“É preciso que a Enfermagem se reconheça negra, porque nós somos negros”. Enfermeira Lucia Ferreira
Dia 20 de maio, é comemorado o Dia Nacional do Técnico e do Auxiliar de
Enfermagem. Atualmente, o Brasil conta com 1.440.536 Técnicos e 433.536
Auxiliares de Enfermagem. Juntos, somam 1,8 milhão de profissionais que
representam mais de 80% da força de trabalho da Enfermagem. A presença de
enfermeiro supervisor é obrigatória em estabelecimentos de Saúde, inclusive
clínicas de radiologia e diagnóstico por imagens, reforçou a 12ª Vara da
Justiça Federal, em vitória do Conselho Federal de Enfermagem contra
parecer do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Contrariando
a legislação, parecer previa que “o médico radiologista poderá ser auxiliado
por profissional técnico de Enfermagem e/ou profissional auxiliar de
Enfermagem, cabendo ao médico responsável supervisionar os respectivos
profissionais”. A sentença determina a “retirada do parecer da internet e
retificação da informação divulgada pelo réu”. A Enfermagem é uma profissão autônoma,
cabendo ao profissional enfermeiro a supervisão de técnicos e
auxiliares de Enfermagem. – “Estamos atentos e vigilantes em defesa da lei do
exercício profissional, buscam um atendimento seguro e eficaz à população”,
afirma Manoel Neri. A sentença reforça a jurisprudência
consolidada quanto à obrigatoriedade de manutenção de enfermeiro Supervisor em
unidades de Saúde. O “réu Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por
Imagem não tem competência para restringir o campo de atuação do profissional
de Enfermagem”, afirmou Maurílio Queiroz. - “Tal restrição ao campo de
atuação do enfermeiro, somente poderia ocorrer por Lei Federal que limitasse
sua atuação, que é delineada e regulamentada pela Lei nº 7.498, de 25/06/86”.
Maria
Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odê Caiodê (1925-2018) foi
a quinta Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá (cf. Paula, 2009) em Salvador, Bahia. Nasceu no
dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo
Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de
nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo
Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de
Azevedo Santos (falecido). Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha
de Maria Conibabê, africana de etnia ebá. Aos nove anos de idade, Maria
Conibabê estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em
um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil. Sua tia, Dona
Arcanja, reconhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no
Gantois e de Sobaloju no Opô Afonjá de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por
volta dos 13 anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento, o que fez com que Dona Arcanja procurasse ajuda do oluô Pai
Cosme de Oxum, que informou que mãe Stella deveria ser iniciada e que seu
caminho era de ialorixá, adesignação da pessoa incumbida de gerenciar um terreiro de
candomblé e a sua liturgia, de exercer toda autoridade sobre os membros, em qualquer nível da hierarquia.
Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha
do Gantois. Dona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe
Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois
apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia.
Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona
Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de dezembro
de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos
cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora. Mãe Stella relatou: -
“Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com
um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela
que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei
ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a
fruta do pé do santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossidagã. Só falava
nela e, então, fui informada de que ossidagã era o cargo que ela ocupava
no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobaloju do Opô Afonjá,
e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já havia falecido e a ossidagã
reinava como ialorixá do Axé Opô Afonjá”. Em 12 de setembro de 1939, aos
quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orucó
(nome) de Odê Caiodê.Mãe Stella narra a realização da sua iniciação.
Ela “não pensava em nada”, “não tinha noção” do que estava acontecendo:
- “É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser ialorixá.
Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus
tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida lá,
entendi isso... é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra
de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria”.
Lizete
Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no
Gantois para Iansã, relembra: - “Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada,
com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos
sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão”. Mãe
Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora
D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública,
exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de 30 anos. Em 29 de
junho de 1964, foi designada Colabá por Mãe Senhora. Foi aprendendo os mistérios e segredos do
candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma importante iaô - Celenita – que era filha de Ogum.
O
primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de
Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de julho de 1983, em Salvador, quando
lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III
Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova
Iorque, Estados Unidos da América.Em
1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a
comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua
presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder
religiosa.Em 1999, Mãe Stella conseguiu
o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura. Em
2001 ganhou o prêmio jornalístico Estadão na condição de fomentadora de
cultura. Em 2005 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e em 2009, ao completar setenta anos de
iniciação no Candomblé, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da
Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É detentora da comenda Maria Quitéria
(concedida pela Prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e da comenda do
Ministério da Cultura. Em 2010, recebeu uma placa pelo centenário do terreiro Opó
Afonjá, no Plenário da Câmara de Salvador, Bahia. Em 2013, vai ocupar a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia,
cujo patrono é o poeta Castro Alves (1847-1871). Tomou posse no dia 12 de setembro de 2013.
A globalização se refere essencialmente a este processo de alongamento, na medida em que as modalidades de conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais e políticos se enveredam através da superfície da Terra como um todo globalizado. Ela é definida por Anthony Giddens, sociologicamente, em sua dimensão exógena, “como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distâncias e vice-versa”. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção anverso às relações sociais e políticas muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através das relações tópicas de tempo e sentido de apropriação e reprodução do espaço. Alteridade parte do pressuposto básico de que todo o ser humano social interage e interdepende do outro. Antropólogos e cientistas sociais afirmam que a existência do “eu-individual” só é permitida mediante um contato com o outro. Assim, pode também se dizer que a alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal. Mas neste sentido expresso na relação com grupos, família, trabalho, lazer, etc., respectivamente com consideração, identificação e possibilidade da relação dialógica. Alteridade não significa que tenha de haver uma concordância, mas aceitação das partes no diálogo estabelecido historicamente e per se de conflito social.
A modernidade é inerentemente globalizante. Ela tanto germina a integração das sociedades como a sua fragmentação social. Nela desenvolvem-se as diversidades como também as disparidades. A dinâmica das forças produtivas e das relações de produção, em escala local, regional e mundial, produz interdependências e descontinuidades, evoluções e retrocessos, integrações e distorções, afluências e carências, tensões e contradições. É altíssimo o custo social, econômico, político e cultural da globalização do capitalismo, para muitos indivíduos e coletividades ou grupos e classes sociais subalternos. Em todo o mundo, ainda que em diferentes gradações, a grande maioria é atingida pelas mais diversas formas de fragmentação econômica e social. A realidade é que a globalização do capitalismo implica na globalização de tensões e contradições sociais, nas quais se envolvem grupos e classes sociais, partidos políticos e sindicatos, movimentos sociais e correntes de opinião pública, em todo o mundo. Enquanto totalidade histórico-social em movimento, com a apropriação do espaço e tempo sociais, o globalismo tende a subsumir não só o nacionalismo e o tribalismo. As relações de trabalho entre formas sociais, eventos distantes se tornam correspondentes “alongadas” na reprodução pós-consumo das relações sociais pós-capitalistas contemporâneas.
Em sua dimensão endógena, a globalização pode ser entendida formando um “clima de comunicação”, aqui entendido enquanto estado que tende à estabilização dos elementos componentes, num ambiente/meio atravessado por forças reguladoras e desreguladoras, instalado como efeito generalizado de transmissão/interligação. Pode-se ilustrar isso em dois registros. Com o apuramento técnico da “economia de guerra” que alguns chamam logística, onde há um “clima de comunicação” claramente manifesto, ou que vem gradativamente sendo reconstruído, com o colonialismo ou a destruição das novas e velhas culturas no capitalismo, bem como nos procedimentos e resultados já familiares de controle da informação, com a informática etc., padrão comunicacional nesse clima. O que se chamou vulgarmente de “guerra fria” nas últimas cinco décadas conformava-se à ideia de tal adensamento. Em consequência do adensamento/expansão do clima de comunicação que é cultural e político, se estabelece um modelo tecnológico e padrão de modernização das forças produtivas.
O enfermeiro é um profissional especializado de nível superior com competência técnica, científica responsável pela organização técnica de trabalho de equipe de enfermagem e pela promoção, prevenção e recuperação da saúde dos indivíduos. O enfermeiro é um profissional integrado, preparado para atuar simultaneamente no quadro técnico-científico da saúde no âmbito assistencial, técnico-administrativo e de promoção gerencial. Na área assistencial esses profissionais estão habilitados a diversos tipos de intervenções prático-pedagógicas de média e alta complexidade, situações que exigem reconhecimento científico e capacidade eficaz de diálogo de tomar decisões imediatas. Lideram e gerenciam unidades hospitalares e colaboradores de nível médio e técnico, que prescrevem a assistência de enfermagem para que técnicos e auxiliares executem as ações. Seguindo um método de trabalho de tendência mundial o enfermeiro prescreve medicamentos e solicita exames na chamada “Estratégia de Saúde da Família”.
O enfermeiro é o trabalhador profissional da saúde, par excellence habilitado por uma licenciatura em Enfermagem e registado na Ordem dos Enfermeiros, a quem foi reconhecido às competências científicas, técnicas e humanas para praticar cuidados de enfermagem gerais ao indivíduo, família e comunidade, em situação de prevenção primária, secundária e terciária. O enfermeiro assiste o ser humano, doente ou sãoindividual ou em comunidade, de forma a que este mantenha e/ou recupere a saúde. O enfermeiro objetiva também que o indivíduo atinja a sua máxima capacidade funcional. Em Portugal, comparativamente, não existe a categoria correspondente de Auxiliar e Técnico de Enfermagem, sendo as funções acumuladas pelo enfermeiro. O enfermeiro não é só responsável pelos procedimentos técnicos, como por todo o processo de enfermagem. No entanto, existe a categoria de Assistente Operacional de Saúde, designado profissionalmente de Auxiliar Técnico de Saúde, que do ponto de vista do conhecimento técnico-profissional colabora com o enfermeiro, e que com a sua delegação e supervisão, pode prestar cuidados técnicos de higiene, conforto e alimentação. Historicamente a enfermagem dava mobilidade social às mulheres negras em meados do século XX.
