicago após tentar roubar um carro fingindo ser um agente federal”. Ele é abordado pelo agente especial do FBI, Roy Mitchell, foi reconhecido no FBI por sua habilidade em desenvolver informantes no “campo racial”. Agora sabemos a extensão das atividades de Mitchell — incluindo como elas ajudaram no assassinato de Fred Hampton, do Partido dos Panteras Negras, que oferece a O`Neal a possibilidade de suas acusações serem retiradas se ele trabalhar disfarçado para o FBI. O'Neal é designado para se infiltrar na seção de Illinois do Partido dos Panteras Negras (BPP) e obter informações sobre seu líder, Fred Hampton. O`Neal começa a se aproximar de Hampton, que trabalha para formar “alianças com gangues rivais e milícias”, ao mesmo tempo que expande seu trabalho comunitário através do Programa de Café da Manhã Gratuito para Crianças do Partido dos Panteras Negras. A oratória persuasiva de Hampton acaba ajudando a formar a Coalizão Arco-Íris multirracial, juntamente com os Young Lords e a Young Patriots Organization. Hampton também se apaixona por Deborah Johnson, uma companheira do Partido dos Panteras Negras. O'Neal começa a repassar informações para Mitchell, que o paga em troca. Após Hampton ser preso por supostamente roubar US$ 71 em sorvetes, O'Neal começa a subir na hierarquia e é promovido a capitão de segurança.

Quando um tiroteio entre a Polícia de Chicago e o Partido dos Panteras Negras ocorre no escritório da filial, O`Neal escapa enquanto a polícia bombardeia o prédio com bombas incendiárias. Indignado por ter quase sido morto, O'Neal tenta deixar de ser informante, mas Mitchell se recusa, ameaçando-o com as acusações originais. Três meses depois, Hampton é libertado da prisão enquanto recorre das acusações e se reencontra com Deborah, que agora está grávida de seu filho. Jimmy Palmer, membro do Partido dos Panteras Negras, que foi hospitalizado com ferimentos leves após ser baleado por um policial, morre inesperadamente durante a transferência para outro hospital. Presumindo que a polícia tenha assassinado Jimmy, Jake Winters, também membro do partido, entra em confronto armado com os policiais, matando vários agentes antes de ser morto a tiros. Após o recurso de Hampton ser rejeitado, o diretor do FBI, J. Edgar Hoover (1895-1972), ordena que ele seja “neutralizado” em vez de permitir que retorne à prisão. Mitchell coage O`Neal a ajudar no plano político, avisando-o de que os Panteras Negras se voltarão contra ele se descobrirem que ele é um informante, e O`Neal relutantemente concorda em ajudar. Mais tarde, O`Neal recebe um frasco de sedativos e é instruído a drogar a bebida de Hampton por outro colaborador infiltrado do FBI, que lhe entrega seu antigo distintivo falso do FBI para comprovar suas credenciais. Na noite seguinte, membros dos Panteras Negras se reúnem no apartamento de Hampton antes de ele ser levado para a prisão.

Um líder de gangue aliado oferece dinheiro a Hampton para fugir do país, mas ele recusa e, em vez disso, ordena que uma clínica seja estabelecida com o dinheiro em memória de Jake. Durante a noite, O`Neal droga a bebida de Hampton a contragosto e sai logo depois. Horas mais tarde, policiais e agentes invadem o apartamento e assassinam Hampton após atirarem ou ferirem os outros Panteras Negras, enquanto Deborah é presa. Mais tarde, O`Neal encontra-se com Mitchell, que lhe dá dinheiro e um par de chaves de um posto de gasolina que lhe foi cedido. O`Neal tenta demitir-se novamente, mas, relutantemente, aceita o dinheiro e as chaves e guarda-os no bolso. São exibidas imagens de arquivo dos discursos de Hampton, incluindo seu cortejo fúnebre, e uma entrevista que O`Neal concedeu em 1989. Os letreiros indicam que O`Neal continuou a trabalhar como informante dentro do Partido dos Panteras Negras antes de tirar a própria vida em 1990. Um processo foi aberto contra o FBI em 1970 e, 12 anos depois, foi resolvido por US$ 1,85 milhão. Na época do lançamento do filme, Fred Hampton Jr. e sua mãe atuavam como presidente e membro do conselho do grupo Black Panther Party Cubs. 

