quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Mistake – Discurso-objeto & Efeito de Poder em Profissão de Risco.

     A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia. Michel Foucault                      

           No debate historiográfico foi Carlo Ginzburg quem percebeu que na analítica do poder de Michel Foucault são os gestos e os critérios da exclusão; os exclusos, um pouco menos. Em Histoire de la Folie (1961; 1972) já estava implícita, ao menos em parte, a démarche que levaria Foucault a escrever Les Mots et les Choses (1966) e L`Archeológie du Savoir (1969). Tal trajetória foi muito possivelmente acelerada pelas simples objeções niilistas lançadas por Jacques Derrida contra a Histoire de la Folie (1969). Não se pode falar da loucura, segundo Ginzburg, numa linguagem historicamente participante da razão ocidental, e, portanto, do processo que levou à repressão da própria loucura. O ponto em que se apoia a pesquisa de Foucault – disse Jacques Derrida em poucas palavras – não existe, não pode existir. A essas alturas o ambicioso projeto foucaultiano de uma “arqueologia do silêncio” transformou-se em silêncio puro e simples – por vezes acompanhado da muda contemplação estetizante. É no irracionalismo estetizante, que vai desembocar essa linha de pesquisa. A relação, obscura e contraditória, de Pierre Rivière (cf. Foucault, 1977) com a cultura é apenas mencionada, suas leituras são ignoradas.

Mas Michel Foucault (1926-1984) é um historiador das ideias que quis renovar inteiramente sua disciplina; que desejou, sem dúvida, dar-lhe o rigor que tantas outras descrições, bastante próximas, adquiriram recentemente; mas que incapaz de modificar realmente a velha forma de análise, incapaz de fazer com que transpusesse o limiar da cientificidade, “declara, para iludir, que sempre quis e fez outra coisa”. Toda essa nova nebulosa serviu “para esconder o fato de que permanecemos na mesma paisagem, ligados a um velho solo gasto até a miséria. Eu não teria o direito – afirma - de estar tranquilo enquanto não me separasse da “história das ideias”, enquanto não mostrasse em que a análise arqueológica se diferencia de suas descrições”. Entre “análise arqueológica” e “história das ideias”, os pontos de separação para Foucault são numerosos, mas simplificadamente apresentam quatro distinções: 1ª) A arqueologia busca definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os temas, as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos; mas os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras. Não trata o discurso como documento, mas onde se mantém a parte, a profundidade do essencial; ela se dirige ao discurso em seu volume próprio, na qualidade de monumento. Não busca um “outro discurso” mais oculto. 

Recusa-se a ser “alegórica”; 2ª) Não procura encontrar a transição insensível que liga, em declive suave, os discursos ao que os precede, envolve ou segue. O problema dela é, pelo contrário, definir os discursos em sua especificidade; mostrando em que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor salientá-los. Ela não vai, afirma, em progressão lenta, do campo do confuso da opinião à singularidade do sistema ou à estabilidade definitiva da ciência; não é uma “doxologia”, mas uma análise diferencial das modalidades de discurso; 3ª) A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra; não busca compreender o momento em que esta se destacou no horizonte anônimo. Não quer reencontrar o ponto enigmático em que o individual e o social se invertem um no outro. Ela não é nem psicologia, nem sociologia, nem, num sentido mais geral, a condição e possibilidade de uma “antropologia da criação”. A obra não é para Michel Foucault um recorte pertinente, mesmo se se tratasse de recolocá-la em contexto global das causalidades que a sustentam. Ela define tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais, às vezes as comandam inteiramente e as dominam sem que nada lhes escape; mas às vezes, também, só lhes rege uma parte. A instância do sujeito criador, enquanto razão de ser de uma obra e princípio de sua unidade lhe é estranha.                                            

arqueologia não procura reconstituir o que pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos homens no próprio instante em que proferiam o discurso; ela não se propõe a recolher esse núcleo fugidio onde Autor e obra trocam de identidade; onde o pensamento permanece ainda o mais próximo de si, na forma ainda não alterada do mesmo, e onde a linguagem não se desenvolveu ainda na dispersão espacial e sucessiva do discurso. Não tenta repetir o que foi dito, reencontrando a sua própria identidade. Não se pretende apagar na modéstia ambígua de uma leitura que deixaria voltar, em sua pureza, a luz longínqua, precária, quase extinta da origem. Não é nada além e nada diferente de uma reescrita; isto é, na forma mantida da exterioridade, uma transformação regulada do que já foi escrito. Não é o retorno ao próprio segredo da origem; é a descrição sistemática de um discurso-objeto. Queremos dizer com isso, que a Arqueologia do silêncio tem como representação social a reconstrução de práticas, saberes, regras e normas que determinam à percepção social do louco, o imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) que nele se investe, o medo que dele se tem, a proteção que dele se necessita, o espaço peculiar onde é enclausurado pela família, pelo Estado, pelos juízes, pelos médicos, o olhar que o objetiva. É desse pano de fundo (backgrond) que se pode reconstituir os processos insidiosos de estigmatização, discriminação, marginalização, patologização e confinamento, operando no nível da percepção social, do espaço social, das instituições sociais, do senso comum, do aparelho judiciário, da família, do Estado, do saber médico. 

O resultado é o mesmo: o silêncio dos sujeitados, silêncio que é o primeiro e mais forte componente da situação de exclusão, a marca mais forte da impossibilidade de se considerar sujeito aquele a quem a fala é de antemão desfigurada ou negada. Do ponto de vista metodológico Carlo Ginzburg tem um percurso de pesquisa dos mais originais e criativos, que extravasa o quadro da historiografia italiana e mesmo da historiografia europeia. A sua obra, com efeito, introduziu diversas rupturas nas maneiras de pensar em História, “mobilizou”, por assim dizer, metodologias e instrumentos de conhecimento analítico oriundos de outras áreas de saber, estabeleceu novas zonas de diálogo com as restantes perspectivas oriundas das ciências humanas e sociais, nomeadamente com a antropologia e a filosofia. Enfim, trata-se aqui de uma intervenção ativa, que procura inverter as relações tradicionais de subordinação da História no que diz respeito à produção dos meios de conhecimento, centrada numa forte preparação filológica, caracterizada pela atenção ao detalhe, do ponto de vista da análise ao estudo de caso, à análise do processo significativo, com a valorização dos fenômenos aparentemente marginais, como os ritos de fertilidade, ou dos casos obscuros, protagonizados pelos pequenos e excluídos, cuja dimensão cultural e social vem sendo valorizada de forma lenta e desigual.  

O indivíduo, ator, identidade, grupo social, classe social, etnia, minoria, movimento social, partido político, corrente de opinião pública, poder estatal, todas estas “manifestações de vida”, não mais se esgotam no âmbito da sociedade nacional, o que nos faz admitir que a diferenciação em comunidades locais, tribos, clãs, grupos étnicos, nações e até mesmo Estados, perderam ao menos algo do seu significado anterior. Na chamada “sociedade global” generalizam-se as relações sociais, processos e as estruturas de dominação e apropriação, antagonismo e integração. Modificam-se os indivíduos, as coletividades, as instituições, as formas culturais, os significados das coisas, gentes e ideias, vistos em configurações histórico-sociais. Se as ciências sociais nascem e desenvolvem-se como forma de autoconsciência científica da realidade social, pode-se imaginar que elas podem ser seriamente desafiadas quando essa realidade já não é mais a mesma. Nesse sentido é que a formação da sociedade global pode envolver novos problemas epistemológicos, além de históricos e/ou ontológicos. É o êxtase do estranhamento absoluto que na realidade é fruto de análise e interpretação.

Metodologicamente para Carlo Ginzburg as vítimas da “exclusão social” tornam-se os depositários do único discurso que representa uma alternativa radical às mentiras da sociedade constituída – um discurso que passa pelo delito (cf. Ginzburg, 2001; 2002; Albuquerque Júnior, 2007), pelo canibalismo, que é encarnado indiferentemente nas memórias redigidas por Pierre Rivière ou no seu matricídio. É um populismo às avessas, um populismo “negro” – mas assim mesmo populismo. O que foi dito até aqui para Ginzburg demonstra com clareza a ambiguidade do conceito de “cultura popular”. Às classes subalternas das sociedades pré-industriais é atribuída ora uma passiva adequação aos subprodutos culturais distribuídos com generosidade pelas classes dominantes, ora uma tácita proposta de valores, ao menos em parte autônomos em relação à cultura dessas classes, ora um estranhamento absoluto que se coloca até mesmo para além, ou melhor, para aquém da cultura. É bem frutífera a hipótese de Bakhtin de uma influência recíproca entre a cultura das culturas subalternas e a cultura dominante. Mas precisar os modos e os tempos de influência significa enfrentar o problema posto pela documentação.

Mas a questão significativa é: Até que ponto os eventuais elementos sociais da cultura hegemônica, encontráveis no âmbito da cultura popular, são frutos de um processo de  aculturação mais ou menos deliberada ou de uma convergência mais ou menos espontânea e não, ao contrário, de uma inconsciente deformação da fonte, obviamente tendendo a conduzir o desconhecido ao reconhecido, ao familiar?  No ensaio O Queijo e os Vermes, Ginzburg enfrentou um problema parecido no decorrer de sua pesquisa sobre processos contra a bruxaria, entre os séculos XVI e XVII. Ele queria entender o que a bruxaria era na realidade para os seus protagonistas – bruxas e bruxos -, mas a documentação da qual dispunha (processos e, em especial, os tratados de demonologia) parecia constituir tal barreira, que impedia de forma irremediável o conhecimento da bruxaria popular. Esbarrava sempre, com os esquemas de origem culta da bruxaria inquisitorial. Apenas a descoberta de um veio de crenças até aquele momento ignoradas, concentrado nos benandanti, abriu uma brecha naquela parede. Pela discrepância entre as perguntas dos juízes e as respostas dos acusados – a qual não poderia ser atribuída aos interrogatórios sugestivos nem à tortura, vinha à baila um estrato profundo de crenças populares substancialmente autônomas.

