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sábado, 1 de março de 2025

Amor Não Tem Preço: Sinceridade, Paramedicina & Saber Filantrópico.

         “Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor”. William Shakespeare 

        A filantropia designa, em geral, o amor à espécie humana e a tudo o que diz respeito à humanidade, expresso na ajuda altruísta ao próximo. A palavra vem do grego φίλος (amor) e άνθρωπος (homem), e significa “amor à humanidade”. O seu antônimo é a misantropia. Os donativos a organizações humanitárias, pessoas, comunidades, ou o trabalho para ajudar os demais, direta ou indiretamente através de “organizações não governamentais sem fins lucrativos”, assim como o chamado “trabalho voluntário” para apoiar instituições que têm o propósito específico de ajudar os seres vivos humanos e melhorar as suas vidas, são considerados atos filantrópicos. O trabalho voluntário (cf. Wilson, 2000; Georgeou, 2012) ou voluntariado, é ato de fato o desenvolvimento de trabalho voluntário individual ou por um grupo de indivíduos que “doam livremente” seu tempo e trabalho social para o serviço comunitário. Muitos são treinados especificamente nas áreas em que sabem e trabalham, comumente na medicina, educação ou resgate de emergência, e necessidade em resposta a um “desastre natural”. 

        Instituições de ensino filantrópicas são mantidas por entidades sem fins lucrativos, que desempenha atividades, paralelas ou em conjunto com o Estado, sem remuneração, diferente das instituídas com fins lucrativos que são mantidas por uma ou mais pessoas físicas e/ou jurídicas de direito privado, que se constituem em entidades comerciais, sendo esta missão maior, não sendo obrigadas a fazer atividades de cunho beneficente, embora, se quiserem, possam lhes desempenhar. Um playboy é uma representação jornalística de “estilo de vida” ou estereótipo, associado a homens jovens, solteiros, com intensa vida social e relações com mulheres. No Brasil, o termo adquiriu um sentido pejorativo, degradante, para designar homens bem-nascidos e exibidos, que não trabalham e esnobam outras pessoas. É usado como um estereótipo de insulto, muitas vezes também referenciado como um “filhinho de papai”, ou, melhor dizendo, pessoas que não trabalham e vivem às custas dos pais. O termo inglês playboy é formado pela junção dos termos play (brincar, se divertir) e boy (moço, garoto). Portanto, playboy significa, literalmente, “menino de diversão”. O termo foi criado no início da década de 1950 quando os Estados Unidos da América passavam por grande onda de prosperidade. Homens filhos de famílias que haviam enriquecido começaram a dedicar seu “tempo integral a festas, relacionamentos e a esbanjar dinheiro”. Em 1953, uma reportagem do New York Times foi a primeira referência a eles, descrevendo como era a vida dos jovens ricos da cidade. 

            A revista Playboy foi criada pensando em difundir esse estilo de vida. Na década dos anos 1960, os playboys eram homens ou jovens que, através de herança das gerações passadas, viviam “a vida como uma grande festa” e estavam quase sempre namorando as filhas de outros milionários. Utilizavam roupas finas apenas para a conquista de mulheres e não para a vivência do círculo social de determinada elite social. Ser playboy era gozar de uma vida de diversão. Eram ricos per se o prazer material, e não conviviam com contatos milionários e nem seguiam as regras comportamentais da alta classe econômica. No final do século XX, com a massificação da cultura pop, a representação sociológica de um playboy passou a significar “um jovem na faixa dos 13 aos 25 anos que dirige carro, pratica esporte, e é cobiçado pelas meninas de seu círculo social”. Esse estereótipo foi reforçado com a divisão internacional do trabalho em vários filmes e séries de TV. Em Amor Não Tem Preço (2019), interagimos com o romance da paramédica Lilly Springer (Adelaide Kane) com o playboy Jeff Alexander (Ben Hollingsworth) que através da filantropia desenvolve a prática de ajudar o próximo, por meio de ações solidárias e altruístas, para melhorar as condições sociais e promover os laços de bem-estar no âmbito dos seres humanos. 

Apesar de ela achá-lo um rapaz “metido mimado”, em um primeiro momento de aproximação, “faíscas voam” e sensações relacionadas ao trabalho e ambos se verão forçados a domar seus instintos para fazerem com que o relacionamento tenha êxito. Enquanto Lilly tenta aprender a confiar nele, Jeff terá que demonstrar que é mais do que um socialite. Melhor dizendo, se o termo socialite foi introduzido na língua inglesa em 1928, pela revista Time, com o sentido de “pertencente à alta sociedade”, grande parte das chamadas socialites envolviam-se em trabalhos filantrópicos. A Time tem a maior circulação social do mundo contemporâneo para uma revista semanal de notícias e tem um público de 26 milhões de pessoas, 20 milhões das quais baseadas nos Estados Unidos da América. Socialite historicamente é uma palavra inglesa que designa “uma pessoa de destaque” nas camadas, por assim podermos nos referir, aos mais altos níveis da estratificação de toda e qualquer sociedade, e frequentemente muito citada nas colunas sociais por participar de eventos midiáticos públicos, como programas beneficentes, festivos, culturais, tornando-se pública e famosa por suas aparições sociais. Geralmente tem meios para manter um padrão de consumo identificado com o da elite.  

O nome “Coluna” surgiu em virtude da diagramação original dos textos não-noticiosos publicados regularmente em espaço predeterminado no jornal. Nos periódicos do século XIX, tudo que não era notícia era diagramado numa única coluna vertical, de alto a baixo da página, à parte do resto do conteúdo — exceto pelos folhetins, que eram publicados geralmente na parte inferior da primeira página, ocupando todas as colunas da esquerda até a direita. Com o passar do tempo, os textos de colunas deixaram de ser limitados a uma coluna de diagramação e passaram a ter qualquer formato, mas mantendo o caráter de informações curtas, em notas, ou observações do cotidiano, em linguagem de crônica. O colunista é a categoria social um profissional do jornalismo que trabalha escrevendo regularmente para veículos de comunicação, isto é, jornais, revistas, rádio, TV, websites, produzindo textos não necessariamente noticiosos denominados colunas. Um tipo muito comum na esfera da vida social de colunismo é a Coluna Social, que consiste em reunir informações hic et nunc, nem sempre compreendidas sob a forma de notícias sobre personalidades de uma cidade, região ou país. Colunistas sociais trabalham “caçando”, na falta de melhor expressão, notas sobre artistas, celebridades, milionários, figuras excêntricas, autoridades em geral. Este tipo de trabalho é vezes criticado por borrar, manchar, o limite entre jornalismo e boataria. Do ponto de vista do seu enquadramento no campo jornalismo, o colunismo é classificado como subgênero.

           A sinceridade é uma virtude valorizada em circunstâncias onde as divisórias entre “amigo” e “inimigo” eram geralmente distintas e tensas. A vasta extensão de sistemas sociais abstratos associada à modernidade transforma a natureza da amizade. Não por acaso o sociólogo inglês percebe que a amizade é com frequência um modo do que ele chama de reencaixe, mas ela não está diretamente envolvida nos próprios sistemas abstratos, que superam explicitamente a dependência ligada a laços pessoais. O oposto de “amigo”, discursivamente enquanto categoria social já não é mais “inimigo”, nem mesmo “estranho”; ao invés disto é “conhecido”, “colega”, ou “alguém que não conheço”. Acompanhando esta transição, a honra é substituída pela lealdade que não tem outro apoio a não ser o afeto pessoal, e a sinceridade substituída pelo que podemos chamar de autenticidade: a exigência de que o outro seja aberto e bem intencionado. Embora estas conexões sociais possam envolver “intimidade emocional”, isto não é uma condição da manutenção da confiança pessoal. Laços pessoais institucionalizados e códigos de sinceridade e honra informais ou informalizados fornecem estruturas de confiança. É bastante errôneo, contudo, realçar a impessoalidade dos sistemas abstratos contra as intimidades da vida pessoal como a maior parte das explicações sociológicas correntes tendem a fazer. A vida pessoal e os laços sociais que ela envolve estão profundamente entrelaçados com os sistemas abstratos de mais longo alcance como ocorre com o partido político. O termo “confiança” aflora com muita frequência na linguagem cotidiana.  

A questão para Anthony Giddens é: como estas mudanças afetaram as relações de intimidade pessoal e sexual? Pois estas não são apenas simples extensões da organização da comunidade ou do parentesco. A amizade, por exemplo, desde Georg Simmel (1858-1918) ou Friedrich Nietzsche (1844-1900), foi pouco estudada pelos sociólogos, mesmo se considerarmos a intuição de Alain Touraine a respeito, mas ela proporciona uma pista sociológica importante para fatores de amplo alcance que influenciam a vida pessoal. Os escritos de Georg Simmel sobre vitalismo ou filosofia de vida, quase no final de sua vida, dimensionam não tanto a tragédia da cultura (cf. Simmel, 1988), mas a ambivalência do sujeito frente à cultura: o conflito da cultura. Entende Simmel que, ainda que as formas culturais na sociedade mercantil tornem difícil ao homem exprimir criatividade, o mesmo não consegue viver sem elas. A comodidade, as formas de simbolização e informação, as novas normas legais, a liberação da sexualidade, dentre outras, são manifestações de vidas de uma espécie de outro lado da modernidade. Não obstante, essa percepção sensível de um maior avanço da cultura subjetiva não foi suficiente para alterar o “nó duro” de sua análise. A imaginação se desenvolve em torno da crítica da dimensão de massa dos bens culturais, os quais deixam os homens deprimidos por não poder assimilá-los todos no mesmo momento em que não podem excluí-los, pela fragmentação da existência em razão da separação crescente das esferas da vida e a erosão da cultura pessoal em correspondência com o avanço dos multivariados objetos os quais ganham e exigem conotação cultural. Temos de compreender o caráter da amizade em contextos pré-modernos precisamente em associação com a comunidade local e o parentesco.

Os processos qualitativos, no entanto, que assumiam tais formas também deveriam ser estudados pela sociologia geral, subproduto da sociologia formal, como a concebia o filósofo Georg Simmel. Estudando o conflito, o autor não conferia aos grupos unidades hipostasiadas, supervalorizadas com relação ao indivíduo, como ocorre comumente no jornalismo de guerra. Antes via neste o fundamento dos grupos, daí que as “formas”, constituem-se em um processo de interação entre tais indivíduos, seja por aproximação, seja pelo distanciamento, competição, subordinação, e assim por diante no âmbito do conflito. Melhor dizendo, a investigação entre o número de indivíduos no seio das formas de vida coletiva. O modo como o aspecto quantitativo afeta o tipo de relação social existente. Simmel analisa uma relação exclusiva entre duas pessoas e, por fim, entre três, produz diferentes tipos de interação entre as pessoas. Se as relações de poder não são unilaterais é preciso explicar como as formas de comando e obediência estão relacionadas, como a obediência do grupo a um indivíduo, a dominação do grupo ou a dominação de regras impessoais. Segundo a interpretação sociológica de Simmel (1988), “traduz claramente o papel social desse modo de casamento eminentemente pouco individual”. A humanidade sempre atravessa estágios em que: a) opressão da individualidade é o ponto de passagem obrigatório de seu livre desabrochar superior, em que a pura exterioridade das condições de vida se torna a escola da interioridade, b) em que a violência da modelagem produz uma acumulação de energia, destinada, em seguida, a gerar toda a especificidade pessoal. Do alto desse ideal é que, c) a individualidade desenvolvida, tais períodos parecerão, é claro, grosseiros e indignos.

Mas, para dizer a verdade, atenta Georg Simmel que, além de semear os germes positivos do progresso vindouro, já é em si uma manifestação do espírito exercendo uma dominação organizadora sobre a matéria-prima das impressões flutuantes, uma aplicação das personalidades especificamente humanas, procurando-as fixar suas normas de vida - do modo mais brutal, exterior ou, mesmo, estúpido que seja -, em vez de recebê-las das simples forças da natureza. A horda “não protege mais a moça e rompe suas relações com ela, porque nenhuma contrapartida foi obtida por sua pessoa”.  Desnecessário dizer que o desvio às normas sociais ou normas morais dominantes de uma sociedade implica “coragem e determinação”. Contudo é frequentemente um processo social para garantir as mudanças políticas que mais tarde vêm a ser consideradas como sendo de interesse geral. Uma sociedade tolerante em relação ao comportamento desviante não sofrerá necessariamente uma ruptura social. O conceito sociológico de desvio aplica-se às condutas individuais ou coletivas que transgride as normas de uma dada sociedade, ou de um grupo. Refere-se à ausência ou falha de conformidade face às normas ou obrigações sociais. Um comportamento só pode ser qualificado de desviante por referência à sociedade em que surge. Pode, ser “como um atentado à ordem social”.        

