domingo, 18 de dezembro de 2016

Dom Paulo Evaristo Arns - Esperança & Liberdade Religiosa.

                                                 Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

                               “Minha impressão é que haviam apagado todas as luzes. Dom Paulo Evaristo Arns                                                                                  

                   

A utopia não é a mesma coisa que esperança, porque quando esperamos alguma coisa, partimos do pressuposto de que aquilo que esperamos é possível de acontecer. Aquele que espera parte do pressuposto racional, segundo o qual aquilo em relação ao qual se tem esperança, é possível de realização. Mesmo quando um católico diz ter esperança em um milagre, ele parte do pressuposto racional da possibilidade da realização desse milagre. E mesmo que alguém diga que esse católico está errado na sua esperança, verdade é que eventualmente seu erro em si mesmo não é sinônimo de irracionalismo. A esperança acena para um futuro vislumbrado como plenitude no presente. A esperança tem como substrato social a perspectiva de mudança na vida. Sem a utopia a esperança representa uma virtude vazia. É a utopia, a topia da esperança. A esperança é o alimento sagrado da utopia e, esta, sua mediação complexa e histórica de sobrevivência nas sociedades. Entretanto, em tempos de crise de conjuntura e de metarrelatos, como ocorre com as ideologias, somos vítimas de uma crise das utopias. O atual aparente vazio de sujeitos sociais e particularmente na esfera de ação política de representação dos partidos, a falta de perspectivas para um futuro imediato tem contribuído para a resignação de muitos atores sociais do presente. Estaria, então, a esperança nas transformações sociais e políticas, órfã de utopia? Morreu a utopia ou morreram certas utopias que se sobrepuseram à esperança e transformaram-se em meros discursos político-partidários estatistas de consumação da ordem e progresso? A interpretação de que a queda do presidente João Goulart em 1964 não resultou apenas de golpe civil-militar deve-se em parte ao trabalho de René Dreifuss. 

O Projeto Brasil: Nunca Mais desenvolvido por Dom Paulo Evaristo Arns, Rabino Henry Sobel, Pastor presbiteriano Jaime Wright e equipe, foi realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 durante o período final de esgotamento da ditadura civil-militar no Brasil, no ano de 1985, e resgatou uma importante e decisiva documentação sobre a história social do Brasil. Sistematizou informações de mais de 1.000.000 de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar (STM) revelando a extensão da repressão política no Brasil cobrindo um período que vai de 1961 a 1979, atualmente constitui-se no fundo mais pesquisado do Arquivo Edgard Leuenroth, na cidade de Campinas, na Universidade Estadual de Campinas. O Relatório completo, resultado do esforço de mais de 30 brasileiros que se dedicaram durante quase seis anos a rever a história do período no país.  

Ipso facto, reescrevendo-a a partir das denúncias feitas em juízo por opositores do regime de 1964, bem como o livro publicado pela Editora Vozes, no dia 15 de julho de 1985, tiveram papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar e desvelaram as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil. O livro publicado é um resumo com cerca de 5% de todas as informações obtidas. O projeto foi apoiado pelo Conselho Mundial de Igrejas, que ajudou com recursos para alugar uma sala, máquina fotocopiadoras e pagar o pessoal para operá-las. Desse modo foi possível fotocopiar mais de um milhão de páginas de 707 processos arquivados no Superior Tribunal Militar, obtidos a partir de pedidos de vistas de advogados que atuavam em favor dos direitos humanos. 

Sua atuação pastoral foi voltada aos habitantes da periferia, aos trabalhadores, à formação de Comunidades Eclesiais de Base nos bairros, principalmente os mais pobres, e à defesa e promoção dos direitos da pessoa humana. Ficou reconhecido como o Cardeal dos Direitos Humanos, principalmente por ter sido o fundador e líder da Comissão Justiça e Paz do estado de São Paulo, e sua atividade política era claramente vinculada à sua fé religiosa. Segundo ele: - “Jesus não foi indiferente nem estranho ao problema da dignidade e dos direitos da pessoa humana, nem às necessidades dos mais fracos, dos mais necessitados e das vítimas da injustiça. Em todos os momentos Ele revelou uma solidariedade real com os mais pobres e miseráveis (Mt. 11, 28-30[4]); lutou contra a injustiça, a hipocrisia, os abusos do poder, a avidez de ganho dos ricos, indiferentes aos sofrimentos dos pobres, apelando fortemente para a prestação de contas final, quando voltará na glória para julgar os vivos e os mortos”.

