Ubiracy de Souza Braga*
“Todo cearense é filho da Padaria Espiritual” . Selma Santiago
O
Dia do Panificador foi criado em homenagem à Santa Isabel de Portugal, reconhecida
popularmente como a “padroeira dos padeiros”. De acordo com a lenda, mito ou
oralidade durante o século XIV, Portugal enfrentava uma intensa crise e as
pessoas passavam muita fome. A crise do século XIV designa uma série de eventos
ocorridos ao longo dos séculos XIV e XV que deterioraram o crescimento e
prosperidade que a Europa havia desenvolvido desde o começo da Baixa Idade
Média. O colapso demográfico, a instabilidade política e as revoltas religiosas
estão na origem das crises que provocaram alterações profundas em todas as
áreas da sociedade. Para ajudar os menos afortunados, a rainha de Portugal,
Isabel de Aragão, distribuía anonimamente pães para os pobres. Certo dia, quando
a rainha se preparava para distribuir os pães, o rei D. Dinis I interceptou-a e
exigiu que ela demonstrasse “o que escondia no seu avental”. A rainha respondeu
que levava rosas, mas o rei não acreditou e pediu para que Isabel revelasse o
conteúdo misterioso. Ao abrir o avental, várias rosas caíram ao chão e começaram a gritar: “Milagre! Milagre”. A crise iniciou a
decadência das universidades e escolas medievais e, per se o
progresso científico que estava florescendo.
A
medicina quase desviou-se da prática metodológica para ceder às superstições e
medos que se deram per se com a Peste e a Grande Fome. A cultura de
higiene que havia se disseminado através dos monges herbalistas se extingue e a
medicina atribui a causa da peste à água que se tornou cada vez mais escassa em
seu estado potável devido às fortes chuvas. Logo, há redução no número de
banhos e o início de uma era de ensebamento no século XV. Causada por
diversos motivos políticos, a crise teve origem na escassez de novas terras a
serem ocupadas, fazendo com que a produção não crescesse, uma vez que no
sistema feudal uma maior produção significava a anexação de novas terras. Com a
produção estagnada e uma população maior, a fome se espalhou pela Europa. Além
disso, a destruição das florestas e do meio ambiente ocorrida durante o século
XII causou sérias mudanças climáticas, com severas chuvas. Em 1212, a jovem
Clara de Assis seguiu o exemplo de São Francisco de Assis dentro da clausura e
contemplação de pobreza evangélica, no Convento de São Damião, sob a orientação conjunta de Santa Clara e de São Francisco, e que contou sempre com a solidariedade dos Frades Menores.

A
ordem depressa se estendeu por toda a Europa e constitui hoje, com cerca de 1
500 mosteiros em todos os continentes, a ordem de clausura mais numerosa em
toda a Igreja. Em 2012 a ordem contava com cerca de 20 mil Clarissas em mais de setenta países. As Irmãs Clarissas chegaram a Portugal pouco depois da morte de
Santa Clara, em 1254. A primeira comunidade instalou-se em Lamego, passando em
1259 para Santarém. A Europa devastada pela fome, estava mais vulnerável a
doenças como a Peste negra. Para agravar a situação existiam constantes
guerras, a mais conhecida foi a Guerra dos Cem Anos que causou uma grande queda
demográfica. Como havia menos pessoas para trabalhar, os nobres impuseram uma
maior carga de trabalho sobre os camponeses, e gerou revoltas populares
como a Jacquerie e a camponesa de 1381.
A
revolta dos camponeses foi alimentada pela agitação econômica e social do
século XIV. A maioria dos ingleses trabalhava na economia rural que alimentava
as vilas e cidades do país e apoiava um extenso comércio internacional. Em
grande parte da Inglaterra, a produção era organizada em torno de feudos,
controlados por senhores locais, incluindo a nobreza e a Igreja e governada
através de um sistema de cortes senhoriais. Parte da população era de servos
sem liberdade, que trabalhavam nas terras de seus senhores por um período a
cada ano, embora o equilíbrio entre livres e não livres variasse em toda a
Inglaterra, e no Sudeste houvesse relativamente poucos servos. Alguns nascidos
sem liberdade e não podiam deixar seus feudos para trabalhar em outro lugar sem
o consentimento do senhor; outros aceitavam limitações à sua liberdade como
parte do contrato de posse de suas terras agrícolas. O crescimento da população
levou a pressão sobre as terras agrícolas disponíveis, aumentando o poder dos
proprietários.
