“Vou da extrema generosidade ao mais
absoluto egoísmo”. Cacilda Becker
Nascida Cacilda Becker Yáconis, em
Pirassununga, São Paulo, em 1921, a atriz protagonizou no decorrer da carreira inúmeros
espetáculos de grande complexidade temática e profundidade, tendo trabalhado
com os principais diretores e atores de seu tempo. Filha da professora Alzira
Becker e do comerciante italiano Edmundo Radamés Yáconis, Cacilda desde cedo
conheceu as dificuldades da vida. Quando seus pais se separaram, ela e as
irmãs, Cleide e Dirce, ficaram com a mãe e foram morar em Santos (SP). Sua
infância e adolescência foram marcadas pela pobreza e pela carência afetiva.
Cacilda Becker começou a trabalhar cedo para pagar seus estudos e suprir a
ausência do pai. Estudou balé e formou-se professora. Mudou-se para São Paulo
para trabalhar como escriturária em uma empresa de seguros. Com 20 anos, viaja
para o Rio de Janeiro para iniciar a carreira de atriz. Participa de algumas
montagens, mas quando o teatro paulista começa a profissionalizar-se, Cacilda
Becker regressa a São Paulo em 1943. Neste
ano integra-se no Grupo Universitário de
Teatro, fundado por Décio de Almeida Prado. Lá participou de peças como “Auto
da Barca do Inferno”, de Gil Vicente; “Irmãos das Almas”, de Martins Pena e “Pequeno
Serviço em Casa de Casal”, de Mario Neme. Cacilda fez rádio-teatro para se
manter, mas era a atuação no palco
que mais a atraia.
Cacilda Becker interpretou personagens antagônicos, como a
velha de “Jornada de um longo dia para dentro da noite”; a devassa de “Quem tem
medo de Virgínia Woolf?”; a rainha de Maria Stuart; o palhaço clown de “Esperando Godot” (“En
attendant Godot”), indo da farsa à tragédia, do clássico ao moderno,
constituindo uma atriz extremada. Foi a primeira peça de teatro escrita pelo
dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Escrita originalmente em
francês foi publicada pela primeira vez em 1952 e apresentada no pequeno Théâtre Babylone em Paris, com direção
de Roger Blin (1907-1984). O Brasil foi o segundo país a ter uma montagem deste
texto, com a direção de Alfredo Mesquita, em 1955, autor, ator e fundador e primeiro coordenador da Escola de Arte Dramática (EAD), fundada em 1948 e que hoje está integrada à Universidade de São Paulo. Fundador do conjunto amador Grupo de Teatro Experimental (GTE) com Abilio Pereira de Almeida. Uma das raizes para a criação do TeatroBrasileiro de Comédia - TBC. Mais reconhecido como doutor Alfredo, ele foi um grande incentivador de jovens talentos e foi o responsável direto pelo aparecimento de vários atores que atuam nos palcos e televisão brasileira. É um dos
principais textos do teatro do absurdo e a principal obra de Samuel Beckett (1906-1989), que foi amplamente considerado um dos escritores mais influentes do século XX. Literalmente influenciado por James Joyce, ele é considerado um dos últimos modernistas.
No
Brasil, as duas primeiras montagens de “Esperando Godot” foram amadoras: uma
pela Escola de Arte Dramática - EAD,
em 1955, com direção de Alfredo Mesquita e a outra, com direção de Luiz Carlos
Maciel, em Porto Alegre, no ano de 1959. Cacilda Becker, junto com o marido
Walmor Chagas, aceitou o convite de Flávio Rangel para realizar, no primeiro
semestre de 1969, a primeira montagem profissional do já conhecido texto de
Beckett. Ela no papel de Estragon e Walmor no de Vladimir. O espetáculo foi
encenado no Teatro Cacilda Becker - TCB; foi também apresentado em São Carlos,
em abril de 1969, quando da inauguração oficial do Teatro Municipal de São
Carlos. Durante uma apresentação diurna para uma assistência de estudantes, no
dia 6 de maio, Cacilda Becker sentiu-se mal e foi imediatamente levada para o
hospital, ainda em trajes do espetáculo. Foi diagnosticado derrame cerebral.
Após permanecer em coma por 38 dias, ela morreu em 14 de junho de 1969. Em
1976, Antunes Filho dirigiu a primeira montagem brasileira com um elenco apenas
de mulheres: Eva Wilma, Lilian Lemmertz, Lélia Abramo, Maria Yuma e Vera Lima.
Em 2006, por ocasião do I Centenário de nascimento de Samuel Beckett, Gabriel
Villela, também com um elenco feminino, estreou sua versão da obra, no Serviço Social do Comércio - SESC
Belenzinho, em São Paulo. É uma das peças mais encenadas no Brasil. Levaram aos
palcos montagens: o Armazém Cia de Teatro,
a Boa Companhia, o grupo Máskara de Goiás, entre outros.
Filha
do imigrante italiano Edmondo Iaconis e de Alzira Becker, Cacilda tinha apenas
nove anos quando seus pais romperam o casamento e sua mãe viu-se obrigada a
criar três filhas sozinhas, uma delas a também atriz Cleyde Yáconis. Por este
motivo, fixaram-se na cidade de Santos, onde Cacilda ainda jovem frequentou os
círculos boêmios e mais vanguardistas. Cacilda começou no teatro paulista como
atriz amadora e se profissionalizou em 1948. Neste ano, Nydia Lícia recusou um
papel na peça “Mulher do Próximo”, de Abílio Pereira de Almeida, produzida pelo
Teatro Brasileiro de Comédia (TBC),
para não ter que beijar nem dizer “amante” em cena, pois isto podia lhe custar
o emprego num importante magazine. Cacilda Becker, que a substituiu, exigiu ser
contratada como profissional, rompendo com o velho preconceito sobre a classe artística de que artista
sério deveria ser diletante. - “Quando encontrei o teatro, foi como se tivesse
encontrado todas as artes que desejaria conhecer”, a atriz festejava o passo
decisivo na carreira.
Em
1948, a atriz Nydia Lícia recusou um papel na peça teatral “Mulher do Próximo”,
de Abílio Pereira de Almeida, pois tinha receio de perder seu emprego em uma
loja. Na encenação, produzida pelo Teatro
Brasileiro de Comédia (TBC), sua personagem teria que beijar e dizer
“amante” em cena. Outra atriz a substituiu, entrando para o TBC como a primeira atriz contratada em caráter
profissional no Brasil. Essa atriz era Cacilda Becker e assim começava sua démarche nos palcos, sempre marcada pela
ousadia e entrega afetiva de seus personagens. Foram 68 peças, dois filmes e
uma telenovela, quando ela chegou a
presidir a Comissão Estadual de Teatro
(SP) e fundou sua própria companhia. Por essas e outras passou a ser
considerada a “primeira-dama do teatro brasileiro”. Em 30 anos de carreira,
Cacilda Becker encenou 68 peças, no Rio de Janeiro e em São Paulo; fez três
filmes: “Luz dos Seus Olhos”, em 1947, “Caiçara”, em 1950 e “Floradas na Serra”,
em 1954, uma telenovela: “Ciúmes”, em 1966, na TV Tupi, além de participações
em teleteatros na televisão. A célebre frase de Cacilda Becker - “Meu teatro
são todos os teatros”, não se trata apenas de slogan de efeito, a atriz se posicionava sempre em conformidade com
sua classe artística. O que é evidenciado na querela das devoluções do Prêmio
Saci (1968), embora contrária à atitude, acatou a opinião da maioria da classe
dos dos artistas devolvendo ao jornal Estado
de São Paulo, que concedia o prêmio, o qual era considerado favorável à
censura, devido a um editorial dúbio. Vale lembrar que foi Cacilda Becker quem
inaugurou o Teatro Municipal de São Carlos com a peça teatral: “Esperando Godot”, no
começo de 1969.