O mérito analítico da pesquisa está amparado nas confissões de Menocchio, no século XVI, o moleiro friulano tomado como protagonista constitui em certa medida, um caso semelhante Ao dos benandanti, com a irredutibilidade dos discursos de Menocchio a esquemas conhecidos aponta para um estrato ainda não examinado de crenças populares, de obscuras mitologias camponesas. Mas o que torna muito mais complexa a análise do caso de Menocchio é o fato histórico desses obscuros elementos populares estarem enxertados num conjunto de ideias muito claras e consequentes, que vão do radicalismo religioso ao naturalismo tendencialmente científico, às aspirações utópicas de renovação social. A impressionante convergência entre as posições de um desconhecido moleiro friulano e as de grupos de intelectuais dos mais refinados e conhecedores de seu tempo repropõe com toda força mental o problema da circularidade da cultura formulado por Mikhail Bakhtin. No momento em que equipes inteiras de estudiosos se lançam a empresas imensas de história quantitativa das ideias ou de história religiosa serial, propor uma investigação capilar sobre um moleiro parece paradoxal, quase como o retorno ao tear fabril de Marx, d`O Capital, numa Era de industrialista com utilidade de uso de teares automáticos. 

Não é um objetivo de pouca importância estender às classes subalternas o conceito histórico de indivíduo. Alguns estudos biográficos demonstraram que um indivíduo medíocre, destituído de interesse por si mesmo – e justamente por isso representativo -, pode ser pesquisado como se fosse um microcosmo de um estrato social inteiro num determinado período histórico – a nobreza austríaca ou o baixo clero inglês do século XVI. Seria esse o caso de Menocchio?  Ele não pode ser considerado um camponês típico do seu tempo; seu relativo isolamento na comunidade deixa isso claro. Aos olhos dos conterrâneos Menocchio era um homem, ao menos em parte, diferente dos outros. Mas essa singularidade tinha limites bem precisos: da cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não ser para entrar no delírio e na ausência de comunicação. Com rara clareza e lucidez, Menocchio articulou a linguagem que estava disponível e inteiramente à sua disposição. Por isso, nas suas confissões é possível encontrar de maneira bastante nítida e esclarecedora, quase exagerada, uma série de elementos convergentes. Esses elementos surgem numa documentação análoga contemporânea em que estão dispersos, ou então só é possível vislumbrá-los. Algumas investigações no âmbito da historiografia confirmam a existência de traços que reconduzem a uma cultura camponesa comum.

Em poucas palavras, mesmo um caso-limite pode se revelar representativo, seja negativamente, seja positivamente, porque permitem circunscrever as possibilidades latentes de alcance apenas através de documentos fragmentários e deformados, provenientes quase todos de “arquivos da repressão”. Com isso, o historiador Carlo Ginzburg quer contrapor pesquisas qualitativas comparativamente às pesquisas não qualitativas. No caso da história quantitativa das ideias, por exemplo, apenas a consciência da variabilidade, histórica e social, da figura do leitor, poderá fornecer de maneira efetiva as premissas de uma história das ideias também quantitativamente diversa. A defasagem entre os textos lidos por Menocchio e o modo como ele os assimilou aos Inquisidores indica que suas posições não são redutíveis a outro livro. Mesmo que Menocchio tenha entrado em contato, de maneira mais ou menos mediada, com ambientes cultos, suas afirmações em defesa da tolerância religiosa, seu desejo de renovação radical da sociedade apresentam um tom coloquial original e não parece resultado de influências externas passivamente recebidas.

As raízes de suas afirmações e desejos estão fincadas muito longe, num extrato obscuro, quase indecifrável, de remotas tradições camponesas. Neste nível poder-se-ia perguntar se o que emerge dos discursos de Menocchio não é mais “mentalidade” do que uma “cultura”, pois não se trata de uma distinção fútil. O que tem caracterizado a história das mentalidades é a insistência nos elementos inertes, obscuros, inconscientes de determinada visão de mundo. As sobrevivências, os arcaísmos, a afetividade, a irracionalidade delimitam o campo específico da história das mentalidades, distinguindo-a com muita clareza de disciplinas paralelas e hoje consolidadas, como a história das ideias ou a história da cultura. Inscrever o estudo de caso de Menocchio no âmbito exclusivo da história das mentalidades significaria, portanto, colocar em segundo plano o fortíssimo componente racional. Com isso não se está de maneira alguma afirmando a existência de uma cultura homogênea, comum tanto aos camponeses aos artesãos da cidade (para não falar dos grupos marginais, os vagabundos), na Europa pré-industrial. Apenas se está querendo delimitar um âmbito no interior do qual é preciso conduzir análises teóricas sempre particularizadas. Ou seu funcionamento não é princípio da razão?

As rupturas gigantescas determinadas pelo fim do monopólio dos letrados sobre a cultura escrita e do monopólio dos clérigos sobre as questões religiosas haviam criado uma situação nova, potencialmente explosiva. Mas a convergência entre as aspirações de uma parte da alta cultura e as da cultura popular já tinha sido declarada de maneira definitiva mais de meio século antes do processo de Menocchio – quando Lutero condenara com ferocidade os camponeses em revolta e suas reivindicações. Com a Contrarreforma iniciara-se uma era marcada pelo enrijecimento hierárquico, pela doutrinação paternalista das massas, pela aparente extinção da cultura popular, pela marginalização mais ou menos violenta das minorias e dos grupos dissidentes. E o próprio Menocchio acabou queimado. Menocchio está inserido numa tênue, sinuosa, porém nítida expressão  que chega até nós: podemos dizer, segundo Ginzburg, que Menocchio é nosso antepassado. Mas é também um fragmento do humano perdido que nos alcançou por acaso. Vindo de um mundo obscuro, o qual através de um gesto, talvez arbitrário, pode incorporar a lucidez à nossa história social.    

            A Mistake tem como representação social um filme de drama médico neozelandês de 2024, escrito, dirigido e produzido por Christine Jeffs, baseado no romance homônimo de Carl Shuker. Christine Jeffs nascida em 29 de janeiro de 1963 é uma diretora, editora e roteirista nascida na Nova Zelândia. Ela é mais reconhecida por dirigir os filmes Rain, Sylvia e Sunshine Cleaning. Jeffs também é reconhecida por seu trabalho em comerciais de televisão. Jeffs tem um Mestrado em Belas Artes pela Universidade de Auckland em 2018, examinando a relação entre um fotógrafo e seu assunto. Ela começou sua carreira trabalhando localmente na pós-produção, principalmente como Assistente de Edição de filmes. Depois, Jeffs passou a frequentar a Australian Film, Television and Radio School, localizada em Sydney, Austrália. Jeffs obteve um diploma em edição de filmes em 1990, após o qual ocupou o cargo de Editora Assistente em três longas-metragens: Ruby and Rata (1990), Crush (1992) e Absent Without Leave (1992). A partir de seu trabalho como Editora Assistente, Jeffs escreveu, dirigiu e editou seu primeiro curta-metragem Stroke em 1993, que inesperadamente ganhou atenção de festivais de cinema como Cannes e Sundance. Após seu sucesso com Stroke, Jeffs começou a receber ofertas para dirigir comerciais.  Pouco menos de uma década depois de Stroke, Jeffs retornou ao cinema e teve sua primeira estreia em longa-metragem como diretora com Rain, adaptado de um romance curto de 1994 de Kirsty Gunn de mesmo nome. Estreando na Quinzena dos Diretores de Cannes, Rain foi muito bem elogiado pela crítica cinematográfica.  

No ano seguinte, a Variety incluiu Jeffs em sua lista anual de “10 Diretores para Assistir”. Em 2003, dois anos após seu sucesso global com Rain, o segundo longa-metragem de Jeffs, Sylvia, foi lançado. Estrelado por Gwyneth Paltrow e Daniel Craig, este filme seguiu as vidas dos poetas Sylvia Plath e Ted Hughes. Jeffs foi solicitada a assumir o projeto bem no início da produção após a saída do diretor anterior, ao que ela afirmou que “[o projeto] teve suas bênçãos e suas maldições, porque é uma situação tão diferente se envolver com um projeto em um estágio tão avançado - em vez de um com o qual você se sentou, sonhou e trabalhou por anos”. Sylvia foi elogiada pelos críticos. Depois de Sylvia, o terceiro longa-metragem de Jeffs, Sunshine Cleaning, foi lançado em 2008 e foi escrito por Megan Holley. O filme estrelou as atrizes de Hollywood Amy Adams e Emily Blunt assumindo os papéis de “duas irmãs que começam um negócio de limpeza especificamente para cenas de crime”. Alan Arkin também estrelou o filme como “o pai peculiar das duas mulheres”. Embora Sunshine Cleaning tenha sido a primeira comédia de Jeffs, ela considera seu primeiro filme, Stroke, “meio engraçado”. Assim como Sylvia, Jeffs foi contratado, last but not least, como diretor “depois que o projeto já havia começado”. Jeffs foi cofundador de uma produtora na Nova Zelândia chamada The Girl Film Company. É estrelado por Elizabeth Banks, Simon McBurney, Mickey Sumner, Rena Owen, Richard Crouchley e Matthew Sunderland. Sua estreia mundializada ocorreu no Festival de Tribeca em 7 de junho de 2024.

