sexta-feira, 22 de agosto de 2025

4 L – Comédia Dramática, Cinema & Aventura, Jornada de Quatro Amigos.

 Com os amigos ao lado, até a jornada mais longa se torna curta”. Filme 4L (2019)      

       4L (em espanhol: 4 latas) tem como representação social um filme de comédia espanhol de 2019, dirigido por Gerardo Olivares, nascido em 1964 é um cineasta e roteirista espanhol. É casado, tem dois filhos e mora em Madri. Foi o primeiro espanhol a ganhar o Golden Spike no prestigiado festival de cinema Seminci, em Valladolid, por seu filme “14 quilómetros”. Recebeu o Prêmio Cinema pela Paz de 2019 na categoria Justiça por seu filme “Duas Catalunhas” e escrito por Olivares e María Jesús Petrement. O enredo gira em torno de Tocho (Hovik Keuchkerian), que é um alcoólatra rude e mal-educado; Jean Pierre (Jean Reno), que já foi mulherengo, mas amadureceu; e Ely (Susana Abaitua). Todos estão viajando da Espanha para o pai de Ely, Joseba (Enrique San Francisco), que mora em Tombuctu, Mali, e está em seu leito de morte. É uma cidade no centro do Mali, capital da região de mesmo nome. Apesar de não demonstrar o esplendor da sua época áurea, no século XIV, e estar a ser engolida pela areia do deserto do Saara, ainda tem uma importância histórica e social tão grande, como depósito de saber, que foi inscrita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1988, integrada na lista do Patrimônio Mundial. cultural das nmções Na trama cinematográfica eles decidiram viajar para lá usando o velho automóvel Renault do pai de Ely, um carro que eles costumavam usar para fazer determinadas viagens. O filme 4L não tem frases  reconhecidas em filmes famosos. Mas explora a amizade, aventura e a busca por liberdade.

        No início da trama cinematográfica, Tocho, tem como representação social um cidadão rude e alcoólatra de Bilbao, Espanha, que recebe uma carta informando que Joseba, uma velha amiga, está morrendo em Tombuctu. Profundamente tocado e nostálgico, Tocho viaja de ônibus para a França, onde convoca outro velho amigo, Jean Pierre, dono de um vinhedo, para acompanhá-lo em uma viagem para se despedir de sua amada Joseba. Jean Pierre concorda, um tanto hesitante, e os dois homens visitam Ely, filha de Joseba, com quem se separavam, para convidá-la a se juntar a eles. Para espanto deles, Ely revela que o velho Renault de 1982, que os três amigos dirigiram pelo Deserto do Saara foi cuidadosamente preservado em sua garagem. Ela aceita a oferta, se eles dirigirem o Renault da Espanha a Tombuctou novamente. Com boas lembranças de suas aventuras de juventude, Jean Pierre e Tocho concordam em recriar a jornada com Ely a reboque. Mas os homens e o carro estão mais velhos agora, e os tempos mudaram. O que antes era uma viagem de liberdade se torna “uma jornada repleta de colapsos e momentos estereotipados de quase morte no deserto”. Um caroneiro malinês, Mamadou, faz amizade com Ely, mas morre de sede ao sair para buscar ajuda quando o 4L quebra. Há um encontro no meio do Tanezrouft com um traficante francês que guarda rancor de Jean Pierre, que “roubou um de seus caminhões há muitos anos”. Chegando a Timbuctou, os três viajantes encontram Joseba doente e seu parceiro malinês, e a cena final deixa os personagens prometendo restaurar um barco fluvial no Níger (a cerca de 20 km de Tombuctu) de propriedade de Joseba.

          O filme “4x4”, também reconhecido como “4L”, não tem um parceiro de origem malinês, relativo à República do Mali (antigo Sudão francês), na África ocidental. O filme narra a história controversa de um homem que, após roubar um carro, fica preso dentro dele, e a narrativa se concentra em seus esforços humanos e tecnológicos para escapar e sobreviver. Não há menção a um cachorro ou ouro animal de estimação no enredo do filme. O filme “4x4” é um thriller psicológico que explora temas de isolamento, perda, sofrimento, memória e luta pela sobrevivência. O protagonista, interpretado por Peter Lanzani, precisa usar sua inteligência e recursos para lidar com a situação perigosa em que se encontra. Embora o filme não tenha um parceiro canino, ele explora a relação entre o homem e a máquina, e a luta pela sobrevivência em ambiente hostil. O Mali ou Máli, oficialmente República do Mali, em bambara, Mali ka Fasojamana tem como representação social um país africano sem saída para o mar na África Ocidental. O Mali é o sétimo maior país da África. Limita-se com sete países, a Norte pela Argélia, a Leste pelo Níger, a Oeste pela Mauritânia e Senegal e ao Sul pela Costa do Marfim, Guiné e Burquina Fasso. O Mali tem uma área de 1 240 000 km² e a sua população em cerca de 24,5 milhões de habitantes. A capital do país é Bamaco. Formado por Oito regiões, o Mali tem fronteiras ao Norte, no meio ao Deserto do Saara, e ao Sul, onde vive a maioria dos habitantes, está próximo aos rios Níger e Senegal. Os recursos naturais no Mali são o ouro, o urânio e o sal.          

O atual território do Mali foi sede de três impérios da África Ocidental, que controlava o comércio transaariano: o Império do Gana, o Império do Mali (que deu o nome de Mali ao país), e o Império Songai. No final do século XIX, o Mali ficou sob o controle da França, tornando-se parte do Sudão Francês. Em 1960, conquistou a Independência, juntamente com o Senegal, tornando-se a Federação Mali. Um ano mais tarde, a Federação do Mali se dividiu em dois países: Mali e Senegal. Depois de um tempo em que havia apenas um partido político, um golpe de Estado em 1991 levou à escritura de uma nova Constituição e à criação do Mali como uma nação democrática, com um sistema pluripartidário. Quase a metade de sua população vive abaixo da linha de pobreza, com menos de 1 dólar por dia. Mali deriva do nome do Império do Mali. O nome significa “o lugar onde o rei mora” e carrega uma conotação expressiva de força. O escritor guineense Djibril Tamsir Niane (1932-1921) sugere, em sua obra  Sundiata: An Epic of Old Mali (1965), que não é impossível que Mali tenha sido o nome dado a uma das capitais dos imperadores. O viajante marroquino do século XIV, Ibn Battuta, relatou que a capital do Império se chamava Mali. 

