“Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade”.
Michel de Certeau
A
Rua Augusta é uma via arterial da cidade de São Paulo que liga o bairro dos
Jardins a região do Centro Histórico de São Paulo. A rua é reconhecida por suas
lojas, boutiques e estabelecimentos de luxo na região dos Jardins e por suas
boates, casas noturnas, bares e vida noturna na região que parte da Avenida
Paulista em direção ao Centro, passando pela região reconhecida como Baixo
Augusta. A rua segue em subida a partir de seu início no entroncamento das ruas
Martins Fontes, Martinho Prado e a Praça Franklin Roosevelt, até o cruzamento
com a Avenida Paulista. Após cruzar a Paulista, ela se torna uma descida
seguindo em direção à Rua Colômbia, no Jardim Europa. A Rua Augusta é
reconhecida principalmente por sua vida noturna de bares, baladas e casas de
shows variadas, mas também por algumas casas de prostituição, saunas e boates
adultas. As primeiras referências dela datam de 1875, chamando-se primeiramente
Rua Maria Augusta; em 1897 já aparece como Rua Augusta. Foi parte das terras do
português Mariano António Vieira, dono da Chácara do Capão desde 1880, quando
abriu várias ruas no Bairro da Bela Sintra, inclusive a Rua da Real Grandeza,
atual Avenida Paulista. Resolveu abrir uma trilha, pois os caminhos eram íngremes, para posteriormente serem instalados bondes puxados por burros, em
1890.
Apenas em 1891 com a inauguração da
luz elétrica, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi
estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, ficando oficial em 1927. Até 1942, a
Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande
ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada (Decreto Lei N.º 153). Do
lado oposto, em direção aos "Jardins", o seu prolongamento até a Rua
Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome Augusta: tudo leva a crer que o
responsável pela sua abertura, o português Mariano Antônio Vieira, não quis
homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou
adjetivo) ao chamá-la de Rua Augusta. Colabora para esta versão o fato de que o
mesmo Mariano, ao abrir uma “picada” no alto do Morro do Caaguaçu, chamou este
logradouro de “Rua da Real Grandeza”. Historicamente vieram os loteamentos,
quando surgiram confortáveis residências e comércio para servi-las.
Gradativamente começaram a surgir edifícios de moradia. Grande parte de comércio
fino de decoração se instalou na região central-ascendente, a partir da Rua
Marquês de Paranaguá. As casas residenciais deram lugar ao comércio de rua.
Shoppings Centers e Cinemas de categoria social se instalaram frequentados
pelas famílias e mais tarde pelos jovens que buscavam distração. Caminho certo
rumo aos bairros dos Jardins e seus clubes, como o Club Athletico Paulistano, a
Sociedade Harmonia de Tênis e o Esporte Clube Pinheiros.
A
Rua Augusta representou para os jovens paulistanos na década de 1960, glamour e
diversão. A canção Rua Augusta, de Ronnie Cord, lançada em 1964 foi uma espécie
de hino da juventude paulistana que frequentava o logradouro nesta época. A
partir da década de 1970, começou a adaptar-se às mudanças, dado o pesado
tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros
comerciais, aliado à falta de estacionamento. Mesmo assim, os jovens
continuaram a estar por lá com suas motos, carros envenenados e muito
congestionamento, principalmente, entre as décadas de1970 e 1980. Haviam muitas
discotecas e casas de danças para acompanhar os “embalos de sábado à noite”,
pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Está
sempre sendo atualizada desde aquela época de grande urbanismo e de seu
radiante desenvolvimento, com a reforma do calçamento, decoração com vasos,
retirada de uma parte dos postes de iluminação pública obsoletos, colocação de
carpete, estacionamento para automóveis na Zona Azul, subterrâneo, construção
de boulevard e o desligamento do
trafego dos ônibus elétricos com as novas calçadas. Na década de 1970 a rua
Augusta perdeu seu prestígio e comércio, provavelmente, por conta da abertura de grandes Shoppings Centers na cidade de São Paulo. Nessa época também foram abertos diversos
prostíbulos em seu entorno.
A rua modernizou-se em 1993 com a abertura e
desenvolvimento do projeto social do cinema Espaço Unibanco. A partir da década
de 2000, a Rua Augusta voltou a ser parte e principalmente a rememorar da vida
noturna dentre os jovens. A Augusta abriu o Vegas Club, The Pub,
Club Noir, o Comedy Club Comedians, considerado o primeiro de comédias do
Brasil, YO restaurante, e outros. Seu entorno é ambientado por bares,
restaurantes, casas noturnas, lojas e antigos prostíbulos. Na perspectiva de democratização, condição para uma nova estética urbana, duas redes retêm
particularmente a atenção sociológica: os gestos
e os relatos. Ambos se caracterizam
como cadeias de operações feitas
sobre e com o léxico das coisas. De dois modos distintos, um tático e outro
linguístico, os gestos e os relatos manipulam e deslocam objetos,
modificando-lhe as repartições e os empregos. São “bricolagens”, de acordo com
o modelo reconhecido ao mito por Claude Lévi-Strauss. Inventam colagens casando
citações de passados com extratos de presentes para fazer deles séries
(processos gestuais, itinerários narrativos) onde os contrários simbolizam. Os
gestos são verdadeiros arquivos da cidade, se entendermos “arquivos” o passado
selecionado e reempregado em função de usos presentes.
Refazem diariamente a
paisagem urbana. Esculpem nele mil passados que talvez já sejam inomináveis e
que menos ainda estruturam a experiência da cidade. As histórias sem palavras
do andar, do vestir-se, de morar ou do cozinhar trabalham os bairros com
ausências; traçam aí memórias que não têm mais lugar – infâncias, tradições
genealógicas, eventos sem data. Este é também o “trabalho” dos relatos urbanos.
Nos cafés, nos escritórios, nos imóveis eles insinuam espaços diferentes.
Acrescentam à cidade visível as “cidades invisíveis” de Calvino. Eles
criam outra dimensão, sempre mais fantástica e delinquente, terrível ou
legitimadora. Por isso, tornam a cidade “confiável”, atribuindo-lhe uma profundidade
ignorada a inventariar e abrindo-a a viagens do olhar. São as chaves da cidade:
elas dão acesso ao que ela é, mítica. Habitar é narrativizar. Fomentar ou
restaurar esta narratividade é, portanto também uma tarefa de restauração. É
preciso despertar as histórias que dormem nas ruas que jazem de vez em quando
num simples nome, dobradas neste dedal como as sedas da feiticeira. Jamais
talvez uma sociedade se tenha beneficiado de uma mitologia tão rica. Mas a
cidade é o teatro de uma guerra dos relatos, como a cidade grega era o campo
fechado de guerras contra os deuses. Entre nós, os grandes relatos da televisão
ou da publicidade esmagam ou atomizam os pequenos relatos de rua ou de bairro.
É urgente que a restauração venha em socorro desses últimos,
registrando e difundindo as que se contam no padeiro, no café ou em casa. Mas
isto é feito arrancando-as de seus lugares, relatos de palavras nos bairros ou
imóveis restituiriam aos relatos os solos onde podem desabrochar.
O bairro se define sociologicamente como uma
organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida
cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos,
cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo
vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o
ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele
espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de
“se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um
“engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos,
comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da
proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois
sistemas com o auxílio do conceito de conveniência,
que surge no nível dos comportamentos. Representa um compromisso pelo qual
cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a
vida coletiva,retirando daí benefícios
simbólicos protelados.
Pela relação “saber comportar-se”, o
usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidiana. A
contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser
reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar
assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que
percorre. O bairro é por definição, segundo a fenomenologia de de
Certeau (2000), “um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma
parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se
sente reconhecido”. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente,
como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço
privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social
integrado. A fixidez do habitat dos
usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento
que se estabelecem graças á coexistência concreta num mesmo território
urbano, constituindo um lugar praticado, de elementos práticos se nos
oferecem como imensos campos de exploração a compreender um pouco melhor esta
grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.
É
o que ocorreu com “O Artista de Rua” Ricardo Corrêa da Silva que morreu na
tarde de sexta-feira do dia 15 de dezembro de/2017 em São Paulo aos 60 anos de idade. De acordo com a
família, ele estava internado na ala psiquiátrica do Complexo Hospitalar do
Mandaqui, na zona norte da cidade de São Paulo, sofreu um ataque cardíaco e foi
transferido para o pronto-socorro, mas não resistiu. Ainda não há informações
sobre a causa exata da morte. Personagem famoso ena cidade de São Paulo, Ricardo viu sua
história de vida ganhar visibilidade após uma reportagem publicada no site Buzzfeed. Popularmente reconhecido como “Fofão
da Augusta”, por causa de um preenchimento de silicone que tinha nas bochechas,
Ricardo, que sofria de esquizofrenia, trilhou uma bem-sucedida carreira como
cabeleireiro e se tornou sócio de um salão de beleza. No entanto, após sofrer
golpes e ver sua saúde mental se deteriorar, foi morar na rua e passou a
distribuir panfletos de teatro e pedir dinheiro fantasiado de palhaço na região
central de São Paulo. - “Ao longo da vida fomos percebendo que o Ricardo
realmente tinha uma questão de saúde mental, o que deu a ele uma personalidade
exuberante e sucesso em São Paulo, embora tenha vivido essa vida intensa e com
tanto sofrimento. Pelo menos nos conformamos com o fato de ele ter descansado”,
afirmou seu irmão Marcelo Corrêa da Silva.
Ricardo
Corrêa da Silva sonhava em ver seu nome nos letreiros do teatro. Nos anos 1970,
saiu da cidade de Araraquara a 273 km de São Paulo, para trabalhar com artes
cênicas. Acabou enveredando pelo “visagismo”, em que se demonstrou um talento
nato. Penteou e maquiou artistas como Tônia Carrero na época em que despontou
em alguns dos maiores salões da capital. Investia o dinheiro que ganhava em um
ideal de beleza: queria ser igual a uma boneca chinesa de porcelana. Para isso,
injetou mais de meio litro de silicone nas maçãs do rosto, nas bochechas e na
testa. Fez plástica. No fim dos anos 1980, a esquizofrenia e um golpe de que
foi vítima tiraram o que havia conquistado. Acabou sem casa. Passou a se
apresentar nos semáforos da Rua Augusta. E seu espetáculo ficou em cartaz por
décadas. Ficou conhecido como “Fofão da Augusta”, apelido em que não se reconhecia.