Em
1348, a praga reconhecida como Peste Negra atravessou a Europa continental para
a Inglaterra, matando rapidamente cerca de 50% da população. Após um período
inicial de choque econômico, a Inglaterra começou a adaptar-se à mudança
da situação econômica. A taxa de mortalidade entre os camponeses significava
que a terra era relativamente abundante e a mão de obra era muito menor. Os
trabalhadores podiam cobrar mais por seu trabalho e, na consequente competição
por trabalho, os ordenados eram levemente elevados. Por sua vez, os ganhos dos
proprietários de terras foram corroídos. O comércio e as redes comerciais e
financeiras nas cidades se desintegraram. As autoridades responderam ao caos
com uma legislação de emergência; a Portaria dos Trabalhadores aprovada em 1349
e o Estatuto dos Trabalhadores em 1351. Tentava-se fixar os ordenados aos
níveis anteriores à praga, “tornando crime recusar o trabalho ou quebrar um
contrato existente, aplicando multas àqueles que transgredissem”. O sistema foi
aplicado inicialmente através de juízes especiais de trabalhadores e, a partir
da década de 1360, através dos Juízes de Paz normais, tipicamente membros da nobreza.
Embora, em teoria, essas leis se aplicassem aos trabalhadores que buscavam
ordenados mais altos e aos empregadores tentados a oferecer mais que seus
concorrentes aos trabalhadores, na prática eram aplicadas apenas a
trabalhadores e, então, de maneira bastante arbitrária. A legislação foi
reforçada em 1361, com as penas aumentadas para incluir marcas e prisões. O
governo real não havia intervindo dessa maneira anteriormente, nem se aliado
aos proprietários destas localidades de uma maneira tão óbvia ou impopular.

Nas décadas seguintes, aparentemente aumentaram as oportunidades
econômicas para o campesinato inglês. Os trabalhadores assumiram empregos
especializados que anteriormente lhes eram barrados e outros mudaram de
empregador para empregador, ou tornaram-se empregados em famílias mais ricas.
Essas mudanças foram intensamente sentidas no sudeste da Inglaterra, onde o
mercado de Londres criou uma ampla gama de oportunidades para agricultores e
artesãos. Os senhores tinham o direito de impedir que os servos deixassem seus
feudos, mas quando os servos se viram bloqueados nas cortes senhoriais, muitos
simplesmente saíram para trabalhar ilegalmente em outros feudos. Os ordenados
continuaram a subir e, entre as décadas de 1340 e 1380, o poder de compra dos
trabalhadores aumentou em cerca de 40%. À medida que a riqueza das classes
subalternas aumentou, o Parlamento adotou novas leis em 1363 para impedir que
consumissem mais, anteriormente acessíveis apenas à elite. Essas leis
suntuárias se mostraram inexequíveis, mas as leis trabalhistas mais amplas
continuaram a ser aplicadas com firmeza
Em
Portugal a crise geral na ordem política amplificava os efeitos de poder que
representavam demográfica e economicamente, mas também historicamente uma crise
de sucessão de 1383-1385. D. Fernando faleceu, deixando como sua única
herdeira, Beatriz, de Portugal, casada com João I de Castela. Se fosse nomeada
para governar Portugal, o reino correria sérios riscos de perder a sua Independência,
numa situação que não agradava a parte da população. Deste modo, as opiniões
dividiram-se: por um lado o povo, a baixa nobreza e a burguesia que apoiavam o
Mestre de Avis, que viria a tornar-se João I de Portugal e a Independência de
Portugal, por outro, parte da nobreza e clero apoiavam Dona Beatriz. Depois de
Mestre de Avis ter assassinado o Conde Andeiro e se ter autoproclamado Rei,
tiveram lugar várias batalhas entre portugueses e castelhanos, sendo os
exércitos portugueses comandados por D. Nuno Álvares Pereira e obtendo
vitórias, como por exemplo, na Batalha dos Atoleiros. Mas só nas Cortes de Coimbra
é que o Mestre de Avis, defendido por D. João das Regras, foi aclamado
publicamente Rei de Portugal, D. João I, tendo assim proclamado o início à
Dinastia de Avis.