Uma tradição Mandinka narra que o lendário primeiro imperador Sundiata Keita se transformou em um hipopótamo após sua morte no rio Sankaranie, sendo possível encontrar aldeias na área deste rio denominadas “velho Mali”, possuindo Mali em seus nomes. Um estudo de provérbios do Mali observou que, no antigo Mali, havia uma aldeia chamada Malikoma, que significa “Novo Mali”, e que Mali poderia ter sido anteriormente o nome de uma cidade. Outra teoria sugere que Mali é uma pronúncia Fulani do nome do povo Mande. É sugerido que uma mudança de som levou à alteração. O território do atual Mali foi sede de grandes impérios da África Ocidental, que controlavam o comércio de sal, ouro, matérias prima, além de prata e bronze. Estes reinos careciam tanto de fronteiras geopolíticas quanto de identidades étnicas. Um destes grandes impérios foi o Império do Gana, fundada pelos soninquês, que falavam mandê. O reino se expandiu por toda África Ocidental desde o século VIII até 1078, quando foi conquistado pelos almorávidas. O Império do Mali se formou na parte superior do Rio Níger e chegou à sua força máxima em meados do século XIV.  Sob o reinado do Império do Mali, as antigas cidades de Djené e Tombuctu foram importantes centros de comércio e de aprendizagem islâmica. O reino entrou em declínio e, foi resultado de conflitos internos, e até ser substituído pelo Império Songai. 

O povo Songai é originário do noroeste da atual Nigéria, cujo império tinha sido há muito tempo uma potência na África Ocidental sob o controle do Império de Mali. No final do século XIV, o Império Songai ganhou a Independência do Império do Mali gradualmente, abrangendo a extremidade oriental deste império. Sua queda foi resultado de uma invasão berbere em 1591, marcando o fim do papel regional da encruzilhada comercial. Após o estabelecimento de rotas marítimas pelas potências europeias, a rotas comerciais transaarianas perderam sua importância. Na Era Colonial, Mali ficou sob o controle francês no fim do século XIX. Em 1905, toda a sua área estava sob controle da França, fazendo parte do Sudão Francês. No início de 1959, o Mali e o Senegal se uniram, formando a Federação do Mali, que conquistou a sua independência em 20 de agosto de 1960. A retirada da federação senegalesa permitiu que a ex-República sudanesa formasse a nação independente do Mali em 22 de setembro de 1960. Modibo Keita (1915-1977), que foi primeiro-ministro da Federação do Mali até sua dissolução, foi eleito o primeiro presidente. Keita estabeleceu o unipartidarismo, adotando, por sua vez, uma orientação africana independente e socialista de fortes laços com a União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS) e realizou uma grande nacionalização dos recursos econômicos. Modibo Keïta foi um pan-africanista e terceiro-mundista convicto, compartilhando essa crença com os nacionalistas de sua época, como Muammar Gaddafi da Líbia, Gamal Abdel Nasser do Egito, Kwame Nkrumah do Gana, Ahmed Ben Bella da Argélia, dentre outros.

Em 1968, como resultado de um crescente declínio econômico, o mandato de Keita foi derrubado por um golpe militar liderado por Moussa Traoré (1936-2020). O regime militar subsequente, de Traoré como presidente, teve a função de fazer reformas econômicas. Apesar disso, seus esforços foram frustrados pela instabilidade política e uma devastadora seca climática que ocorreu entre 1968 e 1974. O regime Traoré enfrentou distúrbios estudantis que começaram no final dos anos 1970, como também ocorreram três tentativas de golpe de Estado. No entanto, as divergências foram suprimidas até o final da década de 1980. O governo continuou a tentar implantar reformas econômicas, mas sua popularidade entre a população diminuiu cada vez mais. Em resposta à crescente demanda por uma democracia pluripartidária, Traoré consistiu em uma liberalização política limitada, mas negou a marcar o início de um pleno sistema democrático. Em 1990, começaram a surgir novos movimentos de oposição coerentes, mas estes processos foram interrompidos pelo aumento da violência étnica no Norte, devido ao retorno de muitos tuaregues ao país. Novos protestos contra o governo ocorreram em 1991 levaram a mais um golpe de Estado, seguido de um governo de transição e a realização da nova Constituição. Em 1992, Alpha Oumar Konaré venceu as primeiras eleições presidenciais democráticas. Após sua reeleição em 1997, o presidente Konaré impulsionou reformas político-econômicas e lutou em combater a corrupção.

Em 2002, foi substituído por Amadou Toumani Touré, general que liderou um outro golpe de Estado contra os militares e impôs a democracia. O Mali vinha sendo um dos países mais estáveis de África no âmbito político e social. Entretanto, em 21 de março de 2012, um golpe militar derrubou o governo do presidente Touré. Em 2013, Ibrahim Boubacar Keïta venceu as eleições presidenciais daquele ano e assumiu a presidência até 18 de agosto de 2020, quando um outro golpe militar derrubou o governo de Keïta. Em setembro de 2020, a junta militar elegeu o presidente interino Bah N`daw no lugar de Keïta e governou o país até o dia 24 de maio de 2021, quando as tropas lideradas pelo chefe Assimi Goita derrubaram o governo de Bah e assumiram o poder de Mali até os dias atuais. Em 16 de maio de 2023, os governos militares de Mali, Burquina Fasso e Níger formam a aliança de defesa denominada Aliança de Estados do Sahel (AES), cujo objetivo é fortalecer as defesas dos três países em combate aos jihadistas ligados à Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Em 29 de janeiro de 2024, o Mali saiu da CEDEAO, ou Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, uma organização regional que reúne 15 países da África Ocidental com o objetivo de promover a integração econômica e a cooperação política e social. Foi fundada em 1975 pelo Tratado de Lagos, junto com Burquina Fasso e Níger, devido a acusação dos três países de “trair seus próprios fundadores” após o grupo aplicar sanções econômicas contra eles.