Enquanto bispo-auxiliar, trabalhou na Zona Norte paulistana, no bairro de Santana. Durante a ditadura militar, na década de 1970, notabilizou-se na luta pelo fim das torturas e restabelecimento da democracia no país, junto com o rabino Henry Sobel, criando uma ponte entre a comunidade judaica e a Igreja Católica em solo paulista. Renovou o plano pastoral da Arquidiocese de São Paulo, instituindo novas regiões episcopais, as divisões da Arquidiocese de São Paulo, e quarenta e três novas paróquias. Em 1972 criou a Comissão Brasileira de Justiça e Paz de São Paulo. Incentivou a Pastoral da Moradia e a Pastoral Operária. Em 22 de maio de 1977 recebeu o título de Doutor Honoris Causa juntamente com o presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981), da Universidade de Notre Dame, Indiana, Estados Unidos da América (EUA). A distinção, concedida também ao Cardeal Kim da Coreia do Sul e ao Bispo Lamont da Rodésia, deveu-se ao seu desempenho em prol dos direitos humanos.

Entre 1979 e 1985, coordenou com o Pastor presbiteriano Jaime Wright, de forma clandestina, o projeto Brasil: Nunca Mais. Este projeto tinha como objetivo evitar o possível desaparecimento de documentos durante o processo de redemocratização do país. O trabalho foi realizado em sigilo e o resultado foi a cópia de mais de um milhão de páginas de processos do Superior Tribunal Militar (STM). Contudo, este material foi microfilmado e remetido ao exterior diante do temor de uma apreensão do material. Em ato público realizado dia 14 de junho de 2011, foi anunciada a futura repatriação, digitalização e disponibilização para todos os brasileiros deste acervo. O livro homônimo Brasil: Nunca Mais reuniu esta pesquisa sobre a tortura no Brasil no período da ditadura militar e foi publicado pela Editora Vozes. Evaristo Arns também foi um dos organizadores do movimento social Tortura Nunca Mais. Em 3 de junho de 1980 recebeu, em São Paulo o Papa João Paulo II. Em 30 de novembro de 1984 inaugurou a Biblioteca Dom José Gaspar.

 
Formado em Teologia e Filosofia no Brasil, na década de 1940, e em Letras na França, no início da década de 1950, dom Paulo Evaristo Arns escreveu 56 livros e recebeu 24 títulos honoris causa em universidades importantes de quase todo mundo ocidental. Obteve Licença em Letras: estudos brasileiros, latinos, gregos e história antiga; Universidade de Paris (Sorbonne), 1947 - 1950; em Pedagogia: Instituto de Pedagogia de Paris, 1950 - 1952; em Literatura Antiga: Instituto de Altos Estudos, Paris, 1950-1952; Estágios: 3 na Alemanha, 2 na Inglaterra, 1 na Holanda, 1 na Bélgica, 1 nos Estados Unidos e 1 no Canadá, 1948-1950. Obteve doutorado em Letras: Universidade de Paris (Sorbonne), em 03.05.1952, com a distinção maior, “très honorable” para a tese, intitulada: “La Technique du Livre d’après Saint Jérome”. E teses secundárias: “Les Confessions de Saint Augustin dans l’oeuvre de Saint Bonaventure”; “Thesaurus Linguae Latinae”. Nos anos 1960, atuou como padre em Petrópolis (RJ). Delimitada pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos, com os seus picos arborizados e quedas de água, é reconhecida como um retiro de montanha para os residentes do Rio. No centro, o Museu Imperial exibe mobiliário de época no antigo palácio do imperador do século XIX, Dom Pedro II. Nas proximidades, a enorme Catedral de São Pedro de Alcântara alberga o mausoléu do imperador e da sua mulher. Ele se tornou bispo em 2 de maio de 1966, aos 44 anos, e foi nomeado arcebispo pelo papa Paulo VI em 22 de outubro de 1970. Exerceu o cargo até 1998, quando completou 75 anos. Foi substituído pelo arcebispo d. Cláudio Hummes e virou arcebispo-emérito de São Paulo. Era o mais antigo de todos os membros do Colégio Cardinalício. Como cardeal eleitor, participou dos conclaves de agosto e outubro de 1978, que escolheram os papas João Paulo I e João Paulo II que recepcionou em São Paulo em 1980.  
Na tarde de 25 de outubro de 1975, o “Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna” (DOI-CODI) informou que o jornalista Vladimir Herzog, diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo, havia se suicidado naquelas instalações do Exército. Eram “anos de chumbo”, com os militares no poder desde 1964. A censura à imprensa e a truculência contra os que se opunham ao regime militar atingiram em cheio Vlado Herzog, como o jornalista era conhecido, barbaramente torturado e morto. Os militares queriam sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Como não entregou amigos, foi seviciado até a morte. Uma voz se levantou contra a versão do suicídio: dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo e cardeal da Igreja Católica desde 1973, que morreu nesta quarta-feira (14/12/2016) aos 95 anos. Muito antes da morte do jornalista Vlado Herzog, apenas uma das batalhas que travou contra o regime militar (1964-1985), dom Paulo Evaristo Arns já se preocupava com inúmeros cadáveres que vinham sendo jogada em valas na periferia de São Paulo, matança atribuída ao grupo de extermínio “Esquadrão da Morte”, mas que a Igreja Católica desconfiava tratarem-se do assassinato de jovens da luta contra o arbítrio. E fundou a Comissão de Justiça e Paz, da Diocese de São Paulo, para denunciar os crimes dos militares. Foi na luta contra a ditadura que dom Paulo Evaristo Arns começou a escrever sua história de um homem sem medo, o “arcebispo da esperança”, como ficou reconhecido (cf. Arns, 2001).