A
revolta camponesa de 1381, também chamada Revolta de Wat Tyler ou o Grande
Levante, representou uma grande revolta em grande parte reconhecida da
Inglaterra em 1381. O evento teve várias causas, incluindo tensões
socioeconômicas e políticas geradas pela Peste Negra na década de 1340, os
altos impostos resultantes do conflito com a França durante a chamada Guerra
dos Cem Anos e a instabilidade na liderança local de Londres. O estopim da
revolta foi a intervenção de um oficial real, John Brampton, em Essex, em 30 de
maio. Suas tentativas de cobrar o imposto por cabeça não pago em Brentwood
terminaram em um confronto violento, que se espalhou rapidamente pelo sudeste
do país. Um amplo espectro da sociedade rural, incluindo muitos artesãos e
oficiais de aldeia, levantou-se em protesto, queimando registros judiciais e
abrindo as prisões. Os rebeldes exigiram redução na tributação, o fim no
sistema de trabalho não livre da servidão e a remoção dos altos funcionários e
cortes do rei. Inspirados pelos sermões do clérigo radical John Ball e
liderados por Wat Tyler, um contingente de rebeldes de Kent avançou em Londres. Foram recebidos em Blackheath por representantes da realeza, que sem
sucesso tentaram convencê-los a voltar para casa.
O
rei Ricardo II, então com 14 anos, retirou-se para a segurança da Torre de
Londres, mas a maioria das forças reais estava no exterior ou no norte da
Inglaterra. Em 13 de junho, os insurretos entraram na capital e, unidos por
muitas pessoas da cidade, atacaram as prisões, destruíram o Palácio Savoy,
incendiaram livros de direito e edifícios em Temple e mataram qualquer pessoa
associada ao governo real. No dia seguinte, Ricardo encontrou os rebeldes em
Mile End e aderiu à maioria de suas demandas, incluindo a abolição da servidão.
Enquanto isso, os revoltosos entraram na Torre de Londres, matando o Lorde
Chanceler e o Lorde Tesoureiro, que encontraram lá dentro. Em 15 de junho, o
rei deixou a cidade para encontrar Tyler e os rebeldes em Smithfield. A
violência eclodiu, e o grupo de Ricardo matou o líder. Ele neutralizou a
situação tensa por tempo suficiente para o prefeito de Londres, William
Walworth, reunir uma milícia da cidade e dispersar as forças rebeldes. Ricardo
imediatamente começou a restabelecer a ordem em Londres e rescindiu suas
concessões anteriores aos revoltosos.
A
insurreição também se espalhou para a Anglia Oriental, onde a Universidade de
Cambridge foi atacada e muitas autoridades reais foram mortas. A agitação
continuou até a intervenção de Henrique Despenser, que derrotou um exército
insurreto na Batalha de North Walsham, em 25 ou 26 de junho. Os problemas
estendiam-se para o norte, até Iorque, Beverley e Scarborough e até Oeste de
Bridgwater, em Somerset. O rei mobilizou 4 mil soldados para restaurar a ordem.
A maioria dos líderes rebeldes foram rastreados e executados; até novembro,
pelo menos 1 500 rebeldes foram mortos. A revolta dos camponeses tem sido
amplamente estudada por acadêmicos. Os historiadores do final do século XIX
usaram uma variedade de fontes de cronistas contemporâneos para reunir um
relato do evento, e estas foram complementadas no século XX por pesquisas
usando registros judiciais e arquivos locais. As interpretações da revolta
mudaram ao longo dos anos. Outrora vista como um momento decisivo na história
inglesa, os acadêmicos modernos têm menos certeza de seu impacto na história
social e econômica subsequente. Ela influenciou fortemente o curso da Guerra
dos Cem Anos, impedindo os parlamentos posteriores de aumentar impostos
adicionais para pagar campanhas militares na França. A revolta tem sido
utilizada na literatura socialista, inclusive William Morris, e continua a ser
um símbolo político potente para a esquerda política, baseando os argumentos em
torno da adoção do Imposto Comunitário posterior no Reino Unido durante
os anos 1980.
