A interpretação existencial da consciência deve expor um testemunho de seu poder-ser mais próprio que está sendo na própria presença. Amy é uma arquiteta que frequenta o Spa onde Virgil trabalha como massagista. Ela nem desconfia que Virgil não enxerga. Os dois tornam-se amigos e logo iniciam um relacionamento, pois percebem que estão completamente apaixonados um pelo outro. Além de encontrar um grande amor, o rapaz começa a acreditar que poderá, depois de anos, ter a visão de volta. A arquiteta começa uma busca incansável por médicos especialistas no assunto, até que ela conhece, num momento raro, um médico com tratamento inovador. No dia seguinte da operação do olho direito, Amy iniciou um diário contando tudo o que acontecia com seu noivo, suas primeiras sensações, visões e descobertas. Em geral, as pessoas reagem a estímulos externos, como sons e luz, e internos evidentemente associados às emoções. A principal função das emoções é garantir a sobrevivência social tanto quanto existencial do ser humano, visto que são elas que geram respostas e comportamentos responsáveis por impulsionar uma determinada fuga ou uma ação social.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
À Primeira Vista – Visão ou Realidade na Questão de Interpretação.
A interpretação existencial da consciência deve expor um testemunho de seu poder-ser mais próprio que está sendo na própria presença. Amy é uma arquiteta que frequenta o Spa onde Virgil trabalha como massagista. Ela nem desconfia que Virgil não enxerga. Os dois tornam-se amigos e logo iniciam um relacionamento, pois percebem que estão completamente apaixonados um pelo outro. Além de encontrar um grande amor, o rapaz começa a acreditar que poderá, depois de anos, ter a visão de volta. A arquiteta começa uma busca incansável por médicos especialistas no assunto, até que ela conhece, num momento raro, um médico com tratamento inovador. No dia seguinte da operação do olho direito, Amy iniciou um diário contando tudo o que acontecia com seu noivo, suas primeiras sensações, visões e descobertas. Em geral, as pessoas reagem a estímulos externos, como sons e luz, e internos evidentemente associados às emoções. A principal função das emoções é garantir a sobrevivência social tanto quanto existencial do ser humano, visto que são elas que geram respostas e comportamentos responsáveis por impulsionar uma determinada fuga ou uma ação social.
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Erving Goffman – Máscaras, Sintomas & Estigmas Sociais.
Erving Goffman realizou avanços substanciais no estudo da interação face-a-face, elaborou a “abordagem dramatúrgica”, a interação humana, e desenvolveu inúmeros conceitos que tiveram uma grande influência, particularmente no campo da microssociologia da vida cotidiana. Muitas de suas obras tratam da organização do comportamento cotidiano, um conceito que ele chamou de “ordem da interação”. Ele contribuiu para o conceito sociológico de enquadramento (“frame analysis”), a teoria do jogo, discernindo o conceito de interação estratégica, e para o estudo das interações e da linguística. Com relação a este último, argumentou que a atividade de falar deve ser vista como um bem social, em vez de uma construção linguística. A partir de uma perspectiva metodológica, Goffman muitas vezes emprega abordagens qualitativas, a mais famosa em seu estudo sobre os aspectos sociais da doença mental, em particular o funcionamento das instituições totais, comparativamente como se torna um clássico na interpretação de Jack Nicholson, no filme: O Estranho no Ninho (1965). Se a psiquiatria não existisse, o cinema a teria inventado. Mas coincidem ambas em suas criações. No cinema, em sua progênie surge uma imagem da psiquiatria com métodos de tratamento, nosologia, teorias e profissionais próprios, podendo estar bem longe da realidade da profissão. O cinema e a psiquiatria têm pontos em comum em relação a questões teóricas e práticas e a seus interesses e em suas trajetórias históricas.
Mildred Ratched logo percebe a presença animada e rebelde de McMurphy como uma representação curiosa de insanidade e de ameaça à sua autoridade, confiscando os cigarros dos pacientes e racionando-os. Durante seu tempo na enfermaria, McMurphy entra em uma batalha de liderança com Ratched. Ele rouba um ônibus do hospital, fugindo com vários pacientes para uma pescaria, encorajando-os a se tornarem mais autoconfiantes e menos dependentes da enfermeira. O filme segue a história social de Randall McMurphy, um meliante que após ser preso, finge de louco para ir para um hospital psiquiátrico e assim esquivar-se de uma porção de trabalhos forçados na prisão. Após seu enquadramento ele influencia os outros internos e começa a sofrer oposição sistemática da servil, cruel e sádica enfermeira Mildred Ratched. Mas com poder persuasivo ele instaura uma reviravolta na clínica, não sabendo ainda o que isto lhe pode custar.