– “Mas deixa chamarem assim, coisa boba”. Ele morou na última década sozinho
numa pensão, na chamada “cracolândia”, no centro, pela qual pagava diária de R$
30, e trabalhava distribuindo panfletos de peças de teatro na Av. Paulista.
Ricardo foi vítima de embolia pulmonar, menos de uma
semana depois de completar seu aniversário de 60 anos.
O bairro surge como o domínio onde a
relação de domínio espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja
deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da
cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço
público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada,
pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do
conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que
deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares
impostos pelo dinamismo do urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço
urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego,
itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por
si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção
dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a
repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma
apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna
inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para
satisfazer o desejo urbano pleno dos usuários da cidade.
Mas quem é, afinal, o Fofão da Rua Augusta, que depois da publicação do perfil escrito por Chico Felitti
tornou-se, para muitos e para muitas, o Ricardo Corrêa? Segundo Figueiredo
(2018: 226 e ss.), o perfil só foi possível, então, quando ficou sabendo, por uma
conhecida das redes sociais, que Ricardo estava num hospital e decidiu ir
visitá-lo. Após a primeira visita e depois de algum tempo de recuperação de
Ricardo, quando estava melhor de saúde, conseguindo falar sobre sua vida e com
a esquizofrenia mais controlada, o repórter disse que gostaria de contar a sua
história e queria que as pessoas soubessem quem ele realmente era. No hospital,
como indigente, ele não tinha direito a um nome, conta Felitti, assim como ele
não tinha direito a um nome na cidade, as pessoas chamavam ele de Fofão da
Augusta, ninguém sabia o nome dele. O perfil, dessa forma, também foi um
processo de busca de identidade. O afeto, além de mover a pesquisa do
jornalista, também está presente na sua capacidade de emocionar e comover as pessoas;
o que só foi possível porque, para escrever o perfil, o repórter acompanhou a
vida de seu personagem durante quatro meses – mas, no total, a convivência
durou um semestre inteiro. O exaustivo trabalho de apuração, a curiosidade, uma
atitude dialógica e de afeto, fez com que o repórter buscasse o Ricardo
herdeiro de 35 mil reais e o Ricardo pobre que pedia dinheiro na rua para
sobreviver; o homem que estava internado como indigente no Hospital das
Clínicas, mas que era reconhecido pelas pessoas na cidade como o Fofão da
Augusta; conhecido de todas e de todos que passavam pela região da Avenida
Paulista, mas que, na verdade, era um completo desconhecido para elas; o homem
que não gostava de aparecer, mas que dizia “eu não sou desconhecido. Eu sou
muito popular”. Ricardo Corrêa não é uma dessas coisas ou outra: Felitti faz
com que conheçamos um Ricardo que é uma dessas coisas e as outras também,
contraditório e complementaridade de opostos.
O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro que efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. A relação entrada ou saída, dentro ou fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa ou trabalho, representando uma relação entre pessoa e mundo, condicionado por uma dialética da autoconsciência que vai haurir, de forma humana, socialmente íntima.
A inauguração da luz elétrica, em 1891, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, tornando-se oficial em 1927. Mas até 1942 a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada, por motivos de “higienização”. Do lado oposto, em direção aos “Jardins”, o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome “Augusta” tudo leva a crer, de acordo com reminiscências, que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antonio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou ideológico) ao chamá-la de “Rua Augusta”. Colabora para esta ideia o fato social de que o mesmo Mariano, ao abrir uma picada no Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. As frações da classe dominante econômica e politicamente os empresários do café responsável pelas principais atividades do complexo cafeeiro e compondo as oligarquias, possuíam vínculos comerciais com a Europa, mas também culturais, sobretudo com a França.Paris, a
metrópole por excelência do século XIX, era a Meca para todos os povos, tendo
sido, por conseguinte, alvo dos paulistas enriquecidos. Era a capital da moda,
do luxo, do consumo, dos museus, dos teatros, dos esportes e dos demais tipos
de lazer de massa. Nela também aconteciam as grandes exposições internacionais.
O francês era a principal língua da ciência e da literatura, sendo falada nas
cortes que ainda persistiam na Europa como o fora, havia pouco tempo atrás, na
do Reinado do Brasil, com sede no Rio de Janeiro.
Com o tempo, tornaram-se
áreas exclusivas de palacetes, graças a uma legislação específica. Em 1894,
Joaquim Eugênio de Lima, um dos promotores da abertura da Avenida Paulista
conseguiu efetivar junto à Prefeitura uma lei que obrigava as futuras
construções a respeitarem um recuo de 10 metros com relação ao alinhamento das
calçadas, bem como de 2 metros lateralmente. Etnograficamente,
segundo Homem (1994), quatro anos depois, surgiram os recuos obrigatórios para
jardins e arvoredo e um espaço de pelo menos 2 metros de cada lado para as
residências a serem edificadas nas avenidas Higienópolis e Itatiaia, atual Avenida
Angélica. Os bairros dos Campos Elíseos, da Consolação, da Liberdade e de Santa
Cecília permaneceram como áreas mistas. Modificou-se a noção de morar da classe
dominante. A casa individualizou-se, passando a expressar o êxito econômico e
profissional do proprietário, bem como o seu grau de cosmopolitismo. Ela
tornou-se o refúgio das lutas pela vida e local de privacidade, ao mesmo tempo em
que devia proporcionar afastamento físico daquelas áreas e certa alienação
quanto às tensões e aos conflitos sociais. As camadas mais ricas procuraram viver
isoladamente. Em São Paulo, historicamente, as vilas foram as que mais disseram
respeito à tradição paulistana de auto-abastecimento, recém-saída do mercado da
escravidão. Com o Ecletismo, houve uma racionalização do espaço existente ao
redor da casa, no sentido de se definir uma posição para cada um dos
complementos da construção principal. Os parques e os jardins, utilizados para o lazer familiar, ficavam
sempre em posição fronteira ou lateral, relegando-se aos fundos, os elementos sociais
que diziam respeito aos serviços.
Numa
palavra, camuflou-se o trabalho manual, apartando-o da zona destinada ao uso
social. Os jardins do art nouveau
transformaram-se em moldura do palacete, compondo ambos um conjunto harmonioso.
Figuras sinuosas inspiradas no reino vegetal e mineral, tais como: gotas,
folhas e flores envolviam a construção principal que passou a ser o centro da
composição. Contudo, as áreas exclusivas de palacetes, complementadas pela
arborização das avenidas e demais vias que as recortavam, constituíram
importante “mancha verde”, apenas interrompida pela gama vermelha dos telhados,
dos belvederes e de torres esporádicas, a ponto de se tornarem a principal
característica dos bairros das elites paulistanas. Essa notável massa homogênea
assinalou a paisagem da cidade, tendo sido “independente do ecletismo de suas
edificações” a ponto de podermos defini-los como “verdadeiros marcos
referenciais urbanos” conforme observou o arquiteto Silvio Soares Macedo ao se
referir ao bairro de Higienópolis. Incluídos nos roteiros turísticos da cidade,
tais marcos atraíam a população de outros bairros que neles vinham passear nos fins
de semana. Da mesma forma, chamaram a atenção dos viajantes que estiveram na capital
paulista nesse período, os quais não deixaram de mencioná-los em seus
apontamentos de viagem. A
“Rua Augusta representou para jovens paulistanos na década de 1960 glamour e diversão. Rua Augusta" é uma
canção, composta pelo maestro brasileiro Hervé Cordovil e gravada pelo cantor
brasileiro Ronnie Cord, sendo seu maior sucesso, e lançada pela gravadora RCA
Victor em 1964. Rua Augusta foi a primeira música de rock brasileiro a ter
problemas com a censura. Sua terceira estrofe, - “Comigo não tem mais esse
negócio de farda/ não paro o meu carro nem se for na esquina/ tirei a 130 a
maior fina do guarda...” - foi cortada pela censura, tendo que ser substituída.
Sua letra captura o espírito da juventude roqueira do começo dos anos 1960, que
tinham suas motos e carros embalados na velocidade das mudanças de costumes
trazidos com o rock e o movimento da jovem guarda, na mesma época em que a Rua
Augusta, da cidade de São Paulo, era um local progressista do Brasil. A canção
também seria regravada pelos Mutantes, no disco “Mutantes e Seus Cometas no
País do Baurets” e por Raul Seixas, que deixou uma das versões mais conhecidas
do público. A partir da década de 1970, começou a se adaptar às mudanças, dado
o tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros
comerciais, aliado à falta de estacionamento. Na badalada década a Rua Augusta
perdeu seu prestígio e comércio por conta da febril concorrência
imobiliária com a abertura de shoppings centers em inúmeros pontos comerciais de São Paulo.
Os
centros comerciais de médio e grande porte funcionam como pequenas cidades, possuindo
uma estrutura governamental (a administração) e seus serviços de polícia e
bombeiros (segurança), de limpeza (sanitário), de abastecimento de água, de manutenção
de infraestruturas etc. Trata-se de um espaço de poder, planejado para
estimular a economia urbana e facilitar o consumo. A administração é
centralizada, e as lojas são alugadas, para a exploração comercial calculada e
a prestação de serviços, sendo sujeitas a normas contratuais padronizadas.
Muitas vezes, um supermercado ou grande estabelecimento de varejo funciona como
“âncora” do empreendimento. A administração tende a procurar manter o
equilíbrio da oferta e uma certa diversificação ou complementaridade entre os
diferentes tipos de estabelecimentos e de produtos oferecidos. Os locatários
pagam um valor em conformidade com um percentual do faturamento (de 5 a 9%) ou
um valor mínimo básico estabelecido em contrato - o que for maior. Os centros comerciais, na maior parte das vezes, cobram por muitos serviços. Nos centros comerciais de maiores dimensões, com vários
andares, a circulação se dá, habitualmente, através de escadas rolantes, para
facilitar o movimento de pessoas de um andar para outro. O maior shopping
center do mundo é o Dubai Mall, em Dubai, nos Emirados Árabes, que conta com 1
200 lojas, 22 salas de cinema, um estacionamento com 14 000 vagas, além de
abrigar o maior aquário do mundo, com 33 000 animais marinhos expostos. O
título de melhor centro do é atribuído em Cannes, na França, e
pertence ao Europa Passage, na Alemanha.