Trajes
usados no fim do século XIX, canções e poemas relembraram na
Praça do Ferreira, na cidade de Fortaleza, a Padaria Espiritual, resultado dos encontros de jovens
escritores no tradicional Café Java. Parte da programação do Projeto Secult -
Secretaria da Cultura do Estado Itinerante nos Bairros, o sarau literário
reuniu poetas e cantores cearenses, relembrando as “fornadas” de textos
produzidas pelos “padeiros”. De acordo com Selma Santiago (2006), coordenadora
do projeto, o sarau literário celebrou o aniversário da Padaria Espiritual.
No dia 30 de maio de 1892, o movimento surgiu com o objetivo de produzir textos
com humor, crítica e irreverência. Os “padeiros”, acrescenta o professor
universitário Felipe Barroso, se destacaram por antecipar, em 30 anos, a Semana
de Arte Moderna, realizada em 1922, na cidade de São Paulo. - “Eles queriam
romper com a cultura europeia, valorizando a cultura brasileira”. Com suas
características, consolidaram o Realismo e o surgimento do Simbolismo no Ceará.
Nos
jornais produzidos aos domingos pelo movimento, intitulado “O Pão”, era
proibido usar palavras ou citar nomes de animais estrangeiros, o que
demonstrava uma postura radicalmente nacionalista. Segundo o Estatuto da
Padaria Espiritual, o clero, a polícia e os alfaiates eram considerados
inimigos naturais dos “padeiros”. - “Todo cearense é filho da Padaria
Espiritual”, ressalta Selma Santiago. Por isso, durante o sarau literário,
poetas e músicos tiveram a chance de relembrar e divulgar produções literárias
cearenses. “Essa abertura é de fundamental importância e se soma ao movimento
dos Poetas da Praça do Ferreira, fundado há quase 27 anos”, acrescenta o poeta
Marcos Antônio de Abreu. A Padaria Espiritual prosseguiu ativa até dezembro de
1898. Entre os principais sócios, conhecidos como “amassadores”, estavam:
Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, Capistrano de Abreu, Tibúrcio de Freitas,
Álvaro Martins e Temístocles Machado.
Em
torno do governador Manoel Inácio de Sampaio, ocorrido de 1813 a 1817,
reuniam-se poetas que formavam os Oiteiros. A estética em torno desse período
referia-se ao neoclassicismo, ou arcadismo, e entre esses versejadores estavam
Pacheco Espinosa, Costa Barros, Castro e Silva, e outros. Pelo fato de se terem
guardado apenas textos de louvor ao governante, afinal, eram manuscritos que
estavam no Palácio de governo, Silvio Júlio, em Terra e povo do Ceará
(1936), disse “horrores” desses poetas. Mas Dolor Barreira, principalmente em
sua História da literatura cearense (1948), compreendeu que, bem ou mal,
os versos dos Oiteiros “representavam o alvorecer das letras em nossa
Província”. Depois de um período um tanto incaracterístico, no que toca a
estilos literários, veio Juvenal Galeno, em 1856, com os Prelúdios poéticos, o que viria com mais força em seu livro principal, Lendas e Canções Populares (1865), aparecido no mesmo ano em que, no Rio de Janeiro, José de
Alencar publicava Iracema.
O
ultrarromantismo ou bayronismo, teve, na década de 1870, suas vozes maiores com
Joaquim de Sousa, que espalhava seus versos no Jornal da Mocidade (1876), e
Barbosa de Freitas, cujos poemas musicados e cantados em serenatas, sendo
populares por muitos anos. Em 1873, surgiu um grêmio que era mais filosófico do
que literário, batizado por um de seus membros, menos por gracejo, e de fato
pela influência que já se anunciava no processo de formação da intelligentzia,
do russo: интеллигенция, do latim: intelligenstia de “Academia
Francesa”. Erguia a bandeira do positivismo e contava com nomes de peso, como
Rocha Lima, Tomás Pompeu, Capistrano de Abreu, João Lopes e outros. Combatiam o
Romantismo, apesar de um deles, Araripe Junior que haveria de ser um dos
grandes críticos realistas, escrever romances na escola de Alencar, entre
outros, O Ninho do beija-flor (1874). Como não tinham lugar na imprensa
conservadora alguns de seus componentes escreviam no jornal maçom Fraternidade.
