terça-feira, 8 de setembro de 2015

Gabriela Leite & Elena Staller: Análise de Putas Parlamentares.

Ubiracy de Souza Braga*

     “Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição”. Graciliano Ramos
 

  

             Gabriela Leite foi uma das mais destacadas mulheres ativistas  dos direitos civis e  dos direitos trabalhistas cada vez mais precarizados das prostitutas brasileiras. Morreu de câncer, na cidade do Rio de Janeiro. Paulistana e de família tradicional, abandonou o curso de Filosofia e Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) para imergir, aos 22 anos conscientes de sua posição social (cf. Dumont, 1992) na chamada “Boca do Lixo”. Relativamente a região de São Paulo era de grande concentração de “garotas de programas”, na década de 1970. Aos 61 anos, ela rejeita a categoria “ex-prostitutas” em suas apresentações artísticas. E com razão, pois está muito ativa no movimento de defesa dos direitos civis das prostitutas, tendo fundado, uma Organização Não Governamental em 1992, a Davida. Uma das principais conquistas da instituição deve-se a inclusão, em 2002, da ocupação da categoria antropológica “trabalhador do sexo”, na classificação burocrática brasileira das ocupações (CBO), permitindo que prostitutas possam se registrar no padrão Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), como autônomas, e garantir uma aposentadoria na vida. Autora do livro “Filha, mãe, avó e puta – A história de uma mulher que decidiu ser prostituta” foi transformada em peça teatral, “Gabriela”, que lutava contra um câncer, e teve o reconhecimento de ser uma das contempladas do Prêmio “Trip Transformadores 2012”.
           A Previdência Social no Brasil possui mais de 100 anos de história social e política.  Tem como ponto de partida a Lei Elói Chaves regulamentada com o Decreto n° 4.682 de 1923. Ela criou a Caixa de Aposentadoria e Pensões para empregados de empresas ferroviárias, estabelecendo assistência médica, aposentadoria e pensões, válidas também para seus familiares. Em três anos, a lei seria estendida para trabalhadores de empresas portuárias e marítimas. Na década de 1930, através da promulgação de diversas normas, os benefícios sociais foram sendo ampliados para a maioria das categorias de trabalhadores, dos setores público e privado. Foram criados institutos de previdência para gestão e execução da seguridade social brasileira. Em 1960, foi criada a Lei Orgânica de Previdência Social, unificando a legislação referente aos institutos de aposentadorias e pensões já beneficiando todos os trabalhadores urbanos. Os trabalhadores rurais passariam a ser contemplados em 1963. Em 1966, com a alteração de dispositivos da Lei Orgânica da Previdência Social, foram instituídos o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço - FGTS, com indenização para o trabalhador demitido que também pode ser usada para quem puder comprar sua casa própria, articulado ao Instituto Nacional de Previdência Social - INPS que reuniu os seis institutos de aposentadorias e pensões existentes. Em 1974, foi criado o Ministério da Previdência e Assistência Social. Até então, o tema ficava sob o comando do Ministério do Trabalho e Emprego. A extensão dos benefícios da previdência a todos os trabalhadores se dá com a Constituição de 1988, que passou a garantir renda mensal vitalícia a idosos e portadores de deficiência, desde que comprovada a baixa renda e que tenham qualidade de segurado. Em 1990, o INPS mudou de nome para ser chamado de Instituto Nacional de Seguridade Social. 

A Previdência Social brasileira é um seguro que garante uma aposentadoria ao contribuinte quando ele parar de trabalhar. Para ter direito social a esse benefício, o trabalhador deve pagar uma contribuição mensal durante um determinado período ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O tempo de contribuição varia de acordo com o tipo de aposentadoria. O INSS administra o recebimento dessas mensalidades e paga os benefícios aos aposentados que contribuíram e que se aposentaram. Esse salário substitui a renda do trabalhador que contribuiu quando ele para de exercer sua função: a) seja por doença, b) idade avançada, ou, c) condições de trabalho prejudiciais à saúde como locais com excesso de barulho ou poeira e outras formas de insalubridade sociais. Tese: O déficit da Previdência Social é um assunto polêmico que aparece sistematicamente na mídia. São aproximadamente R$ 50 bilhões que faltam para fechar a conta entre o quanto o governo arrecada e o quanto paga. Há várias explicações para esse rombo. Os representantes dos aposentados argumentam que se o dinheiro arrecadado para tal fim não tivesse sido aplicado em outros setores do governo, o déficit não existiria. Outros dizem que a inclusão dos trabalhadores rurais, cuja maioria provavelmente não contribuiu, aumentou o déficit. Além disso, a Previdência Social já foi alvo de vários corruptos que sangraram os cofres públicos com aposentadorias para mortos, perícias médicas falsas ou superfaturamento de benefícios. Um dos casos mais famosos é da quadrilha chefiada pela advogada Georgina de Freitas, presa em 1998. Somente este grupo teria roubado dos cofres públicos cerca de R$ 800 milhões.


 
Trata-se de homenagem ao fato de ter lançado, anteriormente a grife “Daspu” (2005) – uma provocação à luxuosa grife “Daslu” e, ao mesmo tempo, “uma cooperativa de produção de roupas constituída por ex-prostitutas que não seguiram no mercado do sexo por conta da idade”, representando a menção irônica (cf. Kierkegaard, 2005; Facioli, 2010) à maior loja de artigos de luxo do país, morreu em outubro de 2013, à noite no Rio de Janeiro, vítima de câncer no pulmão, aos 62 anos. Gabriela prostituiu-se na “Boca do Lixo”, em São Paulo, na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, e em Belo Horizonte. Em 1987 organizou o 1º Encontro Nacional de Prostitutas e em 1992 fundou a ONG Davida. Ela cursou Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e em 2009 lançou “Filha, mãe, avó e puta”, livro em que narra sua vida. Em 2010 Gabriela foi candidata a deputada federal pelo PV – Partido Verde, mas infelizmente não se elegeu. A ativista, que passava por quimioterapia para tratamento do  câncer, dá nome ao projeto de lei de autoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) que “propõe a regularização dos profissionais do sexo”. O projeto é analisado em uma comissão da Câmara dos Deputados e se passar o país fará jus à sociedade mais justa e igualitária.   
Em muitos países, chamam-se deputados aos representantes do povo “eleitos para o Parlamento”. Um deputado, no Parlamento, tem poder legislativo, isto é, no Parlamento os deputados decidem se aprovam ou não decretos-lei ou mesmo leis. Deputados também fazem perguntas ao governo, de caráter geral ou não, de forma a averiguar o seu trabalho. Qualquer pessoa em tese pode ser eleita para o mandato de deputado, desde que pertença a um partido político e reúna um número mínimo de votos. Quantos mais votos tiver o partido, maior número de deputados pode eleger para o Parlamento. Teoricamente todos os deputados que pertencem ao mesmo partido deveriam exercer o mesmo voto sobre uma matéria: chama-se a isto “disciplina de voto”. Em suma, um deputado é alguém eleito pelo povo para representá-lo como parlamentar e a quem o povo que o elegeu confia as decisões sobre variados assuntos.                                     
Em primeiro lugar, a ironia (cf. Kierkegaard, 2005; Facioli, 2010) é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. Na Literatura, a ironia é a arte de zombar de alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor. Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizadores, mas com a finalidade de desvalorizar. A ironia convida o leitor ou o ouvinte, a ser ativo durante a leitura, para refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição. O termo “ironia Socrática”, levantado por Aristóteles, refere-se ao método socrático de interpretação da realidade.
Neste caso, não se trata de ironia no sentido moderno da palavra empregado na política. A ironia de situação é a disparidade existente entre a intenção e o resultado: quando o resultado de uma ação é contrário ao desejo ou efeito esperado. Da mesma maneira, a “ironia infinita” (“cosmic irony”) refere-se à disparidade entre o desejo humano e as duras realidades do mundo externo. Certas doutrinas afirmam que a ironia de situação e a ironia infinita, não são ironias de todo. É também um estilo de linguagem caracterizado por subverter o símbolo que, a princípio, representa. A ironia, enfim, utiliza-se como uma forma de linguagem pré-estabelecida para, a partir e de dentro dela, contestá-la. É, sobretudo neste aspecto que entendemos a ironia de Gabriela Leite. Ora, vale lembrar que puta do ponto de vista da linguagem, pode representar um substantivo feminino; prostituta, um adjetivo feminino; com muita raiva e, last but not least, adverbio de intensidade; equivalente a muito, usado para alimentar a intensidade do adjetivo: - Ah que tédio, vou ali comer uma puta; - Ha ha, eu não paguei e ela ficou puta comigo!; - Nossa não pagar ela foi uma puta sacanagem!
Há pouco mais de um século o inventor da psicanalise Sigmund Freud (1972; 1996) desandou de vez o caldo para descobrir o inconsciente e, afirmar, que não conseguimos exatamente desvelar aquilo que pensamos. O espelho do Narciso arranhado é consciência de Platão aos nossos dias que tudo poderia ser motivo de dúvida. Na insegurança e desorientação das massas, o capitalismo globalizado fez sua mágica. Além do coelho, tirou da cartola casas, carros, evangélicos megalomaníacos, tudo mais para desviar o foco das angústias. Porém, isso tudo não passa de uma forma de abstração. Quando alguém fala que está em crise existencial, precisa descobrir qual o seu motivo. Pois não há um sintoma freudiano nomeado como “crise existencial”. Existem sim castrações de desejo nos sujeitos que o angustiam. Muitos sentem dificuldades ao tentar definir a “razão” de estarem insatisfeitas com a vida.
Do ponto de vista ideológico é fato que numa das primeiras cenas do filme: “Bruna Surfistinha”, a cafetina que a acolhe no prostíbulo ironicamente diz que ela teria sua carteira de trabalho registrada como profissional do sexo, com todos os direitos inerentes a qualquer trabalhador, o que causou espanto na personagem. Evidentemente isto não é possível porque a lei considera crime a exploração da prostituição, com pena de reclusão de um a quatro anos (“crime de rufianismo”). Entretanto, do ponto de vista político o Estado brasileiro reconhece desde 2002 “a profissão de prostituta”, ano em que o Ministério do Trabalho oficializou a profissão em sua Classificação Brasileira de Ocupações, item 5198, definindo quem a pratica como sendo: “a profissional do sexo, garota de programa, garoto de programa, meretriz, messalina, michê, mulher da vida, prostituta, puta, quenga, rapariga, trabalhador do sexo, transexual (profissionais do sexo) e travestis (profissionais do sexo)”. Isto garante o direito trabalhista de recolher contribuições previdenciárias, como “profissional do sexo”, e garantir direitos civis a todos os trabalhadores, como aposentadorias e auxílio doença na vida social. 

