terça-feira, 6 de março de 2018

Rua Augusta - Corpos, Prazeres & Vida Noturna Metropolitana.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

                               Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade”. Michel de Certeau 

       
          A Rua Augusta é uma via arterial da cidade de São Paulo que liga o bairro dos Jardins a região do Centro Histórico de São Paulo. A rua é reconhecida por suas lojas, boutiques e estabelecimentos de luxo na região dos Jardins e por suas boates, casas noturnas, bares e vida noturna na região que parte da Avenida Paulista em direção ao Centro, passando pela região reconhecida como Baixo Augusta. A rua segue em subida a partir de seu início no entroncamento das ruas Martins Fontes, Martinho Prado e a Praça Franklin Roosevelt, até o cruzamento com a Avenida Paulista. Após cruzar a Paulista, ela se torna uma descida seguindo em direção à Rua Colômbia, no Jardim Europa. A Rua Augusta é reconhecida principalmente por sua vida noturna de bares, baladas e casas de shows variadas, mas também por algumas casas de prostituição, saunas e boates adultas. As primeiras referências dela datam de 1875, chamando-se primeiramente Rua Maria Augusta; em 1897 já aparece como Rua Augusta. Foi parte das terras do português Mariano António Vieira, dono da Chácara do Capão desde 1880, quando abriu várias ruas no Bairro da Bela Sintra, inclusive a Rua da Real Grandeza, atual Avenida Paulista. Resolveu abrir uma trilha, pois os caminhos eram íngremes, para posteriormente serem instalados bondes puxados por burros, em 1890.

           Apenas em 1891 com a inauguração da luz elétrica, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, ficando oficial em 1927. Até 1942, a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada (Decreto Lei N.º 153). Do lado oposto, em direção aos "Jardins", o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome Augusta: tudo leva a crer que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antônio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou adjetivo) ao chamá-la de Rua Augusta. Colabora para esta versão o fato de que o mesmo Mariano, ao abrir uma “picada” no alto do Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. Historicamente vieram os loteamentos, quando surgiram confortáveis residências e comércio para servi-las. Gradativamente começaram a surgir edifícios de moradia. Grande parte de comércio fino de decoração se instalou na região central-ascendente, a partir da Rua Marquês de Paranaguá. As casas residenciais deram lugar ao comércio de rua. Shoppings Centers e Cinemas de categoria social se instalaram frequentados pelas famílias e mais tarde pelos jovens que buscavam distração. Caminho certo rumo aos bairros dos Jardins e seus clubes, como o Club Athletico Paulistano, a Sociedade Harmonia de Tênis e o Esporte Clube Pinheiros.

A Rua Augusta representou para os jovens paulistanos na década de 1960, glamour e diversão. A canção Rua Augusta, de Ronnie Cord, lançada em 1964 foi uma espécie de hino da juventude paulistana que frequentava o logradouro nesta época. A partir da década de 1970, começou a adaptar-se às mudanças, dado o pesado tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros comerciais, aliado à falta de estacionamento. Mesmo assim, os jovens continuaram a estar por lá com suas motos, carros envenenados e muito congestionamento, principalmente, entre as décadas de1970 e 1980. Haviam muitas discotecas e casas de danças para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Está sempre sendo atualizada desde aquela época de grande urbanismo e de seu radiante desenvolvimento, com a reforma do calçamento, decoração com vasos, retirada de uma parte dos postes de iluminação pública obsoletos, colocação de carpete, estacionamento para automóveis na Zona Azul, subterrâneo, construção de boulevard e  o desligamento do trafego dos ônibus elétricos com as novas calçadas. Na década de 1970 a rua Augusta perdeu seu prestígio e comércio, provavelmente, por conta da abertura de grandes Shoppings Centers na cidade de São Paulo. Nessa época também foram abertos diversos prostíbulos em seu entorno. 

                              

A rua modernizou-se em 1993 com a abertura e desenvolvimento do projeto social do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, a Rua Augusta voltou a ser parte e principalmente a rememorar da vida noturna dentre os jovens. A Augusta abriu o Vegas Club, The Pub, Club Noir, o Comedy Club Comedians, considerado o primeiro de comédias do Brasil, YO restaurante, e outros. Seu entorno é ambientado por bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e antigos prostíbulosNa perspectiva de democratização, condição para uma nova estética urbana, duas redes retêm particularmente a atenção sociológica: os gestos e os relatos. Ambos se caracterizam como cadeias de operações feitas sobre e com o léxico das coisas. De dois modos distintos, um tático e outro linguístico, os gestos e os relatos manipulam e deslocam objetos, modificando-lhe as repartições e os empregos. São “bricolagens”, de acordo com o modelo reconhecido ao mito por Claude Lévi-Strauss. Inventam colagens casando citações de passados com extratos de presentes para fazer deles séries (processos gestuais, itinerários narrativos) onde os contrários simbolizam. Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade, se entendermos “arquivos” o passado selecionado e reempregado em função de usos presentes. 

Refazem diariamente a paisagem urbana. Esculpem nele mil passados que talvez já sejam inomináveis e que menos ainda estruturam a experiência da cidade. As histórias sem palavras do andar, do vestir-se, de morar ou do cozinhar trabalham os bairros com ausências; traçam aí memórias que não têm mais lugar – infâncias, tradições genealógicas, eventos sem data. Este é também o “trabalho” dos relatos urbanos. Nos cafés, nos escritórios, nos imóveis eles insinuam espaços diferentes. Acrescentam à cidade visível as “cidades invisíveis” de Calvino.  Eles criam outra dimensão, sempre mais fantástica e delinquente, terrível ou legitimadora. Por isso, tornam a cidade “confiável”, atribuindo-lhe uma profundidade ignorada a inventariar e abrindo-a a viagens do olhar. São as chaves da cidade: elas dão acesso ao que ela é, mítica. Habitar é narrativizar. Fomentar ou restaurar esta narratividade é, portanto também uma tarefa de restauração. É preciso despertar as histórias que dormem nas ruas que jazem de vez em quando num simples nome, dobradas neste dedal como as sedas da feiticeira. Jamais talvez uma sociedade se tenha beneficiado de uma mitologia tão rica. Mas a cidade é o teatro de uma guerra dos relatos, como a cidade grega era o campo fechado de guerras contra os deuses. Entre nós, os grandes relatos da televisão ou da publicidade esmagam ou atomizam os pequenos relatos de rua ou de bairro. É urgente que a restauração venha em socorro desses últimos, registrando e difundindo as que se contam no padeiro, no café ou em casa. Mas isto é feito arrancando-as de seus lugares, relatos de palavras nos bairros ou imóveis restituiriam aos relatos os solos onde podem desabrochar.   

    O bairro se define sociologicamente como uma organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de “se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um “engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois sistemas com o auxílio do conceito de conveniência, que surge no nível dos comportamentos. Representa um compromisso pelo qual cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a vida coletiva,  retirando daí benefícios simbólicos protelados. 
        Pela relação “saber comportar-se”, o usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidianaA contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que percorre. O bairro é por definição, segundo a fenomenologia de de Certeau (2000), “um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se sente reconhecido”. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente, como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social integrado. A fixidez do habitat dos usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento que se estabelecem graças á coexistência concreta num mesmo território urbano, constituindo um lugar praticado, de elementos práticos se nos oferecem como imensos campos de exploração a compreender um pouco melhor esta grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.
É o que ocorreu com “O Artista de Rua” Ricardo Corrêa da Silva que morreu na tarde de sexta-feira do dia 15 de dezembro de/2017 em São Paulo aos 60 anos de idade. De acordo com a família, ele estava internado na ala psiquiátrica do Complexo Hospitalar do Mandaqui, na zona norte da cidade de São Paulo, sofreu um ataque cardíaco e foi transferido para o pronto-socorro, mas não resistiu. Ainda não há informações sobre a causa exata da morte. Personagem famoso ena cidade de São Paulo, Ricardo viu sua história de vida ganhar visibilidade após uma reportagem publicada no site Buzzfeed. Popularmente reconhecido como “Fofão da Augusta”, por causa de um preenchimento de silicone que tinha nas bochechas, Ricardo, que sofria de esquizofrenia, trilhou uma bem-sucedida carreira como cabeleireiro e se tornou sócio de um salão de beleza. No entanto, após sofrer golpes e ver sua saúde mental se deteriorar, foi morar na rua e passou a distribuir panfletos de teatro e pedir dinheiro fantasiado de palhaço na região central de São Paulo. - “Ao longo da vida fomos percebendo que o Ricardo realmente tinha uma questão de saúde mental, o que deu a ele uma personalidade exuberante e sucesso em São Paulo, embora tenha vivido essa vida intensa e com tanto sofrimento. Pelo menos nos conformamos com o fato de ele ter descansado”, afirmou seu irmão Marcelo Corrêa da Silva. 

Ricardo Corrêa da Silva sonhava em ver seu nome nos letreiros do teatro. Nos anos 1970, saiu da cidade de Araraquara a 273 km de São Paulo, para trabalhar com artes cênicas. Acabou enveredando pelo “visagismo”, em que se demonstrou um talento nato. Penteou e maquiou artistas como Tônia Carrero na época em que despontou em alguns dos maiores salões da capital. Investia o dinheiro que ganhava em um ideal de beleza: queria ser igual a uma boneca chinesa de porcelana. Para isso, injetou mais de meio litro de silicone nas maçãs do rosto, nas bochechas e na testa. Fez plástica. No fim dos anos 1980, a esquizofrenia e um golpe de que foi vítima tiraram o que havia conquistado. Acabou sem casa. Passou a se apresentar nos semáforos da Rua Augusta. E seu espetáculo ficou em cartaz por décadas. Ficou conhecido como “Fofão da Augusta”, apelido em que não se reconhecia. – “Mas deixa chamarem assim, coisa boba”. Ele morou na última década sozinho numa pensão, na chamada “cracolândia”, no centro, pela qual pagava diária de R$ 30, e trabalhava distribuindo panfletos de peças de teatro na Av. Paulista. Ricardo foi vítima de embolia pulmonar, menos de uma semana depois de completar seu aniversário de 60 anos.
            O bairro surge como o domínio onde a relação de domínio espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares impostos pelo dinamismo do urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para satisfazer o desejo urbano pleno dos usuários da cidade. 
 
