sexta-feira, 7 de junho de 2019

Tina Turner - Poder, Música, Casamento & Iniciação ao Budismo.


                                                                                      Ubiracy de Souza Braga

                                            We don`t need another hero. We don`t need to know the way home”. Tina Turner

          
            Seu primeiro contato com a música ocorreu na infância, cantando em um coral de uma igreja batista, demonstrando natural aptidão ao canto. Os inumeráveis movimentos corporais empregados nas interações enraízam-se na afetividade individual. Da mesma forma que a pronúncia de uma palavra ou o silêncio numa conversa, eles nunca são neutros ou indiferentes, manifestando-se uma atitude moral em relação ao mundo e oferecendo ao discurso ou ao encontro uma corporeidade que lhes acrescenta ulteriores significações. É considerada dona das mais belas e viscerais vozes do cenário musical, além de ser reconhecida por suas memoráveis coreografias em seus shows. É reconhecida igualmente por ser a lenda viva do rock`n roll, e uma das maiores e melhores cantoras do mundo. Além disso, a fama e o poder a colocam no ranking das dez cantoras mais ricas do mundo. Em 1988 seu nome entrou para o Guiness Book, como “o maior show já feito por uma cantora solo”. A artista reuniu 182 mil pessoas no antigo estádio do Maracanã, antes da reforma que alterou a capacidade de público. Após obras de modernização, a capacidade do estádio reduziu-se para 78 838 espectadores, sendo o maior estádio do Brasil. O show foi transmitido pari passu para todo o mundo ocidental. Nesta época particularmente a cantora estava fazendo a turnê “Break Every Rule”.
            Todo o sistema simbólico associa no indivíduo uma capacidade de decodificação a uma capacidade de ação sobre o mundo. Os simbolismos de uma sociedade confundem-se, conferindo sentido e valor às iniciativas humanas e aos eventos diários ocorridos em certo ambiente. Eles instalam o homem na posição de ator sobre um espaço e um tempo prenhes de significados. As mímicas, os gestos, as posturas, a distância ao outro, a maneira de tocá-lo ou de conversar para evitar tal contato, assim como os olhares, consistem em uma linguagem inscrita no espaço e no tempo, as quais se referem a uma ordem de significados. Com suas indicações preciosas, eles estendem o conteúdo inicialmente conferido pela voz. O indivíduo habita seu corpo em consonância com as orientações sociais e culturais que a impõem, mas ele as remaneja de acordo com seu temperamento e história pessoais (cf. Le Breton, 2019: 47-48). Embora Tina Turner tenha começado a cantar em 1955 na banda The Kings of Rhythm, só iniciou profissionalmente sua carreira musical em 1958, quando a banda tornou-se reconhecida e passou a ter investimento de produtores, mas a artista só ganhou fama a partir de 1960, quando a banda se desfez e ela se tornou membro da dupla Ike & Tina Turner, com hits que ficaram famosos, tais como: “A Fool in Love”, em 1960, e “River Deep - Mountain High”, em 1966. Em 1974 iniciou sua carreira com alguns trabalhos independentes como: “Tina Turns the Country On!” (1974) e o com principal destaque “Acid Queen” (1975) fazendo parte da trilha sonora da ópera rock versão filmográfica “Tommy” (1975), considerada a melhor ópera rock da história da música contemporânea.


           
            Vale lembrar que o contralto é um tipo de voz feminina rara, com a mais baixa das tessituras, e com um timbre intenso e resistente, grosso modo, queremos dizer que se trata de uma incomum voz forte. Esse tipo de voz é considerado clássico e operístico, assim foi denominado para atender essas características. Rememorando sempre de voltar sua atenção à tessitura e ao timbre da voz. E na opera é que o contralto mais se faz presente. O ritualismo social da comunicação implica igualmente os movimentos do rosto e do corpo. Cada língua funciona de acordo com uma gestualidade que lhe é própria. Ademais, os movimentos do corpo não se diferenciam apenas de acordo com as condições sociais e culturais, eles são marcados pelo status conferido ao masculino e ao feminino segundo os grupos e de acordo com distinções frequentemente ligadas à idade. A explicação de contralto pode não ser tão clara, quanto esse estilo de voz, mas assimilar a forma e estilo de quem canta e enquadra nessa categoria, pode facilitar o entendimento do que representa o contralto. Com essa explicação teórica é possível perceber o quanto o contralto é uma voz única, que evita ao máximo o enquadramento em subdivisões, procurando ser pura. Algumas das vozes mais reconhecidas na cena musical são contraltos, marcando sua especificidade e mesmo que não exerçam esse papel simbólico no palco: Tina Turner, Alicia Keys, Adele, Pink, Katy Perry, Amy Winehouse, entre outras.
            Após seu divórcio em 1978, conseguiu reconstruir a sua carreira aos poucos em meio a desafios e inúmeros estilos musicais, lançando álbuns como “Rough” (1978), “Love Explosion” (1979) e já entrando na peculiar década de 1980 o seu trabalho “Ball of Confusion” (1982) através de inúmeras inovações ao vivo, marcadas pela sua enérgica presença de palco e seus poderosos vocais. Mas seu retorno ao cenário musical de grande sucesso e estrelato só se deu de fato com o lançamento do single “Let's Stay Together” (1983), seguido pelo lançamento do seu quinto álbum solo de estúdio, “Private Dancer” (1984), que se tornou um sucesso mundial. O single de maior sucesso do álbum, “What's Love Got to Do with It”, foi usado como título do filme baseado em sua autobiografia de 1993 que levou a papéis de destaque no cinema, como no filme “Tommy” (1975) e uma aparição no filme “Mad Max Beyond Thunderdome” (1985). Tina Turner é considerada “A Rainha do rock 'n roll”, sendo a artista feminina mais bem-sucedida nesse gênero, tendo vencido 12 vezes o Grammy Awards, e vendido mais de 200 milhões de cópias no mercado mundial da música. Também é uma das artistas que mais arrecadou em bilheterias por suas turnês na história. A revista Rolling Stone classificou-a dentre as “10 Maiores Artistas de Todos os Tempos”.
            Nascida em uma família batista, Tina Turner começou a cantar ainda criança no coral da igreja, que para Max Weber, a ênfase no significado ascético de uma vocação fixa propiciou uma justificativa ética para a moderna divisão social do trabalho. Da mesma forma, a interpretação providencial da lucratividade propiciou-a para os homens de negócios. A aristocrática tolerância do grão-senhor e a ostentação dos novos-ricos são igualmente condenadas pela ascese. Em compensação, tem para o sóbrio self-made man da classe média, como conceito sociológico de estratificação social, a demonstração da mais ampla aprovação ética. “God blesseth his trade” é uma observação corrente sobre aqueles homens bons, que aproveitaram com êxito as oportunidades divinas. Todo o poder de Deus do Antigo Testamento, que recompensa Seu povo pela obediência nesta vida, necessariamente exerce uma influência semelhante sobre o puritano (cf. Weber, 2002), que, de acordo com o conselho de Richard Baxter, comparava o seu próprio estado de graça com o dos heróis da Bíblia, ao interpretar os seus aforismas como parágrafos de um texto legal.  

                 
 
Filme: “Mad Max Beyond Thunderdome” (1985).          
Quando tinha 11 anos, sua mãe se mudou para St. Louis, no Missouri, pois havia se separado do pai de Tina, acabando com anos de um casamento “onde sofria agressões físicas e humilhações”. Seu pai casou-se novamente, não dando mais notícias às filhas, e se mudou para Detroit, a cidade mais populosa e mais famosa do estado estadunidense Michigan. Tina voltou a morar com a avó em um rancho em Brownsville, enquanto sua mãe levou sua irmã mais velha para St. Louis. Turner disse mais tarde em sua autobiografia que ela sentia que seus pais não a amavam. Nunca entendeu porque eles a deixaram com sua avó quando foram trabalhar em outra cidade e levaram apenas sua irmã mais velha. Jamais compreendeu o abandono do pai, que casou e não deu mais notícias. E muito menos ainda o abandono materno, causador de muito sofrimento, quando ela preferiu deixá-la na separação, ao invés de levá-la junto de sua irmã. Em entrevistas, ela informou que através do sofrimento de sua mãe, Zelma Priscilla, ela havia planejado deixar o marido quando estava grávida de Tina Turner. Sobre isso, a própria filha declarou  com serenidade: - “Ela era jovem, muito jovem, e não queria outra criança”. Foi criada pela avó tendo contato com a mãe e irmã por cartas.                                    
Aos 14 anos, com sua avó bastante idosa e doente, a jovem teve que deixar os estudos para cuidar da avó, quando começou a trabalhar como empregada doméstica para uma família rica da cidade de Ripley, no Tennessee. Ao completar 16 anos, sofreu muito pela morte da avó. Sua mãe e sua irmã não foram ao enterro, o que a deixou muito mal, pois alegava descaso da parte delas. Nesta época de perda e sofrimento, foi morar em St. Louis com as duas. Mas se dava bem afetivamente com a irmã, estava sempre em conflitos com a mãe, que a tratava friamente. Continuou a trabalhar como empregada doméstica, embora o grande sonho da sua vida fosse ser cantora, enquanto sua irmã era garçonete de um clube noturno. Morou pouco tempo com as duas, pois logo se casou com seu primeiro namorado e teve um filho. Mesmo cantando, ainda não havia obtido independência financeira e nem fama, além do que nem o salário dava para se manter. Sabendo da importância da formação, voltou a estudar, e se graduou na Sumner High School em 1958, completando o colegial e o curso profissionalizante. Após a graduação, começou a trabalhar como auxiliar de enfermagem no Barnes-Jewish Hospital, por um ano, quando conseguiu fama na área musical, e os compromissos profissionais não permitiam mais que ela se dividisse entre o hospital e os palcos.                       