A Ordem dos Enfermeiros representa a associação pública profissional que congrega todos os profissionais de Enfermagem que trabalham em Portugal. Tem como atribuições a definição de regras relativas à atividade profissional e respectivo controlo da sua observância. Na prática, podemos dizer que a preocupação da Ordem dos Enfermeiros é para com a regulamentação e disciplina da profissão de Enfermagem, enquanto outras organizações, comparativamente, como os sindicatos se preocupam com os assuntos laborais, decorrentes do contrato de trabalho. Esta instituição tem poderes delegados pelo Estado e foi formalmente criada em 1998. A participação de cada enfermeiro na vida da Ordem dos Enfermeiros é fundamental para o desenvolvimento da profissão, contribuindo para sua valorização e visibilidade social, numa perspectiva de melhoria dos cuidados de saúde prestados aos cidadãos. O vínculo existente entre cada enfermeiro e a Ordem dos Enfermeiros decorre do exercício da profissão, do fato de ser enfermeiro e de ter o dever de cumprir e fazer cumprir o Estatuto que representa o conjunto de artigos que define o funcionamento da organização e a Deontologia.
Na última década foi aberto aos profissionais de enfermagem um amplo campo de trabalho com a criação do Programa de Saúde da Família (PSF). Em decorrência deste novo espaço e da necessidade de profissionais qualificados para desenvolver atividade neste programa, estão sendo criados cursos de Especialização em Saúde da Família, dos quais o enfermeiro recebe o título de especialista em Saúde da Família. Espera-se legislar brevemente a figura do “Enfermeiro da Família”, que será o Enfermeiro, que, exercendo funções ao nível dos cuidados de saúde primários, tem a si atribuídas, de trezentas famílias de acordo com a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) seiscentas a oitocentas famílias (três mil indivíduos), acompanhando estas famílias ao longo de todo o seu ciclo vital. A palavra enfermeira/o se compõe de duas palavras oriundas do latim: “nutrix”, que significa mãe, e do verbo “nutrire”, que “tem como significados criar e nutrir”. Essas duas palavras, adaptadas ao inglês do século XIX, acabaram se transformando na palavra “nurse” que, traduzida para o português, significa enfermeira. Ipso facto, enfermagem é uma das poucas profissões da área da saúde que pode mesclar o humano com o científico, pois além de cuidar do paciente quando está doente, a enfermagem atua na prevenção de doenças e na produção de pesquisas empíricas para evitar que as mesmas acometam indivíduos pré-dispostos.
Florence Nightingale nascida a 12 de maio de 1820, em Florença, pragmática possuía inteligência e tenacidade de propósitos, determinação e perseverança - o que lhe permitia dialogar com políticos e oficiais do Exército, fazendo prevalecer suas ideias em torno da cura. Poliglota, dominava com facilidade o inglês, o francês, o alemão, o italiano, além do grego e do latim. Em 1845, em Roma, no desejo de realizar-se como enfermeira, estudou as atividades das Irmandades Católicas e, em 1849, fez uma viagem ao Egito, onde decide servir a Deus, trabalhando em Kaiserswert, Alemanha, entre as diaconisas. Seu primeiro papel como enfermeira de guerra ocorreu de fato em 1854, na Guerra da Criméia. Durante os combates da guerra, os soldados fizeram de Florence “o seu anjo da guarda”, pois, de lanterna na mão, percorria as enfermarias dos batalhões e acampamentos, atendendo os doentes, o que a fez reconhecida mundialmente como “Lady with the light”. Ao retornar em 1856, adoentada pelo tifo, Florence recebe um prêmio em dinheiro do governo inglês, em reconhecimento ao seu trabalho como humanista. Ela investe o dinheiro no que dá início à 1ª Escola de Enfermagem, fundada no Hospital Saint Thomas, em 1859, e que passou a servir de modelo fordista em função de seu caráter exitoso para as escolas de enfermagem que vieram gradativamente.
Legião Negra: soldados e enfermeiras.
Historicamente a origem desse ensino, é recorrente ao ano de 1923,quando foi criada, na cidade do Rio de Janeiro, a Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, anexa ao Hospital Geral de Assistência daquele Departamento, posteriormente, Escola Ana Néri. Naquela ocasião, Carlos Chagas, como diretor do Departamento, deu uma contribuição decisiva. A saúde pública enfrentava mais uma crise decorrente das epidemias e endemias que representavam uma ameaça à sociedade, bem como à economia primária brasileira. O setor agrário-exportador cafeeiro dependia do saneamento dos portos, para continuidade de suas transações comerciais. Na tentativa de minimizar o problema, Carlos Chagas recorreu e contou com a colaboração da Fundação Rockefeller, que enviou nove enfermeiras norte-americanas com o propósito de estruturar o serviço de enfermagem de saúde pública, no Rio de Janeiro, e fundar uma Escola de Enfermagem. Foram essas enfermeiras as pioneiras organizadoras da Escola e suas primeiras professoras. A direção, como seria natural, ficou também a cargo das norte-americanas, sendo assumida, somente no ano de 1931, por uma brasileira, a enfermeira Rachel Haddock Lobo, finalizando a parceria profissional com as norte-americanas que foram retomando ao seu país.
Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida por Mãe Stella de Oxóssi, recebe homenagem do Museu Nacional de Enfermagem Anna Nery (Munean), localizado em Salvador, no Pelourinho, com exposição de longa duração. A curadoria é resultado de um trabalho que tem como objetivo demonstrar a contribuição dos negros para o desenvolvimento da Enfermagem, a partir do período colonial até os dias atuais. Pontuando o papel das escravizadas e das mulheres negras que executavam e ainda executam atividades de enfermeira, a diretora do Museu, Júlia Lemos, ressalta a importância e colaboração da quinta yalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá para a área da saúde. - “Não há como falar de Enfermagem sem falar de Mãe Stella, pois muitas pessoas não sabem que ela foi enfermeira”. O terreiro de Mãe Stella fica no bairro São Gonçalo do Retiro, região do Cabula, na cidade de Salvador. No Munean, histórias étnicas/lúdicas de personagens afrodescendentes pertencentes ao mundo da Enfermagem são recontadas.
As mães de ama, mães de leite, e mulheres pretas que participaram de guerras ou conflitos, como Maria Soldado, enfermeira da Legião Negra, comissão que arrecadava bens para a comunidade negra paulista, são representadas na exposição. - “A memória das mulheres negras do Brasil, cuidadoras de crianças, parteiras, nutrizes, chamadas de mães de criação, resistiram aos imperativos da escrita oficial da história da enfermagem”, escreve o pesquisador Paulo Campos, pós-doutor pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. - “A exposição é importante para manter viva a nossa condição histórica, resgatando a nossa história e reconhecendo a contribuição afro”, menciona o enfermeiro e professor da Universidade Federal de Pernambuco Itamar Lages. Segundo a pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, na região Nordeste, 6,6% dos profissionais de Enfermagem se identificam como pretos. Integrante do Conselho Regional de Enfermagem da Bahia, Aline Soares destaca a colaboração de afrodescendente para o desenvolvimento da Enfermagem e analisa a discriminação que os negros têm de enfrentar no mercado de trabalho.
As “mãos da Enfermagem brasileira são negras”. Aline Soares ressalta que os técnicos de enfermagem baianos, que na maioria são negros, são fundamentais para o trabalho desenvolvido nesta área técnico-científica. - “Infelizmente, nas universidades de Enfermagem, não há muitos negros. Ainda há muito preconceito quando negros assumem cargos de poder. As pessoas acham que o cargo foi dado e não conquistado”, ressalta a enfermeira. Lúcia Ferreira, umas das enfermeiras que foi homenageada pelo Munean, abordou o preconceito que os negros sofrem na profissão e no cotidiano. “As pessoas não sabem da sobrecarga que é ser chamada de ‘neguinha’. Eu fui a única negra no meu curso de graduação. É preciso que a Enfermagem se reconheça negra, porque nós, somos negros”, disse, com lágrimas nos olhos, ontem, na abertura da exposição. A doutora Valmira dos Santos, primeira mulher negra doutora a lecionar na Universidade Federal da Bahia, contou sobre a dificuldade, por ser afrodescendente, que enfrentou na instituição de ensino superior. - “Não foi fácil, mas, eu tenho a estrutura resiliente, que faz com que eu aguente certas situações. É assim que eu venho vivendo com muito orgulho e força”.
Após a Escola formar sua primeira turma, nasce a ideia da criação de uma associação que congregasse as enfermeiras recém-graduadas pela Ana Néri. Mesmo com todo o empenho dessas ex-alunas, somente no ano de 1926 se consolida, com a primeira reunião da entidade: aos doze dias do mês de agosto daquele ano, recebendo a denominação global de Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (ANED), extrapolando, pois, a iniciativa de reunir enfermeiras que fossem formadas somente por aquela Escola. Apenas a título de informação, devemos adiantar que, na trajetória dessa entidade, entre outras designações a ela conferidas, passa a intitular-se, a partir de 1954, Associação BrasileiradeEnfermagem (ABEn), conservando a sigla até o presente. Essa referência torna-se necessária pela importância política dessa entidade na articulaçãodas políticas voltadas para o ensino de enfermagem no Brasil, em seus diferentes níveis. Além disso, vale lembrar que num país que carece de centros de documentação e pesquisa, a Enfermagem tem seguido sem preservar adequadamente a sua história,sobretudo com as limitações que a desorganização dos arquivos oferece para o desenvolvimento da pesquisa, e a importância da recuperação e preservação de fontes escritas, orais e iconográficas dos arquivos existentes e daqueles por serem criados.