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), dezenas de milhares de negros deixaram os estados do Sul durante a Segunda Grande Migração, mudando-se para Oakland e outras cidades da Área da Baía para encontrar trabalho nas indústrias bélicas, como os estaleiros Kaiser. Essa migração em massa transformou a Área da Baía, bem como cidades em todo o Oeste e Norte, alterando a demografia antes dominada por brancos. Uma nova geração de jovens negros crescendo nessas cidades enfrentou novas formas de pobreza e racismo desconhecidas para seus pais e buscou desenvolver novas formas de política para combatê-las. A filiação ao Partido dos Panteras Negras “consistia em migrantes recentes cujas famílias viajaram para o norte e oeste para escapar do regime racial do Sul, apenas para se depararem com novas formas de segregação e repressão”. No início da década de 1960, o movimento pelos direitos civis desmantelou o sistema Jim Crow de subordinação racial no Sul com táticas de desobediência civil não violenta e exigindo plenos direitos de cidadania para os negros.  No entanto, pouca coisa mudou nas cidades do Norte e do Oeste. À medida que os empregos da época da guerra e do pós-guerra, que atraíram grande parte da migração negra, “fugiram para os subúrbios juntamente com os residentes brancos”, a população negra concentrou-se em “guetos urbanos” pobres, com alto desemprego e habitações precárias, e foi em grande parte excluída da representação política, das principais universidades e da classe média. Os departamentos de polícia do Norte e do Oeste eram quase todos brancos. Em 1966, apenas 16 dos 661 policiais de Oakland eram afro-americanos, isto é, menos de 2,5%.

As táticas dos direitos civis mostraram-se incapazes de remediar essas condições, e as organizações que “lideraram grande parte da desobediência civil não violenta”, como o Student Nonviolent Coordinating Committee (SNCC) e o Congress of Racial Equality (CORE), entraram em declínio. Em 1966, surgiu um “fermento do Poder Negro”, composto principalmente por jovens negros urbanos, levantando uma questão que o Movimento dos Direitos Civis não conseguia responder: “Como os negros na América conquistariam não apenas direitos formais de cidadania, mas também poder econômico e político real?”. Jovens negros em Oakland e outras cidades desenvolveram grupos de estudo e organizações políticas, e desse fermento surgiu o Partido dos Panteras Negras. No final de outubro de 1966, Huey P. Newton e Bobby Seale fundaram o Partido dos Panteras Negras, originalmente o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Ao formularem uma nova política, eles se basearam em seu trabalho com diversas organizações do Poder Negro. Newton e Seale se conheceram em 1962, quando ambos eram estudantes do Merritt College. Eles se juntaram à Associação Afro-Americana de Donald Warden, onde leram muito, debateram e se organizaram em uma tradição nacionalista negra emergente inspirada por Malcolm X (1925-1965) e outros. O Partido dos Panteras Negras foi revolucionário, tanto em seus objetivos quanto em suas táticas. Surgiu em 1966, em resposta ao assassinato de Malcolm X, um dos principais defensores do separatismo negro, e à morte de Matthew Johnson, um jovem negro desarmado de 16 anos, durante uma abordagem policial em São Francisco. Os fundadores Bobby Seale e Huey Newton eram estudantes universitários. Eventualmente insatisfeitos com o “acomodacionismo” de Warden, eles desenvolveram uma perspectiva anti-imperialista revolucionária, trabalhando com grupos mais ativos e militantes, como o Conselho Consultivo de Estudantes Soul e o Movimento de Ação Revolucionária.