Vlado Herzog nasceu na cidade de Osijek, na Iugoslávia, em 1937, filho de um casal de origem judaica. Durante a 2ª guerra mundial (1939-1945), para escaparem do antissemitismo do Estado fantoche da Croácia, controlado pela Alemanha nazista, a família Herzog imigrou primeiramente para a Itália, onde viveram clandestinamente até imigrarem para o Brasil. Naturalizado brasileiro, Vladimir Herzog tinha paixão pela fotografia, atividade que exercia por conta de seus projetos coletivos com o cinema. Passou a assinar “Vladimir” por considerar que seu nome soasse exótico para os brasileiros. Herzog se formou em Filosofia pela tradicional Universidade de São Paulo, em 1959. Na década de 1970, assumiu a direção do Departamento de Telejornalismo da TV Cultura (SP) e também de professor de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. É uma instituição pública de ensino superior localizada na cidade de São Paulo. Como parte da Universidade de São Paulo, é considerada uma unidade de ensino, pesquisa e extensão. A ECA foi fundada em 15 de junho de 1966, e hoje é formada por oito departamentos e pela Escola de Arte Dramática (EAD). Oferece 21 cursos de graduação, sendo que 13 deles da área de Artes e 8 voltados às comunicações sociais. Seus ex-alunos são reconhecidos como Ecanos.

Chegou à sede DOI-CODI, às 8 horas, levado àquele endereço pelo jornalista Paulo Nunes, que cobria a área militar na redação da Cultura e dormira na casa do diretor da TV naquela noite para assegurar que ele se apresentaria na instalação militar logo cedo. Nunes foi dispensado na recepção e Vlado encaminhado para interrogatório. Foi então encapuzado, amarrado a uma cadeira, sufocado com amoníaco, submetido a espancamento e choques elétricos, conforme o manual ali praticado e seguindo a rotina a que foram submetidos centenas de outros presos políticos nos centros de tortura criados pela ditadura e financiados em boa parte por empresários que patrocinavam ações repressivas e de violação dos Direitos Humanos, como a Operação Bandeirante. - “Naquela cela solitária, com o ouvido na janelinha, eu podia ouvir os gritos: ‘Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas?’ Pelo tipo de grito, pelo tipo de porrada, sabia que estava sendo feito com alguém exatamente aquilo pelo que eu tinha passado, recordou, em 1992, em depoimento ao jornal Unidade, do sindicato da categoria, o jornalista Sérgio Gomes, que estava preso no mesmo DOI-CODI em que Vlado se encontrava naquele dia. - “Lá pela hora do almoço há uma azáfama, uma correria”.