Por estas tantas razões, o Centro de Estudos e Pesquisas de Enfermagem CEPEn da ABEn Nacional e das Seções, deve ter papel relevante na mudança deste comportamento. Precisa, pois, ampliar seus limites, entendendo que a pesquisa explica e descreve a história social e política, e que, para entendê-la, é preciso usar métodos e fontes adequadas, através do fortalecimento de redes sociais de comunicação e memória em que a produção e a divulgação do reconhecimento do trabalho humano andem juntas. Três batalhões de voluntários compostos por afrodescendentes lutaram contra a ascensão de Getúlio Vargas em 1930. Esses batalhões passaram a ser chamados de Legião Negra. Em verdade tratava-se de uma dissidência da Frente NegraBrasileira (FNB), criada em 14 de julho, cinco dias após o início da chamada Revolução Constitucionalista, um batalhão específico chamado de “Legião Negra de São Paulo”. Para compreendermos a ideologia da Legião Negra, é mister entender a organização da Frente NegraBrasileira, tendo em vista que a Legião Negra representou sua cisão. A FNB tinha como escopo e objetivo central “promover a elevação moral, intelectual e profissional, assistência, proteção e defesa social, jurídica e econômica da gente negra”. Pelas estimativas de um de seus dirigentes, a entidade chegou a reunir 30 mil filiados, somando os efetivos de todas as delegações, as quais funcionavam como espécie de filiais da sede na capital paulista. A FrenteNegra criou uma série de símbolos diacríticos, a fim de garantir visibilidade para as suas ações, qual uma identidade específica para seus associados e, ao mesmo tempo, adquirir visibilidade no âmbito demográfico negro e na sociedade em geral. As mulheres negras que participaram da revolução demonstraram enorme coragem, fibra e destemor. Estimou-se que na Legião Negra, o número de combatentes girou em torno de dois mil membros. A Cruz Vermelha teve representação na Revolução Constitucionalista. Sua presidente, Maria Emília Leal, viajou pelo interior, levando mensagens entre o campo de batalha e o quartel general da capital paulista. Ela promovia cursos de enfermagem para moças e viúvas que, aprendidos os elementos principais da atividade iam aplica-los em hospitais e postos de emergência, nas frentes. O apoio das mulheres foi tamanho quando envolveram seus filhos na causa constitucionalista, em cujo movimento social criou-se um grupo secreto para destituir Vargas, cujo nome era dos cinco estudantes mortos. Enfermeira de Rosário do Sul é a vencedora do concurso Minha história de luta na Enfermagem.
O estado da civilização é fruto principalmente da extra-escolaridade cultural. É mais um produto de sua natureza individual, de sua formação doméstica e de sua existência social do que de sua preparação disciplinar. Esta palavra significa um ato de dedicação. E de uma dedicação a fundo, positiva tanto aos extremos como ao que fica entre eles, como culto, cultivo e cultura são três aspetos articulados da mesma linha de reflexão desde quando nos aperfeiçoamos pela cultura do Espírito. Muda o objeto de nossa dedicação, mas significa sempre uma entrega total do nosso ser para alcançar a essência através das aparências, de modo a tirar do cultivo da terra o alimento do nosso corpo, da cultura intelectual o aperfeiçoamento do nosso espírito e da universidade o reconhecimento da plenitude da verdade. Esse radical culto pode, portanto apresentar três sentidos. O sentido individual de representação é o que chamamos de cultura intelectual. Tem um sentido subjetivo e significa a passagem da informação à formação do saber e da personalidade. O segundo tem um sentido objetivo e significa a conquista de elementos característicos das instituições ede representar uma coletividade. O sentido próprio de construir, a saber, habitar, cai no esquecimento.
Em que medida construir pertence ao habitar? Quando construir e pensar são indispensáveis para habitá-lo. Ambos são, no entanto, insuficientes para habitá-lo se cada um se mantiver isolado, distantes, cuidando do que é seu ao invés de escutar um ao outro. Ipso facto construir e pensar pertence ao habitar. Permanecem em seus limites. Quando aprendemos a pensar que tanto um como outro, provém da obra de longa experiência de um exercício incessante de pensar. A cultura intelectual, portanto, em sentido próprio, refere-se a cada pessoa humana em particular e como um todo irredutível. Somos um ersatz: a cultura social é subsidiária da cultura intelectual, já que a sociedade existe para o homem. E não o homem para a sociedade. Embora seja esta uma condição prática, indispensável para a realização daquele. Não há cultura intelectual liberta sem cultura social organizada. A cultura intelectual representa a passagem do domínio e controle da informação da nossa individualidade total. Pela informação recebemos os elementos que vão permitir a eclosão de nossas possibilidades naturais. É a função da formação hermenêutica quando aglutinamos e assimilamos esses elementos, de tipo variados, contraditórios, reduzindo-os a uma unidade irredutível e elaborando com isso a nossa personalidade.
Bibliografia geral consultada.
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Paris:
Editeur J. Lamarre, 1992; 1999; FLOTTES, Anne, “La subjectivité dans le travail;
est-elle vendable? À
quel prix?”. In: Revue Travailler. Paris, nº4, pp.73-92, dec. 2000; ERDMANN, Alacole et al., “Teses Produzidas nos Programas de Pós-Graduação
em Enfermagem de 1983 a 2001”. In: Revista da Escola de Enfermagem da USP, 39,
497-505; 2005;ORICHIO, Ana Paula Carvalho, Oficiais Enfermeiras para a Marinha do Brasil. Do Curso de Formação Militar à Ocupação de Espaços no Hospital Naval Marcílio Dias (1980-1984). Tese de Doutorado. Escola de Enfermagem Anna Nery. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012; CARRIJO, Alessandra Rosa, Ensino de História da Enfermagem: Formação Inicial e Identidade Profissional. Tese de Doutorado. Escola de Enfermagem. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; BASTOS, Rachel Benta Messias, Raça e História: A Metamorfose do Negro no Contraponto Mito da Democracia Racial. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2013; LÖW, Lily, EnfermeirasNegras na Revolução Constitucionalista de 1932. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, 2013; SANTIAGO, Emiliane Silva, Currículo da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP: Inovações de Profa. Glete de Alcantara (1953-1963). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Psiquátrica. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo, 2015; BIFF, Daiane, Cargas de Trabalho de Enfermeiros da Estratégia Saúde da Família. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2016; FERNANDES, Carlos Roberto, O Corpo Mediador do Cuidado da Enfermagem: Uma Epistemologia do Conceito Fundamentada em Wilhelm Dilthey. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação. Escola de Enfermagem. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016; ALMEIDA, Anna Paula Alves da Silva, Fadiga e a Capacidade para o Trabalho em Profissionais de Enfermagem: Avaliação em um Hospital de Ensino da Rede SUS - Uberlândia. Dissertação de Mestrado em Geografia. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2018; BARBOSA, Elane da Silva, Do Estágio ao Internato: O Percurso da Formação da Enfermeira para o Cuidado. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2019; TORRES, Maria Nahir Batista Ferreira, O Ensino de História da Enfermagem: Trajetórias e Lugar na Formação do Enfermeiro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Centro de Educação. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2019; SIMÕES, Luiza Lúlia Feitosa, Saberes Docentes e Formação Pedagógica de Professores Enfermeiros: Um Estudo de Caso. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Centro de Educação. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2019; entre outros.
“O convidado é melhor juiz de uma refeição que o cozinheiro”. Aristóteles
Interpretação é uma ação social que consiste em estabelecer, simultânea ou consecutivamente, comunicação verbal ou não verbal entre duas entidades que podem estar em oposição assimétrica ou em nível de complementaridade. O contexto disciplinar do trabalho arbitral inclui a avaliação e a análise comparada, tendo como escopo o resultado dos esforços individuais e coletivos dos árbitros que são públicos, imediatos, passível de verificabilidade em vídeo, tanto quanto aos companheiros de linha de campo, como a pessoas mais representativas fora do vídeo. A atividade dos árbitros no futebol está associada às diferentes condições que geram “estresse psicológico”. As posturas críticas em torno de um conjunto de práticas e saberes sociais, sua ambivalência por parte dos treinadores, jogadores, meios e processos sociais de comunicação, inferindo o apelo dos entusiastas os quais creem que eles tendem a perseguir sua equipe, o abuso verbal, as ameaças físicas, as agressões e a avaliação pelos companheiros de arbitragem fazem parte da vida cotidiana dos árbitros. O arbitrar, como qualquer outra atividade social dinâmica não representa apenas atividade, ou expressões típicas de reconhecimento fisiológicas. Mas os processos sociais e subjetividades culturais que orientam determinada prática como transformação de expressão própria do pensamento.
Estratégia
é uma palavra com origem no termo grego strategia, que significa plano,
método, manobras ou estratagemas usados para alcançar um objetivo ou resultado
específico. Na sua origem, a palavra estratégia estava estritamente relacionada
com a arte de fazer guerra de um líder militar, como um general, por exemplo.
Mais tarde, passou a ser mais abrangente, sendo que atualmente a estratégia
está relacionada com a vertente militar, econômica, psicológica e política da
preparação para a defesa de um país contra uma determinada ameaça. Pode
significar planejamento bélico, ou seja, a combinação e aplicação dos recursos
bélicos no comando de grandes forças militares. De
acordo com Maquiavel, hic et nunc, a estratégia estabelecia a ligação próxima e óbvia entre
a política e o militar durante uma guerra. Mas historicamente com a ocorrência da modernização em função da 2ª guerra mundial,
os avanços tecnológicos mudaram as estratégias militares, tendo sido criados
novos tipos de guerra, como a guerra fria, a guerra revolucionária e guerra
subversiva. A palavra estratégia tem vários significados e é um conceito que
está presente em vários contextos, econômicos sociais e políticos sendo por
isso aparentemente difícil a sua definição. Em sentido figurado, uma estratégia
normalmente é estipulada para ultrapassar algum puzzle, e nestes casos
pode ser sinônimo de habilidade, astúcia ou esperteza.