Seus empregos remunerados pelos programas de serviço juvenil no Centro de Combate à Pobreza do Bairro Norte de Oakland permitiram que eles desenvolvessem uma abordagem nacionalista revolucionária para o serviço comunitário, um elemento chave nos “programas de sobrevivência comunitária” dos Panteras Negras. Insatisfeitos com a incapacidade dessas organizações de desafiar diretamente a brutalidade policial e apelar aos “irmãos do bairro”, Huey e Bobby decidiram agir por conta própria. Depois que a polícia matou Matthew Johnson, um jovem negro desarmado em São Francisco, Newton observou a violenta insurreição que se seguiu. Ele teve uma epifania que diferenciaria o Partido dos Panteras Negras da multidão de organizações do Poder Negro. Newton viu a explosiva raiva rebelde do gueto como uma força social e acreditou que, se conseguisse enfrentar a polícia, poderia organizar essa força social para alcançar o poder. Inspirado pela resistência armada de Robert F. Williams (1925-1996) à Ku Klux Klan e pelo livro de Williams, Negros com Armas (1962), Newton estudou as leis de armas na Califórnia. Assim como a Patrulha de Alerta Comunitário em Los Angeles após a Rebelião de Watts (1965), ele decidiu organizar patrulhas para seguir a polícia e monitorar incidentes de brutalidade. Mas com uma diferença crucial: suas patrulhas portariam armas carregadas. Huey e Bobby arrecadaram dinheiro para comprar duas espingardas comprando grandes quantidades do recém-publicado Pequeno Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung (1893-1976) e revendendo-os a esquerdistas e liberais radicais no campus de Berkeley por três vezes o preço. De acordo com Bobby Seale, eles iriam “vender os livros, ganhar o dinheiro, comprar as armas e ir para as ruas com as armas. Vamos proteger uma mãe, proteger um irmão e proteger a comunidade dos policiais racistas”.     

Robert Williams foi um líder do movimento por direitos civis e autor estadunidense mais conhecido por ter sido presidente do comitê da NAACP em Monroe, Carolina do Norte, entre os anos 1950 e 1961. Ele conseguiu integrar a biblioteca e a piscina pública locais em Monroe. Em um momento de alta tensão racial e abusos oficiais, Williams promoveu a autodefesa negra armada nos Estados Unidos. Além disso, ajudou a obter apoio para perdão governamental em 1959 para dois jovens garotos afro-americanos que haviam recebido longas sentenças reformatórias no que ficou reconhecido como o Caso do Beijo de 1958 quando os garotos foram condenados por estupro por terem sido beijados na bochecha por uma menina branca, o que gerou atenção nacional e internacional e críticas ao Estado. Williams obteve um comitê da Associação Nacional de Rifles e montou um clube de tiro para defender os negros em Jonesboro da Ku Klux Klan ou outros agressores. O comitê local da NAACP apoiou os Viajantes da Liberdade que viajaram para Monroe no verão de 1961 em um teste de integração de ônibus interestaduais. Em agosto de 1961, ele e sua esposa deixaram os Estados Unidos da América para evitar acusações estaduais de sequestro relacionadas a ações durante a violência que se seguiu após os Viajantes chegarem em Monroe. Essas acusações foram retiradas pelo estado quando seu julgamento foi aberto em 1975, após seu retorno.

Williams se identificava como nacionalista negro e morou tanto em Cuba quanto na República Popular da China durante seu exílio entre 1961 e 1969. O livro de Williams, Negroes with Guns (1962) foi reimpresso várias vezes, mais recentemente em 2013. Ele detalha sua experiência com o racismo violento e seu desentendimento com a ala não violenta do Movimento pelos Direitos Civis. O texto foi muito influente; o fundador do Partido dos Panteras Negras, Huey Newton citou-o como uma grande inspiração. Robert Franklin Williams nasceu em Monroe, Carolina do Norte, em 26 de fevereiro de 1925, filho de Emma Carter e John L. Williams, que trabalhava como lavador de caldeiras ferroviárias. Ele tinha duas irmãs, Lorraine Garlington e Jessie Link; e dois irmãos, John H. Williams e Edward S. Williams. Williams ganhou o fuzil de seu avô, dado por sua vó, uma ex-escrava. Seu avô fora apoiador do Partido Republicano e editor do jornal The People`s Voice durante os anos difíceis após a Reconstrução na Carolina do Norte. Aos 11 anos, Williams testemunhou uma mulher negra ser espancada e arrastada por um policial, Jesse Helms, Sr., mais tarde o chefe da polícia, era o pai do futuro senador Jesse Helms. Quando jovem Williams foi parte da Grande Migração, viajando para o norte para trabalhar nas indústrias durante a II Guerra. Ele testemunhou revoltas raciais em Detroit em 1943 motivadas por concorrência no mercado de trabalho entre brancos e negros. Alistado em 1944, serviu durante um ano e meio como soldado raso na então segregada Marinha antes de retornar para casa em Monroe. Em 1947, Williams se casou com Mabel Ola Robinson, ativista dos direitos civis, então com 16 anos. Eles tiveram três filhos chamados John C. Williams, Robert F. Williams, Jr., and Franklin H. Williams. Após voltar para Monroe em 1945 após servir na Marinha, Williams entrou para o comitê local da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, querendo mudar a cidade segregada para proteger os direitos civis do estrato social dos negros. O comitê não tinha sido muito ativo e estava perdendo membros. Williams foi eleito presidente e Dr. Albert E. Perry vice-presidente; os dois geraram nova energia no grupo durante a década de 1950.

