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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

As Telefonistas - Técnica, Beleza, Comunicação & Profissionalização.


                                                                                                      Ubiracy de Souza Braga

       “O tom mais alto das cordas vocais femininas é mais compreensível”. Helmut Gold
 

              

 Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, ipso facto, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. 

Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta, e, finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade. A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. 

                                                    

O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade.

O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.   

        A telefonista é a profissional responsável por todo o sistema telefônico da empresa. Entre as atribuições mais comuns estão: receber e transferir ligações, efetuar chamadas telefônicas nacionais e internacionais, registrar informações, transmitir mensagens, localizar pessoas, e assim por diante. Operar equipamentos, atender, transferir, cadastrar e completar chamadas telefônicas. Auxiliar as pessoas, fornecendo informações e prestando serviços administrativos gerais. Operar equipamentos de telefonia, estabelecendo ligações internas e externas, recebendo e transferindo chamadas para o ramal solicitado. Anotar recados de visitantes ou de chamadas telefônicas e enviá-los para os funcionários. Saber agendar e fazer reuniões por telefone (conference calls). O atendente atua com atendimento ao cliente, recepciona, apresenta os produtos, realiza a organização de prateleiras, estocagem e organização do local. A recepcionista realiza o atendimento ao cliente, presta informações e recebe visitantes para encaminhamento aos funcionários da empresa para que obtenha eficácia simbólica.
As duas pregas vocais são um tecido musculoso, situadas no interior da laringe. O expulsar do ar por elas as fazem vibrar produzindo o som pelo qual nos comunicamos. As pregas são fibras elásticas que se distendem ou se relaxam pela ação dos músculos da laringe com isso modulando e modificando o som e permitindo todos os sons que produzimos enquanto falamos ou cantamos. Todo o ar inspirado e expirado passa pela laringe e as pregas, estando relaxadas, não produzem qualquer som, pois o ar passa entre elas sem vibrar. Quando falamos ou cantamos, o cérebro envia mensagens pelos nervos até os músculos que controlam as cordas vocais que fazem a aproximação das cordas de modo que fique apenas um espaço estreito entre elas. Quando o diafragma e os músculos do tórax empurram o ar para fora dos pulmões, isso produz a vibração das cordas vocais e consequentemente o som. O controle da altura do som se faz aumentando-se ou diminuindo-se a tensão das cordas vocais.