Cacilda
Becker também participou da fundação do Teatro
Brasileiro de Comédia e da Escola de
Arte Dramática de São Paulo, entre outras companhias, como a sua própria, o
Teatro Cacilda Becker, em 1955. A
companhia escreveu um novo e próspero capítulo na história do teatro
brasileiro, realizando inúmeros espetáculos de grande sucesso e importância
artística. Em 1968, com a nomeação do governador paulista, Abreu Sodré, Cacilda
assume a Presidência da Comissão Estadual de Teatro. Durante sua gestão, que
durou cerca de um ano, participou ativamente da luta contra a ditadura militar
e da defesa da classe teatral contra a repressão. Sua delicada aparência contrastava com a garra com que defendia seus
ideais, os amigos e o teatro. Morreu em 1969, durante intervalo da encenação da
peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, vítima de um derrame cerebral, aos
48 anos, deixando dois filhos: Luís Carlos, do casamento com o jornalista Tito
Fleury, e Maria Clara, com o ator Walmor Chagas.
Está
presente em quase todas as montagens do conjunto entre 1949 e 1955, com
destaque para “Nick Bar... Álcool, Brinquedos, Ambições”, de William Saroyan e “Arsênico
e Alfazema”, de Joseph Kesselring, ambos dirigidos por Adolfo Celi em 1949. Em
1950, participa de A Ronda dos Malandros,
de John Gay, espetáculo polêmico de Ruggero Jacobbi. No Teatro das Segundas-Feiras, acontece a sua primeira consagração. “Pega
Fogo”, de Jules Renard, inicialmente formando um programa tríplice ao lado de
outros dois textos, torna-se um grande sucesso de público, entrando no horário nobre do teatro e permanecendo em
cartaz por muito tempo. Sua interpretação do moleque Poil de Carotte lhe vale
um artigo apaixonado de Michel Simon, quando o espetáculo se apresenta no Teatro das Nações (Paris). O crítico
compara a atriz a Charlie Chaplin e Jean Louis Barrault, e, depois de dizer que
ela rompera sua pretensa frieza de especialista fazendo-o chorar, procura a
origem da emoção no “rosto emaciado”, no “olhar em vírgula (como nos desenhos
de Poulbot)”, nos “gestos pletóricos de garoto infeliz e arrogante”: - “Poil de
Carotte não pode ter mais, para mim e para muitos outros, de agora em diante,
outro rosto senão o seu”.
Cacilda Becker provocava paixões
avassaladoras e teve três casamentos, sendo o último com Walmor Chagas, com
quem adotou sua única filha, Maria Clara Becker Chagas, nascida em 1964.
Durante a apresentação do espetáculo “Esperando Godot”, que encenava com o
marido, na capital paulista, em 6 de maio de 1969, Cacilda sofreu um derrame
cerebral e foi levada para o hospital, ainda com as roupas de sua personagem.
Morreu após 38 dias de coma e foi sepultada no Cemitério do Araçá, com a
presença de uma multidão de fãs e admiradores. Cacilda Becker já foi retratada
como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Camila Morgado na
minissérie: “Um Só Coração” (2004) e Ada Chaseliov no filme: “Brasília 18%”
(2006). Cacilda Becker também foi homenageada na peça teatral “Cacilda!”,
escrita por José Celso Martinez Corrêa. Cacilda foi interpretada por Bete
Coelho e posteriormente por Leona Cavalli. Em 2009 é novamente homenageada pela
Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona
na peça teatral “Cacilda!”, sendo interpretada por Anna Guilhermina.
Sobre
o processo de interdição paterna a filósofa e escritora Simone de Beauvoir
sempre esteve consciente de que seu pai esperava ter um filho, ao invés de duas
filhas. Ele afirmava peremptoriamente: -“Simone pensa como um homem!” o que a
agradava muito, e desde pouca idade disciplinarmente Beauvoir distinguiu-se nos
estudos. Georges de Beauvoir passou seu amor pelo teatro e pela literatura para
sua filha. Ele ficou convencido de que somente o sucesso acadêmico poderia
tirar as filhas da pobreza. Hélène tornou-se uma pintora. Do ponto de vista de
sua formação ela se tornou uma adolescente desajeitada, dedicada completamente
aos livros e à aprendizagem, e preferiu ignorar os esportes porque ela não era
nada atlética. Aos 15 anos, Beauvoir já havia decidido que seria uma escritora.
Depois de passar nos exames de bacharelado em matemática e filosofia, estudou
matemática no Instituto Católico e literatura e línguas no Instituto
Sainte-Marie, e em seguida, filosofia na Universidade de Paris (Sorbonne).
Jacques
Champigneulle tornou-se seu mentor intelectual e amigo, aquele que sua mãe
esperava que fosse se casar com ela. Ela e sua irmã foram educadas no Institut
Adeline Désir, ou Cour Désir, uma escola católica para meninas, algo que era
desprezado pelos intelectuais de seu tempo. As escolas católicas para meninas
eram vistas como lugares onde as jovens aprendiam uma das duas alternativas
abertas às mulheres: casamento ou um convento. Sua mãe, que Beauvoir
considerava uma intrusa espiando cada movimento seu, frequentou aulas com elas,
sentada atrás delas, como se esperava que a maioria das mães fizessem. Lá
Beauvoir conheceu sua melhor amiga, Elisabeth Le Coin, amou a escola e se
formou em 1924 com distinção. Em 1929, quando na Sorbonne, Simone de Beauvoir fez uma apresentação
sobre Leibniz ela conheceu outros intelectuais, incluindo Maurice
Merleau-Ponty, René Maheu e Jean-Paul Sartre.
No
campo de análise filosófico, além de Henri Bergson, passou a ler Friedrich Nietzsche, Immanuel Kant, René Descartes e Baruch Spinoza. Na escola começa a desenvolver as primeiras ideias de uma “filosofia
da liberdade leiga”, tendo como representação a oposição entre os seres e a
consciência, do absurdo e da contingência que ele viria a desenvolver
posteriormente em suas grandes obras filosóficas. Seu principal interesse
filosófico é o indivíduo e a psicologia. Em 1931, Simone é nomeada professora em
Marseille, e J.-P. Sartre para o Havre. Este afastamento provoca-lhe tamanha
contrariedade que Sartre propõe casamento. Ela se recusa, pois não queria
aderir aos moldes das obrigações familiares, nem alterar a originalidade
inestimável de suas relações pessoais. Aos 23 anos, Beauvoir prefere Sartre em
liberdade. Lembramos nessas notas que Sartre e Beauvoir nunca formaram um casal
monogâmico. Não se casaram e mantinham uma relação afetiva aberta. Sua
correspondência é repleta de confidências de suas relações com outro (a)s
parceiro(a)s. Além da relação amorosa, eles tinham uma grande afinidade intelectual.
Ela colaborou com sua obra filosófica, revisava seus livros e também se tornou
uma das principais filósofas do movimento existencialista. Sua obra literária
que inclui diversos volumes autobiográficos, frequentemente relata o processo
criativo de Sartre e dela mesma.
Ipso facto
quando surgiu o ensaio: Le Deuxième Sexe, em 1949, causou tanto admiração,
quanto ódio, temor e estranheza. Era uma obra vasta, dividida em dois volumes,
bem documentada e alicerçada na lógica e no conhecimento e muito pouco feminina.