Desponta o Cordeirismo
nos versos inflamados dos poetas da Abolição: Antônio Bezerra, Antônio
Martins e Justiniano de Serpa, autores do livro Três Liras (1883). O citado João Lopes funda o Clube Literário
(1886), que congrega românticos, como esses poetas dos quais falamos, e mais
Juvenal Galeno, Virgílio Brígido, Francisca Clotilde, Martinho Rodrigues, José
Carlos Júnior e outros. O Realismo começa a surgir com a revista de grêmio, A Quinzena (1887-1888), nos contos de
Oliveira Paiva, nas narrativas cientifica de Rodolfo Teófilo e nas pregações
críticas de Abel Garcia. Há páginas do historiador Paulino Nogueira e do
filósofo Farias Brito. Depois do romance realista A Afilhada, de Oliveira Paiva, em
folhetins do jornal Libertador, em
1889, o primeiro romance editado em volume dentro da estética naturalista é A Fome (1890), de Rodolfo Teófilo, que
lançará outras obras dentro da mesma corrente, como Os Brilhantes (1895), etc. Antônio Sales, que vinha do Clube
Literário, publica, em 1890, seu primeiro livro de poesia, Versos diversos, misturando “sentimento romântico, construção algo
neoclássica e leves prenúncios parnasianos”. Frequenta o Café Java, na Praça do
Ferreira e com seus amigos, idealiza a mais original de
todas as agremiações culturais do Ceará. É a Padaria Espiritual que brilhou como seda entre os anos 1892-1898.
A Padaria espiritual (1892 - 1898) foi interpretada por seus integrantes como
uma Agremiação de Rapazes e Letras, e foi fundada em 30 de maio de 1892,
nascida em um famoso quiosque da Praça do Ferreira, o Café Java. Antônio Sales,
idealizador e o responsável principal pela originalidade da agremiação, junto a
Lopes Filho, Ulisses Bezerra, Sabino Batista, Álvaro Martins Temístocles
Machado e Tibúrcio de Freitas compunham o grupo dos que frequentavam o Café
Java e dos Fundadores da Agremiação. Tinham por influência grandes nomes da
literatura nacional e mundial. A cada domingo, um jornalzinho de oito páginas
chamado O Pão era “amassado” e fez
circular 36 números, até que em dezembro de 1898, depois de 6 anos de
atividades, a Padaria fecha. Os títulos dos membros desta academia “seguiam o
padrão usado nas padarias reais”, do ponto de vista do processo de trabalho, para
lembrarmo-nos de Marx. O que nos diz o compositor e
instrumentista Beto Guedes, membro do Clube
de Esquina mineiro: - “Sim, todo amor é sagrado/E o fruto do
trabalho/É mais que sagrado/Meu amor/A massa que faz o pão/Vale a luz do teu
suor/Lembra que o sono é sagrado/E alimenta de horizontes/O tempo acordado de
viver” (cf. Amor de Índio, 1978).

No período de funcionamento,
juntamente com o periódico O Pão,
foram feitas significativas publicações para a literatura brasileira, tais
como: Phantos (1893) de Lopes Filho;
Marinhas (1897) de Antônio de
Castro; Flocos (1894) de Sabino Batista; Contos
do Ceará (1894) de Eduardo Saboia; Cromos
(1895) de X. de Castro; Trovas do Norte
(1895), de Antônio Sales; Os Brilhantes
(1895), de Rodolfo Teófilo; Dolentes
(1897), de Lívio Barreto; Maria Rita
(1897) de Rodolfo Teófilo; Perfis
Sertanejos (1897), de José Carvalho. Os Estatutos da Padaria Espiritual, escritos “muitos anos” antes da Semana de Arte Moderna de 22 deixam
claro “o caráter pioneiro deste movimento literário”. Clóvis Bevilácqua colaborou em diversos
jornais e revistas, como por exemplo: Revista Contemporânea, do Recife, Revista
Brasileira, do Rio de Janeiro, e, em O
Pão, publicação do movimento literário Padaria
Espiritual do Ceará. Em 1894, publicou “Frases e Fantasias”, dez escritos
de ficção e reflexões pessoais.