         Mas quem é, afinal, o Fofão da Rua Augusta, que depois da publicação do perfil escrito por Chico Felitti tornou-se, para muitos e para muitas, o Ricardo Corrêa? Segundo Figueiredo (2018: 226 e ss.), o perfil só foi possível, então, quando ficou sabendo, por uma conhecida das redes sociais, que Ricardo estava num hospital e decidiu ir visitá-lo. Após a primeira visita e depois de algum tempo de recuperação de Ricardo, quando estava melhor de saúde, conseguindo falar sobre sua vida e com a esquizofrenia mais controlada, o repórter disse que gostaria de contar a sua história e queria que as pessoas soubessem quem ele realmente era. No hospital, como indigente, ele não tinha direito a um nome, conta Felitti, assim como ele não tinha direito a um nome na cidade, as pessoas chamavam ele de Fofão da Augusta, ninguém sabia o nome dele. O perfil, dessa forma, também foi um processo de busca de identidade. O afeto, além de mover a pesquisa do jornalista, também está presente na sua capacidade de emocionar e comover as pessoas; o que só foi possível porque, para escrever o perfil, o repórter acompanhou a vida de seu personagem durante quatro meses – mas, no total, a convivência durou um semestre inteiro. O exaustivo trabalho de apuração, a curiosidade, uma atitude dialógica e de afeto, fez com que o repórter buscasse o Ricardo herdeiro de 35 mil reais e o Ricardo pobre que pedia dinheiro na rua para sobreviver; o homem que estava internado como indigente no Hospital das Clínicas, mas que era reconhecido pelas pessoas na cidade como o Fofão da Augusta; conhecido de todas e de todos que passavam pela região da Avenida Paulista, mas que, na verdade, era um completo desconhecido para elas; o homem que não gostava de aparecer, mas que dizia “eu não sou desconhecido. Eu sou muito popular”. Ricardo Corrêa não é uma dessas coisas ou outra: Felitti faz com que conheçamos um Ricardo que é uma dessas coisas e as outras também, contraditório e complementaridade de opostos.

           O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro que efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.  Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. A relação entrada ou saída, dentro ou fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa ou trabalho, representando uma relação entre pessoa e mundo, condicionado por uma dialética da autoconsciência que vai haurir, de forma humana, socialmente íntima.                                        
             A inauguração da luz elétrica, em 1891, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, tornando-se oficial em 1927. Mas até 1942 a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada, por motivos de “higienização”. Do lado oposto, em direção aos “Jardins”, o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome “Augusta” tudo leva a crer, de acordo com reminiscências, que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antonio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou ideológico) ao chamá-la de “Rua Augusta”. Colabora para esta ideia o fato social de que o mesmo Mariano, ao abrir uma picada no Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. As frações da classe dominante econômica e politicamente os empresários do café responsável pelas principais atividades do complexo cafeeiro e compondo as oligarquias, possuíam vínculos comerciais com a Europa, mas também culturais, sobretudo com a França. Paris, a metrópole por excelência do século XIX, era a Meca para todos os povos, tendo sido, por conseguinte, alvo dos paulistas enriquecidos. Era a capital da moda, do luxo, do consumo, dos museus, dos teatros, dos esportes e dos demais tipos de lazer de massa. Nela também aconteciam as grandes exposições internacionais. O francês era a principal língua da ciência e da literatura, sendo falada nas cortes que ainda persistiam na Europa como o fora, havia pouco tempo atrás, na do Reinado do Brasil, com sede no Rio de Janeiro. 

Com o tempo, tornaram-se áreas exclusivas de palacetes, graças a uma legislação específica. Em 1894, Joaquim Eugênio de Lima, um dos promotores da abertura da Avenida Paulista conseguiu efetivar junto à Prefeitura uma lei que obrigava as futuras construções a respeitarem um recuo de 10 metros com relação ao alinhamento das calçadas, bem como de 2 metros lateralmente. Etnograficamente, segundo Homem (1994), quatro anos depois, surgiram os recuos obrigatórios para jardins e arvoredo e um espaço de pelo menos 2 metros de cada lado para as residências a serem edificadas nas avenidas Higienópolis e Itatiaia, atual Avenida Angélica. Os bairros dos Campos Elíseos, da Consolação, da Liberdade e de Santa Cecília permaneceram como áreas mistas. Modificou-se a noção de morar da classe dominante. A casa individualizou-se, passando a expressar o êxito econômico e profissional do proprietário, bem como o seu grau de cosmopolitismo. Ela tornou-se o refúgio das lutas pela vida e local de privacidade, ao mesmo tempo em que devia proporcionar afastamento físico daquelas áreas e certa alienação quanto às tensões e aos conflitos sociais. As camadas mais ricas procuraram viver isoladamente. Em São Paulo, historicamente, as vilas foram as que mais disseram respeito à tradição paulistana de auto-abastecimento, recém-saída do mercado da escravidão. Com o Ecletismo, houve uma racionalização do espaço existente ao redor da casa, no sentido de se definir uma posição para cada um dos complementos da construção principal. Os parques e os jardins,  utilizados para o lazer familiar, ficavam sempre em posição fronteira ou lateral, relegando-se aos fundos, os elementos sociais que diziam respeito aos serviços.   

Numa palavra, camuflou-se o trabalho manual, apartando-o da zona destinada ao uso social. Os jardins do art nouveau transformaram-se em moldura do palacete, compondo ambos um conjunto harmonioso. Figuras sinuosas inspiradas no reino vegetal e mineral, tais como: gotas, folhas e flores envolviam a construção principal que passou a ser o centro da composição. Contudo, as áreas exclusivas de palacetes, complementadas pela arborização das avenidas e demais vias que as recortavam, constituíram importante “mancha verde”, apenas interrompida pela gama vermelha dos telhados, dos belvederes e de torres esporádicas, a ponto de se tornarem a principal característica dos bairros das elites paulistanas. Essa notável massa homogênea assinalou a paisagem da cidade, tendo sido “independente do ecletismo de suas edificações” a ponto de podermos defini-los como “verdadeiros marcos referenciais urbanos” conforme observou o arquiteto Silvio Soares Macedo ao se referir ao bairro de Higienópolis. Incluídos nos roteiros turísticos da cidade, tais marcos atraíam a população de outros bairros que neles vinham passear nos fins de semana. Da mesma forma, chamaram a atenção dos viajantes que estiveram na capital paulista nesse período, os quais não deixaram de mencioná-los em seus apontamentos de viagem.                      
        A “Rua Augusta representou para jovens paulistanos na década de 1960 glamour e diversão. Rua Augusta" é uma canção, composta pelo maestro brasileiro Hervé Cordovil e gravada pelo cantor brasileiro Ronnie Cord, sendo seu maior sucesso, e lançada pela gravadora RCA Victor em 1964. Rua Augusta foi a primeira música de rock brasileiro a ter problemas com a censura. Sua terceira estrofe, - “Comigo não tem mais esse negócio de farda/ não paro o meu carro nem se for na esquina/ tirei a 130 a maior fina do guarda...” - foi cortada pela censura, tendo que ser substituída. Sua letra captura o espírito da juventude roqueira do começo dos anos 1960, que tinham suas motos e carros embalados na velocidade das mudanças de costumes trazidos com o rock e o movimento da jovem guarda, na mesma época em que a Rua Augusta, da cidade de São Paulo, era um local progressista do Brasil. A canção também seria regravada pelos Mutantes, no disco “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets” e por Raul Seixas, que deixou uma das versões mais conhecidas do público. A partir da década de 1970, começou a se adaptar às mudanças, dado o tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros comerciais, aliado à falta de estacionamento. Na badalada década a Rua Augusta perdeu seu prestígio e comércio por conta da febril concorrência imobiliária com a abertura de shoppings centers em inúmeros pontos comerciais de São Paulo. 

Os centros comerciais de médio e grande porte funcionam como pequenas cidades, possuindo uma estrutura governamental (a administração) e seus serviços de polícia e bombeiros (segurança), de limpeza (sanitário), de abastecimento de água, de manutenção de infraestruturas etc. Trata-se de um espaço de poder, planejado para estimular a economia urbana e facilitar o consumo. A administração é centralizada, e as lojas são alugadas, para a exploração comercial calculada e a prestação de serviços, sendo sujeitas a normas contratuais padronizadas. Muitas vezes, um supermercado ou grande estabelecimento de varejo funciona como “âncora” do empreendimento. A administração tende a procurar manter o equilíbrio da oferta e uma certa diversificação ou complementaridade entre os diferentes tipos de estabelecimentos e de produtos oferecidos. Os locatários pagam um valor em conformidade com um percentual do faturamento (de 5 a 9%) ou um valor mínimo básico estabelecido em contrato - o que for maior. Os centros comerciais, na maior parte das vezes, cobram por muitos serviços. Nos centros comerciais de maiores dimensões, com vários andares, a circulação se dá, habitualmente, através de escadas rolantes, para facilitar o movimento de pessoas de um andar para outro. O maior shopping center do mundo é o Dubai Mall, em Dubai, nos Emirados Árabes, que conta com 1 200 lojas, 22 salas de cinema, um estacionamento com 14 000 vagas, além de abrigar o maior aquário do mundo, com 33 000 animais marinhos expostos. O título de melhor centro do é atribuído em Cannes, na França, e pertence ao Europa Passage, na Alemanha.