Às mulheres então estavam reservadas aos gêneros literários como o romance ou a
novela. Tendo como missão o inaudito, sem ser messiânica, pôs “a nu” a beleza
da condição feminina. Ela mesma explorou áreas ligadas à situação da mulher no
mundo, englobando história, filosofia, economia, biologia, etc., bem como
alguns “case studies” e algumas experiências particulares. Simone queria
demonstrar que a própria noção de feminilidade era uma ficção inventada pelos
homens na qual as mulheres consentiam, fosse por estarem pouco treinadas nos
rigores do pensamento lógico ou porque calculavam ganhar algo com a sua
passividade, perante as tristes fantasias masculinas.
No
entanto, ao fazê-lo cairiam na armadilha de se autolimitarem. Os homens
chamaram a si os terrores e triunfos da transcendência, oferecendo às mulheres
segurança e tentando-as com as teorias da aceitação e da dependência.
Mentindo-lhes ao dizer que tais são características inatas do seu caráter. Ao
fugir a este determinismo biológico, Simone de Beauvoir abriu as portas a quase
todas as mulheres no sentido de formarem o seu próprio ser e escolherem o seu
próprio destino. Libertando-se de um conjunto de ideias pré-concebidas e dos
mitos estabelecidos que lhe dê pouca ou nenhuma hipótese de escolha. Assim, a
mulher, qualquer mulher, sobretudo nos dias atuais, deve criar a sua própria
via. Mesmo que seja a de cumprir um papel tradicional, se for esse o escolhido
por ela e só por ela, admitem muitas mulheres que enveredaram filosoficamente,
para lembramos de Marx, por esses sinos luminosos até alcançarem suas escarpas
abruptas que podem desconstruir, com base na reflexão e na teoria.
As
mulheres representam algo mais do que uma categoria existente socialmente e compreendem
pessoas do sexo feminino de diferentes idades, diferentes condições familiares
pertencentes a diferentes estratos, comunidades e classes sociais, nações e
nacionalidades. Suas vidas são ordenadas por diferentes regras sociais e costumes,
em um meio no qual se configuram crenças e opiniões distintas decorrentes de
estruturas de dominação. Um aspecto da história social das mulheres que a
distingue particularmente das outras diz respeito ao fato de ter sido uma
história vinculada a um movimento social. Por um longo período ela tem sido
escrita a partir de convicções feministas,
embora o conceito e o movimento decorram d meados do século XX. Certamente toda
história é herdeira de um contexto político, mas relativamente poucas histórias
têm uma ligação tão forte com um programa de transformação e de ação como a
história das mulheres. Quer as historiadoras tenham sido membros de organizações
feministas ou de grupos de conscientização, quer elas se definissem como ativistas
feministas, ou decerto fora deste movimento social, seus trabalhos não foram
menos marcados pelo movimento feminista hic
et nunc das décadas de 1970 e 1980 e assim em diante.
Um
dos domínios sociais (e simbólicos) mais intrigantes na circunscrição das
relações de gênero diz respeito às conexões entre corpo, demarca nome e renome.
De acordo com a literatura antropológica disponível sobre o assunto, o processo
de renomeação, quase sempre associado a situações rituais, é um dos marcadores
sociais por excelência da aquisição de prestígio e de status nas sociedades não ocidentais. Essa conexão entre corpo, gênero
e marca tem suscitado interpretações distintas a respeito dos significados
envolvidos nos rituais que a enfeixam: ritos de passagem, na acepção de Van
Gennep (1873-1957), ou de instituição, para Pierre Bourdieu (1930-2002), interpelados pela exclusão e violência simbólica, eles visam a separar aqueles
que já passaram por eles, daqueles que ainda não o fizeram e, assim, instituir
uma diferença duradoura entre os que foram e os que não foram afetados. No
ritual cabila de circuncisão, ele separa o rapaz das mulheres e do mundo
feminino, ao mesmo tempo em que converte o mais efeminado dos homens num homem
na plena acepção da condição de homem, separado por uma diferença de natureza,
de essência, mesmo da mais masculina, da maior e da mais forte das mulheres.
Os
estudos produzidos no âmbito da história social das artes e da sociologia da
cultura têm trazido contribuições fundamentais para repensarmos a equação entre
nome, status e prestígio a partir de
sua articulação com o problema da autoria e da autoridade. Ao tentar
reconstruir a passagem pelo Brasil de Dina Lévi-Strauss - que em 1938 chegou a São
Paulo, junto com o jovem e quase desconhecido marido, o antropólogo Claude
Lévi-Strauss - Mariza Corrêa (1995) defrontou-se com uma situação social inquietante. Durante quatro anos procurou por
Dina, “que, se não era uma celebridade na história da antropologia, também não
era uma desconhecida”. Decepcionada com o resultado dessa busca, em que Dina
ora aparecia como uma referência secundária, ora desaparecia sob a rubrica “casal
Lévi-Strauss”, ora, ainda, tornava-se apenas a “mulher de Lévi-Strauss”, a
antropóloga enveredou pela questão da “notoriedade retrospectiva”, isto é, pelo
modo “como o renome adquirido a partir de certo momento pode iluminar a vida
inteira de um personagem” e ofuscar a de outro. Refletindo sobre a “notoriedade
retrospectiva” de Lévi-Strauss (1908-2009) e o “esquecimento” de Dina, a autora se perguntava o que teria sido feito das pesquisadoras estrangeiras
naquele momento de implantação da antropologia no país. Elas adotaram o nome do
marido a ponto de ser difícil redescobri-las com seus nomes, mesmo quando descasadas
no caso de Dina.
Um
admirável estudo recente de Nancy Cott recoloca o feminismo em um contexto histórico e demonstra que, no seu sentido
atual, esta palavra só começou a ser utilizada na América no primeiro decênio
deste século. A “definição operacional” que ela propõe é funcional e completa:
seus três componentes são: 1. A defesa da igualdade dos sexos ou oposição à
hierarquia dos sexos; 2. O reconhecimento de que a “condição das mulheres é
construída socialmente, (...) historicamente determinada pelos usos sociais”;
3. A identificação com as mulheres enquanto grupo social e o apoio a elas.
Enquanto ideologia, o feminismo é acessível tanto aos homens quanto às
mulheres, ainda que nem todas elas (ou eles, no caso) o aceitem. A maior parte
da história universitária das mulheres se apoia sobre essas convicções do
feminismo contemporâneo. No âmbito deste artigo, adverte Louise Tilly, a
exemplo de Ellen Dubois e colegas, “consideraremos toda história das mulheres
como feminista e vinculada ao movimento feminista, pelo menos quanto às suas
raízes. Com efeito, é difícil estabelecer critérios apropriados e impossíveis,
intelectual e politicamente, determinar quem é ou não é feminista”. Parece um entrave potencial à legitimação da história das mulheres como, um campo da
história, mas o que se segue sugere que isto não impediu, nem sua
institucionalização, nem seu reconhecimento.
