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segunda-feira, 24 de março de 2025

Abuso Emocional - Perda da Sensibilidade & Princípio de Individuação.

                                                Se você ama, sofre. Se não ama, adoece”. Sigmund Freud (1856-1939)

Por que o amor está, antes de mais anda, absolutamente intricado em seu objeto, e não simplesmente associado a ele: o objeto do amor em toda a sua significação categorial não existe antes do amor, mas apenas por intermédio dele. O que faz aparecer de maneira bem clara que o amor – e, no sentido lato, todo o comportamento do amante enquanto tal – é algo absolutamente unitário, que não pode se compor a partir de elementos preexistentes. Totalmente inúteis parecem, pois, as tentativas de considerar o amor como um produto secundário, no sentido de que seria motivado como resultante de outros fatores psíquicos primários. No entanto, ele pertence a um estágio demasiado elevado da natureza humana para que possamos situá-lo no mesmo plano cronológico e genético da respiração ou da alimentação, ou mesmo do instinto sexual. Tampouco podemos safar-nos do embaraço por esta escapatória fácil: em virtude de seu sentido metafísico, de seu significado atemporal, o amor permanece sem dúvida à primeira – ou última - ordem dos valores e das ideias, mas sua realização humana ou psicológica colocá-lo-ia num estágio ulterior de uma série longa e complexa na evolução contínua da vida. Não podemos nos satisfazer com essa estranheza recíproca de seus significados ou de suas areações. O problema de seu dualismo é aí, reconhecido e bem expresso, mas não resolvido; determo-nos nessa conclusão seria duvidar de sua solubilidade.

O amor é uma das grandes categorias sociais que dá forma ao existente, mas isso é dissimulado tanto por certas realidades psíquicas como in fieri por certos modos de representações teóricas. Não há dúvida que o efeito amoroso desloca e falsifica inúmeras vezes a imagem objetivamente reconhecível de seu objeto e, nessa medida, é decerto geralmente reconhecido, segundo Simmel, como “formativo”, mas de uma maneira que não pode visivelmente parecer coordenada com as outras forças espirituais que dão forma. Trata-se, portanto, aqui, de uma imagem já existente que se encontra modificada em sua determinação qualitativa, sem que se tenha abandonado seu nível de existência teórica, nem criado um produto de uma nova categoria. Essas modificações que o amor já presente traz à exatidão objetiva da representação nada têm a ver com a criação inicial que produz o ser amado como tal. Na verdade, todas essas categorias são coordenadas, por sua significação, quaisquer que sejam o momento ou as circunstâncias em que elas atuam. E o amor é uma delas, na medida em que cria seu objeto como produto totalmente original. É preciso, antes de mais anda, que o ser humano exista e seja conhecido, antes de ser amado. Mas esse algo que acontece não tem lugar com esse ser existente que permaneceria não modificado, foi, ao contrário, no sujeito que uma nova categoria fundamental se tornou criadora. Do mesmo modo que eu, amante, sou diferente do quer era antes – pois não é determinado “aspecto” meu, determinada energia que ama em mim, mas meu ser inteiro, o que não precisa uma transformação visível de todas as minhas outras manifestações -, também ele enquanto tal, é um outro, nascendo de outro a priori que não o ser conhecido ou temido, indiferente ou venerado.

O amor é sempre uma dinâmica que se gera, Para Simmel (1993) por assim dizer, a partir de uma autossuficiência interna, sem dúvida trazida, por seu objeto exterior, do estado latente ao estado atual, mas que não pode ser, propriamente falando, provocada por ele; a alma o possui enquanto realidade última, ou não o possui, e nós não podemos remontar, para além dele, a um dos movens exterior ou interior que, de certa forma, seria mais que sua causa ocasional. É esta a razão mais profunda que torna o procedimento de exigi-lo, a qualquer título legítimo que seja totalmente desprovido de sentido. Sequer sua atualização dependa sempre de um objeto, e se aquilo que chamamos de desejo ou necessidade de amor – esse impulso surdo e sem objeto, em particular na juventude, em direção a qualquer coisa a ser amada – já não é amor, que por enquanto só se move em si mesmo, digamos um amor em roda livre. Seguramente, a pulsão em direção a um comportamento poderá ser considerada como o aspecto afetivo do próprio comportamento, ele próprio já iniciado; o fato de nos sentirmos “levados” a uma ação significa que a ação já começou anteriormente e que seu acabamento não é outra coisa que o desenvolvimento ulterior dessas primeiras inervações. Onde, apesar do impulso sentido, não passamos à ação, isso se dá seja porque a energia não basta para ir além desses primeiros elos da ação, seja porque ela é contrariada por forças opostas, antes mesmo que esses primeiros elos já anunciados à consciência tenham podido se prolongar num ato visível. A possibilidade real, a ocasião apriorística desse modo de comportamento que chamamos amor, fará surgir, se for o caso, e levará à consciência, como um sentimento obscuro e geral, inicial de sua própria realidade, antes mesmo que a ele se some a incitação por um objeto determinado para levá-lo a seu efeito acabado.   

A existência desse impulso sem objeto, por assim dizer incessantemente fechado em si, acento premonitório do amor, puro produto do interior e, no entanto, já acento de amor, é a prova mais decisiva em favor da essência central puramente interior do fenômeno amor, muitas vezes dissimulado sob um modo de representação pouco claro, segundo o qual o amor seria uma espécie de surpresa ou de violência vindas do exterior, tendo su símbolo mais pertinente no “filtro do amor”, em vez de uma maneira de ser, de uma modalidade e de uma orientação que a vida como tal toma por si mesma – como se o amor viesse de seu objeto, quando, na realidade, vai em direção a ele. De fato, o amor é o sentimento que, fora dos sentimentos religiosos, se liga mais estreita e mais incondicionalmente a seu objeto. À acuidade com a qual ele brota do sujeito corresponde a acuidade igual com que ele se dirige para o objeto. O que é decisivo aqui é que nenhuma instância de caráter geral vem se interpor. Se venero alguém. É pela mediação da qualidade de certo modo geral de venerabilidade que, em sua realidade particular, permanece ligada à imagem desse por tanto tempo quanto eu o venerar. Do mesmo modo, no homem que temo, o caráter terrível e o motivo que o provocou estão intimamente ligados; mesmo o homem que odeio não é, na maioria dos casos separado em minha representação da causa desse ódio – é esta uma das diferenças entre amor e ódio que desmente a assimilação que comumente se faz deles. Mas o específico do amor é excluir do amor existente a qualidade mediadora de seu objeto, sempre relativamente geral, que provocou o amor por ele. Ele permanece como intenção direta e centralmente dirigida para esse objeto, e revela a sua natureza verdadeira e incomparável nos casos em que sobrevive ao desaparecimento indubitável do que foi sua razão de nascer.

Essa constelação, que engloba inúmeros graus, desde a frivolidade até a mais alta intensidade, é vivida segundo o mesmo modelo, seja em relação a uma mulher ou a um objeto, a uma ideia ou a um amigo, à pátria ou a uma divindade. Isso deve ser solidamente estabelecido em primeiro lugar, se quisermos elucidar em sua estrutura seu significado mais restrito, o que se eleva no terreno da sexualidade. A ligeireza com que a opinião corrente alia instinto sexual a amor lança talvez uma das pontes mais enganadoras na paisagem psicológica exageradamente rica em construções desse gênero. Quando, ademais, ela penetra no domínio da psicologia que se dá por científica, temos com demasiada frequência a impressão de que esta última caiu nas mãos de açougueiros. Por outro lado, o que é óbvio, não podemos afastar pura e simplesmente essa relação. Nossa emoção sexual, afirma Simmel, desenrola-se em dois níveis de significação. Por trás do arrebatamento e do desejo, da realização e do prazer sentidos, diretamente subjetivos, delineia-se, consequência disso tudo, a reprodução da espécie. Pela propagação contínua do plasma germinal, a vida corre infinitamente, atravessando todos estágios ou levada por eles de ponta a ponta. Por mais insuficiente, por mais preso a um estreito simbolismo humano que esteja o conceito de objetivo e de meios em presença da misteriosa realização da vida, devemos qualificar essa emoção sexual de meio de que a vida se serve para a manutenção da espécie, confiando aqui a consecução desse objetivo não mais a um mecanismo (no sentido lato) mas a mediações psíquicas.

Enfim, a pulsão, dirigida a princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao outro sexo enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à medida que seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, a pulsão não se torna amor pelo simples fato de sua individualização; esta última pode ser refinadamente hedonista, ou instinto vital-teleológico para o parceiro apto a procriar os melhores filhos.  Mas, indubitavelmente, ela cria uma disposição formativa e, por assim dizer, um marco para essa exclusividade que constitui a essência do amor, mesmo quando seu sujeito se volta para uma pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto que no seio do que se chama “atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum, ou, se quiserem, a prefiguração do amor. A vida se metamorfoseia também nessa produção, traz sua corrente à altura dessa onda, cuja crista, porém, sobressai livremente acima dela. Se considerarmos o processo da vida absolutamente como um dispositivo de mios a serviço desse objetivo - a vida – es e levarmos em conta o significado simplesmente efetivo do amor para a propagação da espécie, então este também é um dos meios que a vida se dá para si e a partir de si.

Na sociologia, o conceito de “individuação” é utilizado pelo sociólogo Danilo Martuccelli, na sua entrevista: “Como os indivíduos se tornam indivíduos”, ele ressalta a importância de estudar os fenômenos sociológicos através da ótica dos indivíduos, o que ele chama de teoria da individuação. Segundo o mesmo, estudar a realidade segundo as vivências históricas particulares, nos auxilia no processo social de compreensão dos mecanismos responsáveis pela produção de sujeitos em diversos contextos históricos. A individuação é um fenômeno que se mostra eficiente para desvendar os problemas sociais, portanto, uma excelente formação de estudo sociológico, podendo ser aplicada a qualquer fenômeno. Dessa forma, o entendimento de cada problema ou manifestação social deve ser analisado do microcosmo para o macrocosmo, traduzindo a nível de experiências individuais os grandes desafios coletivos de uma sociedade. A individuação dos sujeitos se desenvolve quando estes se veem envoltos pelas forças dos processos de racionalização e aceitação social condicionantes. Todos os sujeitos estão destinados a encarar as mesmas dificuldades, o que psicologicamente Martuccelli denomina de “prova”. Porém a resposta de cada um será diretamente proporcional à sua própria caraterização contida na identidade, posição social, raça, gênero e recursos.

Daí nasce a questão individuação. Esse processo também é derivado da variação entre sociedades e também entre períodos históricos. Ainda sobre o conceito de “provas”, segundo Martuccelli, são desafios estruturais que podem variar. É importante ressaltar que tais provas não são determinantes, ou seja, não definem o futuro e a identidade dos sujeitos, mas podem influenciá-los. E através de provas comuns é que se produzem indivíduos singulares. A noção de prova possui quatro aspectos: o primeiro se refere à percepção dos indivíduos frente a situações difíceis. O segundo, diz respeito às respostas ou reações dos indivíduos frente a tais dificuldades reais. O terceiro aspecto menciona o caráter seletivo de tais provas. O sujeito poderá obter sucesso ou falhar. E por último, cada sociedade possui um conjunto de provas que podem ser mais ou menos pré-determinadas. Neste mesmo raciocínio, encontramos também, nos textos de Martuccelli, a noção de “suporte”. Esse conceito está baseado no fato de que os indivíduos necessitam se estruturar para se manterem firmes frente à sociedade, uma vez que ser um indivíduo implica na soberania sobre si mesmo e na diferenciação em relação aos demais. Esses suportes estarão diretamente relacionados às respostas que os indivíduos dão ao enfrentarem uma prova, e podem ou não garantir o sucesso do sujeito.

A individuação, conforme descrita por Jung, é um processo através do qual o ser humano evolui de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o que implica uma ampliação da consciência. Através desse processo, o indivíduo identifica-se menos com as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se encontra e mais com as orientações emanadas do si-mesmo, a totalidade, entenda-se totalidade como o conjunto das instâncias psíquicas sugeridas por Carl Jung, tais como persona, sombra, self, etc. de sua personalidade individual. Jung entende que o atingir da consciência dessa totalidade é a meta de desenvolvimento da psique, e que eventuais resistências em permitir o desenrolar natural do processo de individuação é uma das causas do sofrimento e da doença psíquica, uma vez que o inconsciente tenta compensar a unilateralidade do indivíduo através do princípio da enantiodromia. Jung ressaltou que o processo de individuação não entra em conflito com a norma coletiva do meio no qual o indivíduo se encontra, uma vez que esse processo tem como condição para ocorrer que o ser tenha conseguido adaptar-se e inserir-se com sucesso em seu ambiente, tornando-se um membro ativo de sua comunidade. O psicólogo suíço afirmou que poucos indivíduos alcançavam a meta da individuação mais ampla. Um dos passos necessários para tanto seria a assimilação das quatro funções, a saber, sensação, pensamento, intuição e sentimento, conceitos definidos por Jung em sua teoria dos tipos psicológicos.