Ele foi torturado durante toda a manhã e se dá o tal silêncio. A pessoa para de ser torturada e em seguida há uma azáfama, uma correria…A gente percebe que tem alguma coisa estranha acontecendo. Tinham acabado de matar o Vlado”. Mas o assassinato brutal, por espancamento, não era o limite a que podiam chegar os feitores do regime ditatorial. Esquivar-se da responsabilidade pelo crime forjando uma inverossímil cena de suicídio seria o próximo passo dos torturadores. Com uma tira de pano, amarraram o corpo pelo pescoço à grade de uma janela e convocaram um perito do Instituto Médico Legal (IML) para fotografar a “prova” de que supostamente o preso político dera fim à própria vida, em um surto de enlouquecido arrependimento por ter escrito uma confissão que aparecia rasgada, no chão, na imagem divulgada pelos órgãos de repressão.

A cena da morte de Vlado, fotografada pelo perito do Instituto Médico Legal, foi representada pelo artista Elifas Andreato no quadro “25 de Outubro”. Etnograficamente na pressa para montar esse “circo macabro”, os torturadores ignoraram detalhes como o fato de Vlado Herzog ser mais alto do que a janela com grade onde supostamente enforcou-se e a rotina de encarceramento que tira dos presos qualquer instrumento com o qual se possam enforcar, cintos e cadarços entre eles. Criaram, assim, uma mentira tão flagrante que a Sociedade Cemitério Israelita nem considerou a hipótese de enterrar o corpo na área reservada aos suicidas, como determina a prática e ética religiosa. Mas, no Inquérito Policial Militar que viria a ser instaurado em razão da morte ocorrida em instalação oficial, o promotor Durval de Araújo – um defensor e protegido do regime – sustentaria que o sepultamento aconteceu no setor de suicidas, recorrendo a depoimentos contraditórios e, mais que se esforçaria para distorcer o que diziam vários depoentes. A mãe de Vlado disse que sentiu que queria morrer ao receber a notícia da perda do filho. O promotor tentou registrar que ela “sentiu vontade de suicidar-se também”.