Tal como na arte, a ideologia pode se expressar na ética de maneiras muito distintas. Pode, por exemplo, representar as manifestações de vida individual e coletiva na disposição subjetiva, como indicamos pistas na concepção de Georg Simmel, implícita ou explícita, no sentido de abandonar o envolvimento com a comunidade. E mesmo decorrente no sentido de cancelar qualquer compromisso com ela. Como a comunidade representa socialmente a matriz dos valores, basta lembrarmos historicamente que “ethos”, comparativamente, em grego, e “mores” em latim, significam costumes; normas de conduta estabelecidas pela comunidade, onde os indivíduos que negam o vínculo que os liga à comunidade são, de fato, pessoas que renegam por assim dizer a ética. É neste sentido que este tipo de distorção se liga a formas extremas de egoísmo, que ultrapassam amplamente o chamado “egoísmo saudável”, ligado à autopreservação e à afirmação pessoal de si mesmo. Os indivíduos cuja vida interior se enriquece em diálogo constante dialeticamente com os outros, não se resignam a ser apenas aquilo que já se tornaram, e querem ser mais do que estão sendo pelo fato de poder pensar juntos. Cultivam, um lado deles que os impele na direção de uma busca de universalização e sentido da vida. A confiança nos amigos era frequentemente de importância central. Nas culturas tradicionais, com a exceção parcial de algumas vizinhanças citadinas em Estados agrários, havia uma divisão bem clara entre membros reconhecidos como “os de dentro e os de fora ou estranhos”. As amplas arenas de interação não hostil com outros anônimos, característica da atividade social moderna, não existia.

Nestas circunstâncias sociais, a amizade era institucionalizada e vista como meio social objetivando criar alianças mais ou menos duradouras com outros contragrupos potencialmente hostis. Amizades institucionalizadas eram formas de camaradagem, assim como mormente ocorrem nas reconhecidas “fraternidades de sangue”, socialmente, ou dentre “companheiros de armas”. Institucionalizada ou não, a amizade era em geral baseada em valores de sinceridade e honra. Alguns sentidos do termo, embora compartilhem amplas afinidades eletivas como é recorrente na literatura de Johann von Goethe e Max Weber, com outras utilidades de uso, são de implicação relativamente desimportante. Quer dizer, alguém que diz: “confio que você esteja bem”, normalmente quer dizer algo mais com esta fórmula de polidez do que “espero que você esteja com boa saúde” – embora mesmo aqui “confio” tenha uma conotação algo mais forte que “espero”, implicando algo mais próximo a “espero não ter motivos para duvidar”. A atitude de crença ou credulidade que entra em confiança em alguns contextos mais significativos já se encontra aqui. Quando alguém diz: “confio em que X se comportará desta maneira”, esta implicação social é mais evidente, embora não muito além do nível do “conhecimento indutivo fraco”. É reconhecido que se conta com X para produzir o comportamento, dadas as circunstâncias normais apropriadas.

Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade. É, em particular, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as funções econômicas absorvem o maior número de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim, como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Desde que, com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais do que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases sociais. 

Os únicos dotados de permanência são os que se chamam sindicatos, seja de patrões, seja de operários. Historicamente, temos aí in statu nascendi o começo e o princípio ético de uma organização profissional, mas ainda de forma rudimentar. Isto porque, em primeiro lugar, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovida, por conseguinte, de qualquer poder regulamentador. O número deles é teoricamente ilimitado, mesmo no interior de uma categoria industrial; e, como cada um é independente dos outros, se não se constituem em federação e se unificam, não há neles nada que exprima a unidade da profissão em seu conjunto de práticas e saberes sociais. Não só os sindicatos de patrões e de empregados são distintos uns dos outros, o que é legítimo e necessário, como não há entre eles contatos regulares. Não existe organização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em comum uma regulamentação que, estabelecendo suas relações mútuas, imponha-se a ambas as partes com a mesma autoridade; por conseguinte, é sempre a “lei dos mais forte” que resolve os conflitos, e o estado de guerra subiste inteiro. Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera moral comum estão na mesma situação. A tese sociológica é a seguinte: para que uma moral e um direito profissionais possam se estabelecer nas diferentes profissões, é necessário, pois, que a corporação, em vez de permanecer um agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, volte a ser, um grupo definido, organizado, uma instituição pública. A primeira observação familiar da crítica é que a corporação tem contra si seu próprio passado histórico.

De fato, ela é tida como intimamente solidária do antigo regime político e, por conseguinte, como incapaz de sobreviver a ele. Na história da filosofia, o que permite considerar as corporações uma organização temporária, boa apenas para uma época e uma civilização determinada, é, ao mesmo tempo, sua grande antiguidade e a maneira como se desenvolveram na história. Se elas datassem unicamente da Idade Média, poder-se-ia crer, de fato que, nascidas com um sistema político, deviam necessariamente desaparecer com ele. Mas, na realidade, têm uma origem bem mais antiga. Em geral, elas aparecem desde que as profissões existem, isto é, desde que a atividade deixa de ser puramente agrícola. Se não parecem ter sido conhecidas na Grécia, até o tempo da conquista romana, é porque os ofícios, sendo desprezados, eram exercidos exclusivamente por estrangeiros e, por isso mesmo, achavam-se excluídos da organização legal da cidade. Mas em Roma, comparativamente, elas datam pelo menos dos primeiros tempos da República; uma tradição chegava até a atribuir sua criação ao rei Numa, um sabino escolhido como segundo rei de Roma. Sábio, pacífico e religioso, dedicou-se a elaboração das primeiras leis de Roma, assim como dos primeiros ofícios religiosos da cidade e do primeiro calendário. É verdade que, por tempo, elas tiveram de levar uma existência bastante humilde, pois os historiadores e os monumentos só raramente as mencionam; não sabemos muito bem como eram organizadas. Desde de Cícero, sua quantidade tornara-se considerável e elas começavam a desempenhar um papel. Nesse momento, diz Jean-Pierre Waltzing (1857-1929), “todas as classes de trabalhadores parecem possuídas pelo desejo de multiplicar as associações profissionais” (cf. Durkheim, 2010).  

Mas o caráter desses agrupamentos se modificou; eles acabaram tornando-se “verdadeiras engrenagens da administração”. Desempenhavam funções oficiais; cada profissão era vista como um serviço público, cujo encargo e cuja responsabilidade ante o Estado cabiam à corporação correspondente. Foi a ruína da instituição. Porque, segundo Durkheim, essa dependência em relação ao Estado não tardou a degenerar numa servidão intolerável que os imperadores só puderam manter pela coerção. Todas as sortes de procedimentos foram empregadas para impedir que os trabalhadores escapassem das pesadas obrigações que resultavam, para eles, de sua própria profissão. Evidentemente, tal sistema de trabalho só podia durar enquanto o poder político fosse o bastante para impô-lo. É por isso que ele não sobreviveu à dissolução do Império. Aliás, as guerras civis e as invasões haviam destruído o comércio e a indústria; os artesãos aproveitaram essas circunstâncias para fugir das cidades e se dispersar nos campos. Assim, os primeiros séculos de nossa era viram produzir-se um fenômeno que devia se repetir tal qual no fim do século XVII: a vida corporativa se extinguiu quase por completo. Mal subsistiram alguns vestígios seus, na Gália e na Germânia, nas cidades de origem romana. Portanto, naquele momento, um teórico tivesse tomado consciência da situação, teria provavelmente concluído, como o fizeram mais tarde os economistas, que as corporações não tinham, ou, em todo caso, não tinham mais razão de ser, que haviam desaparecido irreversivelmente, e sem dúvida teria tratado de retrógrada e irrealizável toda tentativa de reconstituí-las. Os acontecimentos desmentiriam uma tal profecia. De fato, politicamente após um “eclipse da razão” de algum tempo vindo para os nossos dias, as corporações recomeçaram nova existência em todas as sociedades europeias.

Elas renasceram por volta dos séculos XI e XII. Desde esse momento, diz Emile Levasseur, “os artesãos começam a sentir a necessidade de se unir e formam suas primeiras associações”.  Em todo caso, no século XII, elas estão outra vez florescentes e se desenvolvem até o dia em que começa para elas uma nova decadência. Uma instituição tão persistente assim não poderia depender de uma particularidade contingente e acidental; muito menos ainda é possível admitir que tenha sido o produto de não sei que “aberração coletiva”. Se, desde a origem da cidade até o apogeu do Império, desde o alvorecer das sociedades cristãs aos tempos modernos, elas foram necessárias, é porque correspondem a necessidades duradouras e profundas. Sobretudo, vale lembrar que o próprio fato de que, depois de terem desaparecido uma primeira vez, reconstituíram-se por si mesmas e sob uma nova forma, retira todo e qualquer valor ao argumento que apresenta sua desaparição violenta no fim do século passado como uma prova de que não estão mais em harmonia com as novas condições de existência coletiva. A necessidade que todas as grandes sociedades civilizadas sentem de chamá-las de volta à vida é o mais seguro sintoma evidente dessa supressão radical não era um remédio e de que a reforma de Jacques Turgot requeria outra que não poderia ser indefinidamente adiada. Mas nem toda organização corporativa é anacronismo histórico. Acreditamos que ela seria chamada a desempenhar, nas sociedades contemporâneas, menos pelo papel considerável que julgamos indispensável, por causa não dos serviços econômicos que ela poderia prestar, mas da influência moral que poderia ter.  O que vemos antes de mais nada no grupo organizado profissionalmente é o fortalecimento de um poder moral capaz de conter os egoísmos individuais, de manter no coração dos trabalhadores um sentimento vivo de solidariedade comum, de impedir que a “lei do mais forte” se aplique de maneira brutal nas relações industriais e comerciais. 

Mas é preciso evitar estender a todo regime corporativo o que pode ter sido válido para certas corporações e durante um curto lapso de tempo de seu desenvolvimento. Longe de ser atingido por uma sorte de enfermidade moral devida à sua própria constituição, foi sobretudo um papel moral que ele representou e continua representando ainda, na maior parte de sua história. Isso é particularmente evidente no caso das corporações romanas. Sem dúvida, a associação lhes dava mais forças para salvaguardar, se necessário, seus interesses comuns. Mas era isso apenas um dos contragolpes úteis que a instituição produzia, lembra Durkheim: “não era sua razão de ser, sua função principal. Antes de mais nada, a corporação era um colégio religioso”. Cada uma tinha seu deus particular, cujo culto quando ela tinha meios, era celebrado num templo especial. Do mesmo modo que cada família tinha seu Lar Familiaris, cada cidade seu Genius Publicus, cada colégio tinha seu deus tutelar, Genius Collegi. Naturalmente, o culto profissional não se realizava sem festas, reunindo por assim dizer, o útil ao agradável, eram celebradas em comum sem sacrifícios e banquetes. Todas as espécies de circunstâncias serviam, aliás, de ocasião para alegres reuniões, além disso, distribuições de víveres ou de dinheiro ocorriam com frequência às expensas da comunidade. Indagou-se se a corporação tinha uma caixa de auxílio, se ela assistia regularmente seus membros necessitados, e as opiniões a esse respeito são divididas. Mas o que retira da discussão parte de seu interesse e de seu alcance é que esses banquetes comuns, mais ou menos periódicos, e as distribuições que os acompanharam serviam de auxílios e faziam não raro as vezes de uma assistência direta. Os infortunados sabiam que podiam contar com essa subvenção dissimulada. Como corolário do caráter religioso, o colégio de artesãos era, ao mesmo tempo, um colégio funerário. Unidos, como gentiles, num mesmo culto durante sua vida, os membros da corporação queriam, como eles, dormir juntos seu derradeiro sono.                      

