Ubiracy de Souza Braga
“Uma fusão de Marx com o modernismo
poderia derreter o corpo demasiado sólido do marxismo”. Marshall Berman
Plotino
foi um filósofo neoplatônico, negro, autor de Enéadas, coleção de escritos do filósofo neoplatônico, discípulo de Amônio Sacas por onze anos e mestre de
Porfírio, seu biógrafo. Os nomes dos tratados podem diferir de acordo com a tradução. Os números entre colchetes antes dos trabalhos individuais referem-se a ordem cronológica em que foram escritas de acordo com Vida de Plotino, de Porfírio. Grego nascido no Egito em Licopólis, a mesma raiz que
deu origem ao Liceu de Aristóteles, “o local do lobo”, no Egito, levou a
especulações de que ele pode ter sido um egípcio de Roma, descendente de gregos,
ou egípcios. Licaão era filho de Pelasgo, primeiro rei da Arcádia. Segundo os
árcades de cerca do século II d. C., Pelasgo foi o primeiro morador da Arcádia,
mas Pausânias critica esta descrição, porque ele não poderia ser rei sem ter
súditos. Pseudo-Apolodoro dá duas versões sobre sua origem: segundo Acusilau,
ele era filho de Zeus e Níobe (filha de Foroneu); segundo Hesíodo, ele era
autóctone. Pelasgo foi notável por seus inventos e pela introdução de vários
hábitos alimentares. Durante seu tempo, a Arcádia foi chamada de Pelasguia. Foi sucedido pelo filho Licaão. Segundo
Pseudo-Apolodoro, a mãe de Licaão era Melibeia, filha de Oceano ou Cilene
(ninfa). Após abandonar a vida selvagem se tornou um homem culto e extremamente
religioso.
Ao fundar sua cidade, chamada Licosura, Licaão construiu um altar
para Zeus. Mas seu “fanatismo religioso” o levou a realizar sacrifícios
humanos. Assim, todo o respeito que havia conquistado durante sua vida se
perdeu. Mesmo assim, Licaão continuava com suas práticas, chegando a sacrificar
alguns estrangeiros que chegavam até sua casa. Após 11 anos em Alexandria, na
idade de 38 anos, Plotino decidiu investigar os ensinamentos da Filosofia iraniana
e Filosofia indiana. Segundo “As Metamorfoses de Ovídio”, Licaão, o rei da
Arcádia, serviu a carne de Árcade, e Zeus a este como castigo, transformando-o
em lobo (Met. I. 237). Um dos personagens mais famosos foi o pugilista Arcádio
Damarco Parrásio, herói olímpico que assumiu a forma de lobo nove anos após um
sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias. Segundo lendas
contemporâneas, “para matar um lobisomem é preciso acertá-lo com artefatos
feitos de prata”. É um ser lendário, que reaparece com origem em tradições
europeias, segundo as quais, um homem se transforma em lobo ou em algo
semelhante a um lobo em noites de lua cheia, só voltando à forma humana após o
amanhecer. Tais lendas são muito antigas e encontram a sua raiz na mitologia
grega.
Dessa maneira, por um lado, ela é uma
realidade semelhante ao Intelecto e, por outro, inferior e derivada. É dotada
de intelecção, mas a intelecção que lhe é própria é inferior, discursiva.
Enquanto que, no Intelecto, todo o pensamento está presente ao mesmo tempo, a
alma pensa uma coisa após a outra: num momento é Sócrates, em outro é um cavalo
etc. Sendo uma entidade distinta e inferior, que pensa discursivamente, como a
alma pode se unir tão estreitamente ao Intelecto, de modo a ser possível que
chegue até mesmo a se tornar um intelecto? Para O`Daly, devemos nos lembrar,
aqui, do axioma plotiniano, presente em V, 2, 2: cada ser está em identidade
com seu antecessor enquanto mantém contato. Ou efeito não está separado
da causa. Assim, a alma do vegetal morto volta para o lugar de onde veio, ou
melhor, está sempre em seu princípio. Do mesmo modo, as fases superiores da
alma estão umas nas outras até que o nível do Intelecto seja alcançado. Assim,
a alma está presente no Intelecto de um modo virtual. Quando essa presença é
atualizada e a alma age como um intelecto.