            A população do Mali abrange vários grupos étnicos subsaarianos. Os bambaras são de longe estatisticamente o maior grupo étnico único, constituindo 36,5% da população. Coletivamente, os bambaras, soninquês, cassonquês e mandingas (também chamados mandinca), todos parte do grupo mais amplo mandês, constituem 50% da população do Mali. Outros grupos significativos são os fulas (17%), voltaic (12%), songais (6%) e tuaregues e mouros (10%). No Mali, assim como no Níger, os mouros também são reconhecidos como árabes de Azawagh, em homenagem à região de Azawagh no Saara. Eles falam principalmente o árabe Hassani, que é uma das variedades regionais do árabe. No extremo Norte, há uma divisão entre as populações nômades tuaregues descendentes de berberes e os bellas ou tamaxeques, de pele mais escura, devido à expansão histórica da escravidão na região. Estima-se que 800 mil pessoas no Mali são descendentes de escravos. E a escravidão no Mali persistiu por séculos. A população árabe manteve escravos até o século 20, quando a escravidão foi suprimida pelas autoridades francesas em meados do século 20. Ainda persistem certas relações de servidão hereditária, e de acordo com algumas estimativas, ainda cerca de 200 mil malianos ainda são escravizados. Alguns descendentes de europeus/africanos muçulmanos de origem espanhola, francesa, irlandesa, italiana e portuguesa vivem no Mali, onde são reconhecidos como o povo arma, com 0,4% da população do país.

    

            A Constituição maliana prevê a Independência jurídica, mas o Poder Executivo exerce influência sobre o Judiciário sob o seu poder de nomear juízes e supervisionar tanto as funções judiciais como a sua aplicação em lei. Os tribunais do Mali de maior hierarquia são o Tribunal Supremo, que tem competências judiciais e administrativas, e um Tribunal Constitucional independente que proporciona controle jurisdicional de atos legislativos e serve como um árbitro eleitoral. Existem vários tribunais menores, ainda que os chefes de aldeia e anciãos são responsáveis por resolver os conflitos sobre a aldeia local. A orientação política externa do Mali tornou-se cada vez mais pragmática e pró-ocidental ao longo do tempo. Como um país democrático a partir de 2002, as relações do Mali com o Ocidente em geral e com os Estados Unidos da América em particular, melhoraram significativamente. O Mali tem uma relação diplomática de longa data com a França, a antiga metrópole colonial. O país era ativo em organizações regionais, como a União Africana, até à sua suspensão durante o golpe de 2012. Mali apoia a resolução de conflitos regionais, como na Costa do Marfim, Libéria e Serra Leoa, o que é descrito como um dos principais objetivos da política externa do Mali. O governo maliano se sente ameaçado pelos conflitos em Estados fronteiriços, e as relações com os vizinhos são muitas vezes desconfortáveis. A insegurança ao longo das fronteiras do norte, incluindo o banditismo e o terrorismo, permanecem como questões preocupantes nas relações regionais. As forças militares do Mali consistem em um exército, que inclui as forças terrestres e a força aérea, estando sob o controle do Ministério da Defesa e dos Veteranos do Mali. O país é membro da Organização das Nações Unidas (ONU).

            Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força socialmente irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, isto é, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é reflexivamente o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. E a possibilidade para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um.

A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se unicamente desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença real na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza ser à essência do homem: a liberdade.

O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.

 

Para Friedrich Hegel a evolução não somente faz aparecer o interior originário, exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito abstrato assim adquire o poder concreto da realização. O concreto é em si diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e, contudo, simples. É em si mesmo contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão, deste este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste em que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia de fato evoluir. Na alma, enquanto determinada como indivíduo, as diferenças estão enquanto mudanças que se dão no indivíduo, que é o sujeito uno que nelas persiste e, segundo Hegel, enquanto momentos do seu desenvolvimento.

Por serem elas diferenças, à uma, físicas e espirituais, seria preciso, para determinação ou descrição mais concreta, antecipar a noção do espírito cultivado. As diferenças são: 1) curso natural das idades da vida, desde a criança, desde a criança, o espírito envolvido em si mesmo – passando pela oposição desenvolvida, a tensão de uma universalidade ela mesma ainda subjetiva em contraste com a singularidade imediata, isto é, como o mundo presente, não conforme a tais ideais, e a situação que se encontra, em seu ser-aí para esse mundo, o indivíduo que, de outro lado, está ainda não-autônomo e em si mesmo não está pronto, o jovem, para chegar à relação verdadeira, ao reconhecimento da necessidade e racionalidade objetivas do mundo já presente, acabado; em sua obra, que leva a cabo por si e para si, o indivíduo retira, por sua atividade, uma confirmação e uma parte, mediante a qual ele é algo, tem uma presença efetiva e um valor objetivo (homem); até a plena realização da unidade com essa objetividade do conhecer: unidade que, enquanto real, vem dar na inatividade da rotina que tira o interesse, enquanto ideal se liberta dos interesses mesquinhos é das complicações do presente exterior (o ancião).                

O espírito manifesta aqui sua independência da própria corporalidade, em poder desenvolver-se antes que nela torne. Com frequência, crianças têm demonstrado um desenvolvimento que vai mais rápido que a formação corporal. Esse foi o caso histórico, sobretudo em talentos artísticos indiscutíveis, em particular nos gênios da música. Também em relação ao fácil apreender de variados conhecimentos, especialmente na disciplina matemática; e tal precocidade tem-se demonstrado não raramente também em relação a um raciocínio de entendimento, e mesmo sobre objetos éticos e religiosos. O processo de desenvolvimento do indivíduo humano naturalmente decompõe-se então em uma série de processos, cuja diversidade se baseia sobre a relação do indivíduo para com o gênero, e funda na história de formação a diferença da criança, do homem e do ancião. Essas diferenças são as apresentações das diferenças do conceito. A idade da infância é o tempo da harmonia natural, da paz do sujeito consigo mesmo e com o mundo. Um começo tão sem-oposição quanto a velhice é um fim sem-oposição. As oposições que surgem ficam sem interesse mais profundo. A criança vive na inocência, sem sofrimento durável; no amor aos seus pais, e no sentimento de ser amado por eles.