A importância tão considerável que a religião tinha em sua vida, tanto em Roma quanto na Idade Média, põe particularmente em evidência a verdadeira natureza de suas funções; porque toda comunidade religiosa constituía, então, um ambiente moral, do mesmo modo que toda disciplina moral tendia necessariamente a adquirir uma forma religiosa. A partir do instante em que, no seio de uma sociedade política, certo número de indivíduos tem em comum ideias, interesses, sentimentos, ocupações que o resto da população não partilha com eles, é inevitável que, sob a influência dessas similitudes eles sejam atraídos uns para os outros, que se procurem, teçam relações, se associem e que se forme assim, pouco a pouco, um grupo restrito, com sua fisionomia especial da sociedade em geral. Porque é impossível que homens vivam juntos, estejam regularmente em contato, sem adquirirem o sentimento do todo que formam por sua união, sem que se apeguem a esse todo, se preocupem com seus interesses e o levem em conta em sua conduta. Enfim, basta que esse sentimento se precise e se determine, que, aplicando-se às circunstâncias mais ordinárias e mais importantes da vida, se traduza em fórmulas definidas, para que se tenha um corpo de regras morais em via de se constituir. Ao mesmo tempo que se produz por si mesmo e pela força das coisas, esse resultado é útil e o sentimento de sua utilidade contribui para confirma-lo. A vida em comum é atraente, ao mesmo tempo que coercitiva. Para o ponto de vista conservantista do método analítico durkheimiano, a estratégia de coerção é necessária para levar o homem a se superar, a acrescentar à sua natureza física outra natureza; mas, à medida que aprende a apreciar os encantos dessa nova existência, ele contrai a sua necessidade e não há ordem moralmente de atividade social que não os busque com paixão.

A moral doméstica não se formou de outro modo. Por causa do prestígio que a família conserva ante nossos olhos, parece-nos que, se e ela foi e é sempre uma escola de dedicação e de abnegação, o foco por excelência da moralidade, é em virtude de características bastante particulares que teria o privilégio e que não se encontrariam em ouro lugar em nenhum grau. Costuma-se crer que exista na consanguinidade uma causa excepcionalmente poderosa de aproximação moral. A prova está em que, num sem-número de sociedades, os não-consanguíneos são muitos no seio da família; o parentesco dito artificial se contrai então com grande facilidade e exerce todos os efeitos do parentesco natural. Inversamente, acontece com grande frequência consanguíneos bem próximos serem, moral ou juridicamente, estranhos uns aos outros; é, por exemplo, o caso dos cognatos na família romana. Portanto, a família não deve suas virtudes à unidade de descendência: ela é, simplesmente, um grupo de indivíduos que foram aproximados uns dos outros, no seio da sociedade política, por uma comunidade mais particularmente estreita de ideias, sentimentos e interesses. A consanguinidade pode ter facilitado essa concentração, pois ela tem por efeito natural inclinar as consciências umas em relação às outras. Outros fatores intervieram: a proximidade material, a solidariedade de interesses, a necessidade de união contra um perigo comum, ou simplesmente de se unir, foram causas muito mais poderosas de comunicação social no processo produtivo.

Mas, para dissipar todas as prevenções, adverte Durkheim, para mostrar bem que o sistema corporativo não é apenas uma instituição do passado, seria necessário mostrar que transformações ele deve e pode sofrer para se adaptar às sociedades modernas, pois é evidente que ele não pode ser o que era na Idade Média. Para tanto, seriam necessários estudos comparativos que não estão feitos e que não podemos fazer de passagem. Talvez, porém, não seja impossível perceber desde já, mas apenas em suas linhas mais gerais, o que foi esse desenvolvimento. O historiador que empreende resolver em seus elementos a organização política dos romanos não encontra, no decurso de sua análise, nenhum fato que possa adverti-lo da existência das corporações. Elas não entravam na constituição romana, na qualidade de unidades definidas e reconhecidas. Em nenhuma das assembleias eleitorais, em nenhuma das reuniões do exército, os artesãos se reuniam por colégios, em parte alguma o grupo profissional tomava parte, como tal, na vida pública, seja em corpo, seja por intermédio de representantes regulares. No máximo, a questão pode se colocar a propósito de três ou quatro colégios que se imaginou poder identificar com algumas das centúrias constituídas por Sérvio Túlio, a saber: tignari (construtores de casas), aerari (corporação clerical), tibicines (monumento funerário), corporações cornicínes (espécie comestível de pizza enrolada), mas o fato social não está bem estabelecido.

Quanto às outras corporações, estavam certamente fora da organização oficial do povo romano. Ora, por muito tempo os ofícios não foram mais do que uma forma acessória e secundária da atividade social dos romanos. Roma era essencialmente uma sociedade agrícola e guerreira. No primeiro era dividida em gentes e em cúrias; a assembleia por centúrias refletia antes a organização militar. Quanto às funções industriais, eram demasiado rudimentares para afetar a estrutura política da cidade. Aliás, até um momento bem avançado da história romana, os ofícios permaneceram marcados por um descrédito moral que não lhes permitia ocupar uma posição regular no Estado. Sem dúvida, veio um tempo em que sua condição social melhorou. Mas a própria maneira como foi obtida essa melhora é significativa. Para conseguir fazer respeitar seus interesses e desempenhar um papel na vida pública, os artesãos tiveram de recorrer a procedimentos irregulares e extralegais. Só triunfaram sobre o desprezo de que eram objeto por meios de intrigas, complôs, agitação clandestina. E, se, mais tarde, acabaram sendo integrados ao Estado para se tornar engrenagens da máquina administrativa, essa situação como foi, para eles, uma conquista gloriosa, mas uma penosa dependência; se entraram então no Estado, não foi para nele ocupar a posição a que seus serviços sociais podiam lhes dar direito, mas simplesmente para poder ser mais bem vigiados, para lembrarmos de Michel Foucault, pelo poder governamental.

Quando as cidades se emanciparam da tutela senhorial, quando a comuna se formou, o corpo de ofícios, que antecipara e preparara esse movimento, tornou-se a base da constituição comunal. De fato, segundo J.-P Waltzing, “em quase todas as comunas, o sistema político e a eleição dos magistrados baseiam-se na divisão dos cidadãos em corpos de ofícios”. Era costumeiro votar-se por corpos de ofícios e elegiam-se ao mesmo tempo os chefes da corporação e os da comuna. – Em Amiens, por exemplo, os artesãos se reuniam todos os anos para eleger os prefeitos de cada corporação ou bandeira (bannière); os prefeitos eleitos nomeavam em seguida doze escabinos, que nomeavam outros doze, e o escabinato apresentava, por sua vez, aos prefeitos das bandeiras três pessoas, dentre as quais eles escolhiam o prefeito da comuna... Em algumas cidades, o modo de eleição era ainda mais complicado, mas, em todas, a organização política e municipal era intimamente ligada à organização do trabalho. Inversamente, assim como a comuna era um agregado de “corpos de ofícios”, o corpo de ofício era uma comuna em miniatura, pelo próprio fato de que fora o modelo do qual a instituição comunal era a forma ampliada e desenvolvida. Queremos dizer com isso, que sabemos o que a comuna foi na história de nossas sociedades, de que se tornou, com o tempo, a pedra angular. Ipso facto, já que era uma reunião de corporações e que se formou com base no tipo da corporação, foi esta em última análise, que serviu de base a todo o sistema político oriundo do movimento comunal. Vê-se que, em sua trajetória, ela cresceu singularmente em importância e dignidade. Em Roma, começou estando quase fora dos contextos normais, ela serviu de marco elementar para sociedades contemporâneas. É um motivo para que recusemos a considera-la uma instituição arcaica, destinada a desaparecer.      

A obra do sociólogo não é a do homem público, assevera Émile Durkheim. O que a experiência do passado demonstra, antes de mais nada, é que os marcos do grupo profissional devem guardar sempre uma relação com os marcos da vida econômica; foi por ter faltado com essa condição que o regime corporativo desapareceu. Portanto, já que o mercado, de municipal que era, tornou-se nacional e internacional, a corporação deve adquirir a mesma extensão. Em vez de ser limitada apenas aos artesãos de uma cidade, ela deve ampliar-se, de maneira a compreender todo os membros da profissão, dispersos em toda a extensão do território, porque, qualquer que seja a região em que se encontram, quer no campo, todos são solidários uns com os outros e participam da vida comum. Já que essa vida comum é, sob certos aspectos, independentemente de qualquer determinação territorial, tem que ser criado um órgão apropriado, que a exprima e regularize seu funcionamento. Por causa de suas dimensões, tal órgão estaria necessariamente em contato relacional com o órgão central da vida coletiva, pois os acontecimentos importantes o bastante para envolverem toda uma categoria de empresas industriais num país tem necessariamente repercussões bastante gerais, que o Estado não pode sentir, o que o leva a intervir. Não foi sem fundamento que o poder real tendeu indistintamente a não deixar fora de sua ação a grande indústria. Era impossível que ele se desinteressasse por uma forma de atividade que por sua natureza, é capaz de afetar o conjunto da sociedade. Essa organização unitária para o conjunto de um mesmo país não exclui, de modo algum, a formação de órgãos secundários, que compreendam os trabalhadores similares de uma mesma região ou localidade, e cujo papel seria especializar ainda mais a regulamentação profissional segundo as necessidades locais ou regionais. A vida econômica poderia ser regulada e determinada, sem nada perder de sua diversidade. Por isso mesmo, o regime corporativo seria protegido contra essa propensão ao imobilismo, que lhe foi frequente e justamente criticada no passado, porque é um defeito que resultava do caráter estreitamente comunal da corporação.

Na síntese durkheimiana representada sobre o lugar de análise das corporações deve-se até supor que esteja destinada a se tornar a base, ou uma das bases essenciais de nossa organização política. Ela começa por ser exterior ao sistema social, tenderá a se empenhar de forma cada vez mais profunda nele, à medida que a vida econômica se desenvolve. Ela foi outrora a divisão elementar da organização comunal. Agora que a comuna, de organismo autônomo que era outrora, veio se perder no Estado, como o mercado municipal no mercado nacional, acaso não é legítimo pensar que a corporação também deveria sofrer uma transformação correspondente e tornar-se a divisão elementar do Estado, a unidade política fundamental? A sociedade, em vez de continuar sendo o que ainda é hoje, um agregado de distritos territoriais justapostos, tornar-se-ia um vasto sistema de corporações nacionais. Mas essas divisões geográficas são, em sua maioria, artificiais e já não despertam em nós sentimentos profundos. O espírito provinciano desapareceu irremediavelmente: o patriotismo de paróquia tornou-se um arcaísmo que não se pode restaurar à vontade. Para o sociólogo uma nação só se pode manter se, entre o Estado e os particulares, se intercalar toda uma série de grupos secundários bastante próximos dos indivíduos para atraí-los fortemente em sua esfera de ação e arrastá-los, assim, na torrente geral da vida social. Isso não quer dizer, porém, que a corporação seja uma espécie de panaceia capaz de servir a tudo. Será necessário que, em cada profissão, um corpo de regras se constitua, fixando a quantidade de trabalho, a justa remuneração dos diferentes funcionários, seu dever para com os demais e para com a comunidade, etc. pois, não menos que atualmente, em presença de uma tábula rasa.  

A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras jurídicas que determinam as relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. De todos os elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. Nunca é demais repetir que para que as sociedades possam viver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar. Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, em nossas sociedades, essa moralidade ainda não tem todo o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, devemos prestar melhor atenção a que tem sua origem nas similitudes sociais ocorre quando um grupo é capaz de criar e reproduzir para si e para os outros a princípio só e sem rival.

Eles não se relacionam aos sistemas perpetuadores de confiança, mas são designações referentes aos comportamentos dos outros; quer dizer, o indivíduo envolvido não é requisitado a demonstrar aquela “fé” religiosa que a confiança envolve em seus significados. A principal definição de “confiança” no Oxford English Dictionary é descrita como “crença ou crédito em alguma qualidade ou atributo de uma pessoa ou coisa, ou a verdade de uma afirmação”, e esta definição proporciona um ponto de partida útil. “Crença” e “crédito” estão claramente ligados de alguma forma à “fé”, da qual, seguindo Simmel, mas embora reconhecendo que a fé e confiança são intimamente aliadas, Niklas Luhmann faz uma distinção entre as duas que é a base de sua obra sobre o tema. A confiança, diz ele, deve ser compreendida especificamente em relação ao risco, um termo que passa a existir apenas no período moderno. A noção se originou com a compreensão de que resultados inesperados podem ser uma consequência de nossas próprias atividades ou decisões, ao invés de exprimirem significados ocultos de natureza ou intenções inefáveis da Deidade. Mas “risco”, substitui em grande parte o que antes era pensado como fortuna (fortuna ou destino) e torna-se separado das cosmologias. A confiança pressupõe, segundo Giddens, consciência das circunstâncias de risco, o que não ocorre com a crença. Tanto a confiança como a crença se referem a expectativas que podem ser frustradas ou desencorajadas. A crença, como Niklas Luhmann a emprega, se refere a atitude mais ou menos certa de que as coisas similares permanecerão estáveis.

