Portrait - Solidão, Pragmatismo & Ironia em Oscar Wilde.
Ubiracy de Souza Braga*
As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos. Oscar Wilde
O que leva um estudioso
de filosofia do neopragmatismo de Richard Rorty negar a identidade do
filósofo quando insinua um tipo de propriedade sobre sua imagem como vemos
agora?Richard Rorty foi aluno da
Universidade de Chicago muito cedo, apenas com 15 anos de idade e da
Universidade de Yale, onde fez os estudos de doutoramento. Na política, era liberal no
sentido norte-americano do termo, comprometido com a esquerda e defensor da
democracia. A teoria neopragmática de Rorty representa um termo filosófico
recente, existente da década de 1960, sendo utilizado para denominar a
filosofia que reintroduziu muitos dos conceitos do pragmatismo, sobre a verdade
como objetivo de desvencilhar-se das influências dos dualismos metafísicos
típicos; as distinções entre essência e acidente, aparência e realidade, sendo
tal posição denominada de antiessencialista. Grande parte do que Rorty descreve
em seus textos sobre a verdade desenvolve-se através de um diálogo com Donald
Davidson e sua teoria semântica da verdade. Ambos concordam que a noção de
verdade não pode ter uma correspondência, como representação, mas discordam
em pontos quanto à solução que procuram encaminhar.
Enquanto que para Davidson, os conceitos podem ser verdadeiros e utilmente
descrever uma realidade objetiva, para Rorty a verdade não deve ser um objetivo
da reflexão filosófica. O objetivo é procurar evidências para nossas crenças
ocidentais, e que não há nada mais que possamos fazer para firmar convicções.
Na verdade, como observou com razão
Pogrebinschi (2006), o próprio Rorty se intitulou como um neopragmatista,
constituindo o ponto de partida da reflexão filosófica para que diversos
autores. Mas não apenas adstritos ao campo da filosofia, também o fizessem,
dando início nas últimas duas décadas, a uma extensa produção acadêmica que
pode ser com propriedade chamada de neopragmatista. Em primeiro lugar, o
pragmatismo originalmente demonstra ser claramente uma filosofia compatível com
o realismo, enquanto o neopragmatismo rortyano é eminentemente antirrealista.
Em segundo lugar, para o pragmatismo clássico a experiência é um conceito que
ultrapassa a esfera de análise meramente da linguagem, podendo até mesmo
atingir em seu ersatz formas pré-linguísticas ou não-linguísticas, ao passo que
Richard Rorty, ao se engajar na virada linguística, de fato opera a
substituição de um conceito pelo outro, fazendo a linguagem ocupar no
neopragmatismo a posição que a experiência dantes ocupava no pragmatismo. A
começar por essas duas diferenças basilares, permanece a questão analítica de
saber quão pragmatista é o neopragmatismo rortyano. Em outras palavras: pode-se
falar em univocidade ou linearidade entre os pensamentos de Charles Peirce,
William James e John Dewey, de um lado, e o de Rorty, de outro? Ou ainda:
permanece a questão se é possível falar em continuidade entre os elementos que
caracterizam o pragmatismo em sua origem que são constituídos pelo
antifundacionalismo, o consequencialismo e o contextualismo e o pensamento
neopragmatista?
O pragmatismo que em diferentes
variantes apresenta-se como uma forma de filosofia capaz de enfrentar os
desafios próprios de nosso tempo, certamente, pode ser compreendido do ponto de
vista de suas raízes, como sendo devedor, de um lado, ao pragmatismo clássico
dos pensadores norte-americanos Peirce, Dewey, James, Schiller, por outro lado,
às filosofias que emergiram da reviravolta pragmática do Wittgenstein das
“Investigações Filosóficas”. O pragmatismo norte-americano, que segundo J-P
Cometti, “é a filosofia mais solidamente enraizada na cultura americana”,
desenvolveu-se em torno de uma filosofia do conhecimento, mas, desde o
princípio, se afastou de concepções que tendem a privilegiar a busca de um
fundamento no absoluto ou a de um modelo da razão, que determina a priori as
possibilidades de busca e de descoberta. Pode-se dizer que o pensamento central
da metafísica, é que o conhecimento humano não se limita ao conhecimento da
experiência, mas que é possível chegar a um conhecimento objetivo do mundo
através dos conceitos. Fundamento da verdade não é, então, o mundo “material
empírico”, mas o “mundo do pensamento”, que apreende a estrutura inteligível do
real de análise. O espírito humano é compreendido como coextensivo ao mundo em
que as leis da lógica exprimem as leis que estruturam a realidade. Rorty
interpreta esta postura do pensamento clássico como sendo a pretensão de
captar, pela mediação do conceito, a forma e o movimento da natureza e da
história o que, em última instância, desembocou na ideia de que humano é capaz
de descobrir como reparar a injustiça da história humana.