A arte de jogar está irremediavelmente vinculada, em cada instante do jogo, as regras e métodos constituindo princípios básicos do desporto, cabendo ao árbitro em sua esfera de competência a sua preservação. Toda vez que a ordem é (des) afiada compete a ele, somente a ele, restabelecê-la. Os elementos mais representativos do sistema esportivo são muitos, mas destacam-se comentaristas de carreira ou jornalistas esportivos, dirigentes, atletas, e torcedores que se tornam instrumentos geridos por influências valorativas que decorrem do poder político, econômico, midiático e outros. Para estes quesitos desportivos, o árbitro, em geral, só é julgado pelos erros que comete ou julgam que ele cometeu. Dentre esses elementos de poder, o aspecto econômico é condicionante em que o árbitro tem que administrar, pois, analogamente, o teto salarial de um árbitro permanece extremamente inferior ao reconhecimento do jogador, mesmo que se torne um árbitro internacional. Para um jogador de destaque, a valorização financeira pode chegar a cifras altas no mercado europeu. O investimento de entidades financeiras patrocinadoras vai para o clube e o jogador, e em somas cada vez mais elevadas de acordo com o êxito da equipe ou do atleta. Uma contradição interessante no meio desportivo, e, portanto liberal, é que o jogador é profissional e o árbitro é amador.
Zona
Cinzenta é uma expressão comum na língua inglesa (gray area) que
significa que algo está em uma região nebulosa, que nem tudo é preto ou branco.
Do ponto de vista técnico-metodológico implica reconhecer que a zona cinzenta
da Arbitragem é uma terminologia usada no futebol para designar o local no
campo de jogo onde há a maior dificuldade para a arbitragem tomar a decisão
correta dentro da grande área. Ela é uma faixa de campo que fica entre o
árbitro e os atuais árbitros assistentes, que é como são chamados os árbitros
de campo. Popularmente reconhecidos com “bandeirinhas”, os juízes assistentes
têm como função auxiliar o árbitro. Os “bandeirinhas” devem indicar quando a
bola está fora do jogo, qual equipe deve fazer o arremesso lateral e quando um
jogador está em posição de impedimento. Essa zona vem recebendo uma atenção
especial da FIFA nos treinamentos dos árbitros de elite, já que esta zona
“foge” a diagonal padrão dos árbitros centrais, ficando distante de sua
visualização. Desta forma, é em lances que ocorrem nesta região que acontecem
muitos erros de arbitragem. Por isso, ultimamente a FIFA tem orientando para
que sempre que as jogadas ocorrem dentro desta área, os centrais devem
“abandonar” sua trajetória normal para poder se aproximar do local da tomada de
decisão.
Neste aspecto o trivial não é mais o Outro, é a experiência que constata uma diferença aparentemente fraca e, no entanto fundamental que distingue seu resultado das trivialidades distribuídas pelos especialistas da cultura do futebol, não mais designando o objeto do discurso, mas o seu lugar. Este é o ponto de chegada de uma trajetória. Não é um estado, tara ou graça inicial, mas algo que veio a ser, efeito de um processo de afastamento em relação a práticas reguladas e falsificáveis, uma ultrapassagem do comum numa posição particular. Bem longe de se dar arbitrariamente o privilégio de falar em nome do ordinário (ele é indizível), ou de pretender estar neste lugar geral, ou, pior, de oferecer à edificação uma cotidianidade hagiográfica, trata-se de atribuir à sua historicidade o movimento que reconduz os procedimentos de análise para suas fronteiras, até o ponto em que se mudam, ou mesmo se perturbam, pela irônica e louca banalidade que falava, mas em verdade que desenha o ordinário em um corpo de técnicas de análise, para indicar os deslocamentos que levam para o lugar-comum.
O caminho técnico a percorrer consiste em reconduzir as práticas e as línguas científicas para seu país de origem, a “everyday life”, a vida cotidiana. Este retorno, a cada dia mais insistente, tem o caráter paradoxal de ser também um exílio em relação às disciplinas cujo rigor se mede pela estrita definição de seus limites, pois seus modos de proceder, os seus objetos formais e as condições de sua falsificação, desde que ela se fundou como uma pluralidade de campos limitados e distintos, em suma, desde que não é mais do tipo teológico, a ciência constituiu otodo como o seu resto, e este resto se tornou o que agora denominamos cultura. Esta clivagem organiza a modernidade. Esta linha divisória, aliás, mutável, continua sendo estratégica nos combates para confirmar ou contestar os poderes das técnicas sobre as práticas sociais. Ela separa as línguas artificiais que articulam os procedimentos do saber e as línguas naturais que organizam a atividade significante comum. Alguns destes debates mais profícuos que dizem precisamente respeito à relação de cada ciência com a cultura, podem ser precisados, e é possível indicar suas possíveis saídas, através de duas personagens que aí se defrontam, curiosamente próximas e antinômicas: o perito e o filósofo. Abre a ambos a tarefa de mediadores entre um saber e a sociedade, o primeiro enquanto introduz a sua especialidade na área mais vasta e complexa de decisões sociopolíticas, o segundo enquanto reinstaura, relativamente a uma técnica particular a pertinência de interrogações gerais. No perito, uma competência se transmuta em autoridade social; no filósofo, as questões banais se tornam um princípio de suspeitanum terreno técnico. É verdade que o perito prolifera na sociedade contemporânea, mais do que outras, comparativamente, para se tornar a sua figura generalizada, tensionada entre a exigência de uma crescente especialização e a de um processo comunicativo tanto mais necessário, mas que pode mudar de forma e conteúdo de sentido. Mas o seu sucesso não é assim tão espetacular A lei produtivista de uma atribuição que é condição de eficácia simbólica e a lei social de uma circulação que reside sob a forma do intercâmbio se contradizem dentro dele.
Sem dúvida, cada vez mais cada especialista deve ser também um perito, melhor dizendo, o intérprete e o tradutor de sua competência para outro campo no âmbito da diversidade. E como é que estes conseguem passar de sua técnica representada pela língua dominada e reguladora, para a língua, mais comum, de outra situação? Mediante curiosa operação, que “converte” a competência em autoridade simbólica. Contudo, inscreve-se na linguagem comum das práticas, onde, aliás, uma superprodução de autoridade implica a sua própria desvalorização, uma vez que ela é procurada sempre mais como uma soma igual ou inferior de competência. Mas quando continua crendo ou dando a crer que age como cientista, confunde o lugar social e o discurso técnico, toma um pelo outro. Lembra Certeau (1993) que reconhecendo como científico, seu discurso não passava da linguagem ordinária dos jogos táticos entre poderes econômicos e autoridades simbólicas.
Neymar Júnior é um futebolista brasileiro que atua na posição de ponta-esquerda. Atualmente defende o Paris Saint-Germain (PSG) e nacionalmente a Seleção Brasileira. Revelado pelo clube Santos, fez sua estreia no time profissional em 7 de março de 2009, aos 17 anos, quando se tornou o principal futebolista em atividade no país. Em 2013, foi vendido ao Barcelona em alta no mercado do futebol, após ser protagonista da conquista da Copa das Confederações FIFA 2013 pela Seleção Brasileira. Ao lado de Messi, Iniesta, Xavi, Daniel Alves e Luís Suárez, conquistou a Liga dos Campeões da UEFA 2014/15 e se transformou no principal futebolista no ranking brasileiro e um dos principais do mundo globalizado. Em 2015, foi finalista do prêmio Bola de Ouro da FIFA de melhor jogador do mundo. Em 2017 se tornou “a transferência mais cara da história do futebol mundial, com sua venda milionária ao Paris Saint-Germain por € 222 milhões”. Além disso, nesse mesmo ano foi pela segunda vez na carreira, um dos três finalistas da premiação da FIFA de melhorjogadordomundo, atualmente nomeada como “The Best FIFA Football Awards”, ou apenas, “FIFA The Best”. Também foi finalista pela revista FranceFootball, responsável pela entrega da “Bola de Ouro” (Ballond`Or).
A eliminação de 2014 não abalou o prestígio internacional do futebol brasileiro, e a nossa seleção chega à Rússia como uma das mais cotadas para a conquista do título. O time atravessa ótima fase desde que o técnico Tite assumiu seu comando em setembro de 2016. De lá para cá, já foram disputadas 17 partidas entre amistosos e compromissos oficiais, e a equipe obteve 83,3% de aproveitamento, com 13 vitórias, três empates e apenas uma derrota. O Brasil sobrou nas Eliminatórias Sul-Americanas, e encerrou sua participação dez pontos à frente do Uruguai, o segundo colocado. Seu único revés aconteceu na partida de estreia, diante do Chile, no já distante ano de 2015. Contudo, o time foi pouco testado contra adversários europeus, e quando enfrentou a Inglaterra teve muitas dificuldades. O grupo atual é aparentemente menos dependente de Neymar do que o de quatro anos atrás. No esquema 4-1-4-1 do técnico Tite o craque do Paris Saint-Germain (PSG) atua pela ponta-esquerda, com Gabriel Jesus centralizado no ataque. O meio de campo tem Paulinho, no auge de sua carreira no espetacular Barcelona, e os laterais Daniel Alves e Marcelo, remanescentes com maior protagonismo. O problema elementar num quadro de atuação equilibrado é a falta de reposição à altura. Em caso de contusão de algum dos titulares o time poderia vir a ter grandes problemas.
A transferência de Neymar Jr para Barcelona envolveu polêmica. Quando foi oficializada em 25 de maio de 2013, o valor divulgado da negociação era de 57 milhões de euros. Mas o valor total da transação pode ter sido entre 86 milhões a 95 milhões de euros. O anúncio colocava fim a uma “especulação de meses sobre a possível saída do jogador do clube Santos”. O Real Madrid chegou a fazer uma proposta superior ao rival catalão e acreditava que poderia negociar com o clube brasileiro. Mas Neymar Júnior já estava comprometido com o clube desde antecipadamente desde novembro de 2011, antes mesmo da disputa do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA daquele ano. Um vice-presidente do Barcelona confirmou que o jogador recebeu 10 milhões de euros em adiantamento. E caso o acordo não fosse cumprido por uma das partes, havia indenização a ser paga.