O
prestígio decorrente desse engajamento
é inseparável dos empreendimentos ligados aos movimentos de implantação e
consolidação da sua dimensão propriamente moderna. Tanto nos grupos amadores
criados na década de 1940, como o Grupo Universitário de Teatro, dirigido por
Décio de Almeida Prado; o Grupo de Teatro Experimental, dirigido por Alfredo
Mesquita; o Teatro do Estudante, criado e dirigido inicialmente pelo diplomata
Paschoal Carlos Magno; e Os Comediantes, responsáveis pela encenação de “Vestido
de noiva”, de Nelson Rodrigues, tida por muitos e desde a sua estreia no Rio de
Janeiro, em 1943, sob a direção de Ziembinski, como “o marco zero do moderno
teatro brasileiro”, quanto nos projetos de profissionalização da atividade
teatral, como o Teatro Brasileiro de Comédia, símbolo do teatro paulista na
virada da década de 1940 e referência obrigatória nos anos de 1950, ou nas
várias companhias que surgiram no período, as atrizes tiveram uma atuação e uma
projeção nacionais, só alcançadas na música popular brasileira, com cantoras
que ganharam uma popularidade expressiva. Mas o prestígio que as últimas
desfrutaram no período não parece se igualar comparativamente ao das atrizes
que atuaram no movimento de sedimentação
dos princípios estéticos e das rotinas de trabalho do teatro moderno. Alinhado
à produção cultural erudita, esse
tipo de teatro não perdeu a ligação com a tradição do teatro popular ou de
feitio mais tradicional, apesar da origem social diversa de seus integrantes,
recrutados predominantemente “junto a camadas sociais diferentes daquelas que
desde o século XIX geravam os elencos nacionais, em geral de origem bastante
humilde”. Sem perder de vista as diferenças consideráveis entre um e outro,
evidenciadas, sobretudo pelo trabalho dos diretores e dos cenógrafos, pela
escolha do repertório, pelas exigências do ensaio prolongado, pela eliminação
do ponto e dos cacos, a presença da primeira atriz continuou a ser central na
montagem e no sucesso dos empreendimentos teatrais. Prova disso
são as companhias que se formaram de conflitos profissionais competitivos
ou amorosos, entre integrantes e protagonistas do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), entre peças, pessoas, personagens como as de Madalena Nicol e Ruggero Jacobbi, Nydia Lícia e Sérgio Cardoso, Tônia Carrero, Adolfo Celi e Paulo Autran, Cacilda Becker e Walmor Chagas, para ficarmos nestes exemplos.
Bibliografia
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Ricci, Por um Serviço Nacional de Teatro: Debates, Projetos e o Amparo Oficial
ao Teatro no Brasil (1946-1964). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História Social.Instituto de História. Rio de Janeiro: Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2017; LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien, Os Tempos Hipermodernos. Lisboa:
Edições 70, 2018; entre outros.
As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos. Oscar Wilde
Oscar
Fingal O`Flahertie Wills Wilde nasceu em Dublin em 16 de outubro de 1854. Foi
um influente escritor, poeta e dramaturgo britânico de origem irlandesa. Depois
de escrever de diferentes formas ao longo da década de 1880, ele se tornou um
dos dramaturgos mais populares de Londres, em 1890. Em 1892, começa uma série
de bem sucedidas histórias, hoje clássicos da dramaturgia britânica: “O leque
de Lady Windermere” (1892), “Uma Mulher sem Importância” (1893), “Um Marido
Ideal” e “A importância de ser Prudente” (1895). Nesta última, o arquétipo
cômico começa pelo título ambíguo: “Earnest”, fervoroso em inglês, tem o mesmo
som do nome próprio Ernest. É lembrado de mil formas e jeitos, na
literatura, na arte, no teatro, no cinema, mas também por suas
epigramas e peças. Termina sua vida como indigente em Paris. Sobretudo pelas circunstâncias sociais e morais de sua prisão,
posto que morresse de um ataque de meningite, agravado pelo uso de álcool
e contração de sífilis, às 9h50 do dia 30 de novembro de 1900. Oscar Wilde passou o resto de seus dias sob o pseudônimo de Sebastián Melmoth. Foi pelas mãos de sacerdote irlandês da Igreja de São José, que se converteu ao cristianismo.
Em
seu único romance, “O Retrato de Dorian Gray”, considerado por estudiosos como
a obra-prima da literatura inglesa, Oscar Wilde trata da arte, da vaidade e das
manipulações humanas. No entanto, no seu apogeu literário, começaram a surgir
os problemas pessoais. O que antes eram boatos quanto a uma suposta “vida
irregular”, passou a se concretizar, dando início à decadência pessoal do
escritor. Apareceram rumores sobre sua homossexualidade, severamente condenada
por lei na Inglaterra, que não puderam mais ser negados. Oscar se envolveu com
Lord Alfred Douglas (ou Bosie), filho do Marquês de Queensberry, que sabendo do
relacionamento, enviou uma carta a Oscar Wilde, no Albermale Club, onde o
ofendia e recriminava já no sobrescrito: “A Oscar Wilde, conhecido Sodomita”. Em
várias novelas, como: “O Fantasma de Canterville”, o qual critica o
patriotismo da sociedadeque se prende com os deveres morais para com a
comunidade política. Em seus contos
infantis preocupou-se em deixar lições de moral através do uso de linguagem
simples: “O Filho da Estrela” é exemplo disso. No teatro, escreveu nove dramas encenados
continuamente até os dias de hoje. Destacara-se como poeta com “Rosa Mystica”, “Flores de Ouro” (cf. Fritsch, 2008) que são
alguns trabalhos conhecidos na literatura com frases marcadas pela ironia,
sarcasmo e cinismo.
Apesar de algumas críticas contrárias ao seu primeiro
livro de versos, resolveu escrever sua segunda peça, que se chamaria “A Duquesa
de Pádua”. Nessa mesma época, Wilde é convidado para dar uma série de
conferências sobre estética nos Estados Unidos. A chegada de Wilde na América
do Norte representou “um acontecimento de reconhecimento cultural”. Jornalistas
envolvidos em temas culturais chegaram de todos os cantos do país para
prestigiar as apresentações daquele que era apresentado como “um jovem poeta
expoente da cultura estética europeia”. Fonte da qual os norte-americanos, comparativamente que
importavam erudição do velho mundo, estavam ansiosos para beber. Assim, as
conferências não puderam deixar de ser um sucesso de público. Ainda que tenham
recebido alguns comentários contrários principalmente da imprensa europeia. Durante sua
estada nos Estados Unidos da América Wilde conheceu o poeta Walt Whitman.
Em 1882, foi convidado para ir aos Estados Unidos da América (USA) para
falar sobre o seu recém-criado Movimento
Estético, com as ideias de renovação moral. Defendia o belo como única
solução contra tudo o que considerava maléfico à sociedade. Esse movimento
visava transformar o tradicionalismo na época vitoriana, dando um tom de
vanguarda às artes. O dinheiro obtido nessas viagens, que cortaram os EUA de
ponta a ponta, foi a primeira grande renda de Wilde advinda de seu próprio trabalho
artístico. Mas, como aconteceria sempre em sua vida, analogamente como ocorre
com Vinícius de Moraes, no caso brasileiro, o escritor não demorou a utilizar o
dinheiro em artigos de luxo e outras excentricidades. Após a viagem para os
EUA, passa um tempo em Paris caminhando pelos círculos literários da cidade
luz, onde acabara de escrever “A Duquesa de Pádua”, para em seguida retornar a
Londres. A viagem para a França enfraquece aparentemente a influência sobre o
movimento estético que Wilde encabeçava. Mas, em contrapartida, estreita suas
relações com os grandes nomes da literatura francesa quando inscreve na
literatura uma das peças mais conhecidas de Oscar Wilde, “Salomé”, escrita no
ano de 1891, quando o escritor passou uma temporada em Paris. De acordo com
Robert Ross, o tema para a peça já martelava a cabeça de Wilde desde, pelo
menos, sua visita a uma exposição do pintor francês Gustave Moreau voltado para
o mesmo assunto.
