“O grande tema dele como Editor era o Brasil”.
Antônio Carlos Villaça (cf. Villaça, 2001)
Antonio
Carlos Villaça (1928-2005) foi escritor, jornalista, conferencista e
tradutor, reconhecido como um dos mais importantes memorialistas em sua área no
Brasil. Recebeu em 2001, pelo conjunto de sua obra, o Prêmio Machado de
Assis da Academia Brasileira de Letras. Antonio Carlos Villaça
nasceu no Rio de Janeiro em 31 de agosto de 1928, filho de Joaquim Ortigão
Villaça e Dora Rocha Villaça. Cursou o primário e ginásio no Colégio Tijuca
Uruguai, na rua Conde de Bonfim, e o clássico no Instituto Lafayette
(1937-1946). Cursou dois anos de Direito (1947-1948) na Pontifícia Universidade
Católica, ainda na Rua São Clemente, antes da elevação das Faculdades Católicas à categoria de Universidade. Aos dezesseis anos, em abril de 1945,
estreou como autor com o ensaio: Perfil de um Estadista da República,
sobre o Barão do Rio Branco, que valeu a Medalha Rio Branco do Ministério
das Relações Exteriores (1946). Tentou a vida monástica no Mosteiro de São
Bento, no Rio de Janeiro, em 1949, mas no ano seguinte sem motivo saiu
de lá. No
mosteiro leria mais livros de espiritualidade beneditina, patrística e
de história do monaquismo. Acabou indo para o Convento dos Dominicanos em São
Paulo, no bairro de Perdizes onde conviveu um ano (1951-1952). Cursou um ano de
Filosofia no Seminário do Rio Comprido (1953). Em 1954 lançou-se na vida
literária no Rio, colaborando em vários órgãos da imprensa, entres o Diário
de Notícias, Correio da Manhã, Tribuna da Imprensa, O
Jornal e Jornal do Brasil. Neste último, manteve uma coluna diária
sobre assuntos religiosos de 1958 a 1961.
Conferencista, viajou pelo Brasil
todo, de Rio Branco a Porto Alegre. Viajou pelos Estados Unidos e Canadá em
1957. – “Eu estava muito leve, muito moço, andava muito por aquilo tudo. Queria
conhecer, queria ver gente, queria ler, queria ir a cinema, ir a teatro, estava
muito disponível, muito livre”. Visitou Jacques Maritain, em Princeton, e
Thomas Merton, na Abadia Trapista de Gethsemani. Em 1966 foi para a Europa onde
viveu um ano, sobretudo em Paris. Em 1967, de volta ao Rio, foi morar no Hotel
Bela Vista, em Santa Teresa. – “Fui para uns dias apenas. Acabei passando
dezessete anos e meses. Sempre no mesmo quarto, terceiro andar”. Foi membro do
Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro de 1975 a 1983. Em
13 de maio de 1976 tomou posse no PEN Clube do Brasil, sucedendo Murilo Mendes.
A 10 de agosto de 1977 tomou posse na Academia Fluminense de Letras. Em 1979
tornou-se vice-presidente do Pen Clube do Brasil, e a partir de junho de 1984
passou a morar num quarto na sede do clube, na Praia do Flamengo, que em seu
livro Degustação denominou “o mirante do Flamengo”, por causa da vista, e onde
permaneceria até pouco antes de falecer: - “E me debruço na varanda e olho o
mar. Vejo Niterói, ao longe. Vejo a brancura de Icaraí. [...] Vejo a ponte
Rio-Niterói”. Em 1981 recebeu o prêmio Estácio de Sá. Em 1982 visitou Portugal
a convite de instituições portuguesas e tornou-se membro da Academia Brasileira
de Arte.
Em 1983 recebeu a Ordem das Palmas Acadêmicas da França. Cultivou
também a literatura infantil em A Descoberta do Morro (1984). Em 21 de
novembro de 1984 tomou posse como membro do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro. Em 1989 proferiu a conferência inaugural da Academia Brasileira de
Filosofia, fundada em 1989, da qual foi membro fundador e secretário-geral. A proibição de Portugal para a
impressão no Brasil foi o fator político decisivo que fez com que os manuscritos
originais brasileiros passassem a ser publicados na Europa, em particular em Paris, ou a permanecer na
forma incipiente de manuscritos. Em 1792, havia
apenas duas livrarias no Rio de Janeiro, e possivelmente uma era de Paul-Louis Martin des Amoignes, pseudônimo de Louis
Martin (1850-1925), natural de Tours e o primeiro livreiro carioca. Seu filho, Paulo Martim Filho,
manteve a livraria funcionando até 1823. Os livros oferecidos eram, geralmente,
de medicina ou religião, tendo em vista o processo civilizatório e a maior
parte dos livros que chegavam ao Brasil era contrabandeada. A profissão de
editor era vista como um “clube de cavalheiros”, um ofício nobre, diferente e
superior ao dos trabalhos corporativos de tipógrafos e livreiros. Sem dúvida, a
necessidade de conhecer melhor o mercado global, de entender o ofício do editor
e, particularmente, as singularidades que constituem a edição de livros é uma
das razões da lentidão. Outra seria a possibilidade de participar de um espaço
aberto de discussão, reflexão e interlocução, não tão restrito e escasso no dia-a-dia
do trabalho editorial. Até meados da década de 1770, o escravo descia na Praia do Peixe, Praça XV de Novembro, e eram negociados na Rua Direita, no centro da
província do Rio de Janeiro, à vista de todos.
Antes do início dos assentamentos no Morro do Castelo, as
bases da cidade fundada em termos por Estácio de Sá, era uma aldeia no Morro
Cara de Cão, ao lado do majestoso Pão de Açúcar. Por decisão de Mem de Sá, a
cidade que nasceria de pedra e telha teria como novo local de assentamento o
Morro do Castelo, e um forte seria erguido. O caminho que viria a ser a Rua
Direita era extensão do que viria a ser a extinta Rua da Misericórdia que
chegava ao Largo da Misericórdia, que ainda existe, no local onde era o sopé do
Morro do Castelo. Era do Largo da Misericórdia, o primeiro Largo do Rio de Janeiro, da subida para o morro,
através da Ladeira da Misericórdia. Dela, ainda existe um trecho que
foi mantido. Em 1774, uma nova legislação, estabeleceu a transferência desse
mercado negreiro para a região do Valongo, por iniciativa do segundo Marquês de
Lavradio, dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d Eça e Melo Silva
Mascarenhas, vice-rei do Brasil, alarmado com “o terrível costume de tão logo
os pretos desembarcarem no porto vindo da costa africana, entrarem na cidade
através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras
doenças, mas nus”. O mercado negreiro
foi transferido, mas não havia o ancoradouro. A alternativa foi desembarcar os
escravos na alfândega e enviá-los de bote ao Valongo, de onde saltariam
diretamente na praia. O
comércio de livros no Brasil principalmente na cidade do Rio de Janeiro teve em
folhetos, panfletos, almanaques e jornais importantes recursos de venda, desde
as primeiras décadas do século XIX. Com um número significativo de livreiros
franceses, as estratégias de venda já experimentadas com sucesso na Europa
também ocorreram no Brasil. O papel dinamizador desses livreiros no Rio de
Janeiro, no início do século, serviu para intensificar o comércio
transatlântico da matéria-prima: o papel. Vinham se estabelecer comercialmente,
alguns mantendo conexões e negócios com seus antigos sócios ou parentes. Não
podiam sustentar os negócios exclusivamente com a venda de livros, mas posteriormente
foram muito bem-sucedidos, com progressos significativos. No caso brasileiro,
chegaram a ser ponto de referência entre letrados a partir da segunda
metade do século. Chamados de “tratantes de livros” estabeleceram-se no Rio de
Janeiro por volta de 1808. Sofriam o controle tanto político como comercial de
instituições e autoridades, mas anunciavam seus produtos nos jornais, com toda
a variedade de mercadorias a que tinham acesso através das importações do
produto.