A Justiça espanhola resolveu investigar o caso no início de 2014, quando um dos sócios do Barcelona exigiu esclarecimentos sobre a forma pela qual o clube comprou o atacante brasileiro, confirmou-se “indícios de delitos” nos contratos entre Neymar, a empresa de seu pai e o presidente do Barcelona, Sandro Rosell. O escândalo teve como primeiro efeito social a saída de Rosell do comando do clube. O novo presidente do Barcelona, Josep Maria Bartomeu, admitiu que Neymar custou 86,2 milhões de euros ao Barcelona, mas que a diferença monetária para os 57,1 milhões de euros anunciados foram referente a luvas, parcerias sociais entre o clube e a Fundação Neymar e ações de marketing. O pai de Neymar confirmou que recebeu no total 40 milhões de euros como na negociação do seu filho para o futebol espanhol e que agiu com conhecimento de Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, então presidente do clube Santos, para negociar os termos da transferência entre o clube espanhol e o agente articulada para julho de 2014.
Chris Eaton, diretor de integridade do Centro Internacional de Segurança no Esporte (ICSS), entidade sem fins lucrativos criada no Qatar para investigar, em diálogo com a FIFA, questões relacionadas à proteção aos atletas, ao comportamento deles em campo e ao combate à corrupção, expressa principalmente com a venda de resultados. Quando vê um jogador de futebol simulando, fingindo, enganando o árbitro, o dirigente sente um temor: - “de que aquele sujeito de chuteiras seja um corrupto em potencial”. É uma visão combativa, certamente, mas vista aparentemente como exagerada por muitos. E que amplia a discussão da interpretação sobre os limites da simulação em um campo de futebol. Para Eaton, no momento em que um jogador abre brecha para o fingimento com o objetivo de vencer uma partida, a corrupção está mais viva; se o atleta dá uma concessão à burla da regra, também faz uma concessão em seu caráter, e aí abre o caminho até para ajeitar resultados - a grande preocupação normativa no ICSS.
À frente do técnico de futebol da seleção brasileira Tite, o jogador Neymar grita, possivelmente de dor após receber um “pisão no pé”, de Miguel Layún da seleção do México, o que amplificou a polêmica envolvendo o craque brasileiro. O futebol é jogado numa zona cinzenta entre o que o olho pode ver, num teatro de operações que, numa fração de segundos de tempo e espaço que escapa aos juízes, aos bandeirinhas e aos próprios jogadores que estão fora do contexto da ação. A improbabilidade de saber ao certo e definitivamente o que aconteceu, faz parte do fascínio e intriga do futebol. Mesmo cada vez mais aprimorado o “árbitro de vídeo” que pretende elucidar, através da seleção e análise do evento, aquelas ambiguidades visuais permanecem na zona nebulosa de interpretação sociológica porque são marcas instantâneas do futebol. Nada é mais ambíguo do que o contato físico, no corpo a corpo que o futebol admite e tenta regulamentar, entre a disputa na peleja e o atirar-se contra o corpo do outro. Entre a entrada dura, mas legítima, e a jogada desleal, entre o lance legal, a falta para cartão amarelo e para cartão vermelho levando-o à expulsão do jogo.
Zona
Cinzenta é uma expressão comum na língua inglesa (gray area) que
significa que algo está em uma região nebulosa, que nem tudo é preto ou branco.
Do ponto de vista técnico-metodológico implica reconhecer que a zona cinzenta
da Arbitragem é uma terminologia usada no futebol para designar o local no
campo de jogo onde há a maior dificuldade para a arbitragem tomar a decisão
correta dentro da grande área. Ela é uma faixa de campo que fica entre o
árbitro e os atuais árbitros assistentes, que é como são chamados os árbitros
de campo. Popularmente reconhecidos com “bandeirinhas”, os juízes assistentes
têm como função auxiliar o árbitro. Os “bandeirinhas” devem indicar quando a
bola está fora do jogo, qual equipe deve fazer o arremesso lateral e quando um
jogador está em posição de impedimento. Essa zona vem recebendo uma atenção
especial da FIFA nos treinamentos dos árbitros de elite, já que esta zona
“foge” a diagonal padrão dos árbitros centrais, ficando distante de sua
visualização. Desta forma, é em lances que ocorrem nesta região que acontecem
muitos erros de arbitragem. Por isso, ultimamente a FIFA tem orientando para
que sempre que as jogadas ocorrem dentro desta área, os centrais devem
“abandonar” sua trajetória normal para poder se aproximar do local da tomada de
decisão.
A Uefa abriu na sexta-feira, 22/03/2019, um processo disciplinar contra o atacante Neymar Jr. por insultos ao árbitro da partida perdida pelo Paris Saint-Germain (PSG) para a ManchesterUnited por 3 a 1, o que poderia acarretar uma suspensão pela Liga dos Campeões. Este expediente é a continuação lógica da investigação iniciada pela instância disciplinar da instituição no dia 13 de março contra a estrela brasileira. A Uefa decidirá de fato e de direito se o jogador Neymar Júnior infringiu o artigo 15.d de seu código disciplinar, que estipula que um jogador pode ser punido “com uma suspensão de três jogos ou outro período por insultar (um árbitro)”. Sem poder jogar Neymar, lesionado, assistiu ao jogo das arquibancadas do Parque dos Príncipes a eliminação de sua equipe na Liga dos Campeões e deixou aflorar sua irritação nas redes sociais, depois do árbitro da partida recorrer ao “árbitro de vídeo” (VAR) nos acréscimos do jogo para marcar um pênalti a favor do Manchester United, que acabou vencendo por 3 a 1 e avançando às oitavas de final da Champions. O International Football Association Board (IFAB), órgão que trata das regras do método de futebol aprovou por unanimidade o uso de árbitros assistentes de vídeo (VARs), na sua 132ª Reunião Geral Anual (AGM), realizada em Zurique. O evento histórico foi liderado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. O VAR é composto por um conjunto de câmeras que transmitem as imagens para uma sala isolada do campo, onde assistentes de vídeo podem rever as jogadas. Existem apenas quatro tipos de lances que podem ser revistos. Esta assistência pode ocorrer a pedido do árbitro, em caso de dúvidas em uma das jogadas que podem ser revistas, ou caso os assistentes observem um lance duvidoso e comuniquem o juiz da partida através do fone de ouvido. Neste momento, os assistentes de vídeo reproduzem as imagens em seus monitores e transmitem suas conclusões ao árbitro. É este último que toma a decisão final. Pode fazê-lo depois de também consultar as imagens em um monitor localizado na lateral ou confiar exclusivamente no critério dos assistentes que asseguram que a decisão correta.
Uma das funções do VAR é, segundo o site da FIFA, “ajudar o árbitro a determinar se houve alguma infração que impeça de validar o gol”. Inicialmente, pensava-se que o VAR não poderia corrigir o impedimento, porque este não é mencionado nas quatro situações (gols, pênaltis, cartões vermelhos e erros de identidade), mas, na verdade, o sistema está habilitado para reverter qualquer ação técnica que possa ter influenciado um gol. Neste caso, dizem os especialistas, o ritmo do jogo não é atrasado, porque o gol em si já paralisa a partida. Em março de 2015, Serge Aurier, na época lateral do PSG, foi o primeiro jogador punido pela Uefa por comentários feitos nas redes sociais, recebendo três jogos de suspensão. Desfalque por lesão contra o Chelsea, “o lateral marfinense publicou em sua página na rede social Facebook um vídeo em que aparece comemorando a classificação parisiense e xingando o árbitro. Aurier, porém, pediu desculpas pouco após o incidente, algo que Neymar ainda não fez”. O projeto do árbitro de vídeo é brasileiro e foi criado por Manoel Serapião, com o apoio da Comissão de Arbitragem da CBF e da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol (ENAF).
Sua aprovação pela FIFA representa uma nova era para o futebol, com o uso da tecnologia para árbitros, ajudando a aumentar a integridade e a justiça no jogo. Antes de tomar sua decisão, os membros do IFAB receberam os resultados da análise independente do uso do VAR, realizados pela universidade belga KU Leuven desde o início de 2016. A filosofia do árbitro de vídeo é “interferência mínima, benefício máximo” e visa à redução da injustiça causada por “erros claros e óbvios” nas seguintes situações: Gol/Não gol; Penalidade/Sem penalidade; Cartão vermelho direto; Identificação equivocada. Os princípios de um “Programa de Assistência e Aprovação de Implementação” (IAAP) de arbitro de vídeo (VAR), supervisionados pelo IFAB em conjunto com a FIFA, foram aprovados para assegurar consistência, aprimoramento e qualidade nas competições de futebol que desejam usar o recurso técnico-científico. Foi aprovado um manual para consulta preliminar, contendo protocolo, princípios e requisitos obrigatórios para permitir o rigoroso processo de aprovação obrigatória.
Bibliografia geral consultada.