Primeiro eles trabalharam para integrar a biblioteca pública. Após obterem sucesso, em 1957, Williams também liderou os esforços para integrar as piscinas públicas, que eram financiadas e operadas com o dinheiro do contribuinte. Ele fez os seguidores formarem linhas de piquete ao redor da piscina. Os membros da NAACP organizaram manifestações pacíficas, mas os opositores atiraram em sua direção. Ninguém foi preso ou punido, apesar de policiais estarem presentes. Naquela época, Monroe tinha um grande comitê da Ku Klux Klan. A imprensa estimou que ele tinha 7.500 membros, quando a cidade tinha um total de 12.000 habitantes. Em 29 de outubro de 1966, Stokely Carmichael – um líder do SNCC – defendeu o apelo ao “Poder Negro” e veio a Berkeley para discursar em uma conferência sobre o Poder Negro. Na época, ele estava promovendo os esforços de organização armada da Organização pela Liberdade do Condado de Lowndes (LCFO) no Alabama e o uso do símbolo dos Panteras Negras. Newton e Seale decidiram adotar o logotipo dos Panteras Negras e formar sua própria organização, chamada Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Newton e Seale escolheram um uniforme composto por camisas azuis, calças pretas, jaquetas de couro pretas e boinas pretas, estas últimas adotadas como uma homenagem a Ernesto Che Guevara. Em janeiro de 1967, o BPP abriu sua primeira sede oficial em uma loja em Oakland e publicou a primeira edição de The Black Panther: Black Community News Service. O jornal circularia continuamente, embora variando em tamanho, formato, título e frequência, até a dissolução do partido. Em seu auge, vendia cem mil exemplares por semana.

A tática inicial do partido utilizava leis contemporâneas de porte aberto de armas para proteger os membros do partido quando estes fiscalizavam a polícia. Essa prática visava registrar incidentes de brutalidade policial, seguindo à distância viaturas policiais pelos bairros. Quando confrontados por um policial, os membros do partido citavam leis que comprovavam sua inocência e ameaçavam processar qualquer policial que violasse seus direitos constitucionais. Entre o final de 1966 e o ​​início de 1967, as patrulhas policiais armadas do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa nas comunidades negras de Oakland atraíram um pequeno grupo de membros. O número de membros cresceu ligeiramente a partir de fevereiro de 1967, quando o partido forneceu escolta armada no aeroporto de São Francisco para Betty Shabazz, viúva de Malcolm X e palestrante principal de uma conferência realizada em sua homenagem. O alvo de luta do Partido dos Panteras Negras na militância era frequentemente interpretado como hostilidade aberta, alimentando uma reputação de violência, embora os esforços iniciais dos Panteras se concentrassem principalmente na promoção de causas sociais e no exercício de seu direito legal de portar armas. Os Panteras utilizavam uma lei da Califórnia que permitia o porte de um rifle ou espingarda carregados, desde que fossem exibidos publicamente e não apontados para ninguém. Geralmente, isso era feito enquanto monitoravam e observavam o comportamento da polícia em seus bairros, com os Panteras argumentando que essa ênfase na militância ativa e no porte ostensivo de armas era necessária para proteger os indivíduos da violência policial. Por exemplo, cânticos como “A revolução chegou, é hora de pegar em armas. Fora com os porcos!”, ajudaram a criar a reputação dos Panteras como uma organização violenta. A comunidade negra de Richmond, Califórnia, Estados Unidos, queria proteção contra a brutalidade policial. Com apenas três ruas principais para entrar e sair do bairro, era fácil para a polícia controlar, conter e reprimir a população. Em 1º de abril de 1967, um operário da construção civil negro e desarmado de 22 anos chamado Denzil Dowell foi morto a tiros pela polícia em North Richmond. A família de Dowell contatou o Partido dos Panteras Negras em busca de ajuda depois que as autoridades se recusaram a investigar o caso.          