Cantando no Maracanã (RJ) para 182 mil pessoas
.
Em 1960, Ike Turner compôs uma canção de R&B intitulada “Fool in Love”, que originalmente seria gravada pelo vocalista da antiga banda de Ike, “Art Lassiter”. Mas ele faltou no dia da gravação, e após alguma insistência, Ike deixou Turner gravar a canção, como um guia para que depois Art Lassiter gravasse sobre os vocais de Turner. No entanto, após ouvir a demo, Dave Dixon convenceu Ike a enviar a demo (vídeo) para Juggy Murray, presidente da Sue Records. Depois de ouvir a demo, Murray ficou muito impressionado com os vocais de Tina Turner, que comprou a faixa por vinte e cinco mil dólares, e convenceu Ike a transformar Turner em uma “cantora de show”. Assim, Ike renomeou Anna Mae Bullock para “Tina”, porque para ele o nome soava parecido como o nome da personagem Sheena do programa “Sheena, Queen of the Jungle”. 
O primeiro single da dupla, “Fool in Love” lançado em julho de 1960, se tornou um hit, alcançando a 27ª posição na Billboard Hot 100. Logo Kurt Loder descreveu a faixa como “a gravação mais negra que qualquer uma vez se emplacou nas paradas pop brancas desde a canção “What'd I Say” de Ray Charles, no verão anterior”. O segundo single “It's Gonna Work Out Fine” também se tornou um hit e lhe valeu uma indicação ao Grammy Awards. Outros singles notáveis da dupla foram lançados sob o selo da gravadora Sue Records, tais como: “I Idolize You”, “Poor Fool” e “Tra-La-La-La”. No ano seguinte a dupla deixa a Sue Records e assina contrato com a Kent Records, após o moderado desempenho do single “I Can`t Believe What You Say”, eles assinam contrato social no ano seguinte com a Loma Records. Entre os anos 1964 e 1969, a dupla assinou com mais de 10 selos discográficos diferentes. Ipso facto, a dupla ganhou popularidade em todos os Estados Unidos, chegando a ficarem 90 dias fazendo shows praticamente sem parar.
O site History of Rock na ocasião escreveu que a dupla é uma das mais quentes, duráveis e potencialmente explosivas de todo R&B, com shows que rivalizavam em termos de espetáculo musical com James Brown. Em 1965, a faixa produzida por Phil Spector e Tina Turner, “River Deep - Mountain High” se torna sucesso no Reino Unido, fazendo com que a dupla fosse convidada para abrir os shows da banda The Rolling Stones. Nos anos 1970, o casamento de Tina Turner com Ike sofreu desgaste, devido ao abuso de drogas e a agressividade do marido. O número das turnês e vendas discos caiu, e apesar do sucesso de Turner, no filme “Tommy”, Ike acusava Turner pelo declínio da dupla, chegando até mesmo a agredi-la fisicamente. Em 1978, Turner se separa legalmente de Ike. Tina Turner iniciou sua carreira solo, paralela com a que tinha na dupla. Após o sucesso do single “Nutbush City Limits”, Turner lançou em 1974 o seu primeiro disco solo, “Turner Turns the Country On”. O álbum incluía regravações, como “He Belongs To Me”, de Bob Dylan e “Don't Talk to Me”, de James Taylor. O álbum exitoso recebeu uma indicação ao Grammy Awards por “Best Female R&B Vocal Performance”. O seu segundo álbum, “The Acid Queen” (1975), veio junto com o sucesso da sua personagem no filme Tommy. O álbum teve venda satisfatória e o filme recebeu duas nomeações para o Oscar. 

O seu terceiro álbum, “Rough”, foi lançado em 1978. Neste ano, já divorciada e atuando como cantora solo, fez o lançamento deste álbum marcar a liberdade criativa de Turner, que enfim, além de escrever suas canções, regravou sucessos de nomes da música, como Elton John e Ray Charles, mas o álbum não decolou. Assim, foi lançado no ano seguinte o seu quarto álbum de estúdio, “Love Explosion”, mas este também não conseguiu o sucesso esperado, tendo apenas um single lançado, “Bakstabbers”. Após ficar um tempo sem gravar, Turner assina com a Capitol Records, e lança o seu quinto álbum “Private Dancer” em 1983, com um sucesso mundial, alcançando o número três na Billboard 200 dos Estados Unidos, com mais de 5 milhões de cópias, e mais de 11 milhões de cópias mundialmente. O álbum contou com hits, como “Let's Stay Together”, uma regravação de Al Green, “Better Be Good to Me”, “Private Dancer” e “What's Love Got to Do with It”, sendo que este  alcançou o n° 1 na Billboard Hot 100 norte-americana. Durante esse período, Turner também contribuiu na gravação do single beneficente “We Are the World”, que foi escrita por Michael Jackson e Lionel Richie.
            Seu sucesso continuou em 1985, quando ela fez uma participação no filme: “Mad Max Beyond Thunderdome”, além de contribuir para a trilha sonora do filme, um sucesso comercial e de crítica, que veio render-lhe um prêmio NAACP Image Award por sua atuação. Turner também ganhou Grammy Award, pela canção “One of the Living” da trilha sonora do filme. Com o convite de Bryan Adams grava o dueto “It's One Love”, com uma indicação ao Grammy Awards. Em 1986, lança o seu sexto álbum de estúdio, “Break Every Rule” que vendeu mais de 4 milhões de cópias em todo o mundo e contou com os singles: “Typical Male”, “Two People” e “What You Get Is What You See”. A canção “Back Where You Started” rendeu-lhe um Grammy Award por Best Female Rock Vocal Performance. Para a promoção do álbum, Turner embarcou na turnê mundial “Break Every Rule Tour”, que é uma das turnês mais bem-sucedidas de todos os tempos na história da música contemporânea. Em janeiro de 1988, como vimos, Tina Turner entra para o Guiness Book, após cantar no estádio do Maracanã, na cidade Maravilhosa. O seu sétimo álbum, “Foreign Affair”, foi lançado em 1989. Embora o álbum tenha feito sucesso na Europa, não conseguiu ter o mesmo sucesso dos seus dois últimos álbuns nos Estados Unidos, recebendo uma certificação de ouro. Mesmo assim, o álbum recebeu duas indicações ao Grammy Awards.
Em 2002, a rodovia Tennessee State Route 19, entre Brownsville e Nutbush na cidade natal de Turner, foi renomeada para Tina Turner Highway. No ano seguinte, Turner grava o dueto com Phil Collins, Great Spirits, para o filme da Disney, “Brother Bear”. E em 2004 lança o álbum de coletânea de seus maiores sucessos, “All the Best”, que vendeu mais de um (01) milhão de cópias nos EUA. Em dezembro de 2005, Turner foi homenageada no Kennedy Center Honors. O então presidente dos EUA, George W. Bush comentou que Turner é naturalmente talentosa, enérgica e sensual e se referiu às suas pernas “como as mais famosas do show business”. Nessa noite vários artistas prestaram homenagens a Turner, como Melissa Etheridge que cantou “River Deep - Mountain High”, Queen Latifah que cantou “What's Love Got to Do with It” e Beyoncé que cantou “Proud Mary”. Oprah Winfrey afirmou: - “Nós precisamos de heroínas como você, Tina. Você me fez ter orgulho de soletrar a palavra M-U-L-H-E-R”.
Em novembro desse mesmo ano é lançada o álbum de compilação “All the Best - Live Collection”, que é certificado platina nos Estados Unidos da América. Em 2007, Tina Turner fez a sua primeira apresentação ao vivo decorridos 7 anos, em um concerto beneficente para a “Cauldwell's Children Charity”, em Londres. Nesse ano regravou a canção “Edith and the Kingpin” para o álbum de tributo, “River: The Joni Lettets”, do pianista Herbie Hancock. Regrava a canção “The Game of Love”, para o álbum de compilação do guitarrista Carlos Santana. E colabora, também, com a cantora Elisa na faixa “Teach Me Again” para a trilha sonora do filme “All the Invisible Children”. Em fevereiro de 2008, Tina Turner se apresenta na cerimônia do Grammy Awards cantando ao lado da cantora Beyoncé. Ainda em 2008, Turner embarca na turnê “Tina!: 50th Anniversary Tour”, e lança um outro álbum de compilação e um DVD ao vivo, Tina Live. Em 2013, se torna a “pessoa mais velha a pousar na capa da revista Vogue”. Em 2014, a Parlaphone Records, lança um novo álbum de compilação, “Love Songs”.          
Em sua autobiografia, “I, Turner” (1987), ela revelou em detalhes os maus-tratos que sofria por parte de Ike: Ele a traía constantemente, a obrigava a cantar as músicas do jeito que ele queria, de acordo com a narrativa, sempre a julgando inferior, a trancava em casa, e só a deixava sair se fosse com ele que usava drogas e misturava com bebidas alcoólicas, descontando seus ciúmes doentios e problemas pessoais em Tina, onde ela revelou que apanhava até sangrar. Ela tentou diversas vezes fugir com os filhos e os enteados, mas sem sucesso, pois Ike sempre a localizava e ameaçava tirar a guarda do filho do casal, além de ameaçá-la de morte. Não suportando os horrores deste matrimônio infeliz, tentou o suicídio em 1968, ingerindo veneno de rato e ficando um mês em coma. Após este episódio, passou muitos anos tomando calmantes e antidepressivos para conseguir continuar casada, por medo dele, e para não perder a guarda do filho, revelando que só era feliz nos palcos, ao cantar e dançar. A autobiografia foi adaptada para o cinema no filme: “What's Love Got With It”, de 1993.
Embora tenha nascido em uma família batista, tudo em sua vida mudou através de uma grande amiga, Jackie, que lhe apresentou a filosofia budista de vida. Buda não deixou nada escrito. De acordo com a tradição budista, ainda no próprio ano em que o Buda faleceu, teria sido realizado um concílio na cidade de Rajaghra, onde discípulos do Buda recitaram os ensinamentos perante uma assembleia de monges que os transmitiram de forma oral aos seus discípulos. Porém, a historicidade desse concílio é alvo de debate: para alguns, esse relato não passa de uma forma de legitimação posterior da autenticidade das escrituras. Por volta do século I, os ensinamentos do Buda começaram de fato a ser escritos. Um dos primeiros lugares onde se escreveram esses ensinamentos foi no Sri Lanka, onde se constituiu o denominado Cânone Páli. O Cânone Pali é considerado pela tradição Theravada como “contendo os textos que se aproximam mais dos ensinamentos do Buda”. Não existem, contudo, no budismo um livro sagrado como a Bíblia ou o Alcorão, que seja igual para todos os crentes; para além do Cânone Pali, existem outros cânones budistas, como o chinês e o tibetano.
Ela era backing vocal na banda de Ike, e acompanhou Tina desde os primeiros passos na fama. Inclusive apanhou de Ike ao tentar defender Tina de uma agressão em público. Após a tentativa de suicídio, elas ficaram mais unidas, e em 1977, após alguns anos frequentando reuniões, Tina se converteu ao Budismo de Nitiren, e que através do daimoku, a lei mística, fez uma revolução interior positiva em sua vida, onde tudo se transformou, e mudando para muito melhor. Um ano depois de iniciar-se oficialmente no budismo, conseguiu se libertar do marido. Passando a reagir às agressões, quando parou de tomar calmantes e antidepressivos, conseguiu fugir de casa, se abrigando na casa desta amiga com os filhos e enteados. Finalmente entrou na justiça, pedindo o divórcio. A única coisa que não abriu mão “foi de seu nome artístico, Tina Turner, pois os bens materiais e até lucros da música seu ex-marido fez questão de não dividir”.
Apesar de anos de perseguição do ex-marido com ameaças de morte e de ter perdido toda sua fortuna no divórcio, Tina seguiu firme em suas orações, recuperou a paz e o prazer de viver, afirmando “que a prática do budismo salvou sua vida”. A cantora é avó de dois netos, filhos de Ronnie. Em janeiro de 2013, Turner se naturalizou suíça. Nesse mesmo ano, Tina oficializou seu terceiro matrimônio, comemorando o casamento em uma cerimônia budista em sua mansão na Suíça, na cidade de Küsnacht, uma tradicional comuna da Suíça, no Cantão Zurique, com aproximadamente 12.816 habitantes, com o produtor alemão Erwin Bach, 16 anos mais novo. Os dois moram juntos desde 1986. Eles se conheceram no início de 1980, num concerto musical nos Estados Unidos, país onde eles viveram juntos no início da união. O casal vive em Küsnacht desde 1995, onde a cantora aprendeu a falar alemão fluentemente. Contudo, em 3 de julho de 2018 seu filho mais velho Raymond Craig Bullock Hill, foi encontrado morto em sua residência, em Studio City, na Califórnia. Ele foi encontrado com marcas por arma de fogo na cabeça, constatando que o mesmo cometera suicídio. Após o ritual fúnebre, Tina viajou com o marido de barco pela costa californiana, e espalhou flores e as cinzas do corpo do filho em alto-mar. Em entrevistas, ela revelou: - “Ele tinha cinquenta e nove anos quando morreu tragicamente, mas será sempre o meu bebê”.
Em 2013, três meses após oficializar seu matrimônio, Tina sofreu um AVC, ficando algumas semanas internada. Os medicamentos ficaram mais fortes para tratar sua hipertensão, o que acabou afetando seus rins, que paralisaram ao longo dos anos. Em 2016 recebeu outro duro diagnóstico: câncer no intestino, onde, no mesmo ano, precisou fazer quimioterapia, tendo que retirar uma parte do órgão e passar um ano com bolsa de colostomia, tendo que realizar outra cirurgia para reconstrução do intestino e retirada da bolsa de colostomia. Isto piorou seu quadro renal, que passou a funcionar com apenas vinte por cento da capacidade. Os médicos informaram que, ou a artista faria hemodiálise para sempre, ou teria que receber um transplante, mas não o recomendaram: Além do câncer recém-operado e pelo fato clínico de estar tomando medicamentos para hipertensão, descobriu estar com aterosclerose, o que poderia causar sua morte na cirurgia. Em depressão, não queria arriscar sua vida em hemodiálise.
O país que vive é um dos mais baixos em transplantes do mundo. Sem saída, estava muito infeliz, sem conseguir levantar da cama e se alimentar. Embora sempre orasse e não perdesse sua fé, estava muito fragilizada. Como o suicídio é legal na Suíça, pois o paciente tendo consciência pode injetar em si mesmo uma droga letal, a cantora se filiou a uma organização social que facilitaria o processo. Mas seu marido a impediu, e a convenceu de que ele seria o doador do rim. Ela não queria, estava preocupada com ele, sendo o mesmo dezesseis anos mais jovem, temia por seu futuro, mas ele estava decidido. O transplante acabou acontecendo na cidade de Basel, em 7 de abril de 2017, após ele passar por uma bateria de testes físicos e psicológicos. A cirurgia correu bem, e enfim Tina pôde voltar para casa após algumas semanas de internação.  Seu marido logo se recuperou, e atualmente Tina está bem, mas em constante visita ao hospital, tomando doses fortes de imunossupressores para evitar rejeição renal, fazendo com que o medicamento enfraqueça seus anticorpos, e evite que eles ataquem algum órgão vital. Em entrevistas Tina Turner atribuiu mais esta vitória as suas orações budistas: - “O gongyo e o daimoku”, que vem lhe dando forças para suportar as adversidades. 
Em outubro de 2018 lançou o livro: “My Love History”, em que narra suas memórias, e nesta medida descreve o equilíbrio em manter-se no topo apesar dos longos anos sob a mira das câmeras e exposta tanto ao amor quanto ao julgamento do público, além de seus triunfos e de grande prova de coragem, falando do romance com Erwin Bach, seu atual marido. No capítulo primeiro, intitulado: “The best” é emocionante, mesmo na vida de uma mulher expressiva na vida e no palco, como Tina Turner, que em sua carreira demonstrou cabalmente a questão central da sociologia das emoções, marcada pela relação de um constante fluxo e refluxo diretamente das necessidades de se compreender o comportamento dos indivíduos associados às questões sociais. – Tina, quer se casar comigo? Esse foi o primeiro pedido que recebi de Erwin Bach, o homem por quem me apaixonei à primeira vista. O amor da minha vida. Erwin, afirma Turner, me fez perder o rumo assim que nos conhecemos. Ele é alemão, então não fala inglês muito bem-, mas gostei. Erwin deve ter ficado surpreso quando disse: - Não sei como responder. Minha única certeza era que não estava dizendo nem que sim, nem que não. 