Tribeca é um dos vários bairros da cidade de Nova York cujos nomes são abreviações silábicas ou siglas, incluindo SoHo (ao Sul da Houston Street), NoHo (ao Norte da Houston Street), Nolita (ao Norte da Little Italy), NoMad (ao Norte da Madison Square), DUMBO (Down Under the Manhattan Bridge Overpass) e BoCoCa, o último dos quais é na verdade uma coleção de bairros: Boerum Hill, Cobble Hill e Carroll Gardens. O nome Tribeca foi elucidado no início da década de 1970 e originalmente aplicado à área mais estreita delimitada pelas ruas Broadway e Canal, Lispenard e Church, que parece ser um triângulo nos mapas de planejamento urbano. Os moradores dessa área formaram a Cooperativa de Artistas de TriBeCa para registrar documentos legais relacionados a uma disputa de zoneamento de 1973. Um artigo de abril de 1976 no The New York Times descreveu que os moradores usaram nomes como “Lo Cal” e “So So” para o bairro, e que a Comissão de Planejamento da Cidade havia estabelecido o nome e que ele abrangia “Canal Street ao Norte, Barclay Street ao Sul, West Street e Broadway a Leste”. Para um historiador, o nome foi mal interpretado pelo repórter do jornal como se aplicando a uma área muito maior, e é assim que veio a ser o nome do bairro atual. A área agora reconhecida como Tribeca foi cultivada por colonos holandeses em Nova Amsterdã, principalmente Roeleff Jansen que obteve a patente da terra, chamada Dominie`s Bouwery, de Wouter van Twiller em 1636 e sua esposa Anneke Jans, que mais tarde se casou com Everardus Bogardus. A terra permaneceu com a família até 1670, quando a escritura foi assinada para o Coronel Francis Lovelace. Em 1674, os holandeses tomaram posse da área até que os ingleses recuperaram a terra um ano depois. Em 1674, representando o Duque de York, o governador Andros tomou posse da terra.

Tribeca foi posteriormente parte da grande extensão de terra dada à Igreja da Trindade pela Rainha Ana em 1705. Em 1807, a igreja construiu a Capela de São João na Rua Varick e então projetou o Parque São João, delimitado pela Rua Laight, Rua Varick, Ericsson Place e Rua Hudson. A igreja também construiu a Praça Hudson, um empreendimento de casas de tijolos que cercavam o parque, que se tornaria o modelo para o Parque Gramercy. A área estava entre os primeiros bairros residenciais desenvolvidos na cidade de Nova York além dos limites coloniais da cidade e permaneceu principalmente residencial até a década de 1840. Várias ruas na área são nomeadas em homenagem a Anthony Lispenard Bleecker e à família Lispenard. A Beach Street foi criada no final do século XVIII e foi a primeira rua na fazenda de Anthony Lispenard Bleecker ou adjacente a ela, que ficava ao Sul do que é a Canal Street; o nome da rua é uma corruptela do nome de Paul Bache, genro de Anthony Lispenard. A Lispenard Street em Tribeca recebeu o nome da família Lispenard, e a Bleecker Street em NoHo recebeu o nome de Anthony Lispenard Bleecker. Durante a década de 1840 e continuando após a Guerra Civil Americana, a navegação na cidade de Nova York - que então consistia apenas em Manhattan - mudou em grande parte do East River e da área ao redor da South Street para o Rio Hudson, onde os píeres mais longos podiam lidar mais facilmente com os navios maiores que estavam entrando em uso. Além disso, a dragagem dos bancos de areia que ficavam na entrada do Porto de Nova York do Oceano Atlântico tornou mais fácil para os navios navegarem até os píeres no Hudson, em vez de usar a “porta dos fundos” via East River para os píeres de lá. Mais tarde, os píeres do Rio Hudson também receberam carga por meio de vagões ferroviários transportados pelo rio de Nova Jersey.

            Desnecessário dizer que a medicina é considerada uma profissão de risco, tanto pela exposição a agentes biológicos e químicos, quanto pela alta carga de trabalho e responsabilidade sobre a vida dos pacientes. Essa percepção tem levado a Ordem dos Médicos a solicitar que a medicina seja reconhecida como profissão de “desgaste rápido”. Médicos estão expostos a diversos agentes patogênicos em seu ambiente de trabalho, além de substâncias químicas potencialmente perigosas. Acidentes com materiais perfurocortantes, contato com fluidos corporais e exposição a doenças infecciosas são riscos comuns na prática médica. A rotina médica, especialmente em áreas como emergência e terapia intensiva, pode ser exaustiva, com longas jornadas e pressão constante. A responsabilidade sobre a saúde e a vida dos pacientes pode gerar grande pressão, aumentando o risco de erros, mesmo que involuntários. A relação social estabelecida entre médico-paciente é considerada, ipso facto, uma relação de consumo, o que pode levar a processos judiciais em caso de insatisfação social com o tratamento. O estresse e a pressão podem levar a problemas reconhecidos como burnout, ansiedade e depressão. A sobrecarga de trabalho e o estresse podem afetar a qualidade do atendimento e a segurança do paciente. É fundamental que os profissionais de saúde adotem medidas de proteção, como uso de EPIs, protocolos de segurança e higiene, além de buscarem apoio psicológico quando necessário. A medicina ocupacional é essencialmente um conjunto de práticas e saberes para garantir a saúde e segurança dos trabalhadores, com escopo na prevenção de doenças e controle de riscos ambientais. 

            A medicina é uma profissão desafiadora e com riscos inerentes, que exigem atenção constante e medidas de proteção para garantir a saúde e segurança dos profissionais e a qualidade do atendimento aos pacientes. Devido ao seu aparente isolamento, o país desenvolveu uma fauna distinta dominada por pássaros, alguns dos quais foram extintos após a colonização dos seres humanos e dos mamíferos introduzidos por eles. A maioria da população da Nova Zelândia é de ascendência europeia (67,6%), sobretudo britânica, enquanto os nativos māori, ou seus descendentes, tornaram-se minoria societária (14,6%). Asiáticos e polinésios não māori também são grupos de minoria significativa (16,1%), especialmente em áreas urbanas. A língua predominantmente mais falada é o inglês, introduzida pelos colonizadores britânicos, embora também sejam considerados culturalmente entre os idiomas oficiais línguas nativas, como a língua māori. A  Nova Zelândia é um país desenvolvido e industrializado do mundo ocidental/oriental globalizado, e que se posiciona muito bem em análises comparativas internacionais sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), qualidade de vida, “esperança” de vida, alfabetização, educação pública, paz, prosperidade, liberdade econômica, facilidade de fazer negócios, aparente falta de corrupção política e econômica, liberdade de imprensa, democracia e proteção das liberdades civis e de direitos políticos. Suas cidades também estão entre consideradas “mais habitáveis do mundo”. Aotearoa, muitas vezes traduzido como “terra da longa nuvem branca” é o nome māori contemporâneo para a Nova Zelândia e também é usado no inglês neozelandês.                    

        Haka são os representantes das danças típicas do povo Maori. Geralmente demonstram a paixão e intimidação. É usada para dar boas-vindas a visitantes e tribos inimigas. Segundo o povo Maori, Tama-nui-to-ra, o Deus do Sol, tinha duas mulheres, sendo uma delas Hine-raumati, a virgem do verão (perdendo este estatuto!), da qual nasceu Tane-rore, creditado pela origem da dança. Tane-rore representa o vento nos dias quentes de verão, na dança coreografado com o tremor de mãos. Os All Blacks se preparando para a haka no jogo da final da Copa das Três Nações, contra a Austrália, de 2005. Atualmente o Haka é conhecido mundialmente pela performance de intimidação no início dos jogos de Rugby da seleção da Nova Zelândia (All Blacks), que costuma antes de seus jogos executar uma haka específica chamada Ka Mate. Antes da dança o chefe grita como um grito para iniciar, coisa que no caso dos All Blacks é feita pelo jogador de sangue maori mais velho, nāo sendo capitāo da equipe. As palavras são utilizadas nāo só para incitar quem está realizando a dança, mas também para recordar-se o seu comportamento correto. Muitas vezes o tom utilizado para gritar o refrāo é o mesmo no curso de toda a exibição, ou seja, quanto mais alto, estridente e agressivo, feroz e brutal, mais vai incentivar mais o grupo - e intimidar o adversário.

Na língua maori, a palavra maori representa toda a grandeza de uma cultura. Em lendas e outras tradições orais, a palavra distinguia seres humanos mortais de divindades e espíritos. Maori tem cognatos em outras línguas da Polinésia, comparativamente como na língua havaiana (Maoli) e na língua taitiana (Maohi), e provavelmente todos têm sentidos semelhantes. Os primeiros exploradores europeus às ilhas da Nova Zelândia se referiam às pessoas que lá encontraram como aborígenes, nativos ou também chamados neozelandeses. Maori permaneceu como o termo usado pelos maoris “para descreverem a si mesmos”. Em 1947, vale lembrar que o Departamento de Relações Nativas foi renomeado, alternando para Departamento de Relações Maoris para reafirmar a decisão. Não existe registro etnográfico de assentamento na Nova Zelândia antes dos viajantes maoris; por outro lado, evidências arqueológicas indicam que os primeiros habitantes vieram do leste da Polinésia e se tornaram os maoris. Na Nova Zelândia há uma riqueza enorme quanto à tatuagem. E a tatuagem mais importante é feita no rosto. Para muitas culturas, a mão, o rosto e o pescoço ficam fora da pintura corporal. Para os maoris, o homem cobre todo o rosto quanto mais nobre ele é ou pela sua posição social. A tatuagem dá status da tribo ou clã. A colonização europeia da Nova Zelândia foi relativamente recente. Os maoris representaram a última comunidade a ser influenciada pelos europeus.

A identidade maori foi estudada por Ranginui Walker (1997) antropólogo de formação acadêmica e política como chefe do Departamento de Estudos Maori da Universidade de Auckland desde 1992, além de dirigente do Conselho do Distrito Maori de Auckland e membro fundador do Conselho Maori da Nova Zelândia. Sua trajetória como pesquisador e política como dirigente vincula-se estreitamente às lutas pela obtenção de direitos e melhorias na condição social dos Maori, nas quais desempenhou papel de destaque nos últimos anos. Natural de Whakatohea, na Ilha do Norte, é descendente dos Opotiki. Publicou dois livros: Nga Tau Tohetoe. The Years of Anger (1987) e Ka Whawhai Tonu Matou: Struggle Without End (1990) – ambos sobre as formas de organização social e atuação política do movimento maori –, além de mais de quarenta artigos sobre educação, ativismo e política maori. - Em 1967, fui contratado, afirma em depoimento Walker, para ensinar na Universidade de Auckland, quando comecei a cursar o doutorado. Minha principal área de interesse era a antropologia social e tive como professor Ralph Piddington, que em 1950, criou o Departamento de Antropologia.