Na busca dessa reflexão para
compreensão ele deixou Alexandria e se juntou ao exército de Gordiano III, uma
vez que este marchava sobre a Pérsia. A campanha fracassa e na eventual morte
de Gordiano, Plotino se encontrou abandonado em uma terra hostil e com
dificuldade encontrou seu caminho de volta para a sua segurança em Antioquia.
Com a idade de quarenta anos, durante o reinado de Filipe, o Árabe, retornou a
Roma, onde permaneceu durante a maior parte do resto de sua vida. Lá, atraiu um
número de alunos. Seu círculo de discípulos mais íntimo incluiu Porfírio,
Amélio da Toscana, o senador Castro Firmo e Eustáquio de Alexandria, um médico
que se dedicou ao aprendizado de Plotino e o assistiu até sua morte. Outros alunos
foram: Zeto, um árabe por ascendência, que morreu antes de Plotino deixando-lhe
um legado e um pouco de terra, Zótico, crítico e poeta, Paulino, um médico de
Sitopólis (Bete-Seã) e Serapião de Alexandria. Além de Castro, Plotino tinha
alunos no senado romano como Marcelo Oronto, Sabinilo e Rogaciano. Algumas
mulheres também foram contadas entre os seus alunos, incluindo Gemina, “em cuja
casa ele viveu durante a sua residência em Roma, sua filha, também Gemina, e
Anficlea, a esposa de Aristão filho de Jâmblico”.
Plotino
é considerado por especialistas como o idealizador do neoplatonismo (Porfírio, 1946; Parente, 1984; Soares, 2000;
Brandão, 2007; 2009), mas, alguns entendem que foi Numênio de Apameia quem tem
a paternidade desta corrente do
pensamento político grego de inspiração platônica. De qualquer forma, Plotino é
considerado como o mais importante filósofo neoplatônico, e fora de dúvida o
pensador mais significativo do século III d. C. A doutrina de Plotino, assim
como outras correntes neoplatônicas viriam a se tornar em Roma uma séria
alternativa de crítica ao cristianismo. Com a expansão
vitoriosa da doutrina cristã, deu a impressão que o neoplatonismo
desapareceria. No entanto, esta escola exerceu uma forte influência na teologia
cristã, ocorrendo assim diversas sínteses elaboradas principalmente por
Agostinho de Hipona, Gregório de Nissa, e outros pensadores cristãos, as quais
influenciaram grande parte dos filósofos medievais até o século
XIII.
O
neoplatonismo também esteve presente no Renascimento e na Modernidade,
inspirando a fundação da Academia Platônica Florentina, a filosofia natural de
Bruno, e o inatismo advindo das
tendências platônico-agostinianas, que deu origem à Escola de Cambridge (cf.
Feres Junior, 2005). A corrente neoplatônica se inseriu de maneira mais
profunda no idealismo romântico e, em particular, na filosofia de Schelling, um
autor variado e fecundo. As faces do seu pensamento são fundamentalmente duas:
o período da filosofia da identidade, e o da filosofia da liberdade. A
filosofia de Schelling é, fundamentalmente, idealista: o espírito, o sujeito, o
eu, é princípio de tudo. Como Fichte, admite que a natureza é uma produção
necessária do espírito; recusa, porém, o conceito de Fichte de que a natureza
tenha uma existência puramente relativa ao espírito. Para ele, a natureza -
concebida idealisticamente - tem uma realidade autônoma com respeito ao sujeito,
à consciência. A natureza tem como representação o espírito na fase de consciência
obscura, como o espírito é a natureza na fase de consciência clara.