            Quando se trata da questão de confiança, o indivíduo considera conscientemente as alternativas para seguir um curso específico de ação. Alguém que compra um carro usado, ao invés de um novo, “arrisca-se a adquirir uma dor de cabeça”. Ele ou ela deposita confiança na pessoa do vendedor ou na reputação da firma para tentar evitar que isto ocorra. Deste modo, um indivíduo que não considera alternativas está numa situação de crença, enquanto alguém que reconhece essas alternativas e tenta calcular os riscos assim reconhecidos, engaja-se em confiança. Numa situação de crença, uma pessoa reage ao despontamento culpando outros, em circunstâncias de confiança ela ou ele deve assumir parcialmente a responsabilidade e pode “se arrepender de ter depositado confiança em alguém ou algo”. A distinção entre confiança e crença depende de a possibilidade de frustração ser influenciada pelo próprio comportamento prévio da pessoa e, portanto, de uma discriminação correlata “entre risco e perigo”. Isto é, Luhmann alega a possibilidade de separar risco e perigo deve derivar de características sociais da modernidade. Ela surge, essencialmente, de uma compreensão do fato de que a maioria das contingências que afetam a atividade humana são humanamente criadas, “e não meramente dadas por Deus ou pela natureza”. A abordagem sociológica é importante e dirige nossa atenção para várias discriminações conceituais que deve ser feita na compreensão da confiança.     

O que indica isto em termos de confiança pessoal? A resposta a esta questão segundo Giddens, é fundamental para a transformação da intimidade no século XX. A confiança em pessoas não é enfocada por conexões personalizadas no interior da comunidade local e das redes de parentesco. A confiança pessoal torna-se um projeto, a ser “trabalhado” pelas partes envolvidas, e requer a abertura do indivíduo para o outro. Onde ela não pode ser controlada por códigos normativos fixos, a confiança tem que ser ganha, e o meio de fazê-lo consiste em abertura e cordialidade demonstráveis. Nossa preocupação peculiar com “relacionamentos”, no sentido em que a palavra é agora tomada, é expressiva deste fenômeno. Relacionamentos são laços baseados em confiança, onde a confiança não é pré-dada, em termos de doação, mas trabalhada, e onde o trabalho envolvido significa um processo mútuo de autorrevelação. A confiança pessoal, tem que ser estabelecida através do processo de autoquestionamento: a descoberta de si torna-se um projeto diretamente envolvido com a reflexividade na modernidade sociológica. Para Christopher Lasch: - conforme o mundo vai assumindo um aspecto cada vez mais ameaçador, a vida torna-se busca de bem-estar através de exercícios, dietas, drogas, regimes espirituais típicos, autoajuda psíquica e psiquiatria.

            Um playboy, por outro lado, tem como representação social um estilo de vida ou estereótipo associado a homens jovens, solteiros, com intensa vida social e relações com mulheres. O termo inglês playboy é formado pela junção dos termos play (brincar, se divertir) e boy (moço, garoto). Portanto, playboy significa, literalmente, “menino de diversão”. Foi criado no início da década de 1950 quando os Estados Unidos passavam por grande onda de prosperidade. Homens filhos de famílias que haviam enriquecido começaram a dedicar seu tempo integral a festas, relacionamentos e a esbanjar dinheiro. Em 1953, uma reportagem do New York Times foi a primeira referência a eles, descrevendo como era a vida dos jovens ricos da cidade. A revista masculina Playboy foi criada pensando em difundir esse estilo de vida. Nos anos 1960, os playboys eram homens ou jovens que, através de herança herdada das gerações prósperas passadas, viviam a vida como uma grande festa e estavam sempre namorando as filhas de outros milionários. Utilizavam roupas finas apenas para a conquista de mulheres e não para a vivência do círculo social de elite. Ser playboy era gozar de uma vida de diversão. Eram ricos exclusivamente para o prazer material, e não conviviam com contatos milionários e nem seguiam as regras comportamentais da alta classe econômica. No final do século XX, com a massificação da cultura pop, um playboy passou a significar um jovem na faixa dos 13 aos 25 anos que dirige carro, pratica esporte, e é “cobiçado” pelas meninas de seu círculo social. Esse estereótipo foi reforçado em vários filmes e séries de TV.

            A paramedicina é baseada no conceito emergente da teoria paramédica, que é o estudo e a análise de como os três pilares da paramedicina: assistência médica e medicina, saúde pública e segurança pública interagem e se cruzam. Conforme declarado no Relatório do IoM Emergency Medical Services At the Crossroads (2006), o EMS está fragmentado e amplamente separado do ponto de vista da divisão do trabalho social e do sistema geral de assistência médica. Uma ênfase importante socialmente falando da teoria paramédica diz respeito à integração de serviços médicos de emergência, que ocorre tanto intraprofissionalmente quanto extraprofissionalmente em função das ocorrências não planejadas que se originam mormente da vida cotidiana.  Do ponto de vista médico a integração intraprofissional representa o estudo empírico da alocação, distribuição, implantação e eficiência de recursos. Entretanto, em termos de planejamento no âmbito das cidades contemporâneas o estudo extraprofissional envolve a integração entre a parte e todo complexo de urbanização do Emergency Medical Services no sistema de assistência médica e de emergência existente (e futuro) do país.

            Uma profissão de saúde que tem como escopo auxiliar indivíduos, famílias e comunidades após o início clínico agudo ou repentino de emergências médicas ou eventos traumáticos, a paramedicina é praticada predominantemente no ambiente pré-hospitalar e é baseada nas ciências da anatomia humana, fisiologia e fisiopatologia. O objetivo profissional da paramédica é promover a qualidade de vida ideal do nascimento ao fim da vida. Nos Estados Unidos da América, clinicamente muitas tarefas regulamentadas como iniciar uma intravenosa, administrar medicamentos e procedimentos invasivos são realizadas sob a direção de um médico licenciado. No Reino Unido, os paramédicos exercem a profissão como “clínicos independentes sob sua própria licença”, conforme regulamentado pelo Health and Care Professions Council, com autonomia para declarar as condições da morte, administrar medicamentos controlados e, em geral, tratar metodologicamente os pacientes como acharem mais adequado. É formado por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, é conceituado geograficamente como uma nação insular situada no Noroeste da Europa. A Inglaterra, local de nascimento do extraordinário William Shakespeare e da maior banda de música popular chamada Beatles, abriga a capital, Londres, um centro financeiro e cultural globalmente influente. Também na Inglaterra, ficam o neolítico Stonehenge, as termas romanas de Bath e as centenárias universidades de Oxford e Cambridge.

            A “explosão” do conhecimento científico, na falta de melhor expressão, que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe procedimentos de diagnóstico e tratamento médico especializado com base microeletrônica cada vez mais sofisticados e complexos. A crescente demanda pública por serviços médicos combinada com custos mais altos de assistência médica provocou uma tendência à expansão da prestação de serviços, do tratamento de pacientes em hospitais para a ampla prestação de cuidados em consultórios médicos particulares e formação de grupo, clínicas médicas ambulatoriais e de emergência, clínicas móveis e cuidados comunitários. No mundo em desenvolvimento, a assistência internacional ao desenvolvimento levou a inúmeras iniciativas para fortalecer a capacidade da força de trabalho em saúde para fornecer serviços essenciais de assistência médica. O que se seguiu foi um aumento proporcional na necessidade de pessoal qualificado em prestação de assistência médica em todo o mundo. As mudanças na indústria da saúde e a ênfase em soluções de baixo custo para cuidados de saúde segue a encorajar a expansão da força de trabalho da saúde aliada.  

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que haja atualmente uma escassez mundial de cerca de 2 milhões de profissionais de saúde aliados, considerando todos os trabalhadores da saúde, além do pessoal médico e de enfermagem necessários para atingir as metas globais de saúde. Em reconhecimento ao crescimento do número e da diversidade de profissionais de saúde aliados nos últimos anos, a versão de 2008 da Classificação Internacional Padrão de Ocupações aumentou o número de grupos dedicados a profissões de saúde aliadas. Dependendo do nível de habilidade presumido, eles podem ser identificados como “profissionais de saúde” ou “profissionais associados de saúde”. Por exemplo, novas categorias sociais foram criadas para delinear “praticantes paramédicos”, agrupando profissões setoriais como oficiais clínicos, associados clínicos, assistentes médicos, Feldshers e oficiais médicos assistentes - bem como para agentes de saúde comunitários; dietistas e nutricionistas; audiologistas e fonoaudiólogos; e outros.

            Nos Estados Unidos da América, uma proporção maior da força de trabalho de saúde aliada já está empregada em ambientes ambulatoriais. Na Califórnia, quase metade (49,4 por cento) da força de trabalho de saúde aliada está empregada em ambientes de saúde ambulatorial, em comparação com 28,7 por cento e 21,9 por cento empregados em hospitais e cuidados de enfermagem, respectivamente. Uma fonte relatou que os profissionais de saúde aliados representam 60 por cento da força de trabalho total de saúde dos Estados Unidos da América. No Reino Unido, união política de quatro “países constituintes” há 12 profissões distintas consideradas profissionais de saúde aliados; em conjunto, elas representam cerca de 6% da força de trabalho do National Health Service (NHS) provê cobertura universal, baseando-se nos princípios de equidade e integralidade, com exceção dos serviços oftálmicos, dentários e de dispensação de medicamentos. Por ter o princípio de cobertura universal, têm direito ao atendimento gratuito do NHS: residentes legais com residência permanente; refugiados; estudantes matriculados em um curso de, no mínimo, 15 horas semanais e com visto de estudante regularmente válido por mais de seis meses, assim como seus familiares; solicitantes de asilo; pessoas com permissão para trabalhar na Inglaterra. Em 2013, estatisticamente a despesa anualmente com serviços prestados por profissionais de saúde aliados ascendeu a cerca de 2 mil milhões de libras, embora haja uma falta de provas sobre a extensão em que estes serviços melhoram a qualidade dos cuidados. Os avanços na tecnologia médica permitem serviços que exigiam internações hospitalares prestados por meio de cuidados ambulatoriais.  

Por exemplo, na Califórnia, a pesquisa previu que o consumo total de dias de internação hospitalar por pessoa diminuirá de 4 dias em 2010 para 3,2 dias em 2020 e 2,5 dias em 2030. Em contraste, o número de consultas ambulatoriais por pessoa aumentará de 3,2 consultas por pessoa em 2010 para 3,6 consultas por pessoa em 2020 e 4,2 consultas em 2030. É o estado no Oeste dos EUA, estende-se da fronteira mexicana ao longo da costa do Pacífico por quase 1.500 km. Seu território inclui praias à beira de penhascos, floresta de sequoias, montanhas na Serra Nevada, campos agrícolas no Central Valley e o deserto de Mojave. A cidade de Los Angeles tem como representação a sede da indústria do entretenimento de Hollywood. A cidade de São Francisco é reconhecida pela ponte Golden Gate, a Ilha de Alcatraz e os bondes. Nos países em desenvolvimento, muitos planos estratégicos nacionais de recursos humanos para a saúde e iniciativas de desenvolvimento internacional estão a concentrar-se na intensificação da formação de profissionais de saúde afins, como conselheiros em matéria de imunodeficiência, agentes clínicos e profissionais de saúde comunitários, na prestação de serviços essenciais de prevenção e tratamento em contextos de cuidados ambulatórios e comunitários. Com esta crescente dimensão da procura de cuidados de saúde ambulatórios, os investigadores esperam testemunhar uma procura mais elevada de profissões que sejam empregadas no sector ambulatório e em outros não hospitalares, por outras palavras, na saúde aliada.