- Os anos eram 1989, e fazia três anos que estávamos juntos. Meu aniversário de 50 anos se aproximava, e Erwin, que tinha 33, achava que eu queria um compromisso sério. Foi gentil da parte dele oferecer, mas, em minha opinião, nosso namoro estava maravilhoso daquele jeito. Além do mais, eu não sabia ao certo se queria me casar. Casamentos mudam as coisas e, no meu caso, nem sempre para melhor. Vinte e três anos depois Erwin pediu para casar comigo de novo. Desta vez, o momento foi perfeito. Nós estávamos com uma dúzia de amigos próximos, velejando pelo Mediterrâneo no iate Lady Marina, de nosso amigo Sergio. Parando para pensar, eu devia ter previsto que alguma coisa importante ia acontecer. O lugar era bonito, mas não romântico o suficiente para Erwin. Depois descobri que ele conversou com Sergio que sugeriu que seguíssemos para a ilha grega de Skorpios. Acordei com a vista da bela Skorpios, que pertencera à família Onassis, com a famosa casa de banho com porta azul de Jacqueline Kennedy na beira da praia. Percebi que todos olhavam para Erwin, que se aproximou de mim e se ajoelhou. Ele erguia uma caixinha em sua - com um gesto inconfundível – Já fiz esta pergunta antes, mas quero repetir: Tina quer se casar comigo? Suas palavras foram perfeitas. Os homens secavam as lágrimas – eu não acreditava que eles estavam chorando – e as mulheres gritaram “Uhuuuul” quando respondi enfática: - Sim!  Enfim, a celebridade norte-americana Tina Turner, de 73 anos, se casou às margens do lago de Zurique (Suíça) com seu companheiro, o produtor musical alemão Erwin Bach, de 57 anos, depois de 27 anos de namoro.
A cerimônia ocorreu na mansão de 5.500 metros quadrados - na cidade de Kusnacht - onde a cantora, com passaporte suíço recém-obtido, compartilha como casal há 17 anos, informaram vários veículos de jornalismo suíços. – “O casal já enviou uma carta a seus vizinhos para preveni-los e se desculpar pelo barulho que o casamento pode gerar”, confirma a versão digital do jornal Tribune de Genebra. A festa não passou despercebida e o casal preparou para a ocasião um palco próprio de um concerto para que os convidados pudessem desfrutar de um espetáculo de luzes e som. Houve mais de 120 convidados, que compareceram vestidos de branco, entre os quais Eros Ramazzotti, David Bowie e Oprah Winfrey, velha amiga de Turner, conta outro veículo, Le Matin. A cantora, cujo verdadeiro nome é Anna Mae Bullock e que se aposentou da vida artística depois da turnê que realizou entre 2008 e 2009, vive na Suíça desde 1995 com o marido. A cultura suíça é extremamente rica pela influência de seus países vizinhos. Os suíços distinguem-se e caracterizam-se por sua honradez, grande sentido da poupança e cuidado com o meio ambiente. Por sua vez, é um povo com um enorme respeito pelo próximo e um forte sentido de ajuda humanitária; não à toa é o país sede das Nações Unidas e onde nasceu o movimento da Cruz Vermelha. Apesar de parecerem um pouco reservados, os suíços são amistosos e hospitaleiros.Tina Turner se sente bem na Suíça e o respeito a sua vida privada e seu desejo de ser naturalizada no país o qual passou a conviver.  
Bibliografia geral consultada.

CLAGHORN, Charles Eugene, Biographical Dictionary of American Music. New York: Parker Publishing Company Editors, 1973; MITZMAN, Arthur, La Jaula de Hierro. Una Interpretación Histórica de Max Weber. Madrid: Alianza Universidad, 1976; TOURAINE, Alain, La Voix et le Regard. Paris: Éditions du Seuil, 1978; TURNER, Tina; LODER, Kurt, Eu, Tina: A história de minha vida. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1987; DINVILLLE, Claire, A Técnica da Voz Cantada. Rio de Janeiro: Editora Enelivros, 1993; BAREAU, André, O Buda: Vida e Ensinamentos. Lisboa: Editorial Presença, 1997; VERNANT, Jean-Pierre, O Universo, os Deuses, os Homens. São Paulo: Editora Companhia das letras, 2000; WEBER, Max, La Ética Protestante y el Espiritu del Capitalismo. Madrid: Mestas Ediciones, 2002; PERRAULT, David, Eric Clapton: La Vie en Blues. Paris: Editeur Castor Astral, 2003; STRASSBURGER, Damaris, Jogo de Identidades: A Configuração Publicitária de Anunciantes e Consumidores. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2011; WILLIAMS, Eric, Capitalismo e Escravidão. Traduzido por Denise Bottmann. São Paulo: Editora Companhia das Letras. 2012; Artigo: “Tina Turner se casa em Zurique aos 73 com produtor Erwin Bach”. In: http://g1.globo.com/mundo/2013/07/10; CARRIJO, Daniel Dória Possolo, Cinema & Blues: Representações Audiovisuais do Gênero no Século XXI. Dissertação de Mestrado em História. Departamento de Ciências Humanas e Letras. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2014; PANAIOTI, Antoine, Nietzsche e a Filosofia Budista. São Paulo: Editora Cultrix, 2017; LE BRETON, David, Antropologia das Emoções. Tradução de Luis Alberto Salton Peretti. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2019; TURNER, Tina, Minha História de Amor. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Best Seller, 2019; entre outros.

domingo, 2 de junho de 2019

Graciliano Ramos - Literatura & Sofrimento Relacional da Angústia.