           A prestigiada universidade corânica de Sancoré, onde 50 mil sábios muçulmanos ajudaram a espalhar o Islão através da África Ocidental, ainda funciona, embora com um número mais reduzido: 15 mil estudantes. Tombuctu alberga, ainda, o famoso Instituto Ahmed Baba, com a sua colecção de 20 mil manuscritos árabes antigos, que retratam mais de um milênio de conhecimento científico islâmico e vários madraçais. A cidade tem três mesquitas principais: Djingareiber, construída de barro em 1325, Sancoré e Sidi Iáia. Tombuctu foi inscrita em 1990 na Lista do Património Mundial em perigo. A Universidade, Mesquita ou Madraça de Sancoré (Sankore) é o mais antigo dos três centros de ensino de Tombuctu, no Mali, África Ocidental. As três mesquitas, Sancoré, Djinguereber e Sidi Iáia, compõem o centro de conhecimento e estudos islâmicos reconhecido como Universidade de Tombuctu, um dos grandes centros de produção de conhecimento do mundo islâmico desde o medieval. A madraça é uma escola em árabe. Historicamente, a África Ocidental representou o lar de vários estados e impérios poderosos que controlavam o domínio das rotas comerciais, incluindo os Impérios Mali e Gao. Posicionada em uma extraordinária encruzilhada de comércio, tecnologia e subsistência entre o Norte da África e a África Subsaariana, a região fornecia bens como ouro, marfim e siderurgia avançada.

Durante a exploração europeia, as economias locais foram incorporadas ao tráfico de escravos do Atlântico, o que expandiu os sistemas de escravidão existentes. Mesmo após o fim do tráfico de escravos no início do século XIX, as potências coloniais, especialmente a França e a Grã-Bretanha, impulsionaram a exploração e degradação da região por meio de relações coloniais. Por exemplo, auxiliamos exportando bens extrativos como cacau, café, madeira tropical e recursos minerais. Desde que conquistaram a independência, várias nações da África Ocidental, como a Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Senegal, assumiram papéis ativos nas economias regionais e globais. A África Ocidental possui uma ecologia rica, com biodiversidade significativa em várias regiões. Seu clima é moldado pelo Saara seco ao Norte e Leste, produzindo os ventos Harmattan, um vento seco e carregado de poeira que sopra do deserto do Saara para a África Ocidental, especialmente durante a extraordinária estação seca. Ele é caracterizado por baixa umidade, temperaturas mais baixas e a presença de partículas de poeira e areia e pelo Oceano Atlântico ao Sul e Oeste, que traz monções sazonais. Essa mistura climática cria uma variedade de biomas, de florestas tropicais a terras áridas, que abrigam espécies como pangolins, rinocerontes e elefantes. O ambiente da África Ocidental enfrenta ameaças devido ao desmatamento, perda de biodiversidade, pesca predatória, poluição da mineração, uso de plásticos e mudanças climáticas.

A mesquita foi fundada em 989 pelo juiz do Tombuctu, Alcaide Acibe ibne Maomé ibne Omar. Construiu o pátio interno da mesquita com as mesmas dimensões da Caaba em Meca. Tempos depois, uma rica dama mandinga financiou a Universidade de Sancoré e ajudou a torná-la no principal centro de educação. A universidade prosperou e tornou-se sede muito significativa de aprendizado no mundo islâmico, sobretudo sob o mansa Muça I (1307–1332) e sob a dinastia de Ásquia (1493–1581). Foi nesse período que a universidade ganhou grande notoriedade por todo o mundo islâmico, atraindo intelectuais de toda a África e Oriente Médio para o Reino do Mali para estudar e produzir sobre a cultura e religião islâmica no centro. Tombuctu era o ponto de passagem de uma ampla rede de comércio que se estendia desde o Médio Oriente até o norte da África. Como um centro de peregrinação religiosa. Ao final do reinado de mansa Muça I, a mesquita de Sankoré foi transformada em uma madraça, com o maior acervo de livros e manuscritos da África desde a biblioteca de Alexandria, com um nível de aprendizado que superava o de muitas escolas islâmicas do mesmo período. A madraça era capaz de abrigar 25 mil estudantes e sua biblioteca um acervo entre 400 mil e 700 mil livros e manuscritos. É considerada in statu nascendi universidade do mundo, apesar de sua organização pedagógica não seguir modelos convencionais ao ocidente.

Metodicamente as aulas se davam nos pátios, e cada estudante estava ligado a um imame, que os orientava no estudo do corão e de disciplinas seculares, como geometria, álgebra e astronomia. Os estudos eram divididos em níveis identificados por uma cor de turbante diferente, sendo um primeiro introdutório, um segundo de aprofundamento para que no terceiro, fosse produzido um estudo próprio, preservando-se sempre uma cópia desse paper na universidade. Aos estudantes que chegassem ao quarto nível, eram reservadas funções administrativas e educacionais nas cidades e mesquitas da região. As bibliotecas e acervos de manuscritos do complexo eram enormes, e a maior biblioteca no continente africano desde a Biblioteca de Alexandria. No seu apogeu, acredita-se que se tenha contido mais de setecentos mil manuscritos, e mais de vinte e cinco mil estudantes. Em suas ruinas e nas parcelas da construção que sobreviveram até os dias de hoje, mais de vinte mil manuscritos foram preservados, mesmo com a negligência, constantes ataques e ações do tempo deteriorando boa parte do acervo ao longo dos séculos.

A Biblioteca de Alexandria foi uma das mais significativas e célebres bibliotecas e um dos maiores centros de produção do conhecimento na Antiguidade. Estabelecida durante o século III a.C. no complexo palaciano da cidade de Alexandria, no Reino Ptolemaico do Antigo Egito, a Biblioteca fazia parte de uma instituição de pesquisa chamada Mouseion. A ideia de sua criação pode ter sido proposta por Demétrio de Faleros, um estadista ateniense exilado, ao sátrapa do Egito e fundador da dinastia ptolemaica, Ptolemeu I Sóter, que, tal como o seu antecessor, Alexandre Magno, buscava promover a difusão da cultura helenística. Contudo, a Biblioteca provavelmente não foi construída até o reinado de seu filho, Ptolemeu II Filadelfo. Ela adquiriu um grande número de rolos de papiro, devido sobretudo às políticas agressivas e bem financiadas dos reis ptolemaicos para a obtenção de textos. Não se sabe exatamente quantas obras ela tinha em seu acervo, mas estima-se que ela chegou a abrigar entre trinta mil e setecentos mil volumes literários, acadêmicos e religiosos. O acervo da Biblioteca cresceu de tal maneira que, durante o reinado de Ptolemeu III Evérgeta, uma filial sua foi criada no Serapeu de Alexandria. Além de servir à demonstração de poder dos governantes ptolemaicos, a Biblioteca teve um papel significativo na emergência de Alexandria como sucessora de Atenas enquanto centro irradiador da cultura grega.

A educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu destino exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e, uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valões que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valões válidos para cada sociedade. À estabilidade das normas válidas corresponde a solidez dos fundamentos da educação. Da dissolução e destruição das normas advém a debilidade, a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer ação educativa. Acontece isto quando a tradição é violentamente destruída ou sofre decadência interna. Fora de dúvida, a estabilidade não é o indício seguro de saúde, porque reina também nos estados de rigidez senil, nos momentos finais de uma cultura: assim sucede na China confucionista pré-revolucionária, nos últimos tempos históricos da Antiguidade, nos derradeiros dias dos Judaísmo, uma religião monoteísta com raízes antigas, centrada na crença em um único Deus e na observância de leis e tradições transmitidas através da Torá e outros textos sagrados. É uma religião, filosofia e modo de vida com uma rica história, práticas e costumes distintos, em certos períodos da história da Igrejas, da arte e das escolas científicas. Segundo Jaeger (2011), é “monstruosa a impressão gerada pela fixidez quase intemporal da história do antigo Egito, através de milênios”; também entre os Romanos a estabilidade das relações foi considerada o valor mais alto e apenas se concedeu justificação limitada aos anseios e ideais inovadores. Desnecessário dizer que o Helenismo ocupa uma posição singular na história.

 

Termópilas é um desfiladeiro localizado na Grécia Central que serviu de lugar praticado para violenta batalha entre persas e espartanos. O conflito foi provocado pelo anseio do persa Xerxes de dominar o território e o povo espartano, o que foi negado pelo rei e general de Esparta de 491 a. C até a data de sua morte em 480 a.C. durante a batalha de Termópilas. Uma de suas ações mais importantes se deu por ocasião da invasão da Grécia pelos persas, em 481 a.C. Defendendo o desfiladeiro das Termópilas, que une a Tessália à Beócia, Leónidas e uma tropa de aproximadamente 7000 homens, sendo que apenas 300 eram espartanos, conseguiram repelir os ataques iniciais. Mas Xerxes I, rei da Pérsia, foi auxiliado pelo pastor Efialtes que o conduziu por um caminho que contornava o desfiladeiro, e pôde cercar o exército de Leónidas. Restavam apenas 300 espartanos e pouco mais de 1000 soldados tespienses e tebanos, que decidiram resistir lutando até a morte. Em 462 a.C. Efialtes foi responsável pela reforma do Areópago, controlado pela aristocracia, limitando o seu poder para julgar apenas os casos de homicídio e os crimes religiosos. Antes do século V a. C., o Areópago representava o conselho dos anciãos relativamente semelhante se pensarmos comparativamente ao extraordinário Senado romano. A origem do nome não é clara. Em grego antigo, πάγος pagos significa “grande pedaço de rocha”. Areios poderia ter vindo de Ares ou do Erinyes, pois em seu pé foi erguido templo dedicado às Erínias onde ‘eram considerados assassinos costumavam encontrar abrigo para não enfrentar as consequências de seus atos criminosos”.

Mais tarde, o Romanos referido à colina rochosa como “Mars Hill”, após Marte, a versão romana do deus grego da guerra. Perto do Areópago também foi construída a basílica de Areopagitas Dionísio. Comparativamente sua composição era restrita aos que pelo status ocuparam cargos públicos importantes, neste caso o de Arconte. Em 594 a. C, o Areópago concordou em transferir suas funções para Solon para reforma. Ele instituiu reformas democráticas, reconstituiu seus membros e devolveu o controle à organização. Sob as reformas de Clístenes promulgadas em 508/507 a. C, o Boule (βουλή) ou conselho, foi expandido de 400 para 500 homens, e foi formado por 50 homens de cada um dos dez clãs ou phylai (φυλαί). Em 462 a. C., Efialtes passou por reformas que privaram o Areópago de quase todas as suas funções, exceto a de um tribunal de homicídio em favor de Heliaia, o tribunal supremo da Atenas antiga. A opinião generalizada entre os acadêmicos é de que a origem de seu nome é o verbo Ήλιάζεσθαι, que tem como significado συναθροίζεσθαι, “congregar”. Esta medida formal foi considerada impopular entre os aristocratas e levou ao seu assassinato em 461 a. C. Ipso facto, a investigação metódica moderna abriu imensamente o horizonte da história. A oikoumene dos Gregos e Romanos clássicos, que durante dois mil anos coincidiu com os limites do mundo, foi rasgada em todos os sentidos do espaço e perante o nosso olhar surgiram mundos espirituais até então insuspeitados. Quando deixa de ser um povo particular e nos inscreve membros nos círculos de povos, começa a aparição dos Gregos.

Foi por essa razão ou racionalização que a esse grupo de povos Werner Jaeger designou de helenocêntrico. É este o motivo porque, no decurso de nossa história, voltamos constantemente à Grécia. Este retorno e esta espontânea renovação de sua influência não significa que lhe tenhamos conferido, pela sua grandeza espiritual, uma autoridade imutável, fixa e independente do nosso destino. O fundamento de nosso regresso reside nas próprias necessidades vitais, por mais variadas que elas sejam através da História. É claro que, para nós e para cada um dos povos deste círculo, a Grécia e Roma aparecem como algo de radicalmente estranho. Esta separação analítica funda-se em parte no sangue e no sentimento, em parte na estrutura do espírito e das instituições, e ainda na diferença da respectiva situação histórica; mas entre esta separação e a que sentimos ante os povos orientais, distintos pela sua raça e pelo espírito, a diferença é gigantesca. Não se trata inclusive de um sentimento apenas de parentesco racial. É preciso distinguir a história nesse sentido quase antropológico da história que se fundamenta na união espiritual viva e ativa e na comunidade de um destino, quer seja o do próprio povo, quer um grupo de povos estreitamente unidos. Só nesta particularidade histórica se tem uma íntima compreensão e contato criador entre uns e outros.