            No que se refere à temática comédia romântica é o subgênero cinematográfico dos gêneros comédia e romance, que são formas utilizadas para se distinguir os variados tipos de filmes, numa classificação derivada dos estudos literários, e serve como instrumento útil para a análise do cinema. Normalmente utilizados para fins de categorização comercial. Nos últimos tempos têm-se vindo a abandonar a divisão dos filmes por gêneros. O formato básico de uma comédia romântica é muito anterior ao cinema. Muitas das peças de teatro de William Shakespeare (1564-1616), como “Muito barulho por Nada”, que tem como cenário a cidade italiana de Messina (Sicília), tendo sua primeira apresentação ocorrida em 1598/1599. É considerado um dos textos mais categórico e hilariantes de Shakespeare. A trama gira em torno do casal de namorados, Cláudio e Hero, que tiveram consentimento dos pais para casarem-se. O melhor amigo de Cláudio, Benedito, está apaixonado pela bela, porém venenosa Beatriz, mas não ousa reconhecer seu amor por ela. Beatriz está na mesma situação. Os dois vivem discutindo e brigando. Cláudio, Hero, Dom Pedro de Aragão, entre outros resolvem divertir-se com a situação dos apaixonados. Eles dizem para Beatriz que Benedito está apaixonado por ela, e para Benedito que Beatriz está apaixonada e os dois acabam virando namorados.

 Tudo acontece enquanto o malvado Dom João, irmão bastardo de Dom Pedro, planeja beijar Margarida na frente de Cláudio, para que ele achasse que fosse sua amada Hero. Cláudio, quando vê a cena, realmente acha que Hero estava o traindo, e briga com ela. No final, tudo fica esclarecido e Cláudio e Hero se casam, assim como Beatriz e Benedito e “Sonho de Uma Noite de Verão” se situam dentro do gênero da comédia romântica. Neste caso, é uma peça teatral também de Shakespeare, uma comédia escrita em meados da década de 1590. Não se sabe ao certo quando a peça foi escrita e apresentada ao público pela primeira vez, mas crê-se que terá sido entre 1594 e 1596. Alguns autores defendem que a peça possa ter sido escrita para o casamento de Sir Thomas Berkeley e Elizabeth Carey, em fevereiro de 1596. Não existe uma fonte direta que tenha servido de inspiração para a peça, ainda que se possam encontrar elementos relacionados com a mitologia greco-romana e respectiva literatura clássica. Por exemplo, a história de Píramo e Tisbe é contada por Ovídio, nas suas Metamorfoses, assim como a transformação de Fundilhos em burro se pode relacionar com “O Asno de Ouro de Apuleio”, único romance latino historicamente da Antiguidade a sobreviver na íntegra até os nossos dias. Pensa-se que Shakespeare tenha escrito o “Sonho de Uma Noite de Verão” sensivelmente ao mesmo tempo que o Romeu e Julieta e, de fato, existem.

Muitos pontos de contacto entre as histórias sociais que circulam livremente: Egeu quer casar Hérmia à força com Demétrio, assim como Píramo e Tisbe acabam mortos por questões de amor, ainda que numa perspectiva cômica. Suas peças foram traduzidas para todas as principais línguas modernas e são mais encenadas comparativamente do que as de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e temas permanecem vivos até os nossos dias, sendo revisitados com frequência, especialmente no teatro, na televisão, no cinema e na literatura. Shakespeare nasceu e foi criado em Stratford-upon-Avon, na Era Elizabetana, época especialmente estimulante para os artistas. Aos 18 anos casou-se com Anne Hathaway, com quem teve três filhos: Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Entre 1585 e 1592 William começou uma carreira bem-sucedida em Londres como ator, escritor e um dos proprietários da companhia de teatro chamada Lord Chamberlain`s Men, mais tarde reconhecida como King`s Men. Acredita-se que ele tenha retornado a Stratford em torno de 1613, morrendo três anos depois. Restaram poucos registros da vida privada de Shakespeare, e existem muitas especulações sobre assuntos como a sua aparência física, sexualidade, crenças religiosas, e se algumas das obras que lhe são atribuídas teriam sido escritas por outros.

Shakespeare produziu a maior parte de sua obraem pouco mais de vinte anos, entre 1590 e 1613. Suas primeiras peças eram principalmente comédias e obras baseadas em eventos e personagens históricos, gêneros que ele levou ao ápice da sofisticação e do talento artístico ao fim do século XVI. A partir de então escreveu apenas tragédias até por volta de 1608, incluindo Hamlet, Rei Lear e Macbeth, consideradas algumas das obras mais importantes na língua inglesa. Na sua última fase, escreveu um conjunto de peças classificadas como tragicomédias ou romances, e colaborou com outros dramaturgos. Diversas de suas peças foram publicadas, em edições com variados graus de qualidade e precisão, durante sua vida. Em 1623, John Heminges e Henry Condell, dois atores e antigos amigos de Shakespeare, publicaram o chamado First Folio, uma coletânea de suas obras dramáticas que incluía todas as peças (com a exceção de duas) reconhecidas atualmente como sendo de sua autoria. Shakespeare foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nível em que se encontra hoje no século XIX. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade de Shakespeare, e os vitorianos idolatraram-no como um herói, com uma reverência que George Bernard Shaw chamava de “bardolatria”. No século XX sua obra foi adotada hic et nunc, na esfera globalzada da cultura, e redescoberta repetidamente por movimentos, tanto na academia quanto na performance. Suas peças permanecem extremamente populares correntemente e são estudadas, encenadas e reinterpretadas constantemente, em diversos contextos culturais e políticos por todo o mundo.

Bibliografia Geral Consultada.

BOUDON, Raymond, Effets Pervers et Ordre Social. Paris: Presses Universitaires de France, 1977; LINTON, Ralph, Cultura y Personalidad. México: Fondo de Cultura Económica, 1992; SIMMEL, Georg, Filosofia do Amor. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993; GEERTZ, Clifford, Interpretación de las Culturas. Barcelona: Ediciones Gedisa, 1993; WAIZBORT, Leopoldo, Vamos Ler Georg Simmel? linhas para uma interpretação. Tese de Doutorado. Departamento de Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1996; WILSON, John, “Volunteering”. In: Annual Review of Sociology, 26 (26): 215, 2000; GIL, Célia Regina Rodrigues, Práticas Profissionais em Saúde da Família: Expressões de um Cotidiano em Construção. Tese de Doutorado em Saúde Pública. Rio de Janeiro: Editor Fundação Oswaldo Cruz, 2006; MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.), Pesquisa Social: Teoria, Método e Criatividade. 27ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; 2008; NAKAMURA, Eunice; MARTIN, David, “El Método Etnográfico en Investigaciones sobre Necesidades en Salud: Un Análisis Sociocultural”. In: EGRY, Emiko Yoshikawa; HINO, Paula (Org.), Las Necesidades en Salud en la Perspectiva de la Atención Básica: Guía para Investigadores. São Paulo: Dedone Editorial, 2009; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; FREUD, Sigmund, O Mal-estar na Civilização. 1ª edição. São Paulo: Editor Penguin Classics Companhia das Letras, 2011; GEORGEOU, Nichole, Neoliberalism, Development, and Aid Volunteering. New York: Editor Routledge, 2012; CARVALHO, Manuela, Contribuições ao Planejamento da Força de Trabalho em Saúde para a Atenção Básica. Tese de Doutorado em Saúde Coletiva. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2012; GIOVANELLA, Ligia, et al, “Panorama de la Atención Primaria de Salud en Sudamérica: Concepciones, Componentes y Desafios”. In: Saúde em Debate. Rio de Janeiro, vol. 39, n° 105, pp. 300-322, abr./jun. 2015; ALVAREZ, Gabriel, A Problemática do Direito à Cidade no Urbano Contemporâneo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2023; BRASIL, Ubiratan, “Quais foram as estratégias de Hollywood para consolidar a hegemonia do cinema americano”. In: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2024/08/21/; LÓPEZ, Mercedes, Minha Culpa. São Paulo: Editor Universo dos Livros, 2024; entre outros.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Trabalho de Secretária, Sujeição da Consciência & Sadomasoquismo.

                      Mais vale compreender pouco do que compreender mal”. Anatole France 

         Uma característica da compreensão moderna do mundo é a secularização. É um processo através do qual a religião perde a sua influência sobre as variadas esferas da vida social. Essa perda de influência repercute-se na diminuição do número de membros das religiões e de suas práticas sociais. Na perda do prestígio das igrejas e organizações religiosas. Na influência na sociedade, na cultura, na diminuição das riquezas das instituições religiosas, e, last but not least, na desvalorização das crenças e dos valores a elas associados. A partir do século XIX, houve um progressivo declínio da influência das instituições religiosas tradicionais. Este declínio verificou-se tanto na liturgia dos fiéis, como na dificuldade crescente em recrutar clero para o desenvolvimento e manutenção historicamente da instituição. A maior parte dos estudos acadêmicos versou a tentativa de compreensão deste âmbito do chamado desencantamento do mundo. A investigação sociológica já não se centra tanto nas causas e nas razões da secularização, mas nas relações de consequência da modernidade com o religioso, ou seja, que papel joga a religião na manutenção do status quo e, inversamente. Mas não é a consciência necessariamente do próprio sujeito que condiciona a vida, mas neste caso, a mediação complexa, que incorporando o sentido social do pessimismo weberiano passam a atribuir significado à relação social espacial em torno do tempo no qual está inserido.

         Secretária tem como representação social um filme de comédia e drama romântico erótico norte-americano de 2002, dirigido pelo cineasta norte-americano Steven Shainberg e escrito por Erin Cressida Wilson, uma escritora, professora e roteirista. Venceu o Independent Spirit Award por seu trabalho no filme Secretary. Como acadêmica trabalhou na Universidade Duke, uma universidade estadunidense fundada 1838, e que consistentemente aparece entre as 20 melhores universidades do mundo. Localizada no Research Triangle, maior parque de pesquisa nos Estados Unidos da América (EUA) e considerado o novo Vale do Silício, Duke mantém campi em Durham, no estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos da América, em Kunshan, China, e campi secundários nas mais importantes regiões do mundo: New York City, Washington D.C., Berlim, Madrid. Embora tenha alterado seu nome para Duke somente em 1924, a universidade tem suas raízes sociais em 1838. Na Universidade Brown, uma instituição de ensino superior privada norte-americana localizada em Providence, Rhode Island. Membro da famosa Ivy League, a Brown foi fundada em 1764, antes da Independência dos Estados Unidos, com o nome College in the English Colony of Rhode Island and Providence Plantations. É a terceira universidade mais antiga da Nova Inglaterra e a sétima dos Estados Unidos da América, e uma das instituições acadêmicas mais prestigiosas do mundo. Brown foi a primeira faculdade na nação a aceitar estudantes independentemente de suas opções religiosas.  

          Metodologicamente os valores não são dados nem no plano sensível nem no plano transcendente; são criados pelas condições humanas, que diferem dos atos pelos quais o espírito percebe o real e elabora a verdade. Pode ser que a própria verdade seja um valor. Mas no caso do sociólogo alemão, porém, há uma diferença fundamental entre a ordem da ciência e a ordem dos valores. A essência da primeira é a sujeição da consciência aos fatos e às provas; a essência da segunda é o livre arbítrio e a livre afirmação. Ninguém pode ser obrigado, por uma demonstração, a reconhecer um valor ao qual não adere. Max Weber teria respondido a Émile Durkheim que as sociedades são efetivamente o ambiente onde os valores são criados, mas que as sociedades reais são compostas de homens, isto é, por nós mesmos e pelos outros, e que em consequência não é a sociedade concreta, como tal, que nós adoramos ou devemos adorar. Se é verdade que cada sociedade nos sugere ou nos impõe um sistema de valores, isto não prova que a sociedade em que vivemos seja melhor do que a de nossos antepassados ou da que nós mesmos queremos construir. Nunca é demais repetir: a criação de valores é social, mas também histórica. Dentro de cada sociedade surgem conflitos entre grupos, partidos e indivíduos. O universo de valores a que cada um de nós acaba aderindo é uma criação ao mesmo tempo individual e coletiva. Resulta da resposta da nossa consciência a um meio, ou a uma situação. Portanto, não tem cabimento transfigurar o sistema social existente e atribuir a ele um valor superior ao da nossa própria escolha. Este último é, criador do futuro, enquanto que o sistema é uma herança do passado.     