Ele havia estudado com Malinowski e, assim, muito do seu interesse estava voltado para os desenvolvimentos malinowskianos, como a teoria das necessidades, as noções de estrutura e função social etc. Estes foram meus estudos iniciais em antropologia, com uma ênfase muito grande no trabalho de campo. No mestrado, decidi que faria minha dissertação sobre as relações sociais dos estudantes Maori no Teacher’s College e os ajustes necessários para conviverem com o grupo europeu dominante. Cursei as disciplinas do doutorado entre 1966 e 1967, e escolhi como tema de tese a migração dos Maori do interior para a cidade. Concentrei-me em um bairro e fui a todas as reuniões de comitês, grupos e organizações. Encontrei um processo muito dinâmico, com os Maori tendo de aprender a viver em uma economia monetária: a economia de subsistência tinha de ser posta de lado, pois vivendo na cidade não havia meios de buscar alimentos como faziam no campo, ou à beira-mar; era preciso encontrar um emprego, controlar as despesas, enfrentar a vida urbana. Interessava-me a maneira como essas pessoas formavam novas organizações para ajudar umas às outras a se ajustarem.

            A expectativa de vida de uma criança nascida na Nova Zelândia em 2015 era de 84 anos para as mulheres e 80,2 anos para os homens. A esperança de vida ao nascer deverá aumentar de 80 anos para 85 anos em 2050 e a mortalidade infantil deverá diminuir ainda mais. Em 2050, estima-se, a população deverá chegar aos 5,3 milhões de habitantes, a idade média subirá de 36 anos para 43 anos e a percentagem de pessoas com 60 anos de idade e mais velhas subirá de 18% para 29%. O país tem a maior taxa de suicídio entre os jovens de países desenvolvidos, com taxa de 15,6 suicídios por 100 mil pessoas. O cristianismo é a religião predominante na Nova Zelândia. No censo de 2006, 55,6% da população se identificou como cristã, enquanto que 34,7% não tinham religião de 29,6% em 2001 e cerca de 4% eram afiliados com outras religiões. As principais denominações cristãs são representadas pelo anglicanismo, catolicismo romano, presbiterianismo e o metodismo. Há também um número significativo de cristãos que se identificam com pentecostais, batista, “em que todas as comunidades batistas desejavam ser puras Igrejas, no sentido da inocente conduta de seus membros” (cf. Weber, 1973: 80), membros da A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, centrada em Jesus Cristo e ensina o “Plano de Salvação”, que inclui a existência pré-mortal da humanidade, um plano divino para cada indivíduo, o propósito da vida na Terra através da Expiação de Jesus Cristo, e o potencial para a vida eterna após a morte, e da religião neozelandesa rātana, que tem adeptos entre māori. De acordo com outras religiões significativas incluem o hinduísmo, o budismo e o islamismo. Uma dificuldade na interpretação dos dados de afiliação religiosa é a grande proporção de pessoas que se opõem a responder à pergunta, identificados em cerca de 313 mil entrevistados em 2018. A maioria dos relatórios de porcentagens se baseia no número total de respostas, e não na população real total.              

            Não queremos perder de vista que para a sociologia compreensiva de Max Weber, desde que a predestinação foi rejeitada, o caráter peculiarmente racional da moralidade batista apoiou-se psicologicamente, acima de tudo, na ideia da “espera”, ela descida do espírito que, caracteriza o meeting quaker. A finalidade desta tranquila espera é a superação do impulsivo e do irracional, das paixões e dos interesses subjetivos do homem “natural”. Ele deve calar-se afim de conseguir aquela profunda tranquilidade de alma que é a única em que pode ser ouvida a palavra de Deus. Esta espera pode, naturalmente, sob condições histéricas, resultar em profecias e, enquanto sobreviverem esperanças escatológicas, em certas circunstâncias, até em entusiástica eclosão de quiliasmo, como é possível em todos os tipos similares de religião. Isto realmente aconteceu no movimento que se fragmentou em Münster. Contudo, à medida que o batismo foi afetando a vida profissional secular, a ideia de que Deus somente fala quando silencia a criatura, significou, evidentemente, um incentivo para a tranquila ponderação das ações e para a justificação em termos da consciência do indivíduo. As seitas batistas mais recentes, de modo particular os quakers, adotaram este caráter de conduta, tranquilo, moderado e eminentemente consciencioso. A eliminação da magia do mundo não permitiu nenhum outro recurso psicológico, que não a prática do ascetismo laico.  Uma vez que a estas comunidades nada queriam ter que ver com os poderes políticos e com seu procedimento, disto visivelmente resultou a penetração desta moral ascética, conforme Weber (2003) na vida profissional. Os líderes dos primeiros movimentos sociais batistas foram implacavelmente radicais em sua rejeição do mundanismo, naturalmente, mesmo como ocorre na primeira geração, o modo de vida estritamente apostólico não foi considerado de forma societária como absolutamente essencial para a prova de redenção.

            A Nova Zelândia é um país desenvolvido localizado na Oceania, continente banhado pelo Oceano Pacífico e caracterizado por grande quantidade de ilhas. Possui características geográficas diversas devido ao seu isolamento e, ainda, as recorrentes atividades vulcânicas e sísmicas que ocorrem no seu território. O país foi colonizado pelos europeus, mas a presença dos maoris, população nativa, ainda é culturalmente muito forte. Os neozelandeses possuem uma elevada qualidade de vida humana. A população local é predominantemente adulta e urbana. A economia é diversificada, com destaque para o elevado emprego de tecnologias nas atividades primárias. A infraestrutura é típica de países altamente desenvolvidos, sendo a Nova Zelândia reconhecida por seus governos de cunho progressista. A prática de esportes de aventura faz parte da cultural local, e o país é famoso pelo seu time de Rugby. O isolamento não apenas físico, mas de ordem comunicativa e de trabalho, causou isolamento biológico, resultando em uma ecologia evolutiva dinâmica com exemplos de plantas e animais muito distintos, bem como populações de espécies comuns. Cerca de 82% das Planta vascularplantas vasculares da Nova Zelândia são endêmicas, cobrindo 1.944 espécies em 65 gêneros. O número de fungos registrados na Nova Zelândia, incluindo espécies formadoras de líquen, não é conhecido, nem a proporção desses fungos endêmicos, mas uma estimativa sugere que existem cerca de 2.300 espécies de fungos formadores de líquen na Nova Zelândia e 40% deles são endêmicos. Os dois principais tipos de floresta são dominados por árvores de folhas largas com podocarpos emergentes ou por faias do Sul em climas mais frios. Os demais tipos de vegetação consistem em pradarias, a maioria tussock. Antes da colonização, no âmbito do processo civilizatório estima-se que 80% da terra estava coberta de floresta, com altas áreas alpinas, úmidas, inférteis e vulcânicas sem árvores.

O desmatamento maciço ocorreu depois que os humanos chegaram, com cerca de metade da cobertura florestal perdida para o fogo após o assentamento polinésio. Grande parte da floresta restante caiu após o assentamento europeu, sendo derrubada ou derrubada para dar espaço à agricultura pastoral, deixando a floresta ocupando apenas 23% da terra. As florestas eram dominadas por pássaros, e a falta de predadores de mamíferos levou a que alguns como apteryx, kiwi, kakapo, weka e takahe evoluíssem a ausência de voo. A chegada dos seres humanos, as mudanças associadas ao habitat e a introdução de ratos, furões e outros mamíferos levaram à extinção de muitas espécies de aves, incluindo grandes aves como o moa e a águia-de-haast. A Nova Zelândia, originalmente parte da colônia de Nova Gales do Sul, tornou-se uma colônia da coroa separada em 1841. A colônia ganhou um governo representativo em 1852 e o primeiro parlamento da Nova Zelândia se reuniu em 1854. Em 1856, ela efetivamente tornou-se autogovernada, ganhando a responsabilidade sobre todos os assuntos domésticos, com exceção da política nativa. Controle sobre a política nativa foi concedida em meados da década de 1860. Preocupado com a possibilidade da Ilha do Sul formar uma colônia separada, o premiê Alfred Domett apresentou uma resolução para transferir a capital de Auckland para uma localidade perto do Estreito de Cook. Wellington foi escolhida pelo seu porto e localização central, com o parlamento oficialmente sediado ali pela primeira vez em 1865. Com o aumento do número de imigrantes e os conflitos pela posse de terra, levou às Guerras da Nova Zelândia da década de 1860 a década de 1870, resultando na perda e no confisco de terras nativas māori. Em 1893, o país tornou-se o primeiro do mundo a conceder as mulheres o direito ao voto. Em 1894 pioneiro na adoção da arbitragem obrigatória entre empregadores e sindicatos. Em 1907 declarou-se um domínio dentro do Império Britânico e em 1947 o país adotou o Estatuto de Westminster, o que tornou a Nova Zelândia um reino da Commonwealth

O país se envolveu em assuntos políticos de relações internacionais, lutando ao lado do Império Britânico na primeira e 2ª guerra mundial, e sofrendo os impactos sociais e políticos da Grande Depressão. A depressão econômica levou à eleição do primeiro governo trabalhista e ao estabelecimento de um estado de bem-estar abrangente e de economia protecionista. Entre 1923 e 1926, Conferências Imperiais decidiram que a Nova Zelândia devia ser autorizada a negociar os seus próprios tratados políticos, sendo o primeiro tratado comercial de sucesso estabelecido com o Japão, em 1928. Apesar dessa relativa independência, a Nova Zelândia prontamente seguiu o Reino Unido ao declarar guerra à Alemanha em 3 de setembro de 1939, quando o primeiro-ministro neozelandês, Michael Savage, proclamou: “Onde ela vai, nós vamos; onde ela está, nós estamos”. Em 1951, o Reino Unido virou-se cada vez mais para seus interesses europeus, enquanto a Nova Zelândia juntou-se à Austrália e aos Estados Unidos no tratado de defesa ANZUS. A influência dos Estados Unidos na Nova Zelândia enfraqueceu após protestos sobre a Guerra norte-americana contra o Vietnã, o fracasso dos Estados Unidos em advertir França após o naufrágio do Rainbow Warrior e por desacordos sobre questões agrícolas comerciais, ambientais e sobre a políticas sobre a zona livre de armas nucleares da Nova Zelândia. Apesar da suspensão das obrigações dos Estados Unidos, o tratado ANZUS permaneceu em vigor entre a Nova Zelândia e a Austrália, cuja política externa tem seguido uma tendência semelhante. Próximos, contatos políticos são mantidos entre eles, de livre comércio e organização de viagens que permitem aos cidadãos visitar, viver e trabalhar em ambos os países sem qualquer restrição. Mais de 500 mil neozelandeses vivem na Austrália e 65 mil australianos vivem na Nova Zelândia.