                                                                                                      Ubiracy de Souza Braga

                                        Acho medonho alguém viver sem paixões”. Graciliano Ramos
  
                       
            Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, município do estado de Alagoas, em 27 de outubro de 1892. Primeiro de dezesseis irmãos viveu os primeiros anos em diversas cidades nordestinas, como Buíque, Pernambuco, Viçosa e Maceió. Terminado o 2° grau em Maceió, seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou um tempo trabalhando no ofício de jornalista. Em setembro de 1915, motivado pela morte dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo e do sobrinho Heleno, vitimados pela epidemia de peste bubônica, volta o convívio com o pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios (Xucurus), Alagoas. Entre 1928 e 1930 a prefeitura foi exercida pelo escritor Graciliano Ramos, que etnograficamente incluiu o cotidiano da cidade em seu primeiro romance, Caetés (1933). Casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos. Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios pelo extinto Partido Democrata (cf. Lima, 1971; Ramos, 1992). Sua gestão tornou-se reconhecida regionalmente pela vontade política e zelo com o dinheiro público. Reconhecido pela sisudez, sua candidatura foi resultado de uma articulação política envolvendo os chefes do poder local. Eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, toma posse em 1928, mas renuncia em 10 de abril de 1930.  
            No Nordeste o primeiro transporte urbano foi o bonde de burros, numa época em que a indústria automobilística experimentava o sistema ideológico fordista, sendo poucas as famílias, que dispunham de automóvel, importados da França, Inglaterra, Itália, Alemanha e Estados Unidos. O bonde de burro era um transporte de classe média, particularmente em Maceió, cidade nascida do vilarejo de um pequeno engenho, o Massayo, com áreas urbanas reduzidas, apesar de seu progresso crescente e densidade demográfica. O registro mais antigo sobre Maceió é de 25 de novembro de 1611, quando foi lavrada a escritura em que o alcaide-mor de Santa Maria Madalena, Diogo Soares, doa uma sesmaria a Manuel Antônio Duro medindo 800 braças e se estendendo até encontrar o Rio Mundaú. O beneficiário já era morador da Pajuçara, onde tinha uma “Casa de telha” e, pelos critérios adotados pela corte portuguesa, deve ter sido pessoa de posses para explorar e investir na posse da sesmaria (sexta parte).
 

           
O primeiro núcleo urbano surge no início do século XVIII a partir do Engenho Massayo, do qual não se sabe quem era o seu proprietário e nem a sua exata localização topográfica, que pode ter sido na atual Praça D. Pedro II ou em uma área mais próxima do Riacho Massayo, o sofrido Salgadinho. A população pobre que ali se estabeleceu andava a pé, só apanhando o bonde de burros em casos de extrema necessidade, ou mesmo por motivo de doença. Nas tardes de domingos e feriados os bondes de burros tinham grande movimentação. Os cidadãos respeitáveis, as senhoras da sociedade, as melindrosas e almofadinhas, que constituíam a geração de seu tempo, na primeira e segunda década do século XIX, utilizavam o bonde para ligeiros passeios, e claro, para ir e vir das matinês dos cinemas Floriano e Capitólio que iniciavam o sistema sonoro com a Melodia da Broadway e a Marcha dos Granadeiros. O Odeon, Delícia e o Ideal continuavam a exibir os filmes mudos, decerto, com orquestras de pianos e violinos tocando nas belas salas de espera dos cinemas. Depois, passando às salas de projeções para execução de partituras musicais, mas adaptadas ao enredo dos filmes em exibição. As famílias utilizavam o bonde de burros para comparecer às procissões, atos cívicos, comícios políticos e encontros nas casas de chá, sorveterias e restaurantes.
            A cidade vivia um período atribulado: o prefeito anterior, Lauro de Almeida Lima, fora assassinado a tiros um ano antes, após desentender-se com um fiscal de tributos. Este, por sua vez, foi fuzilado em seguida pelo delegado de polícia. O banho de sangue traumatizou a população urbana da cidade. O vice-prefeito Manuel Sampaio Luz cumpriu o resto do mandato. Com a proximidade das eleições, os políticos começaram a articulação para escolher o membro sucessor tentando dissipar o clima de comunicação político sombrio. Era um ambiente inóspito, típico da República das oligarquias quando os partidos interferiam pouco nas eleições. Contudo, o que demandava valor de troca era a representação dos caciques políticos, geralmente fazendeiros. Em Palmeira dos Índios, a política das últimas quatro décadas era dominada pela família Cavalcanti, aliados do governador alagoano Pedro da Costa Rego do Partido Democrata. Após negociações, a cúpula indicou Graciliano Ramos, comerciante que beirava os 35 anos, com fama de honesto, culto, austero e, principalmente, amigo dos caciques do partido. Aliado ao bom trânsito político havia sido bem sucedido como presidente da Junta Escolar na gestão anterior, uma espécie de secretário municipal da educação. Chamado para uma reunião, Graciliano reagiu bem ao aprovar o projeto de torná-lo prefeito.    
            Pedro da Costa Rego aprendeu as primeiras letras e cursou o primário com sua tia, Ana Oliveira e Silva, que era proprietária de uma escola particular. Em Maceió, frequentou o Liceu Alagoano até a morte do pai em 1897. Após esse curto período em Maceió, Costa Rego e seu irmão Rosalvo foram morar no Rio de Janeiro, na casa do tio e jornalista Antônio José de Oliveira e Silva, que era redator da Gazeta de Notícias publicado no Rio de Janeiro, circulou entre agosto de 1875 e 1942.  Após sete anos de estudos no Mosteiro de São Bento, localizado no Morro de São Bento, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. É um dos principais monumentos de arte colonial da cidade e do país. Costa Rego concluiu o curso ginasial em 1906. Contando com a ajuda do tio, Costa Rego começou a trabalhar no jornalismo. Cumpria uma tradição da família que já tinha na profissão os tios Pedro Amâncio da Costa Rego e Oliveira e Silva, os primos Zadir Índio, Otávio Brandão, Luiz Viveiros Costa (Lucas Viveiros), Rodolpho, Paulo e Pedro Motta Lima. No Correio da Manhã, teve um papel expressivo de trabalho como revisor, repórter-policial, cronista parlamentar e redator-chefe. Com o pseudônimo de Bárbaro Heliodoro, publica diariamente na coluna social: “Para ler no bonde”. O reconhecimento dos leitores o colocou dentre os principais jornalistas do país.