          A antinomia fundamental da ação, de acordo com Max Weber, é a da moral da responsabilidade e da moral da convicção; Maquiavel de um lado, Kant de outro. A ética da responsabilidade (Verantwortungsethik) é aquela que o homem de ação não pode deixar de adotar; ela ordena a se situar numa situação, a prever as consequências das suas possíveis decisões e a procurar introduzir na trama dos acontecimentos um ato que atingirá certos resultados ou determinará certas consequências que desejamos. A ética da responsabilidade interpreta a ação em termos de meios-fins. Se é preciso convencer os oficiais de um exército a aceitar uma política que não apreciam, ela será apresentada em linguagem tal que eles não a compreenderão, ou com fórmulas que tolerem interpretação estritamente contrária à intenção real do ator, ou o objetivo procurado. É que num momento dado haja uma tensão entre o homem de ação e os executantes, estes talvez tenham a sensação de que foram enganados, mas, se este era o único meio de atingir o objetivo pretendido, quem terá o direito de condenar os que enganaram pelo bem do Estado? Max Weber gostava de tomar como símbolo da ética da responsabilidade o cidadão de Florença que (segundo Maquiavel) preferiu a grandeza do Estado à salvação da sua alma. O homem de Estado emprega meios reprovados pela ética vulgar para realizar um objetivo supraindividual, que é o bem da coletividade. Analogamente Weber não elogia o maquiavelismo, e uma ética da responsabilidade não é necessariamente maquiavélica, no sentido comum generalista do termo. Para sermos breves, a ética da responsabilidade, sociologicamente, é simplesmente a que se preocupa com a eficácia simbólica, e se define pela escolha consciente dos meios de trabalho e pensamento ajustados ao fim.      

          Introdutoriamente para a análise do filme Secretária (2002), que se trata de um tema recorrente no chamado “mundo do trabalho”, no caso norte-americano desde meados da II Guerra Mundial (1939-1945), pois as ciências da cultura são compreensivas e causais. A relação de causalidade é, segundo o caso, histórica ou sociológica. O historiador visa pesar a eficácia causal dos diferentes antecedentes numa única conjuntura; o sociólogo procura estabelecer relações de sucessão que se repetiram ou que são suscetíveis de repetição. O instrumento principal da compreensão é o tipo ideal, nas suas diversas variedades, cujo traço comum é a tendência para a racionalização, ou então a percepção da lógica implícita ou explícita de um tipo de conduta ou de um fenômeno histórico singular. Em todos os casos, o tipo ideal é sempre um meio, não um fim; o objetivo das ciências da cultura é compreender os sentidos subjetivos, isto é, em última análise, a significação que os homens atribuem à sua existência. Mas esta ideia de que a ciência da cultura busca compreender o sentido subjetivo das condutas não é evidente. Alguns sociólogos abandonaram e consideram que o objetivo científico autêntico é a lógica inconsciente das sociedades ou das existências. Para Max Weber o objetivo consiste em compreender a existência vivida. Nesta orientação de curiosidade científica está vinculada à relação que se estabelece, na sua teoria epistemológica entre o conhecimento e a ação social. A filosofia dos valores tem uma relação estreita. A singularidade de Max Weber é que ele pertence ao grupo dos sociólogos “frustrados da política”, cuja aspiração não satisfeita pela ação social é um dos móbeis do esforço científico. É uma filosofia que propõe, como ponto de partida, a distinção radical entre os fatos e valores sociais.  

Estrelando Maggie Gyllenhaal e James Spader, o filme explora o intenso relacionamento disciplinar de trabalho entre um “advogado dominante” e a sua “secretária submissa”, os quais praticam vários tipos de atividades BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo, Masoquismo) é a sigla que denomina um conjunto de práticas de estimulação sexual consensuais, envolvendo bondage, disciplina, dominação, submissão, sadomasoquismo e outros tipos de comportamento sexual humano relacionados à esta subcultura. Dada a ampla gama de práticas, muitas delas acabam sendo realizadas por pessoas que não se consideram praticantes assumidos de BDSM (ou fetiches), tais como “spanking” e “omorashi”. Esse subgrupo representa na sociedade contemporânea um conjunto de comportamentos, costumes e rituais onde um indivíduo cede o controle sobre ele a outro indivíduo em um contexto ou estilo de vida erótico, portanto, a pessoa que exerce o papel dominante recebe poder e autoridade sobre a pessoa que exerce o papel submisso. A dominação e submissão não requer contato físico e pode explorar somente elementos psicológicos. Mas na maioria dos casos ela é intensamente física e pode estar envolvida com subgrupos do sadomasoquismo, o bondage ou a disciplina. No primeiro caso, na cultura popular norte-americana, é reconhecida como equivalente da Universidade Harvard, mas localizada fora do Nordeste do país. 

É uma das universidades mais prestigiosas no mundo, sendo classificada pelo Times Higher Education a 20ª melhor universidade do mundo. Nos Estados Unidos, é atualmente considerada a 5ª melhor do país pelo jornal americano Wall Street Journal/Times Higher Education, ultrapassando a maioria das universidades da Ivy League, um grupo esportivo com frequência associado a qualidade acadêmica, em termos de prestígio e qualidade. Suas admissões para graduação estão entre as mais competitivas do mundo contemporâneo, com uma taxa de aceitação geral de apenas 4% para a Classe de 2025, admitindo somente cerca de 1600 estudantes ao ano. Os estudantes admitidos vêm de mais de 100 países no mundo, e normalmente estão entre os mais promissores jovens de seus países — com históricos escolares que proporcionam ranking entre os 2–3 melhores de suas escolas de Ensino Médio, e notas no top 1% de todos os estudantes que anualmente fazem as provas do SAT, considerado o ENEM americano. Entre os ex-alunos de Duke, destacam-se o CEO da Apple Tim Cook; o ex-presidente Richard Nixon (1913-1994); a filantropa Melinda Gates, ex-funcionária da Microsoft, cofundadora e também vice-presidente da Fundação Bill e Melinda Gates; Jonathan Browning, o CEO da Volkswagen America; Edmund T. Pratt Jr., ex-CEO da Pfizer; o embaixador dos Estados Unidos da América  no Brasil, Todd Chapman; o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis; o cientista econômico-comportamental Dan Ariely; a empreendedora e vice-presidente da NASCAR Lesa Kennedy, que ocupa o posto de mulher mais influente no  mundo esportivo; 8 membros atualmente do Congresso nacional dos Estados Unidos da América; 5 ganhadores do Prêmio Nobel; o ex-presidente do Chile Ricardo Lagos; dentre outros.

         Na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, foi fundada em 1891, sendo uma extensão da Universidade da Califórnia (UC). Está localizada em Goleta (Califórnia), no estado da Califórnia, Estados Unidos. é uma instituição de ensino superior dos Estados Unidos mantida pelo Estado da Califórnia. Apesar da designação, a UC não é na realidade uma universidade singela, mas sim uma organização de cúpula que agrupa diversas universidades semiautônomas espalhadas pelo território do Estado, constituindo um dos três sistemas públicos estaduais de ensino superior da Califórnia (os outros dois são a Universidade do Estado da Califórnia e o Sistema de Colégios Comunitários da Califórnia). Cada uma das universidades constituintes é referida como um “campus da UC”. Entre os seus campi incluem-se os de Los Angeles (UCLA), Berkeley (UC Berkeley), San Diego (UCSD), Davis, Irvine, Merced, Riverside, São Francisco, Santa Cruz e Santa Bárbara. Possui um total de 10 campi. Emprega mais vencedores de Prêmio Nobel do que qualquer outra instituição de Ensino Superior no mundo. Os Regentes da Universidade da Califórnia compõem o conselho de administração da Universidade da Califórnia. Como todos os sistemas públicos em todo os Estados Unidos, o Conselho de Regentes é “tratado como o verdadeiro partido em interesse para todos os efeitos sob a lei da Califórnia”.  

Todas as ações da universidade são feitas em seu nome, todos os graus acadêmicos são conferidos em seu nome, todas as propriedades da UC são mantidas em seu nome (e é marcada por sinais indicando “Propriedade dos Regentes da Universidade da Califórnia”), todas as contas bancárias são mantidas em seu nome (e todos os cheques devem ser escritos como a pagar a “UC Regents”), e todos os processos judiciais envolvendo a Universidade sempre se referem especificamente aos Regentes. O Conselho tem 26 membros completos eleitos por votação. A maioria (18 Regentes) é nomeada através de nomeação pelo governador da Califórnia, e confirmação pelo Senado Estadual da Califórnia, para um acordo de 12 anos. Os restantes 7 Regentes são membros ex-officio. Eles são o governador, vice-governador, presidente da Assembleia Estadual, Superintendente Estadual da Instrução Pública, presidente e vice-presidente das associações de alunos da UC, e presidente da Universidade da Califórnia. O Conselho também tem dois representantes do corpo docente sem direito a voto. A entrada Student Regent serve como um Regente não-votante indigitado a partir da data de seleção (entre julho e outubro) até o começo de seu mandato formal, o seguinte 1º de julho. A grande maioria dos regentes nomeados pelo Governador historicamente consiste de advogados, políticos e executivos. Ao longo das últimas duas décadas, tem sido comum que Regentes nomeados da UC doem somas relativamente grandes de dinheiro, quer diretamente para as campanhas eleitorais do governador ou indiretamente a grupos eleitorais do partido. 

Na esfera cinematográfica, Erin Cressida Wilson roteirizou as obras Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus (2006) é um filme do gênero drama romântico. Escrito por Erin Cressida Wilson e Patrícia Bosworth, foi dirigido por Steven Shainberg. É estrelado por Nicole Kidman, a icônica fotógrafa americana Diane Arbus, reconhecida por suas imagens visuais estranhas e perturbadoras. Robert Downey Jr. e Ty Burrell completam o “triângulo amoroso” em que se baseia a trama. Como o título indica, a história é em grande parte ficcional. Chloe, um filme franco-canado-estadunidense de 2009, dos gêneros suspense e drama, dirigido por Atom Egoyan. É estrelado por Julianne Moore como Catherine que, após suspeitar que seu marido (Liam Neeson) a trai, decide contratar Chloe (Amanda Seyfried), uma prostituta de luxo. Trata-se de uma refilmagem de Nathalie..., de Anne Fontaine. O roteiro foi escrito por Erin Cressida Wilson, baseado no original de Anne Fontaine. Foi gravado em 37 dias na cidade de Toronto entre fevereiro e março de 2009. Vários pontos de referência podem ser vistos, o Allan Gardens, Café Diplomático, The Rivoli, Windsor Arms Hotel, Royal York Hotel, Royal Ontario Museum, CN Tower, Art Gallery of Ontario e o Ontario College of Art. 

Call Me Crazy: A Five Film é um telefilme americano de 2013, do gênero drama, dirigido por Laura Dern, Bryce Dallas Howard, Bonnie Hunt, Ashley Judd e Sharon Maguire para a Echo Films. O longa-metragem é dividido em cinco segmentos, em que alguns personagens se conectam no percurso das histórias. Isto é, cinco contos curtas-metragens que exploram o impacto e a luta de pessoas que apresentam doenças mentais. Segmento de Lucy. Dirigido por Bryce Dallas Howard e escrito por Deirdre O'Connor. O segmento Lucy segue a trajetória de Lucy, uma estudante de direito que se encontra em meio ao terror da esquizofrenia, em um hospital psiquiátrico onde, por meio do apoio de um novo amigo, de sua psicoterapeuta e tomando as medicações corretas, ela começa o seu caminho para a cura, podendo assim continuar sua vida de onde havia parado. Dirigido por Laura Dern e escrito por Howard J. Morris. Grace explora o mundo do transtorno bipolar através da experiência de uma filha adolescente cuja mãe lida com a condição. Men, é um filme de terror folclórico britânico-estadunidense escrito e dirigido por Alex Garland. O filme é estrelado por Jessie Buckley e Rory Kinnear. Foi lançado nos Estados Unidos em 20 de maio de 2022, pela A24, e no Reino Unido em 1 de junho de 2022, pela Entertainment Film Distributors. O filme recebeu críticas geralmente positivas dos críticos, com elogios direcionados às performances dos protagonistas, embora a história e os temas tenham recebido algumas críticas. Uma jovem sai de férias para o interior da Inglaterra após a morte de seu ex-marido. Após a tragédia, Harper Marlowe (Jessie Buckley) se retira sozinha para um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. No entanto, alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo-a. O que começa como um “pavor latente”, logo se torna um pesadelo totalmente formado, e também logo habitado por suas memórias e medos mais sombrios.