Ele é um dos mais influentes filósofos da
Antiguidade, depois de Platão e Aristóteles. Mas por qual motivo os
ensinamentos de Plotino teriam sido entendidos como um discurso religioso que
rivalizou com a doutrina cristã nos primeiros séculos de nossa era? Atribuem-se
a Plotino estranhos poderes ocultos, e seu corpo teria sido incorporado por
alguma “entidade espiritual”, que seria um demônio
ou um deus. Também na vida cotidiana, Plotino teria sido clarividente, sendo
capaz de reconhecer ladrões à primeira vista e, em um instante, adivinhar o
caráter e até mesmo o destino futuro daqueles o cercavam. Assim como Sócrates,
Amônio nada deixou escrito, mas sua doutrina foi divulgada e aperfeiçoada por
Plotino, tal como, antes, a mensagem de Sócrates havia sido eternizada pelos
testemunhos de Platão e Xenofonte. Amônio conciliou as idéias formuladas em
torno de Platão e Aristóteles e transmitiu a seus discípulos, em especial a
Plotino, proporcionando assim uma filosofia livre do espírito de polêmica,
muitas vezes da vaidade pela disputa intelectual.
Conta
Eunápio que Porfírio, após haver estudado com Plotino, tomou horror ao próprio
corpo e velejou para a Sicília, seguindo a rota de Odisseu, e ficou em um
promontório da ilha, sem se alimentar e evitando o caminho do homem; Plotino,
que ou o estava seguindo ou recebeu informações sobre o jovem discípulo, foi
até ele e o convenceu com suas palavras, de modo que Porfírio voltou a reforçar
seu corpo para sustentar sua alma. Os critérios editoriais de Porfírio,
possivelmente, tinham por objetivo formar uma série que demonstrasse o caminho
para a sabedoria. Nas palavras de O`Meara: - Com isso Porfírio quis oferecer
ao leitor uma passagem pelos escritos de Plotino que lhe traria “uma formação
filosófica, uma condução até o bem absoluto”. O alvo geral da leitura e
interpretação dos textos nas escolas do Império era, em primeira linha, a
transformação da vida, a cura da alma, a condução para uma vida boa.
Em
sua filosofia Plotino dividia o universo em quatro hipóstases: O Uno, o Nous (ou mente) e a Alma. Segundo Plotino, o Uno refere-se a Deus,
dado que sua principal característica é a indivisibilidade. – “É em virtude do
Uno [unidade] que todas as coisas são coisas”. Nous, termo filosófico grego que não possui uma transcrição direta
para a língua portuguesa, e que significa atividade do intelecto ou da razão em
oposição aos sentidos materiais. Muitos autores atribuem como sinônimo a Nous os termos “Inteligência” ou “Pensamento”.
O significado aparentemente ambíguo do termo é resultado de sua constante
apropriação por diversos filósofos, para denominar diferentes conceitos e
idéias. Nous refere-se ao processo de
apreensão de conhecimento filosófico e ao contexto histórico das ideias,
algumas vezes a uma faculdade mental ou característica, outras vezes
corresponde a qualidade do universo ou de Deus.
Porfírio
informa que Plotino tinha 66 anos quando morreu em 270, o segundo ano do
reinado do imperador Cláudio II, dando-nos assim o ano de nascimento do seu
professor como ao redor 205, em Minturno, já foi sugerido também que possa ter
nascido na Alexandria. A influência filosófica de Plotino e dos neoplatônicos
sobre o pensamento cristão, islâmico e judaico foi representativa para
escritores como Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Agostinho de Hipona,
Pseudo-Dionísio, o Areopagita, Boécio, João Escoto Erígena, Alberto Magno,
Tomás de Aquino, Dante Alighieri, Mestre Eckhart, Johann Tauler, Nicolau de
Cusa, João da Cruz, Marsílio Ficino, Giovanni Pico della Mirandola, Giordano
Bruno, Avicena, Salomão ibne Gabirol, Espinoza, Leibniz, Coleridge, Henri
Bergson e Máximo, o Confessor, entre outros.
A
filosofia essencialmente africana é geralmente negligenciada no estudo de Filosofia, e sabemos claramente as
razões para isso. Alguns argumentam que o fato de ela estar estreitamente
vinculada às suas tradições orais
tornaria difícil compartilhar a sua extensa história com uma audiência mais
ampla. Outros argumentam que a sua natureza “afrocêntrica”, distinta da
helênica a faria menos atraente para o resto do mundo ocidental. O filósofo
nigeriano K. C. Anyanwu define a filosofia africana como “aquela que se
interessa na maneira que o povo africano, do passado e do presente, entende o
seu destino e o mundo no qual vive”. Apesar de aparentemente permanecer um
mistério para outros países, a filosofia africana é uma disciplina sólida, enriquecida por séculos de pesquisa, que datam culturalmente
desde a filosofia do Egito antigo, até o pensamento pós-colonial moderno.