A atriz Fiorella Mattheis é a protagonista da série “Rua Augusta”, que a O2 realiza para a TNT, abreviação para Turner Network Television,  canal de televisão por assinatura especializado em filmes e séries. O canal original foi criado pelo magnata da mídia Ted Turner em 1988 nos Estados Unidos da américa. A programação do canal é em áudio dublado, já em outros momentos, a atração pode ser exibido legendado em horário nobre. O canal chegou ao Brasil na década de 1990. Exibe sucessos do cinema com falas em português e está presente em praticamente todos os pacotes de TV por assinatura do Brasil. Ela representa sua personagem Mika. A série tem direção-geral de Pedro Morelli que divide a direção dos episódios com Fábio Mendonça. A direção de fotografia é de Rodrigo Carvalho e Dante Belluti e a direção de arte de Fabio Goldfarb. “Rua Augusta” é adaptação da série israelense “Allenby Street”. Durante o dia, a Rua Allenby, localizada em Tel Aviv, Israel, é o espaço de atividades comerciais. Quando a noite chega, a via é agitada pelos bares e casas de show da região. E é lá que Mika (Moran Atias) realiza a vida. Trabalhando como prostituta, a jovem divide seu tempo entre o trabalho e os prazeres da vida noturna, até que ela se envolve em caso amoroso.

A série televisiva “Rua Augusta” foi filmada em diversas locações em São Paulo, especialmente na região da Rua Augusta. Mika (Fiorella Mattheis) é uma stripper que reconstrói sua vida após um passado conturbado e misterioso. Ela passa a trabalhar na agitada Rua Augusta, em São Paulo, onde é dançarina na Boate Love e se diverte na boate Hell. Numa noitada, o destino da jovem se cruza com o do filho de um empresário e muda sua vida para sempre. Isto não impediu como alternativa aos usuários que também houvesse abertos diversos prostíbulos em seu entorno. Mas a rua se modernizou em 1993, com a abertura do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, voltou a ser parte da vida noturna dos jovens. Abriu os espaços: Vegas Club, The Pub, Club Noir, o Comedy Club Comedians, primeiro clube de comédias do Brasil, YO restaurante, entre outros. Seu entorno está movimentado por bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e o gosto por antigos prostíbulos. Os jovens consumidores prestigiam a rua com carros e suas motos, e muito congestionamento. Havia muitas discotecas para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Sempre sendo atualizado desde a década de 1970, com reforma do calçamento, decoração com vasos, retirada de uma parte inútil dos postes de iluminação pública que estavam obsoletos, colocação de carpete, estacionamento pago Zona Azul e subterrâneo e a construção de um bulevar e por fim, a eliminação dos úteis e vistosos ônibus elétricos com as novas calçadas.

Bibliografia geral consultada.

BRUNO, Ernani Silva, História e Tradições da Cidade de São Paulo. 2ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1954; CORREA, Mariza et alii, Colcha de Retalhos. Estudos sobre a Família no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; FREITAS, Maria Luiza de, O Lar Conveniente: Os Engenheiros e Arquitetos e as Inovações Espaciais e Tecnológicas nas Habitações Populares de São Paulo (1916-1931). Dissertação de Mestrado. São Carlos: Instituto de Arquitetura e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2005; PIMENTEL, Lídia Valesca Bonfim, Vidas nas Ruas, Corpos em Percurso no Cotidiano da Cidade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2005; JANUZZI, Denise de Cássia Rossetto, Calçadões: A Revitalização Urbana e a Valorização das Estruturas Comerciais em Áreas Centrais. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006;  VEGA, Alexandre Paulino, Estilos e Marcadores Sociais da Diferença em Contexto Urbano: Uma Análise da Descontração de Diferenças entre Jovens em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009; PISSARDO, Felipe Melo, A Rua Apropriada: Estudo sobre as Transformações e Usos Urbanos na Rua Augusta (São Paulo, 1891-2012). Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2013; BASTOS, Bruna Freire, Construindo Identidades, Espaços e Sentido: O Consumo Cotidiano na Cidade de São Paulo. Um Olhar sobre a Rua Augusta. Dissertação de Mestrado em Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo. São Paulo: Associação Escola Superior de Propaganda e Marketing, 2016; ARRUDA, Marina Almeida Ferraz, A Memória no Resgate do Passado - A Rua Augusta em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Cultura e Comunicação. Lisboa: Faculdade de Letras. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2016; FIGUEIREDO, Carolina Moura Klautau de Araújo, Jornalismo, Incerteza e Complementaridade de Opostos: Um Diálogo Compreensivo. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Comunicação. São Paulo: Faculdade Cásper Libero, 2018; entre outros.  

domingo, 4 de março de 2018

Família Bélier - Talento Artístico & Narrativas Sociais de Surdos.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

 “O talento revela-se exatamente porque esconde a sua perfeição”. William Shakespeare

               
            
         Quando alguma pessoa apresenta uma desenvoltura perfeita ao desempenhar determinada atividade, dizem que ela tem um “dom” ou “talento” para aquilo. Apesar de ser empregado de formas semelhantes, o significado da palavra “dom” é diferente da definição de “talento” e, portanto, representam características distintas. Dom vem do latim “donus”, que significa dádiva, presente. Nessa perspectiva, trata-se de uma capacidade inata para desempenhar com destreza e maestria determinada tarefa, até mesmo em aspectos que elas parecem mais complexas para a maioria de um conjunto determinado de pessoas. Podemos citar, como exemplo, uma criança que demonstra desde cedo uma “afinidade eletiva” muito grande para tocar determinado instrumento. Quando falamos em facilidade em executar ou aprender determinada atividade, vale lembrarmos que o significado da palavra “dom” não tem como sinônimo apenas a representação do critério da genialidade. Já que essa condição social ocorre somente com alguns indivíduos determinados e devido a questões psíquico-físicas. E que estão sendo desvendadas através das investigações pluridisciplinares pela ciência. entendida como uma associação livre de disciplinas que concorrem para uma realização. Mas  que cada disciplina não tenha que modificar a visão das coisas e os seus próprios métodos.  
          É através da língua dos sinais que a família Bélier se comunica, saudável e positivamente como se demonstra no filme, La Famille Bélier, comédia dramática francesa realizada pelo cineasta Éric Lartigau. O filme foi lançado nos cinemas franceses a 17 de dezembro de 2014. Na família Bélier, Paula, a filha de 16 anos, é a intérprete indispensável para muitas das tarefas diárias de seus pais e irmãos, todos eles agricultores surdos, menos ela, que fala por telefone, lida com o banco ou facilita-lhes a compreensão no consultório médico, e, sobretudo relacionado à manutenção da granja. Paula representa a tradutora da sua família. Um dia, um professor de música descobre seu talento pelo canto e anima Paula para que participe de um prestigioso concurso musical em Paris, o que lhe daria acesso a uma boa carreira e aos estudos universitários. No entanto, esta decisão significa aparentemente deixar para trás sua família, desnorteada e inquieta pela iniciativa escolar e para quem o conceito da música resulta alheio, Paula começa a dar primeiros passos como adulta, ainda que enfrente a incompreensão dos pais, as dúvidas sobre a sua vocação musical, o abandono das responsabilidades com a família e a incerteza sobre a crescente atração por um rapaz de sua idade. Enquanto isso, seu pai, Rodolphe Bélier, insatisfeito com as ações políticas programadas do prefeito da cidade, decide concorrer às eleições municipais, apesar de ser portador de deficiência no processo social de comunicação visual.
           Uma língua de sinais é uma língua que procede no âmbito da comunicação visual, que surge nas comunidades de pessoas surdas ou se deriva de outras línguas de sinais. Assim como as línguas orais-auditivas, uma língua de sinais é considerada pela linguística como língua natural, pois atende a todos os critérios linguísticos como qualquer língua. Por seu canal comunicativo ser diferente das línguas orais-auditivas, as línguas de sinais são denominadas como línguas de modalidade visuoespacial. Os sinais, ou seja, as palavras, são articulados essencialmente pelas mãos e percebidos através da visão. Na língua de sinais, os sinais não são gestos. Os sinais são símbolos arbitrários, legitimados e convencionados pelos falantes de uma língua de sinais, assim como as palavras são em uma língua oral. Por meio de uma língua de sinais, o surdo ou pessoa com deficiência auditiva têm acesso à informação e à comunicação. Existem línguas de sinais e países com línguas de sinais têm recebido o status de língua oficial. Durante muitos anos, o oralismo, técnica defendida por Alexandre Graham Bell, foi a única forma aceitável de/para comunicação com as pessoas surdas. O famoso Congresso de Milão, de 1880, teve um impacto negativo sobre as línguas de sinais no mundo.

Nesse congresso, os presentes, influenciados pelas ideias de Graham Bell, decidiram pela proibição da língua de sinais como método de educação de surdos. Assim, a língua falada oralmente foi imposta às pessoas surdas, e decretou-se, sem fundamentação científica alguma, que o oralismo deveria constituir a única forma de ensino. Diante disso, as línguas de sinais por mais de 100 anos foram violentamente proibidas e banidas dos típicos espaços escolares. Mesmo com a imposição do Congresso de Milão, as línguas de sinais resistiram.  Muitos linguistas se dedicaram a estudar diferentes línguas de sinais. O pioneiro foi o linguista norte-americano William Stokoe (1919-2000), intitulado como o “pai da linguística das línguas sinalizadas”, concluiu que as línguas de sinais apresentam aspectos linguísticos de uma língua genuína, no léxico, na sintaxe e na sua capacidade de gerar infinitas sentenças e que deveriam ser pesquisadas e estudadas pela linguística. Ao contrário do que acreditam, a língua de sinais não é universal.

Assim como as línguas orais, a variação linguística está presente também nas línguas de sinais. É grande a variedade de línguas de sinais ao redor do mundo, onde há mais de 140 línguas de sinais. São línguas completas, outras complexas, mas com a sua própria gramática e léxico. Cada país tem a sua, ou até mais de uma, língua de sinais. Tomando como exemplo alguns países lusófonos, vemos que utilizam diferentes línguas de sinais: no Brasil existe a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e a Língua de Sinais Kaapor Brasileira, em Portugal existe a Língua Gestual Portuguesa (LGP), em Angola existe a Língua Angolana de Sinais (LAS), em Moçambique existe a Língua de Sinais Moçambicana (LMS). Assim como acontece nas línguas faladas oralmente, existem variações linguísticas dentro da própria língua de sinais, isto é, regionalismos e/ou sotaques. Essas variações se devem a ligeiras diferenças culturais e influências diversas no sistema de ensino do país, por exemplo. Há também outros fatores sociais e culturais que favorecem à diversidade e à mudança linguística, como, por exemplo, a extensão e a descontinuidade territorial e os contatos com outras línguas. 