 
            Costa Rego chegou à política navegando a onda das “Salvações” iniciadas pelo marechal Hermes da Fonseca na presidência da República. O objetivo era o de enfraquecer politicamente oligarquias que insistiam em permanecer no poder durante a Primeira República. Essa política em Alagoas conduziu o coronel Clodoaldo da Fonseca ao poder. Era primo e cunhado do presidente da República e chefe do seu Gabinete Militar, Costa Rego, então com 23 anos, foi convocado para ser o secretário de Agricultura. Desentendeu-se com o governador, pediu exoneração do cargo. Voltou a trabalhar no Correio da Manhã, mas não se afastou da política. Com o apoio de Clodoaldo da Fonseca foi eleito deputado federal em Alagoas pelo Partido Democrata nas eleições de 30 de janeiro de 1915. Foi reeleito deputado federal por quatro períodos entre 1915-1928. Renunciou ao cargo em 1929 após ter sido eleito senador na vaga de Batista Acioly. Foi reeleito senador por mais duas legislaturas. Nas duas perdeu os mandatos por força da chamada Revolução de 1930 e o golpe de Estado de 1937.
Graciliano Ramos viveu em Maceió entre os anos 1930-36, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública. Em 1934 havia publicado São Bernardo, mas antes de publicar o próximo livro, foi preso com a chamada “Intentona Comunista” de 1935, uma conspiração de natureza político-militar de protesto político-institucional contra um governo autoritário, dentro do quadro dos movimentos tenentistas que se estendem no Brasil na década de 1920. Articularam-se estas reivindicações, à ideia de uma revolução “nacional-popular” contra as oligarquias, a abolição da dívida externa, a reforma agrária e o estabelecimento de um governo de base popular.  Esta confluência de movimento social corporificou-se na pessoa de seu principal líder, Luís Carlos Prestes, capitão do exército e líder tenentista comunista. Como dirigente organizou o levante tendo como estratégia a guerra de movimento da Internacional Comunista, e composta pela alemã Olga Benário, além do argentino Rodolfo Ghioldi, o alemão Arthur Ernest Ewert, Ranieri Gonzalez e  outros militantes ligados a elite do Comitê Executivo da Internacional Comunista.
            Com ajuda de amigos letrados, entre os quais José Lins do Rego, que, ao lado de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, figuram como um dos romancistas regionalistas mais prestigiosos da literatura nacional consegue publicar Angústia (1936), considerada por muitos analistas críticos como sua melhor obra.  Graciliano Ramos, ao subjugar a personagem Luís da Silva à crueldade de uma evocação que apenas acentua seu desespero, indica pistas para a recorrência sociológica temática cujas personagens são marcadas pela amargura e pela miséria, ipso facto, para a sua própria angustia. Em 1938 publicou Vidas Secas. Em seguida estabeleceu-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Em 1945 ingressou no histórico Partido Comunista que na década de 1960 dividiu-se entre PCB e PC do B, sob a liderança do marxista Luís Carlos Prestes. Nos anos seguintes, Graciliano realizaria viagens a países europeus, com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, inferindo relatos descritos no livro: Viagem (1954). Ainda em 1945, publicou Infância, relato autobiográfico. Adoeceu gravemente em 1952. No começo de 1953 foi internado,  falecendo em 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer no pulmão contraído pelo tabagismo.
1930 - Maceió a Coluna vindo de Recife.
Quando Antônio Candido analisou a obra de Graciliano Ramos, em 1945, pouco havia além das resenhas surgidas por ocasião da edição ou eventual reedição dos livros, num tempo em que a polarização ideológica entre fascistas e comunistas dividia os intelectuais de forma radical. É considerado um dos grandes expoentes da crítica literária brasileira pelo fato de suas obras terem se tornado base essencial para o debate da formação literária nacional associada a uma construção sociológica e ao humanismo. De método dialético, comparatista e sociológico, antecipou a interdisciplinaridade para entender a literatura como expressão da cultura brasileira. Como militante político, foi um dos vários precursores do socialismo no Brasil. O cuidado de empreender uma leitura do conjunto da obra, como é muito compreensível, dada a sua novidade social, ainda estava por ser realizado. Somente em 1947, com o lançamento conjunto pelo editor José Olympio dos cinco volumes até ali escritos pelo angustiado alagoano – Caetés é o primeiro livro do escritor publicado em 1933; S. Bernardo, publicado em 1934, está situado na segunda etapa do modernismo brasileiro, quando narra a história do grande amor desencontrado de Paulo Honório por Madalena. A obra consiste na história social como representação da sociologia do homem simples, mas ambicioso que acaba por se transformar num poderoso fazendeiro do sertão de Alagoas.
Casa-se com Madalena para conseguir um herdeiro, mas incapaz de entender a forma humanitária de Madalena ver o mundo, ele tenta anulá-la com seu particularismo. É o que é decorrente per si em Angústia (1936), quando Graciliano Ramos estava preso no governo da fase autoritária de Getúlio Vargas (cf. Silva, 2014; Vale, 2016) e solidarizou com amigos para sua publicação. Os liberais se organizaram para constituir um movimento social amplo em favor das eleições livres, direito ao voto, da liberdade de organização dos partidos e de expressão da democracia. É precisamente a retórica discursiva antiliberal que fundamentou o papel atribuído ao intelectual (cf. Costa, 2015). Estava em curso um processo social de hegemonia política em que o Estado se transformava no “pai da intelectualidade”, ao se identificar com as forças sociais e políticas. O intelectual deveria se “converter” politicamente em seu fiel colaborador. Assim, ele passaria a ter um papel e dever para com a ideia de nacionalidade, incluindo o escritor Graciliano Ramos que não hesitou, assim, em unir um protesto social sem concessões com uma técnica dostoievskiana de representação dos subterrâneos da alma.  
A obra apresenta o narrador, um funcionário público de 35 anos, solitário, desgostoso da vida que acaba se envolvendo afetivamente com sua vizinha. Com traços existencialistas, mistura fatos do passado e do presente, narrando num ritmo frenético como um grande monólogo interior. Vidas Secas é seu quarto romance, escrito entre 1937 e 1938, de título original: Um Mundo Coberto de Penas, mas que o editor José Olympio e seu irmão Daniel, sabiamente convenceram-no a mudar o título um pouco longo para Vidas Secas. E deu certo. O livro vendeu 10 milhões de exemplares e foi traduzido para três idiomas. A obra é inspirada em muitas histórias de vida que Graciliano Ramos acompanhou na infância sobre a vida de retirantes. Nesta narrativa, o pai de família Fabiano e a cadela Baleia são considerados personagens mais famosos no âmbito da literatura brasileira. Sobre a narrativa no livro: Infância e Insônia – é tema que Álvaro Lins fez análise comparada daquela obra, e surgiria um ensaio mais longo, com pretensões teóricas mais eloquentes e avançadas, de Floriano Gonçalves, publicado em Caetés (1933), como apresentação à obra reunida. Os textos de Antônio Candido, publicados em jornal quando do lançamento de Infância em 1945, que, acrescidos e refundidos, viriam a compor o ensaio Ficção e Confissão (1992), são pioneiros em traduzir e expressar os motivos centrais da obra de Graciliano Ramos. Além disso, pertencem ao que o brilhante escritor reconhece ser obra basilar pelo seu engajamento político afetivo, com a tendência ideal de irradiar o social com a liberdade do leitor.
Não há razão para crer que só os intelectuais tenham compleição imaginária definida. Ocorre em seu caso uma relação imaginária de força produtiva reconhecida, cujo relacionamento com o processo histórico e social é objeto de debate público. Mas, sem dúvida, impressiona-nos a fixação que Graciliano Ramos tem pela morte. – “O conto sensacional de seu Ramalho era o seguinte. Um moleque de bagaceira tinha arrancado os tampos da filha do senhor de engenho. Sabendo a patifaria, o senhor de engenho mandara amarrar o cabra e à boca da noite começara a furá-lo devagar, com ponta de faca. De madrugada o paciente ainda bulia, mas todo picado. Aí cortaram-lhe os testículos e mexeram-lhes pela garganta, a punhal. Em seguida tiraram-lhe os beiços. E afinal abriram-lhe a veia do pescoço, porque vinha amanhecendo e era impossível continuar a tortura. No dia seguinte reproduziria o mesmo caso: o moleque morreria lentamente, sem beiços, a boca enchumaçada, por causa dos gritos. Fazia pausas para recordar os fatos com segurança, batia na testa, interrogava-se a cada instante e acusava-se quando avançava uma informação inverídica: - 1910. Minto, 1911, Manoel? As datas produziam-lhe aflição. Nunca pode fixar-se em nenhuma.
Nunca pode saber com precisão a data da morte do moleque. Isto não tinha importância: não guardo números, e a angustiada confusão de seu Ramalho irritava-me. Enquanto ele batia na testa, avançava e recuava, eu ia pouco a pouco distinguindo uma figura nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era uma pasta escura de carne retalhada; os membros, torcidos de agonia, estavam cobertos de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem beiços, mostrava dentes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os olhos esbugalhados tornavam-se vermelhos. O negro arquejava. Corria sangue entre as frestas dos paralelepípedos e empoçava na sarjeta. A poça crescia, em pouco tempo transformava-se num regato espumoso e vermelho. – ai, ai! Suspirou seu Ramalho. Vou chegando ao serviço. Ergueu-se como se levantasse da cadeira um peso enorme. E, descontente, arfando, um ombro alto, outro baixo, o cachimbo entre os dentes, lá se foi para a usina elétrica. Rangia os dentes e dizia baixinho: - Que estupidez! Que estupidez! Mas a figura deitada continuava a escabujar no chão. Agora não era preta nem estava nua. Pouco a pouco ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava, as feridas saravam. E o homem arquejava no calçamento, os olhos abotoados, a cara roxa, os dentes à mostra, a língua fora da boca.                       
Alguns dias achava-me no banheiro, nu, fumando, fantasiando maluqueiras, o que sempre me acontece. Fico assim duas horas, sentado no cimento. Tomo uma xícara de café às seis horas e entro no banheiro. Saio às oito, depois das oito. Visto-me à pressa e corro para a repartição. Enquanto estou fumando, nu, as pernas estiradas, dão-se grandes revoluções na minha vida. Faço um livro, livro notável, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros e defendem. O diretor olha-me com raiva, mas sei perfeitamente que aquilo é ciúme e não me incomodo. Vou crescer muito. Quando o homem me repreender por causa da informação errada, compreenderei que se zanga porque o meu livro é comentado nas cidades grandes. E ouvirei as censuras resignado. Um sujeito me dirá: - Meus parabéns, seu Silva. O senhor escreveu uma obra excelente. Está aqui a opinião dos críticos. De ordinário fico no banheiro, sentado, sem pensar, ou pensando em muitas coisas diversas umas das outras, com os pés na água, fumando, perfeitamente Luís da Silva. O banheiro na casa de seu Ramalho é junto, separado do meu por uma porta estreita. Sentado no cimento, brincando com a formiga ou pensando no livro, distingo as pessoas que se banham lá. Seu Ramalho chega tossindo, escarra e bate a porta com força. O banho é um conjunto de gestos, palavras e formalidades,  imbuídos de um valor simbólico, usualmente de forma prescrita e codificada.
Molha-se com três baldes de água e nunca se esfrega. Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um minuto. D. Amélia vem decentemente, lava-se docemente e canta baixinho: - Bendito, louvado seja. Marina entra com um estouvamento ruidoso. Entrava. Agora está reservada e silenciosa, mas o ano passado surgia como um pé de vento e despia-se às arrancadas, falando alto. Se os botões não sabiam logo das casas, dava um repelão na roupa e largava uma praga: - Com os diabos. Notavam-se todas as minudências do banho comprido. Gastava dez minutos escovando os dentes. Pancadas de água no cimento e o chiar da escova, interrompido por palavras soltas, que não tinham sentido. Em seguida mijava. Eu continha a respiração e aguçava o ouvido para aquela mijada longa que me tornava Marina preciosa. Mesmo depois que ela brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele momento e dedicar a ele uma atenção concentrada. Quando Marina se desnudou junto a mim, não experimentei prazer muito grande. Aquilo veio de supetão, atordoou-me. E a minha amiga opôs uma resistência desarrazoada: cerrava as coxas, curvava-se, cobria os peitos com as mãos, e não havia meio de estar quieta. Arrancava os botões, praguejava, escovava os dentes, mijava. Abria-se a torneira como repetição de um ritual: rumor de água, uns gritinhos, resfolegar de animal novo. A torneira se fechava – e era uma esfregação interminável.
Marina acabara-se numa resignação estúpida, entregara-se a Deus; dona Adélia não responsabilizara ninguém. Julião Tavares era como viga que tomba do andaime e racha a cabeça do transeunte. Aproveitando a solidão seduzira Marina. E azulara. Mostrava-se raramente, em visitas rápidas, com certeza receando que a moça cometesse um desatino e lhe atrapalhasse a vida. D. Adélia estava justificada: - “A senhora não nasceu assim. Era forte e bonita. Passou de carrapeta a bola de bilhar. A senhora é um pedaço de pano sujo”. Marina tinha sido julgada e absolvida. Provavelmente me deixei influenciar por leituras românticas. Esqueci que ela um ano antes invejava as meias de seda de dona Mercedes. Tinha tudo: meias, vestidos, um filho no bucho, um filho que sairia gordo, bochechudo e safado, como o pai, como o avô, o Tavares dos Tavares & Cia., uns ratos. Marina era instrumento e merecia compaixão. Julião Tavares era também, mas não senti pena dele. Senti foi o ódio que sempre me inspirou, agora aumentando. Necessário que ele morresse cortado em pedaços, como o moleque da história que seu Ramalho contava. Logo me aborrecia da tortura comprida. Nojo, medo, horror ao sangue. Julião Tavares morreria violentamente e sem derramar sangue.           
Depois que Julião Tavares tinha deixado de frequentar a casa vizinha, qualquer ausência de Marina me trazia a suspeita de que os dois iam encontrar-se. Tomava o chapéu e acompanhava-a, escondendo-me, encostando-me às paredes, recenado que a espionagem fosse descoberta. Evidentemente as relações dos dois estavam reatadas. O homem gordo ia virar uma esquina e dar o braço à amante, leva-la a uma casa de recurso. A evidência esmorecia. Marina andava como as outras mulheres, olhava as vitrinas, entrava  nas lojas. Ia espera-la no primeiro poste cintado de branco. Minutos depois a perseguição recomeçava até que ela se recolhia. Sentia-me a um tempo aliviado e lograda. Era claro que eles iam juntar-se em qualquer parte. Acusava-me de não ter prestado bastante atenção à rua. Com certeza tinha-me escapado uma porta meio aberta, uma escada sombria onde aquele sem-vergonha se atocaiava. O meu desejo era voltar, examinar os arredores, as esquinas. Estava certo de que, enquanto eu vigiava Marina, Julião Tavares me vigiava de longe, parando, escondendo-se. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem. O doutor chefe de polícia estava ali tomando café, de cabeça baixa, preocupado com alguma encrenca. Que é que me podia acontecer? A vida na prisão não seria pior não seria pior que a que eu tinha. 
Medo da opinião pública? Não existe opinião pública: há pedaços de opinião, contraditórios. Uns deles estariam de meu lado se eu matasse Julião Tavares, outros estariam contra mim. No júri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom, e o que é ruim, tão embotado vivemos. Eu não podia temer a opinião pública. E talvez temesse. Com certeza temia tudo isso. Era um medo antigo, medo que estava no sangue e em esfriava os dedos trêmulos e suados. A corda áspera ia-se amaciando por causa do suor das minhas mãos. E as mãos tremiam. O chicote do feitor num avô negro, há duzentos anos, a emboscada dos brancos a ouros avô, caboclo, em tempo mais remoto... Estudava-me ao espelho, via, por entre as linhas dos anúncios, os beiços franzidos, dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada. Procurava vestígios de duas raças infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolando e cheio de sonhos. 
Nas horas de serviço conseguia distrair-me. Os livros enormes de lombos de couro e folhas rotas, os ofícios, a campainha do telefone e o tique-taque das máquinas de escrever me arrastavam para longe da terra. O que lá fora é bom, útil, verdadeiro ou belo não tem aqui nenhuma significação. Tudo é diferente. Respiramos um ar onde voam partículas de papel e de tinta e trabalhamos quase às escutas. A voz do diretor é doce, ranzinza e regulamentar. Se um funcionário comete uma falta, o diretor mostra o parágrafo e ao artigo adequado ao caso. Sucede que o funcionário se defende apontando outro artigo. Aí o diretor perturba-se e descontenta-se: compreende que o serviço não vai bem, diante do regulamento, admira e receia o empregado que soube encapar-se nele. Movemo-nos como peças de um relógio cansado. As nossas rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes gastos. O que tem valor são as coisas vagarosas, sonolentas. Se o maquinismo parasse, não daríamos por isto: continuaríamos com o bico da pena sobre folha molhada e rota, o cigarro apagado entre os dedos amarelos. O ambiente era impróprio à vida intensa que elas tinham mundo afora. Logo que se afastava da repartição tudo mudava.
Tropeçando no paralelepípedo, via meio encadeado pelo sol, os transeuntes juntarem e apartarem-se. Havia intenções reservadas nos homens que se acercavam das mulheres, havia promessas nos olhos das mulheres que se desviavam dos homens. Automóveis abertos exibiam casais, automóveis fechados passavam rápidos e óbvios:  adivinhava neles saias machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os veículos transportavam pecados. A cidade estava em cio, era como o chiqueiro do velho Trajano. Os relógios batiam, como alguém que na hora que você mais precisa, não te ajuda... Com certeza os machos olhavam os mostradores, pensando em entrevistas. Mas não se via a gente. Apenas maloqueiros cochilando, alguns mendigos, crianças barrigudas e amarelas. O resto devia estar no trabalho: os homens nas oficinas, nos estribos dos bondes da Nordeste, nos quartéis, em todos os infernos que há por aí; as mulheres lavando roupa, amando por dinheiro, preparando a comida ruim e insuficiente. Os filhos roídos pelos vermes, vagabundos mais tarde, dormiriam ao meio-dia nas portas das bodegas? Muitos agora tiritavam, batendo os dentes como porcos caititus, na maleita que a lama da lagoa oferece aos pobres. – “Proletários, uni-vos”.    
Bibliografia geral consultada.