A
atriz Fiorella Mattheis é a protagonista da série “Rua Augusta”, que a O2
realiza para a TNT, abreviação para Turner
Network Television, canal de
televisão por assinatura especializado em filmes e séries. O canal original foi
criado pelo magnata da mídia Ted Turner em 1988 nos Estados Unidos da américa.
A programação do canal é em áudio dublado, já em outros momentos, a atração
pode ser exibido legendado em horário nobre. O canal chegou ao Brasil na década
de 1990. Exibe sucessos do cinema com falas em português e está presente em
praticamente todos os pacotes de TV por assinatura do Brasil. Ela representa
sua personagem Mika. A série tem direção-geral de Pedro Morelli que divide a
direção dos episódios com Fábio Mendonça. A direção de fotografia é de Rodrigo
Carvalho e Dante Belluti e a direção de arte de Fabio Goldfarb. “Rua Augusta” é
adaptação da série israelense “Allenby Street”. Durante o dia,
a Rua Allenby, localizada em Tel Aviv, Israel, é o espaço de
atividades comerciais. Quando a noite chega, a via é agitada pelos
bares e casas de show da região. E é lá que Mika (Moran Atias) realiza a
vida. Trabalhando como prostituta, a jovem divide seu tempo entre o trabalho e
os prazeres da vida noturna, até que ela se envolve em caso amoroso.
A série televisiva “Rua Augusta” foi filmada em diversas locações em São Paulo, especialmente na região da
Rua Augusta. Mika (Fiorella Mattheis) é uma stripper que reconstrói sua
vida após um passado conturbado e misterioso. Ela passa a trabalhar na agitada
Rua Augusta, em São Paulo, onde é dançarina na Boate Love e se diverte na boate
Hell. Numa noitada, o destino da jovem se cruza com o do filho de um
empresário e muda sua vida para sempre. Isto não impediu como alternativa aos usuários que também houvesse abertos
diversos prostíbulos em seu entorno. Mas a rua se modernizou em 1993, com a
abertura do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, voltou a ser
parte da vida noturna dos jovens. Abriu os espaços: Vegas Club, The Pub, Club
Noir, o Comedy Club Comedians, primeiro clube de comédias do Brasil, YO
restaurante, entre outros. Seu entorno está movimentado por bares,
restaurantes, casas noturnas, lojas e o gosto por antigos prostíbulos. Os jovens consumidores
prestigiam a rua com carros e suas motos, e muito congestionamento. Havia
muitas discotecas para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de
esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Sempre sendo atualizado
desde a década de 1970, com reforma do calçamento, decoração com vasos,
retirada de uma parte inútil dos postes de iluminação pública que estavam obsoletos,
colocação de carpete, estacionamento pago Zona Azul e subterrâneo e a
construção de um bulevar e por fim, a
eliminação dos úteis e vistosos ônibus elétricos com as novas calçadas.
Bibliografia geral consultada.
BRUNO, Ernani Silva, História e Tradições da Cidade de São Paulo.2ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1954; CORREA, Mariza et alii, Colcha de Retalhos. Estudos sobre a Família no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; FREITAS, Maria Luiza de, O Lar Conveniente: Os Engenheiros e Arquitetos e as
Inovações Espaciais e Tecnológicas nas Habitações Populares de São Paulo
(1916-1931). Dissertação de Mestrado. São Carlos: Instituto de Arquitetura
e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2005; PIMENTEL, Lídia
Valesca Bonfim, Vidas nas Ruas, Corpos em Percurso no Cotidiano da Cidade.
Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de
Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2005; JANUZZI, Denise de Cássia Rossetto, Calçadões: A Revitalização Urbana e a Valorização das Estruturas Comerciais em Áreas Centrais. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006; VEGA, Alexandre Paulino, Estilos
e Marcadores Sociais da Diferença em Contexto Urbano: Uma Análise da
Descontração de Diferenças entre Jovens em São Paulo. Dissertação de
Mestrado em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009; PISSARDO, Felipe Melo, A Rua
Apropriada: Estudo sobre as Transformações e Usos Urbanos na Rua Augusta (São
Paulo, 1891-2012). Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2013; BASTOS, Bruna
Freire, Construindo Identidades, Espaços e Sentido: O Consumo Cotidiano na
Cidade de São Paulo. Um Olhar sobre a Rua Augusta. Dissertação de Mestrado
em Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo.
São Paulo: Associação Escola Superior de Propaganda e Marketing, 2016; ARRUDA,
Marina Almeida Ferraz, A Memória no Resgate do Passado - A Rua Augusta em
São Paulo. Dissertação de Mestrado em Cultura e Comunicação. Lisboa:
Faculdade de Letras. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2016; FIGUEIREDO, Carolina
Moura Klautau de Araújo, Jornalismo, Incerteza e Complementaridade de
Opostos: Um Diálogo Compreensivo. Dissertação de Mestrado. Programa de
Mestrado em Comunicação. São Paulo: Faculdade Cásper Libero, 2018; entre
outros.
“O talento
revela-se exatamente porque esconde a sua perfeição”. William Shakespeare
Quando alguma pessoa apresenta uma
desenvoltura perfeita ao desempenhar determinada atividade, dizem que ela tem
um “dom” ou “talento” para aquilo. Apesar de ser empregado de formas
semelhantes, o significado da palavra “dom” é diferente da definição de “talento”
e, portanto, representam características distintas. Dom vem do latim “donus”,
que significa dádiva, presente. Nessa perspectiva, trata-se de uma capacidade
inata para desempenhar com destreza e maestria determinada tarefa, até mesmo em
aspectos que elas parecem mais complexas para a maioria de um conjunto determinado
de pessoas. Podemos citar, como exemplo, uma criança que demonstra desde cedo
uma “afinidade eletiva” muito grande para tocar determinado instrumento. Quando
falamos em facilidade em executar ou aprender determinada atividade, vale
lembrarmos que o significado da palavra “dom” não tem como sinônimo apenas a
representação do critério da genialidade. Já que essa condição social ocorre
somente com alguns indivíduos determinados e devido a questões psíquico-físicas. E
que estão sendo desvendadas através das investigações pluridisciplinares pela
ciência. entendida como uma associação livre de disciplinas que concorrem para uma realização. Mas que cada disciplina não tenha que modificar a visão das coisas e os seus próprios métodos.
É através da língua dos sinais
que a família Bélier se comunica, saudável e positivamente como se demonstra no
filme, La Famille Bélier, comédia
dramática francesa realizada pelo cineasta Éric Lartigau. O filme foi lançado
nos cinemas franceses a 17 de dezembro de 2014. Na família Bélier, Paula, a filha
de 16 anos, é a intérprete indispensável para muitas das tarefas diárias de
seus pais e irmãos, todos eles agricultores surdos, menos ela, que fala por
telefone, lida com o banco ou facilita-lhes a compreensão no consultório médico,
e, sobretudo relacionado à manutenção da granja. Paula representa a tradutora
da sua família. Um dia, um professor de música descobre seu talento pelo canto
e anima Paula para que participe de um prestigioso concurso musical em Paris, o
que lhe daria acesso a uma boa carreira e aos estudos universitários. No
entanto, esta decisão significa aparentemente deixar para trás sua família,
desnorteada e inquieta pela iniciativa escolar e para quem o conceito da música
resulta alheio, Paula começa a dar primeiros passos como adulta, ainda que
enfrente a incompreensão dos pais, as dúvidas sobre a sua vocação musical, o
abandono das responsabilidades com a família e a incerteza sobre a crescente
atração por um rapaz de sua idade. Enquanto isso, seu pai, Rodolphe Bélier,
insatisfeito com as ações políticas programadas do prefeito da cidade, decide concorrer às
eleições municipais, apesar de ser portador de deficiência no processo social de comunicação visual.
Uma
língua de sinais é uma língua que procede no âmbito da comunicação visual, que
surge nas comunidades de pessoas surdas ou se deriva de outras línguas de
sinais. Assim como as línguas orais-auditivas, uma língua de sinais é
considerada pela linguística como língua natural, pois atende a todos os
critérios linguísticos como qualquer língua. Por seu canal comunicativo ser
diferente das línguas orais-auditivas, as línguas de sinais são denominadas
como línguas de modalidade visuoespacial. Os sinais, ou seja, as palavras, são
articulados essencialmente pelas mãos e percebidos através da visão. Na
língua de sinais, os sinais não são gestos. Os sinais são símbolos arbitrários,
legitimados e convencionados pelos falantes de uma língua de sinais, assim como
as palavras são em uma língua oral. Por meio de uma língua de sinais, o surdo
ou pessoa com deficiência auditiva têm acesso à informação e à comunicação. Existem línguas de sinais e países com línguas de sinais têm recebido o status
de língua oficial. Durante muitos anos, o oralismo, técnica defendida por Alexandre Graham Bell, foi a única forma aceitável de/para comunicação com as pessoas surdas. O famoso Congresso de Milão, de 1880, teve um impacto negativo sobre as línguas de sinais no mundo.
Nesse congresso, os presentes, influenciados pelas ideias de Graham
Bell, decidiram pela proibição da língua de sinais como método de educação de
surdos. Assim, a língua falada oralmente foi imposta às pessoas surdas, e
decretou-se, sem fundamentação científica alguma, que o oralismo deveria
constituir a única forma de ensino. Diante disso, as línguas de sinais por mais
de 100 anos foram violentamente proibidas e banidas dos típicos espaços escolares. Mesmo
com a imposição do Congresso de Milão, as línguas de sinais resistiram. Muitos linguistas se dedicaram a estudar diferentes línguas de
sinais. O pioneiro foi o linguista norte-americano William Stokoe (1919-2000), intitulado como o “pai
da linguística das línguas sinalizadas”, concluiu que as línguas de sinais
apresentam aspectos linguísticos de uma língua genuína, no léxico, na sintaxe
e na sua capacidade de gerar infinitas sentenças e que deveriam ser pesquisadas
e estudadas pela linguística. Ao contrário do que acreditam, a língua de
sinais não é universal.