Só nela existe uma comunidade de ideais e de formas sociais e espirituais que se desenvolvem e crescem independentes das múltiplas interrupções e mudanças sociais e politicamente através das quais varia, mas também se cruza, choca, desaparece, quando se renova uma família de diversos outros povoamentos no âmbito na genealogia. A comunidade existe na totalidade dos povos ocidentais e entre estes e a historicidade da Antiguidade clássica. Se considerarmos a história nesse sentido profundo, no sentido de uma comunidade radical, não poderemos supor-lhe como cenário o planeta inteiro e, por mais que alarguemos os nossos horizontes geográficos, as fronteiras dessa história jamais poderão ultrapassar a antiguidade daqueles que há vários milênios traçaram seu destino. Não é possível dizer até quando a Humanidade continuará a crescer na unidade de sentido que tal destino lhe assinala, pois o objetivo teórico e histórico de Werner Jaeger é apresentar a formação do homem grego, a Paidéia, no seu caráter particular e no seu desenvolvimento histórico. Não se trata de um conjunto de ideias abstratas em sua generalidade, mas da própria história da Grécia concretamente do seu destino vital.

Contudo, essa história vivida já teria desaparecido há longo tempo se o homem grego não a tivesse criado na sua forma perene. A ideia de educação representava para ele o sentido de todo o esforço humano. Era a justificação última da comunidade e individualidade humana. Mesmo os imponentes monumentos da Grécia arcaica são perfeitamente inteligíveis a esta luz, pois foram criados no mesmo espírito que os gregos consideraram a totalidade de sua obra criadora em relação aos outros povos da Antiguidade de que foram herdeiros. Augusto concebeu a missão do Império Romano em função da ideia da cultura grega. Sem a concepção grega da cultura não teria existido a Antiguidade como unidade histórica e mundo ocidental. É indiscutível que foi o momento historicamente em que os gregos situaram o problema da individualidade no cimo de seu desenvolvimento filosófico que principiou a história da personalidade europeia. Roma e o Cristianismo agiram sobre ela. E da inserção desses fatores brotou o o Eu individualizado. Mas não podemos entender de modo radical e preciso a posição do espírito grego na história da formação dos homens, se tomarmos um ponto de vista moderno. Vale mais partir, segundo Jaeger, da constituição rácica do espírito grego.

A vivacidade espontânea, a sutil mobilidade, a íntima liberdade que, embora tenham parecido condições do rápido desabrochar daquele povo na inesgotável riqueza de formas que nos surpreende e espanta ao contato com os escritores gregos de todos os tempos, dos mais primitivos aos mais modernos, não tem as suas raízes no cultivo da subjetividade, como atualmente acontece; pertencem à sua natureza. Os gregos tiveram o sendo inato do que significa natureza. Sendo o conceito elaborado por eles em primeira mão, tem indubitável origem na sua constituição espiritual. Muito antes de o espírito grego ter delineado essa ideia, eles já consideravam as coisas do mundo numa perspectiva tal que nenhuma delas lhes aparecia como parte isolada do resto, mas sempre como um todo ordenado em conexão viva, na e pela qual tudo ganhava posição e sentido. Esta concepção é orgânica, porque nela todas as partes são consideradas membros de um todo. Sua tendência é clara de apreensão das leis do real. O estilo e a visão artística entre eles surgem, em primeiro lugar, pelo descobrimento como talento estético. Assentam num instinto humano e na interpretação através de um simples ato de visão, não na deliberada transferência de uma ideia para o reino da criação artística.

A idealização da arte, no entanto, só mais tarde aparece, no período clássico. Até na oratória grega encontramos os mesmos princípios formais que vemos na cultura ou na arquitetura. As formas literárias dos gregos surgem organicamente, na sua multíplice variedade e elaborada estrutura, das formas naturais e ingênuas pelas quais o homem exprime a sua vida, elevando-se daí à esfera ideal da arte e do estilo. Também na oratória, a sua aptidão para dar forma a um plano complexo e lucidamente articulado deriva simplesmente do sentido espontâneo e madurecido das leis que governam o sentimento, o pensamento e a linguagem, o lugar onde esta ideia reaparece mais tarde na história, ela é uma herança dos gregos, e aparece sempre que o espírito humano abandona a ideia de um adestramento em função de fins exteriores e reflete na essência a própria educação. O fato de os gregos terem sentido esta tarefa como algo grandioso e difícil e se terem consagrado a ela com ímpeto sem igual não se explica nem pela sua visão artística nem pelo espírito. Desde as primeiras notícias que se disseminam na história da filosofia e têm deles, encontramos o homem no centro do seu pensamento. A forma humana dos seus deuses, o predomínio evidente do problema da forma humana na sua escultura e na sua pintura, o movimento consequente da filosofia desde o problema do cosmos até o problema do homem, que culmina em Sócrates, Platão e Aristóteles; a sua poesia, cujo tema inesgotável desde Homero até os últimos séculos é o homem e o seu duro destino no sentido pleno da palavra. Finalmente, o Estado grego, cuja essência só pode ser correspondida precisamente sob o ponto de vista da formação do homem e da sua vida inteira: o grego é o antropoplástico. Tudo são raios de uma única e mesma luz, expressões de um sentimento vital antropocêntrico que não pode ser explicado nem derivado de nenhuma outra coisa e que penetra todas as formas do espírito grego.

Assim, impossível não admitir que, entre os povos, a língua de Homero é, naturalmente, um problema em si. Mas adverte: trata-se de uma língua que ninguém nunca falou, Robert Knox (2014). É uma língua artificial, poética – como propõe o estudioso alemão Witte, “a língua dos poemas homéricos é uma criação de versos épicos”. Era também uma língua difícil. Para os gregos da Era Dourada, isto é, o século V a. C., no qual inevitavelmente pensamos quando dizemos “os gregos”, o idioma de Homero estava longe de ser claro e era repleto de arcaísmos, no vocabulário, na sintaxe e na gramática, e incongruências: palavras e formas extraídas de diferentes dialetos e estágios distintos da língua. Ninguém nem sonharia em empregar a linguagem de Homero, à exceção dos bardos épicos, sacerdotes oraculares e parodistas eruditos. Isso não significa que fosse poeta reconhecido de eruditos e estudantes; os épicos homéricos eram familiares como as palavras do cotidiano na boca dos gregos comuns.

 

Muitos estudiosos importantes e influentes trabalharam na mesma, notadamente Zenódoto de Éfeso, que buscou padronizar os textos dos poemas homéricos e produziu o registro mais antigo de que se tem notícia do uso da ordem alfabética como método de organização; Calímaco, que escreveu os Pínakes, provavelmente o primeiro catálogo de biblioteca do mundo; Apolônio de Rodes, que compôs o poema épico As Argonáuticas; Eratóstenes de Cirene, que calculou pela primeira vez a circunferência da Terra, com invulgar precisão; Aristófanes de Bizâncio, que inventou o sistema de diacríticos gregos e foi o primeiro a dividir textos poéticos em linhas; e Aristarco da Samotrácia, que produziu os textos definitivos dos poemas homéricos e extensos comentários sobre eles. Além deles, existem referências de que a comunidade da Biblioteca e do Mouseion de Alexandria teria também incluído temporariamente numerosas outras figuras que contribuíram duradouramente para o conhecimento, como Arquimedes e Euclides.                                