Para a consciência – e a consciência filosófica considera que o pensamento que concebe constitui o homem real e, por conseguinte, o mundo só é real quando concebido -, portanto, o movimento das categorias surge como ato de produção real – que concebe um simples impulso do exterior, o que é lamentado – cujo conteúdo é o mundo; e isto é exato na medida em que a totalidade concreta enquanto totalidade-de-pensamento, enquanto concreto-de-pensamento, é de fato um produto do pensamento, da atividade de conceber; ele não é pois, de forma alguma o produto do conceito que engendra a si próprio, que pensa exterior e superiormente à observação imediata e à representação, mas um produto da elaboração de conceitos a partir da observação imediata e da representação. O todo, afirma Marx, na forma em que aparece no espírito como todo-de-pensamento, é um produto do cérebro pensante, que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, de um modo que difere da apropriação desse mundo pela arte, pela religião, pelo espírito prático. Antes como depois, o objeto real conserva a sua independência fora do espírito; e isso durante o tempo em que o espírito tiver uma atividade meramente especulativa, meramente teórica. Por consequência, nunca é demais repetir, também o emprego do método teórico é necessário que o objeto, a sociedade, esteja constantemente presente no espírito como dado primeiro. Em relação à propriedade, a categoria mais simples surge, pois, como a relação de comunidades simples de famílias ou de tribos.               

Na sociedade num estágio superior, ela aparece como a relação social mais simples de uma organização mais desenvolvida. Mas pressupõe sempre o substrato concreto que se exprime por uma relação de posse. O dinheiro pode existir e existiu historicamente antes de existir o capital, os bancos, o trabalho assalariado, etc. Nesse sentido, podemos dizer que a categoria de trabalho mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido ou, pelo contrário, relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que existiam já historicamente antes que o todo se desenvolvesse no sentido que encontra a sua expressão numa categoria concreta. Assim, abstração mais simples, que a economia política moderna coloca em primeiro lugar e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece, no entanto, sob esta forma abstrata como verdade prática enquanto categoria da sociedade mais moderna. Poder-se-ia dizer que esta indiferença constituída nas relações sociais em relacionadas a forma determinada de trabalho, que se apresenta noutros países como produto histórico, se manifesta como uma disposição natural. Este exemplo do  trabalho mostra com toda evidência que até as categorias mais abstratas, ainda que válidas – precisamente por causa de sua natureza abstrata – para todas as épocas, não são menos, sob a forma determinada desta mesma abstração, o produto de condições históricas, políticas e sociais e só se encontram plenamente válidas nestas condições e no âmbito do quadro de pensamento destas condições reais de existência. Ilona Staller  do Partito Radicale Roma (1989).

 A reflexão analítica de Marx sobre a questão da ideologia é atualíssima e passou a se desenvolver criticamente a partir do famoso “ajuste de contas de sua consciência filosófica com Hegel”. Foi na Crítica do Direito Público Hegeliano, escrita em Kreuznack, uma cidade localizada no estado da Renânia-Palatinado, Alemanha, em meados de 1843, que Marx se insurgiu contra o modo de Hegel interpretar a relação do Estado com a sociedade civil. Os Manuscritos de Kreuznach formam um momento único na história da filosofia, momento em que um pensador ainda imaturo e enfrentou, num combate decisivo, a obra de um filósofo consagrado, no seu momento de mais extremado conservadorismo. E não se intimidou com a estatura de seu adversário. Ao contrário, encarou-o com sabedoria e irreverência, seguindo o desenrolar de sua argumentação por meio de citações do texto que se faziam acompanhar de uma refutação indignada e ferina. Sem o instrumental necessário de preparação abstrata da teoria para tal confronto intelectual, Marx serve-se, em grande parte, do materialismo antropológico de Ludwig Feuerbach, com o qual este apresenta a sua crítica da religião, como também da filosofia rousseauniana, para realizar a pretendida crítica analítica da política; esta consubstanciada no Estado prussiano justificado pelo conservadorismo político de Friedrich Hegel. Ainda assim, em muitos momentos, Marx permanecerá enredado no idealismo hegeliano, embora com perspectivas de superação de tal idealismo estacionário que, ao fundir ser e pensar, real e racional, finito e infinito, acaba por aceitar toda a sorte de injustiças sócio-políticas do momento político.

Isto é, segundo sua concepção dialética que só deve ser justificada pela apresentação do próprio sistema, tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro, não como substância, mas precisamente como sujeito. A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é representação da negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade se reinstaurando, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ipso facto tese e a antítese, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim. Friedrich Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que, para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. Neste sentido, a clareza não seria adequada para conceituar o próprio objeto. Introduziu um sistema de pensamento para compreender a história da filosofia e do mundo, chamado geralmente dialética: uma progressão abstrata na qual cada movimento sucessivo surge, pois, como solução das contradições inerentes ao movimento anterior.

Marx vinha de um período de interpretação de mais de seis anos de percurso hegeliano, sabia quanto devia ao autor da Fenomenologia do Espírito, mas se dava conta de que a abordagem da vida política pelo mestre encerrava uma grave distorção, segundo Konder (2002), que antes não havia sido notada. Na incisiva ruptura com o ponto de vista hegeliano, Marx atribuía-lhe um formalismo inaceitável. O Estado, invenção dos homens, resultado da atividade concreta deles, era transformado por Hegel numa chave - formal - pela qual se abria a porta para a compreensão do sentido do movimento dos seres humanos. Marx percebeu o equívoco e o destacou: - “Não é a Constituição que faz o povo, mas o povo que faz a Constituição”.  A situação em que os homens criaram e continuam criando seus Estados torna o equívoco hegeliano compreensível. O Estado é uma criação de homens divididos, confusos, alienados. Foi o que Marx observou quando escreveu: “O ser humano é o verdadeiro princípio do Estado, mas é o ser humano não livre. O Estado, então, é a democracia da não-liberdade, a consumação da alienação. A ideia de uma construção teórica “distorcida”, porém ligada a uma situação histórica ensejadora de distorção, é, no pensamento de Marx, desde o primeiro momento de sua articulação original, uma ideia que vincula a ideologia à alienação ou ao estranhamento. 

Isto é, a existência do Estado como um “corpo estranho”, que submete a sociedade ao seu controle, impondo a sua ordem, é um sintoma da alienação, do estranhamento – do fenômeno que Marx costuma chamar de Entfremdung, em alemão – resultante dos movimentos históricos nos quais os seres humanos que compõem a sociedade atuam muito desunidos e perdem a capacidade de se realizar no mundo que estão empenhados em dominar. É inevitável que os indivíduos sejam levados a alimentar a ilusão de um Estado racional, adequado à promoção da lei no funcionamento da sociedade. Essa maneira de conceber o Estado como lugar onde a razão prevalece foi o que Marx, em 1843, criticou mais incisivamente em Friedrich Hegel. Nessa crítica da concepção de teoria que se deu conta do que era, de fato, uma construção ideológica. Marx percebeu com clareza que a concepção hegeliana suavizava, atenuava, a contradição entre a sociedade e o Estado, pois a perspectiva hegeliana não era suficientemente ampla para observar o movimento geral dessa relação contraditória e encaminhar criticamente o pensamento na direção da direção do quadro constituído. Os horizontes de Hegel permaneciam estrangulados pela ótica da propriedade privada e Friedrich Hegel conseguia olhar para o Estado, afinal, era o ângulo interno “do qual o próprio Estado se via”. O Estado se considera universal, por isso não se dá conta do quanto está envolvido, comprometido com a propriedade privada. Marx escreveu: Qual é o poder do Estado político sobre a propriedade privada?

É o próprio poder da propriedade privada, sua essência trazida à sua existência. E o que resta ao Estado político em oposição a essa essência? A ilusão de que é determinante, quando, de fato, é determinado. Trata-se de uma ilusão ideológica. Os seres humanos que pertencem a sociedades profundamente divididas são levados a misturar e confundir o universal e o particular. Em seus escritos da segunda metade de 1843, Marx insistia em proclamar que esses seres humanos ainda não haviam conseguido se tornar indivíduos “de um novo tipo”, capazes de compreender a realidade simultaneamente a partir da ótica de suas respectivas singularidades e a partir da ótica do gênero humano. Marx se apoiava numa concepção de Ludwig Feuerbach para criticar Friedrich Hegel e caracterizava, feuerbachianamente, o indivíduo típico burguês como alguém que ainda não era ein wirkliches Gattungswesen, isto é, “um verdadeiro ser da sua espécie”. Por quê?  Segundo Konder, ainda estava prisioneiro de um horizonte estreito e, quando tentava se elevar ao nível da universalidade, enrolava-se em consideradas abstrações pseudo-universais. Nessa direção abstrata, os indivíduos se distanciam uns dos outros. Mesmo no ensaio de Marx a questão judaica fustiga a ilusão de uma universalidade que é pressuposta, porém, se acha, em geral, posta fora do alcance das pessoas. Os homens tentam pensar o quadro histórico das condições em que se encontram, procuram alcançar uma visão de conjunto, porém se perdem nas falaciosas “boas intenções”, ou naquilo que Marx caracterizava como a “abstratividade inócua da religião”. A filosofia que não supera os limites da perspectiva da burguesia se perde num círculo vicioso. Marx propunha uma crítica analítica implacável. 