Em seus estudos sobre a alquimia, Jung identificou a meta da individuação como sendo equivalente à Opus Magna, ou Grande Obra dos alquimistas. A individuação também pode ser compreendida em termos globais como o processo que cria o mundo e o leva a seu destino (cf. Rocha Filho, 2007), não sendo, por isso, uma exclusividade humana. A individuação, neste contexto literário, se identifica com o mecanismo de autorrealização, ou primeiro motor do universo. Numa formulação próxima dos estudos em comunicação, de acordo com Samuel Mateus, “tomar o indivíduo segundo as formas de individuação significa, assim, a capacidade de incluir a singularidade na pluralidade (e vice-versa), bem como de assimilar uma diversidade de manifestações heterogéneas - por vezes incoerentes entre si - num todo aglutinante que molda a autoconsciência individual. Significa também incorporar modos de interpretação do indivíduo fundados nas relações tensionais, interdependentes e imprevisíveis operadas entre um indivíduo que oscila entre a singularidade e a pluralidade, entre um polo individual e um polo social”. Esta última noção trabalha o conceito de individuação a partir da Sociologia tendo uma clara filiação social nos trabalhos de Georg Simmel e Norbert Elias.

 A perspectiva da individuação segundo Martuccelli, ressalta a importância de estudar os fenômenos sociológicos através da ótica dos indivíduos, o que ele irá chamar de “teoria da individuação”. De acordo com a sua interpretação, estudar a realidade segundo as vivências históricas particulares, nos auxilia no processo de compreensão dos mecanismos responsáveis pela produção de sujeitos culturais em diversos contextos. A individuação é por ele considerada um fenômeno que se demonstra com eficácia simbólica para desvendar os problemas sociais e é considerada uma excelente ferramenta de estudo sociológico passível de ser aplicada a qualquer fenômeno. Um estudo da The Psychologist, uma publicação oficial da British Psychological Society, concluiu que o amor doentio deveria ser levado mais a sério pelos profissionais. De acordo com o autor do estudo, Frank Tallis (2019), “muitas pessoas necessitam de ajuda por não poder lidar com a intensidade do amor e têm sido desestabilizadas por causa disso, ou sofrem pela não-correspondência de seu amor”. Especializado em transtornos obsessivos, leciona psicologia clínica e neurociência e realiza frequentemente palestras no Instituto de Psiquiatria e Neurociência no King’s College London. Publicou mais de trinta artigos científicos em revistas internacionais e escreveu mais de vinte obras.

Publicou tanto obras acadêmicas quanto ensaios psicológicos para um público amplo, mas também é autor de romances: Killing Time e Sensing Others pelos quais recebeu o Writer’s Award e New London Writer’s Award. Sua série, The Liebermann Papers obteve reconhecimento imediato pelos críticos e pelo público. Alguns dos sintomas associados ao chamado “amor doentio” incluem: mania de conservar o humor anormalmente elevado, autoestima excessivamente alta, presentes extravagantes; depressão, apresentando choro excessivo, insônia, mas perda de concentração; transtorno obsessivo-compulsivo relacionado à preocupação, verificação constante de mensagens de texto e e-mails, acumulação de compulsiva de objetos; sintomas físicos de fundo psicológico, como dores de estômago, mudanças contumazes no apetite, tontura e confusão mental. Mais especificamente, os níveis estimados de serotonina em pessoas que se apaixonam decaem ao mesmo nível de pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo. Mais ainda, investigações da atividade do cérebro mostraram que indivíduos que se disseram “verdadeiramente, profundamente e loucamente” apaixonados têm atividade em várias estruturas cerebrais compatíveis com o transtorno obsessivo-compulsivo, como o núcleo caudado e certas áreas do córtex.

O amor doentio é um termo não-médico usado para descrever sintomas físicos e mentais associados a uma “paixão extremada”. É um termo que designa um sentimento muito forte de atração por uma pessoa, objeto ou tema. Sentimentos são o que seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam. Por exemplo, medo é uma informação de que há risco, ameaça ou perigo direto para o próprio ser ou para interesses correlatos. A empatia é informação sobre os sentimentos dos outros. Esta informação não resulta necessariamente na mesma reação entre os receptores, mas varia, dependendo da competência em lidar com a situação, e como isso se relaciona com experiências passadas e outros fatores. O sistema límbico é a parte do cérebro que processa os sentimentos e emoções. Sentimentos humanos podem ser estudados por diversos métodos, como via biologia, fisiologia, filosofia, matemática ou psicologia. Na superfície medial do cérebro dos mamíferos, o sistema límbico representa a unidade responsável pelas emoções e comportamentos sociais. É uma região constituída de neurônios, células que formam uma massa cinzenta denominada de lobo límbico. Originou-se a partir da emergência dos mamíferos antigos em nosso habitat. Através do sistema nervoso autônomo, ele comanda comportamentos necessários à sobrevivência dos mamíferos, interferindo positiva ou negativamente no funcionamento visceral e na regulamentação metabólica do organismo. O termo límbico corresponde a um adjetivo que dá suporte ao valor de relativo ou pertencente ao limbo, ou seja, remete para o conceito socialmente de margem.

O Sistema Límbico compreende “todas as estruturas cerebrais que estejam relacionadas”, principalmente, com comportamentos emocionais e sexuais, aprendizagem, memória, motivação, mas também com algumas respostas homeostáticas. Resumindo, a sua principal função será a integração de informações sensitivo-sensoriais com o estado psíquico interno, onde é atribuído um conteúdo afetivo a esses estímulos, a informação é registrada e relacionada com as memórias preexistentes, o que leva à produção de uma resposta emocional adequada, consciente e/ou vegetativa. Estas formações podem dividir-se em componentes corticais e componentes subcorticais, estando associadas a esta região cerebral um conjunto de estruturas que, contribuem para a execução das funções deste sistema. Enumerando os componentes corticais pertencentes ao Sistema Límbico podemos observar o hipocampo e o lobo límbico de Broca. “Le grande lobe limbique”, foi o termo criado em 1878, por Pierre-Paul Broca (1824-1889), referente ao conjunto de estruturas que se situam anatomicamente em volta do tronco encefálico, na face interna (medial) e inferior dos hemisférios cerebrais. Em 1664, Thomas Willlis (1621-1675) designou o anel cortical que circundava o tronco cerebral de cerebri limbus. Quanto aos componentes subcorticais é possível diferenciar as amígdalas (núcleos amigdalinos), a área septal, os corpos mamilares, os núcleos anteriores do tálamo, os núcleos habenulares e os núcleos Accumbens. Os componentes cerebrais associados ao Sistema Límbico são o Tronco Cerebral, o Hipotálamo, o Tálamo, a Área Pré-frontal e o Rinencéfalo (Sistema Olfativo).

Pierre Paul Broca (1824-1880) foi um cientista, médico, anatomista e antropólogo francês. Formado em medicina aos 20 anos, logo se tornou professor de patologia cirúrgica da Universidade de Paris e um renomado pesquisador médico em diversas áreas. Ficou conhecido pela sua descoberta da área cerebral da linguagem (Área de Broca), cujo feito lhe rendeu uma posição como um dos 72 nomes homenageados na Torre Eiffel. Paul Broca foi um cirurgião e antropólogo francês que nasceu em Sant-Foy-la-Grande, em 1824. Entrou na escola de medicina aos 17 anos, formando-se aos 20 anos, quando a maioria de seus contemporâneos ainda estava iniciando seus estudos em medicina. Estudou medicina na Universidade de Paris, onde logo se tornou professor de patologia cirúrgica e um médico pesquisador notável. Especializou-se em muitas áreas, como, por exemplo, em a anatomia e em histologia. Aos 24 anos já havia sido premiado com muitas medalhas e posições importantes. Realizou diversos trabalhos científicos sobre a histologia da cartilagem e dos ossos, a patologia do câncer, o tratamento dos aneurismas e a mortalidade infantil. Sendo um excelente neuroanatomista, faz contribuições importante acerca do sistema límbico. Ele funda, em 1848, uma sociedade de livres-pensadores e se simpatiza pela teoria da seleção natural de Darwin. Escreve vários livros e artigos, sendo que, 53 foram dedicados aos estudos sobre o cérebro. Ele também se dedicou à assistência aos pobres e foi célebre figura na Assistance Publique.

Broca também é um pioneiro em antropologia física. Ele fundou a Sociedade de Antropologia de Paris, em 1859, a Revue d`Anthropologie em 1872, e a Escola de Antropologia, em Paris, em 1876. Outra área de conhecimento em que se dedicou foi a anatomia comparativa dos primatas. Ele descreveu pela primeira vez trepanações que remontam ao Neolítico. Era muito interessado nas relações entre a anatomia do crânio e do cérebro e as habilidades mentais e inteligência. Já no final de sua vida, é eleito membro vitalício do Senado da França, sendo também um membro da Academia Francesa de Ciências. Ele recebeu graus honoríficos de muitas instituições do saber, na França e no exterior. Paul Pierre Broca morre em Paris, em 1880. Apesar de ter sido um renomado cientista e pesquisador, o que confere a Broca o lugar na história da medicina é a sua descoberta do “centro da linguagem” no cérebro, na região do lobo frontal. Broca foi influenciado pelos esforços de Franz Joseph Gall em mapear as funções superiores no encéfalo; contudo, em vez de correlacionar o comportamento com calombos no crânio, ele correlacionou evidências clínicas de afasia com lesões encefálicas descobertas em exames post-mortem. Em 1861, ele escreveu: - “Eu acreditava que, se houvesse uma ciência frenológica, seria a frenologia das circunvoluções (no córtex), e não a frenologia dos calombos (na cabeça)”. Com base nessa percepção sensorial, Paul Broca fundou a neuropsicologia, uma importante ciência dos processos mentais que ele diferenciou da frenologia de Gall.

A paixão é intensa, envolvente, um entusiasmo ou um desejo forte por qualquer coisa. O termo também é aplicado com frequência para designar um vívido interesse ou admiração por um ideal, causa ou atividade. Em suma, é um sentimento intenso. A palavra paixão é vulgarmente usada para exprimir uma “pulsão romanesca”, ou desejo sexual, em todo o caso mais profunda ou mais abrangente que a luxúria. Historicamente o amor doentio tem sido visto como uma doença mental ocasionada pelas mudanças intensas associadas ao amor. O polímata persa Avicena, reconhecido como o “pai da medicina moderna”, via a obsessão como principal sintoma e causa do amor doentio. O diagnóstico caiu aparentemente em desuso desde que o modelo dos quatro humores foi abandonado com o advento da psiquiatria científica moderna. O conceito de estar “louco” de amor não é simplesmente uma representação poética. Para alguns intérpretes, os altos e baixos do chamado “amor doentio” podem ter similaridades de diagnóstico com as próprias doenças mentais. Pessoas que passam por um amor muito intenso podem sofrer “amor doentio” com sensações mobilizadas de ansiedade, sintomas de mania, transtorno obsessivo-compulsivo, autoestima excessivamente alta e depressão.

Reconhecido como Ibn Sīnā ou por seu nome latinizado Avicena, foi um polímata persa que escreveu tratados sobre vários assuntos, dos quais aproximadamente duzentos e quarenta chegaram aos nossos dias. Em particular, cento e cinquenta destes tratados se concentram em filosofia e quarenta em medicina. As suas obras mais famosas são o “Livro da Cura”, que representa a vasta enciclopédia filosófica e científica, e o “Cânone da Medicina”, que era o texto padrão em muitas universidades medievais, entre elas a extraordinária Universidade de Montpellier e a Universidade Católica de Leuven, ainda em 1650. Ela apresenta um sistema completo de medicina em acordo com os princípios per se de Galeno e Hipócrates. Suas demais obras incluem ainda escritos sobre filosofia, astronomia, alquimia, geografia, psicologia, teologia islâmica, lógica, matemática, física, além de poesia. Ele é considerado o mais famoso e influente polímata da Era de Ouro Islâmica. Avicena criou um extenso corpus literário durante esta época, na qual traduções de textos greco-romanos, persas e indianos foram extensivamente estudados.