Historicamente a filosofia africana contribuiu à filosofia grega, através do
filósofo egípcio Plotino - figura fundamental na continuação da tradição da
Academia de Platão, e à filosofia cristã, através do pensador argelino
Agostinho de Hipona, que estabeleceu a noção de representação do pecado original.
A
expressão filosofia africana é usada de múltiplas formas por diferentes
filósofos. Embora diversos filósofos africanos tenham contribuído para diversas
áreas de conhecimento, com a metafísica, epistemologia, filosofia moral e
filosofia política, uma grande parte dos filósofos discute se a filosofia
africana de fato existe. Um dos mais básicos motivos de discussão sobre a
filosofia africana gira em torno da aplicação do termo “africano”,
paradoxalmente, se o termo se refere ao conteúdo da filosofia ou à identidade
dos filósofos. Na primeira visão, a filosofia africana seria aquela que envolve
temas africanos ou que utiliza métodos que são distintamente africanos. Na
segunda visão, a filosofia africana seria qualquer filosofia praticada por
africanos ou pessoas de origem africana. A filosofia na África tem uma história
rica e variada, que data do Egito pré-dinástico, continuando até o nascimento
do cristianismo e do islamismo. Sem
dúvida, foi fundamental a questão em torno da concepção do “Ma`at”, que, traduzido, significa,
aproximadamente, “justiça”, “verdade” ou, simplesmente, “o que é certo”. Uma
das maiores obras de filosofia política foi o Ensinamento de Ptah-hotep, que
foi empregado nas escolas egípcias durante séculos. Filósofos egípcios antigos
deram contribuições extremamente importantes para a filosofia helenística,
filosofia cristã e filosofia islâmica. Na tradição helênica, a influente escola
filosófica do neoplatonismo foi fundada pelo filósofo egípcio Plotino, no
terceiro século da era cristã. Na tradição cristã, Agostinho de Hipona foi uma
pedra angular da filosofia e da teologia cristã. Ele viveu entre os anos 354 a
430, e escreveu a sua obra mais conhecida “De Civitate Dei” (“A Cidade de Deus”)
em Hipona, atual cidade argelina de Annaba. Ele desafiou uma série de ideias de
sua idade incluindo o arianismo, e estabeleceu as noções básicas do pecado
original e da graça divina na filosofia e na teologia cristãs. Marshall Berman em análise comparada foi um filósofo negro e escritor talentoso estadunidense de tendência marxista deste século.
Nascido em 1940, em Nova
York, o pensador lecionava ciência política no The City College of New York e
filosofia política e urbanismo na City University of New York. Sua obra
reconhecida internacionalmente é All That Is Solid Melts Into Air: The
Experience of Modernity (1982; 2012), o mais famoso ensaio marxista dos anos
1980, cujo título alude a frase do Manifesto
Comunista, de Marx e Engels de 1848 que se tornou famosa associada à
linguagem estética em que o marxista humanista apresenta-se radicalmente
contrário ao conceito de “pós-modernismo” (cf. Lyotard, 1979) e acreditava na
retomada do humanismo marxista. O livro desenvolve a crítica da modernidade, constituindo-se de análises
argutas de vários autores e suas épocas - desde o Fausto, de Goethe, passando
pelo “Manifesto” e pelos poemas em prosa de Charles Baudelaire e pela
ficcionalização das ideias de Fiódor Dostoiévski, até as vanguardas artísticas
do século XX. Jean-Jacques Rousseau é o primeiro a usar a palavra moderniste no sentido em que os séculos
XIX e XX a usarão fartamente. Contudo, pode-se ter analogamente uma ideia da
complexidade da relação entre modernidade e o modernismo do século XIX, se
prestarmos atenção a duas de suas vozes mais distintas: Friedrich Nietzsche, em geral aceito como fonte de muitos dos modernismos do nosso tempo, e
Marx, que não era comumente associado a qualquer modernismo antes de Marshall Berman.