Não queremos perder de vista - mutatis mutandis - o caso de Cicciolina, nome artístico de Ilona Staller, nascida Elena Anna Staller em Budapeste, em 26 de novembro de 1951 que é uma ativista política, ex-atriz pornográfica, cantora e escritora húngara naturalizada italiana. Nasceu em Budapeste, na Hungria, descendente de uma pequena família de burgueses, que, com a revolução bolchevique, findaram por perder várias terras das quais tinham posses. Aos três anos de idade, perdeu o pai vitima de um câncer. Foi criada pelo padrasto, que era funcionário do ministério publico húngaro, e sua mãe, que era parteira. Aos treze anos, entrou para a agência de modelos MTI, ainda na Hungria. No verão de 1968, Cicciolina entrou para o serviço secreto de seu país e tinha a função de investigar os motivos pelos quais estrangeiros estariam em territórios húngaros. Depois da morte de um politico norte-americano que estava sob a investigação policial, Ilona deixou os serviços secretos.  Após reconhecer um italiano em Budapeste, Ilona tornou-se sua amante e, depois de certo tempo, ofereceu-lhe dinheiro e muito sexo em troca de casamento, para que assim, ela pudesse conseguir nacionalidade italiana. Casaram-se no papel e, após conseguir sua cidadania, Ilona pegou um trem em Budapeste e desembarcou em Milão, cidade onde fez filmes pornográficos produzidos pela recém-nascida indústria pornô. Após os filmes eróticos, vieram os convites para participações em cinema convencional. 
            Em 1973, após ver um ensaio sexy de Ilona Staller na revista Playmen, Riccardo Sccicchi, que era estudante de arquitetura e fotografo da revista citada, fascinou-se pela imagem “sensual-inocente” da jovem húngara e logo tratou de contatá-la. Depois de fazer várias fotos de Ilona, Riccardo montou, na agencia que trabalhava uma exposição de fotos da moça. Lá, encontrava-se o dono de uma das poucas rádios livres da Itália, que a convidou para fazer um programa em sua rádio. Foi assim que Ilona Staller atingiu o estrelato na década de 1970: apresentando um programa de temática sexual desenvolvido por ela e Riccardo Sccicchi na rádio Luna, em Roma, sob o pseudônimo de Cicciolina. Com o sucesso do programa, Cicciolina era considerada a rainha da sexualidade na Itália. Paralelamente, também desenvolveu e apresentou um programa na Radio San Paolo, em Nápoles. A presença de Cicciolina em programas de emissoras de televisão livres reduzia consideravelmente a audiência da televisão estatal italiana, que era controlada pelas rédeas “beatas” do governo. Para conquistar a audiência perdida, a TV estatal RAI” contratou Cicciolina para apresentar oito programas na emissora, “dando carta branca para fazer o que quisesse. Depois de gravado o primeiro programa, a equipe de edição da emissora ficou por muito tempo editando o programa e acabou por não mostrar partes eróticas do mesmo, fazendo Cicciolina processar a emissora por não cumprimento de contrato. A Radiotelevisione Italiana é uma empresa de televisão e rádio estatal italiana. RAI é um acrônimo para Radio Audizioni Italiane, ou seja, Rádio Audições Italianas. Antes se chamava EIAR (Ente Italiano per le Audizioni Radiofoniche) e ocupava-se apenas de transmissões radiofônicas, até que em 3 de janeiro de 1954 a RAI TV começou a emitir sinais televisivos em escala nacional. 
         Foi graças à aquisição de equipamento de alta tecnologia doado pela família de Antonio Bernocchi que, aos de 11 de setembro de 1949, o primeiro vídeo programa de TV experimental, com a transmissão do Museu de Trienal de Milão, começou na Itália, para continuar após o programa oficial de 3 de janeiro de 1954, organizado pela televisão estatal RAI sempre a partir “Bernocchi Triennale” de Milão. Aproveitando o sucesso de sua sexy personagem nos programas de rádio e no show business, Ilona passou a desenvolver junto com Riccardo shows eróticos e apresentar-se com turnê por toda a Itália e países da Europa. Seduzida pelo sucesso de Cicciolina e seus shows, a gravadora musical RCA a contratou e assim Ilona Staller tornou-se também cantora. Após ser várias vezes censurada e processada pelo crime de atentado ao pudor ao mostrar suas partes intimas nos shows, Cicciolina achou outra maneira de transgredir e chamar a atenção sem precisar cometer o tal crime: passou a misturar temáticas politicas em suas apresentações. Filiou-se, no inicio da década de 1980, ao Partido do Sol - o primeiro partido ambientalista da Itália e em seguida ao Partido Radical. Para divulgar suas propostas no campo político, ela abriu a produtora italiana de filmes pornográficos e primeira agencia de casting pornô em parceria com Riccardo Schicchi, chamada Diva Futura, e tornou-se atriz de sua própria empresa, misturando sexo e ideias politicas nos enredos de seus filmes.
Cicciolina foi eleita em 1987 para o parlamento italiano, sendo a segunda deputada mais votada, lutando contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o uso da energia nuclear, a questão da fome e a censura. Lutou pelos impostos ambientalistas sob a emissão de CO2 dos automóveis, pela liberdade sexual, legalização da prostituição, direitos humanos e dos animais, e educação sexual nas escolas. Na década de 1990 e inicio dos anos 2000, se ofereceu sexualmente a Saddam Hussein e Osama Bin Laden, respectivamente, em troca da paz mundial. Curiosamente em 1990, mostrou os seios para o Brasil inteiro através de uma matéria sobre sua vida feita em sua casa pelo apresentador Datena, da TV Bandeirantes e, em 1997, fez parte do elenco da novela Xica Da Silva, da extinta Rede Manchete, ao lado de Taís Araújo. Em 1991, fundou o Partido do Amor e em 2012 o Partido Democracia, Natureza e Amor. Em 2013 se filiou ao Partido Liberal Italiano. Além de apresentadora de rádio, atriz convencional e pornô, e política, Cicciolina também é escritora com reconhecimento literário com os livros: “Confessions” e “Per Amore e Per Forza”.            
Para a compreensão hermenêutica de Roland Barthes a história atual é o desvio em direção à gregaridade: os regionalismos, por exemplo, são pequenas gregaridades que tentam reconstituir-se. – “Acredito agora que a única marginalidade verdadeiramente consequente é o individualismo. Mas há que se retomar esta noção de uma forma nova”. Dizia-se ainda que Sócrates fosse atopos, o que significa dizer e quer dizer “sem lugar”, inclassificável. É um adjetivo que relacionamos ao objeto amado, tanto mais que, enquanto sujeito apaixonado simulado, não saberia me reconhecer como “atopos”, mas, ao contrário, como uma pessoa banal cujo dossiê é bastante conhecido. Ou seja, sem tomar partido no sentido político quanto ao fato social de ser inclassificável, devo reconhecer que sempre trabalhei por repentes. Quando um conjunto de posições parece reificar-se, constituir uma situação social pouco precisa, então efetivamente, por mim mesmo sem o pensar, sinto o desejo de ir noutra direção. E é nisso que, afirma Roland Barthes, “eu poderia me reconhecer como um intelectual; a função do intelectual sendo ir sempre a outra direção quando as coisas pegam”. 
Bibliografia geral consultada.

D`EUSANIO, Alda, Il Peccato in Parlamento. Chi ha Paura di Cicciolina?. Trento: Reverdito Editore, 1987; OVERALL, Christine, “What`s Wrong with Prostitution? Evaluating Sex Work”. In: Signs, 17 (4): 705-724 (1992); BARTHES, Roland, O Grão da Voz. Rio de Janeiro: Editor Francisco Alves, 1995; KONDER, Leandro, A Questão da Ideologia. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2002; STALLER, Ilona, Le Confessioni Erotiche di Cicciolina. Tradotto da Giulia Bontempi. Milano: Editore Olympia Press, 1988; Idem, Per Amore e Per Forza: l`Autobiografia di Cicciolina. Milano: Arnoldo Mondadori Editore, 2007; DI QUARTO, Andrea; GIORDANO, Michele, Moana e le Altre. Vent`anni di Cinema Porno in Italia. Roma: Gremese Editore, 1997; FACIOLI, Adriano, A Ironia: Considerações Filosóficas e Psicológicas. Curitiba (PR): Editor Juruá, 2010; RISSIO, Isabela Pesce Storrolli, A Prostituição no Brasil: Trabalho, Silêncio e Marginalização. Monografia de Bacharelado. Setor de Ciências Jurídicas. Faculdade de Direito. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2011; HEIM, Daniela, “Prostitución y Derechos Humanos”. In: Cuadernos Electrónicos de Filosofia del Derecho, n° 23, 2011; MORAES, Dênis de, O Velho Graça: Uma Biografia de Graciliano Ramos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012; CAPELA, Gustavo Moreira, O Direito à Prostituição: Aspectos de Cidadania. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Direito. Brasília: Universidade de Brasília, 2013; BARRETO, Diva Rodrigues Daltro, Luta por Invisibilidade ou Reconhecimento? Um Estudo sobre a História de Vida de Acompanhantes de Luxo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Departamento de Psicologia. Universidade Federal do Ceará, 2014; LACERDA, Rosangela Rodrigues Dias, Reconhecimento do Vínculo Empregatício para o Trabalho de Prostituta. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; GOMES, Samara Rafaela da Silva, O Reconhecimento dos Profissionais do Sexo como Destinatários da Tutela Sócio Laboral. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas. Centro de Ciências Jurídicas. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2015; entre outros.