Assim
como as línguas orais, a variação linguística está presente também nas línguas
de sinais. É grande a variedade de línguas de sinais ao redor do mundo, onde há
mais de 140 línguas de sinais. São línguas completas, outras complexas, mas com
a sua própria gramática e léxico. Cada país tem a sua, ou até mais de uma,
língua de sinais. Tomando como exemplo alguns países lusófonos, vemos que
utilizam diferentes línguas de sinais: no Brasil existe a Língua Brasileira
de Sinais (LIBRAS) e a Língua de Sinais Kaapor Brasileira, em Portugal
existe a Língua Gestual Portuguesa (LGP), em Angola existe a Língua
Angolana de Sinais (LAS), em Moçambique existe a Língua de Sinais Moçambicana
(LMS). Assim como acontece nas línguas faladas oralmente, existem variações
linguísticas dentro da própria língua de sinais, isto é, regionalismos e/ou
sotaques. Essas variações se devem a ligeiras diferenças culturais e
influências diversas no sistema de ensino do país, por exemplo. Há também
outros fatores sociais e culturais que favorecem à diversidade e à mudança linguística,
como, por exemplo, a extensão e a descontinuidade territorial e os contatos com
outras línguas.
Além disso, deve-se levar em conta que diferenças culturais são
fatores naturais, históricos e sociais de condicionamento nos modos de representação e sobretudo, de interpretação do mundo. Assim, os
surdos sentem as mesmas dificuldades que os ouvintes quando necessitam
comunicar com outros que utilizam uma língua diferente. Há
também uma língua de sinais, análoga ao Esperanto, reconhecida como Gestuno,
também reconhecido como língua de sinais internacional, é uma língua artificial
e é utilizada em convenções e competições internacionais, visando estabelecer
uma comunicação internacional. Não se sabe historicamente quando as línguas de
sinais se iniciaram. Mas, sua origem remonta possivelmente à mesma época ou a
épocas anteriores àquelas em que foram sendo desenvolvidas as línguas orais.
Uma pista interessante para esta possibilidade das línguas de sinais terem se
desenvolvido primeiro que as línguas orais é o fato social concreto que o bebê
humano desenvolve a coordenação motora dos membros antes de se tornar capaz de
coordenar o aparelho fonoarticulatório. As línguas de sinais são criações
espontâneas do ser humano e se aprimoram exatamente da mesma forma que as
línguas orais. Nenhuma língua é superior ou inferior a outra, cada língua se
desenvolve e expande na medida da necessidade ou utilidade de uso de seus
usuários.
O
Esperanto é a representação social da língua planejada mais falada no mundo. Ao
contrário da maioria das outras línguas planejadas, o esperanto já saiu dos
níveis de projeto de publicação de instruções e semilíngua de uso em algumas
poucas esferas da vida social. Seu iniciador, o médico judeu Ludwik Lejzer
Zamenhof (1859-1917), publicou a versão inicial do idioma em 1887. Seu objetivo teve como intenção criar
uma língua de mais fácil acesso e aprendizagem. E que servisse como língua
franca internacional para toda a população mundial e não, apenas como erroneamente se supõem, para substituir todas as línguas existentes historicamente. O Esperanto é
empregado com utilidade de uso comunicativo em viagens, correspondência, intercâmbio cultural, convenções,
literatura, ensino de línguas, televisão e transmissões de rádio. Alguns
sistemas estatais de educação oferecem cursos opcionais de esperanto, e há
evidências de que auxilia na aprendizagem dos demais idiomas. Apesar da facilidade gramatical, o Esperanto
enfrenta dificuldade de ser adotado como língua auxiliar universal. É formado pela junção do radical esper (com
origem no latim sperare, “esperar”), da desinência ant (própria
do particípio presente) e da desinência o (dos substantivos). Significa,
portanto, “aquele que espera”, “aquele que tem esperança”. Ludwik Lejzer
Zamenhof vivia em Białystok (Polônia), na época Império Russo. Em Białystok,
moravam muitos povos e falavam-se muitas línguas, o que dificultava a
compreensão e comunicação, mesmo nas mais cotidianas situações, o que o motivou a criar uma
língua auxiliar neutra, a fim de solucionar o problema. Durante a adolescência,
criou a primeira versão de Esperanto, chamada lingwe universala, uma
espécie de “esperanto arcaico”.
O seu pai, conseguiu fazê-lo prometer trabalhar no seu idioma para se dedicar aos estudos. Zamenhof então foi para
Moscou estudar Medicina. Em
uma de suas visitas à terra natal, descobriu que seu pai queimara todos os
manuscritos do seu idioma. Zamenhof pôs-se então a reescrever tudo, adicionando
melhorias e fazendo a língua evoluir. O primeiro livro sobre o esperanto foi
lançado em 26 de julho de 1887, em russo, contendo as 16 regras gramaticais, a
pronúncia, alguns exercícios e um pequeno vocabulário. Logo depois, mais
edições do Unua Libro foram lançadas em alemão, polaco e francês. O
número de falantes cresceu rapidamente nas primeiras décadas, primordialmente
no Império Russo e na Europa Oriental, depois na Europa Ocidental, nas
Américas, na China e no Japão. Muitos desses primeiros falantes vinham de outro
idioma planificado: volapük. As primeiras revistas e obras originais em
esperanto começaram a ser publicadas. Em 1905, aconteceu o pioneiro Congresso
Universal de Esperanto, em Bolonha-sobre-o-Mar, na França, juntando quase mil
pessoas, de diversas nacionalidade e povos. Em 1906, foi fundado, no Brasil, o
primeiro grupo esperantista: o Suda Stelaro, em Campinas.Colabora em desfazer as crenças presentes em nossa sociedade,
de que “os surdos possuem prejuízos intelectuais, ou são pessoas infantis”.
Obviamente os surdos ainda sofrem discriminação e consequente isolamento
social, este último amenizado, no filme, pelo fato social de serem três surdos
na composição familiar e também por Paula ser a interprete em suas interações
com os não surdos. Vale esclarecer que a expressão surda-muda é equivocada
porque advém de uma crença comum que os surdos são também mudos e da negação
dialética da alteridade pelo fato de não ouvirem. A audição é importante no
aprendizado da fala, mas os mudos não o fazem porque possuem prejuízo crônico no
aparelho fonador, o que não acontece com os surdos, que podem aprender a falar,
embora seja difícil e necessite bastante investimento. Além disso, os surdos
não detém a linguagem oral, mas possuem a possibilidade da língua dos sinais
que não deixa de ser uma forma de linguagem. Família
nuclear é termo usado para definir um grupo familiar composto por um par de
adultos que devido a relações sexuais ocorridas e correntes entre o par que se
uniu por relações, as mais diversas possíveis, tais como: físico, psíquico,
emocional, espiritual, social, político, dentre outras, se houver, é que
permitiu o surgimento dos parentes de primeiro grau e seus filhos. As
estruturas familiares de um casal e seus filhos estiveram presentes na Europa
Ocidental e na Nova Inglaterra, no século XVII, influenciada pela igreja e por
governos teocráticos.
O surgimento e desenvolvimento da industrialização e o
capitalismo, a família nuclear tornou-se uma unidade social financeiramente
viável. O termo família nuclear apareceu pela primeira vez no início do curto século
XX. Definições de sentido histórico sociológico, tornarma-se alternativas que evoluíram para incluir
unidades familiares chefiadas por pais do mesmo sexo, com o distanciamento da
influência da igreja e familiares adultos talvez adicionais que assumem um papel
de coabitação parental; neste último caso, também recebe o nome de família
conjugal. A rigor, uma família nuclear ou conjugal consiste meramente de pais e
filhos, ainda que muitas vezes inclui, em função de certas condições sociais um
ou dois outros parentes, bem como, um pai ou mãe viúva ou irmão solteiro de um
ou outro cônjuge.
A
tese deste libelo francês é original: uma garota tímida descobre talento para o canto, o que gera problemas sociais e familiares caso queira
seguir esta carreira. Escolher o caminho da música representaria cortar o
cordão umbilical, algo doloroso para todos os envolvidos. A maior diferença
etnográfica, neste caso, está na família de Paula: seu pai, sua mãe e o irmão
são surdos-mudos. Por ser a única capaz de escutar, Paula trabalha como
intérprete nas negociações comerciais da fazenda familiar, e se encarrega de
traduzir a linguagem de sinais para os amigos e vizinhos. O talento vocal da
filha ganha outro significado a partir do momento em que antiteticamente não
pode ser apreciado pelos pais. A música também funciona como válvula de escape
à vida de dependência nas relações familiares - não é à toa que a canção
principal deste drama musical, Je Vole, sugere um rito de passagem, da fuga
da adolescência para a passagem à fase adulta. Por este fator social, “A
Família Bélier” (2014) representa um aparecer social mais dinâmico do que os filmes
que retratam a música como passagem da categoria simples ao concreto que revela
um talento providencial. O talento tende a associar-se à habilidade inata e à criação, embora se possa desenvolver com a prática e treino. A habilidade inata é a
aptidão, competência, destreza ou faculdade adquirida e desenvolvida pela
consciência em retrovidas, ou melhor, em períodos de intermissão, manifestando-se
espontânea e naturalmente na ressoma intrafísica atual.
O filme é beneficiado pelo ponto de vista naturalista do diretor Eric Lartigau: a deficiência auditiva da família é vista sem piedade ou vitimização.O cineasta
deve ter aprendido com o sucesso de “Intocáveis” - onde a imobilidade física
pode ser abordada com humor - contanto que se mantenha o respeito e evite o
paternalismo. O ambiente bucólico também é tratado com puro realismo, sem
insinuações de monotonia ou atraso. Mesmo o ambiente escolar e as conversas
entre os adolescentes, repletas de gírias e falas rápidas, funcionam como bom
retrato das gerações. As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações
e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo dado problema.