A denominação de tratantes em
livros (cf. Machado, 1984), mais comum nas primeiras décadas do século XIX, vinha sendo substituída pouco
a pouco por livreiros. Suas lojas já deixavam de acumular funções e abandonavam
a venda de unguentos, e de secos e molhados, incorporando às montras objetos de
papelaria em geral. A profissionalização
de livreiros e impressores no Brasil não foi um processo lento. A Europa,
sobretudo a França, tinha um papel competitivo indiscutível, e o custo da
produção levou muitos agentes do mercado editorial brasileiro a imprimir seus
livros em Paris. O mercado se mostrou atrativo, tanto pela novidade que
representava, como pelas brechas legais que permitia o consumo de livros em francês,
mesmo aqueles mais vulneráveis à censura na Europa. A incorporação de
tecnologias na navegação das naus portuguesas nas conquistas ultramarinas e a
facilidade de trocas comerciais a partir da assinatura da convenção postal
entre diversos países, inclusive o Brasil, foram fatores sociais relevantes
para baratear os meios de comercialização e dar ao livro francês um destaque
universal. Baptiste-Louis Garnier, um dos mais importantes livreiros e editores
franceses no Brasil chegaram ao Rio de Janeiro em 1844. Era o mais moço de quatro irmãos que já haviam se estabelecido em Paris desde o início da década.
José
Olympio Pereira Filho (1902-1990) foi o maior Editor e Livreiro brasileiro. Foi
o fundador da editora que leva seu nome, a Livraria José Olympio Editora, no
Rio de Janeiro, em 1931. O segundo de 9 irmãos, Olympio nasceu em 10 de
dezembro de 1902, na cidade de Batatais no estado de São Paulo. Em 1918, foi
para a cidade de São Paulo, com o objetivo de estudar Direito, mas conseguiu um
emprego na Casa Garraux, na seção de livros de propriedade de Charles
Hildebrand. O chefe da seção de livros era Jacinto Silva. O emprego consistia
em abrir caixas de livros novos, limpar a poeira das estantes, e não lhe
sobrava tempo para estudar, como pretendia. Posteriormente passou a ajudante de
balconista, e a tomar gosto pelos livros. A década de 1920 marcou os últimos dias de
resplendor da Casa Garraux, que era frequentada por homens ilustres, de
políticos a escritores, como Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Oswald de
Andrade, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. Jacinto Silva deixou a Garraux em
1920, para abrir a própria empresa, a Casa Editora O Livro. Quando
Hildebrand faleceu, em 1926, o Fausto Bressone assumiu-a e colocou
Olympio como gerente da seção dos livros.
A
Casa Garraux foi uma notável livraria do século XIX fundada por Anatole Louis
Garraux juntamente com seus sócios Guelfe de Lailhacar e Raphael Suarèz. Funcionou
durante as décadas de 1860 e 1930. Anatole Louis Garraux nasceu em Paris,
imigrou ao Brasil em 1850 com 17 anos e começou a trabalhar na Livraria
Garnier, no Rio de Janeiro. Em 1858 muda-se para São Paulo, onde abre seu
próprio estabelecimento, a Livraria Acadêmica, em sociedade com Guelfe de
Lailhacar e Raphael Suarèz. Esta livraria que futuramente seria conhecida como
Casa Garraux, localizava-se inicialmente no Largo da Sé, próximo à Rua da
Imperatriz. Em 1872, foi inaugurada a nova sede da Livraria Académica de A. L.
Garraux à rua do Rosário, atual XV de Novembro em elegante prédio com
fachadas de mármore. Após 1876, a livraria é transferida para os
proprietários, Henri Michel, seu cunhado e a Willy Fischer, ou William
Fernand Gustave Fischer, seu genro casado com a filha Henriette Aspasie Julie
Garraux, mantendo a livraria ainda entre a família. Em meados de 1890,
Anatole retornou à França, vindo a falecer em 1904 em Paris. A livraria
finalizou suas atividades por ocasião em 1930. No
final da década de 1920, José Olympio começou a se interessar por livros
raros, no sentido merceológico tornnado-se expert no assunto nas sociedades contemporâneas; autores e
colecionadores o consultavam quando queriam comprar livros. Com a morte de
Alfredo Pujol, colecionador de livros raros, em 1930, Olympio fez oferta
para a família e comprou o acervo particular de Pujol, que enriquecera sua
coleção com livros trazidos em suas viagens pela Europa.
A livraria comercializava artigos finos importados direcionada à alta sociedade paulistana e intelectuais. Entre estes artigos finos estavam papéis para cartas, penas, lápis e outros objetos de escritório, além de exemplares avulsos da Illustration e do Monde Illustré. Foi também a Casa Garraux que apresentou o “envelope” à sociedade paulistana, antes disso, do ponto de vista técnico-metodológico as cartas “eram escritas em folhas duplas e a segunda folha era utilizada cobrir a correspondência”. Além de livros e artigos de papelaria, também comercializava uma gama ampla de outros artigos de luxo franceses como bengalas, binóculos, bolsas, caixas para joias, para costura, espelhos, quadros, jarras de cristal, de porcelana e jardineiras. Também oferecia uma infinidade de ornamentos como globos celestes, terrestres, mapas geográficos, tinteiros, penas de ouro e de madrepérola, entre outros. Em 1880, o edifício possuía apenas dois andares e o terceiro foi adicionado em 1896, pela prancheta de Giulio Micheli. Em sua fachada ricamente ornamentada, encontram-se duas esculturas em ferro fundido, dos alemães Johannes Fust e Johannes Gutenberg, personagens do século XV ligados à invenção da imprensa. Estas esculturas também raras vieram da Fundição Val d´Osne de Paris, registradas sob os números 325 e 323, prancha 596 da lista de catálogo de 1892.
Alfredo Gustavo Pujol
(1865-1930) foi um
advogado, jornalista, crítico literário, político e orador brasileiro. Filho do
educador e tradutor francês Hippolyte Gustave Pujol e da campineira Maria José
de Castro. Formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo e desde jovem abraçou
a causa republicana. Foi deputado estadual de 1898 a 1900, de 1901 a 1903, de
1907 a 1909 e de 1910 a 1912. Foi também deputado federal e secretário de
governo do presidente de São Paulo Bernardino de Campos. Participou de várias
polêmicas intelectuais em seu tempo, entre elas a respeito do livro A Carne, de
Júlio Ribeiro. Foi homenageado em 1916 com o nome de importante rua no bairro
de Santana, São Paulo. Escreveu em jornais de São Paulo, como o Diário
Mercantil e O Estado de S. Paulo, de Campinas e do Rio de Janeiro. Era membro
da Academia Paulista de Letras e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A
cidade de São Paulo passava por um processo de modernização e urbanização com a
expansão da cafeicultura e encontrava-se nesta época envolta por instalações de
setores econômicos modernos, como bancos, comércio de importação e exportação,
empresas de serviços públicos, transportes marítimos, entre outros. Emergia
assim uma aristocracia cada vez mais alinhada aos padrões de vida urbanos,
sedenta por atividades culturais e novidades europeias. É neste contexto que se
explica a necessidade de um comércio livreiro na capital. A forte repercussão
dos ideais da Revolução Francesa, do Iluminismo e autores franceses era notada
no domínio dos livros oriundos da França no mercado latino-americano assim como
“era um símbolo do homem culto da época”. Deste gosto burguês, a presença dos
franceses no comércio de livros é representada não somente por Garraux, em São
Paulo, mas também por Garnier, no Rio de Janeiro.