Há cerca de duzentos
anos, a ideia de que a verdade era produzida, e não descoberta começou a tomar
conta do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os
símbolos) europeu. O precedente estabelecido pelos românticos conferiu a seu pleito
uma plausibilidade inicial. O papel efetivo de romances, poemas, peças
teatrais, quadros, estátuas e prédios no movimento social dos últimos 150 anos
deu-lhe uma plausibilidade ainda maior, obtendo legitimidade, já que “as ideias
adquirem força na história”. Alguns filósofos inclinaram-se ao iluminismo e
continuaram a se identificar com a ciência. Eles veem a antiga luta entre a
ciência e a religião, a razão e a irracionalidade, como um processo em
andamento que assumiu a forma de luta entre a razão e todas as mediações
intraculturais que pensam na verdade constituída e não encontrada. Esses
filósofos consideram que a ciência é a atividade paradigmática e insistem que a
ciência natural descobre a verdade, ao invés de cria-la. Encaram a expressão
“criar a verdade” como meramente metafórica e totalmente enganosa. Pensam na
política e na arte como esferas em que a ideia de “verdade” fica deslocada.
Outros filósofos, percebendo que o mundo descrito pelas ciências físicas não
ensina nenhuma lição moral e não oferece conforto espiritual, concluíram que a
ciência não passa de uma serva da tecnologia. Esses filósofos alinham-se com o
utopista político e com o artista inovador. Os primeiros contrastam a
“realidade científica concreta” com o “subjetivo” ou o “metafórico”, os
segundos veem a ciência como mais uma das atividades humanas, e não como o
lugar em que os seres humanos deparam com uma realidade não humana “concreta”.
De acordo com essa visão, os grandes cientistas inventam descrições do mundo
que são úteis para o objetivo de prever e controlar o que acontece, assim como
os poetas e os pensadores políticos inventam outras descrições do mundo para
outros fins. Não há sentido algum, porém, em que qualquer dessas descrições
seja uma representação exata de como é o mundo em si. Esses filósofos
consideram inútil a própria ideia dessa representação, consignando uma verdade
de categoria fenomênica, como uma descrição do espírito ainda não plenamente
cônscio de sua natureza espiritual (dialética) e, elevar ao tipo de
verdade oferecida pelo poeta e pelo revolucionário político. O idealismo alemão,
porém, representou uma solução de compromisso pouco duradoura e insatisfatória.
É que Immanuel Kant e Georg Hegel fizeram apenas concessões parciais em seu
repúdio à ideia de que a verdade está “dada”. Dispusera-se a ver o mundo da ciência
empírica como um mundo “fabricado” – a ver a matéria como algo construído pela
mente, ou como feita de uma mente insuficientemente cônscia de seu próprio
caráter mental -, mas persistiram em ver a mente, o espírito, as profundezas do
eu como dotados de uma natureza intrínseca – uma natureza que se poderia
conhecer por uma espécie de superciência não empírica, chamada de filosofia.
Isso significava que apenas metade da verdade – a metade científica inferior –
era produzida. A verdade superior, a verdade sobre a mente, seara da filosofia,
ainda era uma questão de descoberta, não de criação. Richard Rorty precisa sua
tese de distinção entre a afirmação de que o mundo está dado e a de que a
verdade dada, equivale a dizer, com bom senso, que a maioria das coisas no
espaço e no tempo, é efeito de causas que não incluem os estados mentais
humanos. Dizer que a verdade não está dada é dizer que, onde não há frases, não
há verdade. E que as frases são componentes das línguas humanas, e que as
línguas humanas são criações humanas. Só as descrições de um autor/pensador etnograficamene falando podem ser “verdadeiras”
ou “falsas” - sem o auxílio das atividades descritivas dos seres humanos - não
pode sê-lo.