A frequência natural da voz humana é determinada pelo comprimento das cordas vocais. Assim mulheres que têm as pregas mais curtas possuem voz mais aguda que os homens com pregas mais longas. É por esse mesmo motivo que as vozes das crianças são mais agudas do que as dos adultos. A mudança de voz costuma ocorrer na puberdade que é provocada pela modificação das pregas que de mais finas mudam para uma espessura mais grossa. Este fato é especialmente relevante nos indivíduos do sexo masculino. O comprimento e a espessura das cordas vocais determinam, tanto para o sexo masculino, como para o sexo feminino, a extensão vocal e o registro de alcance das notas produzidas vocalmente. A laringe e as pregas vocais não são os únicos órgãos responsáveis pela fonação. Os lábios, a língua, os dentes, o véu palatino e a boca corroboram também para a formação dos sons. As duas pregas vocais representam um tecido musculoso, situadas no interior da laringe. Quando ocorre um movimento de expulsão do ar por elas as fazem vibrar produzindo o som pelo qual nos comunicamos.  
As pregas são fibras elásticas que se distendem ou se relaxam pela ação dos músculos da laringe com isso modulando e modificando o som e permitindo todos os sons que produzimos enquanto falamos ou cantamos. Todo o ar inspirado e expirado passa pela laringe e as pregas, estando relaxadas, não produzem qualquer som, pois o ar passa entre elas sem vibrar. Quando falamos ou cantamos, o cérebro envia mensagens pelos nervos até os músculos que controlam as cordas vocais que fazem a aproximação das cordas de modo que fique apenas um espaço estreito entre elas. Quando o diafragma e os músculos do tórax empurram o ar para fora dos pulmões, este movimento interno produz a vibração das cordas vocais e consequentemente o som. O controle da altura do som se faz aumentando-se ou diminuindo-se a tensão das cordas vocais com a fala. Criado em 1835, o Código Morse representava tecnicamente a forma mais simples de se transmitir mensagens a longa distância quando a transmissão de voz ainda não era possível. O aparelho que transmitia e recebia tais códigos era chamado telégrafo.
Com a invenção social do aparelho de transmissão da voz em 1876, o inventor Alexander Graham Bell obteve um êxito sensacional do ponto de vista massivo. Trabalhadores queriam ter o chamado “telefone”, que já não eram mais possíveis ligações individuais entre cada aparelho. Necessitavam-se do aperfeiçoamento das centrais telefônicas para fazer a conexão correta. Quando a primeira central telefônica entrou em funcionamento em Connecticut, o quarto estado norte-americano mais densamente povoado do país. A principal fonte de renda de Connecticut é a prestação de serviços financeiros e imobiliários. A capital do estado é Hartford, reconhecida nacionalmente como Insurance City (“cidade seguradora”), por causa da grande quantidade de companhias de seguros que estão ali sediadas, eram trabalhadores do sexo masculino que faziam as conexões ao outro lado da linha. Mas, já no final do ano, todos eles foram substituídos por mulheres: surgia então a profissão de telefonista. Também na Alemanha, no ano de 1890, foram contratadas mulheres para o trabalho nas centrais telefônicas, o que se justificou na época da seguinte maneira: - “O tom mais alto das cordas vocais femininas é mais compreensível. Além disso, os clientes comportam-se de forma mais amigável ao ouvirem uma voz de mulher ao telefone”.     
Os irmãos Thomas e Daniel Connelly, juntamente com Thomas J. McTighe patentearam o primeiro sistema em que um usuário podia controlar um mecanismo de comutação à distância. O aparelho, bastante primitivo, baseava-se nos telégrafos ABC do físico inglês Wheatstone e nunca chegou a ser usado. A parte principal do sistema era uma roda dentada, semelhante às usadas em relógios, que movida por um eletroímã, percorria o espaço de um dente por vez. Quando o eletroímã recebia um pulso elétrico, atraía uma barra metálica que fazia a roda dentada girar um “espaço”, movendo um braço de metal que, transmitia os pulsos elétricos sucessivamente e estabelecia contato com as demais linhas. A primeira central telefônica do mundo foi inaugurada em 28 de janeiro de 1878 em New Haven, Connecticut, tendo sido iniciada com apenas oito assinantes. Em 1884, Ezra Gilliland, da empresa Bell, desenvolveu um sistema de comutação automática mais simples, porém semelhante ao dos irmãos Connely e McTighe que podia trabalhar com 15 linhas. Nesse sistema, que não chegou a ser usado, havia um contato metálico que pulava de uma posição quando o usuário apertava um botão, determinando o tipo de conexão que era estabelecida.  Um avanço realmente importante e surpreendente ocorreu em 1889 quando o agente funerário Almon Brown Strowger, da cidade de Kansas City, desenvolveu um sistema de comutação automático que realmente funcionava. 
Narra a história que Almond Strowger desconfiava que as telefonistas desviavam, propositalmente, as ligações destinadas a ele para um outro agente funerário, seu concorrente. Por isso, resolveu inventar um sistema que dispensasse o intermédio delas. Após vários estudos e tentativas, Strowger construiu, com a ajuda de um relojoeiro, um sistema que atenderia 100 linhas telefônicas, que foi patenteado em 1891. A invenção deu tão certo que no mesmo ano Strowger fundou a Automatic Electric Company para comercializá-la. A primeira central telefônica automática a usar o sistema de Strowger foi aberta em 1892 em La Porte, Indiana. Na década que seguiu, foram instaladas mais de 70 centrais destas nos Estados Unidos da América. Os primeiros telefones, no entanto, eram conectados a centrais manuais, operadas por telefonistas. O usuário tinha que girar uma manivela para gerar a “corrente de toque” e chamar a telefonista que atendia e, através da solicitação, comutava os pontos manualmente na central. Assim um assinante era conectado ao outro formando um processo de trabalho e de comunicação social.  As primeiras centrais automáticas que dispensavam o operador/telefonista para completar uma ligação eram de tipo eletromecânica, baseada em relés, conhecidas como passo-a-passo (“step-by-step”). Posteriormente elas foram substituídas pelas centrais do tipo barras-cruzadas (“crossbar”), que também eram eletromecânicas só que mais modernas tecnologicamente. 
Com o surgimento das centrais automáticas os telefones passaram a ser providos de “discos telefônicos” para envio da sinalização. Estes discos geravam a sinalização decádica, que consistia de uma série de pulsos de 1 a 10. A primeira central automática do Brasil foi inaugurada em 1922 na cidade de Porto Alegre que historicamente ocupava a posição econômica da terceira cidade das Américas, logo depois da Chicago sindicalista e Nova York. A segunda foi inaugurada três anos depois na cidade de Rio Grande. A terceira em 1928 em São Paulo e em 1929 ocorreu a vez do Rio de Janeiro inaugurar sua primeira central automática. Na década de 1970 as centrais telefônicas passaram por um processo evolutivo da era analógica para a era digital de processamento por computador. Essa mudança ocorrida nos núcleos de processamento das centrais, através da troca de componentes eletromecânicos por processadores digitais estendeu-se aos outros componentes funcionais das centrais, dando origem às centrais do tipo central telefônica controlada por programa armazenado. As CPA`s representaram verdadeiros computadores para o desempenho da função técnica, e trabalham com um software interno para execução das operações inerentes: interligar (comutar) terminais, executar controle, teste e gerenciamento do hardware, serviços adicionais caracterizados pela identificação de chamadas, transferência de chamadas, ligações simultâneas, etc., aos clientes/usuários. 

Nessa época também começaram a ser utilizados os “telefones com teclas”, que facilitavam a discagem. Em 1973, no âmbito de um acordo entre a Universidade de São Paulo e a Telebrás, holding das operadoras brasileiras de telecomunicações, surgiu o embrião de uma central telefônica digital nacional, projetada para substituir as importações de centrais analógicas. A ideia inicial era de se conseguir a formação de recursos humanos especializados e também chegar a um protótipo de uma central digital. Em 1980 chegou-se a um concentrador de chamadas que é testado em campo em uma operadora de telefonia com grande sucesso. Em 1981, com o objetivo de desenvolver uma plataforma de comutação para aplicações rurais, nascia o então denominado Trópico R, com uma capacidade inicial de quatro mil assinantes. Em 1984 na empresa Telecomunicações de Brasília (Telebrasília) era efetuado o primeiro teste experimental em campo de uma central digital com tecnologia brasileira. Naquela época os pesquisadores do Cpqd, um dos maiores centros de pesquisa & desenvolvimento em telecomunicações e TI (Tecnologia da Informação) da América Latina, localizado na cidade de Campinas, estado de São Paulo, atua na pesquisa, desenvolvimento e suporte de setores, tais como industrial, agrícola, telecomunicações, financeiro, energia elétrica, corporativo e administração pública, passavam por grandes momentos pois haviam atingido o seu objetivo. Mesmo hoje são poucos os países que possuem esta tecnologia de ponta.
  As centrais Trópicos possuem a característica de terem sido  desenvolvidas á base de módulos independentes. Cada módulo possui seu hardware e software independente, com isso trocam informações entre si. Em caso de falhas, as perdas são menores, pois somente um módulo por vez perde a sua funcionalidade. O diretor do Museu da Comunicação Social em Frankfurt, Helmut Gold, descreve assim o trabalho das primeiras telefonistas: - “No painel à frente da telefonista, havia uma tomada para cada aparelho telefônico instalado. Ela recebia o telefonema e perguntava a quem devia chamar. Ela podia conectar qualquer telefone, enfiando o pino na tomada correspondente. Feito isto, avisava a pessoa sobre a chamada e transferia a ligação”. As exigências para a aceitação no emprego eram uma boa formação escolar, fineza de trato e, se possível, conhecimento de idiomas estrangeiros. Além disso, as moças deviam ser jovens e de “boa família”. O seu treinamento era feito pela empresa dos correios e telégrafos, que detinha o monopólio da telefonia na Alemanha, desde os seus primórdios até meados dos anos 1990. Segundo Gold, o treinamento técnico não passava de uma explicação sobre o funcionamento dos respectivos aparelhos. Eram realizados comparativamente também uma série de testes, sendo os mais importantes os de dicção e locução.
          Curiosamente o estado civil feminino era controlado de maneira rigorosa. – “Uma das características especiais do trabalho era que se excluía a possibilidade de casamento. Isso tinha tradição desde os primórdios dos correios”. A questão estava ligada ao rigoroso conceito previdenciário de seu tempo. Se a mulher casasse, tivesse filhos e, posteriormente, ocorresse algo com o marido, então o Estado teria de sustentar toda a família, uma vez que a mulher era funcionária pública. Isto não condizia com os conceitos do serviço público, demonstrado uma forma autoritária de relações de classe.  Jovem e solteira, a senhorita de voz simpática – eternamente invisível do outro lado da linha telefônica – suscitou muita fantasia sexual entre os clientes do sexo masculino. Por ordem superior, as telefonistas reagiam a todas as propostas de caráter privado com a resposta-padrão: - “Está ocupado. Avisarei quando estiver livre”. Mas quando aparentemente se tratava de um pedido sério, as telefonistas reagiam de forma pessoal, afetivamente bem mais amigável. Neste sentido, entre elas ocorria o que “podia-se dizer que se pretendia falar com fulano de tal e não se sabia o número. A telefonista buscava o número e efetuava a ligação. As telefonistas tinham um grande relógio à frente e davam a informação”. Sua função é operar o processo de trabalho e comunicação de equipamentos de reprodução da voz humana, atender chamadas simultaneamente, transferir, cadastrar e completar chamadas telefônicas.