Além disso, deve-se levar em conta que diferenças culturais são fatores naturais, históricos e sociais de condicionamento nos modos de representação e sobretudo, de interpretação do mundo. Assim, os surdos sentem as mesmas dificuldades que os ouvintes quando necessitam comunicar com outros que utilizam uma língua diferente. Há também uma língua de sinais, análoga ao Esperanto, reconhecida como Gestuno, também reconhecido como língua de sinais internacional, é uma língua artificial e é utilizada em convenções e competições internacionais, visando estabelecer uma comunicação internacional. Não se sabe historicamente quando as línguas de sinais se iniciaram. Mas, sua origem remonta possivelmente à mesma época ou a épocas anteriores àquelas em que foram sendo desenvolvidas as línguas orais. Uma pista interessante para esta possibilidade das línguas de sinais terem se desenvolvido primeiro que as línguas orais é o fato social concreto que o bebê humano desenvolve a coordenação motora dos membros antes de se tornar capaz de coordenar o aparelho fonoarticulatório. As línguas de sinais são criações espontâneas do ser humano e se aprimoram exatamente da mesma forma que as línguas orais. Nenhuma língua é superior ou inferior a outra, cada língua se desenvolve e expande na medida da necessidade ou utilidade de uso de seus usuários. 

             

O Esperanto é a representação social da língua planejada mais falada no mundo. Ao contrário da maioria das outras línguas planejadas, o esperanto já saiu dos níveis de projeto de publicação de instruções e semilíngua de uso em algumas poucas esferas da vida social. Seu iniciador, o médico judeu Ludwik Lejzer Zamenhof (1859-1917), publicou a versão inicial do idioma em 1887. Seu objetivo teve como intenção criar uma língua de mais fácil acesso e aprendizagem. E que servisse como língua franca internacional para toda a população mundial e não, apenas como erroneamente se supõem, para substituir todas as línguas existentes historicamente. O Esperanto é empregado com utilidade de uso comunicativo em viagens, correspondência, intercâmbio cultural, convenções, literatura, ensino de línguas, televisão e transmissões de rádio. Alguns sistemas estatais de educação oferecem cursos opcionais de esperanto, e há evidências de que auxilia na aprendizagem dos demais idiomas.  Apesar da facilidade gramatical, o Esperanto enfrenta dificuldade de ser adotado como língua auxiliar universal. É formado pela junção do radical esper (com origem no latim sperare, “esperar”), da desinência ant (própria do particípio presente) e da desinência o (dos substantivos). Significa, portanto, “aquele que espera”, “aquele que tem esperança”. Ludwik Lejzer Zamenhof vivia em Białystok (Polônia), na época Império Russo. Em Białystok, moravam muitos povos e falavam-se muitas línguas, o que dificultava a compreensão e comunicação, mesmo nas mais cotidianas situações, o que o motivou a criar uma língua auxiliar neutra, a fim de solucionar o problema. Durante a adolescência, criou a primeira versão de Esperanto, chamada lingwe universala, uma espécie de “esperanto arcaico”. 

O seu pai, conseguiu fazê-lo prometer trabalhar no seu idioma para se dedicar aos estudos. Zamenhof então foi para Moscou estudar Medicina. Em uma de suas visitas à terra natal, descobriu que seu pai queimara todos os manuscritos do seu idioma. Zamenhof pôs-se então a reescrever tudo, adicionando melhorias e fazendo a língua evoluir. O primeiro livro sobre o esperanto foi lançado em 26 de julho de 1887, em russo, contendo as 16 regras gramaticais, a pronúncia, alguns exercícios e um pequeno vocabulário. Logo depois, mais edições do Unua Libro foram lançadas em alemão, polaco e francês. O número de falantes cresceu rapidamente nas primeiras décadas, primordialmente no Império Russo e na Europa Oriental, depois na Europa Ocidental, nas Américas, na China e no Japão. Muitos desses primeiros falantes vinham de outro idioma planificado: volapük. As primeiras revistas e obras originais em esperanto começaram a ser publicadas. Em 1905, aconteceu o pioneiro Congresso Universal de Esperanto, em Bolonha-sobre-o-Mar, na França, juntando quase mil pessoas, de diversas nacionalidade e povos. Em 1906, foi fundado, no Brasil, o primeiro grupo esperantista: o Suda Stelaro, em Campinas. Colabora em desfazer as crenças  presentes em nossa sociedade, de que os surdos possuem prejuízos intelectuais, ou são pessoas infantis

Obviamente os surdos ainda sofrem discriminação e consequente isolamento social, este último amenizado, no filme, pelo fato social de serem três surdos na composição familiar e também por Paula ser a interprete em suas interações com os não surdos. Vale esclarecer que a expressão surda-muda é equivocada porque advém de uma crença comum que os surdos são também mudos e da negação dialética da alteridade pelo fato de não ouvirem. A audição é importante no aprendizado da fala, mas os mudos não o fazem porque possuem prejuízo crônico no aparelho fonador, o que não acontece com os surdos, que podem aprender a falar, embora seja difícil e necessite bastante investimento. Além disso, os surdos não detém a linguagem oral, mas possuem a possibilidade da língua dos sinais que não deixa de ser uma forma de linguagem. Família nuclear é termo usado para definir um grupo familiar composto por um par de adultos que devido a relações sexuais ocorridas e correntes entre o par que se uniu por relações, as mais diversas possíveis, tais como: físico, psíquico, emocional, espiritual, social, político, dentre outras, se houver, é que permitiu o surgimento dos parentes de primeiro grau e seus filhos. As estruturas familiares de um casal e seus filhos estiveram presentes na Europa Ocidental e na Nova Inglaterra, no século XVII, influenciada pela igreja e por governos teocráticos.
 
O surgimento e desenvolvimento da industrialização e o capitalismo, a família nuclear tornou-se uma unidade social financeiramente viável. O termo família nuclear apareceu pela primeira vez no início do curto século XX. Definições de sentido histórico sociológico, tornarma-se alternativas que evoluíram para incluir unidades familiares chefiadas por pais do mesmo sexo, com o distanciamento da influência da igreja e familiares adultos talvez adicionais que assumem um papel de coabitação parental; neste último caso, também recebe o nome de família conjugal. A rigor, uma família nuclear ou conjugal consiste meramente de pais e filhos, ainda que muitas vezes inclui, em função de certas condições sociais um ou dois outros parentes, bem como, um pai ou mãe viúva ou irmão solteiro de um ou outro cônjuge. 
A tese deste libelo francês é original: uma garota tímida descobre talento para o canto, o que gera problemas sociais e familiares caso queira seguir esta carreira. Escolher o caminho da música representaria cortar o cordão umbilical, algo doloroso para todos os envolvidos. A maior diferença etnográfica, neste caso, está na família de Paula: seu pai, sua mãe e o irmão são surdos-mudos. Por ser a única capaz de escutar, Paula trabalha como intérprete nas negociações comerciais da fazenda familiar, e se encarrega de traduzir a linguagem de sinais para os amigos e vizinhos. O talento vocal da filha ganha outro significado a partir do momento em que antiteticamente não pode ser apreciado pelos pais. A música também funciona como válvula de escape à vida de dependência nas relações familiares - não é à toa que a canção principal deste drama musical, Je Vole, sugere um rito de passagem, da fuga da adolescência para a passagem à fase adulta. Por este fator social, “A Família Bélier” (2014) representa um aparecer social mais dinâmico do que os filmes que retratam a música como passagem da categoria simples ao concreto que revela um talento providencial. O talento tende a associar-se à habilidade inata e à criação, embora se possa desenvolver com a prática e treino. A habilidade inata é a aptidão, competência, destreza ou faculdade adquirida e desenvolvida pela consciência em retrovidas, ou melhor, em períodos de intermissão, manifestando-se espontânea e naturalmente na ressoma intrafísica atual. 
O filme é beneficiado pelo ponto de vista naturalista do diretor Eric Lartigau: a deficiência auditiva da família é vista sem piedade ou vitimização.  O cineasta deve ter aprendido com o sucesso de “Intocáveis” - onde a imobilidade física pode ser abordada com humor - contanto que se mantenha o respeito e evite o paternalismo. O ambiente bucólico também é tratado com puro realismo, sem insinuações de monotonia ou atraso. Mesmo o ambiente escolar e as conversas entre os adolescentes, repletas de gírias e falas rápidas, funcionam como bom retrato das gerações. As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo dado problema. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, em um mesmo âmbito social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma adesão concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. 
Mas a forma como grupos de uma mesma conexão geracional lidam com os fatos históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto macrossociológico da sociedade. As atuações exemplares chamam atenção. Para o papel dos pais, foram escolhidos dois ícones do cinema francês e belga, respectivamente: Karin Viard e François Damiens. Ambos transitam com facilidade entre a comédia e o drama, individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) essencialmente nesta história, e se equilibram de modo eficaz, já que o estilo contido de Damiens completa a gesticulação exagerada de Viard. Hilários em cena, eles também demonstram respeito no retrato de surdos-mudos. O elo talvez mais fraco do elenco é a protagonista Louane Emera, candidata do programa The Voice na França, e que faz os seus primeiros passos no cinema. Seu início como atriz é promissor, e ainda pode se desenvolver muito, mas a falta de experiência dramática fica visível em cenas importantes como o clímax na Radio France, uma sociedade de serviço público, criada pelo Estado em 1° de janeiro de 1975 que gere as estações da rádio pública metropolitana assim como várias formações musicais. 
Na excêntrica família Bélier, todos os membros são surdos-mudos com exceção da jovem Paula, filha mais velha do casal Rodolphe e Gigi. Por conta ela acaba sendo a intérprete da família em quase todas as situações, sendo de extrema importância para a relação da família com o mundo exterior. Vivendo em uma fazenda, a principal rotina de todos é cuidar dos animais e das plantações da propriedade, mas Paula ainda precisa reservar um tempo para os estudos. Apesar de ser tímida e viver uma vida quase reclusa, ela não deixa de ser como todas as outras adolescentes de sua idade: tem uma melhor amiga inseparável, um namoro mal resolvido e o mais importante de tudo, sonhos. Incentivada pelo seu professor Thomasson, Paula descobre um dom seu até então desconhecido: o de cantar, e a começar a sonhar na carreira musical. E todas de extrema qualidade, graças à classe de voz de Leouane Emera, reconhecida por ter participado da edição francesa do programa de televisão The Voice. Sua singularidade é a valorização apenas da voz de um competidor, não julgando a sua aparência ou desempenho de palco, como diferença similares um artista pronto e não moldá-lo. Apesar de ser muito parecido com a questão referente aoo dom em definição, o talento se distingue por conter justamente uma habilidade técnica que pode ser desenvolvida ou aperfeiçoada.    