Com isso, o tema da ideologia sofria uma desdramatização. Se o ideológico, afinal não passava de uma consequência pura e simples de um processo prático, material, que importância maior poderiam ter, na sua esfera social de ação, as controvérsias que lançavam, uns contra os outros, os sujeitos históricos? Os dramas subjetivos - reconhecidos como secundários - remetiam os pesquisadores à realidade tida como objetiva, que era o nível onde podiam ser encontrada as causas concretas, isto é, a verdade do fenômenos. A questão filosófica cedia lugar a um campo de estudos bem mais restrito, que ficava entregue à competência exclusiva dos sociólogos, incumbidos de verificar a que grupos, classes ou atores sociais se ligavam as representações ideológicas. Os marxistas do final do século XIX e sobretudo do início do século XX, em sua maioria adotaram uma concepção redutivamente sociológica da ideologia, limitando-se ao recurso mental - e neste sentido poder denunciar politicamente - as formas diretas mais simples da expressão dos interesses materiais das classes sociais nos discursos, nos programas de ação ou na produção artística em geral.
Com isso, o tema da ideologia sofria uma desdramatização. Se o ideológico, afinal não passava de uma consequência pura e simples de um processo prático, material, que importância maior poderiam ter, na sua esfera social de ação, as controvérsias que lançavam, uns contra os outros, os sujeitos históricos? Os dramas subjetivos - reconhecidos como secundários - remetiam os pesquisadores à realidade tida como objetiva, que era o nível onde podiam ser encontrada as causas concretas, isto é, a verdade do fenômenos. A questão filosófica cedia lugar a um campo de estudos bem mais restrito, que ficava entregue à competência exclusiva dos sociólogos, incumbidos de verificar a que grupos, classes ou atores sociais se ligavam as representações ideológicas. Os marxistas do final do século XIX e sobretudo do início do século XX, em sua maioria adotaram uma concepção redutivamente sociológica da ideologia, limitando-se ao recurso mental - e neste sentido poder denunciar politicamente - as formas diretas mais simples da expressão dos interesses materiais das classes sociais nos discursos, nos programas de ação ou na produção artística em geral.
Outros
livros de Berman bem difundidos – “Aventuras no Marxismo” – uma coletânea de
ensaios sobre a influência de Marx na sua vida –, e “Um Século em Nova York” – que
também foram traduzidos para o português. Escreveu ipso facto inúmeros artigos sobre cultura e política, e como membro
do conselho editorial da revista Dissent,
ou para a revista semanal The Nation
e para o tradicional jornal The New York
Times. Sob a influência do movimento New
Left, Nova Esquerda, Marshall Berman refletiu sobre uma série de questões sociais
e políticas que ampliam o horizonte das esquerdas tradicionais em relação aos
elementos constitutivos da modernidade. Nos Estados Unidos da América, a Nova
Esquerda está associada aos movimentos populares, como o Hippie, os de protesto à Guerra do Vietnã e pelos direitos civis,
que visavam a acabar com a opressão de classe, gênero sexual, raça e
sexualidade. Apresentou o modo como o indivíduo pode experimentar,
criticamente, de modo rico, em verdadeira profusão, tudo o que a cultura moderna
nos oferece, como consumidores na literatura, nas artes em geral, no cotidiano
da vida urbana, sem cair nos vícios empobrecedores ou “reificantes” da
existência, ensejados pelo capitalismo, ou na crítica mais convencional
marxista que não atenta para essas possibilidades. Segundo Berman, o marxismo,
em larga medida, perdeu o sentido libertário
original presente na obra de Marx, autor que ele classifica como um dos
fundadores da concepção crítica de modernidade.