O partido realizou comícios em North Richmond que educaram a comunidade sobre autodefesa armada e o incidente de Denzil Dowell. A polícia raramente interferia nesses comícios porque todos os Panteras estavam armados e nenhuma lei era infringida. Os ideais do partido ressoaram com vários membros da comunidade, que então levaram suas próprias armas para os comícios seguintes. A notoriedade do Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa cresceu rapidamente após o protesto de 2 de maio de 1967 no Capitólio do Estado da Califórnia. Naquele dia, o Comitê de Procedimento Criminal da Assembleia Estadual da Califórnia deveria se reunir para discutir o que era conhecido como Lei Mulford, que tornaria ilegal o porte público de armas de fogo carregadas. Newton, com o Ministro da Informação Eldridge Cleaver, elaborou um plano para enviar um grupo de 26 Panteras armados, liderados por Seale, de Oakland a Sacramento para protestar contra o projeto de lei. O grupo entrou na assembleia portando suas armas, um incidente que foi amplamente divulgado e que levou a polícia a prender Seale e outros cinco. O grupo se declarou culpado de contravenção por perturbar uma sessão legislativa. Na época do protesto, o partido tinha menos de 100 membros no total.

Em maio de 1967, os Panteras Negras invadiram a Câmara da Assembleia Estadual em Sacramento, armados, no que parece ter sido uma manobra publicitária. Mesmo assim, assustaram muita gente importante naquele dia. Na época, os Panteras Negras quase não tinham seguidores. Agora, (um ano depois), porém, seus líderes discursam a convite em quase todos os lugares onde radicais se reúnem, e muitos brancos usam botões com os dizeres “Honkeys for Huey”, apoiando a luta pela libertação de Newton, que está preso desde 28 de outubro de 1967, acusado de ter matado um policial... Em 1967, a Lei Mulford foi aprovada pela legislatura da Califórnia e sancionada pelo governador Ronald Reagan. A lei foi elaborada em resposta a membros do Partido dos Panteras Negras que estavam monitorando a atuação policial. A lei revogou uma legislação que permitia o porte público de armas de fogo carregadas. O Partido dos Panteras Negras divulgou pela primeira vez seu programa original de dez pontos: “O que queremos agora!” em 15 de maio de 1967, após a ação de Sacramento, na segunda edição do jornal The Black Panther. Queremos liberdade. Queremos poder para determinar o destino da nossa comunidade negra. Queremos pleno emprego para o nosso povo. Queremos o fim do roubo da nossa comunidade negra pelos capitalistas. Queremos moradias decentes, adequadas para abrigar seres humanos. Queremos uma educação para o nosso povo que revele a verdadeira natureza desta sociedade americana decadente. Queremos uma educação que nos ensine a nossa verdadeira história e o nosso papel na sociedade atual. Queremos que todos os homens negros sejam isentos do serviço militar. Exigimos o fim imediato da brutalidade policial e do assassinato de pessoas negras. Queremos a liberdade de todos os homens negros detidos em prisões e cadeias federais, estaduais, municipais e distritais. Queremos que todas as pessoas negras, quando levadas a julgamento, sejam julgadas por um júri composto por pessoas de seu próprio grupo ou de suas comunidades negras, conforme definido pela Constituição dos Estados Unidos. Queremos terra, pão, moradia, educação, roupas, justiça e paz.

Em agosto de 1967, o Federal Bureau of Investigation (FBI) instruiu seu programa “COINTELPRO” a “neutralizar... grupos nacionalistas negros de ódio” e outros grupos dissidentes. Em setembro de 1968, o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, descreveu os Panteras Negras como “a maior ameaça à segurança interna do país”. Em 1969, os Panteras Negras e seus aliados tornaram-se alvos principais do COINTELPRO, sendo selecionados em 233 das 295 ações autorizadas do COINTELPRO contra “nacionalistas negros”. Os objetivos do programa eram impedir a unificação de grupos nacionalistas negros militantes e enfraquecer sua liderança, bem como desacreditá-los para reduzir seu apoio e crescimento. Os alvos iniciais incluíam a Conferência de Liderança Cristã do Sul, o Comitê Coordenador Estudantil Não Violento, o Movimento de Ação Revolucionária e a Nação do Islã, bem como líderes como o Reverendo Martin Luther King Jr., Stokely Carmichael, H. Rap ​​Brown, Maxwell Stanford e Elijah Muhammad. Como o diretor assistente do FBI, William Sullivan, testemunhou posteriormente perante o Comitê da Igreja, o FBI “não diferenciava” entre espiões soviéticos e suspeitos de serem comunistas em movimentos nacionalistas negros ao implantar táticas de vigilância e neutralização. O COINTELPRO tentou criar rivalidades entre facções nacionalistas negras e explorar as já existentes. Uma dessas tentativas foi “intensificar o grau de animosidade” entre os Panteras Negras e os Blackstone Rangers, uma gangue de rua de Chicago. O FBI enviou uma carta anônima ao líder da gangue Rangers alegando que os Panteras estavam ameaçando sua vida, uma carta cujo objetivo era provocar violência "preventiva" contra a liderança dos Panteras. 