Trata-se de um gosto especial, uma aptidão, uma predisposição espontânea a algo, que atinge sua plenitude por meio de muito treino, disciplina e perseverança. Nesse sentido, ser muito bom em determinada atividade somente depende de você. Mas além da paixão pelo que faz, é necessário que seja comprometido, disciplinado com suas atividades e, principalmente, que esteja em constante treinamento. Apesar do significado da palavra dom estar diretamente relacionado a alguma característica social com a qual nascemos ele somente poderá tornar-se visível mediante a prática. Nesse caso, seus sentimentos (inconsciente), pensamentos (razão) e comportamentos devem bem conduzidos para serem utilizados, talvez, de forma produtiva. Freud salientou a importante relação entre o comportamento de um ser humano adulto e certos episódios de sua infância, mas resolveu preencher o considerável hiato entre causa e efeito com atividades ou estados do aparelho mental. Em relação aos costumes e comportamentos sociais, ele contribuiu para antropologia tendo como referência o método clínico que praticou e desenvolveu.    
A psicanálise interpreta as manifestações da psique, as tendências sexuais (ou libido), e as fórmulas morais e limitações condicionantes do indivíduo. São dois os fundamentos da teoria psicanalítica: 1) Os processos psíquicos são em sua imensa maioria inconscientes, a consciência não é mais do que uma fração de nossa vida psíquica total; 2) Os processos psíquicos inconscientes são dominados por nossas tendências sexuais reprodutivas. Nesse sentido, o psicanalista Freud pretendeu descrever e explicar a vida humana tanto do ponto de vista pessoal e individual, mas também pública e social, de forma mítica recorrendo a essas tendências sexuais a que chamou de libido. Com esse termo, o pai da psicanálise designou a “energia sexual” de maneira mais geral e indeterminada. Assim, por exemplo, em suas primeiras manifestações sociológicas, a libido liga-se as funções vitais, se entendermos que no bebê que mama, o ato de sugar o seio materno provoca outro prazer além daquele natural de obter alimento e esse prazer passa a ser buscado por si mesmo.
Na abordagem psicanalítica fundada por Sigmund Freud, o indivíduo se constitui como um ente à parte do social e que compõe o nível de análise social. Freud refere-se aos aspectos que compõem um estado instintivo humano e que acaba por se tornar inibido em prol da convivência em comunidade. A inibição destes aspectos, que são instintivos, consiste numa privação de características que são inatas aos homens, e, esta própria privação, acaba por consistir em determinados descontentamentos. Neste sentido, os homens em civilização ou civilizados demonstram-se descontentes na busca de sua felicidade, pois seus instintos não são prontamente atendidos em sociedade. No seu ensaio: “O mal-estar da civilização”, Freud elabora uma discussão filosófico-social a partir de sua teoria psicanalítica. O autor desenvolve a ideia pragmática segundo a qual, em sociedade, “não há avanço sem perdas”. A ideia central que desenvolve nesta obra é a de que a civilização é inimiga da satisfação dos instintos humanos. A sociedade modifica a natureza humana individual, constitui o homem como membro da comunidade, adaptando-o a um processo vital que torna o indivíduo um ente social.

Segundo Freud, o conteúdo do inconsciente é, muitas vezes, reprimido pelo Ego. Para “driblar” a repressão, as ideias inconscientes “apelam” aos mecanismos definidos por Freud n`A Interpretação dos Sonhos, como deslocamento e condensação. Estes dois seriam relacionados, na linguística por Romain Jacobson à metonímia e metáfora, respectivamente. Portanto, as representações de ideias inconscientes manifestam-se nos sonhos como símbolos, tanto metafóricos quanto metonímicos. Aplicando o conceito à fala, o inconsciente consegue expelir ideias recalcadas através dos chistes ou atos falhos. Antes, são mecanismos da fala que articulam ideias aparentes com ideias reprimidas, são meios sociais pelos quais é possível exprimir os “instintos primitivos”. Semelhante à análise dos sonhos, a análise da fala seria um caminho psicanalítico para investigar os desejos ocultos do homem e as causas das psicopatologias. – “É na palavra e pela palavra que o inconsciente encontra sua articulação essencial”. Deste modo, Freud cria uma inter-relação entre os campos da linguística e da psicanálise, que será retomada por estudiosos posteriores, como ocorre precisamente nos Séminaire de seu maior intérprete, Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), mas que não trataremos agora. 
Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do “Estádio do Espelho”. O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com fenômenos como amor e ódio. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da psicanálise. Esse registro é o do simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Claude Lévi-Strauss afirmava que “os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é o “Grande Outro” que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – “o inconsciente é o discurso do Outro”, “o desejo é o desejo do Outro”. O campo de ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como “formações do inconsciente”. A isto se refere decisivamente o lacanianismo “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”.
 Ipso facto, não há estatuto lacaniano de psicanálise. E até fica evidente que o próprio Lacan está às voltas com um problema. E que ele evolui, tenta soluções, o que leva seus alunos a periodizar seu ensino, e a admitir, conduzidos por uma leitura atenta, que ele talvez tenha dito, senão tudo e o contrário de tudo, pelo menos, que tenha tomado às avessas suas teses aparentemente mais garantidas. Desse estudo rigoroso do ensino de Lacan, nasce a pergunta: “que é ser lacaniano?” e essa pergunta de identificação, e de papéis, passa a ser: “qual é o problema lacaniano na psicanálise?”. Ser lacaniano torna-se uma questão de exercício pleno, uma questão nova quando a resposta “ser lacaniano é ser freudiano” já não satisfaz. No entanto, essa resposta é um convite de Lacan. Mas isso só podia ser dito, em relação a essa variedade de freudismo, o anafreudismo, que se impôs nos últimos anos da existência de Freud, dominando a psicanálise durante vários decênios, sendo considerada uma interpretação sociológica do freudismo, canônica, dogmática, de certos elementos da doutrina de Freud. Considerando este anafreudismo, era então possível responder “ser lacaniano nada mais é do que ser freudiano”. 