Metodologicamente Marshall Berman disserta sobre um recorte epistemológico das três fases da história da modernidade. De início do século XVI até o fim do século XVIII onde
as pessoas estão apenas começando a experimentar a vida moderna, quando ainda
mal fazem ideia do que as atingiu. Quando a grande onda revolucionária de 1789-1790,
“batalhões de limousinants integravam
já os grupos da construção; os auvergnats
enxameavam por toda parte; os tanoeiros de Saintonge os empregavam todos os
anos” etc., (cf. Lefevre, 1979: 32) demarca o início da segunda fase, onde
ganha vida um público moderno e que compartilha o sentimento de viver em uma
era revolucionária se expande a ponto de abarcar virtualmente o mundo nacional.
Estados nacionais cada vez mais poderosos, burocraticamente estruturados e
geridos. Que lutam com obstinação para expandir seu poder; movimentos sociais
de massa e de nações, ameaçando seus governantes políticos, lutando por obter controle sobre suas vidas; dirigindo e manipulando muitas pessoas e
instituições, um mercado capitalista globalizado, drasticamente flutuante, em
permanente expansão. Esta questão em certa medida remonta ao tema da Liberdade absoluta do Primeiro princípio por ter sido inaugurado na filosofia ocidental por Plotino num dos tratados mais célebres das Enéidas, sobre a liberdade e a vontade do Uno.
Plotino começa com uma minuciosa
descrição do livre arbítrio, inspirada na Ética
de Nicômaco aristotélica. O livre arbítrio se exerce com respeito às coisas
que estão em nosso poder (tà eph`hemîn)
e deve ser conduzido pela “reta razão” (orthòs
logos). O sujeito do livre-arbítrio é
dotado de uma natureza imaterial; ele está presente por uma identidade na
Inteligência (segunda hipóstase da tríade plotiniana) e por aquisição da Alma
(terceira hipóstase). Em seguida, Plotino, dedica-se a uma reflexão especulativa
sobre a absoluta transcendência do Uno-Bem e sobre os predicados a que convém
atribuir-lhe. Finalmente, designa o Uno-Bem como vontade e Liberdade absolutas,
pois somente Ele é Ele mesmo (autòs autó), ao passo que tudo mais é o mesmo
e outro. Toda alteridade é, portanto, excluída da Liberdade absoluta enquanto
idêntica com o bem. Nessa concepção da identidade entre Liberdade e Bem tem
origem o problema metafísico da Liberdade tal como será recebido na tradição
filosófica posterior das interpretações diversas que receberá na
teologia cristã e na filosofia da modernidade.
Historicamente há cerca
de duzentos anos, a ideia de que a verdade era produzida, e não descoberta
começou a tomar conta do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos,
os ritos, os símbolos) europeu. O precedente estabelecido pelos românticos
conferiu a seu pleito uma plausibilidade inicial. O papel efetivo de romances,
poemas, peças teatrais, quadros, estátuas e prédios no movimento social dos
últimos 150 anos deu-lhe uma plausibilidade ainda maior, obtendo legitimidade,
já que “as ideias adquirem força na história”. Alguns filósofos inclinaram-se
ao iluminismo e continuaram a se identificar com a ciência. Eles veem a antiga
luta entre a ciência e a religião, a razão e a irracionalidade, como um
processo em andamento que assumiu a forma de luta entre a razão e todas as
mediações intraculturais que pensam na verdade constituída e não encontrada.
Esses filósofos consideram que a ciência é a atividade paradigmática e insistem
que a ciência natural descobre a verdade, ao invés de cria-la. Encaram a
expressão “criar a verdade” como meramente metafórica e totalmente enganosa.
Pensam na política e na arte como esferas em que a ideia de “verdade” fica
deslocada. Outros filósofos, percebendo que o mundo descrito pelas ciências
físicas não ensina nenhuma lição moral e não oferece conforto espiritual,
concluíram que a ciência não passa de uma serva da tecnologia. Esses filósofos
alinham-se com o utopista político e o
artista inovador. Os primeiros contrastam
a “realidade científica concreta” com o “subjetivo” ou o “metafórico”, os
segundos veem a ciência como um conjunto de práticas e saberes sociais, sendo que na transformação das atividades humanas, e não como o
lugar em que se deparam com uma realidade não humana “concreta”.