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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Guardiães da Razão - Política, “Verdade” & Presidência Dilmista.

Ubiracy de Souza Braga*
 
“A estudante Dilma Rousseff participava de trabalhos denominados de agitação de massas”. Jorge Nahas

                                                                                                      
   Em outubro de 1968, o Serviço Nacional de Informações (SNI) produziu um documento de 140 páginas sobre o estado da “guerra revolucionária no país”. Entre os militantes aparece Dilma Vana Rousseff Linhares, descrita como “esposa de Cláudio Galeno de Magalhães Linhares”. É estudante da Faculdade de Ciências Econômicas da URGS e seus antecedentes estão sendo levantados. Dilma Rousseff e o Aparelho de Estado da ditadura militar começavam a se conhecer. Durante os cinco anos em que o Aparelho Repressivo de Estado funcionou com “rotinização”, de 1967 a 1972, a ex-militante Dilma Vana Rousseff ou seus codinomes políticos: “Estela”, ou “Wanda”, ou “Luiza”, ou “Marina”, e finalmente “Maria Lúcia”, viveu mais experiências do que a maioria das mulheres brasileiras terá em toda a sua vida. Ela se casou duas vezes, militou em duas organizações políticas clandestinas. Mudou de casa frequentemente para fugir da perseguição da polícia política e do Exército. Esteve nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Adotou nomes e usou habilmente documentos falsos. Manteve encontros secretos, dignos de filmes de espionagem. Participou de discussões político-ideológicas trancada em “aparelhos”, foi presa, torturada, processada e encarou 28 meses de cadeia.
Dilma Rousseff nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Iniciou sua vocação política aos 16 anos, ingressando na luta armada contra a ditadura militar golpista de 1964. Foi presa em 1970 por quase três anos e submetida à tortura. Após a prisão, mudou-se para Porto Alegre formando-se em Economia pela Universidade do Rio Grande do Sul, posteriormente Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na década de 1980, participou da fundação do Partido Democrático Trabalhista, permanecendo filiada até 2001, quando entrou para o Partido dos Trabalhadores. Durante a campanha de 2002 com Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, pelo Partido dos Trabalhadores (PT) ganhou destaque na equipe responsável pela campanha e na formulação do plano de governo na área energética da pasta de Minas e Energia em 2003. Permaneceu no cargo até 2005, quando substituiu José Dirceu, tingido pelo escândalo do Mensalão, na Casa Civil. Em 2009, revelou que se submetera a tratamento contra um linfoma. Meses depois, teve sua candidatura à Presidência oficializada pelo PT. Comandou uma extensa campanha pelo País, tendo Lula como sua legenda eleitoral. Dilma confirmou seu favoritismo nas eleições tornando-se a 1ª mulher presidente da República Federativa do Brasil. A tv O Povo recebeu o sociólogo Ubiracy Braga no programa O Povo Quer Saber para analisar temas ligados ao desgaste da presidente, a crise do PT e a participação feminina na política.