ARAUJO, Bruno Rodrigo Tavares, Rebeldia com Causa: A Trajetória Política e Intelectual de Antônio Bernardo Canellas (1916-1920). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2015; COSTA, Arrisete Cleide Lemos, Maceió Medúsica: Uma Interpretação Histórica das Imagens da Diáspora de Intelectuais Alagoanos na Literatura - 1930-1940. Maceió: Editora da Universidade Federal de Alagoas, 2015; DANTAS, Mariana Albuquerque, Dimensões da Participação Política Indígena na Formação do Estado Nacional Brasileiro: Revoltas em Pernambuco e Alagoas (1817-1848). Tese de Doutorado. Centro de Estudos Gerais. Programa de Pós-Graduação em História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2015; VALE, Fabiano Ferreira Costa, Angústia, de Graciliano Ramos: Uma Narrativa de Tempos Sombrios. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Literatura. Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Brasília:  Universidade de Brasília, 2016; SOUZA, Bruno Henrique Alvarenga, A Literatura Menor de Graciliano Ramos: Uma Cartografia da Infância. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Letras. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017; BARBOSA, Felipe da Silva, “Apontamentos para uma História da Historiografia de Alagoas”. In: Caeté. Revista de Ciências Humanas, vol. 1, nº 2, 2019; SILVA, João Paulo Omena, Entre o Soar dos Sinos e o Apito do Trem: Modos de Pensar o Museu Xucurus de Palmeira dos Índios/AL. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2017; MENDONÇA, Wellington Pascal de, A Consagração de Graciliano Ramos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2018; REIS, Diana Rodrigues, Vidas Secas, de Graciliano Ramos à Luz do Pós-Colonialismo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Porto Nacional: Universidade Federal do Tocantins, 2019; entre outros.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Naturismo - Corpo, Sexualidade & Tabuleiro de Cultos Sociais.

Ubiracy de Souza Braga

        Não existe antídoto mais poderoso contra a baixa sensualidade do que a adoração da beleza”. Denis Diderot

Museu em Paris abre visitação para naturistas.

Denis Diderot nasceu na Champanha (1713-1784) e começou sua educação formal no Colégio Jesuíta de Langres, na França. Seus pais eram Didier Diderot (1685–1759), um cuteleiro, e sua esposa Angélique Vigneron (1677–1748). Três dos cinco irmãos de Diderot chegaram à idade adulta, Denise Diderot (1715–1797), Pierre-Didier Diderot (1722–1787) e Angélique Diderot (1720–1749). Ingressou no colégio jesuíta de Langres em 1723 (data mais provável). O ensino fornecido pelos jesuítas, que detinham o monopólio da educação secundária na França de então, enfatizava o ensino das línguas clássicas (grego e latim) e uma atenção rigorosa às orações católicas, o que visava a atenuar a influência humanista e secular. Diderot foi um aluno muito perspicaz e recebeu até mesmo algumas menções honrosas e premiações em virtude de seu excelente desempenho escolar. Em 1726, o bispo de Langres concede, a Diderot, a “tonsura”, uma cerimônia religiosa em que o bispo dá um corte no cabelo do ordinando ao conferir-lhe o primeiro grau de Ordem no clero, chamado também de prima tonsura. Tudo indicava que o jovem Denis seguiria uma carreira eclesiástica. A família de Diderot esperava que ele herdasse a prebenda de seu tio, o cônego Didier Vigneron. Contudo, por uma série de infortúnios (o testamento em que o tio legava a prebenda ao sobrinho se tornou inválido porque só chegou a Roma após a morte de seu autor), Diderot não recebeu o benefício esperado, embora recebesse a alcunha de abade (abbé) por parte de seus concidadãos.

Por motivos ainda não inteiramente esclarecidos, em 1728, aos dezesseis anos, Diderot parte para Paris e passa a frequentar o colégio de Harcourt (Liceu Saint-Louis). Em 1732, recebe o grau de mestre em artes na Universidade de Paris. Pouco se sabe sobre os primeiros anos de Diderot em Paris. Sabe-se que considerou a possibilidade de estudar direito, que sua conduta foi motivo de preocupação para seu pai e que passou por dificuldades financeiras. Diderot iniciou sua carreira como tradutor. Em 1743, ele traduz a Grecian History, de Temple Stanyan. É, contudo, a tradução de An Inquiry Concerning Virtue or Merit, de Ashley-Cooper, 3º Conde de Shaftesbury, sob o título Essai sur le Mérit et la Vertu, publicado em 1745, que Diderot se torna um pouco mais conhecido. A primeira peça relevante da sua carreira literária é Lettres sur les aveugles a l`usage de ceux qui voient, em que sintetiza a evolução do seu pensamento desde o deísmo até ao ceticismo e o materialismo ateu, e tal obra culminou em sua prisão. Sua obra-prima é a edição da Encyclopédie (1750-1772) ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, onde buscou reportar todo o conhecimento que a humanidade havia produzido até sua época. Demorou 21 anos para ser editada, e é composta por 28 volumes. Mesmo que, na época, o número de pessoas que sabia ler fosse pouco, ela foi vendida com sucesso. Denis conseguiu uma fortuna. Deu continuidade com empenho e entusiasmo apesar de alguma oposição da Igreja Católica e dos poderes estabelecidos. 

Escreveu também algumas outras peças teatrais de pouco êxito. Destacou-se particularmente nos romances, nos quais segue as normas dos humoristas ingleses, em especial de Sterne: A Religiosa, O Sobrinho de Rameau, Jacques, o fatalista e seu mestre. Escreveu vários artigos de crítica de arte. Foi um dos primeiros autores que fizeram da literatura um ofício, mas sem esquecer jamais que era um filósofo. O corpo, notoriamente, percorre a história da ciência e da filosofia. De Platão a Henri Bergson, passando por René Descartes, Baruch Espinosa, Maurice Merleau-Ponty, Sigmund Freud, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Max Weber e Michel Foucault, a definição de corpo demonstra um puzzle. Quase todos reconhecem a profusão da visão dualista de Descartes, que define o corpo como uma substância extensa em oposição à substância pensante. Podemos perceber que seguindo este modo de compreensão, sobretudo com o advento da modernidade, o corpo foi facilmente associado a uma maquina. O corpo foi pensado como um mecanismo elaborado por determinados princípios que alimentam as engrenagens desta máquina promovendo o seu bom funcionamento. Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e domínio que constituem a ascese necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – da verdade do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. O ponto de chegada é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo. 

                                            

Neste aspecto Michel Foucault nos adverte sobre a questão abstrata da analítica do poder que se constitui o marco histórico e pontual de “docilidade dos corpos”.  Para ele o soldado é, antes de tudo, alguém que se reconhece de longe; que leva os sinais naturais de seu vigor e coragem, as marcas também de seu orgulho: seu corpo é o brasão de sua força e de sua valentia: e se é verdade que deve aprender aos poucos o ofício das armas – essencialmente lutando – as manobras como a marcha, as atitudes como o porte da cabeça se originam, em boa parte, de uma retórica corporal de honra. Eis como ainda no início do século XVIII se descrevia a figura ideal do soldado. Mas na segunda metade deste século, o soldado se tornou algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas: lentamente uma coação calculada percorrer cada parte do corpo, assenhoreia-se dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo, foi “expulso o camponês” e lhe foi dada a “fisionomia de soldado”. Ipso facto, houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Encontraríamos sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo que se manipula, modela-se, treina-se, que obedece, responde, torna-se hábil ou cujas forças se multiplicam descrito como “homem-máquina”.