Inspirada em uma história presente em passagens
bíblicas (cf. Mateus 14: 3-11 e Marcos 6: 21-28), e escrita originariamente em
francês, a peça narra, em um único ato, com os requintes típicos da elaboração
estética de Wilde, a história de uma festa celebrada no palácio do tetrarca
Herodes Antipas. Nesta festa, Salomé se revela apaixonada pelo profeta
Iokanaan, mais conhecido como São João Batista, que estava preso no palácio por
ter denunciado publicamente o casamento incestuoso entre Herodes e Herodíade, a
qual fora casada com o irmão do tetrarca, bem como a corrupção reinante no
governo. A inflexão na peça é grande: há sinais, no sentido que Carlo Ginzburg
emprega, de que algo ruim ocorrerá, os quais se manifestam todo o tempo através
de falas dos personagens principais ou secundários, como alguns guardas. Um
aspecto curioso é a forma como os judeus são representados: como confusos com
relação à própria religião, discutindo se os anjos existem ou não, se os
milagres do Salvador são verdadeiros ou não, etc. Uma passagem dessa
característica é do personagem “Quinto judeu” que forma: - “Pode ser
que aquilo que chamamos de mal seja o bem, e o que chamamos de bem seja o mal.
Não se sabe nada de nada”.
Do ponto de vista teórico-metodológico Carlo Ginzburg tem um
percurso de pesquisa dos mais originais e criativos, que extravasa o quadro da historiografia
italiana e mesmo da historiografia
europeia. A sua obra, com efeito, introduziu diversas rupturas nas maneiras de
pensar em História, mobilizou metodologias e instrumentos de conhecimento
oriundos de outras áreas de saber, estabeleceu novas zonas de dialogo com as
restantes ciências humanas e sociais, nomeadamente com a antropologia e a
filosofia. Enfim, trata-se aqui de uma intervenção ativa, que procura inverter
as relações tradicionais de subordinação da História no que diz respeito à
produção dos meios de conhecimento, centrada numa forte preparação filológica,
caracterizada pela atenção ao detalhe, ao estudo de caso, a análise do processo
significativo, com a valorização dos fenômenos aparentemente marginais, como os
ritos de fertilidade, ou dos casos obscuros cuja verdadeira dimensão cultural e
social vem sendo valorizada.
Mas o que pode representar para Freud, como diz-nos C.
Ginzburg, leitor d “il giovane Freud”, “ancora lontaníssimo dalla psicoanalisi
- la lettura dei saggi di Morelli?”.
Enfim, o que há de importante nesses aspectos, resumidamente, é que
Ginzburg articula mais precisamente três aspectos: “sintomi (nel caso di Freud)
indizi (nel caso di Sherlock Holmes) segni picttorici (nel caso di Morelli)”.
Vejamos a seguir como se articula o “método indiciário”: “la proposta di un
metodo interpretativo imperniato sugli scarti, sui dati marginali, considerati
come rivelatori. In tal modo, particolari considerati di solito senza
importanza, o addirittura tri viali, ´bassi`, fornivano la chiave per accedere
ai prodotti piú elevati dello spirito umano: ´i miei avversari` scriveva
ironicamente Morelli (un`ironia fatta apposta per piacere a Freud) ´si
compiacciono di qualificarmi per uno il quale non sa vedere il senso spirituale di un`opera
d´arte e per questo dà una particolare importanza a mezzi esteriori, quali le
forme della mano, dell`orecchio, e persino, horrible dictu, di cosí antipatico
oggetto qual è quello delle unghie`. Anche Morelli avrebbe potuto far proprio il
moto virgiliano caro a Freud (...) in quel periodo non eccezionale, a
un`attività inconscia, colpisce
l`identificazione del nucleo intimo dell`individualità artistica con gli
elementi sottrati al controllo della coscienza” (cf. Ginzburg, 1986: 164-165).
Durante seu acidentado julgamento em 1895, Wilde negou
sistematicamente sua vida dita homossexual. Mas a partir do momento em que foi
acuado com provas irrefutáveis, tomou a defesa do amor que praticava. Ao ser
inquirido pela promotoria, Wilde respondeu com um dos textos mais corajosos e
contundentes em defesa do amor: - “Esse amor é a grande afeição de um homem
mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas,
o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos
sonetos de Miguel Ângelo e Shakespeare”. Tal amor é tão mal compreendido neste
século que se admite descrevê-lo como o “amor que não ousa dizer seu nome”. O
mundo ocidental não compreende que este amor seja assim. – “Zomba dele e às
vezes, por causa dele, coloca alguém no pelourinho”. Não há registros de que Oscar Wilde tenha se
manifestado explicitamente contra a opressão sofrida pelo então chamado
“terceiro sexo”. Mas ele ousou tematizá-lo em sua obra, frequentemente acusada
de pervertida – como foi o caso de “O retrato de Dorian Gray”. É
esse seu discurso no tribunal que permanece como uma eloquente afirmação do
direito de amar contra a corrente conservadora da sociedade. A ética ou a filosofia moral se tornam uma luz que permite discernir entre aquilo que é certo ou não do ponto de vista ético.
É um dos valores que não se encontra inserido no contexto de uma religião específica, mas no contexto da lei natural que rege aquilo que é conveniente para o ser humano de acordo com sua dignidade e natureza. A moral tem sua base na liberdade do ser humano através da qual uma pessoa pode realizar boas ações, mas que também tem a liberdade de praticar atitudes injustas. A reflexão moral ajuda o ser humano a tomar consciência de sua própria responsabilidade no trabalho de crescer como pessoa, tendo sempre claro o princípio da verdade e do bem. A filosofia como reflexão moral é muito importante, uma vez que a retidão no trabalho ajuda o ser humano a melhorar como pessoa e a alcançar uma vida boa. A filosofia moral mostra a responsabilidade humana em trazer esperança à sociedade que vive, uma vez que através de ações individuais exerce influência no bem comum. Esta filosofia moral toma como fundamental os princípios da conduta humana. Estas normas éticas dignificam a pessoa através de valores como mostra a superação pessoal, o amor próprio, o respeito ao próximo, o princípio do dever e a busca pela felicidade. Um princípio moral essencial é lembrar que o fim nem sempre justifica os meios. Após o julgamento, Oscar Wilde foi condenado a dois
anos de trabalhos forçados na prisão de Reading, por prática de “indecência
grave”. A acusação se baseava numa emenda ao Código Penal que “visava a
proteger moças de ataques sexuais e prostituição”. Mas, a Lei acaba tendo
orientação para outra direção, por causa dos seus termos vagos, a emenda acabou
abrangendo “atos indecentes” em geral, nos quais se incluíam de modo
privilegiado as relações entre pessoas do mesmo sexo, ainda que adultas e
consensuais. Cumprida a pena e libertado em maio de 1897, Oscar Wilde partiu
diretamente para o exílio em Paris, falido, solitário e fisicamente destroçado.
Aí viveu ajudado por amigos, morando em hotéis baratos, até sua morte em 30 de
novembro de 1900, aos 46 anos. Foi inicialmente enterrado como indigente. Ainda
durante o julgamento, ocorre mais um desastre em sua vida, pois a sua família contraditoriamente abandonara a Inglaterra, com destino à Suíça,
onde seus filhos tiveram o sobrenome Wilde substituído por Holland, para fugir
da desonra moral. Na política o que faz andar são relíquias de sentido e muitas vezes seus detritos, os restos invertidos de grandes ambições. Nome que no sentido da memória deixaram de ser próprios. Núcleos simbolizadores se esboçam e talvez se fundem três funcionamentos distintos (mas conjugados) das relações jurídicos-políticas entre práticas espaciais e significantes, a asber: o crível, o memorável e o primitivo.