Nas trocas de presentes se misturam os sentimentos e as pessoas. Misturam-se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. As regras de generosidade descritas por Mauss são bem definidas pelo valor e a interdição freudiana que se liga ao fato de que o tabu ainda subsiste entre nós, como Freud considerou no prefácio da primeira edição de “Totem e Tabu”, em 1913. As considerações sobre o kula, enquanto grande potlatch leva os estudos etnológicos de Malinowski ao tema da dádiva na medida em que significa um comércio cujas particularidades são típicas dos povos das ilhas Trobriand. A interdição como dever recíproco estabelecido entre devedores e credores, orienta o movimento cíclico e regular das transações. O penhor dado condiciona-se ao zelo e a transferência, essa transmissão para um terceiro em outro kula configura a circulação dos signos de riqueza e traduzem o orgulho do possuidor que, por sua vez, não pode guarda-los por muito tempo. - “O kula, sua forma essencial, não é senão um momento, o mais solene, de um vasto sistema de prestações e de contraprestações que, em verdade, parece englobar a totalidade da vida econômica e civil das Trobriand”. Os exemplos analisados por Mauss no Ensaio sobre a Dádiva (2003) não representam casos isolados dessa instituição nas tribos da África, Melanésia, Polinésia, América do Sul e do Norte.
Em nossas práticas cotidianas e costumes não é raro o aparecimento de rivalidades e distintas formas de conflitos que caracterizam a troca de presentes. As manifestações são múltiplas, no entanto, carregam o mesmo cerne encontrado naquelas sociedades. Mauss destaca no caso polinésio o aspecto religioso e moral por trás do dever de retribuir o presente recebido, nele o que pode ser compensado ou trocado equivalem aos tesouros, talismãs, objetos sagrados, inclusive tradições e rituais mágicos. Os elementos essenciais do potlatch giram em torno dos seguintes critérios: “(...) honra, do prestígio, do mana que a riqueza confere, e o da obrigação absoluta de retribuir as dádivas sob pena de perder esse mana, essa autoridade, esse talismã e essa fonte de riqueza que é a própria autoridade”. Os aspectos históricos do que hoje entendemos como direito das obrigações são também abordados nesse livro, inclusive quanto ao aspecto diacrônico da origem da distinção, nas sociedades semíticas, grega e romana, entre a obrigação e a prestação não gratuita, de um lado, e a dádiva, do outro. Aquisições recentes da civilização, de acordo com ele, com possível origem em fase anterior, sem a mentalidade fria e calculista de dádivas trocadas, em que se fundem pessoas e coisas tal como pode ser deduzido em vestígios do direito romano, ou nas leis da Germânia, ou Código de Manu da cultural da Índia antiga.
O peso marcante da propriedade em nossos dias aproxima-se daquilo que para o direito maori anima espiritualmente a coisa colocada em circulação, que tende naturalmente ao retorno para o seu local de origem. A questão da recusa da obrigação de dar e receber, por sua vez, equivale a declaração de guerra, pois o vínculo estabelecido é eminentemente espiritual na concepção nativa. Outro aspecto interessante relatado etnograficamente por Mauss diz respeito a noção de economia e moral por trás do presente trocado com os deuses. Não é totalmente desconhecido, tendo em vista que as práticas religiosas ligadas ao cristianismo, de modo ilustrativo, são guiadas pela troca de favores e presentes em agradecimento às benesses vindas do céu, seja por intermédio da Trindade divina, dos santos ou demais entidades celestes. Sobre o “sacrifício-contrato” Marcel Mauss explica da seguinte forma: A destruição sacrificial tem por objetivo ser, precisamente, uma doação a ser necessariamente retribuída. Não é só para manifestar poder, riqueza e desprendimento que escravos são mortos, que óleos são queimados, que o cobre é lançado ao mar e até mesmo casas suntuosas são incendiadas.
         Assim, é também para sacrificar aos espíritos e aos deuses, em verdade confundidos com suas encarnações vivas, os portadores de seus títulos, seus aliados iniciados. Em poucas palavras, sobre as sociedades melanésias Mauss entendeu o complexo sistema de economia estabelecido entre aqueles povos. Por meio das dádivas feitas e retribuídas eles substituem o sistema de compra e venda e operam de modo semelhante aos nossos. No caso do noroeste americano, a diferença existente diz respeito a violência e ao exagero que chega a suscitar o que Mauss chamou de prestações totais simples, ou seja, uma certa desproporção em relação aos conceitos jurídicos observados na Melanésia. A certeza da retribuição das dádivas que circulam nesta e na Polinésia é garantia própria da coisa posta em circulação. A particularidade desta dádiva é o termo, o tempo para que a contraprestação seja executada. Nas palavras do autor: “a dádiva implica necessariamente a noção de crédito”. Não menos importante, como já foi mencionado aqui, é a noção de honra. Enfim, a ascensão de Paula na música não é súbita, mas fruto de trabalho, e seu tutor neste caminho, interpretado pelo  ótimo Eric Elmosnino, que também não é um homem generoso, apenas um professor arrogante que por acaso descobre o dom da aluna.
Bibliografia geral consultada.
THOMA, Adriana; LOPES, Maura Corcini (Orgs.), A Invenção da Surdez II: Espaços e Tempo de Aprendizagem na Educação de Surdos. Santa Cruz do Sul: Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul, 2006; KELLER, Helen, A História de Minha Vida. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2008; WITKOSKI, Silvia Andreis, Educação de Surdos e Preconceito: Bilinguismo na Vitrine e Bimodalismo Precário no Estoque. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Setor de Educação. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2011; HÜBNER, Marcus, A Educação Ambiental no Contexto da Interculturalidade e da Cultura Surda. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental. Instituto de Educação. Rio Grande: Universidade Federal do Rio Grande, 2012; BRAUN, Patrícia, Práticas Pedagógicas e o Aluno com Deficiência Intelectual: Uma Intervenção Colaborativa sobre os Processos de Ensino e Aprendizagem na Perspectiva Histórico-Cultural. Tese Doutorado em Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012; SAAVEDRA, Claudia Carla Echenique,  Shakespeare Além do Espaço Tempo: Uma Conversa sobre Direitos Humanos nas Tragédias Titus Andronicus, Ricardo III e Macbeth. Tese de Doutorado. Instituto de Artes. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2014; REIS, Flaviane, A Docência na Educação Superior: Narrativas das Diferenças Políticas de Sujeitos Surdos. Tese de Doutorado. Programa de Pòs-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Uberlândia: Universidade Federal de Ubelândia, 2015; GARCIA, Renata Rodrigues de Oliveira, Qualidade de Vida da Pessoa Surda no Ambiente Familiar. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. Faculdade de Medicina. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2016; RUZZA, Mara Lopes Figueira de, A Inclusão Educacional do Sujeito Surdo: Direito Garantido ou Reprimido? Dissertação de Mestrado. Programa de Educação: Currículo. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2016; BASTO, Renata Muniz Prado, Identificação e Promoção do Talento Feminino: Conhecendo Trajetórias e Despertando Potenciais. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde. Brasília: Universidade de Brasília, 2018; SOUZA, Gelida Fonseca de, Relações Familiares entre Surdos e Ouvintes: Análise de Narrativas Biográficas. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2018; entre outros.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Empresa de Correios - Estado, Trabalho & Extinção do Selo no Brasil.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

E havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu quase por meia hora”. Apocalipse (8:1)

   
                                               
Considerada tanto o primeiro documento da história brasileira como o primeiro texto literário do Brasil, a carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei d. Manuel, em forma de diário, leva ao monarca luso uma narrativa pessoal marcada pela observação etnográfica do que os europeus chamavam de Novo Mundo. É possível verificar a expressa preocupação de descrever gestos, corpos e hábitos de alimentação e abrigo dos nativos. Há o desejo de narrar como o local foi encontrado e como vivem os indígenas que ali habitam. Trata-se, portanto, de um documento etnográfico com valor histórico e cultural pela descrição de hábitos, e literário, pelo apelo formal e estilístico. O documento original, é intitulado oficialmente Carta a El-rei D. Manuel sobre o dito “achamento” do Brasil, guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, Portugal, é constituído por sete folhas de papel manuscritas, cada uma em quatro páginas, num total de 27 páginas de texto e mais uma de endereço. Primeiro texto escrito no Brasil foi feito em Porto Seguro, com data de 1° de maio de 1500, e foi levado à Lisboa por Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota. O curioso é seu sintoma, no plano do imaginário individual e coletivo posto que só foi descoberto, em 1773, no Arquivo Nacional português, por José Seabra da Silva. A informação foi publicada, pela primeira vez pelo padre Manuel Aires de Casal na sua Corografia Brasílica (1817), mas que demonstra claramente seu personalismo, pela técnica de análise do discurso dando origem e seu significado.
O personalismo foi um movimento associado ao humanismo e não ligado a partido político, idealizado por Emmanuel Mounier, após a crise de 1929 da Europa e divulgado pela revista “Esprit”, com a intenção de identificar a verdade em toda a circunstância. Ele acreditava que o problema das estruturas sociais era econômico e moral, e a saída para isso era a teorização e a construção de uma “comunidade de pessoas”. O personalismo é uma filosofia que tem como ênfase conduzir o homem para sua realização como pessoa. Tendo esse pensamento como princípio ideológico, o sujeito que se percebe como pessoa, e não como indivíduo, percebe a importância de sua pessoalidade e se desperta para ação vocacional, no sentido weberiano do termo, dando lugar a expectativas pessoalizadas. O personalismo foi adaptado pela Democracia Cristã, e influenciou o Papa João Paulo II e, ideologicamente os católicos. Na visão personalista, ser completo como pessoa é levar a sério necessidades pessoais satisfeitas, percebidas e trabalhadas. Levando isso a sério, a filosofia personalista, destacando o valor da pessoa, em detrimento do indivíduo, coloca a questão pessoal sobre as demais questões, por entender que as questões importantes da existência estão contidas nas pessoas. Nada deve diminuir o valor e a primazia de uma existência personalista. O individualismo, na concepção de Mounier, consiste num sistema de costumes, de sentimentos, de idéias e de instituições que organiza o indivíduo partindo de atitudes de isolamento e de defesa. 
Foi a ideologia e a estrutura dominante da sociedade burguesa ocidental no período que compreende desde o século XVIII e o século XIX. Homem abstrato, sem vínculos nem comunidades naturais, deus supremo no centro de uma liberdade sem direção nem medida, sempre prontas a olhar os outros com desconfiança, cálculo ou reivindicações; instituições reduzidas a assegurar a instalação de todos esses egoísmos ou o seu melhor rendimento pelas associações voltadas para o lucro; eis a forma de civilização que vemos agonizar. Sem dúvida alguma, uma das mais pobres que a história testemunhou. Civilização que se enquadra perfeitamente no que ele chama de “a própria antítese do personalismo e o seu mais direto adversário”. No plano das ideias representadas pelo filme: The Seventh Seal, dirigido por Ingmar Bergman e lançado em 1957, é um filme existencial, mas que permite como a maioria dos filmes de base histórica e psicológica diversas interpretações de quem o assiste. Por curiosidade, ele foi produzido com base em uma peça de teatro chamada O Retábulo da Peste. Sabemos, ao certo, que toda manifestação artística possui muitos traços da essência de quem a realiza e com “O Sétimo Selo” não é diferente, pois podemos traduzi-lo ao âmbito de expressão da individualidade de Ingmar Bergman, demonstrando dúvidas, conflitos e a angústia. A Peste Negra que, no contexto social do filme, deflagrou e acabou com a esperança de vida é tema central dessa obra prima do diretor sueco. Toda a simbologia do filme consegue demonstrar esse lado contumaz da Idade Média. O uso do preto e branco foi essencial, sem falar da morte, interpretada por Bengt Ekerot.