Textos greco-romanos (médio, neoplatônicos e aristotélicos) da escola de Alquindi foram comentados, foram novamente editados e foram substancialmente desenvolvidos pelos intelectuais islâmicos, que também evoluíram a partir de sistemas matemáticos, astronômicos, de álgebra, trigonometria e medicina hindus e persas. A dinastia Samânida, na parte oriental da Pérsia, chamada de Coração e na Ásia Central e também a dinastia buída na parte ocidental da Pérsia e do Iraque estimularam uma atmosfera propícia para o desenvolvimento cultural e acadêmico. Sob os samânidas, Bucara rivalizava com Bagdá como a capital cultural do mundo islâmico. O estudo do Corão e do hádice floresceu neste ambiente. A filosofia (Fiqh) e a teologia (calam) também se desenvolveram pelas mãos de Avicena e seus adversários. Arrazi e Alfarábi providenciaram a metodologia e o conhecimento necessário sobre medicina e filosofia. Avicena teve acesso às grandes bibliotecas de Bactro, Corásmia, Gurgã, Rei, Ispaã e Hamadã. Vários textos como o ´Ahd with Bahmanyar mostram que ele debateu pontos filosóficos com os grandes acadêmicos de seu tempo. Arruzi Samarcandi descreve como Avicena, antes de deixar Corásmia, conhecera Albiruni, famoso cientista e astrônomo, Abu Nácer Iraqui renomado matemático, Abu Sal Macii respeitado filósofo e Abu Alcair Camar importante médico.

A única fonte de informações para a primeira parte da vida de Avicena é a sua autobiografia, escrita por seu discípulo, Jūzjānī. Ele foi o famoso aluno de Avicena, que conheceu em Gorgan. Ele passou muitos anos com seu mestre em Isfahan, tornando-se seu companheiro de vida. Após a morte de Avicena, ele completou a Autobiografia de Avicena com uma seção conclusiva. O historiador Ibn Abi Usaibia refere que Avicena e sua próxima companheira Abu Ubayd viviam juntos na residência do xeque al-Raiss que é o título dado a Avicena e costumavam passar cada noite estudando um por um o Cânone e as instruções de Shifā. Como dizíamos, na falta de outras, é impossível ter certeza do quanto dela é verdadeiro. Foi observado que ele utiliza sua autobiografia para avançar a sua teoria do conhecimento de que é impossível para um indivíduo adquirir informações e compreender a ciência filosófica aristotélica sem ser um mestre e já se questionou se a cronologia dos eventos descrita não está ajustada para se conformar de forma mais perfeita ao modelo aristotélico. Em outras palavras, se Avicena descreveu a si estudando na “ordem correta”. Porém, dada a ausência de quaisquer outras evidências, o relato deve ser tomado pelo literalmente. Avicena teria nascido por volta de 980 d.C. perto de Bucara, atualmente no Uzbequistão, a capital dos Samânidas, uma dinastia persa na Ásia Central e no Grande Coração). Sua mãe, Setaré, era também de Bucara, e seu pai, Abedalá, seria um respeitado acadêmico ismailita de Balque, uma importante cidade do Império Samânida, no que é a Província de Balque, no Afeganistão.

Seu pai foi, na época do nascimento de seu filho, o zelador das propriedades do samânida Nuh ibn Mansur. Ele educou seu filho cuidadosamente em Bucara e diz que não havia mais nada que ele não tivesse aprendido já aos dezoito anos. De acordo com a sua autobiografia, Avicena já tinha memorizado todo o Corão aos dez anos. Ele aprendeu aritmética indiana de um verdureiro indiano e começou a aprender mais de um sábio errante que ganhava a vida curando os doentes e ensinando os jovens. Ele também estudou a Fiqh sob o acadêmico hanafi Ismail al-Zahid. Ibn Sīnā escreveu extensivamente sobre a filosofia islâmica primitiva, especialmente nos temas de lógica, ética e metafísica. A maior parte de suas obras foram escritos em árabe, que era a linguagem científica “de facto’’ na história no Oriente Médio, e algumas em persa. Na Idade de ouro islâmica de sucesso de Avicena em reconciliar o neoplatonismo e o aristotelismo com o calam, o “avicenismo” se tornou a principal escola de filosofia islâmica no século XII, com Avicena assumindo um papel de autoridade maior no assunto. O “avicenismo” também teve influência na Europa medieval, particularmente as suas doutrinas sobre a alma e a distinção entre existência-essência, principalmente por causa dos debates e tentativas de censura que elas provocaram na Europa escolástica. Essa situação foi particularmente visível em Paris, onde o “avicenismo” foi proscrito em 1210. Mesmo assim, a sua psicologia e a sua teoria do conhecimento influenciaram Guilherme de Auvérnia e Alberto Magno, enquanto que a sua metafísica teve impacto no pensamento de Tomás de Aquino.

Bibliografia Geral Consultada.

BECKER, Howard, Los Extraños. Buenos Aires: Editorial Tiempo Contemporâneo, 1971; GOFFMAN, Erving, Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975; GUERRA, Francisco, História de la Medicina. Madrid: Ediciones Norma, 1982; THOMPSON, Edward Palmer, A Formação da Classe Operária Inglesa. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1987; COSTA, Jurandir Freire, A Inocência e o Vício: Estudos Sobre o Homoerotismo. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editor Relume-Dumará, 1992; SIMMEL, Georg, Filosofia do Amor. Rio de Janeiro: Editora Martins Fontes, 1993;  AMMAR, Sleim, ‎Ibn Sina Avicenne, la Vie & l`Oeuvre. Paris: Editeur L`Or du Temps, Coll. Quartz, 1992; MORIN, Edgar, A Cabeça Bem Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2000; DIAS, José Pedro Sousa, A Farmácia e a História - Uma introdução à História da Farmácia, da Farmacologia e da Terapêutica. Faculdade de Farmácia. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2005; GAZZANIGA, Michael, Neurociência Cognitiva: A Biologia da Mente.  2ª edição. Porto Alegre: Artmed Editora, 2006; ROCHA FILHO, João Bernardes, Física e Psicologia. As Fronteiras do Conhecimento Científico Aproximando a Física e a Psicologia Junguiana. Porto Alegre: Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2007; BEAR, Mark; CONNORS, Barry; PARADISO, Michael, Neurociências: Desvendando o Sistema Nervoso. 3ª edição. Porto Alegre: Artmed Editora, 2008; MATEUS, Samuel, “O Indivíduo Pensado como Forma de Individuação”. In: Estudos em Comunicação, nº10, 2011, pp. 91-103; FRANÇA, Aniela Improta, “Teoria Fonológica, Arquitetura e Variação de Gramática: Apresentação”. In: Revista Linguística. Volume 7, n° 2, dezembro, 2011; KANDEL, Eric, Princípios de Neurociências. Estados Unidos, 2013; PENNA, Eloisa, Epistemologia e Método na Obra de C G Jung. São. Paulo: Editora da PUC/SP, 2013; MARTUCCELLI, Danilo, La Condition Sociale Moderne. L`Avenir d`une Inquiétude. Paris: Éditeur Gallimard, 2017; McGraw-Hill TALLIS, Frank, Românticos Incuráveis. Quando o Amor é uma Armadilha. 1ª edição. ‏São Paulo: Faro Editorial, 2019; ZICCARDI, Victoria Vera, “Tratamento de silêncio: o tipo de abuso psicológico que pode levar a problemas de saúde”. In:  https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/03/22/; entre outros.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Corrida Selvagem – Resgate de Mustangs & Estigma de Presidiários.

 “It`s their stubborn ability no survive that makes them so remarkable”. Velma Bronn Johnston (1912-1977)

         Os gregos criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procura evidenciar alguma coisa de extraordinário, ou mau, sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor, uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada; especialmente em lugares públicos. Historicamente na chamada Era cristã, dois níveis de metáfora foram acrescentados ao termo: o primeiro deles referia-se a sinais corporais de graça divina que tomavam a forma de “flores em erupção” sobre a pele; o segundo, uma alusão médica a essa ilusão religiosa, referindo-se a sinais corporais de distúrbio físico. Segundo E. Goffman, no ensaio: Estigma - Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada (2014) é amplamente usado de maneira semelhante ao sentido original, embora indicando à própria desgraça do que à sua evidência corporal. Os estudiosos, não se esforçaram para descrever as precondições estruturais do estigma, ou mesmo para fornecer uma definição do próprio conceito. O termo é em referência a um atributo depreciativo. É preciso uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza pode confirmar a normalidade do Outro, sem ser per se horroroso nem desonroso.  

         O termo estigma e seus sinônimos ocultam uma dupla perspectiva de âmbito social. Assume o estigmatizado que a sua característica distintiva já é conhecida ou é imediatamente evidente ou então que ela não é nem conhecida pelos presentes e nem imediatamente perceptível por eles? No primeiro caso, conceitualmente, está-se lidando com a condição real de desacreditado, no segundo com a condição em tese do desacreditável. Esta é uma diferença importante, socialmente, mesmo que um indivíduo estigmatizado em particular tenha, provavelmente, experimentado ambas as situações. Todavia, para Goffman, podem-se mencionar três tipos de estigmas nitidamente diferentes. Em primeiro lugar, há as abominações do corpo – as várias deformidades físicas. Em segundo, as culpas de caráter individual, percebidas como “vontade fraca”, “paixões tirânicas”, ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade, sendo essas inferidas a partir de relatos etnográficos conhecidos de, por exemplo, distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismohomoerotismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político-afetivo radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, etnia, minorias, nação e ceticismo de re(li)gião, que podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família.

          Em todos esses exemplos de estigma, inclusive aqueles que os gregos tinham em mente, encontram-se as mesmas características sociológicas: um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social quotidiana possui um traço que se pode impor a atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma característica diferente da que havíamos visto. Nós e os que não se afastam negativamente das expectativas particulares em questão serão chamados de normais pelo sociólogo norte-americano Erving Goffman. Ipso facto, ele afirma: - as atitudes que nós, aparentes normais, temos com uma pessoa com um estigma, e os atos que empreendemos em relação a ela são bem conhecidos na medida em que são as respostas que a ação social benevolente tenta suavizar e melhorar. Por definição é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como a de classe social. Utilizamos termos específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora de poder e representação social, de maneira característica, sem pensar no terror de seu sentido e significado original.  

                                              

         Na América atualmente, afirma, Goffman, entretanto, os sistemas de honra separados parecem estar decadentes. O indivíduo estigmatizado tende a ter as mesmas crenças sobre identidade que nós temos; isso é um fato central. Seus sentimentos mais profundos sobre o que ele é podem confundir a sua sensação de ser uma “pessoa normal”, um ser humano como qualquer outro, uma criatura, portanto, que merece um destino agradável e uma oportunidade legítima. A característica central da situação de vida, do indivíduo estigmatizado pode, agora, ser explicada. É uma questão do que é com frequência, embora vagamente, chamado de “aceitação”. Aqueles que têm relações com ele não conseguem lhe dar o respeito e a consideração que os aspectos não contaminados de sua identidade social os haviam levado a prever e que ele havia previsto receber; ele fez ecoar essa negativa descobrindo que alguns de seus atributos a garantem. Como a pessoa estigmatizada responde a tal situação? Em alguns casos lhe seria possível tentar corrigir diretamente o que considera a base objetiva de seu defeito, tal quando uma pessoa fisicamente deformada se submete a uma cirurgia plástica, uma pessoa cega a um tratamento ocular, um analfabeto corrige sua educação e um homossexual faz psicoterapia. Aqui, deve-se mencionar a predisposição à “vitimização” como um resultado da exposição da pessoa estigmatizada a servidores que vendem meios para corrigir a fala, para clarear a cor da pele, para esticar o corpo, para restaurar a juventude, curas pela fé e meios para obter fluência na conversação. Quer se trate de uma técnica metodológica, falando, prática ou de fraude, a pesquisa frequentemente secreta, dela resultante, revela, de maneira específicamente quando, “os extremos a que os estigmatizados estão dispostos a chegar e a situação que os leva a tais extremos”.   

          Na década de 1950, surgiu uma árdua defensora dos cavalos selvagens. Ativista do bem-estar animal, Velma Bronn Johnston (1912-1977) liderou uma campanha para impedir a erradicação de mustangs e burros selvagens de terras públicas nos Estados Unidos da América. Reconhecida como Wild Horse Annie, foi fundamental na aprovação de legislação para impedir o uso de aeronaves e veículos terrestres na captura desumana dessas espécies. Entre outros projetos, ela lançou a “Guerra do Lápis”, em que convidou outras pessoas, incluindo muitas crianças em idade escolar, a se juntar a ela para escrever cartas ao Congresso norte-americano. Queria mudanças sociais e não iria desistir. Até que foi aprovado um projeto de Lei Pública proibindo o uso de veículos motorizados para caçar cavalos selvagens foi aprovado em 1959. Lutou mais até que o Congresso aprovou a “Lei de Cavalos e Burros Selvagens Livres”, Lei Pública 92-195 em 1971.  E tudo porque viu transporte suspeito de cavalos. Mudou seu caminho e o seguiu ao matadouro. Assim, Velma buscou a origem desses cavalos e descobriu que foram capturados em terras privadas e estaduais em Nevada. A ativista tomou medidas para garantir um tratamento humano aos cavalos selvagens quando capturados e transportados. Criada em um rancho, deixou um importante legado. A nobreza de sua causa apareceu nos veículos de comunicação mais importantes, incluindo a presença em Running Wild, um filme western, como na análise.    