Lembramos que, de acordo com o psicanalista Jurandir
Freire Costa no ensaio: “A Inocência e o Vício: Estudos sobre o Homoerotismo”
(1992; 195): - “O termo homossexualismo nos vemos implicados no constructo
histórico-político-econômico-libidinal burguês do século XIX, o qual
caracteriza a humanidade como dividida em hetero e homossexuais, correlativa à
normal/patológico, que transforma as vivências da experiência sexual desses
sujeitos em desvio de personalidade. Remete à construção histórica a figura
imaginária do homossexual como uma modalidade do humano (ou desumano) com
perfil psicológico único. Falar de homossexualidade é falar de uma personagem
imaginária que teve historicamente a função de ser antinorma do ideal de masculinidade
burguês”. Quando Oscar Wilde irrompeu na cena intelectual e mundana da Londres
dos anos 1880, o amor entre pessoas do mesmo sexo gerava uma vaga consciência
social. Sua existência era mais conhecida por termos eufemísticos como
“sodomia”, “pecado nefando”, “uranismo” ou “pederastia”. De volta à capital
inglesa, Wilde casa-se com Constance Lloyd, herdeira de um advogado dublinense.
O casamento agitado devido às aventuras de Wilde passaria
companhia de outros homens, mas impediu que a hipocrisia da
conservadora sociedade inglesa falasse abertamente desse aspecto da vida do
escritor. Tiveram dois filhos, Cyril e Vyvyan, e viveram juntos por muitos
anos. Embora Wilde tenha de certa forma, abandonado Constance antes que ela se
decidisse pela separação com o divórcio. Concordamos com João Silvério Trevisan quando afirma que: a) Mas há motivos para crer que a condenação de Wilde repercutiu também como uma espécie de gota d´água entre redutos mais politicamente conscientes da necessidade de libertar o amor de preconceitos culturais e religiosos; b) Nesse contexto, está longe de parecer mera coincidência que em 1897, mesmo ano em que Wilde terminou de cumprir sua pena, um médico alemão chamado Magnus Hirschfeld criou em Berlim a primeira organização de luta pelos direitos homossexuais de que se tem notícia. A partir de 1919, o grupo passou a se chamar Comitê Humanitário e Científico, acoplado ao Instituto de Ciência Sexual, que se dedicava a estudos de homossexualismo e travestismo; c) O Comitê produziu filmes sobre a questão homossexual, o mais famoso deles é Anders als die andern, de 1919, do qual sobraram apenas resquícios? O entusiasmo era tal que em toda a Alemanha chegaram a existir 25 sucursais do Comitê Humanitário. Enfim, as campanhas pela reforma sexual promovidas pelo Comitê alemão obtiveram ampla repercussão, recebendo apoio de gente famosa como Thomas Mann, Lou Andreas Salomé, Herman Hesse e Rainer Maria Rilke, entre outras 6.000 assinaturas. Suas atividades se espalharam pela Inglaterra, Áustria, Holanda, Itália e Tchecoslováquia, onde se organizaram outros grupos liberacionistas. Essa foi, seguramente, uma contribuição imensurável para a eclosão do moderno movimento social, tal como ocorrida na cidade de Nova York, em 28 de junho de 1969. Multidões de homossexuais reagiram contra a violência policial, queimando carros e gritando palavras-de-ordem, num ato sem precedentes, que ficou reconhecido como Rebelião de Stonewall. Por detrás dela paira, ironicamente, a imagem prima de Oscar Wilde.
Bibliografia geral consultada.
GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia.Torino: Einaudi Editore, 1986;ELLMANN, Richard, Oscar Wilde. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1988; COSTA, Jurandir
Freire, A Inocência e o Vício: Estudos
Sobre o Homoerotismo.2ª edição. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992; FRITSCH, Ana Júlia, A
Ironia: Processos Discursivos e Visão de Mundo em O Retrato de DorianGray.
Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Mestrado em Leitura e Cognição. Rio Grande do Sul: Universidade de Santa Cruz do Sul, 2008; ALAVARCE,Camila da Silva, A Ironia e suas Refrações: Um Estudo da Dissonância na paródia e no Riso. São Paulo: Editora Cultura Acadêmica, 2009; WILDE, Oscar, O Retrato de Dorian Gray.Porto Alegre:
L&PM Editores, 2007; Idem, Salomé. Lisboa:
Editor Assírio & Alvim, 2011; Idem, A
Importância de ser Prudente. Porto Alegre: L&PM Editores, 2014; TENÓRIO, Patrícia Gonçalves, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: Um Romance Indicial, Agostiniano e Prefigural. Dissertação de Mestrado. Centro de Artes e Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2015; RUFFINI, Mirian, A Tradução da Obra de Oscar Wilde para o Português Brasileiro: Paratexto e O Retrato de Dorian Gray. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos de Tradução. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2015; FRITSCH, Ana Julia, A Ironia: Processos Discursivos e Visão de Mundo em O Retrato de Dorian Gray. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Santa Cruz do Sul: Universidade de Santa Cruz do Sul, 2015; ALMEIDA, Márcia Araújo, “Deixa a vida me levar”... .Um Jeito Brasileiro de Lidar com a Incerteza: Uma Descrição de Aspectos da Cultura e do Comportamento dos Brasileiros como Contribuição para a Área de Português para Estrangeiros. Tese de Doutorado. Programa de Pòs-Graduação em Estudos da Linguagem. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2015; ZOPPEI, Emerson, A Educação não Escolar no Brasil. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; entre outros.
_________________
* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).
“Sem saber amar não adianta amar
profundamente”. William Shakespeare
“As You Like It” é um filme britânico de 1936, do
gênero comédia, realizado por Paul Czinner (1890-1972) e com roteiro baseado na
comédia homônima de William Shakespeare - Will, para os íntimos, que completa
450 anos de nascimento. Trata-se da primeira
versão do filme de comédia pastoral clássico de William Shakespeare (“in
this first film version of William Shakespeare`s classic pastoral comedy”). Note Bem: Foram produzidas mais de 420 versões de
filmes de longa-metragem das peças de William Shakespeare, fazendo dele o autor
mais filmado em todos os tempos (cf. Carpeaux, 2005; Donkin, 2006). Muitas
destas adaptações, especialmente filmes de Hollywood dirigidos a audiências
adolescentes: a) usam as tramas da
dramaturgia mais do que os diálogos, b) enquanto outras são simplesmente versões completas de suas peças teatrais,
mas neste caso: c) revela a celebração
da força do amor em todas as suas formas possíveis. Daí a grandeza indiscutível
da dramaturgia de Shakespeare.
William Shakespeare (1564-1616) foi um poeta e
dramaturgo inglês. É tido como o maior escritor do idioma inglês e o “mais
influente dramaturgo do mundo”. Mas é chamado frequentemente de “poeta nacional” da Inglaterra
e de “Bardo do Avon”, ou também simplesmente
“The Bard”. De suas obras restaram até os dias de hoje 38 peças teatrais, 3 154
sonetos, dois longos poemas narrativos, e diversos outros poemas. Suas peças
foram traduzidas para os principais idiomas do globo, e são encenados mais do
que as de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e temas,
especialmente os do teatro, permaneceram vivos até aos nossos dias. São
revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre
suas obras mais conhecidas estão: “Romeu e Julieta”, que se tornou a história
de amor por excelência, e “Hamlet”, que possui uma das frases mais conhecidas
da língua inglesa: “To be or not to be: that`s the question”.