O grande livro do homem-máquina foi descrito simultaneamente em dois registros: no anátomo-metafísico, cujas primeiras páginas haviam sido escritas por Descartes e que os médicos, os filósofos continuaram; o outro, técnico-político, constituído por um conjunto de regulamentos militares, escolares, hospitalares e por processo empíricos e refletidos para controlar ou corrigir as operações do corpo. Dois registros bem distintos, pois se tratava ora de submissão e utilização, ora de funcionamento e de explicação: corpo útil, corpo inteligível. E, entretanto, de um ao outro, pontos de cruzamento. “O homem-máquina” de Julien Offray La Metrie (1709-1751) é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de “docilidade” que une ao corpo analisável o corpo manipulável. Em sua significação específica é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado. Contudo, os famosos autômatos, por seu lado, não eram apenas uma maneira de ilustrar o organismo; eram também, na falta de melhor expressão, bonecos políticos, modelos reduzidos de poder: obsessão de Frederico II (1712-1786), rei minucioso das pequenas máquinas, dos regimentos bem treinados e dos longos exercícios.      

Para Michel Foucault metodologicamente a questão a responder é a seguinte: Nesses esquemas de docilidade, em que o século XVIII teve tanto interesse, o que há de tão novo? Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes mito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. Muitas coisas, entretanto, são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle; não se trata de cuidar do corpo, massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalha-lo detalhadamente; de exercer sobre el uma coerção sem folga, de mantê-lo ao mesmo nível prático da mecânica – movimentos, gestos, atitudes, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que realmente importa é a do exercício. A modalidade, enfim, implica uma coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. 

Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar disciplinas. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Diferentes da escravidão, pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. Mas também ocorre que são diferentes também da domesticidade, que é uma relação social de dominação constante, global, maciça, não analítica, ilimitada e estabelecida sob a forma de vontade de poder singular do patrão, sendo quase seu “capricho”. Diferentes da vassalidade que é uma relação de submissão altamente codificada, mas longínqua e que se realiza menos sobre as operações do corpo que sobre os produtos do trabalho e as marcas rituais de obediência. Diferentes do ascetismo e das “disciplinas” de tipo monástico, que têm por função realizar renúncias mais do que aumentos de utilidade e obediência, têm como fim um aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo.

O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter o domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas ara que operem como se quer, com as técnicas segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis.  A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela associa o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada. 

 Entendida como consumo cultural, a prática do culto ao corpo situa-se como preocupação geral de mobilidade social, que perpassa as estratificação de classes sociais e faixas etárias, apoiada num discurso clínico difuso que se refere tanto a questão estética, quanto a preocupação alimentar com a saúde. Nas sociedades contemporâneas há uma crescente apropriação do corpo, com a dieta alimentar e o consumo excessivo de cosméticos, impulsionados pelo processo de massificação da propaganda/consumo a desde o desenvolvimento econômico dos anos 1980, onde o corpo ganha mais espaço, principalmente nos meios midiáticos. Nesse sentido, as fábricas de imagens estéticas do vencedor como o cinema, televisão, publicidade, revistas etc., têm contribuído para isso. Ipso facto, nos leva a pensar que a imagem da eterna fonte de juventude, associada ao corpo perfeito e ideal, ao sucesso na educação, no trabalho e na vida amorosa atravessa as etnias e classes sociais, compondo de maneiras diferentes diversos estilos de vida.

Mas essa soberania amplia-se numa experiência onde a relação assume a forma, não somente de uma dominação, mas de “um gozo sem desejo e sem perturbação”. É possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Mas uma espécie de idade de ouro na chamada “cultura de si”, sendo subentendido com isso, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais. Ou seja, aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar. Ademais, é reconhecida a amplitude ética tomada historicamente em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio. Para ele é para consagrar-se a esta ética que é preciso renunciar às outras ocupações: poder-se-ia desse modo tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de um vocabulário para designar as formas que o “cuidado de si” deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. Apressa-te,  para o objetivo: - “dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível”.
Caio Musônio Rufo, célebre filósofo estoico do primeiro século e professor de Epiteto, recomendava vivamente as formas naturais que lhes permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida social transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde admitimos que os desejos ficam apaziguados, para consagrar-se sendo Sêneca, no trabalho filosófico ou, como referia Spurrima, na calma de uma existência agradável e feliz, “à posse de si próprio”. Esse tempo não é vazio, mas povoado por exercícios, tarefas práticas, atividades diversas em seu dia a dia.
Ocupar-se de si não é sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os quais devemos tratar sem os excessos da chamada técnica de perfeição da corpolatria, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades físicas. Existem as meditações, as leituras, as anotações ou conversações, e que mais tarde serão certamente relidas. A rememoração das verdades religiosas ou científicas que já se sabe, mas de que convém reapropriar-se ainda melhor cotidianamente com a escrita e o treinamento da memória. Marco Aurélio exemplifica a anacorese expressa em si próprio, de reativação de princípios e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar na coletividade com os outros, outrossim, com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Trata-se de um longo trabalho disciplinar de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros, com as picuinhas e nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si. Ela não constitui um exercício da solidão.  O exercício da leitura, da reflexão e da escrita já se tratava de uma verdadeira prática social, isto é, consumindo a unidade teoria e prática, em vários e múltiplos sentidos, da forma vitalista, biopsíquica.                     
Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino técnico e dos profissionais da direção da alma. Ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do “cuidado de si”, faz-se apelo ao outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito através do hábito, da cultura, da formação. E é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda ao outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode lhe dar. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais ele dá uma nova “coloração” e um calor maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então como uma intensificação das relações sociais. Sêneca dedica um consolo à sua mãe, no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de serviço da alma que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas, de interpretação e de camaradagem, de conflito e sociabilidade.
No oceano da linguagem progressivamente disseminado, mundo sem margens e sem âncoras, cada discurso particular atesta a ausência do lugar que, no passado, era atribuído pela organização de um cosmos e, portanto, a necessidade de cortar para si um lugar por uma maneira própria de tratar um departamento por língua. Noutros termos, pelo fato de perder seu lugar, o indivíduo nasce como sujeito. O lugar que lhe era outrora fixado por uma língua cosmológica, ouvida como uma vocação e colocação numa ordem do mundo torna-se agora um nada, uma espécie de vácuo, que obriga o sujeito a apoderar-se de um espaço, colocar-se a si mesmo, segundo Michel de Certeau, “como um produtor da escritura. A ideologia dominante se muda em técnica, tendo por programa essencial fazer uma linguagem e não mais lê-la. A própria linguagem deve ser fabricada: “escrita. Não há direito que não se escreva sobre corpos. Ele domina o corpo. A própria ideia de indivíduo isolável do grupo se instaurou com a necessidade, sentida pela justiça penal, de corpos que devem ser marcados por um castigo e, pelo direito matrimonial, de corpos que se devem marcar com um preço nas transações entre coletividades. Do nascimento ao luto, o direito se apodera dos corpos para fazê-los seu texto. Seja como for, sempre é verdade que a lei se inscreve sobre os corpos. 
Daí importância social e afetiva  de se compreender no campo da imagem, de sua reprodução, recepção, influência, de sua relação com o sonho, o devaneio, a criação e a ficção, a substituição das mediações pelos meios de comunicação, posto que contenha em si uma possibilidade de violência, a partir da constituição do novo regime de ficção que hoje afeta, contamina e penetra a vida social. Ipso facto é que temos a sensação de sermos colonizados, mas sem saber precisamente por quem: pelas práticas autoritárias do Estado, a política, futebol, arte, música, drogas, ecologia, raça, etnia, poder, consumo, trabalho, rede mundial de comunicação - Internet, nacionalidade, cultura, sexualidade, honra, prestígio, etc. O inimigo não é facilmente identificável e, a partir daí é normal questionar-se sobre o papel da cultura ou da ideia que fazemos dela nestes últimos 150 anos. Decisivamente, é a mídia que forma e conforma, ou influencia as nações e nacionalidades. E não há dúvida de que as situações culturais e sociais em que se inserem os indivíduos e as coletividades são fundamentais no processo de elaboração ou desenvolvimento da consciência.
      Embora os princípios da ética naturista sejam praticamente universais existem diferenças, de nível social de cada país nas regras de conduta definidas pelas Federações nacionais. O código de ética naturista aprovado pela Federação Brasileira de Naturismo especifica e reforça práticas sociais que garantem o bem-estar comum. Os naturistas cristãos são os cristãos que praticam o naturismo ou o nudismo, representando uma parte do movimento naturista/nudista. Compreendem e creem que o corpo humano foi a maior criação de Deus, portanto não pode ser vergonhoso nem precisa ser escondido. Naturistas cristãos podem ser vistos em quase todas as denominações da cristandade, “sem nenhum conflito com os ensinos da Bíblia, vivendo as suas vidas e adorando a Deus sem nenhuma roupa”. Entretanto a maioria tem vários desacordos com a filosofia da “Nova Era” e o humanismo que é comum entre os outros naturistas. Isto inclui a rejeição absoluta de todas as formas de adoração à natureza.
A palavra naturismo provém do francês naturisme, que é a doutrina filosófica que se baseia num modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o autorrespeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o ambiente. Difundido a partir do período de entre-guerras do século XX que se estende do fim da 1ª grande guerra, em 11 de novembro de 1918, até o início da guerra mundial, em 1° de setembro de 1939, em alguns países da Europa, especialmente Alemanha, França e Países Baixos, o naturismo chegou ao mundo ocidental e se notabilizou pela sua prática mais marcante: o nudismo. Em vários países foram oficializadas algumas praias para a prática do nudismo. Existindo assim parques de campismo, piscinas e outros locais de acesso condicionado onde se pratica a nudez social. A prática ocorre de forma livre em praias de forma mais ou menos generalizada, e aceite, em particular em zonas mais afastadas dos restantes banhistas. 
            O naturismo gospel é assim chamado, por que seus praticantes e defensores da doutrina afirmam que é uma forma de representação para se aproximar da natureza e consequentemente de Deus. Para estes adeptos cristãos é uma relação social normal praticar o naturismo, que é visto como uma forma de religação com  a comunhão com Deus. Os defensores desta prática argumentam que o nudismo é de Deus e que é algo imanente da natureza.  Encaram como se fosse à última revelação dada pelo altíssimo desde os tempos que o evangelista João esteve na ilha de Patmos. Uma igreja no Estado norte-americano da Virginia o pastor e os congregados celebram os cultos nus. Contudo, a prática do nudismo não ficará em locais próprios para isso, como praias, por exemplo, o ato já está chegando a algumas igrejas do Brasil e essa novidade não vem agradando algumas pessoas. De acordo com dados de sites gospel muitos evangélicos estão praticando nudismo dentro das congregações, influenciados pelos denominados “Naturistas cristãos” da Pensilvânia (EUA) que estão ganhando seguidores no Brasil.