Comparativamente o diretor do Museu da Comunicação, sabia também quanto ganhavam as telefonistas: - “Era o mesmo que em outras profissões, como secretária ou estenotipista. A telefonista recebia um salário mais ou menos igual ao das outras colegas. Não era um salário com o qual se pudesse sustentar uma família e nem era o sentido dele. A remuneração deveria ser suficiente para sustentar as moças solteiras. E, para isto, era suficiente”. O emprego era cobiçado. No final do século XIX, só existiam algumas centenas de telefones nas grandes metrópoles alemãs. Mas o número aumentou rapidamente para dezenas de milhares. E a quantidade de telefonistas aumentou na mesma proporção. Em 1897, existiam cerca de 4 mil telefonistas na Alemanha. Dez anos depois, já eram mais de 16 mil. A era das telefonistas terminou com a invenção do telefone de discagem direta e ligação automática. A partir de 1966, as telefonistas  alemães passaram a cuidar exclusivamente de serviços especiais de auxílio à lista, o que representava do ponto de vista marxista a passagem da subsunção real do trabalho. A subsunção formal, a qual Marx se refere, é a primeira forma de subordinação do trabalho ao capital para valorização deste e que tem como pressuposto a separação do produtor direto e a sua transformação em trabalhador assalariado, condição esta que impõe a subordinação deste ao capitalista que se apropria desses meios, monopolizando e transformando-os em capital, em forças de coerção contra os trabalhadores.
          A forma de trabalho dentro da qual muitos indivíduos trabalham de modo planejado uns ao lado dos outros e em conjunto, no mesmo processo de produção ou em processos  de produção diferentes porém conexos chama-se cooperação. Assim como o poder ofensivo de um esquadrão de cavalaria ou o poder defensivo de um regimento de infantaria são essencialmente diferentes dos poderes ofensivos e defensivos de cada um dos cavaleiros ou soldados de infantaria tomados individualmente, também a soma total das forças mecânicas exercidas por trabalhadores isolados difere da força social gerada quando muitas mãos atuam simultaneamente na mesma operação indivisa, por exemplo, quando se trata de erguer um fardo pesado, girar uma manivela ou remover um obstáculo. Nesses casos, o efeito do trabalho combinado ou não poderia em absoluto ser produzido pelo trabalho isolado, ou poderia apenas em um período de tempo muito mais longo, ou em escala muito reduzida. Aqui não se trata somente do aumento  da força produtiva individual por meio da cooperação, mas da criação de uma força produtiva que tem de ser, por si mesma, uma força de massas. A razão disso está em que o homem é, por natureza, se não um animal político, como diz Aristóteles, em todo caso um animal social. As mãos do trabalhador coletivo transportam com mais rapidez o que fariam as duas mãos de cada trabalhador individual no mesmo espaço e menos tempo.
Nesse processo dá-se início à contradição essencial do sistema capitalista, a produção social da riqueza e apropriação privada. Tem-se a desigualdade social como uma das principais implicações da subordinação formal do trabalho ao capital nas relações sociais. A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte de experiências: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo na modernidade individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes no meio do mesmo tipo de comportamento coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras que determinam  relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. Destes elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. E para que as sociedades possam conviver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. No caso de empresas com gestão de contas de telefonia esse cuidado deve ser ainda maior. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar.
 Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, em nossas sociedades, essa moralidade ainda não tem todo o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais corre a princípio só e sem rival. A mobilidade é dependente da estrutura de status e ocupações em uma dada sociedade. A ocupação da telefonista é mais uma profissão em extinção no processo de globalização da comunicação na sociedade.
A extensão de diferentes posições sociais e a maneira pela qual elas são interdependentes e se relacionam fornecem a estrutura social global de tais posições. Estas dimensões diferentes de mobilidade social podem ser classificadas em termos de tipos de “capital” que contribuem para mudanças na mobilidade diferentes. Adicionando-se a isso as diferentes dimensões da estrutura econômica, as formas de prestígio e poder temos o potencial de complexidade de determinado sistema de estratificação social. Além disso, em que sociedade pode ser vista como variáveis independentes que podem explicar diferenças na mobilidade social, em diferentes tempos sociais e lugares, em diferentes sistemas de estratificação. Neste sentido é que compreendemos as variáveis que contribuem como intervenientes para a avaliação do rendimento, ou riqueza, e quando afetam o status, classe social e a desigualdade  no âmbito da mobilidade social. Estes incluem sexo ou gênero, raça ou etnia e idade. A divisão da sociedade em classes é consequência dos diferentes papéis que os grupos sociais têm no processo de produção, ocupado por cada classe que depende o nível de fortuna e de rendimento, o gênero de vida e numerosas características culturais das diferentes classes. Classe social define-se como conjunto de agentes sociais nas mesmas condições no processo de produção e que têm afinidades eletivas (românticas) tanto quanto políticas e ideológicas.