Velma Johnston não era de forma alguma uma criança comum. Sua jovem vida  foi repleta de inúmeras coisas diferentes. Velma era a mais velha de quatro filhos. Seu pai, que foi salvo ainda criança pelo leite de uma égua Mustang enquanto atravessava os desertos em uma carroça coberta, trabalhava como operador de um serviço de frete, usando muitos cavalos e até alguns de herança mustangs. Quando bebê, Velma contraiu poliomielite, que afetou suas pernas e resultou em uma longa internação hospitalar. Mas isso não a impediu. Em verdade acreditamos que isso a ajudou, porque fez com que ela tivesse uma grande paixão pelos animais que ficaram confinados e sofrem como ela antes. Com muito tempo disponível, Velma cuidava constantemente dos animais na fazenda de seus pais. Ela adorava estar no rancho onde não precisava se preocupar em ser julgada. Ela estava na escola, mas foi assediada e ridicularizada pelos colegas, apenas por causa do seu corpo. Mas nem todo mundo a via dessa forma. O vizinho de infância de Velma, Charlie Johnston, era um índio de Delaware 1, 80 m de altura que se tornou seu marido. Ele assumiu o rancho de seu pai. Velma e Charlie transformaram em um rancho para crianças que tinham problemas, principalmente por estarem na cidade.

A faísca que levou Velma a uma vida apaixonada por cuidar de animais foi quando ela estava dirigindo para o trabalho um dia em 1950 e por acaso encontrou um trailer cheio de cavalos selvagens. O trailer estava com muitos cavalos selvagens a caminho do matadouro de rações para animais de estimação. Foi uma cena horrível, pois ela testemunhou um filhote de um ano sendo pisoteado até a morte no fundo do trailer por seus companheiros cavalos. Justo naquele momento, ela percebeu que isso tinha ido longe demais. Velma iria tentar ajudar essas pobres criaturas que estavam sendo laçadas e enviadas por aquele país apenas para serem massacradas. O trabalho de resgate sociológico de Velma começou imediatamente. E o caminho foi através da esfera política quando ela se propôs a fazer discursos públicos e a contatar colegas amantes de cavalos e os próceres fazendeiros. Sua luta afirmativa começou em sua cidade natal, Storey County, em 1952, com uma pequena ajuda de seus ouvintes; ela recebeu o apelido de “Wild Horse Annie”. 

Com seu novo nome, Velma fez maravilhas. Ela trabalhou e lutou tanto que conseguiu um projeto de lei proibindo aeronaves e veículos terrestres de capturar cavalos selvagens em terras do estado. Mas, infelizmente, isso não foi proteção suficiente. As indústrias de alimentos para animais de estimação estavam contornando essa lei, então Velma deu um passo adiante. Ela trabalhou com o povo para obter indignação pública e apoio à primeira lei federal para proteger cavalos selvagens. Foi em 1959, com o apoio do representante dos EUA em Nevada, Walter S. Ressaltando que foi feita uma lei que proíbe o uso de qualquer tipo de veículo motorizado, bem como o envenenamento de poços de água para captura ou abate de cavalos selvagens. No meio de todo esse debate, Velma sofreu uma perda terrível. Seu marido foi repentinamente acometido de enfisema e faleceu. Sofrendo com sua perda, ela ainda continuou. Velma fez apresentações em escolas e reuniões cívicas, e também enviou fichas informativas escritas e ilustradas para as pessoas que a apoiavam. Fazendo isso, recebeu muitas cartas enviadas ao Congresso. E depois de testemunhar no Congresso, realizou seu desejo.

O resultado de todo o seu trabalho árduo foi a Lei do Cavalo e Burro Selvagem e Livre. Isso foi aprovado e transformado em lei em 1971 e deu proteção aos equinos selvagens em BLM e terras florestais (cf. Craig C. Downer). No meio de todo esse debate, Velma sofreu uma perda terrível. Seu marido foi repentinamente acometido de enfisema e faleceu. Sofrendo com sua perda, ela ainda continuou. Velma fez apresentações em escolas e reuniões cívicas, e também enviou fichas informativas escritas e ilustradas para as pessoas que a apoiavam. Só fazendo isso, ela recebeu muitas cartas enviadas ao Congresso. E depois de testemunhar no Congresso, Velma realizou seu desejo. O resultado de todo o seu trabalho árduo foi a Lei do Cavalo e Burro Selvagem e Livre. Isso foi aprovado e transformado em lei em 1971 e deu proteção aos equinos selvagens em BLM e terras florestais. No meio de todo esse debate, Velma sofreu uma perda terrível. Seu marido foi repentinamente acometido de enfisema e faleceu. Sofrendo com sua perda, ela ainda continuou. Velma fez apresentações em escolas e reuniões cívicas, e também enviou fichas informativas escritas e ilustradas para as pessoas que a apoiavam. Só fazendo isso, ela recebeu muitas cartas enviadas ao Congresso. E depois de testemunhar no Congresso dos Estados Unidos da América, Velma realizou seu desejo. O resultado extraordinário de todo o seu trabalho árduo foi a representação Lei do Cavalo e Burro Selvagem e Livre. Isso foi aprovado e transformado em lei em 1971 e deu proteção aos equinos selvagens em BLM e terras florestais.

Running Wild é um drama norte-americano dirigido por Alex Ranarivelo e escrito por Christina Moore e Brian Rudnick. O proprietário de uma fazenda de exploração agrícola, viúvo, trabalha com ex-prisioneiros, ajudando em sua reintegração no campo. Com essa missão, ele atrai para si o preconceito, a ganância, vaidade e a burocracia do sistema que não suporta sua benfeitoria. Além de Moore que também tem participação no filme, é estrelado por Sharon Stone, Tommy Flanagan, Jason Lewis, Dorian Brown, Tom Williamson. O filme Corrida Selvagem foi lançado em 10 de fevereiro de 2017.  A fotografia principalmente começou em 17 de agosto de 2015, em Napa, Califórnia. Na época histórica da primeira exploração registrada do Vale de Napa, em 1823, a maioria dos habitantes consistia de nativos americanos. Padre José Altamira, fundador da Missão San Francisco Solano, em Sonoma, liderou a expedição. Os padres espanhóis “converteram” alguns nativos; o restante foi atacado e disperso por soldados mexicanos. Os primeiros imigrantes americanos começaram a chegar à região na década de 1830. Napa é a cidade e sede do condado e a principal cidade da região vinícola do Norte da Califórnia. Localizada na região de North Bay na Bay Area é um destino turístico na Califórnia, reconhecido por suas vinícolas, restaurantes e cultura artística.  

A palavra napa é derivada do nativo americano e dentre as muitas explicações sobre a origem dos nomes, a mais plausível parece ser que é derivado da palavra Patwin napo, que significa casa. A casa constitui, entre o microcosmo do corpo humano e o cosmo, um microcosmo secundário, um meio-termo cuja configuração iconográfica é, segundo Durand (1997: 243), muito importante no diagnóstico psicológico e psicossocial. Os poetas, os psicanalistas, a tradição católica ou a sabedoria dos dogon fazem coro para reconhecer o simbolismo da casa um duplicado microcosmo do corpo material e do corpo mental. A cas inteira é mais do que um lugar para se viver, é um vivente. A casa redobra, sobredetermina a personalidade daquele que a habita. Honoré de Balzac sabe-o bem ao começar os seus romances pela descrição minuciosa da casa Grandet, da do Chat qui pelote ou da pensão Vauquer. A atmosfera psicológica só em segundo lugar é determinada pelos odores do jardim, os horizontes visíveis da paisagem. São os cheiros da casa que constituem a cenestesia da intimidade: vapores da cozinha, perfumes de alcova, bafios de corredores, perfumes de benjoim ou de erva patchouli dos armários maternos. A casa como conceito histórico e pontual representa a imagem da intimidade repousante, quer seja templo, palácio, ou cabana de trabalhador.     

Um dos últimos padres franciscanos enviados da Espanha no início do século XIX para servir nas missões fundadas pela ordem na Alta Califórnia. Fundador em 1823 de São Francisco Solano, última missão do mítico Caminho Real. Não há testemunhos sobre o que lhe aconteceu depois do incêndio que devastou esta missão anos depois e até ao seu regresso à Espanha, mas a Misión Olvido sente que talvez ainda tivesse a ambição e a tenacidade necessárias para fundar uma nova missão que nunca seria oficialmente documentada. Nathan Coombs (1826-1877) foi um pioneiro da Califórnia e político democrata que serviu na Assembleia do Estado da Califórnia e é mais conhecido por fundar a cidade de Napa, Califórnia em 1847. O general Mariano Guadalupe Vallejo pagou para pesquisar um município rio abaixo em Soscol Landing, onde os barcos fluviais podiam voltar antes da fundação de Napa. A cidade de Napa foi pesquisado em propriedades que Coombs recebeu de Nicolas Higuera, detentor original do Rancho Entre Napa, uma concessão de terras mexicana. O primeiro registro de navegação no rio foi o Susana em 1842, embora em 1850 o Dolphin tenha se tornado o primeiro navio a vapor a navegar no rio Napa para abrir outro caminho de comércio.

A Corrida do Ouro na Califórnia no final da década de 1850 expandiu a cidade de Napa. Uma cidade de tendas foi erguida na rua principal. Muitas fazendas de gado foram mantidas e a indústria madeireira se expandiu. Serrarias no vale estavam em operação cortando madeira transportada pela equipe até Napa e embarcada pelo rio para Benicia e São Francisco. Entre 1846 e 1848, os Estados Unidos estavam em guerra contra o México. Tudo começou um ano antes, em 1845, quando os estadunidenses anexaram o Texas, território que tinha declarado independência do México na década anterior, mas que não era reconhecido pelo governo mexicano. Depois de 2 anos de batalhas, os Estados Unidos da América incorporaram grande parte do território da ex-colônia espanhola, incluindo os atuais estados da Califórnia, Nevada, Arizona, Novo México, Utah e Colorado. A guerra contra o México representou a última grande expansão territorial dos Estados Unidos. Mas o país estava cada vez mais dividido. No Norte, movimentos abolicionistas, apoiados pela elite industrial queriam o fim da escravidão. No Sul os fazendeiros escravocratas queriam manter a expansão territorial de tudo como estava. Com a adição dos novos territórios, as tensões entre o Norte e o Sul se acentuaram. Enquanto os abolicionistas queriam que a nova região adotasse a mão de obra livre, os escravocratas queriam expandir a fronteira das plantations, os latifúndios baseados na mão de obra escravizada.

No segundo Tratado de Paris, o qual marcou o fim da Revolução Americana de 1776, os britânicos cederam a Flórida Oeste de volta à Espanha para receberem as Bahamas, que a Espanha tinha ocupado durante a guerra. A Espanha então tinha o controle sobre o rio ao sul da latitude 32°30` Norte, e, no que ficou reconhecido como a Conspiração Espanhola, pretendia ganhar maior controle da Louisiana e de tudo a oeste. Estas pretensões terminaram quando a Espanha foi pressionada a assinar o Tratado de Pinckney em 1795. A França readquiriu a Louisiana da Espanha em segredo no Tratado de San Ildefonso em 1800. Os Estados Unidos compraram o território da França na Compra da Louisiana em 1803. O Mississippi era conhecido pelos bandidos, pelos insulares como moradores das margens, incluindo John Murrell, que era um assassino, ladrão de cavalos e “revendedor” de escravo. Em 1860, Abraham Lincoln (1809-1865), um senador do Norte, foi eleito presidente da República. Essa foi a gota d’água que levou os estados do Sul declararem Independência e guerra contra o Norte.

Historicamente primeiro barco a vapor a viajar o trecho completo do rio Ohio até a cidade de Nova Orleães foi o New Orleans em dezembro de 1811. Esta louca viagem ocorreu durante uma série de Terremotos New Madrid de 1811 a 1812. Em 1815, os EUA obtiveram o controle sobre o Mississippi após uma decisiva vitória sobre os britânicos na Batalha de New Orleans, parte da Guerra de 1812. O rio foi também uma parte decisiva da Guerra Civil Americana. A Campanha de Vicksburg da União buscava o controle do baixo Mississippi. A vitória da União na Batalha de Vicksburg, em 1863, foi o ponto de viragem para a vitória final da União na Guerra Civil. A legislação, sancionada em 1862, em meio à Guerra Civil, tinha dois objetivos. - “Existiam duas perguntas: a primeira de como a terra deveria ser distribuída, de forma que fosse mais igualitária, e também como a distribuição poderia prevenir a escravidão”, explica Richard Edwards, economista da Universidade de Nebraska e especialista na história da reforma agrária estadunidense. Em meados da década de 1850, a rua principal de Napa rivalizava com muitas cidades maiores, “com cerca de 100 cavalos de sela amarrados às cercas numa tarde média”. Em 1858, a grande corrida da prata começou em Napa Valley, e os mineiros migraram para as colinas orientais. Na década de 1860, a mineração em grande escala, contava com minas de mercúrio operando em muitas áreas do condado. 