Em filosofia e lógica,
a contingência enquanto representação da realidade é o modo de ser daquilo que
não é necessário nem impossível. É bem
verdade que a liberdade no pensamento tem somente o puro pensamento por sua
verdade; e verdade sem a implementação da vida. Por isso, para lembrarmos de
Hegel, é ainda só o conceito da liberdade, não a própria liberdade viva. Com
efeito, para ela a essência é só o pensar em geral, a forma coo tal, que
afastando-se da independência das coisas retornou a si mesma. Mas porque a
individualidade, como individualidade atuante, deveria representar-se como
viva; ou, como individualidade pensante, captar o mundo vivo como um “sistema
de pensamento”; teria de encontrar-se no pensamento mesmo, para aquela expansão
do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do agir, um conteúdo do
que é bom, e para essa expansão do pensamento, um conteúdo do que é verdadeiro.
Com isso não haveria, absolutamente nenhum outro ingrediente, naquilo que é
para a consciência, a não ser o conceito que é a essência.
O conceito enquanto
abstração, separando-se da multiplicidade variada das coisas, não tem conteúdo
nenhum em si mesmo, exceto um conteúdo que lhe é dado. A consciência, quando
pensa o conteúdo, o destrói como alheio; mas o conceito é determinado e assim essa determinidade é o alheio que o conceito possui
nele. Oscar
Fingal O`Flahertie Wills Wilde nasceu em Dublin em 16 de outubro de 1854. Foi
um influente escritor, poeta e dramaturgo britânico de origem irlandesa. Depois
de escrever de diferentes formas ao longo da década de 1880, ele se tornou um
dos dramaturgos mais populares de Londres, em 1890. Em 1892, começa uma série
de bem sucedidas histórias, hoje clássicos da dramaturgia britânica: “O leque
de Lady Windermere” (1892), “Uma Mulher sem Importância” (1893), “Um Marido
Ideal” e “A importância de ser Prudente” (1895). Nesta última, o arquétipo
cômico começa pelo título ambíguo: “Earnest”, fervoroso em inglês, tem o mesmo
som do nome próprio Ernest. É lembrado de mil formas e jeitos, na
literatura, na arte, no teatro, no cinema, mas também por suas
epigramas e peças. Termina sua vida como indigente em Paris. Sobretudo pelas circunstâncias sociais e morais de sua prisão,
posto que morresse de um ataque de meningite, agravado pelo uso de álcool
e contração de sífilis, às 9h50 do dia 30 de novembro de 1900. Oscar Wilde passou o resto de seus dias sob o pseudônimo de Sebastián Melmoth. Foi pelas mãos de sacerdote irlandês da Igreja de São José, que se converteu ao cristianismo.
Em
seu único romance, “O Retrato de Dorian Gray”, considerado por estudiosos como
a obra-prima da literatura inglesa, Oscar Wilde trata da arte, da vaidade e das
manipulações humanas. No entanto, no seu apogeu literário, começaram a surgir
os problemas pessoais. O que antes eram boatos quanto a uma suposta “vida
irregular”, passou a se concretizar, dando início à decadência pessoal do
escritor. Apareceram rumores sobre sua homossexualidade, severamente condenada
por lei na Inglaterra, que não puderam mais ser negados. Oscar se envolveu com
Lord Alfred Douglas (ou Bosie), filho do Marquês de Queensberry, que sabendo do
relacionamento, enviou uma carta a Oscar Wilde, no Albermale Club, onde o
ofendia e recriminava já no sobrescrito: “A Oscar Wilde, conhecido Sodomita”. Em
várias novelas, como: “O Fantasma de Canterville”, o qual critica o
patriotismo da sociedadeque se prende com os deveres morais para com a
comunidade política. Em seus contos
infantis preocupou-se em deixar lições de moral através do uso de linguagem
simples: “O Filho da Estrela” é exemplo disso. No teatro, escreveu nove dramas encenados
continuamente até os dias de hoje. Destacara-se como poeta com “Rosa Mystica”, “Flores de Ouro” (cf. Fritsch, 2008) que são
alguns trabalhos conhecidos na literatura com frases marcadas pela ironia,
sarcasmo e cinismo.