   
A revista Forbes de negócios e economia norte-americana apresenta artigos e reportagens originais sobre finanças, indústria, investimento e marketing reconhecidos por suas listas, principalmente nas quais faz um ranking das pessoas mais ricas do mundo. Além de outras, como das chamadas celebridades mais bem-pagas e das mulheres mais poderosas, situando a presidente Dilma Rousseff como a sétima mulher mais poderosa do mundo ocidental em 2015.  Também é conhecida por suas listas, nas quais faz um ranking das pessoas mais ricas dos Estados Unidos, conhecida como “Forbes 400” e do mundo ocidental. Além de outras personalidades como é o fato das celebridades mais bem-pagas, como Yuri Villas e Gabriel Persico. Tem sede na cidade de Nova Iorque e foi fundada em 1917 por Bertie Charles Forbes um jornalista financeiro e autor de origem escocesa, que fundou a reconhecida revista norte-americana Forbes em 1917. A Forbes é a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Foi fundada em 1917 por Bertie Charles Forbes, e tem como editor chefe, Steve Forbes. A Forbes tem como slogan “The Capitalist Tool”.Em abril de 2007, Dilma Rousseff já era vista pela mídia como candidata à presidência da República na eleição de 2010.  
        Naquele mesmo ano, o presidente Lula passou a dar destaque a então ministra com o objetivo de testar seu potencial como candidata. Em abril de 2009, Lula afirmou que “Todo mundo sabe que tenho intenção de fazer com que Dilma seja candidata do PT e dos partidos, mas se ela vai ganhar vai depender de cada brasileiro”. Para cumprir com a lei eleitoral de desincompatibilização, Dilma deixou o Ministério da Casa-Civil em 31 de março de 2010, sendo sucedida por Erenice Guerra. A Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada em Brasília no dia 13 de junho de 2010, oficializou Dilma como a candidata do partido à presidência, bem como oficializou o então presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PSDB) como seu vice-presidente. A coligação de Dilma Rousseff de 2010 foi apoiada pela coligação eleitoral de centro-esquerda Para o Brasil seguir mudando, que foi formada ao redor do Partido dos Trabalhadores (PT) para disputar à eleição presidencial de 2010 no Brasil. Foi composta por na mais do que dez partidos políticos: PT, PMDB, PCdoB, PDT, PRB, PR, PSB, PSC, PTC e PTN. Em 14 de outubro de 2010, o PP se juntou não-oficialmente à coligação. Dilma Rousseff, teve como vice-presidente Michel Temer (PMDB).
Durante seu discurso de aceitação como candidata, declarou: - “Não é por acaso que depois desse grande homem o Brasil possa ser governado por uma mulher, uma mulher que vai continuar o Brasil de Lula, mas que fará o Brasil de Lula com alma e coração de mulher”. O mote da campanha petista foi a continuidade do governo Lula. Até então desconhecida por grande parte do eleitorado, Dilma Rousseff passou a liderar a corrida pela sucessão presidencial. Como é natural, ela foi beneficiada pela aprovação recorde do governo Lula, que atingiu patamares superiores aos 80%. O presidente engajou-se pessoalmente na campanha, participando de vários comícios, gravando para a propaganda eleitoral e declarando apoio à candidata repetidas vezes. O conservador Tribunal Superior Eleitoral (TSE) interpretou algumas dessas declarações como propaganda eleitoral antecipada, multando-os diversas vezes. A finalidade jurídica da proibição da propaganda extemporânea é evitar o desequilíbrio político e, em tese, a ausência  de isonomia nas campanhas eleitorais. Os candidatos devem ser tratados igualmente. Perante a legislação eleitoral, não é aceitável divulgar suas propagandas antes que outros tenham se registrado como candidatos. Dilma Rousseff recebe a faixa presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 1 de janeiro de 2011.
Algumas pesquisas de opinião indicavam que Dilma Rousseff poderia vencer a eleição já no primeiro turno. Ela chegou a atingir mais de 30% de diferença em relação ao candidato José Serra,  do PSDB. Após a divulgação pela imprensa das suspeitas de tráfico de influência no Ministério da Casa-Civil envolvendo a ministra Erenice Guerra, as pesquisas passaram a indicar uma migração de votos da então petista para Marina Silva. Também contribuiu para sua queda nas pesquisas a questão da descriminalização do aborto, em que seus opositores afirmavam que Dilma seria favorável ao aborto, embora ela tenha negado ter esta posição. Em 3 de outubro, Dilma obteve 46,91% dos votos válidos, classificando-se para o 2° turno com Serra, que atingiu 32,61%. Marina Silva, candidata do Partido Verde, conquistou 19,33% dos votos, tirando da petista a vantagem que a elegeria no 1° turno, como tinha sido previsto inicialmente pelos institutos técnicos de pesquisas.                       
No 2° turno, Marina Silva errou em sua estratégia quando optou “por não declarar apoio a nenhum dos dois candidatos”. Dilma manteve a vantagem sobre Serra nas pesquisas de opinião. Em 31 de outubro, ela obteve 55 752 529 votos (56,05%), elegendo-se a 1ª mulher presidente do Brasil. Em seu discurso de vitória, destacou o papel das mulheres e agradeceu o apoio do presidente Lula. Sua vitória teve grande repercussão na imprensa internacional, que destacou “o ineditismo por ser a primeira presidente e o peso de seu padrinho político”. Dilma foi empossada como a 36ª presidente do Brasil em 1º de janeiro de 2011. Em seu discurso de posse, prometeu  erradicar a pobreza e mudar o sistema tributário. Antes mesmo de assumir o cargo, afirmou preferir ser tratada como presidenta, mas desde sua eleição não houve posicionamento oficial a respeito do tema, o que gerou certa confusão. Os meios de comunicação não respeitaram a solicitação da presidenta da República. Sem estabelecer qualquer padronização, têm utilizado tanto “a presidente”, quanto “a presidenta”.
Em 14 de janeiro de 2011, Dilma visitou as áreas atingidas pelas enchentes e deslizamentos de terra no Rio de Janeiro. Seu governo liberou R$ 100 milhões para ações de socorro e assistência social. No início de fevereiro, fez a primeira viagem internacional, escolhendo a Argentina como destino político. No mesmo mês, anunciou um corte de R$ 50 bilhões nas despesas previstas pelo Orçamento Geral da União para 2011. Fez seu primeiro pronunciamento transmitido em rede nacional de rádio e televisão. Em março, recebeu a visita do presidente norte-americano Barack Obama, assinando acordos de cooperação. Em abril, decretou luto oficial de três dias pelo Massacre de Realengo (RJ) e declarou que o país estava unido em repúdio à violência. Massacre de Realengo refere-se à chacina ocorrida em 7 de abril de 2011, por volta das 8h30min da manhã (UTC-3), na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, no município do Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola armado com dois revólveres disparando contra os alunos presentes, sendo que matou doze deles, com idade entre 13 e 16 anos, e deixou mais de 22 feridos. Foi interceptado por policiais, mas cometeu suicídio antes de ser detido
Em seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas em 21 de setembro, defendeu o Estado Palestino ao dizer que “chegou o momento” daquele país se tornar um membro pleno da Organização das Nações Unidas (ONU). Também exaltou o papel das mulheres na política, declarando: - “Pela primeira vez na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o debate geral: é a voz da democracia”. Em novembro, sancionou a lei que instituiu a chamada “Comissão Nacional da Verdade” (CNV), um colegiado instituído pelo governo do Brasil para investigar as graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. As violações aconteceram no Brasil e no exterior, praticadas por agentes públicos, pessoas a seu serviço, com apoio ou no interesse do Estado brasileiro. A comissão foi composta de sete membros nomeados pela presidente do Brasil, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT) que foram auxiliados por assessores, consultores e pesquisadores e a Lei de Acesso à Informação, regulamentando o direito do acesso às informações públicas. Em seu 1° anos de mandato, sete ministros foram substituídos. Irritado, Nelson Jobim, ministro da Defesa, pediu demissão, após classificar o governo Dilma como “atrapalhado”. Em fevereiro de 2012, o governo federal leiloou os aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília. As concessionárias vencedoras irão administrar os aeroportos durante o prazo de concessão, que varia de vinte a até trinta anos. O governo arrecadou R$ 24 bilhões com os leilões. Também foram concessionados para a iniciativa privada trechos de rodovias e ferrovias federais. Dilma discursa durante abertura do “Rio+20”, 20 de junho de 2012. Dilma desfila no Rolls Royce com sua filha Paula na posse do 2° mandato como presidenta do Brasil.
Em maio de 2012, anunciou, em rede nacional de televisão, a criação do programa “Brasil Carinhoso”, com o objetivo de “tirar da miséria absoluta todas as famílias com integrantes de até quinze anos”. No mês seguinte, sancionou a Lei nº 12 677, criando mais de 70 mil cargos a serem preenchidos até 2014 na área educacional e, em agosto sancionou a lei que destina metade das vagas em universidades federais para estudantes de escolas públicas. Dilma manteve um alto índice de aprovação nos dois primeiros anos de seu mandato. A aprovação do governo nunca foi inferior a 48% de “ótimo” ou “bom” e sua avaliação pessoal atingiu a casa dos 70% diversas vezes. Estes índices deram-lhe melhor aprovação do que comparativamente ao mesmo período dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Em seu primeiro pronunciamento rede nacional de rádio e televisão em 2013, anunciou uma redução na conta de luz e declarou que “ao mesmo tempo, com a entrada em operação de novas usinas e linhas de transmissão, vamos aumentar em mais de 7% nossa produção de energia e ela irá crescer ainda nos próximos anos”. Em março, anunciou a desoneração de impostos federais sobre a cesta básica para “reaquecer” a economia.
Em junho de 2013, em meio à “onda de protestos” da população estimulada pelos meios massivos de comunicação que se espalharam por todo País sobre insatisfação relacionada aos Poderes Executivo e Legislativo, aliada a questões sobre condições de saúde, educação e segurança, geraram a maior queda na popularidade de Dilma Rousseff , que obteve queda maciça de 55% para 31%. A onda de protestos também atingiu negativamente a popularidade de governadores, prefeitos, deputados e da maioria dos partidos políticos do país. Em 21 de junho de 2013, um dia após a maior manifestação registrada nessa onda estimulada de protestos, Dilma cancelou uma viagem que faria ao Japão e convocou uma reunião de emergência. No mesmo dia, foi gravado um pronunciamento presidencial em que Dilma Rousseff anunciou a criação de cinco pactos e uma proposta de plebiscito para abertura de uma Constituinte para encaminhamento da Reforma Política. Em setembro de 2013, documentos do governo dos Estados Unidos da América (EUA) revelaram que Dilma e seus assessores, além de grandes empresas estatais como a Petrobrás - Petróleo Brasileiro S/A, foram espionados pelo governo norte-americano. Novos documentos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) vazados pelo ex-analista da agência Edward Snowden indicam que a Petrobras também teria sido espionada pelos estrategistas de petróleo norte-americanos.
Em 17 de setembro, Dilma cancelou a viagem oficial que faria aos EUA naquele ano. Em 24 de setembro, a presidente discursou na Assembleia Geral da ONU, onde declarou que “a espionagem fere a soberania e o direito internacional”. Ela classificou as denúncias como uma “grave violação dos direitos humanos e das liberdades civis” e uma “afronta aos princípios que devem guiar as relações entre os países”. Em fevereiro de 2015, uma reportagem do The New York Times denunciou que os programas de espionagem da NSA no Brasil e no México continuaram mesmo após as revelações ao público e o estremecimento das relações bilaterais. Em 21 de outubro de 2013, foi leiloado o “Campo de Libra”, considerado o maior campo de petróleo da Camada pré-sal. Naquele mesmo dia, a presidenta fez um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão negando que o leilão significava a privatização do petróleo brasileiro. Segundo ela, “o Brasil é – e continuará sendo – um país aberto ao investimento, nacional ou estrangeiro, que respeita contratos e que preserva sua soberania. Por tudo isso, o leilão de Libra representa um marco na história do Brasil”.
Em 27 de abril de 2014, sancionou o Marco Civil da Internet, que estabeleceu obrigações e direitos dos provedores de internet. Dilma discursou no fórum global NET mundial, realizado naquele mês, afirmando: - “Esse foi um processo virtuoso que nós levamos no Brasil. O nosso “Marco Civil” também foi valorizado pelo processo de sua construção. Por isso, gostaria de lembrar que ele estabelece princípios, garantias e direitos dos usuários”.  Em 10 de junho de 2014, dois dias antes do início da Copa do Mundo FIFA, Dilma pronunciou-se em rede nacional de televisão sobre o evento. No pronunciamento, a presidente defendeu o legado da Copa, declarando: - “No jogo, que começa agora, os pessimistas já entram perdendo. Foram derrotados pela capacidade de trabalho e a determinação do povo brasileiro, que não desiste nunca”. Entre junho de 2013 até a realização da Copa, vários protestos ocorreram contra a realização do evento no país. Dilma também foi alvo dos protestos estratégicos em pelo menos, duas vezes: 1) em seu Discurso de Abertura da Copa das Confederações pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) de 2013, recebeu muitas vaias da plateia, e, ; 2)  ao entregar a taça de campeã para a Alemanha, então vaiada pela torcida.
Vale lembrar que nascida em 27 de março de 1976, em Porto Alegre, Paula Rousseff é a única filha de Dilma e de seu ex-marido, Carlos Araújo. Paula graduou-se em Direito e é funcionária pública federal concursada ocupando o cargo de Procuradora do Trabalho em sua cidade natal. Casada, 39 anos, mãe e procuradora do trabalho no Rio Grande do Sul. Essa é Paula Rousseff Araújo, que, como o sobrenome famoso já entrega, é filha da presidente Dilma Rousseff. Ela é discreta, evita se expor publicamente e, em geral, só é vista em algumas solenidades oficiais da mãe, como no primeiro dia do ano, quando desfilou em carro aberto com Dilma na cerimônia de posse do segundo mandato da presidente. Paula Rousseff entrou no Ministério Público do Trabalho (MPT) do Rio Grande do Sul em 2003, por meio de concurso público de provas e títulos e exerce a função em Porto Alegre. Funcionários do ministério evitam dar detalhes sobre o comportamento da colega de trabalho, muito menos se atrevem a confirmar se a filha herdou o comportamento disciplinado reconhecido da mãe. - “Ela tem fama de ser uma procuradora muito competente”, destaca uma fonte sigilosa ouvida pela reportagem do R7. Ela é casada, desde 2008, com o administrador de empresas Rafael Covolo. Em 9 de setembro de 2010, Paula deu à luz o primeiro neto de Dilma, Gabriel Rousseff Covolo, nascido em Porto Alegre, enquanto  e a avó em campanha presidencial. No primeiro turno, após o último debate entre os quatro principais candidatos, em 30 de setembro, na cidade do Rio de Janeiro, Dilma viajou para Porto Alegre para o batismo de Gabriel em 1° de outubro de 2010. Presidente Dilma Rousseff discursa na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas.
É considerada dona de temperamento explosivo, é acusada por parte da imprensa de ter “destratado colegas de sua pasta”, nomeadamente o ministro Paulo Bernardo, na frente dos governadores tucanos José Serra e Aécio Neves. Oh! é acusada de “ter feito chorar” o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, depois de uma reprimenda, pasmem, “via telefone”. Segundo o parcial jornal carioca O Globo, o secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, Luiz Antônio Eira, teria pedido demissão devido a um desentendimento com ela, em que teria se sentido humilhado; Dilma, porém, nega que o tenha destratado, afirmando: “Sou uma mulher dura cercada por ministros meigos”. As supostas atitudes agressivas de Dilma, porém, garantiriam seu prestígio diante de Lula, que pondera que seu comportamento mais ajuda do que atrapalha: seu temperamento se convertia na eficiência para resolver problemas sem soluções, inclusive alguns vindos da gestão de José Dirceu. O vice-presidente da República considerava o temperamento da ministra dedicado e sério, assim como bravo. Foi senador pelo estado de Minas Gerais de 1999 a 2002.
            José Alencar Gomes da Silva foi um empresário e político brasileiro. Foi o 23° Vice-presidente do Brasil, de 1 de janeiro de 2003 até 1 de janeiro de 2011. . Elegeu-se vice-presidente da República Federativa do Brasil na chapa do candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, conseguindo a reeleição em 2006, assegurando, portanto, a permanência no cargo até o final de 2010. Para ele, profundo conhecedor do eleitorado brasileiro, veria nesse temperamento de Dilma Rousseff, muito das  qualidades excepcionais que necessitamos para o comando do país. Sobre seu temperamento, Dilma Rousseff responde: - “O difícil não é meu temperamento, mas minha função. Eu tenho de resolver problemas e conflitos. Não tenho descanso. Não sou criticada porque sou dura, mas porque sou mulher. Sou uma mulher dura cercada por ministros meigos”.
          Enfim, a expressão “América Latina” foi utilizada pela primeira vez em 1856, pelo filósofo chileno Francisco Bilbao e, no mesmo ano, pelo escritor colombiano José María Torres Caicedo; e aproveitada pelo imperador francês Napoleão III durante sua invasão francesa no México como forma de incluir a França - e excluir os anglo-saxões - entre os países com influência na América, citando também a Indochina como área de expansão da França na segunda metade do século XIX. Deve-se também observar que na mesma época foi criado o conceito de “Europa Latina”, que englobaria as regiões de predomínio de línguas românicas. Pesquisas etnográficas sobre a origem da expressão conduzem, ainda, a Michel Chevalier, que mencionou o termo “América Latina” em 1836, durante uma missão diplomática feita aos Estados Unidos e ao México. As antigas colônias neerlandesas e, atualmente, países constituintes do Reino dos Países Baixos, Curaçao, Aruba e São Martinho não são habitualmente consideradas partes integrantes da América Latina, embora a sua língua mais falada seja o “papiamento”, língua de influência ibérica, embora não considerada latina.
A 1ª mulher eleita na América Latina foi Violeta Barros, em 1990, na Nicarágua. Apesar da importância da eleição, ela é conhecida como Violeta Chamorro, sobrenome do marido - pela maioria das pessoas e é lembrada como viúva do jornalista Pedro Joaquín Chamorro, assassinado pela ditadura que assolava o país. Ou seja, a primeira mulher eleita para uma Presidência na América Latina “precisa ter a memória vinculada a um homem”. A 2ª mulher a presidir um país latino-americano foi Mireya Moscoso, que governou o Panamá entre 1999 e 2004. Em todas as biografias, Mireya “é descrita como esposa do Presidente Arnulfo Arias Madrid”. Michelle Bachelet foi eleita em 2006 para governar o Chile. Ela é a 1ª mulher a presidir o Chile pela segunda vez, desde a ditadura do general Augusto Pinochet. As referências de “esposa” e “viúva” também são usadas para Cristina Kirchner, que governa a Argentina desde 2007. O mandato termina em 2015 e ela não poderá se candidatar novamente, de acordo com Constituição do país. A 5ª Presidenta eleita na América Latina venceu as eleições de 2010, assim como Dilma Rousseff. Laura Chinchilla presidiu a Costa Rica até maio deste ano. Antes de ocupar o cargo, ela já havia sido vice de Óscar Arias Sanchez. Dilma Rousseff é a 1ª mulher a governar o Brasil, vencendo as eleições de 2010 e 2014, sucessivamente. Lembra-nos os versos de Cora Coralina quando afirma: - “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir”.
Bibliografia geral consultada.            