O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz
surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção
ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, em um
mesmo âmbito social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma
adesão concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional.
Mas
a forma como grupos de uma mesma conexão geracional lidam com os fatos
históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais
no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto macrossociológico da
sociedade. As atuações exemplares chamam atenção. Para o papel dos pais, foram
escolhidos dois ícones do cinema francês e belga, respectivamente: Karin Viard
e François Damiens. Ambos transitam com facilidade entre a comédia e o drama,
individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) essencialmente
nesta história, e se equilibram de modo eficaz, já que o estilo contido de
Damiens completa a gesticulação exagerada de Viard. Hilários em cena, eles
também demonstram respeito no retrato de surdos-mudos. O elo talvez mais fraco
do elenco é a protagonista Louane Emera, candidata do programa The Voice na França, e que faz os seus
primeiros passos no cinema. Seu início como atriz é promissor, e ainda pode se
desenvolver muito, mas a falta de experiência dramática fica visível em cenas
importantes como o clímax na Radio France, uma sociedade de serviço público,
criada pelo Estado em 1° de janeiro de 1975 que gere as estações da rádio
pública metropolitana assim como várias formações musicais.
Na excêntrica família Bélier, todos os membros são surdos-mudos com exceção da jovem Paula, filha mais velha do casal Rodolphe e Gigi. Por conta ela acaba sendo a intérprete da família em quase todas as situações, sendo de extrema importância para a relação da família com o mundo exterior. Vivendo em uma fazenda, a principal rotina de todos é
cuidar dos animais e das plantações da propriedade, mas Paula ainda precisa
reservar um tempo para os estudos. Apesar de ser tímida e viver uma vida quase
reclusa, ela não deixa de ser como todas as outras adolescentes de sua idade:
tem uma melhor amiga inseparável, um namoro mal resolvido e o mais importante
de tudo, sonhos. Incentivada pelo seu professor Thomasson, Paula descobre um dom seu até então desconhecido: o de
cantar, e a começar a sonhar na carreira musical. E todas
de extrema qualidade, graças à classe de voz de Leouane Emera, reconhecida por
ter participado da edição francesa do programa de televisão The Voice. Sua singularidade é a valorização apenas da voz de um competidor, não julgando a sua aparência
ou desempenho de palco, como diferença similares um artista pronto e não moldá-lo. Apesar de ser muito parecido com a questão referente aoo dom em definição, o talento se distingue por conter justamente uma habilidade técnica que pode ser desenvolvida ou aperfeiçoada.
Trata-se de um gosto especial, uma aptidão, uma predisposição espontânea a
algo, que atinge sua plenitude por meio de muito treino, disciplina e
perseverança. Nesse sentido, ser muito bom em determinada atividade somente
depende de você. Mas além da paixão pelo que faz, é necessário que seja
comprometido, disciplinado com suas atividades e, principalmente, que esteja em
constante treinamento. Apesar do significado da palavra dom estar diretamente
relacionado a alguma característica social com a qual nascemos ele somente
poderá tornar-se visível mediante a prática. Nesse caso, seus sentimentos
(inconsciente), pensamentos (razão) e comportamentos devem bem conduzidos para
serem utilizados, talvez, de forma produtiva. Freud salientou a importante
relação entre o comportamento de um ser humano adulto e certos episódios de sua
infância, mas resolveu preencher o considerável hiato entre causa e efeito com
atividades ou estados do aparelho mental. Em relação aos costumes e comportamentos
sociais, ele contribuiu para antropologia tendo como referência o método
clínico que praticou e desenvolveu.
A
psicanálise interpreta as manifestações da psique, as tendências sexuais (ou
libido), e as fórmulas morais e limitações condicionantes do indivíduo. São
dois os fundamentos da teoria psicanalítica: 1) Os processos psíquicos são em
sua imensa maioria inconscientes, a consciência não é mais do que uma fração de
nossa vida psíquica total; 2) Os processos psíquicos inconscientes são
dominados por nossas tendências sexuais reprodutivas. Nesse sentido, o psicanalista Freud
pretendeu descrever e explicar a vida humana tanto do ponto de vista pessoal e
individual, mas também pública e social, de forma mítica recorrendo a essas tendências sexuais
a que chamou de libido. Com esse termo, o pai da psicanálise designou a
“energia sexual” de maneira mais geral e indeterminada. Assim, por exemplo, em
suas primeiras manifestações sociológicas, a libido liga-se as funções vitais,
se entendermos que no bebê que mama, o ato de sugar o seio materno provoca
outro prazer além daquele natural de obter alimento e esse prazer passa a ser buscado por si
mesmo.
Na
abordagem psicanalítica fundada por Sigmund Freud, o indivíduo se constitui
como um ente à parte do social e que compõe o nível de análise social. Freud
refere-se aos aspectos que compõem um estado instintivo humano e que acaba por
se tornar inibido em prol da convivência em comunidade. A inibição destes
aspectos, que são instintivos, consiste numa privação de características que
são inatas aos homens, e, esta própria privação, acaba por consistir em
determinados descontentamentos. Neste sentido, os homens em civilização ou
civilizados demonstram-se descontentes na busca de sua felicidade, pois seus
instintos não são prontamente atendidos em sociedade. No seu ensaio: “O
mal-estar da civilização”, Freud elabora uma discussão filosófico-social a
partir de sua teoria psicanalítica. O autor desenvolve a ideia pragmática
segundo a qual, em sociedade, “não há avanço sem perdas”. A ideia central que
desenvolve nesta obra é a de que a civilização é inimiga da satisfação dos
instintos humanos. A sociedade modifica a natureza humana individual, constitui
o homem como membro da comunidade, adaptando-o a um processo vital que torna o
indivíduo um ente social.
Segundo
Freud, o conteúdo do inconsciente é, muitas vezes, reprimido pelo Ego. Para “driblar”
a repressão, as ideias inconscientes “apelam” aos mecanismos definidos por
Freud n`AInterpretação dos Sonhos,
como deslocamento e condensação. Estes dois seriam relacionados, na linguística
por Romain Jacobson à metonímia e metáfora, respectivamente. Portanto, as
representações de ideias inconscientes manifestam-se nos sonhos como símbolos,
tanto metafóricos quanto metonímicos. Aplicando o conceito à fala, o
inconsciente consegue expelir ideias recalcadas através dos chistes ou atos
falhos. Antes, são mecanismos da fala que articulam ideias aparentes com ideias
reprimidas, são meios sociais pelos quais é possível exprimir os “instintos
primitivos”. Semelhante à análise dos sonhos, a análise da fala seria um
caminho psicanalítico para investigar os desejos ocultos do homem e as causas
das psicopatologias. – “É na palavra e pela palavra que o inconsciente encontra
sua articulação essencial”. Deste modo, Freud cria uma inter-relação entre os
campos da linguística e da psicanálise, que será retomada por estudiosos
posteriores, como ocorre precisamente nos Séminaire
de seu maior intérprete, Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), mas que não trataremos
agora.
Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do
“Estádio do Espelho”. O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com
fenômenos como amor e ódio. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma,
então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao
Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da
psicanálise. Esse registro é o do simbólico, é o campo da linguagem, do
significante. Claude Lévi-Strauss afirmava que “os símbolos são mais reais que
aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no
que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é
o “Grande Outro” que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – “o
inconsciente é o discurso do Outro”, “o desejo é o desejo do Outro”. O campo de
ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta,
através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim,
naqueles fenômenos que Lacan nomeia como “formações do inconsciente”. A isto se
refere decisivamente o lacanianismo “o inconsciente é estruturado como uma
linguagem”.
Ipso facto, não há estatuto lacaniano de psicanálise.
E até fica evidente que o próprio Lacan está às voltas com um problema. E que
ele evolui, tenta soluções, o que leva seus alunos a periodizar seu ensino, e a
admitir, conduzidos por uma leitura atenta, que ele talvez tenha dito, senão
tudo e o contrário de tudo, pelo menos, que tenha tomado às avessas suas teses
aparentemente mais garantidas. Desse estudo rigoroso do ensino de Lacan, nasce
a pergunta: “que é ser lacaniano?” e essa pergunta de identificação, e de
papéis, passa a ser: “qual é o problema lacaniano na psicanálise?”. Ser
lacaniano torna-se uma questão de exercício pleno, uma questão nova quando a
resposta “ser lacaniano é ser freudiano” já não satisfaz. No entanto, essa
resposta é um convite de Lacan. Mas isso só podia ser dito, em relação a essa
variedade de freudismo, o anafreudismo, que se impôs nos últimos anos da
existência de Freud, dominando a psicanálise durante vários decênios, sendo
considerada uma interpretação sociológica do freudismo, canônica, dogmática, de
certos elementos da doutrina de Freud. Considerando este anafreudismo, era
então possível responder “ser lacaniano nada mais é do que ser freudiano”.
Nas
trocas de presentes se misturam os sentimentos e as pessoas. Misturam-se as
almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. As regras de generosidade
descritas por Mauss são bem definidas pelo valor e a interdição freudiana que
se liga ao fato de que o tabu ainda subsiste entre nós, como Freud considerou
no prefácio da primeira edição de “Totem e Tabu”, em 1913. As considerações
sobre o kula, enquanto grande potlatch
leva os estudos etnológicos de Malinowski ao tema da dádiva na medida em que
significa um comércio cujas particularidades são típicas dos povos das ilhas
Trobriand. A interdição como dever recíproco estabelecido entre devedores e
credores, orienta o movimento cíclico e regular das transações. O penhor dado
condiciona-se ao zelo e a transferência, essa transmissão para um terceiro em
outro kula configura a circulação dos signos de riqueza e traduzem o orgulho do
possuidor que, por sua vez, não pode guarda-los por muito tempo. - “O kula, sua
forma essencial, não é senão um momento, o mais solene, de um vasto sistema de
prestações e de contraprestações que, em verdade, parece englobar a totalidade
da vida econômica e civil das Trobriand”. Os
exemplos analisados por Mauss no Ensaio sobre a Dádiva (2003) não
representam casos isolados dessa instituição nas tribos da África, Melanésia,
Polinésia, América do Sul e do Norte.