A Padaria Espiritual ipsis litteris representa uma agremiação
literária surgida em Fortaleza no final do século XIX. Na própria denominação,
que associa a imagem da padaria às letras numa época marcada pelo academicismo
da literatura, é possível notar o traço transgressor que dá forma às
manifestações públicas e privadas realizadas pelo grupo. Integram a Padaria o primeiro “padeiro-mor”,
Jovino Guedes (1859 - 1905), Tibúrcio de Freitas (s.d. - 1918), Ulisses Bezerra
(1865 - 1920), Carlos Vítor, José de Moura Cavalcante (1965 - 1928), Raimundo
Teófilo de Moura, Álvaro Martins (1868 - 1906), Lopes Filho (1868 - 1900),
Temístocles Machado (1874 - 1921), Sabino Batista (1868 - 1899), José Maria
Brígido (1870 - s.d.), Henrique Jorge (1872 - 1928), Lívio Barreto (1870 -
1895), Luís Sá (1845 - 1898), Joaquim Vitoriano (s.d. - 1894), Gastão de
Castro, Adolfo Caminha (1867 - 1897), José dos Santos e João Paiva, além do
próprio Antônio Sales, o “primeiro forneiro”. Cada um dos membros assina os textos, publicados no periódico do grupo O Pão, com seu respectivo pseudônimo.
O
livro Padaria Espiritual: biscoito fino
e travoso (2002), de Gleudson Passos Cardoso, publicado em Fortaleza, pelo
Museu do Ceará: Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará descreve o contexto etno-histórico
que fez nascer a Padaria Espiritual,
e o documentário: O Antônio da Padaria
(1999), de Karla Holanda, com duração de apenas 15 minutos, narra aspectos
sociais com depoimentos de Sânzio de Azevedo e Rachel de Queiroz. O grêmio de
intelectuais formado por escritores, pintores, desenhistas e músicos foi
representado por sua heterogeneidade, não só nas diversas artes, mas também na
amplitude das diversas ideias e correntes estéticas em que abraçou. Dela
participaram nomes como: Antônio Sales, fundador e idealizador do programa de
instalação, Adolfo Caminha, Lívio Barreto, Lopes Filho, Raimundo Teófilo de
Moura e muitos outros.
Todos
os sócios, ou melhor, todos os “padeiros” assinavam seus textos com
pseudônimos, assim Antônio Sales era Moacir Jurema, Adolfo Caminha era Félix
Guanabarino, Lívio Barreto era Lucas Bizarro e, ao longo de toda a sua jornada,
foram 34 autores, cada um com um pseudônimo específico. Além de contar com um
divertido e criativo programa de instalação, formado por 48 artigos que
expressavam seu pensamento e objetivos, a Padaria contou com a ativa
participação de Antônio Sales que, com sua veia publicitária enviou o programa
de instalação para os mais renomados escritores do eixo Rio-São Paulo da época,
sempre pedindo a eles adesão na colaboração do periódico O Pão, uma espécie de jornal que era “impresso”, ou melhor,
“amassado” semanalmente pela Padaria. Ipso
facto, “esta atitude de Sales deu certa notoriedade ao movimento em todo o
país, fazendo do Ceará uma referência literária nacional”.
Isto
posto, esses sujeitos irônicos e irreverentes, os participantes possuíam em
seus títulos a nomenclatura hierárquica das padarias reais: o padeiro-mor
(presidente), os forneiros (secretários), “o” gaveta (tesoureiro), os padeiros
(sócios) e o forno (sede oficial da Padaria). Também traziam no peito o lema: “alimentar
com pão e espírito todos os sócios e a população em geral”. Toda a ironia e
irreverência da Padaria se
justificavam por seu objetivo primordial: “criticar a sociedade burguesa e as
instituições que mantinham seu poderio ideológico, uma vez que os padeiros
eram, em sua maioria, oriundos das camadas média e baixa da população e se
mostravam descontentes com a classe burguesa, dentre outras coisas, por seu
exacerbado apreço pela cultura europeia”.