ANDREWS, David; JACKSON, Steven, Sports Stars: The Cultural Politcs of Sporting Celebrity. Londres: Routledge, 2001; SODRÉ, Muniz, Mandinga Cuerpo. Colômbia: Ediciones Manati, 2002; COURTNEY, Richard, Jogo, Teatro &Pensamento. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003;LIMA, Luiz Costa, Trilogia do Controle: O Controle do Imaginário; Sociedade e Discurso Ficcional; O Fingidor e o Censor. Rio de Janeiro: Editor Topbooks, 2007; AZEVEDO, Aldo Antonio de, “A Imaterialidade do Trabalho do Jogador de Futebol: Uma Interpretação”. In: Sociedade e Cultura, Volume 11, n°2, jul./dez. 2008; pp. 305-313; GIULIANOTTI, Richard, Sociologia do Futebol: Dimensões Históricas e Esporte das Multidões. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2012; CONSTELA, Carlos Vergara;
MARTÍNEZ, Eric Valenzuela (editores), Todo es Cancha: Análisis y Perspectivas
Socioculturales del Fútbol Latinoamericano. Santiago: Cuarto Propio, 2014; SOUZA,
Gustavo César Arêas de, Em Nome da Excitação: Uma Etnografia da Relação Política
entre Torcedores Organizados e Dirigentes de Futebol. Dissertação de Mestrado.
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Instituto de Ciências Humanas e
Sociais. Seropédica (RJ): Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro, 2014; DUNNING, Eric, Sociologia do Esporte e os Processos Civilizatórios. São Paulo: Annablume Editora, 2014;ANDRADE, Polyanna Peres, “É muito mais que entrar em campo e defender um time”: qualidade de vida no trabalho, bem-estar/mal-estar no trabalho e carreira de jogadores de futebol profissional. Tese de Doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações. Brasília: Universidade de Brasília, 2016; RANGEL, Leonardo Coutinho de Carvalho, Esposas de Cristo: Santidade e Fingimento no Portugal Seiscentista. Tese de Doutorado em História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2018; MENEZES DOS ANJOS,
Fabio, Psicanálise e Esporte: O Mal-estar na Carreira de Atletas
Profissionais. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em
Psicologia. Instituto de Psicologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; entre outros.
“O real se faz conhecer àquele que trabalha através do fracasso”. Christophe Dejours
A
invenção da primeira televisão, é da autoria de Philo Farnsworth (1906-1971),
um jovem rapaz norte-americano. Apesar de ser atribuída muitas vezes a invenção
a Vladimir Zworykin, a primeira televisão funcional foi desenvolvida por Philo
Farnsworth. Após ter desenvolvido o projeto funcional, a RCA que detinha o
império nas comunicações rádio, queria também deter o monopólio da televisão.
Este foi um problema para a RCA, pois não tinha investigadores com capacidades
para desenvolver um projeto como este, até encontrar um cientista genial, que
já estaria a desenvolver um projeto semelhante, mas que apresentava demasiados
problemas na transmissão de imagem. Historicamente, começa um processo
judicial, para se saber a quem pertencia a patente da primeira televisão, e a
RCA com os seus excelentes advogados conseguiram atrasar o processo de
desenvolvimento de Philo Farnsworth, que tratando-se de um investigador com
poucos recursos financeiros, começou a atrasar o seu projeto tecnológico. Só ao
fim de meses o tribunal atribuí a primeira patente de Philo Farnsworth no ano
de 1922. Como
Philo Farnsworth não tinha dinheiro para investir, depois de ter começado a se
refugiar no álcool, e tendo a sua patente não renovada na década de 1940, a RCA
conseguiu ter acesso aos registos de Philo, e é dessa forma que, após a
criação da NBC, a patente da 1ª televisão é atribuída a Vladimir
Zworykin, que tinha feito uma patente em 1923. Ele registra a
patente do tubo iconoscópico, para a transmissão de imagens. Este dispositivo
foi o precursor das câmeras televisivas.
O primeiro sistema semimecânico de
televisor analógico foi demonstrado por John Logie Baird, em 26 de janeiro de
1926, em Londres, e em fevereiro de 1928, imagens em movimento foram
transmitidas por Baird de Londres para New York. Esse sistema era composto de
um disco giratório perfurado, no qual luzes de néon se ascendiam por detrás;
respondendo ao sinal da estação de rádio que capturava as imagens através de
disco idêntico. Os ruídos provocados pelo aparelho dificultavam a emissão
sonora, mas mesmo assim, foi o primeiro aparelho a reproduzir imagens em
movimento com 32 linhas de resolução.O
primeiro serviço analógico foi a WGY em Schenectady, Nova Iorque, inaugurado em
11 de maio de 1928. Os primeiros televisores eram rádios com um dispositivo que
consistia num tubo de néon com um disco giratório mecânico ou disco de Nipkow,
que produzia “uma imagem vermelha do tamanho de um selo postal”. O primeiro
serviço de alta definição apareceu na Alemanha em março de 1935, mas estava
disponível apenas em 22 salas públicas. Uma das primeiras grandes transmissões
televisivas foi a dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. O uso do
televisor aumentou enormemente depois da 2ª guerra mundial (1940-1945) devido
aos avanços tecnológicos surgidos com as necessidades da guerra global e à
renda adicional disponível, os televisores na década de 1930 custavam o equivalente
a sete mil dólares, na cotação de 2001, e havia pouca programação disponível. A
primeira transmissão em cores ocorreu em 1954, na rede
norte-americana NBC. Um ano antes o governo dos Estados Unidos aprovou o
sistema de transmissão em cores proposto pela rede CBS, mas quando a RCA
apresentou um novo sistema que não exigia alterações nos aparelhos antigos em
preto & branco, a CBS abandonou sua proposta em favor da nova.
Christophe
Dejours é doutor em Medicina, especialista em medicina do trabalho e em
psiquiatria e psicanalista. É considerado o pai da psicodinâmica do trabalho. A
psicodinâmica do trabalho é uma abordagem científica, desenvolvida em França na
década de 1980, pelo expert que tem pesquisado a vida psíquica no
trabalho há mais de 30 anos, tendo como objeto de pensamento o sofrimento
psíquico e as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos trabalhadores para
a superação e transformação do trabalho em fonte de prazer. Em sua pesquisa o
inicio da história da psicodinâmica do trabalho se dá no decorrer dos anos 1970
do século XX, na França, muito próxima na época da psicopatologia do trabalho.
Em meados dos anos 1990 seus estudos começam a investigar o tema do “sofrimento
no trabalho” aliviando a relação causal precedente utilizada pelos
psicopatologistas do trabalho. A dimensão de preocupação posterior é problematizar
o sofrimento gerado na relação homem-trabalho: quando o trabalho é fonte de
sofrimento, está nas raízes de possíveis descompensações psicossomáticas.Dejours então se torna um pioneiro que vai
formular a nova ciência, tratada como “análise do sofrimento psíquico
resultante do confronto dos homens com a organização do trabalho”. Dejours, em
definição posterior, entende que se trata da “análise psicodinâmica dos
processos intrassubjetivos e intersubjetivos mobilizados pela situação de
trabalho”. O sofrimento passa a ser o centro da análise que, articulada às
exigências da organização do trabalho, revela os modos de subjetivação, principalmente,
da classe trabalhadora.A utilização da força de trabalho representa o próprio trabalho. Insto é, em mercadorias, ele tem de representa-lo, sobretudo, em valores de uso, em coisas que sirvam para satisfazer as necessidades de alguma espécie.
É um valor social de uso particular, um artigo determinado, que o capitalista faz o trabalhador produzir. A produção de valores de uso, ou bens, não muda sua natureza geral por se realizar para o capitalista e sob seu controle. Por isso, o processo de trabalho deve ser considerado de início independente de qualquer forma social determinada. O trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a sua própria existência. É neste sentido que opera a centralidade do trabalho numa forma que pertence ao homem com exclusividade. Uma abelha, dizia Marx, “executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto com a construção de favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ela construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, idealmente”. Além do esforço dos órgãos que trabalham, sociologicamente é exigida a vontade orientada a um fim como representação de um resultado, que se manifesta em todo o tempo social de trabalho. E isso tanto mais quanto menos esse trabalho, pelo próprio conteúdo e pela espécie e modo de execução, atrai o trabalhador, quanto menos ele aproveita como jogo de suas próprias forças físicas e espirituais. Temos assim o trabalho per se constituindo a atividade orientada a um fim, ou trabalho propriamente, seu objeto e seus meios de trabalho.
Elizeu Marques da Silva, diretor-geral da TVdosTrabalhadores (TVT), falecido em 24 de maio de 2013, aos 62 anos em São Paulo, vítima de complicações cardiorrespiratórias, foi um cinegrafista dentre pioneiros dos registros audiovisuais de manifestações de vida dos trabalhadores da Região do ABC Paulista. É uma região tradicionalmente industrial do estado de São Paulo, parte da Região Metropolitana de São Paulo, porém com identidade própria. A sigla vem das três cidades que, originalmente, formavam a região, sendo: Santo André (A), São Bernardo do Campo (B) e São Caetano do Sul (C). Às vezes, Diadema (D) é incluído na sigla apesar de ser considerada por muitos uma cidade que não deveria ser integrada ao grupo, pois, diferente das outras cidades, não representa nenhum santo. A sigla foi dada em ordem alfabética no ato de suas fundações, devido a influência da religião católica na região, fato este que deu a origem da sigla “ABC” Paulista, a região dos 3 santos de São Paulo. É relativamente comum encontrar também a sigla que também inclui os municípios de Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. O ABC é balizado historicamente por ser o primeiro centro histórico da indústria automobilística brasileira. A região é sede de diversas montadoras, como Mercedes-Benz, Ford, Volkswagen e General Motors, entre outras.
A presença de indústrias competitivas desse porte fez com que a região fosse o berço do movimento sindical contemporâneo no Brasil. As greves dos operários foram fortes no final da década de 1970, o que resultaria na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no início da década seguinte. Esta força sindical concentrada na região do ABC tomou dimensões gigantescas e, mesmo com seu caráter importante para defender os trabalhadores brasileiros, também teve uma contribuição negativa; considerando que muitas plantas industriais deixaram de se instalar ou migraram a outras regiões. Precisamente há 40 anos, no dia 14 de março de 1973, a Fiat Automóveis dava o primeiro passo para se instalar no Brasil, em Minas Gerais e a Ford, dentre outras, e toda a rede de fornecedores que abastecem estas megaindústrias. Este caráter político e social também se refletiu nas artes e cultura da região, principalmente no teatro. Grupos e espetáculos foram criados nesta época, refletindo bem sua realidade. Esta crescente manifestação cultural acabou germinando em grupos de teatro que ainda hoje são atuantes. São Bernardo do Campo conta com a maior população estimada do ABC, 833.240 habitantes, de acordo com as estimativas de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística. Na cidade está localizada mais de 70% da represa Billings, e parques circundantes à represa, como Estoril, localizado próximo do Riacho Grande e acesso pela Rodovia Caminho do Mar.
Elizeu Marques nascido em junho de 1950 na Vila Alpina, capital paulista, cursou ferramentaria no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), foi operário, diretor de base do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e militante ativo nas greves e mobilizações realizadas no final da década de 1970 e início dos anos 1980. A ideia dos metalúrgicos registrarem em vídeo sua história social e política começou com as greves do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 e tomou forma em 1983 quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT), então diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, voltou de uma viagem à Europa com uma câmera doméstica. Ainda na década de 1980, Elizeu teve contribuições valiosas como cinegrafista, sendo um dos responsáveis pelas gravações de imagens históricas sobre os trabalhadores, com registros em vídeo de manifestações e assembleias, além de documentários, vídeos educacionais e telejornais. Em 1984, passou a ser um trabalhador voluntário no Sindicato dos Metalúrgicos da região do ABC, em decorrência da demissão da empresa Forjaria São Bernardo.
Atuou como assessor da entidade para no ano seguinte iniciar atividades no recém-inaugurado departamento de vídeo, o embrião do que representa a TV dos Trabalhadores. O que era uma ideia transformou-se numa emissora de televisão, a TVT. Elizeu narrou essa história na Tribuna, às vésperas da inauguração da pioneira TVT, em 5 de agosto de 2010. - Gravamos eventos e ações do Sindicato porque sempre nos preocupamos em registrar a história que fazíamos. Em 1984 criamos um departamento de vídeo e por meio de um convênio com uma entidade holandesa conseguimos uma câmara profissional, uma ilha de edição e montamos nosso primeiro vídeo móvel. O que nos interessava era registrar a história social, mas não mostrá-la. Montamos um caminhão com o vídeo móvel e criamos um telejornal de oito minutos com notícias da categoria, que exibíamos todos os dias nas fábricas. Achávamos que não deveríamos depender de ninguém para nosso trabalho. Sermos nós os donos do traquejo, da forma e da linguagem mais apropriada para se comunicar com os trabalhadores.
Em 1987 - afirma - fizemos o pedido ao governo federal para a concessão do canal. Após a saída de Lula da direção do Sindicato, assumiu a diretoria de base de 1981 a 1983, quando o mandato foi cassado pela ditadura militar após a chamada “Greve do Arrastão” - protesto contra os arrochos salariais estabelecidos pelo então general-presidente João Batista de Figueiredo. - “Os trabalhadores eram presos um dia antes de a greve geral começar”. Esta é uma das principais lembranças que Josimar Alves Bezerra, o Banana, supervisor de operações na TVT, tem do movimento que estourou em 1983, quando ele trabalhava na Mercedes, em São Bernardo. Naquele ano, em plena ditadura militar no Brasil, trabalhadores de todo o País decidiram enfrentar o regime de exceção e convocar greve geral contra a política de arrocho imposta pelo governo. Os trabalhadores estavam revoltados contra o decreto que limitava a reposição da inflação sobre os salários em 80%, enviado ao Congresso Nacional pelo general presidente, João Batista Figueiredo. Os primeiros a protestarem foram os petroleiros de Campinas e Paulínia, que paralisaram suas atividades no início de julho. Em 1990 passa a coordenar a seção de vídeos da TVT que, nas conjunturas de greves, tinha como principal objetivo gravar e registrar etnograficamente a memória de mobilização dos trabalhadores.
A TV dos Trabalhadores entrou no ar com a data histórica que marca a estreia da primeira emissora de televisão outorgada aos trabalhadores com a presença do presidente sindicalista Luiz Inácio Lula da Silvia, ministros, prefeitos, parlamentares, dirigentes sindicais, empresários e 1.700 trabalhadores da base do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, fundador e mantenedor da Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho. A entidade sem fins lucrativos recebeu a outorga da TV em outubro de 2009, após 23 anos de luta e do primeiro pedido oficial feito ao Ministério das Comunicações e intermediado pelo então deputado constituinte Lula. O carro-chefe é um jornal ao vivo de 30 minutos, intitulado SeuJornal, que já vem sendo exibida de segunda a sexta-feira. Integram a grade outras sete produções envolvendo serviços, debates, documentários, cooperativismo, entrevistas e destaques do mundo do trabalho. Para garantir o restante da programação, foram firmadas parcerias com a TV Brasil (pública) e as TVs Câmara e Senado, que fornecerão noticiário nacional, reportagens especiais e documentários sobre a questão tópica do processo de trabalho. Equipe constituída com 70 profissionais é responsável pela produção da programação própria da TVT. Segundo Valter Sanches, foi investido R$ 1 milhão na compra de equipamentos. O custo mensal da programação da TVT está estimado em R$ 400 mil.
O que nos diz esta imagem do ponto de vista comunicativo? A Rede TVT, ou a TV dos Trabalhadores, não era a única emissora de TV do país com acesso às dependências da sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo durante a vigília do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas era a única bem-vinda ao local. De acordo com informações do coordenador da Rede TVT, Paulo Salvador, a emissora vai processar por uso indevido do link a Rede Globo,Band, Estadão e Folha, entre vários outros veículos. O caso aconteceu durante as transmissões da vigília do ex-presidente Lula e da missa em homenagem à Dona Marisa. De acordo com informações do coordenador da Rede TVT, Paulo Salvador, a emissora vai processar por uso indevido do link a Rede Globo, Band, Estadão e Folha, entre vários outros veículos. O caso aconteceu durante as transmissões da vigília do ex-presidente Lula e da missa em homenagem à Dona Marisa. - “Foi pouco ético e é claro que isso tem direitos autorais. Vamos colocar o nosso Departamento Jurídico pra estudar o assunto. Estamos capturando todas as imagens e vamos tomar as providências. o pediram nem autorização, coisa que eles costumam fazer, mas desta vez nos ignoraram completamente e colocaram o link no ar”, disse o coordenador do evento. - “O que acontece é que temos uma solidariedade impressionante do pessoal da base. Eles nos ajudam, abrem espaço, carregam equipamento. As pessoas estão encontrando na gente uma fonte autêntica das informações. Pelos informes que nós temos de Ibope, nós passamos a Globo na manhã deste sábado”, acrescentou Paulo Salvador.
Por conta disto, o seu sinal foi usado indevidamente por quase todas as grandes empresas de comunicação do país, incluindo a Rede Globo, Band, Estadão e Folha de S. Paulo, sem autorização alguma para isso. A reprodutora Globo News ficou ao vivo com o link da TVT praticamente toda a manhã de sábado, além de fazer várias chamadas em outros horários durante todo o episódio. De acordo com a postagem do editor de vídeo da emissora, Ricardo Bazan, além de usarem o “link” de forma indevida, alguém da Globo ligou e pediu: - “Olá, aqui é da Globo, vocês podem tirar essa tarja da imagem? Está atrapalhando a nossa transmissão”. Paulo Salvador ainda ressaltou: - “todos eles estavam lá com equipamentos poderosos. Nós não tivemos nenhum acesso privilegiado. Eles estavam com uma parafernália grande, inclusive com helicópteros e preferiram usar o nosso conteúdo, então isso contempla a qualidade do nosso trabalho. Em tempos de internet estamos viabilizando uma TV aberta contra todos os prognósticos. Nós não nos chamamos de TV Alternativa, mas de TV substitutiva” (Cf. Costa, 2018). Por ser educativa, a emissora não pode veicular publicidade nem ter patrocínios, mas apenas apoios culturais. Para poder habilitar-se legalmente à concessão, o Sindicato fez um aporte financeiro de R$ 15 milhões próprios, aprovado em assembleia em 2007, na conta da Fundação.
Sanches e Sérgio Nobre afirmaram que o Sindicato ira buscar apoios culturais e novos parceiros para a TVT ainda este ano. - “Vamos fazer dessa emissora uma grande rede nacional”, afirmou o presidente do Sindicato. A outorga da emissora foi feita em outubro do ano passado em decreto assinado pelo presidente Lula e pelo então ministro das Comunicações, Hélio Costa. Além do Canal 46 UHF, a Fundação também teve outorgada, no ano passado, mais uma emissora UHF, em São Caetano, e duas emissoras de rádio, uma em São Vicente e outra em São Caetano. A Fundação foi criada em 10 de setembro de 1991, sem fins lucrativos, para produzir e divulgar programas de TV de conteúdos educativo, cultural, informativo e recreativo, em todo o território nacional. A emissora é presidida pelo dirigente do Sindicato Valter Sanches, metalúrgico na Mercedes-Benz, e dirigida por conselho composto por 40 membros eleitos em assembleia a cada três anos, que tem como representação diversas categorias de sindicatos filiados à Central Única dos Trabalhadores, como as representações sindicais dos Metalúrgicos e Químicos do ABC, Bancários de São Paulo e do ABC, Petroleiros, Professores e Jornalistas de São Paulo.