Em nossas práticas cotidianas e costumes
não é raro o aparecimento de rivalidades e distintas formas de conflitos que
caracterizam a troca de presentes. As manifestações são múltiplas, no entanto,
carregam o mesmo cerne encontrado naquelas sociedades. Mauss destaca no caso
polinésio o aspecto religioso e moral por trás do dever de retribuir o presente
recebido, nele o que pode ser compensado ou trocado equivalem aos tesouros,
talismãs, objetos sagrados, inclusive tradições e rituais mágicos. Os elementos
essenciais do potlatch giram em torno dos seguintes critérios: “(...) honra, do
prestígio, do mana que a riqueza confere, e o da obrigação absoluta de
retribuir as dádivas sob pena de perder esse mana, essa autoridade, esse
talismã e essa fonte de riqueza que é a própria autoridade”. Os aspectos históricos do que hoje entendemos como direito das obrigações são também abordados nesse livro, inclusive quanto ao aspecto diacrônico da origem da distinção, nas sociedades semíticas, grega e romana, entre a obrigação e a prestação não gratuita, de um lado, e a dádiva, do outro. Aquisições recentes da civilização, de acordo com ele, com possível origem em fase anterior, sem a mentalidade fria e calculista de dádivas trocadas, em que se fundem pessoas e coisas tal como pode ser deduzido em vestígios do direito romano, ou nas leis da Germânia, ou Código de Manu da cultural da Índia antiga.
O peso marcante da propriedade em nossos dias aproxima-se daquilo que para o
direito maori anima espiritualmente a
coisa colocada em circulação, que tende naturalmente ao retorno para o seu
local de origem. A questão da recusa da obrigação de dar e receber, por sua
vez, equivale a declaração de guerra, pois o vínculo estabelecido é
eminentemente espiritual na concepção nativa. Outro aspecto interessante
relatado etnograficamente por Mauss diz respeito a noção de economia e moral
por trás do presente trocado com os deuses. Não é totalmente desconhecido,
tendo em vista que as práticas religiosas ligadas ao cristianismo, de modo
ilustrativo, são guiadas pela troca de favores e presentes em agradecimento às
benesses vindas do céu, seja por intermédio da Trindade divina, dos santos ou
demais entidades celestes. Sobre o “sacrifício-contrato” Marcel Mauss explica
da seguinte forma: A destruição sacrificial tem por objetivo ser, precisamente,
uma doação a ser necessariamente retribuída. Não
é só para manifestar poder, riqueza e desprendimento que escravos são mortos,
que óleos são queimados, que o cobre é lançado ao mar e até mesmo
casas suntuosas são incendiadas. Assim, é também para sacrificar aos espíritos e aos
deuses, em verdade confundidos com suas encarnações vivas, os portadores de
seus títulos, seus aliados iniciados. Em poucas palavras, sobre as sociedades
melanésias Mauss entendeu o complexo sistema de economia estabelecido
entre aqueles povos. Por meio das dádivas
feitas e retribuídas eles substituem o sistema de compra e venda e operam de
modo semelhante aos nossos. No caso do noroeste americano, a diferença
existente diz respeito a violência e ao exagero que chega a suscitar o que
Mauss chamou de prestações totais simples, ou seja, uma certa desproporção em
relação aos conceitos jurídicos observados na Melanésia. A certeza da
retribuição das dádivas que circulam nesta e na Polinésia é garantia
própria da coisa posta em circulação. A particularidade desta dádiva é o
termo, o tempo para que a contraprestação seja executada. Nas palavras
do autor: “a dádiva implica necessariamente a noção de crédito”. Não menos
importante, como já foi mencionado aqui, é a noção de honra. Enfim, a ascensão
de Paula na música não é súbita, mas fruto de trabalho, e seu tutor neste caminho,
interpretado peloótimo Eric Elmosnino,
que também não é um homem generoso, apenas um professor arrogante que por acaso
descobre o dom da aluna.
Bibliografia
geral consultada.
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Práticas Pedagógicas e o Aluno com
Deficiência Intelectual: Uma Intervenção Colaborativa sobre os Processos de
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“E havendo aberto o sétimo selo, fez-se
silêncio no céu quase por meia hora”. Apocalipse (8:1)
Considerada
tanto o primeiro documento da história brasileira como o primeiro texto literário
do Brasil, a carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei d.
Manuel, em forma de diário, leva ao
monarca luso uma narrativa pessoal
marcada pela observação etnográfica do que os europeus chamavam de Novo Mundo.
É possível verificar a expressa preocupação de descrever gestos, corpos e
hábitos de alimentação e abrigo dos nativos. Há o desejo de narrar como o local
foi encontrado e como vivem os indígenas que ali habitam. Trata-se, portanto, de
um documento etnográfico com valor histórico e cultural pela descrição de hábitos,
e literário, pelo apelo formal e estilístico. O documento original, é intitulado
oficialmente Carta a El-rei D. Manuel sobre o dito “achamento” do Brasil,
guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, Portugal, é
constituído por sete folhas de papel manuscritas, cada uma em quatro páginas,
num total de 27 páginas de texto e mais uma de endereço. Primeiro texto escrito
no Brasil foi feito em Porto Seguro,
com data de 1° de maio de 1500, e foi levado à Lisboa por Gaspar de Lemos,
comandante do navio de mantimentos da frota. O curioso é seu sintoma, no plano do imaginário
individual e coletivo posto que só foi descoberto, em 1773, no Arquivo Nacional
português, por José Seabra da Silva. A informação foi publicada, pela primeira
vez pelo padre Manuel Aires de Casal na sua Corografia Brasílica (1817), mas que demonstra claramente seu personalismo, pela técnica de análise
do discurso dando origem e seu significado.
O
personalismo foi um movimento associado ao humanismo e não ligado a partido
político, idealizado por Emmanuel Mounier, após a crise de 1929 da Europa e
divulgado pela revista “Esprit”, com a intenção de identificar a verdade em
toda a circunstância. Ele acreditava que o problema das estruturas sociais era
econômico e moral, e a saída para isso era a teorização e a construção de uma
“comunidade de pessoas”. O personalismo é uma filosofia que tem como ênfase
conduzir o homem para sua realização como pessoa. Tendo esse pensamento como
princípio ideológico, o sujeito que se percebe como pessoa, e não como indivíduo, percebe a
importância de sua pessoalidade e se desperta para ação vocacional, no sentido weberiano do termo, dando lugar
a expectativas pessoalizadas. O personalismo foi adaptado pela Democracia
Cristã, e influenciou o Papa João Paulo II e, ideologicamente os católicos. Na visão personalista, ser completo como pessoa é levar a
sério necessidades pessoais satisfeitas, percebidas e trabalhadas. Levando
isso a sério, a filosofia personalista, destacando o valor da pessoa, em
detrimento do indivíduo, coloca a questão pessoal sobre as demais questões, por
entender que as questões importantes da existência estão contidas nas pessoas. Nada deve diminuir o valor
e a primazia de uma existência personalista. O individualismo, na concepção de Mounier, consiste num sistema de costumes, de sentimentos, de idéias e de instituições que organiza o indivíduo partindo de atitudes de isolamento e de defesa.
Foi a ideologia e a estrutura dominante da sociedade burguesa ocidental no período que compreende desde o século XVIII e o século XIX. Homem abstrato, sem vínculos nem comunidades naturais, deus supremo no centro de uma liberdade sem direção nem medida, sempre prontas a olhar os outros com desconfiança, cálculo ou reivindicações; instituições reduzidas a assegurar a instalação de todos esses egoísmos ou o seu melhor rendimento pelas associações voltadas para o lucro; eis a forma de civilização que vemos agonizar. Sem dúvida alguma, uma das mais pobres que a história testemunhou. Civilização que se enquadra perfeitamente no que ele chama de “a própria antítese do personalismo e o seu mais direto adversário”.No plano das ideias representadas pelo filme: The Seventh Seal, dirigido por Ingmar Bergman e lançado em 1957, é um filme existencial, mas que permite como a maioria dos filmes de base histórica e psicológica diversas interpretações de quem o assiste. Por curiosidade, ele foi produzido com base em uma peça de teatro chamada O Retábulo da Peste. Sabemos, ao certo, que toda manifestação artística possui muitos traços da essência de quem a realiza e com “O Sétimo Selo” não é diferente, pois podemos traduzi-lo ao âmbito de expressão da individualidade de Ingmar Bergman, demonstrando dúvidas, conflitos e a angústia. A Peste Negra que, no contexto social do filme, deflagrou e acabou com a esperança de vida é tema central dessa obra prima do diretor sueco. Toda a simbologia do filme consegue demonstrar esse lado contumaz da Idade Média. O uso do preto e branco foi essencial, sem falar da morte, interpretada por Bengt Ekerot.
O
século XIV, que é a época diegética de O Sétimo Selo, assinala o apogeu da
crise feudal, representada pelo trinômio “guerra, peste e fome”, que
juntamente com a morte, compõem simbolicamente os “quatro cavaleiros do
apocalipse” no final da Idade Média.Inicialmente,
a decadência do feudalismo resulta de problemas estruturais, quando no século
XI, a elevada densidade demográfica na Europa, determinou a necessidade de
crescimento na produção de alimentos, levando os senhores feudais a aumentarem
a exploração sobre o trabalho servil que iniciaram uma série de revoltas e
fugas, agravando a crise já existente. As cruzadas entre os séculos XI e XIII
representaram outro revés para o sistema feudal, já que os seus objetivos mais
imediatos não foram alcançados: Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos,
o cristianismo não foi reunificado, e a crise feudal não foi sequer minimizada,
já que a reabertura do mar Mediterrâneo promoveu o Renascimento comercial e urbano,
que já contextualizam o pré-capitalismo, na passagem da Idade Média para a
Moderna. O trinômio “guerra, peste e fome”, que marcou o século XIV, afetou
tanto o feudalismo, como o capitalismo nascente. A Guerra dos Cem
Anos (1337-1453) entre França e Inglaterra devastou boa parte da Europa, mas a “peste negra” eliminou 1/3 da população. A destruição dos campos, plantações e rebanhos, trouxe a
fome, o atraso, a decadência e a morte.
Museu Nacional dos Correios.