O
bibliófilo e político José Carlos de Macedo Soares foi um dos financiadores
para a compra desse acervo. Com a morte de outro colecionador, Estevão de
Almeida, do qual também adquiriu o acervo, Olympio se estabeleceu, aos 28 anos
de idade, na Rua da Quitanda, 19A - São Paulo. Fundou, assim, a Casa José
Olympio Livraria e Editora, em 1931. Em 1934, a Livraria muda-se para o Rio de
Janeiro, então centro intelectual do Brasil. Em 1935, Olympio se casa com Vera
Pacheco Jordão, com quem teve 2 filhos, Vera Maria Teixeira e Geraldo Jordão
Pereira. Nos anos 1940-50, tornou-se o maior editor do país, publicando 2 mil
títulos, com 5 mil edições, que nos anos 1980 atingem 30 milhões de livros de
900 autores nacionais e 500 estrangeiros. José Olympio recebeu o título de Cidadão
Emérito de Batatais, em 1968, tendo ainda colaborado para a criação da Faculdade
de Educação Física da cidade. O seu nome foi também dado à Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras local, que integra o complexo educacional das
Faculdades Claretianas de Batatais. Morreu serenamente, em sua
mesa de almoço. Em 1990, quando morreu, não era mais proprietário da Editora
que leva seu nome.
A
virtude da política, “a audácia disciplinada”, segundo De Masi (2003: 151) e o
equilíbrio das criações clássicas podem derivar tão-somente de uma condição de
equilibrado bem-estar e de cultura sem alienação. Quando os grupos estão livres
do poder da opressão; quando os cargos são independentes do berço e baseados na
competência e no sorteio; quando todo cidadão tem direitos civis e deveres
iguais ao participar das assembleias citadinas; quando o tempo dedicado à
gestão da coisa pública é retribuído como qualquer outro emprego responsável;
quando o welfare garante a redistribuição do excedente aos pobres; quando o
Estado garante aos seus cidadãos teatros, templos, escolas, praças, chafarizes
e obras de arte; quando a agricultura, a indústria e o comércio são colocados
no mesmo plano e potencializam-se reciprocamente; quando os melhores talentos e
os maiores investimentos são dedicados à beleza e à verdade, aí então pode-se
concluir, justamente, que a democracia é completa e funcional. Atenas fez tudo
isso, e mais, pois os seus frutos continuam como matriz ocidental sendo
surpreendentes. A filosofia, a matemática, a teoria musical, as ciências
naturais e a medicina – finalmente desvinculada da questão antropocêntrica da
religião e da magia – a ética, a política, a história, a geografia, a
psicologia, a anatomia, a botânica, a zoologia, a física e a biologia fizeram
mais progressos teóricos, abstratos, nesses 100 anos do que nos milhares de
séculos precedentes. Quanto às artes, da arquitetura, à música, da escultura à
pintura e à poesia, conhecemos o tamanho da dívida que a humanidade conserva em
relação à Grécia.
A
supremacia do trabalho não admite discussões. Caso se trabalhe, e só caso se
trabalhe, tem-se direito ao salário, ao respeito social e à segurança de uma
assistência médica, assim como de uma aposentadoria. O trabalho é uma categoria
libertadora, gratificante, honrosa e santificadora. Quem conhece um ofício e
tem vontade de trabalhar não ficará nunca sozinho, nem escravo, nem triste, nem
ficará à mercê de tentações ou dos usuários, ganhará o paraíso na terra e um
lugar no paraíso celeste. O trabalho é a realização de uma criação por meios da
obra do homem, é dever social, expiação, legítimo orgulho, autorrealização,
fonte socialmente apreciável de ganho. O trabalho nos faz humanos, cidadãos,
sociáveis, produtores e consumidores; nos legitima a desejar e a obter. Quando
falamos de trabalho entendemos toda a atividade remunerada, seja ela manual,
física, intelectual, autônoma ou dependente. Uma atividade que, quanto mais
onívora e veloz, mais é apreciada, se exercida pelo homem, ela exige a
precedência absoluta sobre qualquer outra atividade: o amor, a família, a
distração, o lazer, as práticas religiosas, a formação e a saúde. Um bom
trabalhador irá se vangloriar de não ter 1 minuto de trégua ou 1 só dia de
férias, de ficar no escritório horas, de levar trabalho para casa, e ser
localizável e disponível 24 horas, durante o santo dia do ano.
Na
sociedade pós-industrial, uma instituição, um grupo ou um indivíduo é tão
criativo quanto mais futuro ele consegue projetar na política, na economia, na
ciência e na arte. É preciso, portanto, esclarecer como ocorre essa projeção. A
descoberta é limitada por alguns vínculos: o mundo material a ser descoberto é
circunscrito pela sua própria natureza; todo e cada problema natural admite uma
única solução excelente e um só procedimento eficiente para alcança-la. Pode
haver assimetria entre os homens e o tempo deles. Nem todos tiveram a sorte de
Stendhal ou de Proust: espelhos fiéis da época que os produziu, sincronizados
emocional e racionalmente com os fatos acerca do que escreviam. Outros, como Francis Bacon ou Ludwig van Beethoven, foram precursores de ideias e de técnicas; às vezes uma
infelicidade para si, mas uma fortuna para os seus póstumos. Outros ainda,
mesmo que com sucesso, às vezes até com gênio, prolongaram da medida um estilo de
vida, ou paradigmas intelectuais que já haviam atingido a plenitude antes mesmo
de seus nascimentos. Assimetrias desse gênero podem se verificar sobretudo nas
fases históricas de alternância entre civilizações, quando não progride uma
única ciência ou uma única forma de arte. Mas desloca-se a própria interseção
entre as artes ou as ciências, fazendo com que o homem realize um salto
dialético de qualidade.
Esta passagem vem rememorar o extraordinário Conto
de Escola, de Machado de Assis. Fora ambientado em 1840. Narra questões
ligadas à beleza das ruas cariocas
onde Machado iria brincar inicialmente posto diante da dúvida: hesitava entre o
morro de São Diogo e o campo de Sant Ana, onde posteriormente seriam edificados
os prédios da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
e quase defronte o majestoso prédio do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB), “que não era esse parque atual, construção de gentleman, mas num espaço rústico, mais
ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou
campo? Tal era o problema. De repente disse comigo mesmo que o melhor era a
escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão. Na semana anterior tinha feito
dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que
me deu uma sova de varade marmeleiro. As
sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do arsenal de
guerra, ríspido e intolerante.
Sonhava para mim uma grande posição comercial, e
tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para
me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado no
balcão. Foi a lembrança do castigo que o levou naquela manhã para
o colégio. - Não era um menino de virtudes. Estava arrependido de ter vindo. - Agora que ficava preso, ardia por
andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos
vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das escadinhas, a fina flor do
bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da
escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, no subúrbio carioca, um papagaio de
papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que boiava no ar, uma coisa de
soberba. E eu na escola, sentado de pernas unidas, com livro de leitura e a
gramática nos joelhos. Fui um bobo em vir – disse ao Raimundo. Não diga isso.
Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria
pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo,
e, rápido, disse-me que esperasse um pouco, era uma coisa particular. - Seu
Pilar... – murmurou ele daí a alguns minutos. - Que é?- Você. - Você que? Na verdade o mestre
fitava-nos.
Como era mais severo para o filho, buscava-o com os
olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos
o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia,
três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as ideias e as paixões. Não
esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação
pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse
ponto. O pior que ele podia ter para nós era a palmatória. E essa lá estava,
pendurada no portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era
só levantar a mão, pendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era
pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a
ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me
que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando,
ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer. No fim de
algum tempo, dez ou doze minutos – Raimundo meteu a mão no bolso das calças e
olhou para mim. Sabe o que tenho aqui? – Não. Uma pratinha que mamãe me deu.
Hoje? – Não, no outro dia, quando fiz anos. Pratinha de verdade? De verdade.
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me.Era uma moeda do tempo do rei, cuido
que doze vinténs ou dois tostões não me lembram; mas era uma moeda, e tão moeda
que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido;
depois me perguntou se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas
ele jurou que não. – Mas então você fica sem ela? –
Mamãe depois me arranja
outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro.