Em entrevista exclusiva concedida a Cylene Dworzak Dalbon, a publicitária Clarice Herzog fala do “terrível outubro de 1975”, quando seu marido, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado dentro das dependências do DOI-CODI pelos órgãos de repressão da ditadura. Foram presos outros jornalistas ligados ao Vlado e da TV  Cultura, o Markum, o Anthony, Rodolfo Konder, o Sérgio Gomes. Foi um momento extremamente tenso. Esperávamos, afirma Cylene, que o Vlado fosse preso devido a essas prisões, e discutimos muito sobre qual seria o teor de seu depoimento – o que nunca passou pelas nossas cabeças é que ele acabaria morto. Naquele momento estava no Partido. Ele nunca foi ligado à política, ele não era comunista – aliás, era bastante crítico ao partido. - Na verdade, o Vlado era um intelectual, ligado a teatro, cinema, que desejava um mundo melhor, um mundo onde as ideias pudessem ser discutidas e respeitadas. Naquela época existiam duas forças contra a ditadura militar: uma era a igreja e a outra o PCB. Como o Vlado era judeu, optou pelo Partido – a sua área de atuação como militante era a discussão da situação cultural no país – a produção artística, nos vários níveis, estava sendo totalmente massacrada pela censura.
O motivo da violenta repressão contra o Partido Ccomunistas Brasileiro (PCB), é que ele estava se tornando uma nova e forte frente e enfrentando a ditadura. Mas aconteceu o que não esperávamos que acontecesse: afinal, apesar do Vlado estar envolvido com o partido comunista, tínhamos empregos, passaporte, residência fixa e não éramos envolvidos com a luta armada”. A violência repressiva do Estado e o controle policial imposto sobre quase todos os setores da sociedade, além da ausência de liberdades civis e públicas, haviam conduzido o país a uma situação insustentável do ponto de vista da manutenção do regime de força que caracterizava a ditadura militar. Além disso, o fato de os militares terem assumido diretamente o governo, ocasionou uma politização negativa dentro das Forças Armadas, desvirtuando os propósitos constitucionais da instituição militar. A “anarquia” e a “desordem”, promovida por setores militares radicais, permearam todos os governos da ditadura, e tinham sua origem justamente na politização no interior da instituição militar. Portanto, é apropriado interpretar sociologicamente a “distensão” como um sinal da impossibilidade de os militares se manterem indefinidamente no poder. A distensão foi concebida e operacionalizada de modo que a saída das Forças Armadas do governo não deveria ameaçar a ordem vigente e os interesses das frações das classes dominantes.
Muito antes da morte de Herzog, apenas uma das batalhas que travou contra o regime militar (1964-1985), dom Paulo já se preocupava com inúmeros cadáveres que vinham sendo jogados em valas na periferia de São Paulo, matança atribuída ao Esquadrão da Morte, mas que a Igreja Católica desconfiava tratarem-se do assassinato de jovens da luta contra o arbítrio. E fundou a Comissão de Justiça e Paz, da Diocese de São Paulo, para denunciar os crimes dos militares. Foi na luta contra a ditadura que dom Paulo começou a escrever sua história de um homem sem medo, o “arcebispo da esperança”, como ficou conhecido. Entre 1979 e 1985, quando tudo o que os militares menos queriam era ver suas mazelas expostas pelo processo de redemocratização, dom Paulo foi ágil. Instituiu o projeto “Brasil Nunca Mais”, com a ajuda do pastor evangélico Jaime Wright. O grupo conseguiu copiar um milhão de processos que haviam tramitado no Superior Tribunal Militar. Depois de tudo compilado, o “Brasil Nunca Mais” denunciou toda a perseguição e a violência da ditadura. Os dados estatísticos foram copiados, microfilmados e enviados para Genebra, onde o pastor Wright tinha relações internacionais com o Conselho Mundial de Igrejas.
O Projeto Brasil: Nunca Mais desenvolvido por Dom Paulo Evaristo Arns, Rabino Henry Sobel, Pastor presbiteriano Jaime Wright e equipe, foi realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 durante o período final da ditadura militar no Brasil, no ano de 1985, gerou uma importante documentação sobre a história do Brasil. Sistematizou informações de mais de 1.000.000 de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar (STM) revelando a extensão da repressão política no Brasil cobrindo um período que vai de 1961 a 1979, atualmente constitui-se no fundo mais pesquisado do Arquivo Edgard Leuenroth na Universidade de Campinas (SP). O Relatório completo, resultado do esforço de mais de 30 brasileiros que se dedicaram durante quase seis anos a rever a história social e política do período no país, reescrevendo-a a partir das denúncias feitas em juízo por opositores do regime de 1964, bem como o livro publicado pelas Editoras Vozes, tiveram papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar e desvelaram as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo de Estado no Brasil. Em resposta ao livro de Arns, os militares escreveram o livro: “Tentativas de Tomada do Poder” baseado em documentação produzida pelos órgãos de repressão do período autoritário, contendo uma versão policial sobre a história política.
Dom Paulo Arns temia que os documentos fossem “apreendidos” pelos militares brasileiros e destruídos. Os documentos só voltaram ao Brasil em 2012, já com o país na plenitude democrática, e estão à disposição do público para consulta. Em vez do medo, dom Paulo preferiu lutar para defender a memória de um período obscuro. - Dom Paulo não avisou nem a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) que estava constituindo o “Brasil Nunca Mais”, lembra o ex-ministro de Direitos Humanos Paulo Vannuchi, que assessorou dom Paulo no projeto. Formou um grupo pequeno de auxiliares, para que não vazasse. Pediu que não falássemos nem em casa. Foram cinco anos de trabalho, de 1979 a 1985. Foi a primeira “Comissão da Verdade” do país. Até hoje ninguém contesta um único dado estatístico do levantamento do Brasil Nunca Mais. Dom Paulo representou um marco expressivo na luta contra a ditadura militar golpista no Brasil.
Quando a agonia da tortura assolava os porões, sobretudo na década de 1970, dom Paulo peregrinava de quartel em quartel. Usou sua influência para libertar dezenas de presos políticos. No meio de toda aquela incerteza, o líder católico servia de referência para políticos brasileiros, que faziam romaria à Arquidiocese em busca de seus conselhos. Do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, que na época liderava as greves de metalúrgicos na região do ABC, ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães e Mário Covas, como lembra o jurista Dalmo Dallari, amigo de dom Paulo que foi o primeiro presidente da Comissão de Justiça e Paz, em 1972. - Ele não fazia distinção de partido ou motivação política. Assim, circulava em todos os segmentos da sociedade. Como era essencialmente franciscano, atendia a todos com espírito de fraternidade e sempre com muito equilíbrio emocional - recorda o jurista conservador Dalmo Dallari. D. Paulo Evaristo Arns celebrou missa de sétimo dia pela morte do jornalista Vladimir Herzog junto com o rabino Henry Sobel na Igreja da Sé situada no centro da cidade de São Paulo (1975). Dom Paulo compareceu ao lançamento da coleção “Teologia da Libertação”, em 1989, junto com Luís Inácio Lula da Silva. Ele apoiou o dominicano Frei Betto, um dos maiores expoentes do movimento de base.
O lider religioso também se encontrou com Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos da América, em 1997. O arcebispo participou da cerimônia de posse do prefeito de São Paulo, Mário Covas em 1983 com o governador Franco Montoro. Dom Paulo participou das negociações para libertação do empresário Abílio Diniz, em 2001. O sacerdote encontrou o Papa João Paulo I. Em outro embate com a cúpula da Igreja, o religioso nascido em Forquilhinha (Santa Catarina) no dia 14 de setembro de 1921, mostrou-se contrário ao celibato obrigatório em uma entrevista ao jornal O Globo, em 2002. Mais uma vez, enfrentou as críticas do Vaticano. O arcebispo emérito de São Paulo recebe a visita da presidente eleita Dilma Rousseff (PT) em maio de 2012.  
        Enfim, outro amigo do religioso, o jurista conservador Hélio Bicudo diz que o arcebispo recebia o líder sindicalista Lula com cordialidade, mas tinha relação mais próxima com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. - Em 1978, quando Fernando Henrique se lançou candidato ao Senado pela primeira vez, eu também desejava concorrer ao Senado. Dom Paulo me pediu para desistir em favor de Fernando Henrique, e eu desisti - revela Bicudo. Dom Paulo também apoiou a Teologia da Libertação. Não hesitou em desagradar ao Vaticano ao se posicionar publicamente ao lado de um dos maiores expoentes daquele movimento católico de esquerda-socialista, Leonardo Boff. Por conta disso, especula-se que o arcebispo tenha sido punido pela Igreja, que, em 1989, fragmentou a Arquidiocese de São Paulo em quatro outras dioceses: Osasco, São Miguel Paulista, Santo Amaro e Campo Limpo.
Bibliografia geral consultada.
 