O século XIV, que é a época diegética de O Sétimo Selo, assinala o apogeu da crise feudal, representada pelo trinômio “guerra, peste e fome”, que juntamente com a morte, compõem simbolicamente os “quatro cavaleiros do apocalipse” no final da Idade Média.  Inicialmente, a decadência do feudalismo resulta de problemas estruturais, quando no século XI, a elevada densidade demográfica na Europa, determinou a necessidade de crescimento na produção de alimentos, levando os senhores feudais a aumentarem a exploração sobre o trabalho servil que iniciaram uma série de revoltas e fugas, agravando a crise já existente. As cruzadas entre os séculos XI e XIII representaram outro revés para o sistema feudal, já que os seus objetivos mais imediatos não foram alcançados: Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos, o cristianismo não foi reunificado, e a crise feudal não foi sequer minimizada, já que a reabertura do mar Mediterrâneo promoveu o Renascimento comercial e urbano, que já contextualizam o pré-capitalismo, na passagem da Idade Média para a Moderna. O trinômio “guerra, peste e fome”, que marcou o século XIV, afetou tanto o feudalismo, como o capitalismo nascente. A Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre França e Inglaterra devastou boa parte da Europa, mas a “peste negra” eliminou 1/3 da população. A destruição dos campos, plantações e rebanhos, trouxe a fome, o atraso, a decadência e a morte.
Museu Nacional dos Correios.
O personalismo coloca a pessoa acima de quaisquer instituições ou coletividade, pois o ser humano com sua pessoalidade é único e peculiar, e essa peculiaridade impossibilita que todo o seu querer e as suas ânsias, estejam totalmente em harmonia ou satisfeitos com as vontades, aspirações ou conquistas de uma classe social, grupo, ou instituição. Se como pessoa percebemos uma grande distância entre o nosso querer e o que recebemos como pagamento num convívio trabalhista, entre o nosso querer e o que me oferece um grupo e as instituições sociais, não podemos deixar também de perceber e tratar o próximo como uma pessoa, justamente por entender que ele tem como admitimos, aspirações pessoais, que, sendo pessoalizadas, naturalmente se chocam com as nossas por serem frutos da subjetividade e peculiaridade pessoal. Com a percepção da pessoa como um ser distinto, mas próximo, evitamos a homogeneização das relações  porque tendemos a buscar proximidades pessoais sem desvalorizar a alteridade. A encarnação da ideia é um dos pressupostos mais fortes do personalismo. E seu cerne é a ação, e é nesse ponto que ele se destaca das demais disciplinas filosóficas, pois não propõe apenas afirmações e sim ações afirmativas ou afirmações engajadas.
Correio é um sistema social de comunicação que envolve o processo de trabalho de envio de documentos e encomendas entre um remetente e um destinatário, que podem estar numa mesma cidade ou em lugares entre Estados muito distantes entre si. Desde a metade do século XIX, o sistema postal nacional, privado ou público, passou geralmente a ser estabelecido por monopólios governamentais através de um papel pré-pago, que era na forma de estampas adesivas, os selos. Em geral, os monopólios governamentais apenas entregavam as encomendas para prestadoras de serviços, e estas responsáveis pela entrega da encomenda até o endereço correto. Governos democráticos ou autoritários podem restringir empresas públicas ou privadas para sua documentação. Os selos também marcaram a continuidade da política de “substituição de importações” do período anterior (1946-1964), seu esforço industrializante e seus gargalos na produção e na exportação. O forte crescimento da economia brasileira de 1968 a 1973, o chamado “milagre econômico” baseava-se na conjuntura internacional favorável. O produto mundial crescia e com ele a procura por produtos próprios brasileiros.
Filatelia é o estudo e o colecionismo de selos postais e materiais relacionados. A filatelia tem várias áreas de estudo, a saber: filatelia tradicional, história postal, pré-filatelia, marcofilia, inteiros postais, filatelia temática, aerofilatelia, astrofilatelia, maximafilia, filatelia juvenil, literatura filatélica, selos fiscais, classe aberta e um quadro. O objetivo deste hobby é selecionar selos para compor uma coleção, que pode ser geral ou temática. Existem coleções que além dos selos possui informações sobre o tema, parâmetro utilizado por muitas pessoas nas coleções temáticas. Enquanto entre as coleções gerais, pode-se dizer que se dividem em mundo e país. É frequente encontrar coleções com apenas selos de um país, assim como de qualquer lugar do mundo. Quando não seguem nenhum critério este tipo de coleção é usual entre iniciantes. Apesar de diferenças entre os vários tipos de coleções, um único ideal une os filatelistas de todo o mundo: a vontade de conhecer mais sobre um lugar, objeto, pessoa, país, etc. É o conhecimento que estimula os filatelistas a continuar com seu hobby apesar da diminuição das correspondências como processo social de comunicação dos Correios.
 Carta que será enviada a D. Manuel I.
O modelo de industrialização e de transportes adotado desde antes da ditadura civil-militar de 1964, mas consolidado por esta se fundamentava no uso extensivo de derivados de petróleo como combustível. A produção nacional de petróleo era, no entanto pouco significante. O país dependia, para continuar funcionando, de um fluxo de petróleo que era basicamente importado. Esse ponto fraco evidenciou-se quando uma confusa conjuntura política no Oriente Médio ocasionou a quadruplicação dos preços do petróleo no final de 1973. Como a necessidade do produto era grande, em pouco o país começou a sofrer de dificuldades de pagamentos externos, ou seja, as vendas externas passaram a ter problemas para cobrir as compras. A crise do petróleo aconteceu em cinco fases, todas depois da Segunda Guerra Mundial provocada pelo embargo dos países membros da OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Golfo Pérsico de distribuição de petróleo para os Estados Unidos da américa e países da Europa.
A região petrolífera do Golfo Pérsico foi descoberta em 1908 no Irã, a partir daí, toda a região começou a ser visada estrategicamente e explorada. Em 1960, na cidade de Bagdá, os cinco principais produtores de petróleo: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. A criação da OPEP foi uma forma de reivindicar perante uma política de achatamento de preços praticada pelo cartel das grandes empresas petroleiras ocidentais,  as chamadas “sete irmãs”: Standard Oil, Royal Dutch Shell, Mobil, Gulf, BP, Standard Oil of Califórnia, e Chevron. Os três objetivos da OPEP, definidos pela organização na conferência de Caracas em 1961, eram aumentar a receita dos países-membros, a fim de promover o desenvolvimento; assegurar um aumento gradativo do controle sobre a produção de petróleo, ocupando o espaço comercial das chamadas empresas multinacional; e unificar as políticas globais de produção. A OPEP aumentou os royalties pagos pelas transnacionais, alterando a base de cálculo, e as onerou com um imposto.               
A crise do petróleo foi desencadeada num contexto de déficit de oferta, com o início do processo de nacionalizações e de uma série de conflitos envolvendo os produtores árabes da OPEP, como a guerra dos Seis Dias (1967), a guerra do Yom Kipur (1973), a revolução islâmica no Irã (1979) e a guerra Irã-Iraque a partir de 1980, além de uma excessiva especulação financeira. Os preços do barril de petróleo atingiram valores altíssimos, chegando a aumentar até 400% em cinco meses, entre 17 de outubro de 1973 ao dia 18 de março de 1974, o que provocou prolongada recessão nos Estados Unidos da América e na Europa e desestabilizou os alicerces de equilíbrio da economia mundial. Esta conjuntura crítica suscitou o conjunto de selos “Preservação de Recursos Econômicos” demarcando no meio filatélico, o surgimento de uma nova época em que não se podia mais confiar em um combustível fóssil barato. Com o curioso lema: “Sabendo usar não vai faltar”, os dois selos enfatizavam a necessidade de economizar energia elétrica e combustível para os automóveis. É lugar-comum o pensamento de que é necessário utilizar sabiamente os recursos naturais e naquela época os selos continham pioneirismo. A política econômica e a visão geopolítica dos novos donos do poder depois do golpe político-militar de 1° de abril de 1964 transpareceram nos lançamentos de selos. É provável, com a consumação do golpe de Estado de 17 de abril de 2016, mesmo admitindo-se o favoritismo de Lula nas eleições presidenciais de 2018, concorra para estes princípios ideológicos de difusão de imagem em sua historicidade. 
Small One Dollar leiloado por R$ 690 mil.
Documentação tem como representação o conjunto de todos os documentos, que são todas as fontes contendo informações que ajudem a tomar decisões, comuniquem decisões tomadas, registrem assuntos de interesse da organização ou do indivíduo. Tem como característica reunir informações escritas acumuladas numa série sucessiva de anotações, todavia quando dizem respeito a uma organização ou a um indivíduo, assumem a característica de documento. O conjunto dos documentos passa a constituir a documentação, caracterizada com fins comerciais, industriais, jurídicos, escolares, etc. Sua função é adequar-se à  organização, constituir-se num centro ativo e dinâmico de informações e ser um instrumento de conservação de documentos. Do ponto de vista do processo de trabalho e comunicação social os princípios do arquivo referem-se à localização rápida, segurança, flexibilidade, controle e sigilo.            
A notícia pode ser definida como um produto socialmente construído, pois é resultado das posições sociais de indivíduos e grupos envolvidos com a produção de um documento, e pelas próprias fontes que atuam como definidores primários dos eventos. A notícia é uma condensação desses determinantes em um produto sociocultural essencial na constituição dos processos, conteúdos, formas e relações sociais. Notícias têm valor ideológico (jornalístico) ou político apenas quando acabam de acontecer, ou quando não foram noticiadas previamente por nenhum veículo comercial ou partidário. A História oficial do Brasil vem sendo narrada através dos selos postais, como ocorre com a proposta da exposição: “O Brasil no Selo Postal”, inaugurada no Centro Cultural Correios, no Centro do Rio de Janeiro. Segundo o coordenador geral do evento, Franklin Pedroso, o avanço da tecnologia da comunicação global, como o e-mail, coloca o selo postal numa posição de extinção. - “Com o advento da internet, o hábito de comunicação entre as pessoas, através de cartas, diminuiu radicalmente. Tanto que os Correios passaram a ter outras funções tão importantes quanto”. Segundo o coordenador da exposição, “os selos são como historinhas em quadrinhos compostas por imagens autoexplicativas. É por isso que a mostra acredita no sucesso da comunicação desse meio, já que qualquer criança é capaz de entender a mensagem filatélica”.   
Em sua historicidade “correio” é utilizado comumente nas línguas românicas. Sua origem, porém, é duvidosa, ainda que se suponha que provém do provençal antigo “corrieu”, palavra composta de “corir” (correr) e “lieu” (lugar), que também designava a pessoa que se deslocava de um lugar a outro através de cartas e mensagens. Além disso, também se chamou a atenção também para a importância que pode ter tido o vocábulo do castelhano antigo “correo”, que nos tempos do Cid Campeador significava “bolsa para levar dinheiro”. Rodrigo Díaz de Vivar, chamado El Cid (do mourisco sidi, “senhor”) e de campeador (“campeão”), foi um nobre guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Hispânia estava dividida entre reinos rivais de cristãos e mouros (muçulmanos). Sua vida e feitos se tornaram, com as narrativas da lenda, sobretudo devido a uma canção de gesta, a “Canción de Mio Cid”, datada de 1207, transcrita no século XIV pelo copista Pedro Abád, cujo manuscrito se encontra na Biblioteca Nacional da Espanha, um referencial para os cavaleiros da idade média.           
Segundo a “Canción de Mio Cid”, 300 dos melhores cavaleiros castelhanos decidiram acompanhá-lo no exílio, fazendo de Zaragoza seu quartel general e travando batalhas vitoriosas contra os mouros. Noutra versão alternativa, Rodrigo refugiou-se nas montanhas de Aragão, arregimentando um pequeno exército cujas armas eram postas ao serviço de quem lhes pagasse mais, fosse cristão ou muçulmano. Aliás, é também essa fonte alternativa que, ao mencionar seu casamento com Jimena (ou Ximena), filha do Conde de Oviedo, ocorrido pouco antes do exílio, diz, maliciosamente, que a dama era mais velha do que ele, e muito feia, porém tinha um patrimônio invejável. O certo é que, nesse tempo, Rodrigo estabeleceu vínculos políticos e afetivos com o rei mouro da taifa de Valência, Al-Cádir, que se tornou seu amigo e protegido ou seu cliente. Foi em benefício de Al-Cadir que El Cid conquistou os reinos de Albarracín e Alpuente. Em 1089, o almorávida Yusuf cruzou o estreito de Gibraltar, à frente de um numeroso exército. A invasão ameaçava a segurança dos reinos espanhóis, e o rei Alfonso pediu ajuda a Rodrigo, fazendo-o retornar a Castela. Mas não tardou para que a hostilidade voltasse a se manifestar entre ambos, e El Cid foi desterrado pela segunda vez etc.