Você quer esta? Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois
de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um
gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de
serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe.
Não conseguia reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a
proposta esfregando a pratinha nos joelhos... Tive uma sensação esquisita.Não
é que eu possuísse da virtude uma ideia antes própria do homem; não é também
que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos
enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca da lição
e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da
sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada. Compreende-se
que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não tendo aprendido,
recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me
tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras
vezes; mas parece que era a lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha
vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria – e pode ser mesmo que em
alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal -, parece que foi a causa da proposta.
O pobre-diabo contava com o favor – mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí
recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que el não como relíquia ou brinquedo;
pegou dela e veio esfrega-la nos joelhos, à minha vista, como tentação.
- Oh! Seu pilar bradou o mestre com
voz de trovão. Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às
pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e
ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo. – Venha cá! –
bradou o mestre. Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência
dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda escola tinha
parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não
tirasse os olhos do mestre, sentia no ar curiosidade e o pavor de todos. –
Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? – disse-me o
Policarpo. – Eu... – Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! – clamou.
Perdão, seu mestre... solucei eu. – Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha!
Dê cá a mão. Mas, seu mestre. – Olhe
que é pior! Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os
bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas
vermelhase inchadas. Chegou a vez do
filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze
bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão.
Veio a hora de sair, e saímos; ele
foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na rua do Costa,
perto do colégio; havia de ser na rua Larga de São Joaquim. Quando, porém,
cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou
loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas
pessoas, ninguém me deu notícia. De atarde faltou à escola. Em casa não contei
nada, é claro, mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe
que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois
meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que,
ao tornar á escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem
medo nem escrúpulos... De manhã, acordei cedo. A ideia de ir procurar a moeda
fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico,
ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram
amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono
de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola;
ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não fui à escola,
acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na praia
da Gamboa. Voltei para casa com as calça enxovalhadas, sem pratinha no bolso
nem ressentimento na alma. E, contudo, a pratinha era bonita e foram eles,
Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação.
Historicamente a nova constituição
portuguesa, adotada em 15-16 de fevereiro de 1821, abolira a censura prévia, e logo surgiu no Brasil uma
avalanche de publicações sobre política. Foi extinto, igualmente, o monopólio
da impressão pela imprensa do governo recentemente instalado. Em 1821, foi
permitida a inauguração da Nova Officina Typographica, de propriedade
particular, seguida pela Typographia de Moreira e Garcez, na cidade do Rio de
Janeiro. Nas vésperas da Independência do Brasil, já existiam na cidade sete
estabelecimentos tipográficos. Manuel Joaquim da Silva Porto, poeta e livreiro,
que introduzira no Brasil a Phedra,
de Racine, e que fora tipógrafo da Imprensa
Régia (cf. Camargo, 1993) iniciara sua Officina de Silva Porto e Companhia.,
ao lado de Felizardo Joaquim da Silva Moraes, tornando-se o primeiro livreiro
da cidade a ter tipografia própria. A ausência de uma imprensa própria,
obviamente limitava o desenvolvimento político e cultural, pois os livros e
periódicos importantes atingiam apenas uma pequena
parcela do Rio de Janeiro de seu tempo. Contudo, a Impressão Régia não se
limitou à divulgação de atos oficiais, e sua existência abriu caminho para
numerosas edições, para o surgimento de outras editoras e tipografias, e para a
criação de um mercado de livros (cf.
Sora, 2010) antes que antes dela inexistiam.
Na Independência, em 1822, o Brasil tinha
provavelmente uma população entre 4,5 e 4,8 milhões e cerca de um terço era escrava. Em 1850, a população brasileira
era em torno de 7,5 milhões, com os escravos respondendo ainda por cerca de 30%
do total. O recenseamento de 1872 revelaria em torno de 10,1 milhões de habitantes, com a população
escrava excedendo 1,5 milhão. O recenseamento
de 1890 situou a população brasileira em 14,3 milhões. Três anos antes, em
1886/87, às vésperas da Abolição da Escravidão, ainda existiam pouco mais de
700 mil escravos. Informações reconhecidamente precárias, referentes a 1819,
demonstram a região Nordeste como a região mais populosa, com 47% da população
total estimada, seguida da região cafeeira ou sudeste com cerca de 40%. O Sul
teria pouco mais de 5%, enquanto comparativamente o Norte (talvez) 4% e o Centro
Oeste 3%. Em 1872, dados censitários demonstram o Nordeste com os quase mesmos
46,6%, as quatro províncias cafeeiras e a Corte com 40,7%, o Sul com 7,3% e o
Norte e o Centro-Oeste com respectivamente 3,3% e 2,2% da população total. Em
1890, a historiografia admite que se consolidasse a perda relativa do Nordeste
para 41,9%, participação já excedida pela da região cafeeira com 42,6%.
Destacou-se o “salto” quantitativo da população do Sul para 10%,
enquanto as participações do Norte e do Centro-oeste se mantiveram praticamente
inalteradas (cf. IBGE, 1990).
A única obra significativa de
referência específica sobre a Impressão
Régia, que existia era o trabalho de Alfredo do Valle Cabral, publicado nos
Anais da Biblioteca Nacional, em
1881. É um clássico, mas contém falhas e incorreções, e o velho sonho de Rubens
Borba de Moraes foi de completa-lo. Suprindo-lhe as lacunas e descrevendo os
títulos que lhe faltavam, cuja existência só foi revelada pelas exaustivas
pesquisas realizadas por ele e Ana Maria de Almeida Camargo. Esse sonho foi
transformado em realidade com a edição promovida pela Vitae, Editora da Universidade de São Paulo e pela Livraria Kosmos.
Rubens Borba de Moraes foi um dos maiores conhecedores de livros no Brasil,
introdutor da biblioteconomia entre nós e ao livro dedicou boa parte de sua
vida. Fez parte do grupo que organizou a Semana
de Arte Moderna (1922), fundou a Klaxon,
e participou com Mário de Andrade e Paulo Duarte, da Fundação do Departamento
da Cultura da Prefeitura do estado de São Paulo deu dimensão ao quadro cultural. Sua Bibliografia
Brasiliana, descrevendo livros raros de 1504 a 1900, é um
monumento de erudição, e fonte indispensável sobre o assunto. Estudou a
Impressão Régia durante boa parte de sua vida. É justo que esta edição se
constitua numa homenagem bem merecida a Rubens Borba de Moraes.
Mário Raul de Morais Andrade nasceu
em São Paulo, em 1893. Fez os seus primeiros estudos em sua cidade natal,
formando-se em piano em 1917 pelo Conservatório Dramático e Musical de São
Paulo. Ainda em 1917 estreou na vida literária com o volume de versos na linha
parnasiana Há uma gota de sangue em cada
poema. Tornou-se crítico de arte em vários jornais e revistas paulistas. Em
1922, foi um dos organizadores da Semana
de Arte Moderna. Naquele mesmo ano escreveu Paulicéia Desvairada, um dos principais livros do modernismo. Foi o
primeiro a usar sistematicamente o verso livre no Brasil. De 1922 a 1945,
tornou-se a figura mais completa e representativa das letras brasileiras.
Musicista dirigiu seus estudos para pesquisas de nacionalização da música
brasileira. De 1928 a 1929 realizou várias viagens de pesquisas para o interior
do país. Dedicou-se às críticas analíticas e às pesquisas folclóricas,
principalmente musicais. Em 1928 escreveu, Ensaio
sobre música brasileira e a rapsódia Macunaíma,
herói sem caráter. Em 1935, fundou, juntamente com Paulo Duarte, o
Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, órgão que exerceria larga
influência na democratização da cultura e do qual foi o primeiro diretor. No
ano seguinte, de forma arguta Mário de Andrade e Paulo Duarte elaboraram um projeto de Lei que
dispunha sobre a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional. Em 1937, criou a Sociedade de Etnografia e Folclore de São Paulo;
criou também os primeiros parques infantis e a discoteca pública de São Paulo.