De acordo com essa visão, os grandes cientistas inventam descrições do mundo
que são úteis para o objetivo de prever e controlar o que acontece, assim como
os poetas e os pensadores políticos inventam outras descrições do mundo para
outros fins. Não há sentido algum, porém, em que qualquer dessas descrições
seja uma representação exata de como é o mundo em si. Esses filósofos
consideram inútil a própria ideia dessa representação, consignando uma verdade de
categoria fenomênica, como uma descrição do espírito ainda não plenamente
cônscio de sua natureza espiritual (dialética) e, elevar ao tipo de verdade
oferecida pelo poeta e pelo revolucionário político. O idealismo alemão,
porém, representou uma solução de compromisso pouco duradoura e insatisfatória.
É que Immanuel Kant e Friedrich Hegel fizeram apenas concessões parciais em seu
repúdio à ideia de que a verdade está “dada”. Dispusera-se a ver o mundo da
ciência empírica como um mundo “fabricado” – a ver a matéria como algo
construído pela mente, ou como feita de uma mente insuficientemente cônscia de
seu próprio caráter mental -, mas persistiram em ver a mente, o espírito, as
profundezas do eu como dotados de uma natureza intrínseca – uma natureza que se
poderia conhecer por uma espécie de superciência não empírica, chamada de filosofia.
Isso significava que apenas metade da verdade, a metade científica inferior –
era produzida.
A verdade superior, a verdade sobre a mente, seara da filosofia,
ainda era uma questão de descoberta, não de criação. Richard Rorty precisa sua
tese de distinção entre a afirmação de que o mundo está dado e a de que a
verdade dada, equivale a dizer, com bom senso, que a maioria das coisas no
espaço e no tempo, é efeito de causas que não incluem os estados mentais
humanos. Dizer que a verdade não está dada é dizer que, onde não há frases, não
há verdade. E que as frases são componentes das línguas humanas, e que as
línguas humanas são criações humanas. Só as descrições podem ser “verdadeiras”
ou “falsas” - sem o auxílio das atividades descritivas dos seres humanos - não
pode sê-lo. Em filosofia e lógica,
a contingência enquanto representação da realidade é o modo de ser daquilo que
não é necessário nem impossível. É bem
verdade que a liberdade no pensamento tem somente o puro pensamento por sua
verdade; e verdade sem a implementação da vida. Por isso, para lembrarmos de
Hegel, é ainda só o conceito da liberdade, não a própria liberdade viva. Com
efeito, para ela a essência é só o pensar em geral, a forma coo tal, que
afastando-se da independência das coisas retornou a si mesma. Mas porque a
individualidade, como individualidade atuante, deveria representar-se como
viva; ou, como individualidade pensante, captar o mundo vivo como um “sistema
de pensamento”; teria de encontrar-se no pensamento mesmo, para aquela expansão
do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do agir, um conteúdo do
que é bom, e para essa expansão do pensamento, um conteúdo do que é verdadeiro.
Com isso não haveria, absolutamente nenhum outro ingrediente, naquilo que é
para a consciência, a não ser o conceito que é a essência.
O conceito enquanto
abstração, separando-se da multiplicidade variada das coisas, não tem conteúdo
nenhum em si mesmo, exceto um conteúdo que lhe é dado. A consciência, quando
pensa o conteúdo, o destrói como um ser alheio; mas o conceito é conceito
determinado e justamente essa determinidade é o alheio que o conceito possui
nele. Esta unidade do existente, o que
existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo,
esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são
duas e, no entanto, uma.É um conceito da razão.
Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento
abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode
compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma
única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente,
na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são
necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa representação é uma
imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização,
e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo que resulta. Assim, o
terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da evolução,
o resultado de todo este movimento. E a isto Hegel chama “o ser por si”. É o
“por si” do homem, do espírito mesmo.