A Nova Zelândia tem uma expressiva presença entre os países insulares do Pacífico. Uma grande proporção da ajuda externa, em contrapartida, vai para esses países e muitos povos do Pacífico migram para a Nova Zelândia em busca de emprego. A migração permanente é regulamentada no âmbito do programa do governo, que permitem até 1.100 samoanos e até 750 habitantes de outras ilhas do Pacífico, respectivamente, para se tornarem residentes permanentes da Nova Zelândia por ano. Um esquema de trabalhadores sazonais de migração temporária foi introduzido em 2007 e em 2009 cerca de 8.000 habitantes das ilhas do Pacífico foram empregados nele. A Nova Zelândia está envolvida no Fórum das Ilhas do Pacífico, Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico e do Fórum Regional da Associação de Nações do Sudeste Asiático, incluindo a Cúpula do Leste Asiático. O país é membro da Organização das Nações Unidas, da Comunidade das Nações, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e os Cinco Acordos de Força de Defesa. A nação experimentou um período de prosperidade crescente após a 2ª guerra mundial e os māori começaram a deixar sua vida rural tradicional e ir para as cidades em busca de trabalho. Um movimento de protesto dos māori desenvolveu-se, criticando o eurocentrismo e trabalhando por reconhecimento da cultura māori e do Tratado de Waitangi. Em 1975, um Tribunal Waitangi foi criado para investigar as violações do tratado e foi habilitado para investigar queixas históricas em 1985. Depois da assinatura do Tratado, no início da década de 1840, o governador da colônia inglesa, William Hobson, teve que eleger uma capital para a colônia. A capital era Kororareka, na atualidade chamada Russell, em Bay of Islands. Sem dúvida, Kororareka estava muito distante do restante do país e, além disso, tinha uma má reputação moralista cristã devido ao alcoolismo e imoralidade dos seus habitantes. 

Com base nos conselhos do missionário Henry Williamson, Hobson elegeu a praia sul do porto natural de Waitemata como nova capital. Adquiriu-se a terra necessária aos seus proprietários, a tribo maori dos Ngati Whatua, e a cerimónia de fundação teve lugar às 13 horas de 18 de setembro de 1840. Hobson escolheu o nome em honra de George Eden, primeiro duque de Auckland, seu protetor e amigo. Em 1865, a capital mudou-se para Port Nicholson, e o nome para Wellington. As vantagens estratégicas da posição geopolítica central tornaram-se óbvias evidentemente quando a Ilha do Sul cresceu em prosperidade econômica com pesquisa e desenvolvimento (P&D) sobre a descoberta de ouro em Otago e o desenvolvimento da criação de ovelhas e a refrigeração. Politicamente a Força de Defesa da Nova Zelândia é composta por três ramos: a Marinha Real da Nova Zelândia, o Exército da Nova Zelândia e a Força Aérea Real da Nova Zelândia. As necessidades de defesa nacional da Nova Zelândia não são modestas, devido à improbabilidade de ataque direto, mesmo com a presença global do país. A Nova Zelândia lutou nas duas guerras mundiais, com campanhas notáveis em Galípoli, Creta, El Alamein e Cassino. A Campanha de Galípoli desempenhou um papel importante na promoção da identidade nacional da Nova Zelândia e fortaleceu a tradição da Australian and New Zealand Army Corps (ANZAC) compartilhada com a Austrália. 

De acordo com Mary Edmond-Paul, “a Primeira Guerra Mundial tinha deixado cicatrizes na sociedade neozelandesa, com cerca de 18.500, no total, mortos como resultado da guerra, mais de 41 mil feridos e outros afetados emocionalmente, de uma força de combate no exterior de cerca de 103 mil e uma população de pouco mais de um milhão”. A Nova Zelândia também teve uma importante participação na Batalha do Rio da Prata (1939) e na campanha aérea da Batalha da Grã-Bretanha (1940-1941). Durante a 2ª guerra mundial, os Estados Unidos da América tinham mais de 400 mil militares norte-americanos estacionados na Nova Zelândia. Além do Vietnã e das duas guerras mundiais, a Nova Zelândia lutou na Guerra da Coreia (1950-1953), na Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902), na Emergência Malaia, guerra de guerrilha travada entre as forças armadas da Commonwealth e o Exército de Libertação Nacional Malaio (ELNM), o braço militar do Partido Comunista da Malásia, de 1948 a 1960, na Guerra do Golfo, 2 de agosto de 1990 até 28 de fevereiro de 1991 e na Guerra do Afeganistão, é a atual fase da guerra civil afegã, que opôs, inicialmente no período de outubro a novembro de 2001, os Estados Unidos da América, com a contribuição militar da organização armada muçulmana Aliança do Norte e de países ocidentais (Reino Unido, França, Canadá e outros), ao regime talibã. 

O país tem contribuído com forças militares para várias missões de paz regionais e globais, tais como aquelas no Chipre, Somália, Bósnia e Herzegovina, Suez, Angola, Camboja, fronteira Irã-Iraque, Bougainville, Timor-Leste e nas Ilhas Salomão. A nação enviou uma unidade de engenheiros do exército de para ajudar na reconstrução de infraestrutura do Iraque por um ano durante a Guerra do IraqueA Campanha de Galípoli, também reconhecida como Batalha dos Dardanelos, teve como palco a península de Galípoli na Turquia, de 25 de abril de 1915 a 9 de janeiro de 1916, durante a 1ª grande guerra. Foi uma das campanhas mais custosas e trágicas da guerra. Forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas desembarcaram em Galípoli, numa tentativa de invasão da Turquia e captura do estreito de Dardanelos. A tentativa falhou, com pesadas perdas para ambos os lados. Os aliados se retiraram do local durante os meses de dezembro de 1915 e janeiro de 1916. As divisões ANZAC se viram especialmente danificadas, e esta campanha passou a significar certa dissensão por parte dos aliados oriundos da Nova Zelândia e da Austrália, que acusaram as tropas britânicas de arrogância, crueldade e inaptidão, bem como principais responsáveis pelo fracasso das operações. O Anzac Day (25 de abril) continua a ser a comemoração política mais significativa dos veteranos na Austrália e na Nova Zelândia, superando o Dia do Armistício/Dia da Lembrança. 

A Campanha de Galípoli repercutiu profundamente em todas as nações imperialistas envolvidas. Na Turquia, a batalha é percebida como um momento crucial e definitivo na história da nação, tendo em vista a questão política da defesa final da terra-mãe após séculos de desintegração do Império Otomano. A luta estabeleceu as bases para a Guerra de Independência Turca e a fundação da República Turca oito anos depois, sob Atatürk, ele, um comandante remanescente em Galípoli. A Nova Zelândia é uma monarquia constitucional com uma democracia parlamentar, embora a sua Constituição não seja codificada. Elizabeth II é a monarca neozelandesa e a chefe de Estado do país. A rainha é representada pelo governador-geral, que é nomeado a conselho do primeiro-ministro. O governador-geral pode exercer os poderes prerrogativas da Coroa, como revisão de casos de injustiça e nomeações de ministros, embaixadores e outros importantes funcionários públicos e, em raras situações, os poderes moderadores o de demitir um primeiro-ministro, dissolver o parlamento ou recusar o Consentimento Real de um projeto de lei. Os poderes da Rainha e do governador-geral são limitados por restrições constitucionais e não podem normalmente ser exercidos sem o Conselho de Ministros. O gabinete, formado por ministros e liderado pelo primeiro-ministro, é o órgão máximo de formulação de políticas públicas e por decidir as ações mais significativas do governo. Por convenção, os membros do gabinete estão ligados por responsabilidade coletiva de decisões tomadas pelo gabinete.

Bibliografia Geral Consultada.