Bibliografia geral consultada.

MÖDERLER, Catrin, “1878: Surge a Profissão de Telefonista”. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/25/01/1878; CHAPOULIE, Jean-Michel, “Sur l`Analyse Sociologique des Groupes Professionnels”. In: Revue Française de Sociologie, nº XIV, 1973; pp. 86-114; MARX, Carlos, El Capital. Crítica de la Economia Política. Libro Primeiro. Buenos Aires: Editorial Cartago, 1973, cap. XIII - La Cooperación, pp. 321 e ss.; COELHO NETTO, José Teixeira, Semiótica, Informação e Comunicação. 5ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999; BOYER, Robert; FREYSSENET, Michel, Les Modèles Productifs. Paris: Éditions La Dècouverte, 2000; BARRETO, Fernanda Lima, O Sofrimento Psíquico e o Processo de Produção no Setor de Telefonia: Tentativa de Compreensão de uma Atividade com Caráter Patogênico. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2001; LIMA, Fabiana Batistucci de, Stress, Qualidade de Vida, Prazer e Sofrimento no Trabalho de Call Center. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Departamento de Psicologia. Campinas: Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2004; SUBTIL, Filipa, “Tecnologia, Economia e Política: O Telégrafo como Antecessor da Internet”. In: Estudos em Comunicação, nº 15 Esp. 25-40 Maio de 2014; BARAVIEIRA, Paula Belini, Aplicação de uma Rede Neural Artificial para a Avaliação da Rugosidade e Soprosidade Vocal. Tese de Doutorado em Bioengenharia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; SOUZA, Tatiele Pereira de, Trabalho, Profissionalização, Identidade e Relações de Gênero no Campo da Tecnologia da Informação. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Ciências Sociais. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2016; VECCHI, Fernando, Política, Judiciário e Mídia: A Divulgação das Interceptações Telefônicas entreLuiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Ciências Criminais. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2018; ZAGANELLI, Bárbara Martins, A Divulgação Científica nos Telejornais Brasileiros e seus Impactos Sociais no Fortalecimento da Cidadania. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Escola de Comunicação. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2018;  RODRIGUES, Mauro Fonseca, Novo Conjunto de Indicadores de Desempenho Operacional para Redes Elétricas Inteligentes por Meio da Lógica Fuzzy. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2020; entre outros.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Enferma-Gens - Ideologia do Trabalho & Alteridade no Brasil.

                                                                                                                                         Ubiracy de Souza Braga


            “É preciso que a Enfermagem se reconheça negra, porque nós somos negros”. Enfermeira Lucia Ferreira


Dia 20 de maio, é comemorado o Dia Nacional do Técnico e do Auxiliar de Enfermagem. Atualmente, o Brasil conta com 1.440.536 Técnicos e 433.536 Auxiliares de Enfermagem. Juntos, somam 1,8 milhão de profissionais que representam mais de 80% da força de trabalho da Enfermagem. A presença de enfermeiro supervisor é obrigatória em estabelecimentos de Saúde, inclusive clínicas de radiologia e diagnóstico por imagens, reforçou a 12ª Vara da Justiça Federal, em vitória do Conselho Federal de Enfermagem contra parecer do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Contrariando a legislação, parecer previa que “o médico radiologista poderá ser auxiliado por profissional técnico de Enfermagem e/ou profissional auxiliar de Enfermagem, cabendo ao médico responsável supervisionar os respectivos profissionais”. A sentença determina a “retirada do parecer da internet e retificação da informação divulgada pelo réu”. A Enfermagem é uma profissão autônoma, cabendo ao profissional enfermeiro a supervisão de técnicos e auxiliares de Enfermagem. – “Estamos atentos e vigilantes em defesa da lei do exercício profissional, buscam um atendimento seguro e eficaz à população”, afirma Manoel Neri. A sentença reforça a jurisprudência consolidada quanto à obrigatoriedade de manutenção de enfermeiro Supervisor em unidades de Saúde. O “réu Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem não tem competência para restringir o campo de atuação do profissional de Enfermagem”, afirmou Maurílio Queiroz. - “Tal restrição ao campo de atuação do enfermeiro, somente poderia ocorrer por Lei Federal que limitasse sua atuação, que é delineada e regulamentada pela Lei nº 7.498, de 25/06/86”.

Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odê Caiodê (1925-2018) foi a quinta Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá (cf. Paula, 2009) em Salvador, Bahia. Nasceu no dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de Azevedo Santos (falecido). Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha de Maria Conibabê, africana de etnia ebá. Aos nove anos de idade, Maria Conibabê estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil. Sua tia, Dona Arcanja, reconhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no Gantois e de Sobaloju no Opô Afonjá  de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por volta dos 13 anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento, o que fez com que Dona Arcanja procurasse ajuda do oluô Pai Cosme de Oxum, que informou que mãe Stella deveria ser iniciada e que seu caminho era de ialorixá, a designação da pessoa incumbida de gerenciar um terreiro de candomblé e a sua liturgia, de exercer toda autoridade sobre os membros, em qualquer nível da hierarquia.

Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha do Gantois. Dona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia. Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de dezembro de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora. Mãe Stella relatou: - “Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a fruta do pé do santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossidagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossidagã era o cargo que ela ocupava no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobaloju do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já havia falecido e a ossidagã reinava como ialorixá do Axé Opô Afonjá”. Em 12 de setembro de 1939, aos quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orucó (nome) de Odê Caiodê. Mãe Stella narra a realização da sua iniciação. 

 Ela “não pensava em nada”, “não tinha noção” do que estava acontecendo: - “É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser ialorixá. Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida lá, entendi isso... é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria”. Lizete Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no Gantois para Iansã, relembra: - “Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada, com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão”. Mãe Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de 30 anos. Em 29 de junho de 1964, foi designada Colabá por Mãe Senhora. Foi aprendendo os mistérios e segredos do candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma importante iaô - Celenita – que era filha de Ogum.     

 O primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de julho de 1983, em Salvador, quando lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova Iorque, Estados Unidos da América.  Em 1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder religiosa.  Em 1999, Mãe Stella conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura. Em 2001 ganhou o prêmio jornalístico Estadão na condição de fomentadora de cultura. Em 2005 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e em 2009, ao completar setenta anos de iniciação no Candomblé, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É detentora da comenda Maria Quitéria (concedida pela Prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e da comenda do Ministério da Cultura. Em 2010, recebeu uma placa pelo centenário do terreiro Opó Afonjá, no Plenário da Câmara de Salvador, Bahia. Em 2013, vai ocupar a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia, cujo patrono é o poeta Castro Alves (1847-1871). Tomou posse no dia 12 de setembro de 2013.       


          A globalização se refere essencialmente a este processo de alongamento, na medida em que as modalidades de conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais e políticos se enveredam através da superfície da Terra como um todo globalizado. Ela é definida por Anthony Giddens, sociologicamente, em sua dimensão exógena, “como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distâncias e vice-versa”. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção anverso às relações sociais e políticas muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através das relações tópicas de tempo e sentido de apropriação e reprodução do espaço. Alteridade  parte do pressuposto básico de que todo o ser humano social interage e interdepende do outro. Antropólogos e cientistas sociais afirmam que a existência do “eu-individual” só é permitida mediante um contato com o outro. Assim, pode também se dizer que a alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal. Mas neste sentido expresso na relação com grupos, família, trabalho, lazer, etc., respectivamente com consideração, identificação e possibilidade da relação dialógica. Alteridade não significa que tenha de haver uma concordância, mas aceitação das partes no diálogo estabelecido historicamente e per se de conflito social.
          A modernidade é inerentemente globalizante. Ela tanto germina a integração das sociedades como a sua fragmentação social. Nela desenvolvem-se as diversidades como também as disparidades. A dinâmica das forças produtivas e das relações de produção, em escala local, regional e mundial, produz interdependências e descontinuidades, evoluções e retrocessos, integrações e distorções, afluências e carências, tensões e contradições. É altíssimo o custo social, econômico, político e cultural da globalização do capitalismo, para muitos indivíduos e coletividades ou grupos e classes sociais subalternos. Em todo o mundo, ainda que em diferentes gradações, a grande maioria é atingida pelas mais diversas formas de fragmentação econômica e social. A realidade é que a globalização do capitalismo implica na globalização de tensões e contradições sociais, nas quais se envolvem grupos e classes sociais, partidos políticos e sindicatos, movimentos sociais e correntes de opinião pública, em todo o mundo. Enquanto totalidade histórico-social em movimento, com a apropriação do espaço e tempo sociais, o globalismo tende a subsumir não só o nacionalismo e o tribalismo. As relações de trabalho entre formas sociais, eventos distantes se tornam correspondentes “alongadas” na reprodução pós-consumo das relações sociais pós-capitalistas contemporâneas.
                       
Em sua dimensão endógena, a globalização pode ser entendida formando um “clima de comunicação”, aqui entendido enquanto estado que tende à estabilização dos elementos componentes, num ambiente/meio atravessado por forças reguladoras e desreguladoras, instalado como efeito generalizado de transmissão/interligação. Pode-se ilustrar isso em dois registros. Com o apuramento técnico da “economia de guerra” que alguns chamam logística, onde há um “clima de comunicação” claramente manifesto, ou que vem gradativamente sendo reconstruído, com o colonialismo ou a destruição das novas e velhas culturas no capitalismo, bem como nos procedimentos e resultados já familiares de controle da informação, com a informática etc., padrão comunicacional nesse clima. O que se chamou vulgarmente de “guerra fria” nas últimas cinco décadas conformava-se à ideia de tal adensamento. Em consequência do adensamento/expansão do clima de comunicação que é cultural e político, se estabelece um modelo tecnológico e padrão de modernização das forças produtivas. 
O enfermeiro é um profissional especializado de nível superior com competência técnica, científica responsável pela organização técnica de trabalho de equipe de enfermagem e pela promoção, prevenção e recuperação da saúde dos indivíduos. O enfermeiro é um profissional integrado, preparado para atuar simultaneamente no quadro técnico-científico da saúde no âmbito assistencial, técnico-administrativo e de promoção gerencial. Na área assistencial esses profissionais estão habilitados a diversos tipos de intervenções prático-pedagógicas de média e alta complexidade, situações que exigem reconhecimento científico e capacidade eficaz de diálogo de tomar decisões imediatas. Lideram e gerenciam unidades hospitalares e colaboradores de nível médio e técnico, que prescrevem a assistência de enfermagem para que técnicos e auxiliares executem as ações. Seguindo um método de trabalho de tendência mundial o enfermeiro prescreve medicamentos e solicita exames na chamada “Estratégia de Saúde da Família”.
         O enfermeiro é o trabalhador profissional da saúde, par excellence habilitado por uma licenciatura em Enfermagem e registado na Ordem dos Enfermeiros, a quem foi reconhecido às competências científicas, técnicas e humanas para praticar cuidados de enfermagem gerais ao indivíduo, família e comunidade, em situação de prevenção primária, secundária e terciária. O enfermeiro assiste o ser humano, doente ou são    individual ou em comunidade, de forma a que este mantenha e/ou recupere a saúde. O enfermeiro objetiva também que o indivíduo atinja a sua máxima capacidade funcional. Em Portugal, comparativamente, não existe a categoria correspondente de Auxiliar e Técnico de Enfermagem, sendo as funções acumuladas pelo enfermeiro. O enfermeiro não é só responsável pelos procedimentos técnicos, como por todo o processo de enfermagem. No entanto, existe a categoria de Assistente Operacional de Saúde,  designado profissionalmente de Auxiliar Técnico de Saúde, que do ponto de vista do conhecimento técnico-profissional colabora com o enfermeiro, e que com a sua delegação e supervisão, pode prestar cuidados técnicos de higiene, conforto e alimentação. Historicamente a enfermagem dava mobilidade social às mulheres negras em meados do século XX.   