Organizou o Congresso de Língua Nacional Cantada, que fixou a pronúncia padrão, ou, melhor dizendo, normalizada usada no teatro dramático e no canto. Transferiu-se para o Rio de
Janeiro em 1938, para dirigir o Instituto de Artes da Universidade do Distrito
Federal e ocupar a cátedra de história e filosofia da arte. Em 1942, junto com
outros intelectuais contrários ao regime ditatorial golpista do Estado Novo
(1937-1945), fundou a Associação
Brasileira de Escritores (ABRE), entidade que lutou pela redemocratização
do país. De sua vasta obra, merecem destaque, A escrava que não é Isaura (1925), Amar, verbo intransitivo, (1927), Cultura musical (1936), Pequena
história da música (1942) e O
movimento modernista (1942). Temos assim em seu ersatz a consagração do livro no caldeamento da arte e do processo de trabalho e comunicação, que teria como resultado dialético o significado da Sétima Arte e sua particularidade na indústria cultural.
No primeiro caso a inscrição de Isaura na literatura e na poesia representando um texto que jamais poderá se desculpar, jamais se explicar. Em sua continuidade, a inscrição do desejo, na figura inconsciente do pai, que ocorrerá 50 anos depois na realização do filme: Lições de Amor (1975), com a atriz Lilian Lemmertz, morta prematuramente aos 48 anos. Lilian formou-se professora de Literatura em Porto Alegre. O teatro ocorreu-lhe por um acaso, e foi Antônio Abujamra, seu colega de um curso de inglês e amigo da família, que a convenceu a trabalhar na peça À Margem da Vida, que estava sendo montada pelo Teatro Universitário da capital gaúcha. Seu coroamento ocorre através da permanente necessidade da música como coadjuvante da arte cinematográfica, representando a Época de Ouro, da música popular que será irradiada, entre 1930 e 1945, inclusive na política, formadora do tripé artístico (ou do artista no século XX), com lugar praticado e garantido comparativamente a Era do Rádio nas gravadoras e a internacionalização do trabalho (e da voz) do artista e cantor na base: gravadoras, emissoras de rádio, nascimento da televisão em P & B, do cinema mudo, falado, do cinema em cores.
Um
filme mudo é uma película que não possui a trilha sonora que
corresponde diretamente às imagens capturadas e exibidas mecanicamente, sendo esta lacuna
substituída normalmente por músicas ou rudimentares efeitos sonoros executados
no momento da exibição. A ideia de combinar filmes com sons gravados é quase
tão antiga quanto a origem do próprio cinema. Antes do fim dos 1920, os filmes
eram mudos em sua maior parte, devido à inexistência de tecnologia para transformar a comunicação possível. As
condições para um levantamento estatístico dos títulos produzidos pela Impressão Régia do
Rio de Janeiro nos seus primeiros anos de funcionamento (1808-1822), contam com
limitações correspondentes ao período iniciado com as atividades técnicas tipográficas regulares, em caráter excepcional e efêmero, dos trabalhos
realizados por Antônio Isidoro da Fonseca, mas também por aqueles estabelecidos
nos Anais da ImprensaNacional, de 1881, assim como de
atualizar a clássica e rara bibliografia elaborada por Alfredo do Valle Cabral,
com mais de um século de existência. Ipso
facto, as condições para um levantamento dos títulos produzidos pela
Impressão Régia do Rio de Janeiro contam hoje com limitações que Cabral não
conheceu. O arquivo da Imprensa Nacional foi destruído por um incêndio, em
1911, e as coleções da própria Biblioteca Nacional, com um acervo dividido em: Cartografia,
Iconografia, Manuscritos, Música e Arquivos Sonoros, Obras Gerais, Obras Raras,
Periódicos, Obras de Referência e Coleções. apresentam-se desfalcadas de
inúmeros documentos que ali foram então consultados.
O interesse específico dos extraordinários bibliófilos pelas obras da Impressão Régia, proporcional, ao valor que o tempo social e a raridade, como um diamante lhes confere, resultaram na
presença obrigatória nas principais bibliotecas brasileiras. Metodologicamente quanto aos
verbetes, são numerados sequencialmente para facilitar o trabalho posterior de indexação. Incidem sobre cada unidade dos
livros, folhetos ou folhas avulsas, com a particularidade de individualizar os
segmentos dos itens monográficos que foram publicados parceladamente. Assim é
que a divisão dos tomos, partes, números e suplementos de tais livros impressos,
configuram entradas diferenciadas, fragmentando, a título de descrição, sua
unidade intelectual. O procedimento é pouco comum, mas está assentado no
propósito de trata-los uniformemente a distribuição de verbetes na ordem típica cronológica. São inúmeros, com efeito, as obras cujas partes, embora com
idêntico enunciado, não puderam sair do mesmo ano; outras, independentemente da
data em que foram editadas, apresentam enunciados diferentes que alteram, de
modo necessário, seu ponto de acesso dentro da ordenação alfabética que preside
a disposição seletiva anual dos documentos. Há ainda dentre as reedições e sua contribuição entre as obras múltiplas
que, a intervalos não definidos previamente, procuram atualizar informações
específicas de interesse social.
Comparativamente
ocorrem como nas listas de navios, os regimentos de preços de medicamentos, as
efemérides náuticas, as relações aduaneiras de despachos, as folhinhas,
almanaques e calendários eclesiásticos, as coletâneas factícias de legislação,
as listas de prêmios lotéricos do generoso Real Teatro de São João e os
balanços e balancetes.Pelo palco do João
Caetano, aliás, têm sido encenados os mais variados gêneros de espetáculos,
desde dramas, recitais, balés, óperas, tragédias, vaudevilles, farsas, entre
outros. Em 25 de junho de 1885 e em 6 de janeiro de 1886, atuaram, no teatro João
Caetano, as duas maiores atrizes do século XIX: Eleonora Duse (1858-1924) e Sarah Bernhardt (1844-1923),
considerada em termos populares sua maior rival; procurou definir as linhas de
seu desempenho, isto é, a relação sociológica com as personagens; deu ênfase ao
problema da imaginação do repertório, ressaltando o papel de Duse ao impor na
Europa e nas Américas a dramaturgia de Ibsen, já que não prosperou a tentativa
equivocada de divulgar o compatriota e amante Cabriolo D`Annunzio (1863-1928). Foi no João
Caetano que ocorreram montagens de musicais, como My Fair Lady (1962), com Bibi Ferreira
e Paulo Autran, Hello, Dolly! com
Paulo Fortes (1965). A manutenção de verbetes individualizados para os
fascículos é legítima, e não é por outra razão: a extrema raridade de
determinadas peças faz com que assumam seu valor estético diferenciado em
relação às que lhes servem de complemento.
Bibliografia
geral consultada.
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outros.