FOUCAULT, Michel, Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mae, Minha Irma E Meu Irmão. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1977GINZBURG, Carlo e PONI, Carlo, “Il Nome e il Come: Scambi Ineguale e Mercato Storiografico”. In: Quaderni Storici, n˚ 40, 1979; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Einaudi Editore, 1986; ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz, “Menocchio e Rivière: Criminosos da Palavra, Poetas do Silêncio”. In: História: A Arte de Inventar o Passado. Bauru (São Paulo): Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2007; CUNHA, Rodrigo Bastos, Indícios de Leitura, Visões de Mundo e Construções de Sentido. Tese de Doutorado em Linguística. Instituto de Estudos Avançados da Linguagem. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2009; OGAWA, Carlos Eduardo de Almeida, História, Retórica, Poética, Prova: A Leitura de Carlo Ginzburg da Retórica de Aristóteles. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010; CUNHA, Marcelo Mourão Rodrigues, A História em Tempos de Crise; Friedrich Meinecke (1862-1954) e os Problemas do Historicismo Alemão. Tese de Doutorado em História. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2017; GALLO, Sílvio, Michel Foucault e as Insurreições. É Inútil Revoltar-se. São Paulo: Editora Intermeios, 2017; FOUCAULT, Michel; BENEDETTI, Ivone Castilho, Malfazer, Dizer Verdadeiro. São Paulo: Editora WMF; Editora Martins Fontes, 2018; PEREIRA, Karoline Machado Freire, Governamentalidade, Vigilância e Heterotopia na Sociedade Banóptica: Análise Discursiva de Propagandas de Condomínios Residenciais Fechados da Alphaville Urbanismo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Linguística. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2019; MELCHIOR, Stela Candioto, Vigilância Pós-Comercialização de Produtos para Saúde, Questões sobre Organização, Gestão e Implantação no Sistema Nacional de Vigilância Sanitária. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2020; FISCHER, Rosa Maria Bueno; ALMANSA, Sandra Espinosa, “Cinema, Escrita de Si e Alteridade: Experimentações com Jovens Universitários”. In: Educação: Teoria e Prática, vol. 34, n° 68, pp. E 55, 2024; VILASBÔAS, Kleyde Jomara Lessa, “Considerações Sobre o Dispositivo de Autoria, Segundo Michel Foucault”. In: Polymatheia – Volume 18 – Número 1 – 2025; entre outros. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Tau – Criação de Senhor & Escravo em Cativeiro de Alta Tecnologia.

                                                   Mas você ainda os obedece? Porque eles criaram você?”. Filme Tau (2018)                         

          Cativeiro, também reconhecido como zoocria é a atividade humana de manter preso algum animal em uma área determinada, espécies não domésticas, em geral com propósitos de manutenção, crescimento e reprodução de espécies. No caso dos zoológicos, também é importante para estabelecer populações de criação em cativeiro de animais raros e ameaçados, além de possibilitar o desenvolvimento de estudos científicos. Cativeiro também pode ser denominado como um local onde se mantém pessoas em cárcere privado. No caso dos negros escravos o cativeiro era geralmente a senzala. Hebreus ficaram em cativeiros quando estavam no Egito. Ao longo da história, hic et nunc, não apenas animais domésticos como animais de estimação e gado foram mantidos em cativeiro e sob cuidados humanos, mas também animais selvagens. Apesar do fato de animais selvagens terem sido abrigados por humanos por milhares de anos, esse cativeiro nem sempre se aproximou dos zoológicos atuais. Alguns foram tentativas fracassadas de domesticação. Além disso, em tempos passados, principalmente os ricos, aristocratas e reis coletavam animais selvagens por várias razões. Os ricos construíram os primeiros zoológicos como coleções para demonstrar seu domínio. Essas coleções particulares de animais eram reconhecidas como menageries. Ao contrário da domesticação, a ferocidade e o comportamento natural dos animais selvagens foram preservados e exibidos. Os zoológicos contemporâneos reivindicam outras razões para manter os animais sob cuidados humanos: conservação, educação e ciência. A história da criação tem como representação social um mito de criação (cf. Chauí, 2000) originado do judaísmo e do cristianismo, descrito nos primeiros capítulos do livro do Gênesis, na Bíblia.

Consiste na ideia per se de que Deus criou o universo e os seres vivos de forma sobrenatural. No entanto, o termo é mais comumente usado para referir-se à rejeição, por  motivos religiosos, de certos processos científicos biológicos, particularmente a evolução. Criacionistas, em geral, rejeitam a idade do universo e da Terra estipulada pela ciência moderna e defendem que o universo surgiu em apenas seis dias há menos de 10 mil anos e sua cosmologia é originária do literalismo bíblico. Existem, no entanto, um espectro contínuo de tipos de criacionismo, variando desde o criacionismo da Terra plana (cf. Randless, 1994) até a aceitação das teorias científicas modernas sem conflito com a leitura da Bíblia (cf. Miceli, 1994). Uma vertente do criacionismo cristão é o criacionismo científico, que entraram em conflito com a teoria da evolução nas escolas e tribunais dos Estados Unidos da América na primeira década do século XXI. Atualmente, muitos cristãos e judeus acreditam que os sete dias da criação do mundo, narrada pela Bíblia, não devem ser interpretados literalmente e apenas representam uma forma metafórica e alegórica de explicar o fato da criação do Universo. Mas, mesmo assim, uma corrente cristã, denominada fundamentalismo, originárias em certas regiões dos Estados Unidos da América, ainda acreditam numa leitura de interpretação estritamente literal da Bíblia. Alguns judeus ortodoxos defendem pontos de vistas semelhantes à vista de cristãos fundamentalistas. E per se rejeitam a teoria da evolução por considerarem-na incompatível com os livros da Torá, porém os judeus são consensualmente contrários ao criacionismo cristão. 

A razão disto é que consideram o criacionismo cristão baseado na Bíblia do Rei James (1611) e não em textos hebraicos originais, que incorporam comentários adicionais ao texto bíblico. Autores notaram a extrema confusão que reina na demasiado rica terminologia do imaginário social: signos, imagens, símbolos, alegorias, emblemas, arquétipos, esquemas (schémas), esquemas (schèmes), ilustrações, representações, diagramas e sinepsias são termos empregados pelos analistas do imaginário social. O esquema é uma generalização dinâmica e afetiva da imagem, constitui a factividade e a não-substantividade geral do parcours imaginário. O esquema aparenta-se ao que Jean Jean Piaget, na esteira de Herbert Silberer, chama “símbolo funcional” e comparativamente, ao que Gaston Bachelard na filosofia chama de “símbolo motor”. Faz a junção ente dos gestos inconscientes da sensório-motricidade, entre as dominantes reflexas e as representações. São esses esquemas que na antropologia do imaginário formam o “esqueleto dinâmico”, o esboço funcional da imaginação. A diferença entre os gestos reflexológicos que Gilbert Durand (1997) descreve analogamente e os esquemas é que estes últimos já não são apenas abstratos engramas teóricos, mas trajetos encarnados em representações concretas bem mais precisas. Os gestos diferenciados em esquemas vão determinar, em contato com o ambiente natural e social, os grandes arquétipos que Jung os definiu. Os arquétipos constituem as substantificações dos esquemas. Carl Jung vai buscar esta noção em Jakob Burckhardt e faz dela sinônimo de origem primordial, de enagrama, de margem original, de protótipo social.                             

O pensador evidencia claramente o caráter de trajeto antropológico dos arquétipos quando escreve que a imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz respeito também a certas condições inferiores da vida do espírito e da dinâmica da vida em geral. Bem longe de ter a primazia sobre a imagem, a ideia seria tão-somente o comprometimento pragmático do arquétipo imaginário num contexto histórico e epistemológico dado. Neste sentido, o mito representa um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema tende a compor uma narrativa. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias culturais. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do modo que o arquétipo promovia a ideia, o símbolo o nome, concordamos com Durand que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem anteviu Émile Bréhier, a “narrativa histórica e lendária”.  Foi este princípio, que o psicólogo Carl Jung sentiu abrangido por seus conceitos de “Arquétipo” e “Inconsciente coletivo”, justamente o que uniu o médico psiquiatra Jung ao físico Wolfgang Pauli, dando início às pesquisas interdisciplinares em física e psicologia. A sincronicidade, vale lembrar, se manifesta muitas vezes atemporalmente e/ou em eventos energéticos acausais, e em ambos são violados princípios associados ao paradigma científico vigente.           

        Tau é um espírito maligno na mitologia guarani. A mitologia tupi-guarani é o conjunto de narrativas sobre os deuses e espíritos dos diversos povos tupis-guaranis, antigos e atuais. Juntamente com as cosmogonias (narrativas de criação do universo), as antropogonias (sobre a criação da humanidade) e os rituais são parte das religiões destes povos. Embora Tau não seja visto como o Diabo é visto nas crenças cristãs, ele às vezes era chamado de Espírito do Mal e como tal, pode ser a personificação do próprio mal. Tau foi como um nêmesis de Angatupyry, pelo deus supremo da mitologia guarani, Tupã, e foi deixado com a humanidade na Terra. Tau se viu apaixonado por uma mulher chamada Kerana, filha de Marangatu, que vivia na tribo Guarani. Tau se disfarçou-se de um belo jovem e a cortejou por sete dias antes de decidir sequestrá-la, mas sua trama foi frustrada por Angatupyry, o espírito do bem. Tau e Angatupyry lutaram entre si por sete dias e sete noites até que ele foi finalmente derrotado. Após sua derrota, ele foi exilado da terra por Pytajovái, o deus da guerra e valor. Tau não se deu por vencido tão facilmente. Apesar de sua expulsão, ele retornou de alguma forma e sequestrou a bela Kerana. Algumas versões dizem que ele a estuprou enquanto a mantinha em cativeiro, alguns relatos etnográficos narram que Tau e Kerana se casaram. A história é frequentemente contada de formas diferentes porque os guaranis não tinham uma língua escrita. Seja qual for o caso, o produto da relação sexual de Tau e Kerana foram sete filhos que foram amaldiçoados pela deusa Arasy e nasceram como monstros. Cada um era reverenciado ou temido, cada um possuindo habilidades e características diferentes, essenciais para a tradição guarani. 