Segundo a versão que não o enobrece, Rodrigo mandou torturar, e depois queimar vivo, o governador da cidade, Ben Yehhaf, implicado na morte de Al-Cádir. E não teria poupado sua mulher e filhos se não fora a intervenção dos nobres cavaleiros que o seguia. Já a versão mais difundida sustenta que ele, ao se tornar senhor de Valência, mostrou-se um governante justo e equilibrado. Outorgou à cidade um estatuto de justiça, implantou a religião cristã, mas, ao mesmo tempo, renovou a mesquita dos muçulmanos, cunhou moedas e rodeou-se de uma corte de estilo oriental, composta tanto por poetas árabes e cristãos, quanto por pessoas eminentes no mundo das leis. Mas os almorávidas não estavam inertes e se apresentaram às portas da cidade, sob a liderança de Mahammad, sobrinho de Yusuf. Após vários combates, El Cid obteve uma vitória decisiva, que contribuiu para tornar sua pessoa objeto de narrativas heroicas, muito embora várias delas absolutamente inverídicas. Até sua morte, Rodrigo governou Valência em nome de Alfonso VII, mas, na verdade, seu poder era independente do rei. E ele tratou de aumentá-lo, fazendo casar uma de suas filhas, Cristina também conhecida como Elvira, com o príncipe Ramiro Sanchez de Pamplona, e a outra, María Rodriguez de Bivar, com o conde de Barcelona, Raimundo Berengário III.
Ao contrário da tradição lendária, antropológica que aprecia vê-lo morrendo heroicamente em combate, Rodrigo Díaz de Vivar, chamado de “Campeador” ou “El Cid” ou “Mio Cid”, faleceu numa cama de seu castelo em Valência a 10 de julho de 1099. É nesse ponto da história social que Rodrigo vira uma lenda em torno de figura personalista. Os mouros ficaram confiantes, pois haviam finalmente matado o El Cid. Sua mulher mandou amarrar seu corpo ao cavalo e sua espada a sua mão e o mandou ao campo de batalha. Ao ver El Cid em cima do seu cavalo passaram a fugir e foram perseguidos e derrotados pelo exército de Rodrigo. Por isso a mitificação na lenda que Don Rodrigo de Castella “venceu uma batalha depois de morto”. Seus restos mortais, juntamente com os de sua esposa, Jimena, estão sepultados na Catedral de Burgos. A imagem etnográfica que emerge desse manuscrito é a do personalismo de cavaleiro medieval idealizado: forte, valente, leal, justo e piedoso. Mas há outras fontes etnográficas que lhe pintam um quadro bem menos favorável. Esta mera suposição teórica, portanto, não explica como a palavra teria chegado ao italiano corriere e ao francês courrier, além do catalão correu e ao provençal corrieu, com a globalização em tempos difíceis e de viagens longas e quase intermináveis. A etimologia do adjetivo “postal” é mais clara, pois provém do latim positus, nome atribuído aos “postos de correio situados ao longo dos trajetos territoriais para dar descanso aos cavalos dos mensageiros”. Os diferentes sistemas postais de comunicação que ligavam as diversas regiões da Europa, no fim da Idade Média, tinham cada qual sua própria tarifa, o que resultava em um complexo e variado sistema de pesagens, medidas e verificações, ocasionando muita insatisfação. Segundo o relato etnográfico de Marco Polo (1254-1324) os chineses foram pioneiros no serviço postal.
Por conta disso, diversas organizações clandestinas hic et nunc passaram a oferecer o serviço competitivo economicamente mais barato e com menos formalidades. Esse movimento e o progresso do sistema concorrente levaram as autoridades inglesas a uma reforma radical no serviço de postagem do correio, projeto idealizado pelo funcionário, Rowland Hill, de unificação do sistema. Uma das propostas estabelecia que as tarifas pagas pelo usuário fossem confirmadas por meio de um comprovante afixado na correspondência, ocorrendo em 6 de maio de 1840, as vendas dos primeiros selos adesivos através das agências postais inglesas pioneiras nestes serviços. O bom resultado do novo sistema de emissão de cartas passou como um raio de 78 milhões, em 1839, para 170 milhões, em 1840, provocando uma rápida difusão da reforma. O primeiro selo emitido no mundo foi o Penny Black, pela Inglaterra. No Brasil, os Correios tiveram sua origem em 25 de janeiro de 1663, com a criação do Correio-Mor no Rio de Janeiro, então capital da Colônia. A emissão de selos ocorreu com a série “olho-de-boi”, ocorrida em 1843, constituindo-se o segundo país no plano mundial a emitir selos.
Em 1931 o decreto 20.859, de 26 de dezembro de 1931 funde a Diretoria Geral dos Correios com a Repartição Geral dos Telégrafos e cria o Departamento dos Correios e Telégrafos. A ECT foi criada a 20 de março de 1969, como empresa pública vinculada ao Ministério das Comunicações mediante a transformação da autarquia federal que era, então, Departamento de Correios e Telégrafos (DCT). A mudança não representou apenas uma troca de sigla, foi seguida por uma transformação profunda no modelo de gestão do setor postal brasileiro, tornando-o mais eficiente. Durante a década de 1990, discutiu-se a possibilidade de uma modernização da empresa. A proposta do novo sistema postal estava baseada no aumento da oferta de serviços, na modernização tecnológica e na consolidação e ampliação do papel social dos Correios como agente prestador de serviços públicos. O Ministério das Comunicações do governo  Fernando Henrique Cardoso desenvolveu um projeto para o setor postal que foi implantado a partir de 1997, denominado Reforma Estrutural do Setor Postal Brasileiro (RESP). As propostas foram apresentadas na Nova Lei Postal, que tramitou, sem ser aprovada, até o início de 2003, quando foi arquivada. Durante os anos 2000, novamente os Correios foram alvo de propostas de mudanças e modernização, retomando, em alguns aspectos, o que fora planejado na década de 1990. A empresa, no decorrer longo dos anos 2000, esteve no epicentro do aparente escândalo do Mensalão e apresentou problemas operacionais que foram divulgados como a “crise dos Correios”. A estatal foi objeto político de diversas inovações em seus processos gerenciais e de difusão comerciais.
Bibliografia geral consultada.
BOVO, Cassiano Ricardo Martines, Os Correios do Brasil e a Organização Racional do Trabalho. São Paulo: Editora Annablume, 1997; SOUZA, Helder Cyrelli, Os Cartões de Visita do Estado: A Emissão de Selos Postais e a Ditadura Militar Brasileira. Programa de Pós-Graduação em História. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006; CRUZ, Daniella Cipolla, Estratégia de Produção no Setor de Serviços: Um Estudo de Caso nas Empresas Brasileiras de Correios e Telégrafos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2007; RABELLO, Rodrigo, A Face Oculta do Documento: Tradição e Inovação no Limiar da Ciência da Informação. Tese de Doutorado em Ciência da Informação.  Faculdade de Filosofia e Ciências. Marília: Universidade Estadual Paulista, 2009; LORENZO, Mauricio Fortes Garcia, O Modelo Regulatório e seus Limites para a Universalização dos Serviços Públicos: O Caso do Setor Postal Brasileiro. Escola de Administração. Núcleo de Pós-Graduação em Administração. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2013; FERNANDES, Tatiana Falcão de Souza, Fluxo Informacional em Canais de Atendimento ao Cliente: Estudo de Caso nos Correios de Paraíba. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2013; SALCEDO, Diego Andres, A Ciência nos Selos Postais Comemorativos Brasileiros: 1900-2000. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2010; Idem, Espelhos de Papel: Pelo Estatuto do Selo Postal. Tese de Doutorado em Comunicação Social. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2013; FIEGENBAUM, Maicon, Os ´Pequenos Notáveis`: A Utilização do Selo Postal no Processo Ensino-Aprendizagem da Geografia. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017; VENCESLAU, Igor, Correios, logística e uso do território: os serviços de encomenda expressa no Brasil. Dissertação de Mestrado em Geografia Humana. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; FONSECA E SILVA, Gustavo, Monopólio Postal: Sua Relevância e as Transformações do Sistema Postal. Monografia de Especialização em Gestão Pública. São João Del-Rei: Universidade de São João Del-Rei, 2018;  entre outros.