As duas áreas tratam, fundamentalmente, do comportamento humano, e depois de um período de aceitação e popularidade, se tornaram importantes influências culturais que interagem num espaço da modernidade em constante modificação. No final do século XIX, Jean-Martin Charcot (1825-1893), um eminente neurologista francês, que empregava a hipnose para estudar a histeria, demonstrou que ideias mórbidas podiam produzir manifestações físicas. Seu aluno, o psicólogo francês Pierre Janet, considerou como prioritárias, para o desencadeamento do quadro histérico, muito mais as causas psicológicas do que as físicas. Posteriormente, Sigmund Freud, em colaboração com Josef Breuer, começou a pesquisar os mecanismos psíquicos da histeria e postulou em sua teoria que essa neurose era causada por lembranças reprimidas, de grande intensidade emocional. A sintomatologia, que ao mesmo tempo frustrou e estimulou os médicos do século XIX, foi o grande desafio para Freud, que, a partir desse quadro, desenvolveu técnicas específicas para conduzir o tratamento de suas pacientes: nascia a Psicanálise, como resposta a esse extraordinário desafio.
Aos poucos a observação permitiu a compreensão de que a histeria não era um distúrbio que acometia exclusivamente as mulheres, mas no entanto, nelas predominava. Teorizou-se outra segmentação da estrutura neurótica: estava-se diante dos obsessivos que, com sintomas diferentes, também apresentavam grande sofrimento psíquico. Esta sintomatologia, embora predominantemente masculina, não pode ser tratada como exclusiva dos homens. Nas palavras de Freud:- "O nome “histeria” tem origem nos primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente nos dias atuais, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino. Na Idade Média, as neuroses desempenharam um papel significativo na história da civilização; surgiam sob a forma de epidemias, em consequência de contágio psíquico, e estavam na origem do que era fatual na história da possessão e da feitiçaria. Alguns documentos daquela época provam que sua sintomatologia não sofreu modificação até os dias atuais. Uma abordagem adequada e compreensiva da doença tiveram início apenas com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada por ele. Até essa época, a histeria tinha sido a bête noire da medicina. As histéricas, que em séculos tinham sido lançadas à fogueira ou exorcizadas, em épocas mais esclarecidas, ainda estavam sujeitas à maldição do ridículo. Seu estado era indigno de observação clínica, como simulação e exagero.
O talento e o reconhecimento de Edgar Allan Poe com suas histórias de fantasia e horror são imensuráveis. O filme: Refúgio do Medo é baseado no conto “O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena” de 1945. Narra a história de um doutor que vai ao Manicômio Stonehearst para ter “experiência clinica”. Lá ele conhece Eliza que é acusada de violentar o marido, mas apesar de estar no manicômio “é a paciente mais sã”. O jovem doutor logo descobre o paradoxo segundo o qual “os pacientes tomaram conta do hospital e que estão fingindo serem os médicos e enfermeiros, enquanto os verdadeiros estão presos no porão”. O jovem doutor chamado Edward passa a tentar liberar os verdadeiros médicos e fugir para a cidade. O filme é processado num continuum, os acontecimentos são muito rápidos e são justificados. Os chamados lunáticos só tomam o hospital por que as práticas técnicas e sociais utilizadas pelos médicos são muito abusivas e ao invés de tratar o paciente, eles os enchiam de remédios, jogavam jatos de água no rosto, sedavam, utilizavam choques e diversas outras práticas que estavam mais para tortura em campos de concentração do tipo nazi. Na antiguidade a trepanação era muito utilizada em hospícios ou clínicas para doentes mentais. A técnica era realizada por cirurgiões que acreditavam com a trepanação os demônios e espíritos malignos iriam sair do corpo, mesmo que causando morte muitas vezes.
Quando realizada de forma única, a trepanação serve para se criar uma abertura por onde se pode drenar um hematoma intracraniano ou se inserir um cateter cerebral. Em uma craniotomia, várias trepanações são feitas para se criar os vértices de um polígono ósseo que será retirado do crânio. Com o auxílio da serra neurocirúrgica, uma linha ligando cada vértice é serrada e o polígono ósseo do crânio é retirado, liberando o cirurgião para abordar a massa encefálica. Ipso facto a representação ocorre no século XX, quando a medicina ainda se encontrava em determinado estágio pré-freudiano para o tratamento da histeria tendo em vista que o corpo clínico sanatorial usavam ainda tratamentos antiquados, violentos e de subjugação do paciente á tortura como a trepanação. Dentro da medicina moderna consiste na abertura de um ou mais furos no crânio, com uma broca neurocirúrgica. Para fazer a perfuração, eram usadas pedras pontudas e lâminas de obsidiana nos primeiros registros etnográficos. Quando aprenderam a manipular metais, na era do bronze, bisturis e serras primitivas foram usados até desenvolverem técnicas de cirurgia com vidro.
No entanto foi em 400 a. C. que o grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, escreveu um tratado sobre o cérebro e revelou mais detalhes sobre a trepanação. De acordo com o neurocirurgião Graham Martin, em uma publicação no Journal of Clinical Neuroscience, Hipócrates nunca havia feito uma trepanação, mas havia aprendido sobre a técnica em uma viagem para Marselha, onde o procedimento já era feito há 1500 anos. Ele compreendeu que a técnica era usada para aliviar a pressão no cérebro causada por sangue, demônios, ou qualquer que fosse o diagnóstico do médico. Na civilização pré-colombiana dos zapotecas, no entanto, temos uma situação bem diferente: a trepanação era usada várias vezes - foram encontrados vários crânios com múltiplas perfurações. Acredita-se que era um tratamento popular para dores de cabeça. Tudo isso é especulação - não se sabe, por exemplo, se o procedimento era feito em voluntários. Afinal, ele não deveria ser nada agradável. No século XV, a trepanação foi um pouco mais documentada, inclusive por pintores renascentistas, pois quadros mostravam que a cirurgia era usada para curar, de forma sobrenatural, problemas mentais. Um deles era chamado de pedra da loucura. A tal pedra precisava ser retirada do cérebro do doente antes que contaminasse inteiro e foi retratada por Hieronymus Bosch no quadro A extração da pedra da loucura.
É uma das obras pictóricas pertencentes à primeira etapa do pintor holandês Hieronymus Bosch, realizada entre 1475 e 1480, e incluída num conjunto de gravuras satíricas e burlescas que se realizavam nos Países Baixos. É um óleo sobre madeira, de 48 x 35 cm. Atualmente encontra-se no Museu do Prado, em Madrid. Os símbolos permitem que um ator
compreenda uma pessoa que conhece, a qualquer tempo, mediante uma comparação
entre tipos de conduta e de aparência, com base em experiências prévias de como
se comportam outras pessoas. Se um indivíduo é totalmente desconhecido, os
observadores podem obter, a partir de sua conduta e aparência, indicações que
lhes permitam utilizar uma experiência anterior, que tenha tido com indivíduos
aproximadamente parecidos, e aplicar-lhes “estereótipos não comprovados”. A
informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando os
outros capazes de conhecer o que deles se pode esperar. Assim informados,
saberão qual a melhor maneira de agir socialmente para dele obter uma resposta desejada e,
além disso, para dirigir inteligentemente sua própria atividade. As máscaras,
para ele, tecnicamente constituem uma ferramenta expressiva padrão. Elas são compostas por
uma ambientação, uma aparência social e por modelos de representação. Como os modelos se constroem
mediante a relação natural entre a ambientação e a aparências, os signos e o status social desempenham
um papel decisivo para a interpretação que comumente a sociologia entende e analisa por ser uma máscara social.O símbolo não sendo já de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos grandes símbolos da imaginação em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, se se parte dos objetos bem definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas “chaves dos sonhos”, segundo as estruturas antropológicas do imaginário, cai-se rapidamente, pela massificação das motivações, numa inextricável confusão. Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos para os devaneios imaginários. Tais são as classificações mais profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso ou da imaginação de modo geral literária.
Tanto escolhem como norma classificativa uma ordem de motivação cosmológica e astral, na qual são as grandes sequências das estações, dos meteoros e dos astros que servem de indutores à fabulação, tanto são os elementos de uma física primitiva e sumária que, pelas suas qualidades sensoriais, polarizam os campos de força no continuum homogêneo do imaginário; tanto, enfim, se suspeita que são os dados sociológicos do microgrupo ou de grupos que se estendem aos confins do grupo linguístico que fornecem quadros primordiais para os símbolos. Quer a imaginação estreitamente motivada seja pela língua, seja pelas funções sociais, se modele sobre essas matrizes sociológicas e antropológicas, quer pelos seus genes raciais intervenham bastante misteriosamente para estruturar os conjuntos simbólicos, distribuindo seja as mentalidades imaginárias, sejam os rituais religiosos, querem ainda, com uma matriz evolucionista, se tente estabelecer uma hierarquia das grandes formas simbólicas e restaurar a unidade no dualismo de Henri Bergson das Deux Sources, quer enfim que atravessando a técnica da psicanálise se tente encontrar uma síntese entre as pulsões de uma libido em evolução e as pressões recalcadoras do microgrupo familiar. São estas diferentes classificações das motivações simbólicas que precisamos criticar antes de estabelecer um método de análise pretensamente firme na ordem das motivações.
Ao que parece o ator social, queira ou não, está orientado de acordo com um conjunto de restrições culturais. Podemos citar também um processo social identificado pelo sociólogo norte-americano de institucionalização das máscaras, que seriam “expectativas abstratas e estereotipadas” sobre um papel específico. A máscara se converteria então, em uma “representação coletiva” uma vez que estas são construídas em “performances” individuais que não são mais do que a forma ou expressão dessas representações coletivas individualizadas e personalizadas com as características de cada indivíduo. Quando, por exemplo, um ator social adentra um grupo social específico, encontra correspondente a ele, a fixação de uma máscara particular. Goffman chega a sugerir o caráter abstrato e geral das máscaras sociais e as converte em veículos ideais no processo de socialização, pois o que as representações coletivas traduzem é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam. Através das máscaras sociais a atuação é “modelada e adaptada a compreensão e as expectativas da sociedade na qual se apresenta”. E através deste ajustamento que não é constituído da mesma maneira que o indivíduo e as coisas que o afetam são de outra natureza.
terça-feira, 12 de julho de 2016
Touradas – Cultura Política, Tradição & Metáforas de Guerra.
Na cultura desenvolvida da Península Ibérica, o Circo
de Termes ou “Circo de Touros” refere-se a um tipo de espetáculo taurino, extraordinariamente popular na Península Ibérica, que envolve a lide de touros com cavaleiros e
toureiros, parece ter sido um local consagrado onde “os celtiberos praticavam o
sacrifício ritual dos touros”. A estela de Clunia é a mais antiga representação
do confronto de um guerreiro com um touro. As representações taurinas de
variadas fontes arqueológicas encontradas na Península Ibérica, tais como comparativamente
os vasos de Líria, as esculturas dos Berrões, a bicha de Balazote ou o touro de
Mourão estão, quase sempre, relacionadas com as noções simbólicas de utilidade
de uso de força, bravura, poder, fecundidade e vida, que simbolizam o sentido
ritual e sagrado que o touro ibérico teve na Península. A palavra “tauromaquia”
é oriunda do grego ταυρομαχία - tauromachia (combate com touros).
O registo pictórico mais antigo da realização de espetáculos com touros remete
à ilha de Creta (Knossos). Esta arte está presente em diferentes
vestígios desde a Antiguidade clássica, sendo reconhecido o afresco da tourada
no palácio de Cnossos, em Creta. Júlio César, durante a exibição do venatio,
introduziu uma espécie de “tourada” onde cavaleiros da Tessália perseguiam
diversos touros dentro de uma arena, até os touros ficarem cansados o
suficiente para serem seguros pelos cornos e depois executados. O uso de uma
capa num confronto de “capa e espada com um animal numa arena está registrado
pela primeira vez na época do imperador Cláudio”.
O termo Celtiberi aparece em relatos de Diodoro Sículo, Apiano e Marcial que reconheceram o casamento misto entre celtas e ibéricos após um período de guerra contínua, embora o arqueólogo britânico Barry Cunliffe diga que “isso soa como uma suposição”. Estrabão simplesmente via os celtiberos como um ramo dos celtas. Plínio, o Velho, pensava que a terra natal original dos celtas na Ibéria era o território dos celtas no Sudoeste, com base “na identidade de ritos sagrados, língua e nomes de cidades”. Estrabão cita a crença de Éforo de que havia celtas na península Ibérica até Cádiz. A presença celta na Península Ibérica provavelmente remonta ao século VI a.C., quando os castros demonstraram uma nova permanência com muros de pedra e fossos de proteção. Os arqueólogos Martín Almagro Gorbea e Alberto José Lorrio Alvarado reconhecem as ferramentas de ferro características e a estrutura social familiar extensa da cultura celtibérica desenvolvida como uma evolução da cultura castro arcaica, que eles consideram proto-celta. As descobertas arqueológicas identificam a cultura como contínua com a cultura relatada por escritores clássicos a partir do final do século III (Almagro-Gorbea e Lorrio). O mapa étnico da Celtiberia era altamente localizado, composto por diferentes tribos e nações localizadas a partir do século III, centradas em ópidos fortificados e representando um amplo grau de assimilação local com as culturas autóctones, em uma mistura pari passu de origens celtas e ibéricas. O principal bastião cultural dos celtiberos era Norte da meseta central, nos vales superiores dos rios Tejo e Douro, a Leste até o rio Ibero (Ebro), nas atuais províncias de Sória, Guadalajara, Saragoça e Teruel. Ali, neste “lugar praticado”, quando geógrafos e historiadores gregos e romanos os encontraram, os celtiberos estabelecidos eram controlados na esfera política por uma aristocracia militar que se tornara uma elite hereditária.
A tribo dominante era a dos Arevaci, que subjugavam seus vizinhos a partir de poderosas fortalezas em Okilis (Medinaceli) e que lideraram a longa resistência celtibérica contra Roma. Outros celtiberos eram os Belli e os Titti, no vale do Jalón, e os Lusones, a Leste. As escavações nas fortalezas celtibéricas de Kontebakom-Bel Botorrita, Sekaisa Segeda e Termantia complementam os objetos funerários encontrados nos cemitérios celtibéricos, onde os túmulos aristocráticos dos séculos VI e V a.C. dão lugar a túmulos de guerreiros, com uma tendência, a partir do século III a.C., de as armas desaparecerem dos objetos funerários, o que indica urgência na sua distribuição entre os guerreiros vivos ou, como pensam Almagro-Gorbea e Lorrio, a crescente urbanização da sociedade celtibérica. Muitas ópidas do período celtibérico tardio ainda estão ocupadas por cidades modernas, dificultando per se a pesquisa em arqueologia. O trabalho em metal se destaca nas descobertas celtiberas, em parte devido à sua natureza indestrutível, enfatizando os artigos de uso bélico, arreios de cavalos e armas de prestígio. A espada de dois gumes adotada pelos romanos já era usada pelos celtiberos, e o termo latino lancea, que designava uma lança de arremesso, era uma palavra de origem hispânica, segundo Varrão. A cultura celtibera foi cada vez mais influenciada por Roma nos dois últimos séculos a.C. A partir do século III, o clã foi suplantado como unidade política celtibérica básica pelo ópido, uma cidade fortificada e organizada com um território definido que incluía os castros como assentamentos subsidiários. Essas civitates, como as chamavam os historiadores romanos, podiam fazer e desfazer alianças, como atestam os pactos de hospitalidade inscritos que sobreviveram, e cunhavam moedas. As antigas estruturas clânicas persistiram na formação dos exércitos celtibéricos, organizados segundo as linhas da estrutura clânica, com consequentes perdas de controle estratégico e tático.
Tibério Cláudio César Augusto Germânico nasceu em Lugduno, em 1° de agosto de 10 a.C. e faleceu em Roma, em 13 de outubro de 54 d.C. Foi o quarto imperador romano da dinastia júlio-claudiana, e governou de 24 de janeiro de 41 d.C. até a sua morte em 54. Nascido na atual Lyon, na Gália, foi o primeiro imperador romano nascido fora da península Itálica. Permaneceu apartado do poder por ser portador de deficiências físicas: era manco e gago, até seu sobrinho Calígula, seguidamente de se tornar imperador, o nomear como cônsul e senador. A sua pouca atuação no terreno político, que representava a sua família, serviu-lhe para sobreviver nas diferentes conjuras que provocaram a queda de Tibério e Calígula. Nesta última conjura, os pretorianos que assassinaram o seu sobrinho encontraram-no atrás duma cortina, onde se escondera acreditando que o iam matar. Após a morte de Calígula, Cláudio era o único homem adulto da sua família. Este motivo, junto à sua aparente debilidade e a sua inexperiência política, fez que a guarda pretoriana o proclamasse imperador, pensando talvez que seria um títere fácil de controlar. Apesar de sua falta de experiência, Cláudio era um administrador capaz e eficiente. Ele expandiu a burocracia imperial para incluir libertos e ajudou a restaurar as finanças do império após os excessos do reinado de Calígula. Ele também era um empreendedor ambicioso, construindo novas estradas, aquedutos e canais por todo o Império. Durante seu reinado, o Império iniciou sua conquista bem-sucedida da Britânia. Tendo um interesse pessoal em direito, ele presidiu julgamentos públicos e emitiu éditos diariamente.
Ele foi visto como vulnerável durante todo o seu
reinado, particularmente por elementos da nobreza. Cláudio foi constantemente
forçado a consolidar sua posição como imperador, o que na esfera política resultou
na morte de muitos senadores. Esses eventos prejudicaram sua reputação entre os
escritores antigos, embora historiadores mais recentes tenham revisado essa
opinião. Muitos autores afirmam que ele foi assassinado por sua própria esposa,
Agripina, a Jovem. Após sua morte, aos 63 anos, seu sobrinho-neto e enteado
legalmente adotado, Nero, o sucedeu como imperador. A tourada fez parte das
origens históricas e políticas de Portugal. Dentre a formação e desenvolvimento
da Realeza, aqueles que foram reais toureiros foram D. Sancho II, D.
Sebastião, D. Afonso VI, D. Pedro II, D. Miguel e D. Carlos. Todos toureavam a
cavalo, “mas D. Pedro II chegou a enfrentar o touro a pé”. O que mais
contribuiu para o desenvolvimento das touradas terá sido D. Sebastião, que
pediu ao Papa Gregório que revogasse a Bula Pontifícia de Pio V que proibia as
touradas. Entretanto, as touradas como as reconhecemos hoje em dia nasceram no
Iluminismo, entre o século XVII e XVIII, e realizavam-se nas praças públicas
das cidades. Em Lisboa, a Praça do Comércio e o Rossio eram os locais usados
para as touradas. Em Braga, as touradas eram realizadas na Praça dos Arcebispos
que ficou tão famosa pelas suas touradas que foi renomeada a Campo dos
Touros, atual Praça do Município sob os auspícios de vários Arcebispos da
cidade até à sua proibição.
Desde o século XVIII, as touradas começaram a realizar-se em recintos fechados criados para correr os touros, as atuais praças de touros. A maior praça europeia é a “Las Ventas”, em Madrid. Numa tourada, todos os touros têm, pelo menos, quatro anos de idade. Quando os touros lidados ainda não fizeram os 4 anos, diz-se que é uma novilhada. A lide varia de país para país. Em Portugal, tem duas fases: a chamada lide a cavalo ou, menos correntemente, lide a pé, e, posteriormente, a pega. A primeira é levada a cabo por um cavaleiro lidando o touro. A lide consiste na colocação de bandarilhas, ditas farpas, de tamanhos variáveis, começando com bandarilhas longas e culminando frequentemente com bandarilhas muito curtas, ditas “de palmo”. Em Portugal as touradas foram proibidas em 1836, durante o reinado de D. Maria II, mas tal proibição durou somente 9 meses, pois a população revoltou-se contra a mesma. Voltaram assim a ser permitidas, mas sendo proibidos os chamados touros de morte, onde o touro é morto em praça pública, embora tal prática tenha continuado a acontecer em diversas corridas. Em 1928, os touros de morte foram proibidos em Portugal. Em 2002, a lei foi alterada, voltando a permitir os toiros de morte em locais justificados pela tradição, como na vila de Barrancos. Em Monsaraz o touro continuou a ser morto entre 2002 e 2013 seguindo uma tradição centenária, mesmo sem autorização administrativa, defendendo os locais que esta vila cumpria os requisitos legais para ter touros de morte, e o Tribunal Administrativo para que recorreram lhes dado razão e, em consequência, os espetáculos com “touros de morte” na vila medieval de Monsaraz passaram a ser autorizados pela autoridade administrativa competente, a Inspeção-geral das Atividades Culturais desde 2014.
A lide de “touros a pé”
foi sempre muito associada a Espanha, sendo uma das imagens de marca
deste país, especialmente no Sul, em zonas como a Andaluzia ou a Extremadura,
no entanto é praticada em todos os oito países taurinos, a saber: França,
Espanha, Portugal, México, Peru, Venezuela, Equador e Colômbia. Não se tem a
certeza da origem do toureio “apeado”, mas crê-se que nasceu por volta de 1669,
quando Filipe V foi coroado rei. De sensibilidade diferente de seu pai, logo
mostrou o seu desagrado perante as corridas de touros. A fidalguia, com
necessidade de agradar ao novo rei, afastou-se das arenas, mas o povo manteve a
sua paixão e continuou a lidar touros, porém, não tendo dinheiro para sustentar
cavalos, passou a toureá-los a pé. Atualmente, a lide de touros é bastante
diferente e bastante mais “evoluída”. A lide de touros a pé está dividida em
três tercios: No primeiro, o “tercio de varas”, o toureiro utiliza uma capa
larga e pesada, geralmente cor-de-rosa e amarela, denominada capote. Com
o capote, o toureiro pode avaliar a bravura do touro com alguma segurança. Em
seguida incentiva-se o touro a investir contra o “picador”, tendo como
representação social o personagem montado em cima de um cavalo tapado por uma
forte proteção, que utiliza “uma vara comprida” (“puya”),
cravando-a no dorso do animal. Com o picador, “corrige-se” a investida
do touro, tirando-se um pouco mais de força, por segurança e o toureiro
consegue avaliar novamente a bravura do animal que tem pela frente.
No segundo, o “tercio de bandarilhas”, um bandarilheiro crava, a pé, dois ou três pares de bandarilhas no dorso do touro, com o objetivo de o acordar/despertar o toiro começa a cansar-se para o vem de seguida. No terceiro, o “tercio de muerte”, é que se vê a reconhecida “arte de tourear”. Um toureiro, apenas munido de uma leve capa encarnada (a “muleta”) e de um “estoque”, toureia o enorme e perigoso animal que tem pela frente, com o objetivo de criar na história social e política da nação uma lide bela e artística. Quando o touro estiver completamente dominado, sem qualquer resto de altivez, então chega-se exatamente à altura de o matar. Este é, provavelmente, o momento em que se vê claramente todo o objetivo e a razão de ser das corridas de touros. Este é, também, o momento mais perigoso de toda a lide, pois o toureiro chega-se muito próximo dos cornos do touro e arrisca-se seriamente a levar uma cornada. Com o “estoque” que é uma espécie de espada encurvada, este crava-o no animal, tentando acertar diretamente no coração, pois quanto menos tempo o toiro estive a sofrer com o “estoque” e mais rápido morrer, melhor é considerada a “estocada”. Em Portugal, devido à proibição de matar os touros dentro da arena, com excepção de Barrancos e Monsaraz, crava-se uma última bandarilha seguindo o mesmo gesto, sendo o animal morto mais tarde num matadouro.
Do seu
admirável percurso constaria ainda a atuação, no México em três corridas no mesmo
dia, nas praças de Morelia, Cidade do México e Acapulco, em mano-a-mano com o
mítico Carlos Arruza; e a assistência de mais de 88 mil espetadores, numa
corrida realizada no Estádio Gelora Bung Karno, em Jacarta, Indonésia. Não por
acaso recebeu o prestigiado prêmio Rosa Guadalupana, a 29 de janeiro de 1950,
na Plaza México. Em 1950 é reconhecido como o mais solicitado “matador do
mundo”, liderando o escalão da temporada, chegando assim “a um patamar nunca
alcançado por outro toureiro a pé português”. Uma série de escritores baseados
em Paris nas décadas 1920 e 1930 do século passado usaram da tourada espanhola
para refletir sobre as realidades políticas da guerra moderna (cf. Sobral,
2008; 2016), a partir da 1ª grande guerra (1914-18), passando pela Guerra Civil
Espanhola (1936-1939) e chegando às portas da 2ª guerra mundial entre
1939-1945, infere Luís Felipe Sobral na tese de doutorado: “Fronteiras da
Europa: A Corrida de Touros Vista da Paris Literária Entre-Guerras” (2015),
orientada por Heloisa Pontes no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.
Estruturada sob a forma de ensaio, a tese doutoral parte da resenha de Ernest
Hemingway, “Morte ao Cair da Tarde”, escrita pelo poeta surrealista e antropólogo
francês Michel Leiris e publicada em junho de 1939, às portas da 2ª guerra
mundial (1939-45), que começaria em setembro do mesmo ano, com a invasão da
Polônia por forças nazifascistas alemãs e a guerra de guerrilha marxista
soviética.
Bibliografia geral consultada.
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