Men, Women & Children é um filme de comédia dramática estadunidense dirigido por Jason Reitman coescrito com Erin Cressida Wilson, baseado no romance de mesmo nome escrito por Chad Kultgen. O longa é estrelado por Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, Emma Thompson (narradora) e Jennifer Garner. Está programado para ser exibido na seção de apresentações especiais de 2014 no Festival Internacional de Toronto. O filme recebeu um lançamento limitado em 3 de outubro de 2014, antes de um lançamento amplo que ocorreu no dia 17 de outubro de 2014. De acordo com a sinopse oficial divulgado pela distribuidora, o filme segue a história de um grupo de adolescentes do ensino médio e seus pais enquanto eles percebem o quanto internet, rede mundial de computadores “mudou seus relacionamentos, sua comunicação, sua autoimagem e suas vidas amorosas”. Também é descrito que o filme vai tocar em temas como a cultura dos video games, anorexia, infidelidade, a busca por fama e a proliferação de material ilícito na rede. E, finalmente, o extraordinário The Girl on the Train, um filme estado-unidense de 2016, dos géneros drama romântico, mistério e suspense, realizado por Tate Taylor e escrito por Erin Cressida Wilson, com base no romance de estreia homónimo de Paula Hawkins. Foi protagonizado por Emily Blunt, Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Justin Theroux, Luke Evans, Édgar Ramírez, Allison Janney e Lisa Kudrow. As filmagens foram realizadas em Nova Iorque no dia 4 de novembro de 2015. O filme foi produzido por Marc Platt e DreamWorks Pictures e será distribuído pela Universal Pictures, como parte do novo acordo de distribuição da DreamWorks. Estreou-se em Portugal a 5 de outubro, nos Estados Unidos a 7 de outubro, comparativamente, e no Brasil a 27 de outubro de 2016. Arrasada por seu recente divórcio, Rachel Watson vive “fantasiando” sobre um casal aparentemente perfeito que mora em uma casa pela qual seu trem passa todos os dias. Certo dia, ela presencia algo estranho e começa sua própria investigação.

Enfim, como vimos, uma característica essencialmente da compreensão moderna do mundo é a secularização. É um processo através do qual a religião perde a sua influência sobre as variadas esferas da vida social. Essa perda de influência repercute-se na diminuição do número de membros participantes no conjunto das religiões mundiais e de suas práticas.  Na perda do prestígio desproporcional das igrejas, congregações e organizações religiosas. Na influência na sociedade, na cultura, na diminuição das riquezas das instituições religiosas, e, last but not least, na desvalorização das crenças e dos valores a elas associados. A partir do século XIX, houve um progressivo declínio da influência das instituições religiosas tradicionais. Este declínio verificou-se tanto na prática dos fiéis, como na dificuldade crescente em recrutar clero para o desenvolvimento e manutenção da instituição. A maior parte dos estudos acadêmicos versou a tentativa de compreensão deste âmbito. A investigação já não se centra tanto nas causas e nas razões da secularização, mas nas possibilidades da relação da modernidade com o religioso. Mas não é a consciência do próprio sujeito que neste sentido passa a atribuir significado ao espaço/tempo no qual está inserido. A vida ganha uma dimensão de responsabilidade para com a condução do destino da espécie humana, bem como com relação ao domínio da natureza em suas várias formas de manifestação. O ser humano cria instituições a partir das quais vai gerenciar a vida em sociedade e tais instituições passam a ter a legitimidade de sua atuação amparada em argumentos e motivos típicos racionalmente válidos.

Paternidade é um conceito que vem do latim “paternĭtas” e que diz respeito à condição de ser pai. Isto significa que o homem que tenha tido um ou mais filhos acede à paternidade. É importante destacar que a paternidade transcende o biológico. A filiação pode acontecer através da adoção, convertendo a pessoa em pai do seu filho mesmo que este não seja seu descendente de sangue. Num sentido semelhante, o homem que doa sêmen para que uma mulher se insemine não se transforma no pai da futura criança. A paternidade, por outro lado, pode ser tanto espiritual quanto simbólica. No âmbito da religião, ou de uma congregação religiosa, é considerado líder o guia de uma congregação que é tido como o “pai” dos fiéis. Neste sentido, o papa da Igreja católica apostólica romana tende a designar-se ardorosamente como Santo Pai.  Do ponto de vista teórico “povo” do latim “populus” e do etrusco “pupluna”, teve acepções bem diferentes na história social e política. Para os gregos e romanos, na esfera política, o povo que tinha a capacidade de decidir sobre os assuntos do Estado, era composto apenas pelos cidadãos com disponibilidade de tempo e recursos para isso. Na esfera da religião, na Bíblia, por exemplo, o “povo de Deus”, é hebreu e, a partir do Concílio Ecuménico Vaticano II, passou a referir-se aos seguidores da Igreja Cristã. Na Idade Média, o povo no “Terceiro Estado”: a plebe, sem direitos de cidadão, considerado como a massa de cidadãos sem capacidade psicológica para participar na gestão do Estado. 

No final da Idade Média, com as invasões e massacres dos “descobrimentos” europeus e a colonização e recolonização, como ocorreu no caso brasileiro quando se submeteram outros povos, com a visão colonialista inventaram-se os “povos naturais”, “povos primitivos” ou “povos indígenas” que, na segunda metade do século XX, são designados pela antropologia colonialista por etnias. Os conceitos de massa, que diferem do conceito relacionado à “matéria”, sempre se mostram de alguma forma associados ao conceito de inércia. Entretanto, apesar de muito bem definida dentro de cada nível de análise comparativo onde aparece, explicar a massa sociologicamente, não é uma representação simples, nem na religião e muito menos na política, mas existem teorias que tentam elucidar nas origens o que é massa. A afirmativa de Freud, na introdução de seu artigo sobre as massas, de que a psicologia individual é ao mesmo tempo psicologia social, certamente ele não as considerava como entidades separadas, mas sim como algo que naturalmente constituía um nexo único. Pois, mesmo sozinho, ou seja, fora do nível de análise de algum grupo, no indivíduo há sempre a presença do outro, pondo o social em questão na esfera clínica psicanalítica. Na esfera política alguns pensadores discutiram que a legitimidade de Estados modernos deve ser baseada em uma noção de direitos políticos para sujeitos individuais autônomos. De acordo com este ponto de vista, o Estado não pode reconhecer a identidade étnica, nacional ou racial e deve, preferivelmente, reforçar a igualdade política e legal de todos os indivíduos. Tal como os conceitos de raça e nação, o de etnicidade desenvolveu-se na expansão colonial, quando o mercantilismo e o capitalismo promoviam movimentações de populações ao mesmo tempo em que as fronteiras dos Estados eram definidas mais claramente.

O colonialismo moderno começou com a chamada Era dos Descobrimentos. Portugal e Espanha descobriram novas terras do outro lado do oceano e construíram feitorias. Para algumas pessoas, é esta construção de colônias em outro continente que diferencia o colonialismo de outros tipos de expansionismo. Essas novas terras foram divididas entre o Império Português e o Império Espanhol, primeiro pela bula papal Inter Coetera e depois pelo Tratado de Tordesilhas (1494) e o Tratado de Saragoça (1529). Este período também é associado com a Revolução Comercial. O final da Idade Média viu reformas na contabilidade e sistema bancário na Itália e no Mediterrâneo oriental. Essas ideias foram adotadas e adaptadas na Europa Ocidental para os altos riscos e benefícios associados aos empreendimentos coloniais. No século XVII, ocorreu a criação do império colonial francês e do Império Colonial Neerlandês, bem como do Império Colonial do Reino de Inglaterra, que mais tarde tornou-se o Império Britânico. Também ocorreu a criação de algumas colônias suecas e um império colonial dinamarquês. A disseminação dos impérios coloniais foi reduzida no final do século XVIII e início do século XIX pela Guerra Revolucionária Americana e a independência da América Espanhola. No entanto, muitas novas colônias foram estabelecidas após esse tempo, inclusive para o império colonial alemão e o império belga. No final do século XIX, muitas potências europeias estavam envolvidas na partilha da África.

O Império Russo, Império Otomano e o Império Austríaco existiam ao mesmo tempo, como os impérios historicamente constituídos, mas não expandiram exatamente sobre os oceanos. Em vez disso, esses impérios expandiram através da rota comercial imperialista mais tradicional de conquista de territórios vizinhos. Havia, porém, alguma colonização russa das Américas através do Estreito de Bering. O Império do Japão modelou-se nos impérios coloniais europeus. Os Estados Unidos da América em territórios ultramarinos após a Guerra Hispano-Americana e o termo “Império americano” foi cunhado. A palavra etnia é derivada do grego ethnos, significando povo que tem o mesmo ethos, costume, incluindo língua, raça, religião etc. Esse termo era tipicamente utilizado para se referir a povos não gregos, então também tinha conotação de estrangeiro. No posterior uso cultural católico-romano, havia a conotação adicional de gentio. A palavra deixou de ser relacionada com o paganismo em princípios do século XVIII. O uso do sentido moderno, mais próximo do original grego, começou a ocorrer na metade do século XX, tendo se intensificado desde então. Assiná-la, ainda que as etnias se distingam das nações por intermédio da intensidade de seus vínculos afetivos, visto que a solidariedade assim constituída subsiste para além da dissolução do grupo que a produziu como entidade sociopolítica, e permanece como identidade e fator de distinção de outros grupos sociais. No século XIX, os Estados modernos, em geral no âmbito ocidental do processo de colonização, procuravam reclamando a representação constitucional e conceitual de “nações”. Nos Estados-nação incluem, mormente, “populações” indígenas que foram excluídas do projeto político de construção da nação, ou recrutam trabalhadores do exterior como massa de mão-de-obra das suas fronteiras.

Estas pessoas constituem, tipicamente, grupos étnicos. Consequentemente, os membros de grupos étnicos costumam conceber a sua identidade como algo que está fora da história nativa do Estado-nação, quer como alternativa histórica quer em termos não históricos, quer em termos de uma religação ao Estado-nação. Esta identidade se expressa através de tradições e motivações variadas que embora sejam frequentemente invenções recentes, apelam certamente para a sua constituição à memória e a noção de passado. Por se tratar de um fenômeno universal, não raro presente em toda a história da humanidade, desde as tribos nômades, índios e povos africanos, para não falarmos na sobrevivência de povos latino-americanos, conflitos étnicos têm uma justificativa na retomada de valores e ideias que sendo societário não podem ter sido esquecidos. No estudo comparativo das religiões e etnias, fundamentalismo pode se referir a movimentos antimodernistas nas várias religiões. Por extensão de sentido o termo fundamentalismo passou a ser usado por outras ciências para significar uma crença irracional e exagerada, uma posição dogmática ou até certo fanatismo em relação a determinadas opiniões, como no mercado econômico ocorre com o “fundamentalismo de livre mercado”. O fundamentalismo étnico, essencialmente, pode referir-se a movimentos sociais antimodernistas decorrentes de várias etnias, com a manutenção de ideias separatistas, representando um conjunto estipulado de características tradicionais do grupo que se mescla a um grupo maior determinado pela diversidade cultural, social, política e econômica.

Enquanto o grupamento social é absorvido no processo político de globalização, e destinam-se prevalentemente a compartilhar as mesmas ideias separatistas, com ou sem o propósito da organização armada, podendo chegar aos congressos nacionais, assembleias legislativas, ou em apoiar partidos políticos, que podem eventualmente pela via política chegar ao poder. O fundamentalismo está alimentando intolerância crescente em todo o mundo, o que representa uma grave ameaça a direitos como liberdade de reunião pacífica e associação, disse o especialista da Organização das Nações Unidas sobre o tema, Maina Kiai (cf. EcoDebate, 08/07/2016), ao Conselho de Direitos Humanos, durante apresentação de seu recente relatório sobre fundamentalismo de livre mercado, político, religioso, nacionalista ou cultural. - “O conceito de fundamentalismo não pode ser limitado à religião. Ele pode e deve ser definido de forma mais ampla, para incluir todos os movimentos e não somente aqueles religiosos que defendem a adesão estrita e literal a um conjunto de crenças ou princípios básicos”, disse Kiai. “Na essência, este relatório é sobre a luta entre tolerância e intolerância”. Para o especialista em direitos humanos, embora as pessoas em todo o mundo falem cerca de 7 mil línguas, pratiquem 270 religiões, vivam em 193 Estados-membros das Nações Unidas e pertençam a milhares de culturas, “todos compartilham um único planeta, e a tolerância para com as diferenças é a única maneira de evitar a violência, a opressão e o conflito”.