O
personalismo coloca a pessoa acima de quaisquer instituições ou coletividade,
pois o ser humano com sua pessoalidade é único e peculiar, e essa peculiaridade
impossibilita que todo o seu querer e as suas ânsias, estejam totalmente em
harmonia ou satisfeitos com as vontades, aspirações ou conquistas de uma classe
social, grupo, ou instituição. Se como pessoa percebemos uma grande distância
entre o nosso querer e o que recebemos como pagamento num convívio trabalhista,
entre o nosso querer e o que me oferece um grupo e as instituições sociais, não
podemos deixar também de perceber e tratar o próximo como uma pessoa,
justamente por entender que ele tem como admitimos, aspirações pessoais, que,
sendo pessoalizadas, naturalmente se chocam com as nossas por serem frutos da
subjetividade e peculiaridade pessoal. Com a percepção da pessoa como um ser
distinto, mas próximo, evitamos a homogeneização das relações porque tendemos a buscar proximidades pessoais
sem desvalorizar a alteridade. A encarnação da ideia é um dos pressupostos mais
fortes do personalismo. E seu cerne é a ação, e é nesse ponto que ele se
destaca das demais disciplinas filosóficas, pois não propõe apenas afirmações e
sim ações afirmativas ou afirmações engajadas.
Correio
é um sistema social de comunicação que envolve o processo de trabalho de envio de
documentos e encomendas entre um remetente e um destinatário, que podem estar
numa mesma cidade ou em lugares entre Estados muito distantes entre si.Desde
a metade do século XIX, o sistema postal nacional, privado ou público, passou
geralmente a ser estabelecido por monopólios governamentais através de um papel
pré-pago, que era na forma de estampas adesivas, os selos. Em geral, os
monopólios governamentais apenas entregavam as encomendas para prestadoras de
serviços, e estas responsáveis pela entrega da encomenda até o endereço
correto. Governos democráticos ou autoritários podem restringir empresas públicas
ou privadas para sua documentação. Os selos também marcaram a continuidade da
política de “substituição de importações” do período anterior (1946-1964), seu
esforço industrializante e seus gargalos na produção e na exportação. O forte
crescimento da economia brasileira de 1968 a 1973, o chamado “milagre econômico”
baseava-se na conjuntura internacional favorável. O produto mundial
crescia e com ele a procura por produtos próprios brasileiros.
Filatelia
é o estudo e o colecionismo de selos postais e materiais relacionados. A
filatelia tem várias áreas de estudo, a saber: filatelia tradicional, história
postal, pré-filatelia, marcofilia, inteiros postais, filatelia temática,
aerofilatelia, astrofilatelia, maximafilia, filatelia juvenil, literatura
filatélica, selos fiscais, classe aberta e um quadro. O objetivo deste hobby é selecionar selos para compor uma
coleção, que pode ser geral ou temática. Existem coleções que além dos selos
possui informações sobre o tema, parâmetro utilizado por muitas pessoas nas
coleções temáticas. Enquanto entre as coleções gerais, pode-se dizer que se
dividem em mundo e país. É frequente encontrar coleções com apenas selos de um
país, assim como de qualquer lugar do mundo. Quando não seguem nenhum critério
este tipo de coleção é usual entre iniciantes. Apesar de diferenças entre os
vários tipos de coleções, um único ideal une os filatelistas de todo o mundo: a
vontade de conhecer mais sobre um lugar, objeto, pessoa, país, etc. É o
conhecimento que estimula os filatelistas a continuar com seu hobby apesar da diminuição das
correspondências como processo social de comunicação dos Correios.
Carta que será
enviada a D. Manuel I.
O
modelo de industrialização e de transportes adotado desde antes da ditadura
civil-militar de 1964, mas consolidado por esta se fundamentava no uso
extensivo de derivados de petróleo como combustível. A produção nacional de
petróleo era, no entanto pouco significante. O país dependia, para continuar
funcionando, de um fluxo de petróleo que era basicamente importado. Esse ponto
fraco evidenciou-se quando uma confusa conjuntura política no Oriente Médio
ocasionou a quadruplicação dos preços do petróleo no final de 1973. Como a
necessidade do produto era grande, em pouco o país começou a sofrer de
dificuldades de pagamentos externos, ou seja, as vendas externas passaram a ter
problemas para cobrir as compras. A crise do petróleo aconteceu em cinco fases,
todas depois da Segunda Guerra Mundial provocada pelo embargo dos países
membros da OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Golfo
Pérsico de distribuição de petróleo para os Estados Unidos da américa e países da Europa.
A
região petrolífera do Golfo Pérsico foi descoberta em 1908 no Irã, a partir
daí, toda a região começou a ser visada estrategicamente e explorada. Em 1960,
na cidade de Bagdá, os cinco principais produtores de petróleo: Arábia Saudita,
Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, fundaram a Organização dos Países Exportadores
de Petróleo. A criação da OPEP foi uma forma de reivindicar perante uma
política de achatamento de preços praticada pelo cartel das grandes empresas petroleiras
ocidentais,as chamadas “sete irmãs”: Standard
Oil, Royal Dutch Shell, Mobil, Gulf, BP, Standard Oil of Califórnia, e Chevron.
Os três objetivos da OPEP, definidos pela organização na conferência de Caracas
em 1961, eram aumentar a receita dos países-membros, a fim de promover o
desenvolvimento; assegurar um aumento gradativo do controle sobre a produção de
petróleo, ocupando o espaço comercial das chamadas empresas multinacional; e
unificar as políticas globais de produção. A OPEP aumentou os royalties pagos pelas transnacionais,
alterando a base de cálculo, e as onerou com um imposto.
A
crise do petróleo foi desencadeada num contexto de déficit de oferta, com o
início do processo de nacionalizações e de uma série de conflitos envolvendo os
produtores árabes da OPEP, como a guerra dos Seis Dias (1967), a guerra do Yom
Kipur (1973), a revolução islâmica no Irã (1979) e a guerra Irã-Iraque a partir
de 1980, além de uma excessiva especulação financeira. Os preços do barril de
petróleo atingiram valores altíssimos, chegando a aumentar até 400% em cinco
meses, entre 17 de outubro de 1973 ao dia 18 de março de 1974, o que provocou
prolongada recessão nos Estados Unidos da América e na Europa e desestabilizou os
alicerces de equilíbrio da economia mundial. Esta conjuntura crítica suscitou o
conjunto de selos “Preservação de Recursos Econômicos” demarcando no meio
filatélico, o surgimento de uma nova época em que não se podia mais confiar em
um combustível fóssil barato. Com o curioso lema: “Sabendo usar não vai faltar”,
os dois selos enfatizavam a necessidade de economizar energia elétrica e combustível
para os automóveis. É lugar-comum o pensamento de que é necessário utilizar
sabiamente os recursos naturais e naquela época os selos continham pioneirismo.
A política econômica e a visão geopolítica dos novos donos do poder depois do
golpe político-militar de 1° de abril de 1964 transpareceram nos lançamentos de
selos. É provável, com a consumação do golpe de Estado de 17 de abril
de 2016, mesmo admitindo-se o favoritismo de Lula nas eleições presidenciais de
2018, concorra para estes princípios ideológicos de difusão de imagem em sua historicidade.
Small One Dollar leiloado por R$ 690 mil.
Documentação
tem como representação o conjunto de todos os documentos, que são todas as
fontes contendo informações que ajudem a tomar decisões, comuniquem decisões
tomadas, registrem assuntos de interesse da organização ou do indivíduo. Tem
como característica reunir informações escritas acumuladas numa série sucessiva
de anotações, todavia quando dizem respeito a uma organização ou a um
indivíduo, assumem a característica de documento. O conjunto dos documentos
passa a constituir a documentação, caracterizada com fins comerciais,
industriais, jurídicos, escolares, etc. Sua função é adequar-se à organização, constituir-se num centro ativo e dinâmico de
informações e ser um instrumento de conservação de documentos. Do ponto de
vista do processo de trabalho e comunicação social os princípios do arquivo
referem-se à localização rápida, segurança, flexibilidade, controle e sigilo.
A
notícia pode ser definida como um produto socialmente construído, pois é
resultado das posições sociais de indivíduos e grupos envolvidos com a produção
de um documento, e pelas próprias fontes que atuam como definidores primários
dos eventos. A notícia é uma condensação desses determinantes em um produto
sociocultural essencial na constituição dos processos, conteúdos, formas e
relações sociais. Notícias têm valor ideológico (jornalístico) ou político
apenas quando acabam de acontecer, ou quando não foram noticiadas previamente
por nenhum veículo comercial ou partidário. A História oficial do Brasil vem
sendo narrada através dos selos postais, como ocorre com a proposta da
exposição: “O Brasil no Selo Postal”, inaugurada no Centro Cultural Correios,
no Centro do Rio de Janeiro. Segundo o coordenador geral do evento, Franklin
Pedroso, o avanço da tecnologia da comunicação global, como o e-mail, coloca o selo postal numa
posição de extinção. - “Com o advento da internet, o hábito de comunicação
entre as pessoas, através de cartas, diminuiu radicalmente. Tanto que os
Correios passaram a ter outras funções tão importantes quanto”. Segundo o
coordenador da exposição, “os selos são como historinhas em quadrinhos
compostas por imagens autoexplicativas. É por isso que a mostra acredita no
sucesso da comunicação desse meio, já que qualquer criança é capaz de entender
a mensagem filatélica”.
Em
sua historicidade “correio” é utilizado comumente nas línguas românicas. Sua
origem, porém, é duvidosa, ainda que se suponha que provém do provençal antigo
“corrieu”, palavra composta de “corir” (correr) e “lieu” (lugar), que também
designava a pessoa que se deslocava de um lugar a outro através de cartas e
mensagens. Além disso, também se chamou a atenção também para a importância que
pode ter tido o vocábulo do castelhano antigo “correo”, que nos tempos do Cid
Campeador significava “bolsa para levar dinheiro”. Rodrigo Díaz de Vivar, chamado
El Cid (do mourisco sidi, “senhor”) e de campeador (“campeão”), foi um nobre
guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Hispânia estava
dividida entre reinos rivais de cristãos e mouros (muçulmanos). Sua vida e feitos
se tornaram, com as narrativas da lenda, sobretudo devido a uma canção de
gesta, a “Canción de Mio Cid”, datada de 1207, transcrita no século XIV pelo
copista Pedro Abád, cujo manuscrito se encontra na Biblioteca Nacional da
Espanha, um referencial para os cavaleiros da idade média.