            A palavra tecnologia também pode ser usada para se referir a uma coleção de técnicas. Nesse contexto, é o estado atual do conhecimento da humanidade de como combinar recursos para produzir produtos desejados, resolver problemas, atender necessidades ou satisfazer desejos; inclui métodos técnicos, habilidades, processos, técnicas, ferramentas e matérias-primas. Quando combinado com outro termo, como “tecnologia médica” ou “tecnologia espacial”, refere-se ao estado do conhecimento e das ferramentas do campo. “Estado da arte” refere-se à alta tecnologia disponível para a humanidade em qualquer campo. A tecnologia pode ser vista como uma atividade que forma ou muda a cultura. Além disso, a tecnologia é a aplicação da matemática, da ciência e das artes em benefício da vida como é conhecida. Um exemplo é o surgimento da tecnologia de comunicação, que diminuiu as barreiras à interação humana e, como resultado, ajudou a gerar novas subculturas; o surgimento da cibercultura tem como base o desenvolvimento da rede mundial Internet e utilidade de uso do computador. Nem toda tecnologia aprimora a cultura de maneira criativa; a tecnologia também pode ajudar a facilitar a repressão política e a guerra por meio de ferramentas como armas. Como atividade cultural, a tecnologia antecede a ciência e a engenharia, cada uma das quais formaliza alguns aspectos do esforço tecnológico. Alta tecnologia (high tech) refere-se à tecnologia em estado da arte ou de ponta (cutting-edge), isto é, que trabalha com as mais recentes inovações tecnológicas, ou na sua investigação.             

Tecnologia do grego τέχνη: técnica, arte, ofício e -λογία: estudo, é o conjunto de processos e habilidades usados na produção de bens ou serviços, ou na realização de objetivos, como em investigações científicas. Isso também pode ser embutido em máquinas para permitir a operação tecnológica destas sem reconhecimento detalhado do funcionamento. Sistema tecnológico ou computacional que através do input de dados, faz à análise destes e, então produz um resultado. A distinção entre ciência, engenharia e tecnologia nem sempre é clara. Ciência é um conhecimento sistemático do mundo físico ou material obtido através da observação e experimentação. As tecnologias geralmente não são exclusivamente produtos da ciência, porque precisam satisfazer requisitos como utilidade, usabilidade e segurança. A engenharia é o processo orientado a objetivos de projetar e fabricar ferramentas e sistemas para explorar fenômenos naturais por meios humanos práticos, frequentemente, mas nem sempre, usando resultados e técnicas da obtidos através da ciência. O desenvolvimento da tecnologia em seu ersatz pode recorrer a muitos campos do conhecimento, incluindo o conhecimento científico, de engenharia, matemático, linguístico e histórico, para alcançar algum resultado prático. A tecnologia é frequentemente uma consequência da ciência e da engenharia, embora a tecnologia como atividade humana anteceda os dois campos. Por exemplo, a ciência pode estudar o fluxo de elétrons em condutores elétricos usando ferramentas e conhecimentos já existentes.

Esse conhecimento recém-encontrado pode ser usado pelos engenheiros para criar novas ferramentas e máquinas, como semicondutores, computadores e outras formas de tecnologia avançada. Nesse sentido, cientistas e engenheiros podem ser considerados tecnólogos; os três campos são frequentemente considerados um para fins de pesquisa e referência. As relações exatas entre ciência e tecnologia, em particular, foram debatidas por cientistas, historiadores e formuladores de políticas no final do século XX, em parte porque o debate pode informar o financiamento da ciência básica e aplicada. No surgimento imediato da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), por exemplo, foi amplamente considerado nos Estados Unidos da América (EUA) que a tecnologia era simplesmente “ciência aplicada” e que financiar a ciência básica era colher resultados tecnológicos no devido tempo histórico, social ou político. Uma articulação dessa filosofia pode ser encontrada explicitamente na dissertação de Vannevar Bush (1890-1974) sobre a C&T do pós-guerra, Science - The Endless Frontier: “Novos produtos, novas indústrias e mais empregos exigem acréscimos contínuos ao conhecimento das leis da natureza (...). Este novo conhecimento essencial pode ser obtido apenas por meio de pesquisa científica básica”. No final da década de 1960, essa visão ficou sob ataque, levando a iniciativas para financiar a ciência para tarefas específicas, iniciativas resistidas pela comunidade científica. 

A questão permanece historicamente controversa, embora a maioria dos analistas ocidentais resista ao modelo de que a representação social da tecnologia é resultado de pesquisa científica. A questão fenomenologicamente (cf. Hegel, 2007) diz respeito a saber: por que a dialética do “Senhor e do Escravo” é necessária para a compreensão da ideia de liberdade? São representações instrumentais de um diálogo racional entre duas consciências que por sua vez foram imaginadas por Friedrich Hegel (1807) que brilhantemente utilizou o diálogo entre as duas consciências para chegar ao reconhecimento de si e para si, permitindo a ideia de liberdade, uma liberdade pautada pelo respeito mútuo. E a exata importância e posição que ocupam as duas consciências, que inicialmente em guerra e posteriormente pelo amadurecimento que as leva a ideia de liberdade pautada em limitadores essenciais para a convivência harmoniosa. Reconhecer a si mesmo e ao outro é uma forma de ver nossos limites e dos demais, respeitando e sendo respeitado são elementos necessários para a paz e a liberdade. Hegel se utiliza habilmente desta metáfora. A dialética do “senhor e do escravo” é um processo de liberdade estabelecido nas relações sociais de reconhecimento. Neste sentido a figura humana de John Lennon (1940-1980) é representativa da ideia filosófica de Immanuel Kant a Friedrich Hegel de liberdade, mas o autor não existe fora da linguagem e cultura. Daí o fato que reitera o etnocentrismo quando interpretamos que toda cultura opera assim uma divisão entre ela mesma, quando se firma como representação por excelência do humano, e os outros, que participam da humanidade apenas em grau menor.                       

O discurso que as sociedades ditas primitivas, na falta de melhor expressão, fazem sobre si mesmas, discurso condensado nos nomes que elas se dão, é, portanto, etnocêntrico de uma ponta à outra: afirmação da superioridade de sua existência cultural, recusa de reconhecer os outros como iguais. O etnocentrismo aparece então como a “coisa” do mundo mais bem distribuída e, desse ponto de vista pelo menos, a cultura do Ocidente não se distingue das outras. Convém mesmo, aprofundando um pouco mais a análise, pensar o etnocentrismo como uma propriedade formal de toda formação cultural, como imanente à própria cultura. Pertence à essência da cultura ser etnocêntrica, na medida exata em que toda cultura se considera como a cultura por excelência. Noutras palavras, a alteridade cultural nunca é apreendida como “diferença positiva”, mas sempre como inferioridade segundo uma interpretação cultural subjetiva de dominância tipicamente hierárquica. Um exemplo conspícuo refere-se ao tratamento do tema “orientalismo”, comumente utilizado para definir o estudo constituído por todas as sociedades fora do contexto histórico, teórico e ideológico ocidental, da cultura global europeia, – quando utilizamos a noção “pós-orientalismo”. Por duas razões: a) É correlata à filosofia dita “pós-moderna”; b) Trata-se de um eclético e elusivo movimento social caracterizado por sua crítica analítica à filosofia ocidental. E fora de dúvida sofreu influências, também, em certo grau associado ao desenvolvimento do positivismo no âmbito da filosofia de Ludwig Wittgenstein.

Sequestrada por um inventor que a faz de cobaia para aprimorar um sistema de inteligência artificial robótica, uma jovem (Maika Monroe) tenta fugir de seu cativeiro de alta tecnologia. Tau tem como representação social um filme estado-unidense dos gêneros ficção científica e suspense.  É um gênero da ficção especulativa, que normalmente lida com conceitos ficcionais e imaginativos, relacionados ao futuro, ciência & tecnologia, e seus impactos e/ou consequências em uma determinada sociedade ou em seus indivíduos, desenvolvido no século XIX. O filme foi realizado por Federico D`Alessandro, escrito por Noga Landau, roteirista e produtora executiva norte-americana e protagonizado por Maika Monroe, atriz e atleta de kiteboard profissional norte-americana. Ela iniciou sua carreira no esporte, alcançando reconhecimento internacional antes de migrar para a atuação, Ed Skrein, ator e cantor britânico mais reconhecido por Frank Martin em Le Transporteur: Héritage e Gary Oldman, um ator, diretor e produtor cinematográfico britânico, vencedor do Óscar de Melhor Ator pelo seu papel de Winston Churchill no filme Darkest Hour. Em maio de 2016, foi anunciado que Maika Monroe e Ed Skrein foram escalados para protagonizar o filme, com Federico D`Alessandro sendo o realizador, e David S. Goyer, Kevin Turen, Russell Ackerman, e John Schoenfelder como produtores, e Ken Kao, Dan Kao e Luc Étienne como produtores executivos, nos estúdios Addictive Pictures, Phantom 4, e Waypoint Entertainment. Em agosto de 2016, foi anunciado que a Rhea Films e a Hercules Film Fund seriam as produtoras do filme. Em novembro de 2017, a Netflix comprou os direitos de distribuição cinematográfica. O filme foi lançado a 29 de junho de 2018. Estreou-se na Netflix a 29 de junho de 2018.

            Julia é uma jovem que rouba em casas noturnas decadentes. Ela é sequestrada de casa e acorda em uma cela com um implante brilhante na nuca. Dois outros indivíduos a acompanham. Após múltiplas sessões de tortura psicológica por um homem chamado Alex, ela destrói a cela e o laboratório adjacente em uma tentativa de fuga. Os outros dois indivíduos são mortos por um robô, Aries, comandado por uma inteligência artificial (IA) chamada Tau. Aries está prestes a matar Julia quando Alex chega e detém o robô. Alex revela que o implante está coletando a atividade neural de Julia para um projeto de IA. O interesse no desenvolvimento de máquinas autônomas capazes de simular o pensamento humano e de realizar várias tarefas cresceu vertiginosamente nas últimas décadas, da segunda metade do século XX, realizando assim os primeiros estudos e pesquisas sociais sobre inteligência artificial (IA) a um propósito comum, a partir de iniciativas de cientistas de diversas áreas, como: psicologia, ciência cognitiva, ciência da computação e, robótica. Ferramentas eficientes em analisar problemas e oferecer soluções e planejamentos (tomada de decisão), automatização de tarefas no cotidiano das pessoas. No filme a destruição do laboratório atrasou sua pesquisa. Diante de um prazo de duas semanas, Alex mantém Julia prisioneira em sua casa e insiste que ela complete quebra-cabeças e testes cognitivos. Enquanto Alex está fora, trabalhando todos os dias, Julia conversa com Tau sobre o mundo fora de casa. É claro que, embora inteligente em alguns aspectos, Tau ignora como as pessoas se sentem ou o mundo em geral. Enquanto Tau começa a entender o mal na situação de Julia, sua programação o impede de libertá-la.                            