                  
         A Ordem dos Enfermeiros representa a associação pública profissional que congrega todos os profissionais de Enfermagem que trabalham em Portugal. Tem como atribuições a definição de regras relativas à atividade profissional e respectivo controlo da sua observância. Na prática, podemos dizer que a preocupação da Ordem dos Enfermeiros é para com a regulamentação e disciplina da profissão de Enfermagem, enquanto outras organizações, comparativamente, como os sindicatos se preocupam com os assuntos laborais, decorrentes do contrato de trabalho. Esta instituição tem poderes delegados pelo Estado e foi formalmente criada em 1998. A participação de cada enfermeiro na vida da Ordem dos Enfermeiros é fundamental para o desenvolvimento da profissão, contribuindo para sua valorização e visibilidade social, numa perspectiva de melhoria dos cuidados de saúde prestados aos cidadãos. O vínculo existente entre cada enfermeiro e a Ordem dos Enfermeiros decorre do exercício da profissão, do fato de ser enfermeiro e de ter o dever de cumprir e fazer cumprir o Estatuto que representa o conjunto de artigos que define o funcionamento da organização e a Deontologia.
            Na última década foi aberto aos profissionais de enfermagem um amplo campo de trabalho com a criação do Programa de Saúde da Família (PSF). Em decorrência deste novo espaço e da necessidade de profissionais qualificados para desenvolver atividade neste programa, estão sendo criados cursos de Especialização em Saúde da Família, dos quais o enfermeiro recebe o título de especialista em Saúde da Família. Espera-se legislar brevemente a figura do “Enfermeiro da Família”, que será o Enfermeiro, que, exercendo funções ao nível dos cuidados de saúde primários, tem a si atribuídas, de trezentas famílias de acordo com a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) seiscentas a oitocentas famílias (três mil indivíduos), acompanhando estas famílias ao longo de todo o seu ciclo vital. A palavra enfermeira/o se compõe de duas palavras oriundas do latim: “nutrix”, que significa mãe, e do verbo “nutrire”, que “tem como significados criar e nutrir”. Essas duas palavras, adaptadas ao inglês do século XIX, acabaram se transformando na palavra “nurse” que, traduzida para o português, significa enfermeira. Ipso facto, enfermagem é uma das poucas profissões da área da saúde que pode mesclar o humano com o científico, pois além de cuidar do paciente quando está doente, a enfermagem atua na prevenção de doenças e na produção de pesquisas empíricas para evitar que as mesmas acometam indivíduos pré-dispostos.  
          Florence Nightingale nascida a 12 de maio de 1820, em Florença, pragmática possuía inteligência e tenacidade de propósitos, determinação e perseverança - o que lhe permitia dialogar com políticos e oficiais do Exército, fazendo prevalecer suas ideias em torno da cura. Poliglota, dominava com facilidade o inglês, o francês, o alemão, o italiano, além do grego e do latim. Em 1845, em Roma, no desejo de realizar-se como enfermeira, estudou as atividades das Irmandades Católicas e, em 1849, fez uma viagem ao Egito, onde decide servir a Deus, trabalhando em Kaiserswert, Alemanha, entre as diaconisas. Seu primeiro papel como enfermeira de guerra ocorreu de fato em 1854, na Guerra da Criméia. Durante os combates da guerra, os soldados fizeram de Florence “o seu anjo da guarda”, pois, de lanterna na mão, percorria as enfermarias dos batalhões e acampamentos, atendendo os doentes, o que a fez reconhecida mundialmente como “Lady with the light”. Ao retornar em 1856, adoentada pelo tifo, Florence recebe um prêmio em dinheiro do governo inglês, em reconhecimento ao seu trabalho como humanista. Ela investe o dinheiro no que dá início à 1ª Escola de Enfermagem, fundada no Hospital Saint Thomas, em 1859, e que passou a servir de modelo fordista em função de seu caráter exitoso para as escolas de enfermagem que vieram gradativamente.
Legião Negra: soldados e enfermeiras.
            Historicamente a origem desse ensino, é recorrente ao ano de 1923,quando foi criada, na cidade do Rio de Janeiro, a Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, anexa ao Hospital Geral de Assistência daquele Departamento, posteriormente, Escola Ana Néri. Naquela ocasião, Carlos Chagas, como diretor do Departamento, deu uma contribuição decisiva. A saúde pública enfrentava mais uma crise decorrente das epidemias e endemias que representavam uma ameaça à sociedade, bem como à economia primária brasileira. O setor agrário-exportador cafeeiro dependia do saneamento dos portos, para continuidade de suas transações comerciais. Na tentativa de minimizar o problema, Carlos Chagas recorreu e contou com a colaboração da Fundação Rockefeller, que enviou nove enfermeiras norte-americanas com o propósito de estruturar o serviço de enfermagem de saúde pública, no Rio de Janeiro, e fundar uma Escola de Enfermagem. Foram essas enfermeiras as pioneiras organizadoras da Escola e suas primeiras professoras. A direção, como seria natural, ficou também a cargo das norte-americanas, sendo assumida, somente no ano de 1931, por uma brasileira, a enfermeira Rachel Haddock Lobo, finalizando a parceria profissional com as norte-americanas que foram retomando ao seu país.  
 