O cavalo selvagem, descendente dos cavalos trazidos da Espanha pelos colonizadores para a América do Norte, é um símbolo do Oeste dos Estados Unidos, mas sua proliferação sob o amparo de leis de proteção se tornou um problema de espaço vital no país. O Birô de Gestão de Terras (BLM), uma dependência do Departamento do Interior, tem a seu cargo 33.780 cavalos e 6.825 burros selvagens que trotam, galopam, pastam e se reproduzem livremente em cerca 12 milhões de hectares de terras federais. Os equinos não têm predadores naturais e as manadas podem dobrar de tamanho em apenas quatro anos, e por isso o BLM precisa prender todo ano milhares de animais para controlar a população nas terras federais, que englobam dez estados do Oeste dos Estados Unidos. Para tentar driblar a superpopulação, criou um programa de adoção que possibilitou cerca 2.671 animais sob cuidado de indivíduos privados, mas o número é pequeno comparado à adoção de mais de 5 mil cavalos por ano em meados da década passada. Em 1971, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei para atender o problema do abate para consumo de carne e o envenenamento de cavalos selvagens, considerados uma praga pelos criadores de gado. Mas, quatro décadas e meia depois, a proteção dos animais da raça mustangue, elogiada pelos defensores da diversidade biológica e do meio ambiente, se tornou um problema complexo. Para tentar driblar, em certo sentido, é claro que a tópica da superpopulação equina criou um fabuloso Programa de Adoção com 2.671 animais sob cuidado privado, mas é pequeno comparado à adoção de 5 mil cavalos por ano em meados da década passada.

A mais notável foi a Mina Silverado, geograficamente perto do cume do Monte Santa Helena. Nessa época, a primeira leva de trabalhadores rurais estrangeiros das aldeias costeiras da província chinesa de Cantão, é real e chegou à Califórnia e às minas do condado de Napa. Um assentamento para trabalhadores chineses foi estabelecido no início da década de 1860. Entre 1861-1865, a Confederação (o Sul) e a União (o Norte) travaram uma guerra que transformou a história do país. Foi nesse contexto que o presidente Lincoln aprovou a lei reconhecida como Homestead Act. O livro de Twain também cobriu extensivamente arrojadas corridas de barco a vapor que tiveram lugar entre 1830 a 1870 no rio, antes que meios mais modernos de navegação substituíssem os vapores. Isto foi publicado primeiro na forma de periódico por Harper`s Weekly em sete partes em 1875 e tinha a intenção de registrar a rápida dispersão da cultura do barco a vapor. A versão completa, incluída uma passagem incompleta de Huckle Berry Finn e trabalhos de outros autores, foi publicada por James R. Osgood & Company em 1885. Em 1869, F A Sawyer fundou a Sawyer Tanning Company em Napa e seu pai, B F Sawyer, juntou-se ao negócio comercial um ano depois. Tornou-se o maior curtume a Oeste do rio Mississippi. John Patchett abriu a primeira vinícola comercial do condado em 1859. O Napa Valley Register, fundado por J I Horrell e L. Hoxie Strong, estreou em 10 de agosto de 1863, com publicações semanais até se tornar um jornal de consumo diário em 1872.

O mundialmente famoso couro Nappa, ou couro Napa, foi inventado por Emanuel Manasse (1842-1899) em Napa em 1875, enquanto trabalhava na Sawyer Tanning Company. Em 1871, Emanuel e Amelia Manasse (1841-1921) vieram para Napa City, Califórnia. Emanuel começou a trabalhar como superintendente da Sawyer Tanning Co. Curtidor talentoso, desenvolveu o processo técnico de impermeabilização Nap-A-Tan. Ele também é responsável pelo desenvolvimento do couro envernizado e pela criação do couro Napa, um couro “extremamente macio usado em luvas”. Historicamente Napa foi constituída em 23 de março de 1872 e reincorporada em 1874 definitivamente como a cidade de Napa. No seu apogeu, entre a década de 1880 e o início de 1900, a população chinesa cresceu demograficamente para uma população extraordinária de mais de 300 pessoas. O Napa State Hospital recebeu seus primeiros pacientes inicialmente em 1876. Cantão está no coração da área metropolitana mais populosa da China continental, uma área mais política e econômicamente do que geográfica, geralmente inclui todos os territórios administrados por Pequim, como a ilha de Hainan, mas que se estende às reconhecidas cidades Foshan, Dongguan, Zhongshan e Shenzhen, formando uma das maiores aglomerações étnicas urbanas do planeta Terra.

A cidade possui estatuto subprovincial e está entre as nove cidades centrais nacionais da giant China. A população migrante de outras províncias da China representou 40% da população total da cidade em 2008. Juntamente com Xangai, Pequim e Shenzhen, Cantão possui um dos mercados imobiliários mais caros da China. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, pessoas da África Subsaariana que inicialmente se estabeleceram no Oriente Médio e em outras partes do sudeste da Ásia, mudaram-se em número sem precedentes para Cantão em resposta à crise financeira asiática de 1997/1998. Por muito tempo o único porto chinês acessível à maioria dos comerciantes estrangeiros, a cidade caiu para os britânicos durante a Primeira Guerra do Ópio, analisada por Marx, em seus robustos livros que compõem a obra final intitulada: O Capital - Contribuição à Crítica da Economia Política. Não tendo mais o monopólio após a guerra, perdeu o comércio para outros portos, como nas populosas Hong Kong e Xangai, mas continuou a servir como um grande entreposto. No comércio moderno, Cantão é mais reconhecida com a origem e o significado da sua Feira Anual, a maior e mais antiga da civilização erigia pela China. Por três anos consecutivos (2013–2015), a revista Forbes a classificou como a melhor cidade comercial da China continental.

Forbes é uma revista estadunidense do mercado de negócios e economia de cunho informativo, jornalístico ou de entretenimento, evento ou atividade, com o fim de envolver e suscitar o interesse de uma determinada audiência. É a presença de uma audiência que torna possível qualquer atividade privada de recreação ou lazer em entretenimento. A audiência pode ter um papel passivo, como quando se assiste a uma peça teatral, ópera, programa de televisão ou filme; ou um papel ativo, como no caso dos jogos, mas geralmente voltada para o público seletivo e consumidor em geral. Propriedade de Forbes, Inc. e de publicação quinzenal, a revista apresenta artigos e reportagens originais sobre a tópica das finanças, indústria, investimento e marketing. Apesar de não ser seu escopo principal, per se publica as matérias relacionadas à tecnologia, comunicações, ciência e direito. Também é reconhecida por suas listas, principalmente nas quais estabelece e organiza um ranking das pessoas mais ricas dos Estados Unidos da América reconhecida como Forbes 400 e, do mundo globalizado, além de outras, last but not least, como das celebridades mais bem-pagas e das mulheres mais poderosas. Com sede na cidade de Nova Iorque foi fundada em 1917 pelo jornalista escocês B. C. Forbes (1880-1954). Bertie Charles Forbes foi um jornalista financeiro e autor de origem escocesa, que fundou a conhecida revista americana Forbes em 1917. Suas principais concorrentes da categoria de negócios e economia são respectivamente a Fortune e a Business Week. Sua frase de efeito merceológico e marco original em torno da formação de uma plutocracia norte-americana é The Capitalist Tool (“A ferramenta capitalista”). 

No final de 2018, a população da ampla área administrativa da cidade era estimada em 14 904 400 pelas autoridades da cidade, um aumento de 3,8% em relação ao ano anterior. Cantão é classificada como uma cidade global Alpha e há um número crescente de residentes temporários estrangeiros e imigrantes do Sudeste Asiático, do Oriente Médio, da Europa Oriental e da África. Isso levou a ser apelidada de “Capital do Terceiro Mundo”. Emanuel Manasse casou-se com Amelia Hellwig antes de vir para a Califórnia. Juntos eles tiveram seis filhos. Em 1886, Manasse construiu uma magnífica mansão de 12.000 pés quadrados para sua esposa e filhos, localizada na 443 Brown Street. A casa foi projetada pelo famoso arquiteto de Napa WH Corlett (1856-1937). O Napa Valley Opera House tornou-se popular após sua estreia em 13 de fevereiro de 1880, com uma produção de HMS Pinafore de Gilbert e Sullivan, mas depois definhou e até ser fechado por muitos anos. Emanuel Manasse tornou-se sócio da Sawyer Tanning Company em 1880. Emanuel Manesse morreu em 1899. Na década de 1940, a casa foi subdividida em 6 apartamentos. Após a sua morte, Amélia Manasse dividiu a grande casa construindo um muro no centro e acrescentando uma segunda escada, convertendo assim a casa num ambiente duplex. Foi restabelecido progressivamente na década de 1980. Historicamente empresa funcionou por 120 anos, mas fechando suas portas em 1990. Todavia nesta década, a família Morris comprou a estrutura e a converteu em Bed & Breakfast. Atualmente é o representante da White House Inn and Spa. A cidade alfa seria a que possui o maior índice e conectividade internacional. Londres, Nova York e Tóquio são consideradas cidades-alfa.

Bibliografia geral consultada.

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terça-feira, 30 de março de 2021

Alan Parker: Castigo-Espetáculo & Crítica Política Cinematográfica.

 

Ubiracy de Souza Braga

O executor não é simplesmente aquele que aplica lei, mas o que exibe a força”. Michel Foucault

 

           Filho de uma costureira e de um pintor, o cineasta e escritor Alan William Parker nasceu em 14 de fevereiro de 1944 em Londres. O jovem inglês Alan na década de 1960 tinha convicção do que desejava na vida: fazer cinema. Mas em sua démarche teve também uma destacada atuação na política cinematográfica, tendo comandado o Instituto de Cinema britânico, uma entidade filantrópica, estabelecida pela Carta Régia para incentivar o desenvolvimento das artes cinematográficas, a televisão e a imagem em movimento em todo o Reino Unido e o Conselho de Cinema do Reino Unido, considerado uma empresa de direito privado, mas uma corporação de delegação governamental para estimular a cultura britânica e a competitividade da indústria cinematográfica. Em 2002, ele foi nomeado cavaleiro pela coroa, passando a ser denominado Sir Alan Parker, que é o tratamento destinado aos cavaleiros da Ordem do Império Britânico. Na história medieval, este era o título associado “aos cavaleiros servindo à nobreza”. O Sir é integrante dos Cavaleiros Comandantes da Mui Excelente Ordem do Império Britânico ou Cavaleiro Celibatário. Copiado do antigo Protocolo Nobiliário Francês do século XVII, deve-se usar Senhor (Sir) precedendo o nome completo ou somente o primeiro nome da pessoa a quem é atribuído. Aquele que não for cidadão do Reino Unido.  

           Mas que recebe o título, não pode usá-lo, ficando como Cavaleiro Honorário, por exemplo o sociólogo Gilberto Freyre que recebeu também o título de Sir Cavaleiro do Império Britânico, pela Rainha Elizabeth II da Inglaterra e de quinze outros Estados independentes conhecidos como Reinos da Comunidade de Nações além de chefe da Commonwealth formada por 53 Estados; recebeu o Prêmio Internacional La Madoninna e o Prêmio Aspen pelo que há de original em sua etnografia, excepcional no domínio da cultura e de valor permanente através da análise de conjunto em sua obra. Depois de dirigir vários roteiros cinematográficos, curtas-metragens e um filme para a televisão, veio o sucesso consolidado com The Midnight Express (1978). Em 1970, o estudante Billy Hayes viaja à Turquia e no retorno aos Estados Unidos da América (EUA) é preso no aeroporto de Istambul portando haxixe. Torturado e submetido a interrogatórios cruéis, é condenado a 30 anos de prisão, e sua única chance de viver é pegar o “expresso da meia-noite”, uma metáfora sobre o ato de fugir do sistema carcerário punitivo. Durante o período que ficou detido, fez amizade com alguns presos e em especial com Max, um viciado em drogas que está preso. Billy após muito sofrimento com as brutalidades na prisão, espancamentos, passar fome e estar desiludido com a justiça turca, resolve em determinado momento empreitar sua fuga, para manter sua lucidez e um pouco de esperança. 