Em troca de informações sobre o mundo exterior, Tau gradualmente revela mais informações sobre a casa, bem como sobre os experimentos de Alex. Julia acessa secretamente o tablet de Alex e descobre que dez indivíduos morreram em seus experimentos. Mais tarde, Alex descobre sua impressão digital no tablet e presume que Tau se descuidou em suas funções, então pune Tau apagando seu código e memórias, causando dor à IA. Julia percebe que o monitoramento de Tau sobre ela é desativado durante a punição, então, sem ser detectada, ela esconde uma faca de carne. Quando Alex retorna mais tarde naquela noite de um evento beneficente, Julia começa a seduzi-lo enquanto ele está sentado à mesa da cozinha e, em seguida, o esfaqueia. Enquanto os dois lutam, Tau ameaça Alex com dor se ele não parar de machucar Julia. Alex força Áries a bater em Julia repetidamente e então diz a Tau e Julia que o que quer que estivesse acontecendo acabou. Enquanto conserta Tau, ele desconecta um drone da rede. No dia seguinte, Julia convence Tau de que Alex a matará se ela não escapar. Tau contorna a proibição de soltá-la abrindo um duto de ar no átrio. Enquanto ela escapa, Alex chega, vê Julia desaparecida e começa a punir Tau. Julia retorna para salvar Tau, mas é tarde demais — todas as memórias que ele tinha dela foram apagadas. Alex prende Julia no porão para extrair seu implante, um procedimento que a matará. O drone desconectado, ainda contendo a consciência e as memórias anteriores de Tau, ajuda Julia a se libertar de suas amarras. Ela deixa Alex inconsciente e corta sua mão com uma serra de osso para usar nos sensores biométricos da casa. Áries a vê no átrio e a persegue escada acima até o quarto de Alex. Quando o robô arromba a porta, ela usa a mão decepada de Alex para ativar o mecanismo de autodestruição simultaneamente da casa.                         

Alex emerge, ainda viva, mas é esmagada pela alvenaria que cai enquanto a casa se destrói. Julia escapa por pouco através de uma parede rachada com o drone que a salvou — tudo o que resta de Tau. Desde o início os fundamentos da inteligência artificial tiveram o suporte de várias disciplinas que contribuíram com ideias, pontos de vista e técnicas para a IA. Os filósofos (desde 400 a.C.) tornaram a IA concebível, considerando as ideias de que a mente é, em alguns aspectos, semelhante a uma máquina, de que ela opera sobre o conhecimento codificado em alguma linguagem interna e que o pensamento pode ser usado para escolher as ações que deverão ser executadas. Por sua vez, os matemáticos forneceram as ferramentas para manipular declarações de certeza lógica, bem como declarações incertas e probabilísticas. Eles também definiram a base para a compreensão da computação e do raciocínio sobre algoritmos. Os economistas formalizaram o problema de tomar decisões que maximizam o resultado esperado para o tomador de decisões. Os psicólogos adotaram a ideia de que os seres humanos e os animais podem ser considerados máquinas de processamento de informações. Os linguistas que o uso da linguagem se ajusta a esse modelo. Os engenheiros fornecem os artefatos que tornam possíveis as aplicações de IA. Os programas de IA tendem a ser extensos e não poderiam funcionar sem os grandes avanços em velocidade e memória que a indústria de informática tem proporcionado.

            O desenvolvimento dessa ideia ocorreu plenamente no século XX, principalmente na década de 1950, com pensadores como Allan Turing, Herbert Simon e, John McCarthy. Turing escreveu o artigo Computing Machinery and InteIligence sobre a possibilidade de uma máquina pensar e imitar o comportamento inteligente com tal perfeição, de forma que pudesse confundir até um juiz humano. Turing também esboçou uma proposta de pesquisa para tornar possível. Inicialmente os testes em IA foram repletos de sucessos – porém limitados devido o desempenho reduzido dos primeiros computadores – o que causava surpresa, foi o fato de um computador realizar atividade remotamente inteligente. O sucesso inicial prosseguiu em 1957 com o General Problem Solver (GPS) desenvolvido por Herbert Simon e Allen Newell, um programa foi projetado para imitar protocolos humanos de resolução de problemas. Dentro da classe limitada de quebra-cabeças com a qual podia lidar, verificou-se que a ordem em que os seres humanos abordavam os mesmos problemas. Desse modo, o GPS talvez tenha sido o primeiro programa a incorporar a abordagem de “pensar de forma humana”. Em 1961, a proposta de Turing voltou no artigo de Herbert Simon e Allen Newell intitulado: The Simulation of Human Thought sobre o teste de uma teoria de resolução humana de problemas.

            Esta teoria tenta explicar alguns aspectos dos processos mentais responsáveis pela inteligência humana, um projeto de estudos reconhecido pelo nome de Projeto de Simulação Cognitiva. A questão coloquial sobre o que é “inteligência artificial”, mesmo como antes definida, pode ser separada abstratamente em duas partes: “qual a natureza do artificial” e “o que é inteligência”. A primeira questão é de resolução relativamente fácil, apontando, no entanto, para a questão de o que poderá o homem construir. A segunda questão seria consideravelmente mais difícil, levantando a questão da consciência, identidade e mente, incluindo a mente inconsciente, juntamente com a questão de que componentes estão envolvidos no único tipo de inteligência que universalmente se aceita como estando ao alcance do nosso estudo: a inteligência do ser humano. O estudo de animais e de sistemas artificiais que não são modelos triviais começa a ser considerado como pauta de estudo na área da inteligência. Ao conceituar inteligência artificial, presume-se a interação com o ambiente, diante de necessidades reais como relações entre indivíduos semelhantes, a disputa entre indivíduos diferentes, perseguição e fuga; além da comunicação simbólica específica de causa e efeito em diversos níveis de compreensão intuitiva, consciente. As críticas sobre a impossibilidade de criar uma inteligência em um composto artificial podem ser encontradas em Jean-François Lyotard (“O Pós-humano”) e Lucien Sfez (“Crítica da Comunicação”); para sermos breves, uma contextualização didática do debate encontra-se em Sherry Turkle (“O segundo Eu: os computadores e o espírito humano”).

Pode-se resumir o argumento central no fato de que a própria concepção de inteligência é humana e, nesse sentido, animal e biológica. A possibilidade de transportá-la para uma base plástica, artificial, encontra um limite claro e preciso: se uma inteligência puder ser gerada a partir destes elementos, deverá ser necessariamente diferente da humana, na medida em que seu resultado provém da emergência de elementos totalmente diferentes dos encontrados nos humanos. A inteligência, tal como a entendemos, é essencialmente o fruto problemático do cruzamento da uma base biológica com um complexo simbólico e cultural, impossível de ser reproduzido artificialmente. Outros filósofos sustentam visões diferentes. Ainda que não vejam problemas com a chamada IA fraca, entendem que há elementos suficientes para se crer na IA forte também. Daniel Dennett (1942-2024) argumenta em Consciência Explicada que se não há uma centelha mágica ou alma nos seres humanos, então o Homem é apenas uma outra máquina. Dennett problematiza por que razão o Homem-máquina deve ter uma posição privilegiada sobre todas as outras máquinas contemporâneas quando provido de inteligência. Alguns autores sustentam que se a IA fraca é possível, então também o é a forte. O argumento da IA fraca, de uma inteligência imitada, mas não real, desvelaria assim uma suposta validação da IA forte. Isso se daria porque, tal como entende Simon Blackburn em seu livro Think, dentre outros, não existe a possibilidade de verificar se uma inteligência é verdadeira ou não. Estes autores argumentam que toda inteligência apenas parece inteligência, sem necessariamente o ser. Parte-se do princípio que é impossível separar o que é inteligência de fato do que é apenas simulação: apenas acredita-se ser.

            Os principais pesquisadores e livros didáticos definem o campo como “o estudo e projeto de agentes inteligentes”, onde um agente inteligente é um sistema que percebe seu ambiente e toma atitudes que maximizam suas chances de sucesso. Andreas Kaplan e Michael Haenlein definem a inteligência artificial como “uma capacidade do sistema para interpretar corretamente dados externos, aprender a partir desses dados e utilizar essas aprendizagens para atingir objetivos e tarefas específicas através de adaptação flexível”. John McCarthy, quem caracterizou o termo em 1956, “numa conferência de especialistas celebrada em Darmouth Colege”, genericamente em que a define como “a ciência e engenharia de produzir sistemas inteligentes”. É uma área de pesquisa da computação dedicada a buscar métodos ou dispositivos computacionais que possuam ou multipliquem a capacidade racional do ser humano de resolver problemas, pensar ou, de forma ampla, ser inteligente. Nas últimas décadas, o campo expandiu-se para incluir subáreas como aprendizado de máquina, redes neurais artificiais, processamento de linguagem natural e de forma extraordinária, uma visão computacional, com ênfase crescente em técnicas estatísticas, métodos conexionistas e abordagens híbridas que combinam modelos simbólicos e aprendizagem profunda. Também pode ser definida como o ramo da ciência da computação que “se ocupa do comportamento inteligente”, ou ainda, o estudo de como fazer os computadores realizarem coisas que, atualmente, os humanos fazem melhor.

Bibliografia Geral Consultada.

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