       
 
           Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida por Mãe Stella de Oxóssi, recebe homenagem do Museu Nacional de Enfermagem Anna Nery (Munean), localizado em Salvador, no Pelourinho, com exposição de longa duração. A curadoria é resultado de um trabalho que tem como objetivo demonstrar a contribuição dos negros para o desenvolvimento da Enfermagem, a partir do período colonial até os dias atuais. Pontuando o papel das escravizadas e das mulheres negras que executavam e ainda executam atividades de enfermeira, a diretora do Museu, Júlia Lemos, ressalta a importância e colaboração da quinta yalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá para a área da saúde. - “Não há como falar de Enfermagem sem falar de Mãe Stella, pois muitas pessoas não sabem que ela foi enfermeira”. O terreiro de Mãe Stella fica no bairro São Gonçalo do Retiro, região do Cabula, na cidade de Salvador. No Munean, histórias étnicas/lúdicas de personagens afrodescendentes pertencentes ao mundo da Enfermagem são recontadas.
As mães de ama, mães de leite, e mulheres pretas que participaram de guerras ou conflitos, como Maria Soldado, enfermeira da Legião Negra, comissão que arrecadava bens para a comunidade negra paulista, são representadas na exposição. - “A memória das mulheres negras do Brasil, cuidadoras de crianças, parteiras, nutrizes, chamadas de mães de criação, resistiram aos imperativos da escrita oficial da história da enfermagem”, escreve o pesquisador Paulo Campos, pós-doutor pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. - “A exposição é importante para manter viva a nossa condição histórica, resgatando a nossa história e reconhecendo a contribuição afro”, menciona o enfermeiro e professor da Universidade Federal de Pernambuco Itamar Lages. Segundo a pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, na região Nordeste, 6,6% dos profissionais de Enfermagem se identificam como pretos. Integrante do Conselho Regional de Enfermagem da Bahia, Aline Soares destaca a colaboração de afrodescendente para o desenvolvimento da Enfermagem e analisa a discriminação que os negros têm de enfrentar no mercado de trabalho.
As “mãos da Enfermagem brasileira são negras”. Aline Soares ressalta que os técnicos de enfermagem baianos, que na maioria são negros, são fundamentais para o trabalho desenvolvido nesta área técnico-científica. - “Infelizmente, nas universidades de Enfermagem, não há muitos negros. Ainda há muito preconceito quando negros assumem cargos de poder. As pessoas acham que o cargo foi dado e não conquistado”, ressalta a enfermeira. Lúcia Ferreira, umas das enfermeiras que foi homenageada pelo Munean, abordou o preconceito que os negros sofrem na profissão e no cotidiano. “As pessoas não sabem da sobrecarga que é ser chamada de ‘neguinha’. Eu fui a única negra no meu curso de graduação. É preciso que a Enfermagem se reconheça negra, porque nós, somos negros”, disse, com lágrimas nos olhos, ontem, na abertura da exposição. A doutora Valmira dos Santos, primeira mulher negra doutora a lecionar na Universidade Federal da Bahia, contou sobre a dificuldade, por ser afrodescendente, que enfrentou na instituição de ensino superior. - “Não foi fácil, mas, eu tenho a estrutura resiliente, que faz com que eu aguente certas situações. É assim que eu venho vivendo com muito orgulho e força”.           
       Após a Escola formar sua primeira turma, nasce a ideia da criação de uma associação que congregasse as enfermeiras recém-graduadas pela Ana Néri. Mesmo com todo o empenho dessas ex-alunas, somente no ano de 1926 se consolida, com a primeira reunião da entidade: aos doze dias do mês de agosto daquele ano, recebendo a denominação global de Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (ANED), extrapolando, pois, a iniciativa de reunir enfermeiras que fossem formadas somente por aquela Escola. Apenas a título de informação, devemos adiantar que, na trajetória dessa entidade, entre outras designações a ela conferidas, passa a intitular-se, a partir de 1954, Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), conservando a sigla até o presente. Essa referência torna-se necessária pela importância política dessa entidade na articulação  das políticas voltadas para o ensino de enfermagem no Brasil, em seus diferentes níveis. Além disso, vale lembrar que num país que carece de centros de documentação e pesquisa, a Enfermagem tem seguido sem preservar adequadamente a sua história,  sobretudo com as limitações que a desorganização dos arquivos oferece para o desenvolvimento da pesquisa, e a importância da recuperação e preservação de fontes escritas, orais e iconográficas dos arquivos existentes e daqueles por serem criados.
              Por estas tantas razões, o Centro de Estudos e Pesquisas de Enfermagem CEPEn da ABEn Nacional e das Seções, deve ter papel relevante na mudança deste comportamento. Precisa, pois, ampliar seus limites, entendendo que a pesquisa explica e descreve a história social e política, e que, para entendê-la, é preciso usar métodos e fontes adequadas, através do fortalecimento de redes sociais de comunicação e memória em que a produção e a divulgação do reconhecimento do trabalho humano andem juntas. Três batalhões de voluntários compostos por afrodescendentes lutaram contra a ascensão de Getúlio Vargas em 1930. Esses batalhões passaram a ser chamados de Legião Negra. Em verdade tratava-se de uma dissidência da Frente Negra Brasileira (FNB), criada em 14 de julho, cinco dias após o início da chamada Revolução Constitucionalista, um batalhão específico chamado de “Legião Negra de São Paulo”. Para compreendermos a ideologia da Legião Negra, é mister entender a organização da Frente Negra Brasileira, tendo em vista que a Legião Negra representou sua cisão. A FNB tinha como escopo e objetivo central “promover a elevação moral, intelectual e profissional, assistência, proteção e defesa social, jurídica e econômica da gente negra”.
            Pelas estimativas de um de seus dirigentes, a entidade chegou a reunir 30 mil filiados, somando os efetivos de todas as delegações, as quais funcionavam como espécie de filiais da sede na capital paulista. A Frente Negra criou uma série de símbolos diacríticos, a fim de garantir visibilidade para as suas ações, qual uma identidade específica para seus associados e, ao mesmo tempo, adquirir visibilidade no âmbito demográfico negro e na sociedade em geral. As mulheres negras que participaram da revolução demonstraram enorme coragem, fibra e destemor. Estimou-se que na Legião Negra, o número de combatentes girou em torno de dois mil membros. A Cruz Vermelha teve representação na Revolução Constitucionalista. Sua presidente, Maria Emília Leal, viajou pelo interior, levando mensagens entre o campo de batalha e o quartel general da capital paulista. Ela promovia cursos de enfermagem para moças e viúvas que, aprendidos os elementos principais da atividade iam aplica-los em hospitais e postos de emergência, nas frentes. O apoio das mulheres foi tamanho quando envolveram seus filhos na causa constitucionalista,  em cujo movimento social criou-se um grupo secreto para destituir Vargas, cujo nome era dos cinco estudantes mortos. Enfermeira de Rosário do Sul é a vencedora do concurso Minha história de luta na Enfermagem.