É com Max que Billy fica sabendo de um grande segredo, como fugir do inferno em que se encontra, porém Max que arquitetou o plano de fuga, não poderia ir junto, pois sua saúde está muito debilitada pelo cárcere e o uso excessivo de drogas. Então, em uma noite escura, onde uma grande tempestade estava reinando, que Billy, com a ajuda de alguns amigos e sua obstinação em ter sua vida de volta, iniciou sua ousada e desesperada fuga em busca da liberdade. É um filme britânico-norte-americano, do gênero drama biográfico (cf. Hayes; Colabo, 1977), realizado por Alan Parker, com roteiro de Oliver Stone baseado no livro Midnight Express, de William Hayes (com William Hoffer). Embora tenha como escopo uma história real, o filme omitiu a questão do homoerotismo (cf. Costa, 1992) do protagonista. Sofreu acusações de preconceito contra os turcos, cujas prisões são um exemplo notável de “lugar execrável”. O livro descreve a degradação humana no quadro prisional quando se é exposto em condições sub-humanas de violência física e mental. Existe também uma abordagem crítica entre a conduta, crime praticado e de fato a pena aplicada, mas não para nesse aspecto, pois na década de 1970, existe um contexto político, tendo em vista as relações entre os Estados Unidos da América e Turquia, que por ser um elemento importante, serviu como influência para as decisões que foram tomadas por Billy, sua família e advogados. O cinema é um artefato criado por determinadas culturas que no processo de trabalho e de comunicação se influenciam mutuamente.

                            

Um exemplo típico, ocorre com o Ethnologue (2005) contendo estatísticas de mais de seis mil línguas e fornece dados numéricos de falantes, localização geográfica, dialetos, genética, disponibilidade da Bíblia etc. Constitui um dos mais amplos inventários de idiomas existente, junto com o notável Registro Linguasphere. Mas é a imagem animada que amplifica os filmes reproduzindo o poder simbólico de comunicação universal. A primeira premiação do Óscar ocorreu no dia 16 de maio de 1929, durante um jantar festivo para 250 pessoas no salão de festas do Roosevelt Hotel, em Los Angeles, Califórnia. A sala de cinema é analogamente como um “cubo fechado”. Dizia Le Corbusier em sua obra “Por uma arquitetura” que o cubo é uma das formas primárias que se revela à perfeição diante da luz. Reconhecido por ter sido o criador da Unité d`Habitation, conceito sobre o qual começou a trabalhar na década de 1920. E em suas próprias palavras, era talvez o mais belo já que não aceitava ambiguidade. O cubo é um “espaço interior” cujo simbolismo e sentido metafórico são reforçados ao ser um habitáculo minimalista, repetitivo e insensível. São os protagonistas os que têm que preencher esses “vazios” com suas próprias ideias e personalidades. Apesar de ser metafórico, possui expressão física. Sua forma estética, material e composição correspondem à arquitetura moderna e contemporânea. Massificado e repetitivo resulta agressivo para o ser humano que o habita. Portanto, na realidade expressa contradição presente em habitações apertadas e carentes de sentido estético e humanista destes dias. Poltronas desconfortáveis, sem espaço suficiente para locomoção, ausência de sinalização para distinguir degraus e saída, falta de barra de segurança ao longo da escada, difícil acesso para chegar e sair das salas de cinema em geral no Brasil.

Quando em 1978, estreou o filme: O Expresso da Meia-Noite, Alan Parker, se transformou numa das sensações daquele ano. Baseado no livro do norte-americano Billy Hayes (1977), o filme narrava a aparente “história verdadeira” do calvário numa prisão turca, por ter sido apanhado no aeroporto de Istambul com dois kg de haxixe. Condenado a 30 anos de cadeia, Hayes foi metido num cárcere onde o sadismo dos guardas e as violações eram o “pão nosso de cada dia”, tendo depois conseguido evadir-se ao fim de cinco anos e fugir para a Grécia. Parker rodou o filme em Malta, após as autoridades turcas terem recusado receber a produção, por razões óbvias. Atacado de imediato por dar uma imagem negativa e chocante da Turquia, cujo governo se apressou a desmentir os fatos nele narrados, O Expresso da Meia-Noite foi sucesso de bilheteira e ganhou dois Óscar, um deles para o argumento de Oliver Stone. É fato que muita gente chamou a atenção para as liberdades excessivas tomadas pelo filme comparativamente em relação ao livro, nomeadamente nas cenas de violência física e sexual inexistentes naquele tempo, bem como para a deturpação do final. No filme, Hayes mata acidentalmente o chefe dos guardas que iria violá-lo sexualmente, veste a farda dele e foge pelo portão principal. Hayes foi transferido para outra cadeia, de onde conseguiu escapar. Convidado pela polícia turca para conferência sobre segurança em Istambul, Hayes, argumentista e produtor, pediu desculpa aos turcos pelos problemas que o filme lhes causou, frisando que “muitas das coisas vistas nele não aconteceram na realidade”.

Entre elas está a famosa cena onde Brad Davis, que interpreta Hayes, arranca à dentada a língua de outro preso, informante dos guardas. Reforçando as suas afirmações à imprensa norte-americana em 2004, quando lamentou que o filme demonstrasse “todos os turcos como monstros”, e que a mensagem deste devia ter sido “não sejam idiotas como eu fui e não façam contrabando de droga, em vez de 'não vão à Turquia'”, Hayes disse: - “Sobretudo, não é justo que em todo o filme não haja um turco bom, pois até na cadeia onde estive preso os encontrei”. O filme expressa o paradigma em que o sistema prisional em Istambul não sanciona os mesmos crimes, não pune o mesmo gênero de delinquentes. Mas define-se bem em relação aos norte-americanos, um certo estilo penal. A punição vai-se tornando, pois, a parte mais velada do processo penal, provocando várias consequências: deixa o campo da percepção quase diária e entra no fluxo da consciência abstrata; sua eficácia é atribuída à sua fatalidade, não à sua intensidade visível; a certeza de ser punido é que deve desviar o homem do crime e não mais o abominável castigo-espetáculo; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte de violência que está ligada a seu exercício. As caracterizações da infâmia são redistribuídas: no castigo-espetáculo um horror confuso nascia do patíbulo; ele envolvia ao mesmo tempo o carrasco e o condenado: e, se por um lado, estava a ponto de transformar em piedade ou em glória a vergonha infligida ao supliciado, por outro, ele fazia redundar geralmente em infâmia a violência legal do executor. Desde então, o escândalo e a luz serão partilhados de outra forma: é a própria condenação que marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto á execução, ela é uma vergonha suplementar que a justiça tem vergonha de impor ao condenado; ela guarda distância, tendendo sempre a confiá-la a outros e sob a marca do sigilo. É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir. Desse duplo sistema de proteção a justiça estabeleceu entre ela e o castigo que ela propriamente dita impõe.

            A execução da pena vai se tornando um setor autônomo, em que um mecanismo ideológico do sistema administrativo desonera a justiça, que se livra desse secreto mal-estar por um enterramento burocrático da pena. Existe na justiça moderna e entre aqueles que a distribuem uma vergonha de punir, que nem sempre exclui o zelo; ela aumenta constantemente: sobre esta chaga pululam os psicólogos e o pequeno funcionário da ortopedia moral.   Na forma  lembrada explicitamente do açougue, a destruição infinitesimal do corpo equivale a um espetáculo: cada pedaço é exposto no balcão. Para Foucault (2014) o suplício se realiza num grandioso cerimonial de triunfo: mas comporta também, como núcleo dramático em seu desenrolar monótono, uma cena de confronto de inimigos: é a ação imediatas e direta do carrasco sobre o corpo do “paciente”. Ação codificada, é claro, pois o costume e muitas vezes de maneira explícita a sentença, prescrevem os principais episódios. Esta ação, no entanto, conserva alguma coisa de batalha. O executor não é simplesmente aquele que aplica a lei, mas o que exibe a força; é o agente de uma violência aplicada à violência do crime, para dominá-la. Desse crime ele é o adversário material e físico. Adversário ora digno de piedade, ora encarniçado. E durante muito tempo esse hábito persistirá. Há também alguma coisa de desafio e de justiça na cerimônia do suplício. Se o carrasco triunfa, se consegue saltar com um golpe que lhe mandaram abater. Mas, ao contrário, se ele fracassa, se não consegue matar como devia, é passível de punição. O soberano está presente à execução, não só como o poder que vinga a lei, mas como o poder que é capaz de suspender tanto a lei quanto a vingança.  Só ele como senhor deve decidir se lava as mãos ou as ofensas que lhe foram feitas; embora tenha conferido aos tribunais o cuidado de exercer seu poder de justiça, ele não o alienou; conserva-o integralmente para suspender a pena ou fazê-la valer. Mas para o que nos interessa, para concordarmos com Michel Foucault (2014: 55), é que assim “deve-se conceber o suplício, tal como é ritualizado ainda no século XVIII, como um agente político. Ele entra logicamente num sistema punitivo, em que o soberano, de maneira direta ou indireta, exige, resolve e manda executar os castigos, na medida em que ele, através da lei, é atingido pelo crime”.   

        A questão tópica do castigo-espetáculo entra como luva no corpo do supliciado, pois faz parte do procedimento que estabelece a realidade do que é punido. Mas não é só: existe uma relação dialética em que a atrocidade de um crime é também a violência do desafio lançado ao soberano: é o que vai provocar da parte dele uma réplica que tem por função ir mais longe que essa atrocidade, dominá-la, vencê-la por um excesso que anula. A atrocidade que paira sobre o suplício desempenha, portanto, um duplo papel: sendo princípio do processo de comunicação do crime com a pena, ela é por outro lado a exasperação do castigo em relação ao crime. Realiza ao mesmo tempo a ostentação da verdade e do poder; é o ritual do inquérito que termina e da cerimonia onde triunfa o soberano. E ela os une no corpo do supliciado. A prática punitiva do século XIX procurará por o máximo de distância possível entre a pesquisa “serena” da verdade e a violência que não se pode eliminar inteiramente da punição. O pavor dos suplícios na realidade acendia focos de ilegalismo: nos dias de execução, o trabalho era interrompido, as tabernas ficavam cheias, lançavam-se injúrias ou pedras ao carrasco, aos policiais e aos soldados; procurava-se apossar do condenado, para salvá-lo ou para melhor mata-lo; brigava-se, e os ladrões não tinham ocasião melhor que o aperto e a curiosidade em torno do cadafalso. Esses inconvenientes se tornavam um perigo político, pois, em nenhuma outra ocasião do que nesses rituais, organizados para mostrar o crime abominável e o poder invencível, o povo se sentia mais próximo dos que sofriam a pena; em nenhuma outra ocasião ele se sentia mais ameaçado, como eles, por uma violência legal sem proporção nem medida.      

No abandono da liturgia dos suplícios, que papel tiveram os sentimentos de humanidade para com os condenados? Houve de todo modo, de parte do poder, um medo político diante do feito desses rituais ambíguos. Tal equívoco aparece claramente no que se poderia chamar “discurso do cadafalso”. O rito da execução previa que o próprio condenado proclamasse sua culpa reconhecendo-a publicamente de viva voz, pelo cartaz que levava e também pelas declarações que sem dúvida era obrigado a fazer. No momento da execução parece que lhe deixavam além disso tomar a palavra, não para clamar sua inocência, mas para atestar seu crime e a justiça de sua condenação.  Se um indivíduo é totalmente desconhecido, os observadores podem obter, a partir de sua conduta e aparência, indicações que lhes permitam utilizar uma experiência anterior, que tenha tido com outros indivíduos aproximadamente parecidos, e aplicar-lhes “estereótipos não comprovados”. A informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação concreta, tornando os outros capazes de reconhecer o que deles se pode esperar. Assim informados, saberão qual a melhor maneira de agir socialmente para dele obter uma resposta desejada e, além disso, para dirigir inteligentemente sua própria atividade. As máscaras, tecnicamente constituem uma ferramenta expressiva padrão. Elas são compostas por uma ambientação, no caso fílmico o cárcere em Istambul, uma aparência social e por modelos de representação. Os modelos se constroem mediante a relação naturalizada entre a ambientação e a aparências, os signos e o status social desempenham um papel decisivo para a interpretação, a justiça precisava que sua vítima autenticasse o ato de suplício que sofria.  

         O símbolo não sendo imediato de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos grandes símbolos da imaginação antropológica em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, para quem tem como ponto de partida da análise os objetos definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas chaves dos sonhos, segundo as estruturas do imaginário individual (sonho) e coletivo (mito, rito, símbolo), cai-se rapidamente, pela massificação artificial das motivações, numa inextricável confusão. Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos imaginários para os devaneios imaginários. Tais são as classificações mais profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso ou da imaginação do sistema prisional. 