“É preciso que a Enfermagem se reconheça negra, porque nós somos negros”. Enfermeira Lucia Ferreira
Dia 20 de maio, é comemorado o Dia Nacional do Técnico e do Auxiliar de
Enfermagem. Atualmente, o Brasil conta com 1.440.536 Técnicos e 433.536
Auxiliares de Enfermagem. Juntos, somam 1,8 milhão de profissionais que
representam mais de 80% da força de trabalho da Enfermagem. A presença de
enfermeiro supervisor é obrigatória em estabelecimentos de Saúde, inclusive
clínicas de radiologia e diagnóstico por imagens, reforçou a 12ª Vara da
Justiça Federal, em vitória do Conselho Federal de Enfermagem contra
parecer do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Contrariando
a legislação, parecer previa que “o médico radiologista poderá ser auxiliado
por profissional técnico de Enfermagem e/ou profissional auxiliar de
Enfermagem, cabendo ao médico responsável supervisionar os respectivos
profissionais”. A sentença determina a “retirada do parecer da internet e
retificação da informação divulgada pelo réu”. A Enfermagem é uma profissão autônoma,
cabendo ao profissional enfermeiro a supervisão de técnicos e
auxiliares de Enfermagem. – “Estamos atentos e vigilantes em defesa da lei do
exercício profissional, buscam um atendimento seguro e eficaz à população”,
afirma Manoel Neri. A sentença reforça a jurisprudência
consolidada quanto à obrigatoriedade de manutenção de enfermeiro Supervisor em
unidades de Saúde. O “réu Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por
Imagem não tem competência para restringir o campo de atuação do profissional
de Enfermagem”, afirmou Maurílio Queiroz. - “Tal restrição ao campo de
atuação do enfermeiro, somente poderia ocorrer por Lei Federal que limitasse
sua atuação, que é delineada e regulamentada pela Lei nº 7.498, de 25/06/86”.
Maria
Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odê Caiodê (1925-2018) foi
a quinta Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá (cf. Paula, 2009) em Salvador, Bahia. Nasceu no
dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo
Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de
nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo
Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de
Azevedo Santos (falecido). Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha
de Maria Conibabê, africana de etnia ebá. Aos nove anos de idade, Maria
Conibabê estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em
um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil. Sua tia, Dona
Arcanja, reconhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no
Gantois e de Sobaloju no Opô Afonjá de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por
volta dos 13 anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento, o que fez com que Dona Arcanja procurasse ajuda do oluô Pai
Cosme de Oxum, que informou que mãe Stella deveria ser iniciada e que seu
caminho era de ialorixá, adesignação da pessoa incumbida de gerenciar um terreiro de
candomblé e a sua liturgia, de exercer toda autoridade sobre os membros, em qualquer nível da hierarquia.
Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha
do Gantois. Dona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe
Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois
apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia.
Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona
Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de dezembro
de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos
cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora. Mãe Stella relatou: -
“Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com
um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela
que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei
ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a
fruta do pé do santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossidagã. Só falava
nela e, então, fui informada de que ossidagã era o cargo que ela ocupava
no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobaloju do Opô Afonjá,
e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já havia falecido e a ossidagã
reinava como ialorixá do Axé Opô Afonjá”. Em 12 de setembro de 1939, aos
quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orucó
(nome) de Odê Caiodê.Mãe Stella narra a realização da sua iniciação.
Ela “não pensava em nada”, “não tinha noção” do que estava acontecendo:
- “É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser ialorixá.
Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus
tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida lá,
entendi isso... é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra
de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria”.
Lizete
Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no
Gantois para Iansã, relembra: - “Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada,
com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos
sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão”. Mãe
Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora
D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública,
exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de 30 anos. Em 29 de
junho de 1964, foi designada Colabá por Mãe Senhora. Foi aprendendo os mistérios e segredos do
candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma importante iaô - Celenita – que era filha de Ogum.
O
primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de
Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de julho de 1983, em Salvador, quando
lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III
Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova
Iorque, Estados Unidos da América.Em
1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a
comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua
presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder
religiosa.Em 1999, Mãe Stella conseguiu
o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura. Em
2001 ganhou o prêmio jornalístico Estadão na condição de fomentadora de
cultura. Em 2005 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e em 2009, ao completar setenta anos de
iniciação no Candomblé, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da
Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É detentora da comenda Maria Quitéria
(concedida pela Prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e da comenda do
Ministério da Cultura. Em 2010, recebeu uma placa pelo centenário do terreiro Opó
Afonjá, no Plenário da Câmara de Salvador, Bahia. Em 2013, vai ocupar a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia,
cujo patrono é o poeta Castro Alves (1847-1871). Tomou posse no dia 12 de setembro de 2013.
A globalização se refere essencialmente a este processo de alongamento, na medida em que as modalidades de conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais e políticos se enveredam através da superfície da Terra como um todo globalizado. Ela é definida por Anthony Giddens, sociologicamente, em sua dimensão exógena, “como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distâncias e vice-versa”. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção anverso às relações sociais e políticas muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através das relações tópicas de tempo e sentido de apropriação e reprodução do espaço. Alteridade parte do pressuposto básico de que todo o ser humano social interage e interdepende do outro. Antropólogos e cientistas sociais afirmam que a existência do “eu-individual” só é permitida mediante um contato com o outro. Assim, pode também se dizer que a alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal. Mas neste sentido expresso na relação com grupos, família, trabalho, lazer, etc., respectivamente com consideração, identificação e possibilidade da relação dialógica. Alteridade não significa que tenha de haver uma concordância, mas aceitação das partes no diálogo estabelecido historicamente e per se de conflito social.
A modernidade é inerentemente globalizante. Ela tanto germina a integração das sociedades como a sua fragmentação social. Nela desenvolvem-se as diversidades como também as disparidades. A dinâmica das forças produtivas e das relações de produção, em escala local, regional e mundial, produz interdependências e descontinuidades, evoluções e retrocessos, integrações e distorções, afluências e carências, tensões e contradições. É altíssimo o custo social, econômico, político e cultural da globalização do capitalismo, para muitos indivíduos e coletividades ou grupos e classes sociais subalternos. Em todo o mundo, ainda que em diferentes gradações, a grande maioria é atingida pelas mais diversas formas de fragmentação econômica e social. A realidade é que a globalização do capitalismo implica na globalização de tensões e contradições sociais, nas quais se envolvem grupos e classes sociais, partidos políticos e sindicatos, movimentos sociais e correntes de opinião pública, em todo o mundo. Enquanto totalidade histórico-social em movimento, com a apropriação do espaço e tempo sociais, o globalismo tende a subsumir não só o nacionalismo e o tribalismo. As relações de trabalho entre formas sociais, eventos distantes se tornam correspondentes “alongadas” na reprodução pós-consumo das relações sociais pós-capitalistas contemporâneas.
Em sua dimensão endógena, a globalização pode ser entendida formando um “clima de comunicação”, aqui entendido enquanto estado que tende à estabilização dos elementos componentes, num ambiente/meio atravessado por forças reguladoras e desreguladoras, instalado como efeito generalizado de transmissão/interligação. Pode-se ilustrar isso em dois registros. Com o apuramento técnico da “economia de guerra” que alguns chamam logística, onde há um “clima de comunicação” claramente manifesto, ou que vem gradativamente sendo reconstruído, com o colonialismo ou a destruição das novas e velhas culturas no capitalismo, bem como nos procedimentos e resultados já familiares de controle da informação, com a informática etc., padrão comunicacional nesse clima. O que se chamou vulgarmente de “guerra fria” nas últimas cinco décadas conformava-se à ideia de tal adensamento. Em consequência do adensamento/expansão do clima de comunicação que é cultural e político, se estabelece um modelo tecnológico e padrão de modernização das forças produtivas.
O enfermeiro é um profissional especializado de nível superior com competência técnica, científica responsável pela organização técnica de trabalho de equipe de enfermagem e pela promoção, prevenção e recuperação da saúde dos indivíduos. O enfermeiro é um profissional integrado, preparado para atuar simultaneamente no quadro técnico-científico da saúde no âmbito assistencial, técnico-administrativo e de promoção gerencial. Na área assistencial esses profissionais estão habilitados a diversos tipos de intervenções prático-pedagógicas de média e alta complexidade, situações que exigem reconhecimento científico e capacidade eficaz de diálogo de tomar decisões imediatas. Lideram e gerenciam unidades hospitalares e colaboradores de nível médio e técnico, que prescrevem a assistência de enfermagem para que técnicos e auxiliares executem as ações. Seguindo um método de trabalho de tendência mundial o enfermeiro prescreve medicamentos e solicita exames na chamada “Estratégia de Saúde da Família”.