Apesar de algumas críticas contrárias ao seu primeiro
livro de versos, resolveu escrever sua segunda peça, que se chamaria “A Duquesa
de Pádua”. Nessa mesma época, Wilde é convidado para dar uma série de
conferências sobre estética nos Estados Unidos. A chegada de Wilde na América
do Norte representou “um acontecimento de reconhecimento cultural”. Jornalistas
envolvidos em temas culturais chegaram de todos os cantos do país para
prestigiar as apresentações daquele que era apresentado como “um jovem poeta
expoente da cultura estética europeia”. Fonte da qual os norte-americanos, comparativamente que
importavam erudição do velho mundo, estavam ansiosos para beber. Assim, as
conferências não puderam deixar de ser um sucesso de público. Ainda que tenham
recebido alguns comentários contrários principalmente da imprensa europeia. Durante sua
estada nos Estados Unidos da América Wilde conheceu o poeta Walt Whitman.Em 1882, foi convidado para ir aos Estados Unidos para
falar sobre o seu recém-criado Movimento
Estético, com as ideias de renovação moral.
Defendia o belo como única
solução contra tudo o que considerava maléfico à sociedade. Esse movimento
visava transformar o tradicionalismo na época vitoriana, dando um tom de
vanguarda às artes. O dinheiro obtido nessas viagens, que cortaram de
ponta a ponta, foi a primeira grande renda de Wilde advinda de seu próprio trabalho
artístico. Mas, como aconteceria sempre em sua vida, analogamente como ocorre
com Vinícius de Moraes, no caso brasileiro, o escritor não demorou a utilizar o
dinheiro em artigos de luxo e outras excentricidades. Após a viagem para os
EUA, passa um tempo em Paris caminhando pelos círculos literários da cidade
luz, onde acabara de escrever “A Duquesa de Pádua”, em seguida retornar a
Londres. A viagem para a França enfraquece aparentemente a influência sobre o
movimento estético que Wilde encabeçava. Mas, em contrapartida, estreita suas
relações com os grandes nomes da literatura francesa quando inscreve na
literatura uma das peças mais conhecidas de Oscar Wilde, “Salomé”, escrita no
ano de 1891, quando o escritor passou uma temporada em Paris. De acordo com
Robert Ross, o tema para a peça já martelava a cabeça de Wilde desde, pelo
menos, sua visita a uma exposição do pintor francês Gustave Moreau voltado para
o mesmo assunto. Inspirada em uma história presente em passagens bíblicas (cf. Mateus 14: 3-11 e Marcos 6: 21-28), e escrita originariamente em francês, a peça narra, em um único ato, com os requintes típicos da elaboração estética de Wilde, a história de uma festa celebrada no palácio do tetrarca Herodes Antipas.
Nesta festa, Salomé se revela apaixonada pelo profeta
Iokanaan, mais conhecido como São João Batista, que estava preso no palácio por
ter denunciado publicamente o casamento incestuoso entre Herodes e Herodíade, a
qual fora casada com o irmão do tetrarca, bem como a corrupção reinante no
governo. A inflexão na peça é grande: há sinais, no sentido que Carlo Ginzburg
emprega, de que algo ruim ocorrerá, os quais se manifestam todo o tempo através
de falas dos personagens principais ou secundários, como alguns guardas. Um
aspecto curioso é a forma como os judeus são representados: como confusos com
relação à própria religião, discutindo se os anjos existem ou não, se os
milagres do Salvador são verdadeiros ou não, etc. Uma passagem dessa
característica é do personagem “Quinto judeu” que forma: - “Pode ser
que aquilo que chamamos de mal seja o bem, e o que chamamos de bem seja o mal.
Não se sabe nada de nada”.
Do ponto de vista teórico-metodológico Carlo Ginzburg tem um
percurso de pesquisa dos mais originais e criativos, que extravasa o quadro da historiografia
italiana e mesmo da historiografia
europeia. A sua obra, com efeito, introduziu diversas rupturas nas maneiras de
pensar em História, mobilizou metodologias e instrumentos de conhecimento
oriundos de outras áreas de saber, estabeleceu novas zonas de dialogo com as
restantes ciências humanas e sociais, nomeadamente com a antropologia e a
filosofia. Enfim, trata-se aqui de uma intervenção ativa, que procura inverter
as relações tradicionais de subordinação da História no que diz respeito à
produção dos meios de conhecimento, centrada numa forte preparação filológica,
caracterizada pela atenção ao detalhe, ao estudo de caso, a análise do processo
significativo, com a valorização dos fenômenos aparentemente marginais, como os
ritos de fertilidade, ou dos casos obscuros cuja verdadeira dimensão cultural e
social vem sendo valorizada.
Mas o que pode representar para Freud, como diz-nos C.
Ginzburg, leitor d “il giovane Freud”, “ancora lontaníssimo dalla psicoanalisi
- la lettura dei saggi di Morelli?”.
Enfim, o que há de importante nesses aspectos, resumidamente, é que
Ginzburg articula mais precisamente três aspectos: “sintomi (nel caso di Freud)
indizi (nel caso di Sherlock Holmes) segni picttorici (nel caso di Morelli)”.
Vejamos a seguir como se articula o “método indiciário”: “la proposta di un
metodo interpretativo imperniato sugli scarti, sui dati marginali, considerati
come rivelatori. In tal modo, particolari considerati di solito senza
importanza, o addirittura tri viali, ´bassi`, fornivano la chiave per accedere
ai prodotti piú elevati dello spirito umano: ´i miei avversari` scriveva
ironicamente Morelli (un`ironia fatta apposta per piacere a Freud) ´si
compiacciono di qualificarmi per uno il quale non sa vedere il senso spirituale di un`opera
d´arte e per questo dà una particolare importanza a mezzi esteriori, quali le
forme della mano, dell`orecchio, e persino, horrible dictu, di cosí antipatico
oggetto qual è quello delle unghie`. Anche Morelli avrebbe potuto far proprio il
moto virgiliano caro a Freud (...) in quel periodo non eccezionale, a
un`attività inconscia, colpisce
l`identificazione del nucleo intimo dell`individualità artistica con gli
elementi sottrati al controllo della coscienza” (cf. Ginzburg, 1986: 164-165).
Durante seu acidentado julgamento em 1895, Wilde negou
sistematicamente sua vida dita homossexual. Mas a partir do momento em que foi
acuado com provas irrefutáveis, tomou a defesa do amor que praticava. Ao ser
inquirido pela promotoria, Wilde respondeu com um dos textos mais corajosos e
contundentes em defesa do amor: - “Esse amor é a grande afeição de um homem
mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas,
o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos
sonetos de Miguel Ângelo e Shakespeare”. Tal amor é tão mal compreendido neste
século que se admite descrevê-lo como o “amor que não ousa dizer seu nome”. O
mundo ocidental não compreende que este amor seja assim. – “Zomba dele e às
vezes, por causa dele, coloca alguém no pelourinho”. Não há registros de que Oscar Wilde tenha se
manifestado explicitamente contra a opressão sofrida pelo então chamado
“terceiro sexo”. Mas ele ousou tematizá-lo em sua obra, frequentemente acusada
de pervertida – como foi o caso de “O retrato de Dorian Gray”. É
esse seu discurso no tribunal que permanece como uma eloquente afirmação do
direito de amar contra a corrente conservadora da sociedade. A ética ou a filosofia moral se tornam uma luz que permite discernir entre aquilo que é certo ou não do ponto de vista ético.
É um dos valores que não se encontra inserido no contexto de uma religião específica, mas no contexto da lei natural que rege aquilo que é conveniente para o ser humano de acordo com sua dignidade e natureza. A moral tem sua base na liberdade do ser humano através da qual uma pessoa pode realizar boas ações, mas que também tem a liberdade de praticar atitudes injustas. A reflexão moral ajuda o ser humano a tomar consciência de sua própria responsabilidade no trabalho de crescer como pessoa, tendo sempre claro o princípio da verdade e do bem. A filosofia como reflexão moral é muito importante, uma vez que a retidão no trabalho ajuda o ser humano a melhorar como pessoa e a alcançar uma vida boa. A filosofia moral mostra a responsabilidade humana em trazer esperança à sociedade que vive, uma vez que através de ações individuais exerce influência no bem comum. Esta filosofia moral toma como fundamental os princípios da conduta humana. Estas normas éticas dignificam a pessoa através de valores como mostra a superação pessoal, o amor próprio, o respeito ao próximo, o princípio do dever e a busca pela felicidade. Um princípio moral essencial é lembrar que o fim nem sempre justifica os meios. Após o julgamento, Oscar Wilde foi condenado a dois
anos de trabalhos forçados na prisão de Reading, por prática de “indecência
grave”. A acusação se baseava numa emenda ao Código Penal que “visava a
proteger moças de ataques sexuais e prostituição”. Mas, a Lei acaba tendo
orientação para outra direção, por causa dos seus termos vagos, a emenda acabou
abrangendo “atos indecentes” em geral, nos quais se incluíam de modo
privilegiado as relações entre pessoas do mesmo sexo, ainda que adultas e
consensuais. Cumprida a pena e libertado em maio de 1897, Oscar Wilde partiu
diretamente para o exílio em Paris, falido, solitário e fisicamente destroçado.
Aí viveu ajudado por amigos, morando em hotéis baratos, até sua morte em 30 de
novembro de 1900, aos 46 anos. Foi inicialmente enterrado como indigente. Ainda
durante o julgamento, ocorre mais um desastre em sua vida, pois a sua família contraditoriamente abandonara a Inglaterra, com destino à Suíça,
onde seus filhos tiveram o sobrenome Wilde substituído por Holland, para fugir
da desonra moral. Na política o que faz andar são relíquias de sentido e muitas vezes seus detritos, os restos invertidos de grandes ambições. Nome que no sentido da memória deixaram de ser próprios. Núcleos simbolizadores se esboçam e talvez se fundem três funcionamentos distintos (mas conjugados) das relações jurídicos-políticas entre práticas espaciais e significantes, a asber: o crível, o memorável e o primitivo.
Lembramos que, de acordo com o psicanalista Jurandir
Freire Costa no ensaio: “A Inocência e o Vício: Estudos sobre o Homoerotismo”
(1992; 195): - “O termo homossexualismo nos vemos implicados no constructo
histórico-político-econômico-libidinal burguês do século XIX, o qual
caracteriza a humanidade como dividida em hetero e homossexuais, correlativa à
normal/patológico, que transforma as vivências da experiência sexual desses
sujeitos em desvio de personalidade. Remete à construção histórica a figura
imaginária do homossexual como uma modalidade do humano (ou desumano) com
perfil psicológico único. Falar de homossexualidade é falar de uma personagem
imaginária que teve historicamente a função de ser antinorma do ideal de masculinidade
burguês”. Quando Oscar Wilde irrompeu na cena intelectual e mundana da Londres
dos anos 1880, o amor entre pessoas do mesmo sexo gerava uma vaga consciência
social. Sua existência era mais conhecida por termos eufemísticos como
“sodomia”, “pecado nefando”, “uranismo” ou “pederastia”. De volta à capital
inglesa, Wilde casa-se com Constance Lloyd, herdeira de um advogado dublinense.
O casamento agitado devido às aventuras de Wilde passaria
companhia de outros homens, mas impediu que a hipocrisia da
conservadora sociedade inglesa falasse abertamente desse aspecto da vida do
escritor. Tiveram dois filhos, Cyril e Vyvyan, e viveram juntos por muitos
anos. Embora Wilde tenha de certa forma, abandonado Constance antes que ela se
decidisse pela separação com o divórcio. Concordamos com João Silvério Trevisan quando afirma que: a) Mas há motivos para crer que a condenação de Wilde repercutiu também como uma espécie de gota d´água entre redutos mais politicamente conscientes da necessidade de libertar o amor de preconceitos culturais e religiosos; b) Nesse contexto, está longe de parecer mera coincidência que em 1897, mesmo ano em que Wilde terminou de cumprir sua pena, um médico alemão chamado Magnus Hirschfeld criou em Berlim a primeira organização de luta pelos direitos homossexuais de que se tem notícia. A partir de 1919, o grupo passou a se chamar Comitê Humanitário e Científico, acoplado ao Instituto de Ciência Sexual, que se dedicava a estudos de homossexualismo e travestismo; c) O Comitê produziu filmes sobre a questão homossexual, o mais famoso deles é Anders als die andern, de 1919, do qual sobraram apenas resquícios? O entusiasmo era tal que em toda a Alemanha chegaram a existir 25 sucursais do Comitê Humanitário. Enfim, as campanhas pela reforma sexual promovidas pelo Comitê alemão obtiveram ampla repercussão, recebendo apoio de gente famosa como Thomas Mann, Lou Andreas Salomé, Herman Hesse e Rainer Maria Rilke, entre outras 6.000 assinaturas. Suas atividades se espalharam pela Inglaterra, Áustria, Holanda, Itália e Tchecoslováquia, onde se organizaram outros grupos liberacionistas. Essa foi uma contribuição imensurável para a eclosão do moderno movimento social, tal como ocorrida na cidade de Nova York, em 28 de junho de 1969. Multidões de homossexuais reagiram contra a violência policial, queimando carros e gritando palavras-de-ordem, num ato sem precedentes, como Rebelião de Stonewall. Por detrás dela paira, ironicamente, a imagem prima de Oscar Wilde.
Bibliografia geral consultada.
ELLMANN, Richard, Oscar Wilde. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1988; COSTA, Jurandir
Freire, A Inocência e o Vício: Estudos
Sobre o Homoerotismo.2ª edição. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992; RORTY, Richard, Consequências do Pragmatismo. Lisboa: Editor Rolos e Filhos, 1982; Idem, A Filosofia e o Espelho da Natureza. Rio de Janeiro: Editora Relume-Dumará, 1994; Idem, Objetivismo, Relativismo e Verdade. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997; Idem, Contingência, Ironia e Solidariedade. São Paulo: Editora Martins Editora, 2007; FRITSCH, Ana Júlia, A
Ironia: Processos Discursivos e Visão de Mundo em O Retrato de DorianGray.
Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Mestrado em Leitura e Cognição. Rio Grande do Sul: Universidade de Santa Cruz do Sul, 2008; ALAVARCE,Camila da Silva, A Ironia e suas Refrações: Um Estudo da Dissonância na paródia e no Riso. São Paulo: Editora Cultura Acadêmica, 2009; WILDE, Oscar, O Retrato de Dorian Gray.Porto Alegre:
L&PM Editores, 2007; Idem, Salomé. Lisboa:
Editor Assírio & Alvim, 2011; Idem, A
Importância de ser Prudente. Porto Alegre: L&PM Editores, 2014; TENÓRIO, Patrícia Gonçalves, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: Um Romance Indicial, Agostiniano e Prefigural. Dissertação de Mestrado. Centro de Artes e Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2015; RUFFINI, Mirian, A Tradução da Obra de Oscar Wilde para o Português Brasileiro: Paratexto e O Retrato de Dorian Gray. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos de Tradução. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2015; FRITSCH, Ana Julia, A Ironia: Processos Discursivos e Visão de Mundo em O Retrato de Dorian Gray. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Santa Cruz do Sul: Universidade de Santa Cruz do Sul, 2015; ALMEIDA, Márcia Araújo, “Deixa a vida me levar”... .Um Jeito Brasileiro de Lidar com a Incerteza: Uma Descrição de Aspectos da Cultura e do Comportamento dos Brasileiros como Contribuição para a Área de Português para Estrangeiros. Tese de Doutorado. Programa de Pòs-Graduação em Estudos da Linguagem. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2015; ZOPPEI, Emerson, A Educação não Escolar no Brasil. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; entre outros.
_________________
* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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