     Tanto escolhem como norma geral classificativa uma ordem de motivação cosmológica e astral, na qual são as grandes sequências das estações, dos meteoros e dos astros que servem de indutores à fabulação, tanto são os elementos de uma física primitiva e sumária que, pelas suas qualidades sensoriais, polarizam os campos de força no continuum homogêneo do imaginário; tanto, enfim, se suspeita que são os dados sociológicos do microgrupo ou de grupos que se estendem aos confins do grupo linguístico que fornecem quadros primordiais para os símbolos. Quer a imaginação etnográfica estreitamente motivada seja pela língua, seja pelas funções sociais, se modele sobre essas matrizes sociológicas e antropológicas, quer pelos seus genes raciais no sentido materialista intervenham bastante misteriosamente para estruturar os conjuntos simbólicos, distribuindo sejam as mentalidades imaginárias, sejam os rituais de sacrifício, querem ainda, com uma matriz evolucionista, se tente estabelecer uma hierarquia das grandes formas simbólicas e restaurar a unidade no dualismo de Henri Bergson das Deux Sources, da moral e da religião, quer atravessando a técnica da psicanálise se tente encontrar uma síntese entre as pulsões da libido em evolução e as pressões de recalque do microgrupo familiar. São dimensões de diferentes classificações simbólicas que precisamos criticar antes de estabelecer um método de análise pretensamente firme na ordem das motivações de grupo.

             Ao que parece o ator social, queira ou não, está orientado de acordo com um conjunto de restrições culturais. Podemos citar também um processo social identificado pelo sociólogo norte-americano Erving Goffman (1975; Becker, 1971) de institucionalização das máscaras que seriam “expectativas abstratas e estereotipadas” sobre um papel específico. A máscara se converteria então, em uma “representação coletiva” uma vez que estas são construídas em performances individuais que não são mais do que a forma ou expressão dessas representações coletivas individualizadas e personalizadas com as características de cada indivíduo. Quando, por exemplo, um ator social adentra um grupo social específico, encontra correspondente a ele, a fixação de uma máscara particular da cultura. Goffman chega a sugerir o caráter abstrato e geral das máscaras sociais e as converte em veículos ideais no processo de socialização, pois o que as representações coletivas traduzem é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam. Através das máscaras sociais a atuação é modelada e adaptada a compreensão e as expectativas da sociedade na qual se apresenta. E através deste ajustamento que não é constituído da mesma maneira que o indivíduo e as coisas que o afetam são de outra natureza. No cinema os protagonistas não podem apreciar a beleza da estrutura que habitam ou  dar conta da coincidência que seu número coincide com o de faces da forma que os contem. Não pode ter janelas ou qualquer outro elemento que permita a passagem de luz e som do exterior.

 Todas as suas ligações com o exterior devem ser feitas de forma a preservar seu interior de qualquer ruído e de luz, da mesma forma que deve preservar os demais ambientes em seu entorno do som dos filmes ali exibidos. Dada a grande diversidade de línguas existentes, é pela dublagem (dobragem) ou pelas legendas, que traduzem o diálogo noutras línguas, que os filmes se tornaram mundialmente populares. A experiência sonora diferenciada e a qualidade das imagens, estão entre as maiores razões e advertências que fazem os espectadores deixarem suas casas para compartilhar publicamente a experiência mais ampla e real/imaginária do filme em uma sala de cinema. Ipso facto, uma sala de cinema ou o ambiente de cinema é qualquer lugar praticado onde ocorrem projeções cinematográficas. Mas especialmente uma sala de caráter comercial construída e equipada para esta finalidade. Nas salas comerciais, cada espectador compra um bilhete para ter acesso ao filme a que irá assistir. Cinema representa a técnica de fixar e de reproduzir imagens que suscitam a interpretação de tempo e movimento, com a chamada “indústria cultural” que reproduz e vende estas imagens.

As obras cinematográficas produzidas como filmes são imagens através da gravação de imagens do mundo social com câmeras adequadas. Ou na modernidade intrínseca ao cinema  pela sua criação utilizando técnicas de animação ou efeitos visuais (cf. Canevacci, 2001). Os filmes, no cinema, são projetados em uma grande tela que fica diante do auditório, através de um projetor. Os filmes são assim constituídos por uma série ininterrupta de imagens impressas em determinado suporte técnico, alinhadas em sequência, chamadas fotogramas. Quando essas imagens são projetadas de forma rápida e sucessiva, o espectador tem a ilusão de observar movimento reais. A cintilação entre os fotogramas não é percebida visualmente devido a um efeito conhecido como “persistência da visão”. O olho humano retém uma imagem durante uma fração de segundo após a sua fonte ter saído do campo da visão. O espectador tem a ilusão de movimento, devido a um efeito psicológico chamado movimento beta. O cinema é um artefato cultural criado por determinadas culturas contemporâneas que nele se complexificam e que, por sua vez, as afetam mutuamente. É uma arte poderosa, que movimenta riqueza e poder, mas fonte de entretenimento e, em certo sentido de “culto popular”, destinando-se a educar ou doutrinar. Pode tornar-se um método eficaz de persuasão e influenciar os cidadãos. É a imagem animada que confere aos filmes a eficácia simbólica de comunicação universal. A realidade significa o ajuste que fazemos entre a imagem e a ideia da coisa, entre verdade e verossimilhança. O problema da realidade é matéria presente em todas as ciências e, com particular importância, nas ciências sociais que têm como objeto de pensamento o próprio homem: a antropologia e disciplinas que nela estão implicadas: a filosofia, a psicologia, a semiologia, a sociologia, além das técnicas e das artes visuais.

Na interpretação ou representação do real, enquanto verdade subjetiva ou crença, a realidade está sujeita ao campo das escolhas, isto é, determinado, por ser um fato social construído mentalmente, ato ou uma possibilidade, algo adquirido a partir dos sentidos e 0da verdade do conhecimento adquirido. Dessa forma, a constituição das coisas e as nossas relações dependem de um intrincado contexto de efeitos, que ao longo da existência cria a lente entre a aprendizagem e o desejo sem pai: o que vamos aceitar como real na vida social? A realidade é construída pelo sujeito consciente; ela não é dada pronta para ser descoberta.  A visão já não é então o fato social de uma pessoa individual, dotada da faculdade de “ver” a qual é exercida quer da atenção, quer da distração; a vista é o fato de suas condições estruturais, a vista é a relação de reflexão imanente do campo da problemática sobre seus objetos e seus problemas. A visão perde então seus privilégios religiosos da “leitura sagrada”: ela nada mais é que a reflexão da necessidade imanente que liga o objeto ou o problema às suas condições sociais de existência, que têm a ver com as condições de sua produção. A rigor, não é mais o olho do espírito que vê o que existe no campo definido por uma problemática teórica: é esse próprio campo que se vê nos objetos ou nos problemas que ele define, sendo a visão apenas a reflexão necessária do campo em seus objetos. No drama intitulado: À Primeira Vista (1999), de Irwin Winkler é um filme baseado no ensaio: Ver e não ver (1995) do neurologista Oliver Sacks, autor de vários best-sellers, incluindo coleções administradas de forma empírica de estudos de casos de pessoas com distúrbios neurológicos.

     A prodigiosa história de Istambul, sua localização e permanente atividade econômica que se deve a relação social entre duas correntes da civilização: a do Mediterrâneo ao mar Negro e a da Europa à Ásia. Até o ano 330 d.C. era chamada Bizâncio e, posteriormente, até 1453, Constantinopla. A atual Istambul, lhe foi outorgada em 28 de março de 1930. Istambul foi a capital tanto do Império Romano do Oriente quanto do Império Otomano. Em 29 de outubro de 1923, se estabeleceu a República no país e a capital passou a ser Ankara, sede de Atatürk desde 1920 e tem sido a capital da República da Turquia desde a sua fundação, em 1923, substituindo Istambul após a queda do Império Otomano. A grande maioria de sua população é muçulmana, com minorias de cristãos e judeus. Do ponto de visita religioso também é a sede do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, cabeça da Igreja Ortodoxa. Em 29 de outubro de 1923, a história de Istambul foi transformada quando Mustafa Kemal Atatürk estabeleceu a República e a capital se trasladou a Ankara. Em 1930, Istambul adotou oficialmente o nome de İstanbul. Na década dos anos 1950 e 1960, sofreu outra grande transformação tanto social como estrutural. Um grande número de descendentes históricos de gregos, pertencentes à numerosa comunidade grega, partiram para a Grécia depois do pogrom às comunidades armênia, grega e judia ocorrido em 1955. Nos anos 1960, sacrificando edifícios históricos, foi construída em Istambul uma moderna rede de transporte público. Em 1963 foi firmado o Acordo de Ankara, primeiro passo em seu processo de integração social na União Europeia. Istambul tem acordos com mais de cinquenta cidades de todos os continentes. Poucos sabem, mas a primeira cidade gémea de Istambul foi o Rio de Janeiro, cujo protocolo respetivo data de 1965.

            A Igreja que peregrina em Bizâncio provavelmente remonta ao tempo dos Doze Apóstolos quando, segundo a tradição, Santo André a erigiu. Curiosamente, as duas sedes primazes, Roma e Constantinopla, supostamente foram fundadas pelos irmãos Pedro e André, também os primeiros escolhidos pelo Messias. A importância da “Sede Constantinopolitana” e de seu bispo foi fortemente marcada pela ascensão da cidade a capital do Império Romano, a “Nova Roma”. Por esse tempo, seu bispo era o segundo em importância, após o Papa, mas o IV Sínodo Ecumênico conferiu a ele as mesmas honras analogamente de sua contraparte romana. Durante o primeiro milênio, a Pentarquia foi bastante articulada e promoveu os primeiros sete concílios ecumênicos. Porém, com a queda política do Império Romano e do afastamento cultural do Ocidente-Oriente, as diferenças litúrgicas, quanto à prática e às interpretações tenderam a avolumar-se e, na precária estabilidade em que se encontravam juntamente com a afetação política, romperam-se. Esse rompimento deu-se paulatinamente, mas tornou-se oficial em 1054. Com a separação dos quatro Patriarcados orientais com o ocidental, coube ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla a primazia de honra que era, na Pentarquia, disposição do Patriarca Ocidental. Sob o domínio do Papa Paulo VI (1897-1978) e do patriarca Atenágoras I (1886-1972), as igrejas peregrinas retiraram sua mútua excomunhão. Apesar de não implicar em uma reconciliação eclesial, simboliza uma nova condição de relação entre ambas as igrejas.

            A presença ortodoxa na própria Turquia é pequena, porém a maioria dos ortodoxos na América do Norte (dois terços do total) estão sob este patriarcado ecumênico, primariamente na Arquidiocese Ortodoxa da América. O patriarcado também possui crescente maioria no Reino Unido. Além disso, as jurisdições das comunidades americanas oriundas da Albânia, Cárpatos, Rússia e Ucrânia são parte do patriarcado. A maior parte dos fundos do patriarcado não vêm diretamente dos membros de suas igrejas, mas de membros influentes que fazem grandes doações para a manutenção do patriarcado. Em troca, eles recebem títulos honoríficos que em séculos antigos eram dados ao pessoal do patriarcado. O patriarcado atua na capacidade de ser um intermediário e facilitador entre as igrejas ortodoxas e também nas relações com outras igrejas cristãs e outras religiões. Este papel algumas vezes traz ao patriarcado conflitos com outras igrejas ortodoxas, quando seu papel na igreja é debatido. A questão central é se o patriarcado é simplesmente a mais honrada entre as igrejas ortodoxas ou se ela tem uma autoridade real e prerrogativas sobre as demais igrejas autocéfalas. Esta disputa é frequente entre Constantinopla e Moscou, a maior igreja em termos de população, especialmente como expressado na teoria da “terceira Roma” que coloca aparentemente Moscou no lugar de Constantinopla como o centro da ortodoxia. Tal disputas ocasionalmente resulta em curtos rompimentos temporários entre as igrejas. As relações entre o patriarcado e o Império Otomano foi frequentemente amarga, devido à ausência dos privilégios garantidos ao Islã. Na secular República da Turquia, as tensões historicamente são ainda constantes. A Turquia requer por lei que o patriarca seja cidadão turco, mas todos os patriarcas pela tradição têm sido gregos étnicos desde 1923. A desapropriação de propriedades da igreja e o fechamento da Escola Teológica de Halki também são dificuldades enfrentadas pelo patriarcado. O seminário Halki, formalmente a Escola Teológica de Halki, foi fundado em 1º de outubro de 1844 nesta ilha, a segunda maior das Ilhas dos Príncipes no mar de Mármara. Foi a principal escola de teologia da Igreja Ortodoxa Oriental do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla até que o Parlamento turco aprovou uma lei que proíbe as instituições privadas de ensino superior em 1971.  