As peças shakespearianas são peculiares, complexas, misteriosas e com um
fundo psicológico espantoso. Uma das qualidades do trabalho de Shakespeare foi
justamente sua capacidade de individualizar todos seus personagens, fazendo com
que cada um se tornasse facilmente identificado. Shakespeare também era
excêntrico e se adaptava a gêneros diferentes. Trabalhando com o sombrio e com
o divertido ou cômico, Shakespeare conseguiu chegar perto da unanimidade.
Diversos filósofos e psicanalistas estudaram as obras de Shakespeare e a
maioria encontrou uma riqueza psicológica e existencial. Entre eles, Arthur
Schopenhauer, Freud e Goethe são os que mais se destacam. No Brasil, Machado de
Assis foi muito influenciado pelo dramaturgo. Diversas fontes alegam que
Bentinho, de “Dom Casmurro”, seja a versão tropical de “Otelo”. A revolta dos
canjicas, em “O Alienista”, é provavelmente uma outra versão da revolta
fracassada do Jack Cage, descrita em Henrique IV. Na introdução de “A
Cartomante”, Machado de Assis utiliza a frase “há mais coisas entre o céu e a
terra do que supõe vossa vã filosofia”, frase que pode ser encontrada em
Hamlet.
Historicamente
“As You Like It”, publicada em português com o título: “Como
Gostais”, ou “Como lhe Aprouver”, é uma peça teatral do dramaturgo inglês
William Shakespeare. Acredita-se que tenha sido escrita entre 1599 e o início
de 1606. É classificada diversas vezes como uma das comédias shakespearianas
mais maduras. A peça foi escrita no registro da Stationer Company em 4 de
agosto de 1600, mas não foi impressa até sua inclusão no “First Folio” de 1623.
Na trama Frederico usurpou o poder do Duque, seu irmão, e criou a filha dele,
Rosalind, junto com a sua Célia. Anos depois, Rosalind se apaixonou por
Orlando, filho do melhor amigo do Duque. Frederico a expulsou de casa. Ela
partiu e Célia foi junta. A sua primeira performance
ocorreu em New York, em 1786 e foi produzida 21 vezes desde então, salvo
engano.
Disfarçada de homem, Rosalind foi viver em uma
floresta onde seu pai vivia como um Robin Hood. Tempos depois, Orlando, fugindo
de Oliver, seu irmão que tentou matá-lo, também chegou a esse mesmo lugar e
entrou para o bando do Duque. Como “homem”, Rosalind ensinou Orlando a seduzir
uma mulher. Orlando a levou ao encontro do Duque e Rosalinda revelou quem de
fato era. Oliver se apaixonou por Célia e se arrependeu. Três casamentos
aconteceram: de Rosalind e Orlando, de Oliver e Célia e de Febe e Silvio. É a
celebração da força do amor em todas as suas formas possíveis. Rosalind e
Orlando vivem uma forte paixão, que se desenrola num ambiente de instabilidade
política, punição e exílio na floresta de Arden. No início dos anos 1600, a
Inglaterra apresentava-se como um país em desenvolvimento e expansão. Nos
reinados do século anterior, de Henrique 8º e Elizabeth 1ª, o território foi
unificado, a nobreza foi colocada sob controle, a ingerência da Igreja católica
fora afastada pela criação da Igreja anglicana. Rosalind, todavia necessita de
algumas provas de que o amor de Orlando é verdadeiro, e para isso elabora uma
estratégia que pode colocar a sua vida em risco. O que terá mais força, o amor
ou a vida?
As
You Like It – Adolphe Joseph Thomas Monticelli, 1880.
A
interpretação da compreensão mediana sobre William Shakespeare do ser só
pode conquistar um fio condutor com a elaboração do conceito. É a partir da
claridade do conceito e dos modos de compreensão explícita nela inerentes que
se deverá decidir o que significa essa compreensão. Quer do ser obscura e ainda
não sendo esclarecida. E quais espécies de obscurecimento ou impedimento, são
possíveis e necessários para um esclarecimento explícito do sentido do ser. A
imediata compreensão do ser vaga e mediana pode também estar impregnada de
teorias tradicionais e opiniões sobre o ser, de modo que tais teorias
constituam, secretamente, e, portanto, fontes primárias de compreensão geral
dominante. O questionado da questão a ser elaborada presente é o ser, o que
determina o ente como ente, como o ente já é sempre compreendido, em qualquer
discussão que se pretenda. O ser dos entes não é em si apenas um Outro. O ser
exige um modo próprio de demonstração na linguagem que se distingue da
descoberta. Acentua compreender que o perguntado, o sentido do ser, requer uma
conceituação própria que, por sua vez, se diferencia dos conceitos em que o
ente alcança a determinação de seu significado. As ideias movem-se, mudam de
lugar, ganham força na história, constroem-se e desconstroem -se, apesar das
formidáveis determinações internas e externas globais.
O
conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem;
outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a
pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é
potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética,
intelectual, psicológica e afetivamente muito diverso, apto, portanto, a outros
pontos de vista cognitivamente muito variados. São, justamente, essas
diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a
normalização reprime. Do mesmo modo, as condições sociais ou acontecimentos
aptos a enfraquecerem o imprinting, segundo Edgar Morin, e a normalização
permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio cognitivo. Essas
condições de fato aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a
comunicação e o debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio,
constituído de trocas múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o
comércio das ideias é tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias
de outras culturas do passado. O intercâmbio das ideias sociais produz
historicamente no âmbito da formação social o enfraquecimento dos dogmatismos e
intolerâncias religiosas, o que resulta no próprio crescimento humano.
Comporta
neste aspecto dinâmico, a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito
social, moral e político, entre ideias, concepções e visões de mundo. A
trivialização do conhecimento não faz produto do conhecimento apenas um produto
determinado, faz também dele um produto qualquer. Mas as ideias podem tornar-se
ideológicas na medida em que sua estrutura obedece às estruturas
socioprofissionais, sua produção integra-se entre os outros processos de
produção e a cultura torna-se cognoscível a partir das categorias econômicas do
capital e do mercado. Mas nem a informação, nem a teoria, nem o pensamento
abstrato, nem a cultura são produtos triviais, ainda que mais não seja pelo
fato de serem, ao mesmo tempo, produtos/produtores e, mesmo comportando
hologramaticamente a dimensão socioeconômica, não poderiam ser reduzidas a
isso. A redução trivializante não teme exercer-se como sujeito sobre o
conhecimento científico. Este nível abstrato como qualquer outro é apropriado
pelo pensamento, como a religião e através da ciência, com suas relações de
força e monopólios, lutas e estratégias, seus interesses e seus ganhos.
Mas,
por seu lado, os estudos de etnografias dos laboratórios, estes que parecem ter
dinamismo, demonstram-nos como se estabelecem mediações, em função de posições,
ou status, as lutas e a utilização de alguns truques diabólicos pelo
reconhecimento per se, pelo prestígio ou pela glória, com as negociações
necessárias ao estabelecimento de uma prova, os ritos de passagem na pesquisa e
na universidade. A motivação primeira do cientista é a notoriedade. Mas não se pode reduzir o interesse
científico ao interesse econômico, a vontade de pesquisar ao desejo de
prestígio, a sede de conhecimento à sede de poder, em alguns casos terrenos
sim. A sociologia não pode ser considerada uma concepção que exclui o indivíduo
ou que, no máximo, o tolera. É uma concepção humanista, mas que deve implicá-lo
e explicitá-lo. Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo.
Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se
pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue
cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir.
E
também que conjunto prodigioso de determinações sociais, culturais e históricas
é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria
limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento.
É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento,
que são, segundo Edgar Morin, muito mais implacáveis. Em primeiro lugar,
princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem
uma visão de mundo e das coisas que se governam/e controlam de modo imperativo
e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias. Ao organizar os
paradigmas e modelos explicativos associa-se o determinismo organizado dos
sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a
todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força
proibitiva do tabu. As doutrinas e ideologias dominantes nas sociedades dispõem
também da força imperativa e coercitiva que evidencia aos convictos e o temor
inibitório aos desalmados. A partir deste fundamento, compreendemos que ordem,
desordem e organização são essenciais para o entendimento da questão da
complexidade, pois se desintegram e se desorganizam ao mesmo tempo.
Nesse
entendimento, constata-se que o sentido da realidade se dá por meio da relação
do todo com as partes e vice e versa em uma análise integradora em que não é
pertinente examinar o fenômeno a partir de uma única matriz de racionalidade. A
desordem torna-se indispensável para a organização social da vida humana, pois
a sociedade é dependente de acontecimentos/fatos que possam modificar a ordem
já estabelecida para gerar novos meios de organização entre os sujeitos. Há um imprinting
cultural, matriz que estrutura o conformismo, e há uma normalização que o
impõe. O imprinting é um termo que Konrad Lorentz propôs para a marca
incontornável pelas primeiras experiências do jovem animal, como o passarinho
que, ao sair do ovo, segue como se fosse sua mãe, o primeiro ser vivo ao seu
alcance. Há, certamente, um imprinting cultural que marca os humanos,
desde o nascimento, com o selo da cultura, primeiro familiar e depois a escola,
prosseguindo na universidade ou na profissão. Contrariamente à orgulhosa
pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo
algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas subalternas
da sociedade. Os subcultivados sofrem um imprinting e uma
normalização atenuados e há mais opiniões pessoais diante do balcão de café do
que num coquetel literário.
Embora
contrariados em contradição com seu desenvolvimento liberal intelectual que
permite a expressão de desvios e de ideias e formas escandalosas, o imprinting
e a normalização crescem paralelamente com a aquisição real da cultura. O
imprinting cultural determina à desatenção seletiva, que nos faz desconsiderar
tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças, e o recalque eliminatório,
que nos faz recusar toda informação inadequada às nossas convicções, ou toda
objeção vinda de fonte técnica considerada ruim. A normalização manifesta-se de
maneira repressiva ou intimidatória. Cala os que teriam a tentação de duvidar
ou de contestar. A normalização, portanto, com seus subaspectos de conformismo,
exerce uma prevenção contra o desvio e elimina-o, se ele se manifesta. Mantém,
impõe a norma do que é importante, válido, inadmissível, verdadeiro, errôneo,
imbecil, perverso. Indica os limites a não ultrapassar. As palavras que não
devem proferir. Os conceitos a desdenhar, as teorias a desprezar. O imprinting
assimila a perpetuação dos modos de conhecimento e verdades estabelecidas.
Obedece a processos de tribunais: uma cultura produz modos de conhecimento
entre os homens dessa própria cultura. Através do seu modo de conhecimento,
reproduzem a legitimidade que produz esse conhecimento. As crenças que se
impõem são fortalecidas pela fé que as suscitaram. Então, se reproduzem não
somente os conhecimentos, mas as estruturas e os modos reguladores que
determinam a invariância desses conhecimentos.
Enfim, sobre Shakespeare vale lembrar que o nome de
Anne é “uma homenagem de seus pais à esposa de William Shakespeare”. Anne
Hathaway foi esposa do dramaturgo e poeta William Shakespeare. Anne tinha 26
anos quando se apaixonou por Shakespeare, vivia numa família com seis irmãos
(duas meninas e quatro meninos), era filha de Richard Hathaway, fazendeiro de
Shottery, cidade acerca de 1,5 km de Stratford. Morava numa residência de doze
aposentos chamada “Hewlands” (terras desbravadas), que ainda existe e está
aberta a visitação. A famosa cottage
de Anne Hathaway, perto de Stratford. William e Anne se casaram em 1582.
O casal teve três filhos: Susanna, em 26 de maio de
1583, que se casou em 1607, aos 24 anos, com John Hall, um médico de Stratford
e tiveram uma filha, Elizabeth, e o casal de gêmeos Hamnet e Judith, em 1585,
Judith casou-se com Thomas Quiney, um taberneiro, e teve três filhos que
morreram antes de se casarem, porém Judith morreu aos 77 anos. Já Hamnet,
morreu no verão de 1596, aos treze anos de idade. Especula-se que o casamento
de Anne e Shakespeare teria sido forçado pelo clã dos Hathaway, visto que ao se
casarem ela já estava grávida, sendo que ele tinha somente dezoito anos de
idade enquanto ela já contava com vinte e seis. Posteriormente Anne Hathaway
aparece em alguns dos escritos de seu famoso esposo. No entanto, o consenso
geral é de que pouco se sabe sobre a vida particular de Anne Hathaway (cf.
Donkin, 2006).
Ficha Técnica: Director: Paul Czinner. Producer:
Paul Czinner, Joseph M. Schenck. Production Company: Inter-Allied Film
Producers Ltd. Audio/Visual: sound, black & white. Keywords: Drama; Comedy;
Romance; Elisabeth Bergner; Laurence Olivier. Contact Information: www.k-otic.com. Creative Commons license: Public Domain Mark 1.0. Música: “Under the Greenwood
Tree”, composta por Patrick Doyle. Letra de William Shakespeare. Interpretada por Patrick Doyle e London Symphony
Orchestra.
Bibliografia geral consultada.
BARTON, Anne (ed.), The Tempest (New Penguin
Shakespeare Series). Nova York: Penguin, 1968; SCHOENBAUM, Samuel, William
Shakespeare: A Compact Documentary Life. Revised ed. Oxford: Oxford
University Press, 1987; WELLS, Stanley, Shakespeare: A Life in Drama. Nova Iorque:
Editor W. W. Norton, 1997; KERCKHOVE, Derrick de, A Pele da Cultura.
Lisboa: Editor Relógio D’Água, 1997; BLOOM, Harold, Shakespeare: A Invenção
do Humano. Nova York: Editor Riverhead, 1998; BLOOM, Harold, Shakespeare:
A Invenção do Humano. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001; HOLDEN, Anthony, William Shakespeare. São Paulo: Ediouro, 2003; CARPEAUX, Otto Maria, Ensaios
Reunidos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005; DONKIN, Andrew, William
Shakespeare e seus Atos Dramáticos. São Paulo: Editora Companhia das
Letras, 2006; FUJITA, Natália Giosa, “Algumas Observações sobre William
Shakespeare por ocasião do Wilhelm Meister”, de August-Wilhelm Schlegel,
“Resenha de Algumas Observações sobre William Shakespeare por ocasião do
Wilhelm Meister, de August Wilhelm Schlegel”, de Friedrich Schlegel, “Sobre o
Meister de Goethe”, de Friedrich Schlegel: Tradução, Notas e Ensaio Introdutório.
Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História da Filosofia.
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia.
São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006; SILVA, Marcel
Vieira Barreto, Adaptação Intercultural: O Caso de Shakespeare no Cinema Brasileiro.
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Adjunto da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará.