terça-feira, 12 de julho de 2016

Touradas – Cultura Política, Tradição & Metáforas de Guerra.

                                                                                                             Ubiracy de Souza Braga*

   “Essa relação entre guerra e a tourada acaba se tornando política”. Luís Felipe Sobral
             
                   

  Na cultura desenvolvida da Península Ibérica, o Circo de Termes ou “Circo de Touros” refere-se a um tipo de espetáculo taurino, extraordinariamente popular na Península Ibérica, que envolve a lide de touros com cavaleiros e toureiros, parece ter sido um local consagrado onde “os celtiberos praticavam o sacrifício ritual dos touros”. A estela de Clunia é a mais antiga representação do confronto de um guerreiro com um touro. As representações taurinas de variadas fontes arqueológicas encontradas na Península Ibérica, tais como comparativamente os vasos de Líria, as esculturas dos Berrões, a bicha de Balazote ou o touro de Mourão estão, quase sempre, relacionadas com as noções simbólicas de utilidade de uso de força, bravura, poder, fecundidade e vida, que simbolizam o sentido ritual e sagrado que o touro ibérico teve na Península. A palavra “tauromaquia” é oriunda do grego ταυρομαχία - tauromachia (combate com touros). O registo pictórico mais antigo da realização de espetáculos com touros remete à ilha de Creta (Knossos). Esta arte está presente em diferentes vestígios desde a Antiguidade clássica, sendo reconhecido o afresco da tourada no palácio de Cnossos, em Creta. Júlio César, durante a exibição do venatio, introduziu uma espécie de “tourada” onde cavaleiros da Tessália perseguiam diversos touros dentro de uma arena, até os touros ficarem cansados o suficiente para serem seguros pelos cornos e depois executados. O uso de uma capa num confronto de “capa e espada com um animal numa arena está registrado pela primeira vez na época do imperador Cláudio”.

O termo Celtiberi aparece em relatos de Diodoro Sículo, Apiano e Marcial que reconheceram o casamento misto entre celtas e ibéricos após um período de guerra contínua, embora o arqueólogo britânico Barry Cunliffe diga que “isso soa como uma suposição”. Estrabão simplesmente via os celtiberos como um ramo dos celtas. Plínio, o Velho, pensava que a terra natal original dos celtas na Ibéria era o território dos celtas no Sudoeste, com base “na identidade de ritos sagrados, língua e nomes de cidades”. Estrabão cita a crença de Éforo de que havia celtas na península Ibérica até Cádiz. A presença celta na Península Ibérica provavelmente remonta ao século VI a.C., quando os castros demonstraram uma nova permanência com muros de pedra e fossos de proteção. Os arqueólogos Martín Almagro Gorbea e Alberto José Lorrio Alvarado reconhecem as ferramentas de ferro características e a estrutura social familiar extensa da cultura celtibérica desenvolvida como uma evolução da cultura castro arcaica, que eles consideram proto-celta. As descobertas arqueológicas identificam a cultura como contínua com a cultura relatada por escritores clássicos a partir do final do século III (Almagro-Gorbea e Lorrio). O mapa étnico da Celtiberia era altamente localizado, composto por diferentes tribos e nações localizadas a partir do século III, centradas em ópidos fortificados e representando um amplo grau de assimilação local com as culturas autóctones, em uma mistura pari passu de origens celtas e ibéricas. O principal bastião cultural dos celtiberos era Norte da meseta central, nos vales superiores dos rios Tejo e Douro, a Leste até o rio Ibero (Ebro), nas atuais províncias de Sória, Guadalajara, Saragoça e Teruel. Ali, neste lugar praticado, quando geógrafos e historiadores gregos e romanos os encontraram, os celtiberos estabelecidos eram controlados na esfera política por uma aristocracia militar que se tornara uma elite hereditária. 

A tribo dominante era a dos Arevaci, que subjugavam seus vizinhos a partir de poderosas fortalezas em Okilis (Medinaceli) e que lideraram a longa resistência celtibérica contra Roma. Outros celtiberos eram os Belli e os Titti, no vale do Jalón, e os Lusones, a Leste. As escavações nas fortalezas celtibéricas de Kontebakom-Bel Botorrita, Sekaisa Segeda e Termantia complementam os objetos funerários encontrados nos cemitérios celtibéricos, onde os túmulos aristocráticos dos séculos VI e V a.C. dão lugar a túmulos de guerreiros, com uma tendência, a partir do século III a.C., de as armas desaparecerem dos objetos funerários, o que indica urgência na sua distribuição entre os guerreiros vivos ou, como pensam Almagro-Gorbea e Lorrio, a crescente urbanização da sociedade celtibérica. Muitas ópidas do período celtibérico tardio ainda estão ocupadas por cidades modernas, dificultando per se a pesquisa em arqueologia. O trabalho em metal se destaca nas descobertas celtiberas, em parte devido à sua natureza indestrutível, enfatizando os artigos de uso bélico, arreios de cavalos e armas de prestígio. A espada de dois gumes adotada pelos romanos já era usada pelos celtiberos, e o termo latino lancea, que designava uma lança de arremesso, era uma palavra de origem hispânica, segundo Varrão. A cultura celtibera foi cada vez mais influenciada por Roma nos dois últimos séculos a.C. A partir do século III, o clã foi suplantado como unidade política celtibérica básica pelo ópido, uma cidade fortificada e organizada com um território definido que incluía os castros como assentamentos subsidiários. Essas civitates, como as chamavam os historiadores romanos, podiam fazer e desfazer alianças, como atestam os pactos de hospitalidade inscritos que sobreviveram, e cunhavam moedas. As antigas estruturas clânicas persistiram na formação dos exércitos celtibéricos, organizados segundo as linhas da estrutura clânica, com consequentes perdas de controle estratégico e tático.

                  

 Tibério Cláudio César Augusto Germânico nasceu em Lugduno, em 1° de agosto de 10 a.C. e faleceu em Roma, em 13 de outubro de 54 d.C. Foi o quarto imperador romano da dinastia júlio-claudiana, e governou de 24 de janeiro de 41 d.C. até a sua morte em 54. Nascido na atual Lyon, na Gália, foi o primeiro imperador romano nascido fora da península Itálica. Permaneceu apartado do poder por ser portador de deficiências físicas: era manco e gago, até seu sobrinho Calígula, seguidamente de se tornar imperador, o nomear como cônsul e senador. A sua pouca atuação no terreno político, que representava a sua família, serviu-lhe para sobreviver nas diferentes conjuras que provocaram a queda de Tibério e Calígula. Nesta última conjura, os pretorianos que assassinaram o seu sobrinho encontraram-no atrás duma cortina, onde se escondera acreditando que o iam matar. Após a morte de Calígula, Cláudio era o único homem adulto da sua família. Este motivo, junto à sua aparente debilidade e a sua inexperiência política, fez que a guarda pretoriana o proclamasse imperador, pensando talvez que seria um títere fácil de controlar. Apesar de sua falta de experiência, Cláudio era um administrador capaz e eficiente. Ele expandiu a burocracia imperial para incluir libertos e ajudou a restaurar as finanças do império após os excessos do reinado de Calígula. Ele também era um empreendedor ambicioso, construindo novas estradas, aquedutos e canais por todo o Império. Durante seu reinado, o Império iniciou sua conquista bem-sucedida da Britânia. Tendo um interesse pessoal em direito, ele presidiu julgamentos públicos e emitiu éditos diariamente.

Ele foi visto como vulnerável durante todo o seu reinado, particularmente por elementos da nobreza. Cláudio foi constantemente forçado a consolidar sua posição como imperador, o que na esfera política resultou na morte de muitos senadores. Esses eventos prejudicaram sua reputação entre os escritores antigos, embora historiadores mais recentes tenham revisado essa opinião. Muitos autores afirmam que ele foi assassinado por sua própria esposa, Agripina, a Jovem. Após sua morte, aos 63 anos, seu sobrinho-neto e enteado legalmente adotado, Nero, o sucedeu como imperador. A tourada fez parte das origens históricas e políticas de Portugal. Dentre a formação e desenvolvimento da Realeza, aqueles que foram reais toureiros foram D. Sancho II, D. Sebastião, D. Afonso VI, D. Pedro II, D. Miguel e D. Carlos. Todos toureavam a cavalo, “mas D. Pedro II chegou a enfrentar o touro a pé”. O que mais contribuiu para o desenvolvimento das touradas terá sido D. Sebastião, que pediu ao Papa Gregório que revogasse a Bula Pontifícia de Pio V que proibia as touradas. Entretanto, as touradas como as reconhecemos hoje em dia nasceram no Iluminismo, entre o século XVII e XVIII, e realizavam-se nas praças públicas das cidades. Em Lisboa, a Praça do Comércio e o Rossio eram os locais usados para as touradas. Em Braga, as touradas eram realizadas na Praça dos Arcebispos que ficou tão famosa pelas suas touradas que foi renomeada a Campo dos Touros, atual Praça do Município sob os auspícios de vários Arcebispos da cidade até à sua proibição.

Desde o século XVIII, as touradas começaram a realizar-se em recintos fechados criados para correr os touros, as atuais praças de touros. A maior praça europeia é a “Las Ventas”, em Madrid. Numa tourada, todos os touros têm, pelo menos, quatro anos de idade. Quando os touros lidados ainda não fizeram os 4 anos, diz-se que é uma novilhada. A lide varia de país para país. Em Portugal, tem duas fases: a chamada lide a cavalo ou, menos correntemente, lide a pé, e, posteriormente, a pega. A primeira é levada a cabo por um cavaleiro lidando o touro. A lide consiste na colocação de bandarilhas, ditas farpas, de tamanhos variáveis, começando com bandarilhas longas e culminando frequentemente com bandarilhas muito curtas, ditas “de palmo”. Em Portugal as touradas foram proibidas em 1836, durante o reinado de D. Maria II, mas tal proibição durou somente 9 meses, pois a população revoltou-se contra a mesma. Voltaram assim a ser permitidas, mas sendo proibidos os chamados touros de morte, onde o touro é morto em praça pública, embora tal prática tenha continuado a acontecer em diversas corridas. Em 1928, os touros de morte foram proibidos em Portugal. Em 2002, a lei foi alterada, voltando a permitir os toiros de morte em locais justificados pela tradição, como na vila de Barrancos. Em Monsaraz o touro continuou a ser morto entre 2002 e 2013 seguindo uma tradição centenária, mesmo sem autorização administrativa, defendendo os locais que esta vila cumpria os requisitos legais para ter touros de morte, e o Tribunal Administrativo para que recorreram lhes dado razão e, em consequência, os espetáculos com touros de morte  na vila medieval de Monsaraz passaram a ser autorizados pela autoridade administrativa competente, a Inspeção-geral das Atividades Culturais desde 2014.  

A lide de “touros a pé” foi sempre muito associada a Espanha, sendo uma das imagens de marca deste país, especialmente no Sul, em zonas como a Andaluzia ou a Extremadura, no entanto é praticada em todos os oito países taurinos, a saber: França, Espanha, Portugal, México, Peru, Venezuela, Equador e Colômbia. Não se tem a certeza da origem do toureio “apeado”, mas crê-se que nasceu por volta de 1669, quando Filipe V foi coroado rei. De sensibilidade diferente de seu pai, logo mostrou o seu desagrado perante as corridas de touros. A fidalguia, com necessidade de agradar ao novo rei, afastou-se das arenas, mas o povo manteve a sua paixão e continuou a lidar touros, porém, não tendo dinheiro para sustentar cavalos, passou a toureá-los a pé. Atualmente, a lide de touros é bastante diferente e bastante mais “evoluída”. A lide de touros a pé está dividida em três tercios: No primeiro, o “tercio de varas”, o toureiro utiliza uma capa larga e pesada, geralmente cor-de-rosa e amarela, denominada capote. Com o capote, o toureiro pode avaliar a bravura do touro com alguma segurança. Em seguida incentiva-se o touro a investir contra o “picador”, tendo como representação social o personagem montado em cima de um cavalo tapado por uma forte proteção, que utiliza “uma vara comprida” (“puya”), cravando-a no dorso do animal. Com o picador, “corrige-se” a investida do touro, tirando-se um pouco mais de força, por segurança e o toureiro consegue avaliar novamente a bravura do animal que tem pela frente.

No segundo, o “tercio de bandarilhas”, um bandarilheiro crava, a pé, dois ou três pares de bandarilhas no dorso do touro, com o objetivo de o acordar/despertar o toiro começa a cansar-se para o vem de seguida. No terceiro, o “tercio de muerte”, é que se vê a reconhecida “arte de tourear”. Um toureiro, apenas munido de uma leve capa encarnada (a “muleta”) e de um “estoque”, toureia o enorme e perigoso animal que tem pela frente, com o objetivo de criar na história social e política da nação uma lide bela e artística. Quando o touro estiver completamente dominado, sem qualquer resto de altivez, então chega-se exatamente à altura de o matar. Este é, provavelmente, o momento em que se vê claramente todo o objetivo e a razão de ser das corridas de touros. Este é, também, o momento mais perigoso de toda a lide, pois o toureiro chega-se muito próximo dos cornos do touro e arrisca-se seriamente a levar uma cornada. Com o “estoque” que é uma espécie de espada encurvada, este crava-o no animal, tentando acertar diretamente no coração, pois quanto menos tempo o toiro estive a sofrer com o “estoque” e mais rápido morrer, melhor é considerada a “estocada”. Em Portugal, devido à proibição de matar os touros dentro da arena, com excepção de Barrancos e Monsaraz, crava-se uma última bandarilha seguindo o mesmo gesto, sendo o animal morto mais tarde num matadouro.

O consagrado “toureiro a pé” português, Manuel dos Santos (1925-1973) recebeu o nome do avô, o bandarilheiro Manuel dos Santos “Passarito”, que o criou na Golegã. O ambiente da terra, a influência de familiares ligados à arte de tourear e a existência de várias ganadarias na região, fizeram com que se apresentasse em público com apenas 13 anos. Tratava-se apenas de uma vacada, mas chamou a atenção do bandarilheiro Patrício Cecílio. Cecílio tornar-se-ia o seu mestre e o jovem aprendiz de toureiro o primeiro discípulo da chamada “Escola de Toureio da Golegã”. Manuel dos Santos começou por tomar a alternativa de bandarilheiro, que lhe concedeu Alfredo dos Santos, na Monumental do Campo Pequeno, a 26 de julho de 1944. Para não deixar os estudos na Escola Comercial de Tomar, só em 1946 se deixaria levar pela paixão de tourear. Nesse ano partiu para Sevilha preparando-se intensamente chegar, mais tarde, à alternativa de matador. Um ano depois, mais precisamente em 26 de junho de 1947, debutava como novilheiro na Praça de Badajoz. Nessa tarde cortou três orelhas e um rabo aos dois touros que lhe foram apresentados e saiu levado em ombros, perante uma multidão rendida. Esta seria apenas a primeira exibição em que teria tal efeito de poder no público. Na mesma temporada, apresentou-se em Portugal já como um novilheiro.  Ipso facto, passou a noite na prisão, de onde saiu mediante o pagamento de uma caução, e acabou por ser absolvido no julgamento que se seguiu. Toureiro raçudo, é o mimetismo sociológico comparativo, presente em suas atuações, mas precisamente com estilo, inventou a dossantina, um novo passo de muleta.   

Do seu admirável percurso constaria ainda a atuação, no México em três corridas no mesmo dia, nas praças de Morelia, Cidade do México e Acapulco, em mano-a-mano com o mítico Carlos Arruza; e a assistência de mais de 88 mil espetadores, numa corrida realizada no Estádio Gelora Bung Karno, em Jacarta, Indonésia. Não por acaso recebeu o prestigiado prêmio Rosa Guadalupana, a 29 de janeiro de 1950, na Plaza México. Em 1950 é reconhecido como o mais solicitado “matador do mundo”, liderando o escalão da temporada, chegando assim “a um patamar nunca alcançado por outro toureiro a pé português”. Uma série de escritores baseados em Paris nas décadas 1920 e 1930 do século passado usaram da tourada espanhola para refletir sobre as realidades políticas da guerra moderna (cf. Sobral, 2008; 2016), a partir da 1ª grande guerra (1914-18), passando pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e chegando às portas da 2ª guerra mundial entre 1939-1945, infere Luís Felipe Sobral na tese de doutorado: “Fronteiras da Europa: A Corrida de Touros Vista da Paris Literária Entre-Guerras” (2015), orientada por Heloisa Pontes no Instituto de Filosofia e  Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Estruturada sob a forma de ensaio, a tese doutoral parte da resenha de Ernest Hemingway, “Morte ao Cair da Tarde”, escrita pelo poeta surrealista e antropólogo francês Michel Leiris e publicada em junho de 1939, às portas da 2ª guerra mundial (1939-45), que começaria em setembro do mesmo ano, com a invasão da Polônia por forças nazifascistas alemãs e a guerra de guerrilha marxista soviética.

       A tourada é um dos espetáculos mais populares e antigos da Espanha, e uma das tradições mais reconhecidas mundialmente. É um acontecimento que tem sua origem histórica no século XVIII, onde etnograficamente “um homem tem que lidar (tourear) a pé um touro bravo dentro de um recinto chamado praça de touros ou arena”. A tourada se divide em três partes, ou “três terços”, como são referidos na Espanha. O primeiro terço, de varas, consiste na lida do touro a cavalo (picadores) com o objetivo de comprovar a força e a disposição do animal. Assim se realiza a “suerte de capote” (o ato da capa), onde o toureiro desenvolve a “faena”, que pode ser descrita como um conjunto de passes realizado pelo toureiro, principalmente com a muleta, enganando ao touro, sendo os mais conhecidos “la verónica”, “la chicuelina” ou “la porta gayola”, entre outros. Depois vem a parte das “bandarilhas”, um dos momentos mais sensacionais da corrida, onde os “bandarilheiros” cravam nas costas do touro as bandarilhas, varas de madeira cuja haste é enfeitada com uma bandeira ou com fitas de papel colorido, que tem como objetivo reavivar o animal antes da última parte da corrida.  
O último terço ocorre quando o toureiro demonstra toda a sua arte e habilidade no “cara a cara com o touro” na “faena”, antes que ocorra a morte. Esta é a parte mais transcendental  da tourada, e quando se veem os melhores “passes de muleta” por parte do toureiro. Após a “faena”, onde o toureiro demonstra toda a sua maestria, chega o momento da morte do touro com a espada ou o estoque. Terminada a lida, o público manifesta sua opinião sobre a atuação do toureiro. Durante o ritual ocorrem as vaias ou o silêncio em caso de desaprovação e os aplausos e a aclamação se o público houver se agradado. 
A máxima satisfação para um toureiro é sair pela porta da frente, o que significa que sua corrida foi excepcional. Para isso, deve conseguir ao menos duas orelhas no total de prêmios conferidos, representando os dois touros que correspondem a cada toureiro em uma corrida. As orelhas são outorgadas pelo presidente da arena, que avalia as vaias, o silêncio ou os aplausos do público, inclusive os lenços brancos e todas as mensagens expressadas pelos torcedores. Ao lado do “flamenco” e do “jamón”, a tourada é um dos signos de identidade da Espanha mais conhecidos do mundo. Na Espanha existem arenas na maioria das cidades, sendo as mais importantes “Las Ventas de Madri” e “La Maestranza de Sevilha”. Outras praças de touros de primeira classe são as de Bilbao, Córdoba, Málaga, San Sebastian, Valência e Zaragoza. As melhores e mais sérias touradas se realizam em Madri, na Andaluzia e em algumas cidades das Castilhas, como Salamanca. Em Madri, a temporada oficial que eles nomeiam de “feria”, com os melhores toureiros, começa em abril e vai até o verão, mas é possível ver corridas de março e até outubro. Outras cidades fazem calendários alternativos. Por razões ideológicas os símbolos nacionais são rechaçados em muitas partes do país, seja por defender politicamente a vida dos touros ou simplesmente por não gostar de ver sua nação associada a clichês de violência contra animais, muitos espanhóis preferem ignorar essa atração que move paixões dentro e fora de suas fronteiras transnacionais. Apesar de ser uma imagem reconhecida internacionalmente, as corridas de toros ainda despertam muitas dúvidas. A chamada “Plaza de Toros de Las Ventas”, em Madri, é a maior e mais conhecida internacionalmente fora do país. Fora da temporada, é utilizada para outros eventos, como shows e festivais, entre eles, o “Oktoberfest”, de Madri. 
Nesse espaço e lugar, os marqueteiros advertem: - prepare-se para dividir o banco com muitos, muitos turistas, que nem sempre sabem o que vai acontecer durante uma “faena”, como “luta do toureiro com o touro”. A Espanha lamentou neste sábado, 9/07/2016, pela morte de um toureiro em ação. Foi o primeiro em mais de 30 anos. Victor Barrio participava de tourada na província de Aragão quando foi atingido. O chifre atravessou as costas e o peito. Ele ainda foi socorrido, mas não resistiu. A última morte de um toureiro profissional numa arena, na Espanha, foi em 1985. Como vemos “Las Ventas” é uma arena de touros em Madrid, capital da Espanha. É o maior recinto deste género em Espanha e o segundo em nível mundial, só ultrapassado pela Praça de Touros no México. Foi inaugurada a 17 de junho de 1931, com o nome de “Praça de Las Ventas del Espíritu Santo”, por ser o nome do local onde se encontrava. Apesar de já estar aberta, só em 1934 entrou em funcionamento. Foi projetado pelo arquiteto José Espeliú em estilo de influência neoárabe, o mesmo comparado ao estilo da “Praça de Touros do Campo Pequeno”, em Lisboa. A decoração ficou a cargo de Manuel Muñoz Monasterio. A Praça tem capacidade para 23.798 espectadores e a arena tem 60 metros de diâmetro. Desde 1951 que é possível visitar o “Museo Taurino” no interior do edifício. Neste encontram-se coleções de objetos de arte relacionados com a tauromaquia e com a história da Praça. De nome oficial “Plaza México” é tradicionalmente uma praça de touros na Cidade do México. 
É a maior do mundo, seguida da Praça de touros Monumental de Las Ventas em Espanha e da Praça de touros Monumental de Valencia na Venezuela. Nesta casa de espetáculo tem lugar para 46.815 espectadores (sentados), chegando a levar mais de 100.000 durante eventos musicais. Inaugurado em 1931, “Las Ventas” abriga a temporada de touradas entre março e outubro, com espetáculos principalmente aos domingos. A entrada pelo grande portal principal estava organizada em um dia de primavera, repleto de turistas e suas câmeras fotográficas. É preciso percorrer compridos corredores à procura de seu lugar antes de dar a primeira olhada na arena. À primeira impressão que temos é que voltamos no tempo e estamos prestes a assistir a um duelo de gladiadores e leões na época do Império Romano. A arena do espetáculo tem o chão forrado de areia, com marcações de cal delimitando um espaço circular. Nas bordas, alguns portões dispostos de forma simétrica. Ao redor, os espectadores se espalham pelas arquibancadas - muitos alugam na entrada uma pequena almofada para encarar o ritual com mais conforto, visto que as arquibancadas não dispõem de assentos. Em um espetáculo tradicional, há trocas de toureiros e cada um deles tem que abater dois touros. Para isso eles contam com uma equipe que vai minando a resistência do animal antes da entrada triunfal do protagonista. O ritual começa sempre com o toureiro mais experiente. Enquanto fazem movimentos de aquecimento com os capotes vermelhos, de forro amarelo - os toureiros reluzem com suas roupas de seda colorida e os bordados em ouro. O espetáculo começa ao som de uma banda que entoa músicas tradicionais enquanto os profissionais se apresentam ao público, circulando pela arena com aplausos e assobios. O espaço da arena é então esvaziado. A furiosa entrada do primeiro touro é acompanhada do silêncio da plateia. 
O ímpeto do animal faz com que os ajudantes do toureiro se preocupem, em um primeiro instante, em cercá-lo. Para isso, recorrem com muita frequência aos recuos de madeira que existem na parede da arena. Uma vez delimitado o espaço ao redor do touro, entram os “picadores” - os toureiros a cavalo que espetam o animal com lanças. Os cavalos ficam vendados e protegidos com lonas especiais, o que não impede que eles também saiam feridos do embate. As estocadas fazem o touro perder sangue e a força nos músculos. O choque dos chifres contra o cavalo é violento e chega a desestabilizar o toureiro. Etnograficamente o toureiro e seus ajudantes formam uma “cuadrilla”, “conjunto de banderilleros y picadores que acompaña a un torero matador en el toreo”, para matar o touro. No “tercio de varas” (primeiro terço do espetáculo), o touro selvagem, com idade entre 4 e 6 anos, e mais de 460 kg, é solto na arena, feroz, treinado para matar ou morrer. O toureiro, ou matador, faz movimentos com o capote vermelho de forro amarelo, para atiçar o animal que só vê preto e branco, o que o incita são as performances com os volteios da capa. No ritual de morte, o touro é conduzido até um dos dois picadeiros, cavaleiros com lanças que ferem o animal para ir minando a sua força. A ponta da lança, em forma de T, limita a profundidade das picadas. Os cavalos são vendados para não se assustarem com o touro e cobertos com uma lona grossa para protegê-los das cifradas. Depois que o touro é enfraquecido com pelo menos duas estocadas, começa o “tercio de banderillas”. É quando começa o processo de tortura com a entrada dos “banderilleros”, cravando três pares de estacas coloridas e bastante vistosas no animal, com ponta de arpão no pescoço do touro.
     O objetivo é deixar o animal ainda mais furioso com o desfecho da peleja. No “tercio de muerte”, o matador usa uma pequena capa, empunhada com uma das mãos, para realizar a faena, driblando o animal bem de perto – e perigosamente com chifradas na virilha, axilas, pescoço e tórax não são raras, e podem ser fatais. Nesta medida do ritual quando o toureiro exibe sua habilidade, é que a arena em uníssono grita “olé”! O toureiro-matador recebe uma espada de aço em torno de 1 metro para liquidar sua presa. Com a capa rente ao chão, ele vai situando o touro, num teatro de operações para a posição ideal para a morte: de cabeça baixa e patas dianteiras juntas. Com isso, ressalta a região logo acima do pescoço onde será dado o golpe fatal, se a estocada atingir a aorta a morte é instantânea, o que nem sempre acontece, elevando a dor a momentos de agonizante tortura a média de 20 minutos. Se o desempenho do toureiro for pragmático, certeiro, excepcional, ele recebe o “prêmio máximo” – as duas orelhas e o rabo do animal esquartejado na hora -, além de sair da arena nos ombros dos adeptos de morte do animal, sua carcaça e carne é vendida aos açougues ao redor da arena.
 O toureiro espanhol Víctor Barrio, de 29 anos, morreu no sábado (9) após ser chifrado no peito por um touro durante uma competição na cidade de Teruel, em Aragão. O torneio estava sendo transmitido ao vivo pela televisão e os telespectadores puderam ver quando o touro derrubou Barrio no chão e o chifrou no peito. Ele chegou a ser levado com vida à enfermaria do local, mas não resistiu aos ferimentos e morreu poucos minutos depois. Segundo o boletim dos médicos que o atenderam, a chifrada perfurou o pulmão direito e a aorta torácica e ele teve uma parada cardíaca. Apesar de terem realizado uma traqueostomia, os médicos admitem que não havia como salvar a vida de Barrio. O touro que atingiu Barrio se chama Lorenzo e pesa 529 quilos, de acordo com o jornal espanhol “El Mundo”. O jornal afirma ainda que o golpe foi muito parecido com o que matou o toureiro José Cubero em 30 de agosto de 1985. Cubero tinha 21 anos e teve morte instantânea ao ser atingido no coração em um evento em Madri. 
A competição foi cancelada assim que a morte de Barrio foi anunciada. Em seu perfil no “Twitter”, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy enviou uma mensagem de condolências. - “Minhas condolências à família e aos companheiros de Víctor Barrio, toureiro falecido esta tarde em Teruel. Descanse em paz”, escreveu. Víctor Barrio atuava como toureiro desde 2008. Foi a primeira vez em três décadas que um toureiro é morto em ação no país. A última vez havia sido em 1985, quando o toureiro José Cubero "El Yiyo" foi atingido pelo animal no coração em Madri. A família real espanhola e o primeiro-ministro Mariano Rajoy enviaram mensagens de condolências à família de Barrio. O governo de Castilla e León lamentou a tragédia (cf. Simmel, 1988). Diz que Barrio “sempre esteve comprometido com a transmissão dos valores dessa arte, seus ensinamentos e sua terra”, afirma o comunicado. O “Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas” recomendou, a Portugal, em fevereiro de 2014, a elevação da idade a partir da qual é permitido assistir ou atuar em espetáculos tauromáquicos, com vista a garantir o seu bem-estar físico e mental. Tal recomendação “foi contestada pela sua falta de fundamento científico”, tendo sido resultado do lobby da fundação suíça antitaurina Franz Weber junto do Comité da Organização das Nações Unidas - ONU, onde não aparentemente não existiu qualquer contraditório ou estudo científico que fundamentasse as recomendações. 
O único estudo científico até hoje realizado sobre o possível impacto psicológico das touradas nas crianças contou com reputados especialistas de diversas universidades espanholas, e pela sociedade “Protecção de Menores da Comunidade de Madrid”, que concluiu que "não se pode considerar perigosa a assistência de espectáculos taurinos por menores de 14 anos”. Atualmente, em Portugal, Espanha, França, Equador, México, Venezuela, Peru e Colômbia, as crianças podem assistir a ou participar em espetáculos tauromáquicos. Em Espanha, existem regiões onde os espetáculos tauromáquicos estão proibidos. Primeiro foram as Ilhas Canárias, com a aprovação em 1991 da “Lei de Proteção de Animais”. Duas décadas depois, em julho de 2010, o Parlamento de Catalunha aprovou uma Iniciativa Legislativa Popular - que contou significativamente com 180 000 cidadãos subscritores - levando à proibição de espetáculos, com a exceção dos “bous al carrer”. Um estudo de opinião sobre touradas foi realizado pela “Eurosondagem”, em 2011, em todo o país, e mostrou que 32,7% dos entrevistados são aficionados, gostam ou apreciam atividades com touros, 20,6% são indiferentes às touradas, 32,8% não são aficionados, mas não são contra as touradas e 11% são contra as atividades com touros. Ainda 59,3% dos portugueses acham que as touradas contribuem para uma boa imagem do país no estrangeiro e 75% acham que as touradas são importantes ou têm importância para a economia e turismo e 65,3% acha que seria muito grave o desaparecimento da tradição taurina.

Bibliografia geral consultada. 

CAMBRIA, Rosário, Los Toros: Tema Polêmico en el Ensayo Español del Siglo XX. Madrid: Editorial Gredos, 1975; SIMMEL, Georg, La Tragédie de la Culture. Paris: Petite Bibliothèque Rivages, 1988; BURKE, Peter, La Cultura Popular en la Europa Moderna. Madrid: Alianza Editorial, 1991; BRAGA, Paulo Drumond, “Touradas em Portugal no Século XVIII Segundo Alguns Relatos de Viajantes Estrangeiros”. In A Festa (Vol. II), Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, 649-668. Lisboa: Universitária Editora, 1992; ÁLVAREZ DE MIRANDA, Ángel, Ritos y Juegos del Toro. Madrid: Biblioteca Nueva, 1998; LEIRIS, Michel, Espelho da Tauromaquia. São Paulo: Editor Cosac & Naify, 2001; McCLOSKEY, Barbara, Artists of World War II. London: Editor Greenwood Press, 2005; MOZER, Mariana Calvo, Touradas, Toureiros e Morte. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzir, 2010; BARBOSA, Rodrigo Garcia, Um Corpo entre Imagem e Gesto: A Tauromaquia na Poesia de João Cabral de Melo Neto. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários. Faculdade de Letras. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2013; CAPUCHA, Luís, “Festas de Touros”. In: Revista Anthropológicas. Ano 17, volume 24(1): 2013; DELGADO RUIZ, Manuel, De la Muerte de un Díos. La Fiesta de los Toros en el Universo Simbólico de la Cultura Popular. Barcelona: Editorial Península, 2014; CAPUCHA, Luís, “O Campo da Tauromaquia”. In: Sociologia. Problemas e Práticas 5 (1988): 147 -165; Idem, “Tauromaquia e Identidades Culturais Locais”. In: Sociologia. Problemas e Práticas 8 (1990): 139 -145; Idem, “Histórias da Tauromaquia em Portugal: cavaleiros, forcados, matadores e festas populares”. In: Des Taureaux et des Hommes (Eds), Annie Mollinié-Bertrand, Jean-Paul Duviols e Araceli Guillaume-Alonso, 135 -148. Paris: Presses de l’Université de Paris-Sorbonne, 1999, Idem, “Barrancos na Ribalta, ou a metáfora de um país em mudança”. In: Sociologia, Problemas e Práticas 39 (2002): 9 -38; Idem, “Festas de Touros”. In: Revista Anthropológicas 24 (1) (2013): 145-179; SOBRAL, Luís Felipe, “O Pensamento Selvagem de Michel Leiris”. In: Novos Estudos CEBRAP, pp. 207-215, 2008; Idem, Fronteiras da Europa: A Corrida de Touros Vista da Paris Literária Entreguerras. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2015; UNGARI, Diego de Freitas, Os Chifres Entre a Cruz e a Espada: Um Estudo das Festas de Touros na Espanha nos Séculos (XV-XVI). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Departamento de História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016; entre outros.

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