A televisão pública, segundo Gabriel Priolli Jr., no artigo: “A TV pública é importante?”, nascida formalmente educativa, de fato veio como uma tentativa de reequilibrar o cenário televisual, para dar ao público o que a TV comercial sonegava: informação e, sobretudo, educação, considerados produtos televisivos de prestígio, mas de baixa ou nenhuma lucratividade. E já veio com forte viés estatal, porque o Decreto-Lei 236, que a instituiu em 28 de fevereiro de 1967 e segue em vigor, faculta a possibilidade de requerer outorgas de radiodifusão educativa apenas a governos, fundações e universidades. Nos últimos 40 anos, os três níveis de governo, as fundações públicas e as universidades federais conquistaram a maior parte das outorgas educativas. A missão de reequilibrar o sistema televisual, entretanto, não foi cumprida pela TV educativa. Para o jornalista, cronicamente carente de recursos e apoio político, limitada por uma legislação canhestra, presa à concepção equivocada de uma teleducação receosa de divertir enquanto ensina, a TV educativa nunca conseguiu seduzir o grande público, a ponto de rivalizar com a TV comercial nos índices de audiência. Colecionou êxitos, alguns enormes, como “Vila Sésamo”, “Rá-Tim-Bum”, “Vox Populi”, “Roda Viva”, mas limitou-se, em geral, a uma audiência dita “periférica”, raramente superior a 5% do universo de telespectadores, o que comprometeu o seu desenvolvimento.
A Fundação firmou uma parceria com a Associação dos Canais Comunitários do Estado de São Paulo - ACESP para retransmissão da programação da TVT em 27 emissoras comunitárias nas sete cidades do ABC, constituído pelas cidades de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra – canal 48) e nas seguintes praças: Atibaia, Bragança Paulista, Cubatão, Guarulhos, Itapetininga, Mogi das Cruzes, Osasco, Peruíbe, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Jacareí, São José do Rio Preto,Valinhos, Limeira, Americana, Rio Claro, Sumaré, Hortolândia, Mogi Mirim, Mogi Guaçu, Itapetininga e São Paulo (capital). Outra parceria foi firmada com Nova Geração de Televisão, a Rede NGT, por seis meses, para retransmitir a programação da TVT a diversas regiões do Estado de São Paulo e em geral do Brasil. São mais de 240 pontos de abrangência em todo o País. Na Grande São Paulo, por exemplo, são 26; na região de Bauru, mais 26; na Grande Rio de Janeiro, 16; em Minas Gerais, 87, sendo 17 no sul-sudeste; na região do Cariri, no estado do Ceará, 24. A população total dessas regiões é de 40 milhões de habitantes e 12 milhões de domicílios com televisores, segundo dados estatísticos da NGT, reconhecida como Rede NGT ou NGT é uma rede de televisão aberta brasileira inaugurada no dia 8 de outubro de 2003 pelo industrial Marco Antônio Bernardes Costa. No
início da década de 2000, o empresário Manoel Antônio Bernardi Costa adquire as
concessões dos canais 48 UHF da cidade de Osasco, no estado de São Paulo, em
nome da Fundação de Fátima, e 26 UHF do Rio de Janeiro, capital do estado
homônimo, em nome da Fundação Veneza, ambas, de caráter educativo, pertencentes
até então à UniTV, e que se tornariam matrizes da Nova Geração de Televisão. A
empresa fabricante de antenas Mecatrônica, de propriedade de Manoel, ficou
responsável por bancar os custos da futura rede.
Em
24 de abril de 2003, a sede da emissora, localizada no bairro Butantã, na
capital paulista, que recebeu o nome Espaço 48, foi aberta para visitação do
público. Sua estrutura foi montada por cerca de cem designers e decoradores
coordenados por Regina Fronterotta e Ricardo Rangel, sendo este último, também,
diretor geral da NGT.Com transmissão a
partir de São Paulo pela Torre Cásper Líbero, localizada no Edifício Gazeta, na
Avenida Paulista, que também retransmitia o sinal da TV Gazeta, a rede entrou
no ar em 8 de outubro de 2003, exibindo oito horas de programação terceirizada
em caráter experimental. Os documentários que compunham sua grade eram
produzidos pelo canal educativo STV e pelos canais de TV paga argentinos
Infinito e FashionTV, pertencentes à programadora Claxson, a qual a NGT firmou
uma parceria. No início de 2006, passou a exibir apenas programação própria,
baseada em variedades, jornalismo, filmes e esportes, através de uma parceria
com a TV Esporte Interativo. Entre 2010 e 2011, o canal fechou uma parceria com
a E+ Entretenimento para exibir séries e filmes em sua grade. Entre 2011 e
2013, a NGT firmou uma parceria com a TV Diário de Fortaleza para a
retransmissão de algumas atrações da emissora cearense na grade nacional da
rede. Em 25 de maio de 2015, a produtora independente Medialand licenciou seu
conteúdo para exibição na rede. Em 14 de junho de 2017, parte da programação
diária da NGT é arrendada à TV Plenitude, emissora da Igreja Apostólica
Plenitude do Trono de Deus. O arrendamento foi encerrado em 17 de abril de
2018. De fato, a TVT dos Trabalhadores está inovando o processo comunicativo global, no caso brasileiro, e claro, do ponto de vista da globalização, ao colocar oito metalúrgicos na equipe de reportagem, com a participação social de representantes das entidades do movimento social. Nelma Salomão, diretora de jornalismo da emissora, explica que um dos conceitos da programação da TV dos Trabalhadores é estar aberta à participação social. – “Esse será um dos nossos diferenciais. A participação de pessoas comuns produzindo conteúdo vem da necessidade de termos a visão desse lado da vida cotidiana, como a dos trabalhadores”. O coordenador de base por São Bernardo do Sindicato, Moisés Selerges será um dos repórteres trabalhadores e define sua participação como um elo entre a categoria e a emissora. - “O trabalhador não se vê na TV conforme a sua realidade. Não há um programa que discuta nossos direitos”. Ele compara sua afirmação com o comum da novela “Nunca vimos um personagem dizendo que precisa dormir cedo porque tem de trabalhar no dia seguinte”.
Vale lembrar que o primeiro pedido de concessão de canais de rádio e televisão para os trabalhadores via Sindicato foi feito em setembro de 1987. A entidade participou de quatro concorrências de concessão de radiodifusão e foi preterida em todas, apesar de ter cumprido todos os requisitos exigidos por lei. Em 1992, houve mais uma negativa, à época já em nome da Fundação Sociedade Comunicação, Cultura e Trabalho. Em abril de 2005, a Fundação conseguiu a concessão do canal educativo 46 UHF, com sede no município de Mogi das Cruzes da Grande São Paulo, com aprovação do Congresso Nacional. Na ocasião, o presidente Lula assinou o decreto da concessão na abertura do 16º Congresso Continental da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres - Organização Regional Interamericana de Trabalhadores (CIOSL-ORIT), que reuniu representantes das principais centrais sindicais de 29 países das Américas. No ato, Lula lembrou que era deputado constituinte quando levou o deputado federal e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Vicentinho (PT), para conversar com o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães (ACM), no governo do vice-presidente José Sarney, e pedir pela primeira vez a concessão.
Durante seu governo, no qual teve Antônio Carlos Magalhães (ACM) como um poderoso Ministro das Comunicações, foram distribuídas mais de mil concessões públicas de rádio e televisão, basicamente comerciais e sem licitação. A administração de José Sarney distribuiu 1.028 concessões de emissoras de rádio (AM e FM) e de televisão (30,9% dos canais existentes na época) - sendo que em apenas um mandato, José Sarney assinou um número de concessões superado apenas pela soma das permissões autorizadas por todos os presidentes brasileiros entre 1934 e 1979. A grande distribuição de concessões de radiodifusão representou uma política pública adotada em troca de apoio (favores) no Congresso nacional, inclusive para o maranhense José Sarney obter um ano a mais na vice-presidência da República. A própria família Sarney detém concessões deste tipo econômico e social por todo o estado do Maranhão, além de jornais impressos. - “O fato de Lula, um operário metalúrgico, ser o presidente da República foi determinante para que o Sindicato/Fundação conseguissem a concessão da TVT e as demais outorgas”. Em 2016, existiam tecnologicamente
em operação ao redor de todo o território brasileiro 545 estações geradoras e
13.630 retransmissoras, que compõem as redes de televisão de
estações geradoras e emissoras independentes.
Bibliografia geral consultada.
PARANÁ, Denise, Lula, o Filho doBrasil. Tese de Doutorado em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Sociologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995; MONTCLAIRE, Stéphane, “Lula et les Candidats du PT: Ampleur et limites d`un succès électoral, article présenté au débat Le Brésil des Réformes”. IHEAL - Paris III. Sorbonne Nouvelle, 13 juin 2003; MACHADO, Elaine Maria Costa, Comunicação, Negociação e Relações de Poder: A Dialética Histórico-estrutural na Práxis do Sindicato dos Professores Particulares do Rio Grande do Sul - SINPRO. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2006; MENEZES, Eduardo Silveira de, Audiovisual Alternativo: A Experiência da TV dosTrabalhadores(TVT). Dissertação de Mestrado em Ciências. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. Porto Alegre: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2011; DINIZ, Ângela Maria Carrato, Uma História da TV Pública Brasileira. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em
Comunicação. Faculdade de Comunicação. Brasília: Universidade de Brasília, 2013; DIAS, Carlos Eduardo Oliveira, A Efetivação Juridiscional da Liberdade Sindical. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Departamento de Direito do Trabalho e Previdência Social. Faculdade de Direito. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; CARISSIMI, Aline Chalus Verneck, Ação Sindical na Constituição da Agenda Política: Um Estudo sobre as Reivindicações e Negociações da APP - Sindicato com os Governos entre os Anos de 2003 e 2015. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2016; SOUZA, André Barcellos Carlos de, Televisão e (Des)razão. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2017; COSTA, Débora, “Rede TV dos Trabalhadores vai Processar Globo, Band, Estadão e Folha”. Disponível em: https://portalcm7.com/noticias/08/04/2018; PRADO, Carlos Batista, Partidos e Sindicatos: O PCB, a Oposição de Esquerda e o Movimento Operário no Brasil (1922-1936). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2019; entre outros.