Apesar da crença hic et nunc de que a Biblioteca teria sido incendiada e destruída em seu auge, na realidade ela decaiu gradualmente ao longo dos séculos, começando com a repressão de intelectuais durante o reinado de Ptolemeu VIII Fiscão. Aristarco da Samotrácia renunciou ao posto de bibliotecário-chefe e exilou-se no Chipre, e outros estudiosos, incluindo Dionísio da Trácia e Apolodoro de Atenas, fugiram para outras cidades. A Biblioteca, ou parte de sua coleção, foi acidentalmente queimada por Júlio César em 48 a.C., mas não está claro o quanto realmente foi destruído, pois fontes indicam que ela sobreviveu ou foi reconstruída pouco depois. O geógrafo Estrabão menciona ter frequentado o Mouseion por volta de 20 a.C., e a prodigiosa produção acadêmica de Dídimo Calcêntero nesse período indica que ele teve acesso a pelo menos parte dos recursos da Biblioteca. Sob controle romano, a Biblioteca perdeu vitalidade devido à falta de financiamento e apoio, e a partir de 260 a.C. não se tem notícia de intelectuais filiados a ela. Entre 270 e 265 a.C. a cidade de Alexandria viu tumultos que  destruíram o que restava da Biblioteca, caso ela ainda existisse, mas a biblioteca do Serapeu pode ter sobrevivido mais longamente, talvez até 391 a.C., quando o papa copta Teófilo I por inveja do gozo do outro instigou a vandalização e a demolição do Serapeu.

A Biblioteca de Alexandria foi mais que um repositório de obras, e durante séculos constituiu um notável polo de atividade intelectual criativa. Sua influência pôde ser sentida em todo o mundo helenístico, fantástico não apenas por meio da valorização do conhecimento escrito, que levou à criação de outras bibliotecas nela inspiradas e à proliferação de manuscritos, mas também por meio do trabalho de seus acadêmicos em numerosas áreas do conhecimento. Teorias e modelos criados pela comunidade da Biblioteca continuaram a influenciar as ciências, a literatura e a filosofia até pelo menos a Renascença. Além disso, o legado da Biblioteca de Alexandria teve efeitos de poder que se estendem contemporaneamente, e ela pode ser considerada um arquétipo da biblioteca universal, do ideal de armazenamento do conhecimento, e da fragilidade desse conhecimento. Juntos, a Biblioteca e o Mouseion contribuíram para afastar a ciência de correntes de pensamento específicas e, sobretudo, para demonstrar que a pesquisa acadêmica pode servir às questões práticas e às necessidades das sociedades e governos.

Bibliografia Geral Consultada.

BOUDON, Raymond, Effets Pervers et Ordre Social. Paris: Presses Universitaires de France, 1977; GALLIE, Walter Bryce, Os Filósofos da Paz e da Guerra: Kant, Clausewitz, Marx, Engels e Tolstoi. Rio de Janeiro: Editora Artenova; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979; BRAUDEL, Fernand, La Mediterranée et le Monde Méditerranée à l`Époque de Philippe II. Paris: Editeur Armand Colin, 1990; GEERTZ, Clifford, Interpretación de las Culturas. Barcelona: Ediciones Gedisa, 1993; POPENOE, Rebecca, Feeding Desire – Fatness, Beauty and Sexuality among a Saharan People. London: Routledge, 2003; DOSSE, François, A História em Migalhas: dos Annales à Nova História. Bauru: USC, 2004; MINOUMI, Simon-Claude, Les Chrétiens d`Origine Juive dans L`Antiquité. Paris: Editeur Albin Michel. Cool. Présence du Judaïsme, 2004; HEGEL, Friedrich, Fenomenologia do Espírito. 4ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007; MORETTI, Franco, Signos e Estilos da Modernidade: Ensaio sobre a Sociologia das Formas Literárias. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007; D’ALLONNES, Myriam Revault, El Poder de los Comienzos: Ensayo sobre la Autoridad. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 2008; JAEGER, Werner Wilhelm, Paidéia: A Formação do Homem Grego. 5ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010; WATERS, Matt, Pérsia Antiga: Uma História Concisa do Império Aquemênida, 550–330 a.C. Cambridge University Press, 2014; KNOX, Robert, A Critical Examination of the Concept of Imperialism in Marxist and Third World Approaches to International Law. Tese de Doutorado em Filosofia. Londres: The London School of Economics and Political Science, 2014; SILVA, Solange Maria da, Para Além do Exótico: As Ciências na África, da História ao Ensino. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; COURTINE, Jean-Jacques; VIRGOLINO, Mariano Figueiredo, Redes, Stásis e Estabilidade na Grécia Antiga: Um Estudo em Cultura Política. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em História Social. Instituto de História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2018; MCKECHNIE, Paul, Cristianizando a Ásia Menor: Conversão, Comunidades e Mudança Social na Era Pré-Constantino. Nova York: Cambridge University Press, 2019; SCHVON, Frithjof, Sur les Traces de la Religion Pérenne. Paris: Editeur L`Harmattan, 2022; Artigo: “Humanos que Viveram no Saara Quando Deserto Era Floresta São de Linhagem Diferente do Resto da Humanidade”. In: https://oglobo.globo.com/2025/04/09/; entre outros. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Amor em Copenhague – Família & Cristal no Dispositivo da Sexualidade.