Somente o espírito chega a ser verdadeiro
por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu objeto de pensamento, é
ele mesmo. Ele é um desembocar em seu outro. É um desprendimento, um
desdobrar-se, e por isso, ao mesmo tempo, um desafogo. No que toca mais
precisamente a um dos lados da educação, melhor dizendo, à disciplina,
não se há de permitir ao adolescente abandonar-se a seu próprio bel-prazer; ele
deve obedecer para aprender a mandar. A obediência é o começo de toda a
sabedoria; pois, por ela, a vontade que ainda não conhece o verdadeiro, o
objetivo, e não faz deles o seu fim, pelo que ainda não é verdadeiramente
autônoma e livre, mas, antes, uma vontade despreparada, faz que em si vigore a
vontade racional que lhe vem de fora, e que pouco a pouco se torne a sua
vontade. O capricho deve ser
quebrado pela disciplina; por ela deve ser aniquilado esse gérmen do mal. No
começo, a passagem de sua vida ideal à sociedade civil pode parecer ao jovem
como uma dolorosa passagem à vida de filisteu. Até então preocupado apenas com
objetos universais, e trabalhando só para si mesmo, o jovem que se torna homem
deve, ao entrar na vida prática, ser ativo para os outros e ocupar-se com
singularidades, pois concretamente se se deve agir, tem-se de avançar em
direção ao singular.
Nessa conservadora produção do mundo consiste no trabalho
do homem. Podemos, pois, fora de dúvida, de um lado dizer que o homem só produz
o que já existe. Por outro, é necessário que um progresso individual seja
efetuado. Mas o progredir no mundo só ocorrer nas massas, e só se faz notar em
uma grande soma de coisas produzidas. É a característica preservada e atribuída
ao ente cuja existência é não necessária, mas, ao mesmo tempo, não impossível -
isto é, a sua realidade não pode ser demonstrada nem negada em termos abstratos
definitivos. Dizer que são contingentes as proposições, e neste sentido que não
contém um entendimento necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas é
uma boutade. Há quatro classes de proposições, algumas das quais se sobrepõem:
proposições necessariamente verdadeiras ou tautologias, que devem ser verdadeiras,
não importam quais são ou poderiam ser as circunstâncias. Geralmente o que se
entende por proposição necessária é a proposição “necessariamente verdadeira”.
Proposições necessariamente falsas ou contradições, que devem ser falsas, não
importam quais são ou poderiam ser as circunstâncias. Proposições contingentes,
que não são necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas. Proposições
possíveis, que são verdadeiras ou poderiam ter sido verdadeiras em certas
circunstâncias. Enfim, todas as proposições necessariamente verdadeiras e todas
as proposições contingentes também são proposições possíveis.
A filosofia profissional, segundo a maioria dos filósofos ocidentais, e particularmente norte-americanos seria uma
forma originalmente europeia de pensar, refletir e raciocinar, sendo, tal
forma, relativamente nova na maior
parte da África. No entanto, tal abordagem da filosofia tende a crescer no
continente africano, e não só. A filosofia ideológica nacionalista, por
exemplo, pode ser vista como um caso especial de “sagacidade filosófica”. Os
críticos dessa abordagem argumentam que nem todos os questionamentos e reflexões
são filosóficos. O que quer dizer o seguinte: se a filosofia africana for
definida em termos de sagacidade filosófica, então os pensamentos dos sábios
não poderiam se enquadrar na tradição da filosofia, pois não foram obtidos de
outros sábios. Por esse ponto de vista, a única diferença entre os antropólogos
não africanos e os filósofos africanos seria apenas a nacionalidade do
pesquisador, em geral colonialista. Portanto, ela também pode ser vista como
uma forma de proximiade no âmbito da dialética marxista com a filosofia política. Em ambos os casos, o mesmo tipo de problema
surge: é preciso manter uma distinção entre ideologia e filosofia, entre
conjuntos de ideias, práticas sociais e uma maneira especial de raciocínio. Valores
que, não sendo religiosos, pudessem atrair todas as igrejas
de todas as comunidades negras e, mais tarde, no mundo inteiro. Muitos
filósofos africanos se destacaram nesta área, como Kwame Anthony Appiah, Kwame
Gyekye, Kwasi Wiredu, Oshita O. Oshita, Lansana Keita, Peter Bodunrin e
Chukwudum B. Okolo.
Bibliografia
geral consultada.
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Alma. Psicanálise, Drogas e Pulsão na Modernidade. Tese de Doutorado. Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo, 2016; entre outros.




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