O enfermeiro é o trabalhador profissional da saúde, par excellence habilitado por uma licenciatura em Enfermagem e registado na Ordem dos Enfermeiros, a quem foi reconhecido às competências científicas, técnicas e humanas para praticar cuidados de enfermagem gerais ao indivíduo, família e comunidade, em situação de prevenção primária, secundária e terciária. O enfermeiro assiste o ser humano, doente ou sãoindividual ou em comunidade, de forma a que este mantenha e/ou recupere a saúde. O enfermeiro objetiva também que o indivíduo atinja a sua máxima capacidade funcional. Em Portugal, comparativamente, não existe a categoria correspondente de Auxiliar e Técnico de Enfermagem, sendo as funções acumuladas pelo enfermeiro. O enfermeiro não é só responsável pelos procedimentos técnicos, como por todo o processo de enfermagem. No entanto, existe a categoria de Assistente Operacional de Saúde, designado profissionalmente de Auxiliar Técnico de Saúde, que do ponto de vista do conhecimento técnico-profissional colabora com o enfermeiro, e que com a sua delegação e supervisão, pode prestar cuidados técnicos de higiene, conforto e alimentação. Historicamente a enfermagem dava mobilidade social às mulheres negras em meados do século XX.
A Ordem dos Enfermeiros representa a associação pública profissional que congrega todos os profissionais de Enfermagem que trabalham em Portugal. Tem como atribuições a definição de regras relativas à atividade profissional e respectivo controlo da sua observância. Na prática, podemos dizer que a preocupação da Ordem dos Enfermeiros é para com a regulamentação e disciplina da profissão de Enfermagem, enquanto outras organizações, comparativamente, como os sindicatos se preocupam com os assuntos laborais, decorrentes do contrato de trabalho. Esta instituição tem poderes delegados pelo Estado e foi formalmente criada em 1998. A participação de cada enfermeiro na vida da Ordem dos Enfermeiros é fundamental para o desenvolvimento da profissão, contribuindo para sua valorização e visibilidade social, numa perspectiva de melhoria dos cuidados de saúde prestados aos cidadãos. O vínculo existente entre cada enfermeiro e a Ordem dos Enfermeiros decorre do exercício da profissão, do fato de ser enfermeiro e de ter o dever de cumprir e fazer cumprir o Estatuto que representa o conjunto de artigos que define o funcionamento da organização e a Deontologia.
Na última década foi aberto aos profissionais de enfermagem um amplo campo de trabalho com a criação do Programa de Saúde da Família (PSF). Em decorrência deste novo espaço e da necessidade de profissionais qualificados para desenvolver atividade neste programa, estão sendo criados cursos de Especialização em Saúde da Família, dos quais o enfermeiro recebe o título de especialista em Saúde da Família. Espera-se legislar brevemente a figura do “Enfermeiro da Família”, que será o Enfermeiro, que, exercendo funções ao nível dos cuidados de saúde primários, tem a si atribuídas, de trezentas famílias de acordo com a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) seiscentas a oitocentas famílias (três mil indivíduos), acompanhando estas famílias ao longo de todo o seu ciclo vital. A palavra enfermeira/o se compõe de duas palavras oriundas do latim: “nutrix”, que significa mãe, e do verbo “nutrire”, que “tem como significados criar e nutrir”. Essas duas palavras, adaptadas ao inglês do século XIX, acabaram se transformando na palavra “nurse” que, traduzida para o português, significa enfermeira. Ipso facto, enfermagem é uma das poucas profissões da área da saúde que pode mesclar o humano com o científico, pois além de cuidar do paciente quando está doente, a enfermagem atua na prevenção de doenças e na produção de pesquisas empíricas para evitar que as mesmas acometam indivíduos pré-dispostos.
Florence Nightingale nascida a 12 de maio de 1820, em Florença, pragmática possuía inteligência e tenacidade de propósitos, determinação e perseverança - o que lhe permitia dialogar com políticos e oficiais do Exército, fazendo prevalecer suas ideias em torno da cura. Poliglota, dominava com facilidade o inglês, o francês, o alemão, o italiano, além do grego e do latim. Em 1845, em Roma, no desejo de realizar-se como enfermeira, estudou as atividades das Irmandades Católicas e, em 1849, fez uma viagem ao Egito, onde decide servir a Deus, trabalhando em Kaiserswert, Alemanha, entre as diaconisas. Seu primeiro papel como enfermeira de guerra ocorreu de fato em 1854, na Guerra da Criméia. Durante os combates da guerra, os soldados fizeram de Florence “o seu anjo da guarda”, pois, de lanterna na mão, percorria as enfermarias dos batalhões e acampamentos, atendendo os doentes, o que a fez reconhecida mundialmente como “Lady with the light”. Ao retornar em 1856, adoentada pelo tifo, Florence recebe um prêmio em dinheiro do governo inglês, em reconhecimento ao seu trabalho como humanista. Ela investe o dinheiro no que dá início à 1ª Escola de Enfermagem, fundada no Hospital Saint Thomas, em 1859, e que passou a servir de modelo fordista em função de seu caráter exitoso para as escolas de enfermagem que vieram gradativamente.
Legião Negra: soldados e enfermeiras.
Historicamente a origem desse ensino, é recorrente ao ano de 1923,quando foi criada, na cidade do Rio de Janeiro, a Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, anexa ao Hospital Geral de Assistência daquele Departamento, posteriormente, Escola Ana Néri. Naquela ocasião, Carlos Chagas, como diretor do Departamento, deu uma contribuição decisiva. A saúde pública enfrentava mais uma crise decorrente das epidemias e endemias que representavam uma ameaça à sociedade, bem como à economia primária brasileira. O setor agrário-exportador cafeeiro dependia do saneamento dos portos, para continuidade de suas transações comerciais. Na tentativa de minimizar o problema, Carlos Chagas recorreu e contou com a colaboração da Fundação Rockefeller, que enviou nove enfermeiras norte-americanas com o propósito de estruturar o serviço de enfermagem de saúde pública, no Rio de Janeiro, e fundar uma Escola de Enfermagem. Foram essas enfermeiras as pioneiras organizadoras da Escola e suas primeiras professoras. A direção, como seria natural, ficou também a cargo das norte-americanas, sendo assumida, somente no ano de 1931, por uma brasileira, a enfermeira Rachel Haddock Lobo, finalizando a parceria profissional com as norte-americanas que foram retomando ao seu país.
Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida por Mãe Stella de Oxóssi, recebe homenagem do Museu Nacional de Enfermagem Anna Nery (Munean), localizado em Salvador, no Pelourinho, com exposição de longa duração. A curadoria é resultado de um trabalho que tem como objetivo demonstrar a contribuição dos negros para o desenvolvimento da Enfermagem, a partir do período colonial até os dias atuais. Pontuando o papel das escravizadas e das mulheres negras que executavam e ainda executam atividades de enfermeira, a diretora do Museu, Júlia Lemos, ressalta a importância e colaboração da quinta yalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá para a área da saúde. - “Não há como falar de Enfermagem sem falar de Mãe Stella, pois muitas pessoas não sabem que ela foi enfermeira”. O terreiro de Mãe Stella fica no bairro São Gonçalo do Retiro, região do Cabula, na cidade de Salvador. No Munean, histórias étnicas/lúdicas de personagens afrodescendentes pertencentes ao mundo da Enfermagem são recontadas.