GUTIÉRREZ, Gustavo, Teologia de la liberacion. Perspectivas. 7ª edicíon. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1975; BOUDON, Raymond, Effets Pervers et Ordre Social. Paris: Presses Universitaires de France, 1977; DREIFUSS, René Armand, 1964: A Conquista do Estado. Ação Política, Poder e Golpe de Classe. 2ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1981; GINZBURG, Carlo, Occhiacci di legno - Nove riflessioni sulla distanza. Milano: Giangiacomo Feltrinelli Editore, 1998; ASSUNÇÃO, Vânia Noeli Ferreira de, O Satânico Doutor Go. A Ideologia Bonapartista de Golbery do Couto e Silva. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade de São Paulo, 1999; ARNS, Paulo Evaristo, “Prefácio”. In: Brasil: Nunca Mais. 11ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1985; Idem, Da Esperança à Utopia: Testemunho de uma Vida. Rio de Janeiro: Editor Sextante, 2001; GRECO, Heloisa Amelia, Dimensões Fundacionais da Luta pela Anistia. Tese de Doutorado em História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2003; FESTER, Antônio Carlos Ribeiro, Justiça e Paz: Memórias da Comissão de São Paulo. São Paulo: Edições Loyola, 2005; BOBBIO, Norberto, Il Futuro della Democrazia. 1ª edizione. Itália: Einaudi Editore, 2005; Artigo: “Rabino Henry Sobel atua no Brasil há mais de 30 anos”. In: O Estado de S. Paulo, 29/03/2007; MEZAROBBA, Glenda Lorena, O Preço do Esquecimento: As Reparações Pagas às Vítimas da Ditadura Militar (uma comparação entre Brasil, Argentina e Chile). Tese de Doutorado em Ciência Política. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007; RODRIGUES, Cátia Regina, A Arquidiocese de São Paulo na Gestão de D. Paulo Evaristo Arns (1970-1990). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2008; IMENO, Myriam, Emoções e Política: A Vítima e a Construção de Comunidades Emocionais. In: Mana, vol. 16, nº 1, pp. 99-121, 2010; FASSIN, Didier, Vers une Théorie des Économies Morales. In: FASSIN, Didier; EIDELIMAN, Jean-Sébastian (Org.), Économies Morales Contemporaines. Paris: La Découverte, 2012; Artigo: “A Amizade de dois Comunistas: Paulo Evaristo Arns e Fidel Castro”. In: http://radiovox.org/2016/12/12/; entre outros.

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