Em um dos itens de seu programa de
instalação declaram seu desprezo pelos estrangeirismos presentes nas nossas
obras literárias, permitindo apenas os neologismos do Dr. Castro Lopes, médico
e gramático que inventava palavras exóticas como “runimol” para substituir os
francesismos da língua como “avalanche”, por exemplo. Esse forte caráter
nacionalista também se reflete na proibição do uso de termos referentes à fauna
e à flora estrangeiras em nossa Literatura. Tal característica repercutiu no
fato de muitos historiadores e críticos literários enxergarem na Padaria Espiritual uma espécie de
prenúncio do Modernismo, que trouxe esta como uma de suas principais
preocupações, quase trinta anos mais tarde, na Semana de Arte Moderna, em 1922. No entanto, o Modernismo só se
consolidou em terras cearenses na década
de 40 com o grupo Clã.
Saudosistas, os padeiros procuravam
resgatar a Fortaleza de aspectos naturais e simplórios de outrora. Estavam
cansados das repetições excessivas e dos clichês literários, como a Rosa de Malherbe, por exemplo. Além de
proibir o uso de qualquer referência a este poema, também proibiam os outros
padeiros de escreverem nas folhas perfumadas dos álbuns femininos, uma
característica considerada essencialmente burguesa nas mulheres da época.
Também fizeram violentas críticas à construção de um enorme cassino no Passeio
Público, que fora comparado a um meteoro caído na Bahia e alcunhado de
“monstrengo” pelos padeiros. Agraciada por seu humor e identidade próprios, a Padaria existiu durante 6 anos,
passando por duas fases: a primeira, de 1892 a 1894, considerada a fase da
pilhéria, do humor escrachado; a segunda, de 1894 a 1896, apesar de mais séria e compenetrada, não fugiu completamente ao
seu humor característico. Sérios ou bem-humorados, os padeiros não perderam, em
nenhum momento, a sua ousadia e nem por isso deixaram de fazer poesia, se não
for um truísmo.

Apesar de aparentemente inferiorizados
quando mal comparados aos intelectuais da Academia Francesa, não foram menos
talentosos ou menos expressivos. Os padeiros de Antônio Sales, que iniciaram
sua agremiação com pequenas reuniões no instinto Café Java da Avenida Ferreira, hoje Praça do Ferreira, juntos,
durante seis anos, representaram “o que houve de mais criativo, inovador e
significativo para a cultura cearense”. Boêmios, os “padeiros” não se limitam
às reuniões e à redação de suas atas, divulgam também o grupo por meio de
performances em áreas públicas, como piqueniques ou conferências. Além disso,
nos textos publicados n`O Pão, os
“padeiros” tratam de assuntos diversos da vida literária do Ceará e do Brasil,
além de publicarem seus próprios textos, quase sempre marcados pela blague. A
orientação geral do que é impresso é de posicionamento
contrário à burguesia ascendente ao beletrismo galicista, mais voltados para a valorização do ideário nacional.
Os membros do grupo são, em sua maioria,
jovens marginais que não participam da elite cearense, daí sua ênfase no
combate à burguesia e na valorização do trabalho a partir do recurso à metáfora
marxista da linha de produção do pão, alimento para o espírito. O Pão, com a colaboração dos 20 membros
pioneiros da Padaria tem, num primeiro momento, seis números editados - o
primeiro em 10 de julho de 1892 e o último em cinco de dezembro do mesmo ano. A
partir de então, o jornal A República
se transforma no principal veículo da produção literária e crítica dos
“padeiros”. Chama a atenção, na produção da Padaria, a heterogeneidade dos textos divulgados através dos membros, marcados, na
poesia, tanto pelo Simbolismo quanto pelo Parnasianismo, ambos de inspiração nitidamente portuguesa, diferentemente da influência francesa dessas escolas ocorridas ao sul-sudeste do país.
Na prosa convivem um romantismo tardio, o realismo e o naturalismo, por vezes orientados
para um certo regionalismo.