As mães de ama, mães de leite, e mulheres pretas que participaram de guerras ou conflitos, como Maria Soldado, enfermeira da Legião Negra, comissão que arrecadava bens para a comunidade negra paulista, são representadas na exposição. - “A memória das mulheres negras do Brasil, cuidadoras de crianças, parteiras, nutrizes, chamadas de mães de criação, resistiram aos imperativos da escrita oficial da história da enfermagem”, escreve o pesquisador Paulo Campos, pós-doutor pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. - “A exposição é importante para manter viva a nossa condição histórica, resgatando a nossa história e reconhecendo a contribuição afro”, menciona o enfermeiro e professor da Universidade Federal de Pernambuco Itamar Lages. Segundo a pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, na região Nordeste, 6,6% dos profissionais de Enfermagem se identificam como pretos. Integrante do Conselho Regional de Enfermagem da Bahia, Aline Soares destaca a colaboração de afrodescendente para o desenvolvimento da Enfermagem e analisa a discriminação que os negros têm de enfrentar no mercado de trabalho.
As “mãos da Enfermagem brasileira são negras”. Aline Soares ressalta que os técnicos de enfermagem baianos, que na maioria são negros, são fundamentais para o trabalho desenvolvido nesta área técnico-científica. - “Infelizmente, nas universidades de Enfermagem, não há muitos negros. Ainda há muito preconceito quando negros assumem cargos de poder. As pessoas acham que o cargo foi dado e não conquistado”, ressalta a enfermeira. Lúcia Ferreira, umas das enfermeiras que foi homenageada pelo Munean, abordou o preconceito que os negros sofrem na profissão e no cotidiano. “As pessoas não sabem da sobrecarga que é ser chamada de ‘neguinha’. Eu fui a única negra no meu curso de graduação. É preciso que a Enfermagem se reconheça negra, porque nós, somos negros”, disse, com lágrimas nos olhos, ontem, na abertura da exposição. A doutora Valmira dos Santos, primeira mulher negra doutora a lecionar na Universidade Federal da Bahia, contou sobre a dificuldade, por ser afrodescendente, que enfrentou na instituição de ensino superior. - “Não foi fácil, mas, eu tenho a estrutura resiliente, que faz com que eu aguente certas situações. É assim que eu venho vivendo com muito orgulho e força”.
Após a Escola formar sua primeira turma, nasce a ideia da criação de uma associação que congregasse as enfermeiras recém-graduadas pela Ana Néri. Mesmo com todo o empenho dessas ex-alunas, somente no ano de 1926 se consolida, com a primeira reunião da entidade: aos doze dias do mês de agosto daquele ano, recebendo a denominação global de Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (ANED), extrapolando, pois, a iniciativa de reunir enfermeiras que fossem formadas somente por aquela Escola. Apenas a título de informação, devemos adiantar que, na trajetória dessa entidade, entre outras designações a ela conferidas, passa a intitular-se, a partir de 1954, Associação BrasileiradeEnfermagem (ABEn), conservando a sigla até o presente. Essa referência torna-se necessária pela importância política dessa entidade na articulaçãodas políticas voltadas para o ensino de enfermagem no Brasil, em seus diferentes níveis. Além disso, vale lembrar que num país que carece de centros de documentação e pesquisa, a Enfermagem tem seguido sem preservar adequadamente a sua história,sobretudo com as limitações que a desorganização dos arquivos oferece para o desenvolvimento da pesquisa, e a importância da recuperação e preservação de fontes escritas, orais e iconográficas dos arquivos existentes e daqueles por serem criados.
Por estas tantas razões, o Centro de Estudos e Pesquisas de Enfermagem CEPEn da ABEn Nacional e das Seções, deve ter papel relevante na mudança deste comportamento. Precisa, pois, ampliar seus limites, entendendo que a pesquisa explica e descreve a história social e política, e que, para entendê-la, é preciso usar métodos e fontes adequadas, através do fortalecimento de redes sociais de comunicação e memória em que a produção e a divulgação do reconhecimento do trabalho humano andem juntas. Três batalhões de voluntários compostos por afrodescendentes lutaram contra a ascensão de Getúlio Vargas em 1930. Esses batalhões passaram a ser chamados de Legião Negra. Em verdade tratava-se de uma dissidência da Frente NegraBrasileira (FNB), criada em 14 de julho, cinco dias após o início da chamada Revolução Constitucionalista, um batalhão específico chamado de “Legião Negra de São Paulo”. Para compreendermos a ideologia da Legião Negra, é mister entender a organização da Frente NegraBrasileira, tendo em vista que a Legião Negra representou sua cisão. A FNB tinha como escopo e objetivo central “promover a elevação moral, intelectual e profissional, assistência, proteção e defesa social, jurídica e econômica da gente negra”. Pelas estimativas de um de seus dirigentes, a entidade chegou a reunir 30 mil filiados, somando os efetivos de todas as delegações, as quais funcionavam como espécie de filiais da sede na capital paulista. A FrenteNegra criou uma série de símbolos diacríticos, a fim de garantir visibilidade para as suas ações, qual uma identidade específica para seus associados e, ao mesmo tempo, adquirir visibilidade no âmbito demográfico negro e na sociedade em geral. As mulheres negras que participaram da revolução demonstraram enorme coragem, fibra e destemor. Estimou-se que na Legião Negra, o número de combatentes girou em torno de dois mil membros. A Cruz Vermelha teve representação na Revolução Constitucionalista. Sua presidente, Maria Emília Leal, viajou pelo interior, levando mensagens entre o campo de batalha e o quartel general da capital paulista. Ela promovia cursos de enfermagem para moças e viúvas que, aprendidos os elementos principais da atividade iam aplica-los em hospitais e postos de emergência, nas frentes. O apoio das mulheres foi tamanho quando envolveram seus filhos na causa constitucionalista, em cujo movimento social criou-se um grupo secreto para destituir Vargas, cujo nome era dos cinco estudantes mortos. Enfermeira de Rosário do Sul é a vencedora do concurso Minha história de luta na Enfermagem.
O estado da civilização é fruto principalmente da extra-escolaridade cultural. É mais um produto de sua natureza individual, de sua formação doméstica e de sua existência social do que de sua preparação disciplinar. Esta palavra significa um ato de dedicação. E de uma dedicação a fundo, positiva tanto aos extremos como ao que fica entre eles, como culto, cultivo e cultura são três aspetos articulados da mesma linha de reflexão desde quando nos aperfeiçoamos pela cultura do Espírito. Muda o objeto de nossa dedicação, mas significa sempre uma entrega total do nosso ser para alcançar a essência através das aparências, de modo a tirar do cultivo da terra o alimento do nosso corpo, da cultura intelectual o aperfeiçoamento do nosso espírito e da universidade o reconhecimento da plenitude da verdade. Esse radical culto pode, portanto apresentar três sentidos. O sentido individual de representação é o que chamamos de cultura intelectual. Tem um sentido subjetivo e significa a passagem da informação à formação do saber e da personalidade. O segundo tem um sentido objetivo e significa a conquista de elementos característicos das instituições ede representar uma coletividade. O sentido próprio de construir, a saber, habitar, cai no esquecimento.
Em que medida construir pertence ao habitar? Quando construir e pensar são indispensáveis para habitá-lo. Ambos são, no entanto, insuficientes para habitá-lo se cada um se mantiver isolado, distantes, cuidando do que é seu ao invés de escutar um ao outro. Ipso facto construir e pensar pertence ao habitar. Permanecem em seus limites. Quando aprendemos a pensar que tanto um como outro, provém da obra de longa experiência de um exercício incessante de pensar. A cultura intelectual, portanto, em sentido próprio, refere-se a cada pessoa humana em particular e como um todo irredutível. Somos um ersatz: a cultura social é subsidiária da cultura intelectual, já que a sociedade existe para o homem. E não o homem para a sociedade. Embora seja esta uma condição prática, indispensável para a realização daquele. Não há cultura intelectual liberta sem cultura social organizada. A cultura intelectual representa a passagem do domínio e controle da informação da nossa individualidade total. Pela informação recebemos os elementos que vão permitir a eclosão de nossas possibilidades naturais. É a função da formação hermenêutica quando aglutinamos e assimilamos esses elementos, de tipo variados, contraditórios, reduzindo-os a uma unidade irredutível e elaborando com isso a nossa personalidade.
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