No sul da Califórnia, o FBI fez esforços semelhantes para exacerbar uma “guerra de gangues” entre o Partido dos Panteras Negras e um grupo nacionalista negro chamado Organização dos EUA, supostamente enviando uma carta provocativa à Organização dos EUA para aumentar o antagonismo existente. O COINTELPRO também visava desmantelar o Partido dos Panteras Negras, atacando seus programas sociais/comunitários, incluindo o programa Café da Manhã Gratuito para Crianças, cujo sucesso serviu para “lançar luz sobre a falha do governo em lidar com a pobreza e a fome infantil — apontando para os limites da Guerra contra a Pobreza do país”. De acordo com Bloom & Martin, o FBI denunciou os esforços do partido como um meio de doutrinação, porque o partido ensinava e provia para as crianças de forma mais eficaz do que o governo. “A polícia e os agentes federais regularmente assediavam e intimidavam os participantes do programa, os apoiadores e os trabalhadores do Partido e procuravam afastar doadores e organizações que abrigavam os programas, como igrejas e centros comunitários”. Membros do Partido dos Panteras Negras estiveram envolvidos em muitos tiroteios fatais com a polícia. Newton declarou: - Malcolm, implacável ao extremo, ofereceu às massas negras... a libertação das correntes do opressor e do abraço traiçoeiro dos porta-vozes [negros] apoiados. Somente com a arma foi negada às massas negras essa vitória. Mas elas aprenderam com Malcolm que, com a arma, podem recuperar seus sonhos e torná-los realidade. Em 28 de outubro de 1967, o policial de Oakland, John Frey, foi morto a tiros em uma altercação com Huey P. Newton durante uma abordagem de trânsito, na qual Newton e o policial de apoio, Herbert Heanes, também sofreram ferimentos a bala. Newton foi condenado por homicídio culposo no julgamento, mas a condenação foi depois anulada. Em Shadow of the Panther, Hugh Pearson alega que Newton estava embriagado nas horas que antecederam o incidente e afirmou ter matado John Frey intencionalmente. Newton alegou ter sido falsamente acusado, o que levou à campanha “Libertem Huey!” do partido. 

O assassinato policial deu ao partido um reconhecimento ainda maior pela esquerda radical americana e estimulou o crescimento do partido em todo o país. Newton foi libertado após três anos, quando sua condenação foi anulada em apelação. Enquanto Newton aguardava julgamento, a campanha “Libertem o Huey” desenvolveu alianças com inúmeros estudantes e ativistas antiguerra, “promovendo uma ideologia política anti-imperialista que ligava a opressão dos manifestantes antiguerra à opressão de negros e vietnamitas”. A campanha “Libertem o Huey” atraiu organizações do movimento Black Power, grupos da Nova Esquerda e outros grupos ativistas, como o Partido Trabalhista Progressista, Bob Avakian da Comunidade para uma Nova Política e a Guarda Vermelha. Por exemplo, o Partido dos Panteras Negras colaborou com o Partido da Paz e da Liberdade, que buscava promover uma política antiguerra e antirracista forte em oposição ao Partido Democrata tradicional. O Partido dos Panteras Negras forneceu a legitimidade necessária à política racial do Partido da Paz e da Liberdade e, em troca, recebeu um apoio inestimável para a campanha “Libertem o Huey”. Em 1968, o capítulo do Sul da Califórnia foi fundado por Alprentice “Bunchy” Carter em Los Angeles. Carter era o líder da gangue da Rua Slauson, e muitos dos primeiros recrutas do capítulo de Los Angeles eram Slausons. Bobby James Hutton nasceu em 21 de abril de 1950, no Condado de Jefferson, Arkansas. Aos três anos de idade, ele e sua família se mudaram para Oakland, Califórnia, após serem perseguidos por grupos racistas de vigilantes associados à Ku Klux Klan. Em dezembro de 1966, com apenas 16 anos, tornou-se o primeiro tesoureiro e membro do Partido dos Panteras Negras. Em 6 de abril de 1968, dois dias após o assassinato do Dr. Martin Luther King Jr. e com tumultos assolando cidades, Hutton, de 17 anos, viajava de carro com Eldridge Cleaver e outros membros do Partido dos Panteras Negras (BPP). 