Durante o decorrer da década de 1970, Istambul experimentou um importante crescimento demográfico   devido à imigração procedente de Anatólia, também reconhecida como Ásia Menor, denota a protrusão ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da República da Turquia, que procurava trabalho em muitas fábricas construídas nos arredores da cidade. Isso provocou uma explosão imobiliária e fez com que muitas cidades expandidas da periferia ao centro fossem absorvidas pela cidade. Atualmente, Istambul é uma das cidades mais investidas em atividades turísticas da Europa e a cada ano é visitada por milhões de pessoas estrangeiras. Embora os turcos e os norte-americanos tivessem estabelecido primeiramente relações diplomáticas com a abertura de legações Otomanas e dos Estados Unidos da América em 1867 e 1901, respectivamente, um alinhamento próximo entre os dois países não se desenvolveu até depois da 2ª guerra mundial. Isto se deve ao fato sociológico de que estas relações não possuíam fundamentos geográficos, culturais ou mesmo econômicos. A aliança entre ambas as nações foi construída sobre as necessidades estratégicas urgentes no início da chamada Guerra Fria. Enquanto a 2ªguerra estivesse chegando ao fim, os Estados Unidos da América e a Turquia viram uma convergência de seus interesses nacionais devido às suas percepções comuns, mas distintas, das relações da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) como um potencial de ameaça comunista.         

Inicialmente, a Turquia teve uma estreita relação com a União Soviética durante o período inicial da República. Ambos surgiram das cinzas dos impérios na conclusão da 1ª grande guerra e procuraram estabelecer-se na nova ordem global. A União Soviética havia sido fundamental no apoio ao Movimento Nacional Turco durante a Guerra de Independência, e o planejamento estatal inicial de Mustafa Kemal Atatürk foi parcialmente influenciado pelos soviéticos. O povo turco gradualmente se uniu em torno da liderança de Mustafá Kemal Paxá e da autoridade da Grande Assembleia Nacional Turca, estabelecida em Ankara, que optaram pela guerra de independência turca. O movimentou pôs um fim ao Tratado de Sèvres, e negociou o Tratado de Lausanne, assegurando o reconhecimento das fronteiras nacionais da Turquia, chamado de Juramento Nacional (Misak-ı Milli). As forças nacionais se reuniram em torno da ideologia definida como progressiva, que costuma ser chamada de kemalismo ou atatürkismo. Seus princípios básicos enfatizam a República, governo que represente o poder do eleitorado, a administração secular (laicismo), nacionalismo, uma economia mista, com participação estatal em diversos setores, porém oposta ao socialismo estatal e modernização nacional. A 2ª guerra mundial teve um efeito social profundamente negativo sobre a relação, com uma União Soviética recém-encorajada sob Josef Stalin procurando pressionar sua vantagem na Europa Oriental, enquanto procurava estabelecer o controle sobre os Estreitos Turcos, que ligavam o Mar Negro, dominado pelos militares soviéticos, ao Mar Mediterrâneo.

Ankara estava naturalmente alarmada com a cessação do Tratado de Amizade e Neutralidade, em 1945, por Moscou, bem como pelas demandas territoriais da União Soviética e pelo desejo de modificar a Convenção de Montreux, que governava o uso dos estreitos turcos. Por sua vez, os norte-americanos lentamente chegavam à conclusão de que o seu ex-aliado contra a Alemanha Nazista havia se tornado o seu principal adversário na nova ordem global. Consequentemente, à medida em que o confronto entre os Estados Unidos da América e a União Soviética se intensificava, Washington e Ankara gradualmente começaram a reconhecer a necessidade de uma cooperação estratégica. Este processo culminou com o estabelecimento da instituição fundamental que sustentaria a relação durante quatro décadas: uma estreita aliança bilateral no contexto multilateral da principal organização de defesa coletiva ocidental, a Organisation du Traité de l`Atlantique Nord (OTAN), vezes chamada Aliança Atlântica, é uma aliança militar baseada no Tratado do Atlântico Norte, que foi assinado em 4 de abril de 1949. A organização constitui um sistema de defesa coletiva através do qual os seus Estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à organização. Mas historicamente, O Tratado de Amizade, Aliança e Assistência Mútua Sino-Soviético, ou simplesmente Tratado Sino-Soviético de Amizade e Aliança, é um tratado de aliança concluído entre a República Popular da China e a socialista União Soviética em 14 de fevereiro de 1950. Se baseava em grande medida sobre o tratado anterior de mesmo nome que havia sido arranjado entre a União Soviética e o governo nacionalista em 1945 e foi o produto de negociações prolongadas entre as lideranças de Liu Shaoqi e Josef Stalin.

Mao Tse-tung (cf. Mayer, 1986) viajou à União Soviética a fim de assinar o Tratado Sino-Soviético de Amizade e Aliança após os respectivos detalhes serem concluídos, e esta foi a única vez que ele viajou para fora da China durante a sua vida política. O Tratado lidou com uma série de questões sociais e políticas tais como privilégios soviéticos em Xinjiang e na Manchúria e um dos seus pontos mais importantes foi a prestação de um empréstimo de 300 milhões de dólares da União Soviética a República Popular da China, que havia sofrido economicamente e logisticamente por mais de uma década de guerra intensa. O tratado não impediu que as relações entre Pequim e Moscou sofresse uma deterioração drástica no final dos anos 1950 - 1960, na época da ruptura sino-soviética. Em face da abertura da China ao mercado econômico internacional e da expiração do Tratado, Deng Xiaoping não queria que a China negociasse com os soviéticos a não ser que concordassem com as exigências chinesas. Essas foram: que os soviéticos se retirassem do Afeganistão, removessem suas tropas da Mongólia e das fronteiras sino-soviéticas e parassem de apoiar a invasão vietnamita do Camboja. O tratado expirou em 1979, o que permitiu à China para atacar o Vietnã, um aliado soviético, na Terceira Guerra da Indochina, ocorrida entre 1978 e 1991 e envolveu diretamente o Vietnã, o Camboja e a China. O seu estopim foi a ocupação do Camboja pelo Vietnã, que foi respondida com um breve e intenso ataque militar chinês, como uma resposta à invasão vietnamita do Camboja, já que o tratado havia impedido a China de atacar os comunistas aliados soviéticos.

Alan William Parker (1944-2020) foi um cineasta britânico que deixou sua marca na história ao realizar clássicos cinematográficos como The Wall, em que narra as fantasias delirantes do superstar do rock Pink, um homem que enlouquece lentamente em um quarto de hotel em Los Angeles. Queimado no mundo da música, ele só consegue se apresentar no palco com a ajuda de drogas. O filme acompanha o cantor desde sua juventude, demonstrando como ele se escondeu do mundo exterior, baseado no álbum The Wall do Pink Floyd. No filme O Expresso da Meia-Noite, a narrativa expressa o drama de pertencer ao sistema carcerário e, principalmente, quando este fato social se dá em uma localidade diferente do seu país natural. Trazendo a história verídica de Billy Hayes, um jovem norte-americano, que em viagem a Turquia decide levar em seu retorno 2 kg de haxixe presos por baixo de suas roupas. Seu plano acaba não dando certo e ele é preso, com sua vida se transformando em um pesadelo, entregue a prisão turca e os métodos brutais e sujos de suas acomodações. Quando espera ser libertado é levado a um novo julgamento com efeito retroativo, um ciclo que o condena a uma longa pena. Adaptado pelo roteirista Oliver Stone, a música empregada por Giorgio Moroder nos transporta para a década de 1970, pari passu em que incomoda e gera uma sensação de imersão na Turquia histórica. Isto também se deve a cenografia com a sujeira e ojeriza que as paredes da prisão evocam. A alternativa de Michel Seresin em filmar com câmera manual complementa a sensibilidade visual e de inconformismo que o ambiente inóspito do sistema prisional evoca. O filme O Expresso da Meia-Noite representa a história social de um estudante preso em um aeroporto na Turquia portando haxixe enquanto tentava retornar aos Estados Unidos da América. Não se trata apenas de uma prisão por porte de drogas. Mas de um episódio que gera interrogatórios, técnicas de tortura e condenação como bode expiatório a 30 anos de prisão. 

Do ponto de vista teórico e metodológico o filósofo Michel Foucault observa um fato significativo: a maneira como a questão da loucura evoluiu na prática penal. Essa é a ideia que emerge como background querendo expressar a tirania do “mundo árabe” em relação à questão disciplinar no presídio. A possibilidade de invocar a loucura excluía a qualificação de um ato como crime: na alegação de o autor ter ficado louco, não era a gravidade de seu gesto que se modificava, nem a sua própria pena que devia ser atenuada: mas o próprio crime desaparecia. Impossível, pois, declarar alguém ao mesmo tempo culpado e louco; o diagnóstico de loucura uma vez declarado não podia ser integrado no juízo; ele interrompia o processo e retirava o poder da justiça sobre o autor do ato. Apesar de vários decretos do supremo tribunal de justiça lembrando que o estado de loucura não podia acarretar nem uma pena moderada, nem sequer uma absolvição, mas uma improcedência judicial, eles levantaram em seu próprio veredicto a questão da loucura. Admitiram, segundo Foucault, que era possível alguém ser culpado e louco; quanto mais louco, tanto menos culpado; sem dúvida, culpado, que deveria ser enclausurado e tratado e não punido; culpado perigoso, pois manifestamente doente etc. Em vez de a loucura apagar o crime, agora em última análise, qualquer infração, incluem como uma suspeita legítima, mas também como um direito que podem reivindicar, a hipótese da loucura ou em todo caso sociológico da anomalia. E a sentença que condena ou absolve não é simplesmente um julgamento de culpa, no sentido religioso, mas uma decisão legal que sanciona; ela implica uma apreciação de normalidade e uma prescrição técnica para uma normalização possível. E ele não julga mais sozinho. Ao longo do processo penal, e da execução da pena, prolifera toda uma série de instâncias anexas como é praxe em todos os tribunais. Só dizem respeito à administração da pena, sua necessidade, sua utilidade, sua eficácia possível; permitem indicar, num vocabulário que apenas foi codificado, se é melhor o hospício que a prisão, se é necessário prever um enclausuramento breve ou longo, um tratamento médico ou medidas de segurança.   

Bibliografia geral consultada.

BECKER, Howard, Los Extraños. Buenos Aires: Editorial Tiempo Contemporâneo, 1971; GOFFMAN, Erving, Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975; HAYES, Billy; COLABO, William Hoffer, Expresso da Meia-noite. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora: Record, 1977; BERNADET, Jean-Claude, O que é cinema? São Paulo: Editora Brasiliense, 1980; SCHEIBE, Karl, Espelhos, Máscaras, Mentiras e Segredos. São Paulo: Editora Interamericana, 1981; BLUMER, Herbert, Filmes e Conduta. Nova York: Macmillna Editor, 1983; COSTA, Jurandir Freire, A Inocência e o Vício: Estudos Sobre o Homoerotismo. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editor Relume-Dumará, 1992; DENZIN, Norman, A Sociedade Cinematográfica. Londres: Sage Publisheres, 1995;  CANEVACCI, Massimo, Antropologia della Comunicazione Visuale. Roma: Edizione Meltemi, 2001; ELIAS, Norbert, Sobre el Tiempo.  México: Fondo de Cultura Econômica, 1989; Idem, Escritos & Ensaios: Estado, Processo, Opinião Pública. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; BATISTA, Kássius Kennedy Clemente, Mississippi em Chamas e Panteras Negras no Intervalo entre História e Cinema. Dissertação de Mestrado em Ciências Humanas. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2014; MORAES, Josiane Borges de, Intersecções Semióticas: A Istambul de Orhan Pamuk e Ara Güler. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2015; LEVAGGI, Ariel González; FERREZ, Manuel (org.), Turquía, América Latina y el Caribe. Una Asociación Emergente. Istambul: Bahçeşehir  Üniversitesi Yayinlari, 2016; SANTOS, Waldeir Eustáquio dos, Capitalismo Tardio e Revolução Passiva: Um Estudo da  Emergência da Turquia Moderna. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais. Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2017; SOCHACZEWSKI, Monique, “De Atatürk a Erdoğan: A República da Turquia em Três Tempos”. In: Malala, 6(9), 70-90; 2018; KULSAR, Paulo André Machado, Simbologia, Palimpsestos e Intertextualidade no Filme Coração Satânico, de Alan Parker. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras.  Universidade Federal do Tocantins. Campus Universitário de Porto Nacional, 2019; MORAIS, Lucas Codorniz, Educação e Cinema: Análise das Representações de Educação no Filme Pink Floyd - The Wall (1982). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Rondonópolis: Universidade Federal de Mato Grosso, 2021; entre outros.