Em 1894, a Padaria é reorganizada por
Antônio Sales, e formalizada no texto Retrospecto, onde o autor avalia toda a
produção do grupo até ali e inaugura uma segunda fase com a expulsão de alguns
membros, que fundam o Centro Literário. Temístocles Machado, Tibúrcio de
Freitas e Álvaro Martins, são excluídos do grupo por traição à Padaria,
criticando-a duramente no Rio de Janeiro, motivo pelo qual mais adiante são
ainda expulsos Adolfo Caminha e o recém-ingresso Eduardo Saboia. Na segunda
fase são admitidos dez membros, entre os quais, Antônio de Castro (1872 -
1935), Rodolfo Teófilo (1853 - 1932) e José Nava (1876 - 1911). Tanto as
atividades do grupo quanto O Pão
tomam uma feição ligeiramente mais séria, mas ainda calcada no espírito de
pilhéria, a partir da reorientação e da publicação do Retrospecto. O grupo e alguns de seus membros têm sua produção
reconhecida em outras capitais, provocando admiração e repúdio, este,
naturalmente, por sua posição anárquica, que, se não chega a ser abandonada, é
suavizada. O Pão volta a ser
publicado em janeiro de 1895 e chega ao fim no número 36, em 31 de outubro de
1896. O grupo se encerra em dezembro de 1898.
Enfim, uma sociedade literária, com um caráter formal de “academia mirim”, burguesa e
retórica e quase burocrática, era cousa para qual eu sentia uma negação
absoluta. Com estas palavras, Antônio Sales (1868 - 1940), idealizador da
Padaria Espiritual (1892–1898), se pronunciou a respeito das intenções daquela
agremiação literária em seu livro de memórias Retratos e Lembranças (1938). Afinal, Padaria Espiritual foi mesmo
diferente das demais sociedades, grêmios e clubes formados por intelectuais no
final do século XIX? Como este grupo se posicionou frente à cena intelectual
brasileira, marcada pelo engajamento dos homens de letras na construção da
República recém-implantada? Ela foi contemporânea de outras associações
cearenses de caráter literário, filosófico e científico, entre elas, o
Instituto do Ceará (1887), o Centro Literário (1894-1900) e a Academia Cearense
(1894). Assim como em outras capitais brasileiras, em Fortaleza no final do
século XIX os intelectuais voltaram suas reflexões para temas da vida nacional
e local, entre eles, a abolição da escravatura e a implantação da República. A
imagem de progresso com as melhorias urbanas (bondes, pavimentação das ruas,
iluminação pública etc.) contrastava com a imagem dramatizada da seca no
imaginário individual e coletivo e seus impactos sociais: mendicância, saques,
epidemias.
Diferentes de outros intelectuais do
período com olhos voltados para o modelo de civilização nos moldes europeus em torno da questão da moda, literatura diletante, industrialismo etc., os integrantes da Padaria Espiritual elegeram outras
prioridades. Ao longo dos anos em que circulou seu jornal O Pão (1892-1896) foi destacado a defesa dos folguedos,
brincadeiras, cantigas de rodas, festas típicas, costumes e modos de vida
relacionados às camadas populares, como se observou nas colunas de Adolfo
Caminha (Sabbatina), Xavier de
Castro (Chromos) entre outros
escritos de seus sócios. - “E o bumba meu boi? E os congos? E os fandangos? E
todas essas festas tradicionais que o povo se incumbia de criar para o gaudio
dos rapazes alegres?... Tudo vai desaparecendo com o patriotismo nacional. O
Natal, como o S. João e como todas as festas de caráter popular - vai
degenerando em festa aristocrática” (cf. O
Pão, 24/12/1892: 3). Para eles, nem tudo foi belle époque, nem todos intelectuais foram contagiados pelo frisson
das modas europeias ou pelo engajamento de muitos homens de letras
no início da República das oligarquias, que viram no comportamento despojado
dos populares uma expressão da “barbárie” e do “atraso nacional”, como vemos
nas cenas contemporâneas, contrariando Simone de Beauvoir que compreende que na
vida ... “viver é envelhecer, nada mais”.
Bibliografia
geral consultada.
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2015; entre outros.
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).