ALTHUSSER, Louis, “Idéologie et Appareils Idéologiques d`Etat. Notes pour une Recherché”. In: La Pensée, n° 151, 1970; ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon, Instituições e Poder. A Análise Concreta das Relações de Poder nas Instituições. Tese de Livre Docência. Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1980; CORREA, Mariza et alii, Colcha de Retalhos. Estudos sobre a Família no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; BATISTA, Nilo, Punidos e Mal Pagos. Rio de Janeiro: Editor Revan, 1990; MARTOCCIA, María, Corpos Frágeis, Mulheres Poderosas. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003; COTRIM, Lívia Cristina de Aguiar, Marx: Política e Emancipação Humana 1848-1871. Tese de Doutorado.  Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007; BERNARDES, Walkyria Wetter, A Constituição Identitária Feminina no Cenário Político Brasileiro pelo Discurso Midiático Globalizado: Uma Abordagem Discursiva Crítica. Tese de Doutorado. Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas. Brasília: Universidade de Brasília, 2009; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; MENSPIVA, Otávio, Presidencialismo Sem Coalizão: A Ruptura do Modelo de Relacionamento entre Poderes no Governo Collor. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2010; OLIVEIRA, Elza Aparecida de; RUGGI, Lenita, “Batom na Primeira Página: A Vitória de Dilma Rousseff noticiada pelos Jornais Brasileiros”. In: XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2011; MESQUITA, Lucas Ribeiro, Itamaraty, Partidos Políticos e Política Externa Brasileira: Institucionalização de Projetos Partidários nos Governos FHC e Lula. Dissertação de Mestrado em Ciência Política. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2013; DANTAS, Fernanda Argolo, Dilma Rousseff: Trajetória e Imagem da Mulher no Poder. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2014; Artigo: “Golpe de Estado em Burkina Faso deixa 10 mortos e mais de 100 feridos”. Dispopnível em: https://g1.globo.com/mundo/2015/09/; SPECK, Bruno Wilhelm, Inovação e Rotina no TCU: O Papel da Instituição Superior de Controle Financeiro no Sistema Político-administrativo do Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Konrad Adenauer, 2000; entre outros.

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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).  

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Photographie de Rue, Imagens & Ensaios de Robert Doisneau.

Ubiracy de Souza Braga*

                                                                     “Describir es destruir, sugerir es crear”. Robert Doisneau

   

No ano do centenário de seu nascimento, Robert Doisneau (1912-1994) ganhou Mostra inédita no Brasil (RJ). Originalmente formado em litografia, Doisneau abraçou em 1929 “um novo interesse como fotógrafo autodidata”. Via a fotografia como o meio ideal de registar a vida durante os seus passeios por Paris. A sua carreira como fotógrafo começou em 1934 na fábrica da Renault em Billancourt, onde esteve empregado “como fotógrafo industrial e de publicidade”. Em 1939, decidiu tornar-se “fotojornalista independente”, mas a guerra mundial forçou-o a desistir do sonho de vir a trabalhar por conta própria. Serviu o exército francês em 1940 e daí até ao fim da guerra trabalhou para a Resistência. Mas mesmo assim não desistiu de trabalhar como fotógrafo, fazendo postais para ganhar a vida. Em 1949, Doisneau assinou contrato com a revista Vogue, para a qual trabalhou como fotógrafo em tempo integral até 1952 e, desde então, como independente. Mas não entrou para os anais da fotografia como “fotógrafo de moda”. Tornou-se famoso com a Photographie de Rue, objeto de nosso ensaio. Em inúmeros instantâneos, documentou com humor e empatia a vida social nos subúrbios de Paris. A sua fotografia mais famosa é “Beijo em frente ao Palácio da Câmara Municipal”, que se tornou um ícone “do amor jovem e violento numa grande cidade”. Robert Doisneau nasceu em Gentilly, perto de Paris, em 1912 e morreu em Paris em 1994.

Robert Doisneau nasceu em Gentilly, em 14 de abril de 1912 e faleceu em Paris, em 1º de abril de 1994. Foi um famoso fotógrafo nascido na cidade de Gentilly, Val-de-Marne, na França. Era um apaixonado por fotografias de rua, registrando a vida social das pessoas que viviam em Paris e em seus arredores. Doisneau é reconhecido mundialmente por sua imagem de 1950, Le baiser de l`hôtel de ville (“O Beijo da Prefeitura”), uma fotografia de um casal se beijando em uma movimentada rua parisiense. Ele foi nomeado Chevalier (“Cavaleiro”) da Legião de Honra em 1984 pelo então presidente francês, François Maurice Adrien Marie Mitterrand, nascido em Jarnac, em 26 de outubro de 1916 e falecido em Paris, em 8 de janeiro de 1996.  Foi presidente da França, de 1981 até 1995. Detém atualmente o recorde de longevidade (14 anos) na presidência da República Francesa. Foi o primeiro presidente da República e um dos dois únicos, junto com François Hollande oriundos do partido Socialista. Sob sua presidência foi abolida a pena de morte em 1981. A 29 de Setembro de 1983 recebeu o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique e a 28 de outubro de 1987 recebeu o Grande-Colar da Ordem da Liberdade (PT). Seu mandato encerrou-se em maio de 1995, sucedido por Jacques Chirac. Morreu de câncer logo depois, em 8 de janeiro de 1996.

Em janeiro de 1947 assume o ministério dos antigos combatentes, tornando-se o ministro mais jovem da história da França, aos 30 anos. Suas atividades políticas foram marcadas pela oposição à Charles de Gaulle, contra quem concorreu nas eleições presidenciais de 1965, chegando a conseguir um segundo turno, mas saiu derrotado por 55,20% dos votos contra os 44,80%. Em 1974 enfrentou Valéry Giscard d’Estaing nas eleições, perdendo o pleito por 49,19% à 50,81%. Após tentar a presidência em duas ocasiões (1965 e 1974), foi eleito em 1981, sendo o primeiro presidente socialista eleito em seu país. Houve intensa comemoração nas ruas de Paris, na mesma noite do anúncio de sua vitória, em 10 de maio. Foi reeleito em 1988. Em seus dois mandatos, Mitterrand conseguiu abolir a pena de morte, nacionalizar 5 grupos industriais e 39 bancos, estabelecer a aposentadoria aos 60 anos, descriminalizar a homossexualidade, promover o fim do monopólio estatal da radiodifusão, inaugurar o Musée d’Orsay, o Instituto Árabe, a pirâmide do Louvre e a pedra fundamental da Biblioteca Nacional, reforçar a relação franco-alemã, consolidar a Comunidade Europeia e criar a UE com o Tratado de Maastricht em 1992.