Vale lembrar que entre os filósofos da existência, o único pensador que aceita o termo “existencialismo” para designar a sua filosofia é Jean-Paul Sartre. Com uma particularidade expressiva, tendo em vista que Sartre reconhece que existem dois tipos de pensadores existencialistas, aqueles de confissão católica, que entre eles incluem Gabriel Marcel e Karl Jaspers e os existencialistas ateus. A filosofia da existência constitui, segundo Jaspers, o âmbito no qual se dá todo o saber e todo o descobrimento possível. Em estabelecer as relações entre existência e razão; em profundidade o conceito de verdade. Mas ela não pode ser entendida como característica de nenhum enunciado particular. É antes uma espécie de ambiente que envolve o conhecimento. A existência, em qualquer de seus aspetos, é precisamente o contrário de um objeto em geral, pois pode ser definida de acordo com a proposição segundo a qual representa “o que é para si encaminhada”. O problema central é como pensar a existência sem torná-la objeto. Ipso facto, metodologicamente a existência é entendida como intimamente vinculada à historicidade e à noção de situação-limite: o existir é um transcender na liberdade, que abre o caminho em meio a um conjunto de situações históricas concretas. A especificidade do pensamento jasperiano, que o diferencia pensadores existencialistas encontra-se, na convicção de que a existência não apresenta apenas um caráter inconcluso e indeterminado, mas, uma significação além da “orientação no mundo”.

Por acreditar que as questões práticas eram a sua verdadeira tarefa e a forma mais imediata de tratar a existência humana, inicia os seus estudos na jurisprudência. Porém, como explica: “o que vi nela foi apenas um complicado jogo intelectual com ficções que não tinham nenhum interesse para mim”. Diante desse descontentamento, abandona o curso de Direito e inicia o estudo de Medicina. Segundo ele, o estudo da medicina oferecia as melhores possibilidades para conhecer a natureza e os homens. Com esse objetivo prático, se dedica, portanto, à medicina, mas com a intenção de terminar a Universidade seguindo uma carreira científica, não na filosofia, como salienta, mas na psicologia ou psiquiatria. Desses estudos posteriores, surgem suas investigações psicopatológicas, que constituem a obra Psicopatologia geral. Karl Jaspers afirma em “Balance y Perspectiva” (1953), que sua psicologia já tratava de questões filosóficas, como por exemplo, a busca pelo “esclarecimento da existência”.  Isso demonstra que seus estudos psicopatológicos se estabelecem de certa forma, como ponto de partida para a estruturação de seu pensamento filosófico. Porém, cabe salientar que somente com o advento da 1ª grande guerra (1914-1918), se estabelece uma ruptura na vida de Jaspers, ao se deparar com a sua realidade e com a complexidade da Europa dilacerada pela guerra, a filosofia se faz mais preeminente na sua vida, principalmente na forma de reconhecimento do significado da verdade da condição humana tendo uma aproximação metodológica em torno da perspectiva política de Hannah Arendt e vice-versa.

Como pensador da existência, Jaspers não poderia se deter somente no horizonte dos condicionamentos objetivos. Pois sua intenção é compreender, as situações-limites do horizonte existencial do homem. E isso implica o esclarecimento da existência humana, não somente enquanto realidade empírica, mas também como “existência possível”. Na sua concepção somente a partir de uma reflexão da existência sobre a sua condição no mundo, chega-se ao reconhecimento de seu próprio modo de presença no mundo. Quando isso ocorre, se estabelece outro horizonte de relação com o mundo quando ele passa a significar a sua existência. O “salto” (“Sprung”), significando a “possibilidade de superação”, desde Hegel, expresso no pensamento jasperiano, se efetiva quando o existente confronta a si mesmo e as suas limitações. Nesse confronto, passa a atribuir um significado e conteúdo de sentido ao seu próprio modo de “presença no mundo”, o que possibilita a abertura para as diversas possibilidades de ser. Mas não se trata apenas da apropriação da dimensão objetiva à dimensão subjetiva respectivamente nos planos de análise e realidade. Com efeito, a reflexão subjetiva e comprometida, faz com que o homem adquira consciência da sua situação no mundo. Somente no momento em que se vê em condições de significar essas situações poderá realizar o “salto” para a existência possível. Isto é decisivo para Jaspers que é pontual ao afirmar que a existência se apresenta sob duas óticas distintas, mas interligadas: enquanto existência empírica e enquanto existência possível.

No primeiro caso, pode-se estabelecer um conhecimento objetivo, já que se refere aquele nível de realização que é acessível às diversas investigações. Porém, salienta que só é possível falar de existência enquanto possibilidade de forma indireta, pois não temos um “objeto fixo” e determinado e, assim, passível de investigação. A meditação sobre a verdade se dá em torno a um conceito central de sua filosofia, o “englobante”. Tudo o que aparece na consciência humana provém, para o filósofo, de um “fundo obscuro do ser”, de um englobante que não é o sujeito que pensa nem o objeto pensado, mas base para o fato de pensar. Esse conceito nos revela a impossibilidade de um discurso definitivo sobre a verdade filosófica, pois o ser nunca se converte em objeto, embora Jaspers admita “verdades parciais” no campo da ciência e das relações pessoais, limitadas pelo método e pela história. As informações sobre o homem que a ciência nos traz são sempre parciais, sendo que parte importante da humanidade do homem vem de sua liberdade. A noção de transcendência percorre toda a obra. Ela é importante na descoberta do outro, no contato com o englobante e na compreensão da vida como projeto. Esses são os aspectos centrais de sua meditação. Um dos conceitos mais característicos da filosofia de Karl Jaspers é “situação-limite” e por diferentes razões. Demonstram-se seus condicionamentos sociais, sobretudo, no contexto histórico da sua filosofia da existência. Isso porque somente a partir do embate com as “situações limite”, filosoficamente falando, o existente se coloca em condição de abertura para a experiência da transcendência.

Com isso, pode-se observar que o termo “situação”, utilizado de forma pontual pela ciência para indicar os “fatos e as redes de determinações objetivas que agem sobre o indivíduo”, se estabelece, na filosofia jasperiana, de maneira distinta. O termo encontra-se vinculado unicamente à existência humana e, nesse caso, não é a situação que determina o comportamento humano, mas ao contrário, a existência que transforma os fatos e/ou os acontecimentos em “situação”, dando-lhes conteúdo e significação. Tais situações passam, então, a integrar a vida do existente. Como se refere Jaspers: “estas situações que sentimos, experimentamos e pensamos sempre nos limites de nossa existência, se chamam situações-limite”.   Contudo, deve-se ter em vista que as situações-limite correspondem a um modo de situação humana que, diferentemente das situações no mundo, não podemos alterar. São elas: a morte, o sofrimento, a culpa. O aspecto determinante desse tipo de situação, o que a torna “limite”, é o seu caráter imutável e irredutível. A título de exemplo, podemos citar a situação-limite da morte que, no entender de Jaspers, coloca o existente diante da fragilidade do seu ser justamente por constituir uma situação intransponível e limitante. Logo, a reação imediata nesta situação é puramente negativa, pois a morte é algo irrepresentável, algo propriamente impensável. O que nós representamos e pensamos dela são somente negações e somente fenômenos acidentais. Na qualidade de “desejo existencial”, a culpa se traduz como a “insatisfação estrutural” do existente, limitado a sua facticidade.  Pode-se entrever que, no âmbito da existência, a “culpa” traz consigo um aspecto negativo porque nasce da impossibilidade do existente realizar-se plenamente.

As experiências da culpa e da morte, configuradas de forma negativa, têm como componente essencial o que Jaspers chama de “naufrágio ou fracasso”. Um limite definitivo, implicando aquilo que impede de alcançar, tal é o fracasso em Jaspers. Como ele mesmo diz: “fracasso é o lugar de um malogro”. Fracassa aí a existência. Somos no mundo e somos sempre “em situação”. Quando estou “em situação” posso agir calculadamente, mesmo perante dificuldades. Não apenas numa realidade natural, mas uma realidade referida a um sentido. Sermos sempre em situação implica compreender que a existência empírica é um “ser em situação”, ou seja, implica dizer que não posso nunca sair de uma situação sem entrar imediatamente em outra. Pois, sempre posso mudara a situação, mas não posso mudar o fato de que sou um “ser-em- situação”, ou seja, implica dizer que não posso nunca sair de uma situação sem entrar imediatamente em outra. Melhor dizendo, sempre posso mudar a situação, mas não posso mudar o fato de que estou sempre em situação, de que sou um ser-em-situação. Trata-se de uma estrutura essencial na filosofia da existência. O conceito de situação não encerra apenas elementos espaciais, como lugar, posição, mas se refere ao sentido de uma relação de ligação, pois podemos indicar a estreita conexão entre situação e sentido.

Mas situação não são fatos ou acontecimentos, não é simplesmente dada. Pode-se dizer que são os fatos sociais à luz do valor reconhecido pelo homem. Se não se pode pensar em uma existência sem valores, todavia, não se propõe a definição de uma essência de homem. Estar em situação, perguntar e reconhecer sentido e valor corresponde mais a uma descrição das estruturas existenciais, modos de manifestação do ser. Somos capazes intelectualmente de explicar nossos sistemas de valores, mas para que os sistemas de valores operem em minha vida, é preciso que eu os adote, que a escolha e os integre em meu modo de referir-me às coisas. Ser-em-situação é de fato escolher, reconhecer valor, avaliar, e disso não nos equivocamos e nem podemos delegar. Vivemos em situação, estamos em apoio-no-finito, orientados por nossas hierarquias constituídas através de valores, imagens compreendidas de um mundo e atitudes, referidos a um determinado conteúdo de sentido. No cotidiano, vivemos protegidos pelos apoios. Abstratamente é um véu que encobre as situações-limite. Enquanto estes são ocultos, nos sentimos seguros, a salvo, e as dificuldades e conflitos são superáveis e suportáveis. Quando estou “em situação” (não no limite) posso agir calculadamente, mesmo perante dificuldades. Lutamos por isso tudo em vista a estrutura antinômica que nos envolve.  Mas há outro tipo social de luta que podemos travar e pelo qual estávamos pelejando tanto, na qual nos valemos de outro tipo de apoio. São as situações limites. O pensamento crítico de Karl Jaspers se envolve constantemente tendo como referência o tema dos limites. Esse envolvimento leva o pensador a enfrentar filosoficamente essas situações que experimentamos, sentimos e pensamos nos limites da existência nomeando-as Grenzsituationen, as situações-limite. Estou em situação, e posso sempre mudar minha situação, mas nunca posso mudar as situações-limites.

Não se apreende racionalmente as situações-limite, tampouco se escapa delas por qualquer plano lógico ou racional do cálculo. Se não as ignoramos, nenhuma conquista cultural ou científica poderá me orientar. Na verdade, as situações-limite revelam, justamente, a situação original, a precariedade dos apoios, inclusive daqueles que envolviam construções racionais muito bem elaboradas. Para sua compreensão podemos também esclarecer o que entendemos que elas não são. Não se trata de uma circunstância momentaneamente difícil, de uma situação de difícil solução. Não podemos identifica-la, tampouco, como uma crise, um momento de dificuldade que pode ser superado. As situações-limite não são meramente resistência do mundo. Essas podem representar, certamente, desgraça e sofrimento para o homem. As resistências às minhas vontades e pretensões são superáveis, e sendo assim elas mesmas funcionam como termo de apoio. Exemplo disso são os obstáculos que enfrentamos ao longo do processo da vida nas condições que consideramos impedimentos ao nosso desempenho. À concretização de nossa felicidade, de nosso prazer, mas que ao mesmo tempo, delimitam nosso agir. Elas não dão parâmetros, demarcam a relação no espaço em que acreditamos dever ficar. A experiência consciente das situações-limite, que anteriormente estavam recobertas pelo abrigo das formas de vida e imagens do mundo, permite o começo de um processo que faz desparecer o abrigo anteriormente evidente. Se a vida prossegue, o que se vê é que a dissolução dos antigos abrigos vem acompanhada evidentemente de novos abrigos. Esse é o que denominamos “processo vital” para a interpretação de Jaspers. Viver representa a dissolução e a formação de novos abrigos. O homem não suporta viver na indefinição. Ele busca os limites, algo definitivo, verdadeiro, uma imagem de mundo, fórmulas gerais. 

Bibliografia Geral Consultada.

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