O grupo confrontou policiais de Oakland e, em seguida, fugiu para um prédio de apartamentos, onde travaram um tiroteio de 90 minutos com a polícia. O impasse terminou com Cleaver ferido e Hutton se rendendo voluntariamente. Segundo Cleaver, embora Hutton tivesse tirado a roupa, ficando apenas de cueca, e estivesse com as mãos para cima para provar que estava desarmado, a polícia de Oakland atirou nele mais de 12 vezes, matando-o. Dois policiais também foram baleados. Ele se tornou o primeiro membro do partido a ser morto pela polícia. Embora na época o BPP tenha alegado que a polícia os havia emboscado, vários membros do partido admitiram posteriormente que Cleaver liderou o grupo dos Panteras Negras em uma emboscada deliberada contra os policiais, provocando o tiroteio. Outros sete Panteras Negras, incluindo o Chefe de Gabinete David Hilliard foram presos. A morte de Hutton tornou-se um tema de mobilização para os apoiadores dos Panteras Negras. As estruturas sociais de classe, gênero e etnia são reduzidos às imagens do social e vividos através do meio de reprodução das imagens e de estilo de vida. Observou que os “meios realizadores” estão em coisas muito diferentes às expectativas geradas, e, ainda segundo ele, que atendam satisfações mais superficiais, mas jamais aspectos profundos da vida humana como geralmente propõem. Sob este aspecto radicalizou ao desenvolver a ideia que os indivíduos imersos nas práticas e relações de consumo, não combatem nem condenam, mas exploram ao máximo as tendências figuradas. As sensações imediatas, as experiências ardentes e isoladas, tanto quanto as intensidades da sociedade-cultura de consumo. 

Sem procurar significados obtém prazer estético de intensidades superficiais. Na ordem da produção, o objeto carece de unicidade e singularidade, pois, objetos tornam-se simulacros indefinidos uns dos outros como objetos, os homens que os produzem. A pretensa objetividade do mundo erigido pela racionalização técnica corresponde à universalização de um modelo arbitrário advindo da generalização da economia política na forma da lei do valor. A partir do código, considerado como sistema de signos generalizados, a simulação opera a inversão das relações sociais entre pessoas, identificada entre o real e sua representação, estabelecendo simples oposições binárias que permitem a objetividade do discurso e o controle dos objetos. Em relação ao discurso, reduzindo o signo ao puro jogo dos significantes, anula a relação entre significante e significado necessária ao processo de significação. Assim, diferentemente da ordem da produção, o controle das relações do homem com as “coisas” não mais advém do agir racional-com-respeito-a-fins, pois a predominância do código inaugura primus inter pares o monopólio da palavra como característica básica da dominação contemporânea. Da mesma forma, enquanto técnica de controle do objeto, o processo de simulação opera uma completa inversão, de forma que o real se torne efeito ou reflexo de modelos gerativos. Simulacros e simulação representa um tratado filosófico de Jean Baudrillard que discute a relação entre realidade, símbolos e sociedade. Simulacros são cópias que representam níveis de análise que nunca existiram ou que não possuem mais o seu equivalente na realidade. Simulação é a imitação de um processo virtual existente no mundo real. Se a visão de Baudrillard é problemática e pessimista porque não depreende nos mass media a possibilidade real da comunicação e da troca, estando restrita ao encontro “face a face”, por outro lado, ela é profícua na medida em que, na década de 1970, o autor ergue-se contra o domínio da semiologia italiana e francesa, relativizando sua prática teórica no que diz respeito à comunicação.

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