 
         
Fotografia do grego φως [fós] (“luz”), e γραφις [grafis] (“estilo”, “pincel”) ou γραφη grafê, significa sociologicamente: “desenhar com luz e contraste”, por definição, “é essencialmente a técnica de criação de imagens por meio de exposição luminosa, fixando-as em uma superfície sensível”. A primeira fotografia reconhecida socialmente remonta ao ano de 1826 e é atribuída ao francês Joseph Nicéphore Niépce. Contudo, compreende-se que a invenção da fotografia não é obra de um só autor. Mas um processo de acúmulo de avanços por parte da interpelação de muitas pessoas, trabalhando, juntas ou em paralelo, ao longo de muitos anos. Se por um lado os princípios fundamentais da fotografia se estabeleceram há décadas e, desde a introdução do filme fotográfico colorido, quase não sofreram mudanças, por outro, os avanços tecnológicos têm sistematicamente possibilitado melhorias na qualidade técnica e visual das imagens produzidas no processo social de produção com a redução de custos, popularizando o uso no mercado da fotografia. A primeira fotografia colorida permanente foi tirada em 1861 pelo físico James Clerk Maxwell. O primeiro filme colorido, o Autocromo, não chegou ao mercado global antes de 1907 e era baseado em pontos tingidos de extrato de batata.  O primeiro filme colorido moderno, o Kodachrome, foi introduzido em 1935 baseado em três emulsões coloridas. A maioria dos filmes coloridos contemporâneos, exceto o Kodachrome, são baseados na tecnologia desenvolvida pela Agfacolor produzida na Alemanha pela companhia Agfa em 1936. O filme colorido instantâneo foi introduzido pela Polaroid em 1963.
 
                              Robert Doisneau, “The Fallen Horse”, Paris, 1942.                                   
            Dessa forma, a fotografia, à medida que se torna uma experiência cada vez mais pessoal, deverá ampliar, através dos diversos perfis de fotógrafos amadores ou profissionais, o já amplo espectro de significado da experiência de se conservar um momento em uma imagem. A fotografia não é a obra final de um único criador. Historicamente diversas pessoas foram agregando conceitos e processos que deram origem à fotografia como a conhecemos nos dias de hoje. O mais antigo destes conceitos foi o da “câmara escura”, descrita pelo napolitano Giovanni Baptista Della Porta, já em 1558, e conhecida por Leonardo da Vinci que a usava, como outros artistas no século XVI para esboçar pinturas. O cientista italiano Angelo Sala, em 1604, percebeu que um composto de prata escurecia ao Sol, supondo que esse efeito fosse produzido pelo calor. Foi então que, Johann Heinrich Schulze fazendo experiências com ácido nítrico, prata e gesso em 1724, determinou que fosse a prata halógena, convertida em prata metálica, e não o calor, que provocava o escurecimento.
Metodologicamente, a primeira fotografia reconhecida é uma imagem produzida em 1826, pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, numa placa de estanho coberta com um derivado de petróleo fotossensível chamado “Betume da Judeia”. A imagem foi produzida com uma câmera, sendo exigidas cerca de oito horas de exposição à luz solar. Nièpce chamou o processo de “heliografia”, gravura com a luz do Sol. Paralelamente, outro francês, Daguerre, produzia com uma câmera escura efeitos visuais em um espetáculo denominado “Diorama”. Daguerre e Niépce trocaram correspondência durante alguns anos, vindo finalmente a firmarem sociedade. Após a morte de Nièpce, Daguerre desenvolveu um processo com vapor de mercúrio que reduzia o tempo de revelação de horas para minutos. O processo foi denominado “daguerreotipia”. Daguerre descreveu seu processo à Academia de Ciências e Belas Artes, na França e logo depois requereu a patente do seu invento na Inglaterra. A popularização dos daguerreótipos deu origem às especulações teóricas e práticas sobre a possibilidade do “fim da pintura”, inspirando o Impressionismo. Contudo, lembramos que, em 1840, aos 14 anos, dom Pedro II foi coroado imperador do Brasil. No mesmo ano, conheceu o daguerreotipo, aparelho criado pelo francês Daguerre para registrar imagens.

 Pedro II pode ter sido o primeiro fotógrafo brasileiro: o abade Louis Compte trouxe a novidade de Paris e mostrou-a ao jovem, que, impressionado, logo encomendou o seu. A paixão pela fotografia foi fulminante. Pedro II estava sempre retratando pessoas, paisagens e a realidade da família real. Para exaltar os amantes dessa arte, criou o título de Photographo da Casa Imperial. Entre 1851 e 1889, dezenas de fotógrafos receberam a homenagem. Anos mais tarde, em 1876, resolveu passear mundo afora. Foram 18 meses de viagem, quatro continentes e mais de 100 cidades visitadas. Além dos registros fotográficos próprios, contratou um fotógrafo particular. A coleção do monarca, a essa altura, já tinha 25 mil peças. Em 1889, com a Proclamação da República, dom Pedro II foi expulso do país. Sem mágoas, doou à Biblioteca Nacional seu arquivo, com quase 30 mil fotos. O acervo ficou aparentemente esquecido por mais de 100 anos, pois somente em 1990 os arquivos foram abertos ao público e estão acervados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
A grande maioria das imagens do Império eram compostas de litogravuras, pinturas, esculturas e aquarelas, a partir, sobretudo do início dos anos 1860, torna-se cada vez mais nítido o predomínio do material fotográfico. A explicação da inovação tecnológica está vinculada de maneira direta a d. Pedro II, que não foi só um incentivador dessa técnica, como se tornou ele próprio um fotógrafo: o primeiro fotógrafo brasileiro, o primeiro soberano-fotógrafo do mundo. O pioneirismo do soberano se evidencia já quando da concessão de seu imperial patrocínio a um fotógrafo, em 8 de março de 1851. Nessa época conferiu o título de Fotógrafos da Casa Imperial a Buvelot & Prat, antecipando-se dois anos à rainha Vitória. Na verdade o colonizador d. Pedro fará da fotografia “o grande instrumento de divulgação de sua imagem: moderna como queria que fosse o reino” (cf. Schwarcz, 2007: 345).
O Jornal do Commércio de 17 de janeiro de 1840 noticia de maneira eufórica a nova técnica:
                   
     Creatures of Dreams, Rue Mouffetard, Paris, 1952.
“Finalmente passou do daguerreotipo para cá os mares e a fotografia que até agora só era conhecida no Rio de Janeiro por teoria (...). Hoje de manhã teve lugar na hospedaria Pharoux um ensaio fotográfico tanto mais interessante, quanto é a primeira vez que a nova maravilha se apresenta aos olhos dos brasileiros (...) preciso ver a coisa com seus próprios olhos para se fazer ideia da rapidez e do resultado da operação. Em menos de nove minutos o chafariz do Largo do Paço, a praça do Peixe, o mosteiro São Bento (...) se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a coisa tinha sido feita pela própria natureza, e quase sem a intervenção do artista” (cf. Schwarcz, 2007: 346).
            O mito da fidedignidade, o fascínio de apreensão do real, que parece se revelar por meio da fotografia, encorar a carga conotativa, sempre presente nessa técnica, que recortava a realidade pelo olho do fotógrafo. Mas de toda maneira, numa era de certezas e de positividades, a fotografia era incorporada à memória individual e coletiva como um exemplo de perfeição da representação do social. Em meio a uma sociedade em boa parte iletrada, sob a égide do trabalho escravo, as suas potencialidades são rapidamente percebidas. Entre nós no Brasil, entre 1840 e 1855, diversas capitais foram visitadas por daguerrreotipistas itinerantes, que também fizeram incursões pelo interior, à procura de clientes na aristocracia rural.  O resultado é revelador da feição peculiar da nobreza brasileira, muitas vezes escondida em seus casarões de fazenda. A foto tornava-se, então, não só símbolo da modernidade como marca de status e de civilização; uma distinção nas mãos de poucos.
Assim, se os usos e funções políticas da fotografia do século XIX tenderam a se expandir, de outro modo dialogaram com o imaginário individual e coletivo, que por meio dela reproduziam imagens e paisagens - como o fez Marc Ferrez a partir da década de 1870. Grandes fotógrafos se consagraram no Brasil, como H. Florence e Victor Frond, ou mais tarde Marc Ferrez, além de uma série de firmas que aqui se instalaram, prometendo maravilhas para essa corte encantada com os avanços europeus. Muitos se fizeram fotografar, contudo nenhuma outra família gastou tanto quanto a Casa Imperial. Era inclusive comum encontrar nos jornais anúncios em que os profissionais expunham sua condição de “fotógrafos da família imperial”, como chamariz para outros clientes. 
O britânico William Fox Talbot, que já efetuava pesquisas com papéis fotossensíveis, ao tomar conhecimento dos avanços de Daguerre, em 1839, decidiu apressar a apresentação de seus trabalhos à Royal Institution e à Royal Society, “procurando garantir os direitos sobre suas invenções”. Talbot desenvolveu um diferente processo denominado “calotipo”, usando folhas de papel cobertas com cloreto de prata, que posteriormente eram colocadas em contato com outro papel, produzindo a imagem positiva. Este processo é muito parecido com o processo fotográfico em uso hoje, pois também produz um negativo que pode ser reutilizado para produzir várias imagens positivas. À época, Hippolyte Bayard também desenvolveu um método de fotografia. Porém, por demorar a anunciá-lo, não pôde mais ser reconhecido como seu inventor.
A fotografia então se popularizou como produto de consumo a partir de 1888. A empresa Kodak abriu as portas com um discurso mercadológico de marketing tornando-a mercadoria que, na definição de Marx, “é a célula econômica da sociedade capitalista”, onde todos podiam tirar suas fotos, sem necessitar de fotógrafos profissionais com a introdução da câmera tipo “caixão” e pelo filme em rolos substituíveis criados por George Eastman. Desde então, o mercado fotográfico tem experimentado uma crescente evolução tecnológica, como o estabelecimento do filme colorido como padrão e o foco automático, ou exposição automática. Essas inovações indubitavelmente facilitam a captação da imagem, melhoram a qualidade de reprodução ou a rapidez do processamento técnico, mas muito pouco foi alterado nos princípios básicos ou essenciais da fotografia.