Segundo
a “Canción de Mio Cid”, 300 dos melhores cavaleiros castelhanos decidiram
acompanhá-lo no exílio, fazendo de Zaragoza seu quartel general e travando
batalhas vitoriosas contra os mouros. Noutra versão alternativa, Rodrigo
refugiou-se nas montanhas de Aragão, arregimentando um pequeno exército cujas
armas eram postas ao serviço de quem lhes pagasse mais, fosse cristão ou
muçulmano. Aliás, é também essa fonte alternativa que, ao mencionar seu
casamento com Jimena (ou Ximena), filha do Conde de Oviedo, ocorrido pouco
antes do exílio, diz, maliciosamente, que a dama era mais velha do que ele, e
muito feia, porém tinha um patrimônio invejável. O certo é que, nesse tempo,
Rodrigo estabeleceu vínculos políticos e afetivos com o rei mouro da taifa de
Valência, Al-Cádir, que se tornou seu amigo e protegido ou seu cliente. Foi em
benefício de Al-Cadir que El Cid conquistou os reinos de Albarracín e Alpuente.
Em 1089, o almorávida Yusuf cruzou o estreito de Gibraltar, à frente de um
numeroso exército. A invasão ameaçava a segurança dos reinos espanhóis, e o rei
Alfonso pediu ajuda a Rodrigo, fazendo-o retornar a Castela. Mas não tardou
para que a hostilidade voltasse a se manifestar entre ambos, e El Cid foi
desterrado pela segunda vez etc.
Segundo
a versão que não o enobrece, Rodrigo mandou torturar, e depois queimar vivo, o
governador da cidade, Ben Yehhaf, implicado na morte de Al-Cádir. E não teria poupado
sua mulher e filhos se não fora a intervenção dos nobres cavaleiros que o
seguia. Já a versão mais difundida sustenta que ele, ao se tornar senhor de
Valência, mostrou-se um governante justo e equilibrado. Outorgou à cidade um
estatuto de justiça, implantou a religião cristã, mas, ao mesmo tempo, renovou
a mesquita dos muçulmanos, cunhou moedas e rodeou-se de uma corte de estilo
oriental, composta tanto por poetas árabes e cristãos, quanto por pessoas
eminentes no mundo das leis. Mas os almorávidas não estavam inertes e se
apresentaram às portas da cidade, sob a liderança de Mahammad, sobrinho de
Yusuf. Após vários combates, El Cid obteve uma vitória decisiva, que contribuiu
para tornar sua pessoa objeto de narrativas heroicas, muito embora várias delas
absolutamente inverídicas. Até sua morte, Rodrigo governou Valência em nome de
Alfonso VII, mas, na verdade, seu poder era independente do rei. E ele tratou
de aumentá-lo, fazendo casar uma de suas filhas, Cristina também conhecida como
Elvira, com o príncipe Ramiro Sanchez de Pamplona, e a outra, María Rodriguez
de Bivar, com o conde de Barcelona, Raimundo Berengário III.
Ao
contrário da tradição lendária, antropológica que aprecia vê-lo morrendo
heroicamente em combate, Rodrigo Díaz de Vivar, chamado de “Campeador” ou “El
Cid” ou “Mio Cid”, faleceu numa cama de seu castelo em Valência a 10 de julho
de 1099. É nesse ponto da história social que Rodrigo vira uma lenda em torno
de figura personalista. Os mouros ficaram confiantes, pois haviam finalmente
matado o El Cid. Sua mulher mandou amarrar seu corpo ao cavalo e sua espada a
sua mão e o mandou ao campo de batalha. Ao ver El Cid em cima do seu cavalo
passaram a fugir e foram perseguidos e derrotados pelo exército de Rodrigo. Por
isso a mitificação na lenda que Don Rodrigo de Castella “venceu uma batalha
depois de morto”. Seus restos mortais, juntamente com os de sua esposa, Jimena,
estão sepultados na Catedral de Burgos. A
imagem etnográfica que emerge desse manuscrito é a do personalismo de cavaleiro
medieval idealizado: forte, valente, leal, justo e piedoso. Mas há outras
fontes etnográficas que lhe pintam um quadro bem menos favorável. Esta mera
suposição teórica, portanto, não explica como a palavra teria chegado ao
italiano corriere e ao francês courrier, além do catalão correu e ao
provençal corrieu, com a globalização em tempos difíceis e de viagens longas e quase intermináveis. A etimologia
do adjetivo “postal” é mais clara, pois provém do latim positus,
nome atribuído aos “postos de correio situados ao longo dos trajetos
territoriais para dar descanso aos cavalos dos mensageiros”. Os diferentes
sistemas postais de comunicação que ligavam as diversas regiões da Europa, no
fim da Idade Média, tinham cada qual sua própria tarifa, o que resultava em um
complexo e variado sistema de pesagens, medidas e verificações, ocasionando
muita insatisfação. Segundo o relato etnográfico de Marco Polo (1254-1324) os chineses foram pioneiros no serviço postal.
Por conta disso, diversas organizações clandestinas hic et nunc passaram a oferecer o serviço competitivo
economicamente mais barato e com menos formalidades. Esse movimento e o progresso
do sistema concorrente levaram as autoridades inglesas a uma reforma radical no
serviço de postagem do correio, projeto idealizado pelo funcionário, Rowland
Hill, de unificação do sistema. Uma das propostas estabelecia que as tarifas
pagas pelo usuário fossem confirmadas por meio de um comprovante afixado na
correspondência, ocorrendo em 6 de maio de 1840, as vendas dos primeiros selos
adesivos através das agências postais inglesas pioneiras nestes serviços. O bom
resultado do novo sistema de emissão de cartas passou como um raio de 78
milhões, em 1839, para 170 milhões, em 1840, provocando uma rápida difusão da
reforma. O primeiro selo emitido no mundo foi o Penny Black, pela Inglaterra.
No Brasil, os Correios tiveram sua origem em 25 de janeiro de 1663, com a
criação do Correio-Mor no Rio de Janeiro, então capital da Colônia. A emissão
de selos ocorreu com a série “olho-de-boi”, ocorrida em 1843, constituindo-se o
segundo país no plano mundial a emitir selos.
Em
1931 o decreto 20.859, de 26 de dezembro de 1931 funde a Diretoria Geral dos
Correios com a Repartição Geral dos Telégrafos e cria o Departamento dos
Correios e Telégrafos. A ECT foi criada a 20 de março de 1969, como empresa
pública vinculada ao Ministério das Comunicações mediante a transformação da
autarquia federal que era, então, Departamento de Correios e Telégrafos (DCT).
A mudança não representou apenas uma troca de sigla, foi seguida por uma
transformação profunda no modelo de gestão do setor postal brasileiro,
tornando-o mais eficiente. Durante a década de 1990, discutiu-se a possibilidade
de uma modernização da empresa. A proposta do novo sistema postal estava
baseada no aumento da oferta de serviços, na modernização tecnológica e na
consolidação e ampliação do papel social dos Correios como agente prestador de
serviços públicos. O Ministério das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso desenvolveu um
projeto para o setor postal que foi implantado a partir de 1997, denominado
Reforma Estrutural do Setor Postal Brasileiro (RESP). As propostas foram
apresentadas na Nova Lei Postal, que tramitou, sem ser aprovada, até o início
de 2003, quando foi arquivada. Durante os anos 2000, novamente os Correios
foram alvo de propostas de mudanças e modernização, retomando, em alguns
aspectos, o que fora planejado na década de 1990. A empresa, no decorrer longo dos anos
2000, esteve no epicentro do aparente escândalo do Mensalão e apresentou problemas
operacionais que foram divulgados como a “crise dos Correios”. A estatal foi objeto político de diversas inovações em seus processos gerenciais
e de difusão comerciais.
Bibliografia
geral consultada.
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Cassiano Ricardo Martines, Os Correios do
Brasil e a Organização Racional do Trabalho. São Paulo: Editora Annablume,
1997; SOUZA, Helder Cyrelli, Os Cartões de Visita do Estado: A Emissão de Selos Postais e a Ditadura
Militar Brasileira. Programa de Pós-Graduação em História. Dissertação de
Mestrado. Porto Alegre: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, 2006; CRUZ, Daniella Cipolla, Estratégia de Produção no Setor de Serviços: Um Estudo de Caso nas Empresas Brasileiras de Correios e Telégrafos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2007; RABELLO, Rodrigo, A Face Oculta
do Documento: Tradição e Inovação no Limiar da Ciência da Informação. Tese de
Doutorado em Ciência da Informação. Faculdade
de Filosofia e Ciências. Marília: Universidade Estadual Paulista, 2009; LORENZO, Mauricio Fortes Garcia, O Modelo Regulatório e seus Limites para a Universalização dos Serviços Públicos: O Caso do Setor Postal Brasileiro. Escola de Administração. Núcleo de Pós-Graduação em Administração. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2013; FERNANDES, Tatiana Falcão de Souza, Fluxo Informacional em Canais de Atendimento ao Cliente: Estudo de Caso nos Correios de Paraíba. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2013;SALCEDO, Diego Andres, A Ciência nos Selos Postais Comemorativos Brasileiros: 1900-2000. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2010; Idem,Espelhos de Papel: Pelo Estatuto do Selo Postal. Tese de Doutorado
em Comunicação Social. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2013; FIEGENBAUM, Maicon, Os ´Pequenos Notáveis`: A Utilização do Selo Postal no Processo Ensino-Aprendizagem da Geografia. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017; VENCESLAU, Igor, Correios,
logística e uso do território: os serviços de encomenda expressa no Brasil. Dissertação
de Mestrado em Geografia Humana. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; FONSECA E SILVA, Gustavo, Monopólio Postal: Sua Relevância e as Transformações do Sistema Postal. Monografia de Especialização em Gestão Pública. São João Del-Rei: Universidade de São João Del-Rei, 2018; entre outros.