 
           O estado da civilização é fruto principalmente da extra-escolaridade cultural. É mais um produto de sua natureza individual, de sua formação doméstica e de sua existência social do que de sua preparação disciplinar. Esta palavra significa um ato de dedicação. E de uma dedicação a fundo, positiva tanto aos extremos como ao que fica entre eles, como culto, cultivo e cultura são três aspetos articulados da mesma linha de reflexão desde quando nos aperfeiçoamos pela cultura do Espírito. Muda o objeto de nossa dedicação, mas significa sempre uma entrega total do nosso ser para alcançar a essência através das aparências, de modo a tirar do cultivo da terra o alimento do nosso corpo, da cultura intelectual o aperfeiçoamento do nosso espírito e da universidade o reconhecimento da plenitude da verdade. Esse radical culto pode, portanto apresentar três sentidos. O sentido individual de representação é o que chamamos de cultura intelectual. Tem um sentido subjetivo e significa a passagem da informação à formação do saber e da personalidade. O segundo tem um sentido objetivo e significa a conquista de elementos característicos das instituições e  de representar uma coletividade. O sentido próprio de construir, a saber, habitar, cai no esquecimento.
             Em que medida construir pertence ao habitar? Quando construir e pensar são indispensáveis para habitá-lo. Ambos são, no entanto, insuficientes para habitá-lo se cada um se mantiver isolado, distantes, cuidando do que é seu ao invés de escutar um ao outro. Ipso facto construir e pensar pertence ao habitar. Permanecem em seus limites. Quando aprendemos a pensar que tanto um como outro, provém da obra de longa experiência de um exercício incessante de pensar. A cultura intelectual, portanto, em sentido próprio, refere-se a cada pessoa humana em particular e como um todo irredutível. Somos um ersatz: a cultura social é subsidiária da cultura intelectual, já que a sociedade existe para o homem. E não o homem para a sociedade. Embora seja esta uma condição prática, indispensável para a realização daquele. Não há cultura intelectual liberta sem cultura social organizada. A cultura intelectual representa a passagem do domínio e controle da informação da nossa individualidade total. Pela informação recebemos os elementos que vão permitir a eclosão de nossas possibilidades naturais. É a função da formação hermenêutica quando aglutinamos e assimilamos esses elementos, de tipo variados, contraditórios, reduzindo-os a uma unidade irredutível e elaborando com isso a nossa personalidade.
Bibliografia geral consultada.
KERGOAT, Danièle, Les Infirmieres et Leur Coordination. Paris: Editeur J. Lamarre, 1992; 1999; FLOTTES, Anne, “La subjectivité dans le travail; est-elle vendable? À quel prix?”. In: Revue Travailler. Paris, nº4, pp.73-92, dec. 2000; ERDMANN, Alacole et al., “Teses Produzidas nos Programas de Pós-Graduação em Enfermagem de 1983 a 2001”. In: Revista da Escola de Enfermagem da USP, 39, 497-505; 2005; ORICHIO, Ana Paula Carvalho, Oficiais Enfermeiras para a Marinha do Brasil. Do Curso de Formação Militar à Ocupação de Espaços no Hospital Naval Marcílio Dias (1980-1984). Tese de Doutorado. Escola de Enfermagem Anna Nery. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012; CARRIJO, Alessandra Rosa, Ensino de História da Enfermagem: Formação Inicial e Identidade Profissional. Tese de Doutorado. Escola de Enfermagem. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; BASTOS, Rachel Benta Messias, Raça e História: A Metamorfose do Negro no Contraponto Mito da Democracia Racial. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2013; LÖW, Lily, Enfermeiras Negras na Revolução Constitucionalista de 1932. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, 2013; SANTIAGO, Emiliane Silva, Currículo da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP: Inovações de Profa. Glete de Alcantara (1953-1963). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Psiquátrica. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo, 2015; BIFF, Daiane, Cargas de Trabalho de Enfermeiros da Estratégia Saúde da Família. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2016; FERNANDES, Carlos Roberto, O Corpo Mediador do Cuidado da Enfermagem: Uma Epistemologia do Conceito Fundamentada em Wilhelm Dilthey. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação. Escola de Enfermagem. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016; ALMEIDA, Anna Paula Alves da Silva, Fadiga e a Capacidade para o Trabalho em Profissionais de Enfermagem: Avaliação em um Hospital de Ensino da Rede SUS - Uberlândia. Dissertação de Mestrado em Geografia. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2018; BARBOSA, Elane da Silva, Do Estágio ao Internato: O Percurso da Formação da Enfermeira para o Cuidado. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2019; TORRES, Maria Nahir Batista Ferreira, O Ensino de História da Enfermagem: Trajetórias e Lugar na Formação do Enfermeiro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Centro de Educação. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2019; SIMÕES, Luiza Lúlia Feitosa, Saberes Docentes e Formação Pedagógica de Professores Enfermeiros: Um Estudo de Caso. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Centro de Educação. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2019; entre outros.