La Lessive du Marinier. Paris, 1961.

 A grande mudança relativamente recente, produzida a partir do final do século XX, deu-se com o processo de digitalização dos “sistemas fotográficos”. A fotografia digital mudou paradigmas no “mundo da fotografia”, em termos de concepção e execução, minimizando custos, reduzindo etapas, acelerando processos e facilitando a produção, manipulação, armazenamento e transmissão de imagens pelo mundo globalizado. Paradigma para nós é a representação de um padrão a ser seguido. É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas. No caso técnico-científico serve enquanto aperfeiçoamento da tecnologia de reprodução de imagens digitais e, ipso facto, tem quebrado barreiras de restrição em relação a este sistema por setores que ainda prestigiam o tradicional filme, last but not least e assim, irreversivelmente ampliando o domínio da fotografia digital.
                Para o que nos interessa, Robert Doisneau começou sua carreira como fotógrafo publicitário nas fábricas da Renault. Após ser demitido, em 1939, recebeu um convite do fundador da Agência Rapho, Charles Rado, para trabalhar como “fotógrafo independente”. No entanto, nos anos seguintes, muitos de seus projetos foram interrompidos com a eclosão da Segunda Guerra. Doisneau torna-se, então, membro da Resistência francesa, como soldado e fotógrafo oficial. Grande parte dessas imagens, apresentadas em uma das sessões do livro Paris Doisneau, são flagrantes de personagens anônimos durante a Ocupação e, mais tarde, a Liberação francesas. Após a Guerra, Doisneau retoma seu trabalho na Rapho e realiza projetos para revistas: Vogue Life e Paris Match. Essas e outras cenas, submetidas à uma escolha minuciosa de enquadramentos, denotam o olhar intuitivo e comovente de um flâneur apaixonado pela cidade de Paris. Durante toda a sua trajetória, Robert Doisneau nunca teve receio de compor seu próprio universo, com o único desejo de fixar aquilo que acreditava estar em vias de desaparecer, registrando a lembrança do pequeno teatro fabricado por seu olhar.
Doisneau foi um dos fotógrafos mais populares da França. Era conhecido por sua modéstia e imagens irônicas, misturando as classes sociais das ruas e cafés de Paris. Influenciado pela obra Atget, de Kertész e Cartier Bresson, Doisneau, como veremos adiante, apresentou em mais de vinte livros uma visão encantadora da fragilidade humana e da vida como uma série de momentos calmos e incongruentes. Eugène Atget (1857-1927) foi um fotógrafo francês, hoje tido como um dos mais importantes fotógrafos da história. Passou toda a vida em Paris. Pioneiro, revolucionou a fotografia com seu olhar desviado do ser humano. Fotografava o vazio das ruas parisienses, e objetos inusitados. Ficou órfão ainda criança e foi criado e educado por um tio. Tornou-se marinheiro, viajando por rotas americanas. Posteriormente optou pela carreira de ator. Foi estudar em um conservatório em 1879, deixando-o em 1881 e partindo com uma pobre companhia de teatro que atuava nas redondezas e subúrbios de Paris.
Atuou em papéis insignificantes e desiludiu-se com a profissão. Em 1889 dedicou-se a pintura e acabou desenvolvendo tal capacidade de observador que se tornou fotógrafo aos 40 anos de idade. Inovador foi o precursor da fotografia moderna em Paris. Especializou-se em vistas cotidianas e postais parisienses, pois conhecia cada canto de sua cidade natal. Reproduzia quadros e fornecia material de referência para seus colegas pintores. No entanto, se A câmara clara pode ser lida como outra “Pequena história da fotografia”, isso se deve também, segundo Batchen, ao que ela significa em seu momento. De fato, quando foi escrito, no final de 1979, a fotografia já estava institucionalizada como objeto histórico e prática profissional, e o livro de Barthes soou como último testemunho que “associam intimamente a fotografia à história, e as suas pequenas histórias como a sua própria experiência de fotografias reais, como se o destino de uma dependesse da forma da outra”. Nesta perspectiva, Barthes acaba por condenar o pensamento dialético de Walter Benjamin “na esteira de pensamento de Benjamin, a discursos fotográficos, condenação é plena e inteira”.

Imagem: Le baiser de l`hôtel de ville (Kiss by the Town Hall).

Para esse autor não há nenhuma referência clara ao ensaio de Benjamin. A única referência – e, de maneira explícita – aparece em uma entrevista concedida por Barthes em 1977 e publicada em 1980 em que ele afirma que, entre os raros textos dignos de nota está o de Benjamin. Nada habilita a constatar que ele referendava Pequena História da Fotografia ou, A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica. O seu julgamento a respeito do texto de Benjamin é de que ele é “bom por ser premonitório”. Estas palavras de Barthes parecem, enfim, sugerir que o texto benjaminiano tem, sobretudo, valor histórico. De outro ponto de vista, Barthes inverte a tese. Segundo Benjamin, o anjo da história caminha para trás no futuro, nas vidas por vir, mais do que na morte. Já o caminho escolhido por Barthes para falar de fotografia foi de remontar os escombros do passado: “Impulsionado pelo progresso, ele contempla os escombros de um passado.” 
Elementos que afastam Benjamin de Barthes destacam Jean-Claude Milner que Barthes diz não à história - uma invenção moderna tal como a fotografia - para dizer sim à fotografia como arte técnica que congela o tempo, faz do instante algo infinito: reproduz mecanicamente algo que não poderá mais se reproduzir existencialmente. Este posicionamento barthesiano diante da fotografia vem ao encontro ao pensamento de Walter Benjamin desenvolvido em ensaio célebre: A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, pois para Barthes o que se inaugura na era da reprodutibilidade técnica – notadamente para o mundo da fotografia - nada altera em relação ao que era considerado como obra de arte até então, visto que, “o que se fotografa não deixa de se tornar o que é - único”. O que se fotografa se torna irrepetível, embora reproduzível ao infinito. Para Barthes a fotografia parece não perder o conceito benjaminiano de “aura”, pois, ela sempre - por mais reproduzida que a fotografia vem a ser - será o registro de um instante único: o escândalo barthesiano em torno de A Câmara Clara.
Enfim, são os textos de Sontag, Sobre fotografia, e de Barthes, A câmara clara, que coroam uma reflexão apurada de interpretação do dispositivo fotográfico como um mecanismo que evoca uma reflexão “sobre a fugacidade da experiência, sobre a morte”, ao notarem claramente a relação da prática fotográfica e da fotografia com a morte. Barthes considera talvez a fotografia uma imagem que produz a morte; Sontag discorre sobre o significado da fotografia na cultura contemporânea, ressaltando aspectos como: o aparelho fotográfico como arma, a prática fotográfica como caçada. Remete a essa ideia de imagem secular, intimamente relacionada à passagem do tempo e ao “fetichismo da mercadoria” de Marx. Lembra Miguel Frade, quando se põe a pensar outro tempo da fotografia: do pioneirismo e do espanto que representava ainda ao olhar o processo para obter uma fotografia. 
Bibliografia geral consultada.

DELEUZE, Gilles, “Qu’est-ce qu’un dispositif?” in Michel Foucault Philosophie. Rencontre Internationale. Paris, 9,10, 11 janvier, 1988. Paris: Seuil, 1989; FREUND, Gisèle, Fotografia e Sociedade. Mafra: Editora Vega, 1995; MIRZOEFF, Nicholas, An Introduction To Visual Culture. Londres: Routledge, 1999; SOUGEZ, Marie-Loup, História da Fotografia. Lisboa: Editora Dinalivro, 2001; GURAN, Milton, Linguagem Fotográfica e Informação. 3ª edição. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 2002; TÀPIES, Antoni, A Prática da Arte. Lisboa: Edições Cotovia, 2002; SONTAG, Susan, On Photography. Londres: Penguin Books, 2002; SOUSA, Jorge Pedro, Uma História Crítica do Fotojornalismo Ocidental. Chapecó: Editora Argos, 2004; KOSSOY, Boris, Fotografia e História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003; BARTHES, Roland, A Câmara Clara. Lisboa: Edições 70, 2005; SCHWARCZ, Lilia Moritz, “Homens (e a Corte) ao Mar: O Relato de uma Aventura”. In: O`NEIL, Thomas, A Vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007;  ROUILLÉ, André, A Fotografia entre Documento e Arte Contemporânea. São Paulo: Editora Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, 2009; KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, “O Imaginário Urbano sobre Fotografia e Morte em Belo Horizonte, MG, nos Anos Finais do Século XX”. In: Varia Hist., Jun. 2006, vol.22, n° 35, pp.100-122; Idem, “Estilos de Vida e Individualidade”. In: Horiz. Antropol., Jun. 2010, vol.16, n° 33, pp.41-53; SOARES, Paula de, Entre o Documental e o Estético: A Fotografia de Guerra de Robert Doisneau. Dissertação de Mestreado. Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem. Instituto de Letras. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2014; SIMON, Roberta, “Robert Doisneau e as Perversões do Romantismo - Não fotografo o mundo como ele é, mas como eu gostaria que ele fosse”. In: INTERCOM - XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro, 4 a 7 de setembro de 2015; entre outros.  

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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).