           William Penn garantiu o direito de liberdade de expressão religiosa dentro de sua colônia. Penn planejou pessoalmente o primeiro assentamento inglês permanente, nomeando-o de Filadélfia. A cidade foi fundada em 1685. Penn posteriormente explorou o interior da colônia, e pagando aos nativos indígenas pelas terras que o Rei Charles II lhe dera. Além disso, Penn instituiu as nações indígenas tratamento igualitário com relação a um branco em julgamentos. Isto fez com que os indígenas e os colonos europeus tivessem boas relações até meados do século XIX — mais do que em qualquer outra colônia do nordeste dos Estados Unidos. Graças à noção de liberdade de expressão religiosa, muitos escoceses, irlandeses e alemães instalaram-se no estado. A Pensilvânia é um dos estados mais industrializados e urbanizados norte-americano, tendo sido um dos berços da industrialização que se iniciou em meados do século XIX.
A Pensilvânia é uma grande produtora de produtos alimentícios e de produtos químicos e eletrônicos em geral. A Pensilvânia é famosa pela região de Pennsylvania Dutch, localizado no sul do estado. A região é famosa pela sua cultura, especialmente culinária e arquitetura alemã, e pela sua grande população de origem alemã. Em inglês, Pennsylvania Dutch significa “Pensilvânia holandesa”, fazendo com que muitos anglófilos pensem que a região tenha sido habitada por imigrantes de origem neerlandesa. De fato, o nome “Dutch” foi uma derivação da palavra alemã “deutsch”, que significa alemão na língua alemã e é também a origem do nome Neerlandês em inglês. A região de Pennsylvania Dutch é famosa nos Estados Unidos e no Canadá, sendo uma região de cunho turístico, histórico e preservação cultural da Pensilvânia. A população da Pensilvânia é majoritariamente branca em áreas como o norte do estado e em torno de Pittsburgh. Já a região metropolitana de Filadélfia e os condados que a cercam possuem grandes números de afro-americanos, hispânicos, asiáticos e árabes.
A prática social que já tem se consolidado em países como os Estados Unidos da América e Austrália, também chegou ao Brasil. Porém de forma naturalmente ainda  tímida. Do pastor às crianças, da avó à irmã mais jovem, quase ninguém se esquiva dessa forma pouco formal de louvor. E não são poucos os adeptos desta prática. Eles se chamam “naturistas cristãos”. Os fiéis da igreja White Tail, em Southampton, ficam nus durante o culto, e acompanham atentamente o sermão do pastor Allen Parker. - “Todos os frequentadores de nossa igreja são apenas seres humanos. Sem riqueza pessoal ou aparência glamorosa, todas as pessoas são iguais”, justifica o pastor Parker. No Brasil prática do nudismo tem crescido entre evangélicos, mas não apenas nos locais destinados aos encontros sociais sem roupa, como praias, por exemplo, mas também em templos durante a celebração dos cultos e em reuniões de leitura da Bíblia e oração. 
            Após este período o naturismo começou a se difundir, não só na Europa, mas também nos Estados Unidos da América. Hoje muitos países contam com adeptos do movimento, embora a aceitação da prática seja desigual, consoante suas culturas dos vários países. Em 1974 a Federação Internacional de Naturismo definiu os princípios naturistas, que é a definição atual de naturismo adotada por todas as entidades naturistas do mundo: - “Um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o autorrespeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o ambiente”.  A relação entre nudez coletiva e desenvolvimento do indivíduo está no conceito de “aceitação do corpo”, na descoberta de que o corpo é um todo não havendo divisão entre honra e o indecoroso. Ao conviverem com a nudez do próximo não são chocados nem agredidos pelo corpo e sentem que o respeito é possível sem artifícios. Em contato com a própria essência e deixando para trás o que é acessório. - “somos todos iguais, apesar das diferenças”.

          A Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), como meio de garantir um padrão ético de comportamento entre suas áreas filiadas, edita as seguintes Normas Éticas aprovadas em Assembleia Geral Extraordinária, no dia 07 de dezembro de 1996 no Sitio Ibatiporã, em Porto Feliz - São Paulo: 1 – Falta Grave -  As condutas abaixo relacionadas, com grau de intensidades examinado pelos Conselhos Deliberativos dos Clubes, em primeira instância, e pelo Conselho Maior da FBrN, em segunda e última instância, são motivos para expulsão de seus agentes dos quadros sociais e das áreas naturistas regidas pelas entidades filiadas à FBrN. Ter comportamento sexualmente ostensivo e/ou praticar atos de caráter sexual ou obscenos nas áreas públicas; Praticar violência física como meio de agressão a outrem; Utilizar meios fraudulentos para obter vantagens para si ou para terceiros; Portar ou utilizar drogas tóxicas ilegais; Causar danos à imagem pública do Naturismo ou das áreas naturistas.

        2 – Comportamento InadequadoAs condutas relacionadas, com grau de intensidade e reincidência examinadas pelos Conselhos na forma referida no Item 1, constituem motivos para advertências, suspensão e expulsão dos seus agentes dos quadros sociais e das áreas regidas pelas entidades filiadas à FBrN. Concorrer para a discórdia por intermédio de propostas inconvenientes com conotação sexual; Fotografar, gravar ou filmar outros naturistas, sem a permissão dos mesmos; Utilizar aparelhos sonoros em volume que possa interferir na tranquilidade alheia, e/ou desrespeito aos honorários de silêncio regulamentados; Causar constrangimento pela prática de atitudes inadequadas; Portar-se de forma desrespeitosa ou discriminatória permanente e, relação a outros naturistas ou visitantes; Deixar lixo em locais inadequados; Provocar danos à flora e à fauna, ou à imagem do Naturismo; Satisfazer necessidades fisiológicas em áreas impróprias, ou exceder-se na ingestão de bebidas alcoólicas, causando constrangimento a outros naturistas; Utilizar assentos de uso comum sem a devida proteção higiênica; Apresentar-se vestido em locais e horários exclusivos de nudismo, sendo tolerado às mulheres o top less, durante o período menstrual. As presentes Normas Éticas do Naturismo Brasileiro (NENB) – devem ser fixadas em locais públicos e visíveis, além de distribuídas e divulgadas entre naturistas e visitantes das áreas de prática naturista filiadas à FBrN.

        A questão de gênero tem definido, tradicionalmente, a interpretação brasileira de suas próprias práticas sexuais. Desde o início do período colonial até nossos dias, um sistema de proibições religiosas relativamente formais, se bem que nem sempre inflexível, reforçou as divisões técnicas entre masculino e feminino e ao mesmo tempo, ampliou o significado implícito das próprias relações sexuais, envolvendo-as numa economia simbólica diferente, questionando-as em termos não apenas de seus significados na vida cotidiana normal, mas de suas repercussões na vida eterna. Essa ênfase nas implicações internas dos atos sexuais confirma a ideologia das relações de gênero para a percepção do universo sexual, através de modernização conservadora que têm marcado a vida brasileira para o que poderia parecer à primeira vista uma estrutura conceitual marcadas de ideias científicas e pseudocientíficas sobre a vida sexual, altamente racionalizadas, oriundas grandemente dos progressos na psicologia, sexologia e sociologia e mesmo das ideias protofascistas europeias, mas que não trataremos agora. Acreditamos que, em nenhum espaço e lugar contemporâneo a variação e multiplicidade fundamentais dessa configuração são mais evidentes desde os primórdios da colonização como aquilo que se descreve como o “domínio da experiência erótica”.

Historicamente desde o início do período colonial até nossos dias, um sistema de proibições religiosas relativamente formal, se bem que nem sempre inflexível, reforçou as divisões de gênero e, ao mesmo tempo, amplificou concretamente o significado implícito das próprias relações sexuais, envolvendo-as numa economia simbólica diferente, questionando-as em termos não apenas de seus significados na vida cotidiana normal, mas de suas repercussões na vida eterna. Isto porque, antes como depois, unindo a questão do significado à do poder, e existindo simultaneamente para a grande maioria dos brasileiros contemporâneos, os conceitos de gênero na cultura popular, a renúncia à carne na ideologia cristã e a interrogação de desejos perigosos no moderno pensamento científico e médico delineiam um quadro elaborado de possíveis práticas sexuais, algumas definidas como permitidas, outras como proibidas. Em resumo, o conceito de sacanagem liga noções de agressão e hostilidade, brincadeira e diversão, excitação sexual e prática erótica num único complexo simbólico. Para os brasileiros é no domínio erótico que a transgressão sexual não apenas se torna possível, mas de fato altamente valorizada. Estes avanços são deslocamentos do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) produzidos no embate entre o poder patriarcal e as forças emergentes que visam em última instância emancipar a alteridade como instituição social. É uma prática com características novas como o próprio Brasil e sua inserção no contexto de âmbito global.
Bibliografia geral consultada.
DESCAMPS, Marc-Alain, Le Nu et le Vêtement. Paris: Éditions Universitaires, 1972; BOLOGNE, Jean-Claude, Histoire de la Pudeur. Paris: Olivier Urban Editeur, 1986; SIMMEL, Georg, Filosofia do Amor. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993; URBAIN, Jean-Didier, Sur la Plage: Moeurs et Coutumes Balnéaires. Paris: Payot & Petit Rivages, 1994; COBRA, Geny de Oliveira, Corpo e Identidade: Um Estudo Funcional da Organização Biopsíquica da Identidade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1999; REIS, João Paulo Cordeiro, Da Praia aos Poros: Uma Etnografia do Naturismo na Praia de Abricó (Rio de Janeiro). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2008; AZEREDO, Verônica Pacheco de Oliveira, O Corpo em Nietzsche a partir de uma Leitura da Genealogia da Moral. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Instituto de Filosofia, Artes e Cultura. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2008; AMARAL, Marcela Corrêa Martins, Culto ao Corpo e Estilo de Vida entre as Mulheres. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Instituto de Ciências Sociais. Departamento de Sociologia. Brasília: Universidade de Brasília, 2009; OLIVEIRA, Eduardo Carrascosa de, O Naturismo e os Paradoxos da Identidade na Sociedade Contemporânea. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2012; MORRIS, Nina Jane, Feeling Nature: Naturism, Camping, Environment and the Body in Britain, 1920-1960. Thesis Doctor of Philosophy. Reino Unido: University of Hull, 2013; ROMANO, Roberto, Silence et Bruit. La Satire et Denis Diderot. Bauru: Editora do Autor, 1999; Idem, Moral e Ciência - A Monstruosidade do Século XVIII. São Paulo: Editora Senac, 2019; VIEIRA, Marina Cavalcante, Figurações Primitivistas: Trânsitos do Exótico entre Museus, Cinema e Zoológicos Humanos. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2019;  entre outros.