                                                                          A família é o cristal no dispositivo de sexualidade”. Michel Foucault                                   

              

        As sociedades ocidentais modernas inventaram e instalaram, sobretudo a partir do século XVIII, um novo dispositivo que se superpõe ao primeiro e que, sem o pôr de lado, contribuiu para reduzir a sua importância. É o dispositivo de sexualidade: como o de aliança, esta se articula aos parceiros sexuais; mas de um modo inteiramente diferente. Poder-se-ia opô-los termo a termo. O dispositivo de aliança se estrutura em torno de um sistema de regras que define o permitido e o proibido, o prescrito e o ilícito; o dispositivo da sexualidade funciona de acordo com técnicas móveis, polimorfas e conjunturais de poder. O dispositivo da aliança conta, entre seus objetivos principais, o de reproduzir a trama de relações e manter a lei que rege; o dispositivo de sexualidade engendra, em troca, uma extensão permanente dos domínios e das formas de controle. Para o primeiro, o que é pertinente é o vínculo entre parceiros com status definido; para o segundo, são as sensações do corpo, a qualidade dos prazeres, a natureza das impressões, por tênues e imperceptíveis que sejam. Enfim, se o dispositivo de aliança se articula fortemente com a economia devido ao papel que pode desempenhar na transmissão ou na circulação de riquezas, o dispositivo de sexualidade se liga à economia através de articulações numerosas e sutis, sendo o corpo principal, isto é, per se o corpo que produz e consome.  

            Numa palavra, o dispositivo de aliança, está ordenado para uma homeostase do corpo social, a qual é sua função manter; daí seu vínculo privilegiado com o direito; daí, também, o fato de o momento decisivo, para ele, ser a “reprodução”. O dispositivo de sexualidade tem, como razão de ser, inventar, penetrar nos corpos de maneira cada vez mais global. Devem-se admitir, portanto, três ou quatro teses contrárias à pressuposta pelo ema de uma sexualidade reprimida pelas formas modernas da sociedade: a sexualidade está ligada a dispositivos recentes de poder; esteve em expansão crescente a partir do século XVII; a articulação que a tem sustentado, desde então, não se ordena em função da reprodução; esta articulação, desde a origem, vinculou-se a uma intensificação do corpo, à sua valorização como objeto de saber e como elemento nas relações de poder. Lembra monsieur Foucault, dizer que o dispositivo de sexualidade substituiu o dispositivo de aliança não seria exato. Pode-se imaginar que talvez, um dia, o substitua. Mas de fato, hoje em dia, se por um lado tende a recobri-lo, não o suprimiu nem tornou inútil. Historicamente, aliás, foi em torno e a partir do dispositivo de aliança que o de sexualidade se instalou. 

            A prática da penitência e, em seguida, a do exame de consciência e o da direção espiritual, foi seu núcleo formador: ora, o que estava em causa, no tribunal da penitência, primeiramente, era o sexo como suporte de relações; a questão colocada era a do comércio permitido ou proibido (adultério, relação fora do casamento, relação com pessoa interdita pelo sangue, ou a condição, o caráter legítimo ou não do ato de conjunção); depois, pouco a pouco, com a nova pastoral – a sua aplicação nos seminários, colégios e conventos – passou-se de uma problemática da relação para uma problemática da “carne”, isto é, co corpo, da sensação, da natureza do prazer, dos movimentos mais secretos da concupiscência, das formas sutis da deleitação e do consentimento. A “sexualidade” estava brotando, nascendo de uma técnica de poder que, originariamente, estivera centrada na aliança. Desde então não parou de funcionar em atinência a um sistema de aliança e apoiando-se nele. A célula familiar, assim como foi valorizada durante o século XVIII, permitiu que, em suas duas dimensões principais – o eixo marido-mulher e o eixo pais-filhos – se desenvolvessem os principais elementos do dispositivo da sexualidade: o corpo feminino, a precocidade infantil, a regulação dos nascimentos e, em menor proporção, sem dúvida, a especificação dos perversos. Não se deve entender a família, em sua forma contemporânea, como uma estrutura social, econômica e política de aliança, que exclua a sexualidade ou pelo menos a refreie, atenue tanto quanto possível e só retenha dela as funções úteis. Seu papel, ao contrário, é o de fixá-la e constituir seu suporte permanente. 

                                                


            Ela garante a produção de uma sexualidade não homogênea aos privilégios da aliança, permitindo, ao mesmo tempo, que os sistemas de aliança sejam atravessados por toda uma nova tática de poder que até então eles ignoravam. A família é o permutador da sexualidade coma a aliança: transporta a lei e a dimensão do jurídico para o dispositivo de sexualidade; e a economia do prazer e a intensidade das sensações para o regime de aliança. Essa fixação do dispositivo de aliança e do dispositivo de sexualidade na forma da família permite compreender certo número de fatos: que a família se tenha tornado, a partir do século XVIII, lugar obrigatório de afetos, de sentimentos, de amor; que a sexualidade tenha, como ponto privilegiado de eclosão, a família; que, por esta razão, nasça “incestuosa”. Pode ser muito bem que, nas sociedades onde predominem os dispositivos de aliança, a interdição do incesto seja uma regra funcionalmente indispensável. Mas numa sociedade como a nossa, onde a família é o foco mais ativo da sexualidade e onde são, sem dúvida, as exigências desta última que mantêm e prolongam sua existência, o incesto, por motivos inteiramente diferentes, e de modo inteiramente diverso, ocupa um lugar central; é continuamente solicitado e recusado, objeto de obsessão e de apelo, mistério temido e segredo indispensável. Aparece como altamente interdito na família, na medida em que representa o dispositivo de aliança; mas é, também, algo continuamente requerido para que a família seja realmente um foco permanente de incitação à sexualidade. 

            Se, durante mais de um  século, o Ocidente demonstrou tanto interesse na interdição do incesto, se, com concordância quase total viu nele um universal social e um dos pontos de passagem obrigatórios para a cultura, talvez fosse porque encontrava nele um meio de se defender, não contra um desejo incestuoso, mas contra a extensão e as implicações desse dispositivo de sexualidade posto em ação, e cujo inconveniente, entre tantos benefícios, era o de ignorar as leis e as formas jurídicas da aliança. Afirmar que toda sociedade, qualquer que seja, e por conseguinte a nossa, está submetida a essa regra das regras, garanta que tal dispositivo de sexualidade, cujos efeitos estranhos começavam a ser manipulados – entre eles a intensificação afetiva do espaço familiar – não pudesse escapar ao grande e velho sistema de alianças. Com isso, o direito, mesmo na nova mecânica de poder, estaria a salvo. Pois este é o paradoxo da sociedade que, desde o século XVIII, inventou tantas tecnologias de poder estranhas ao direito: ela teme seus efeitos e proliferações e tenta recodifica-los nas formas do direito. Se se admitir que o limiar de toda cultura é o incesto interdito, então a sexualidade, desde tempos imemoriais, está sob o signo da lei do direito. A etnologia, reelaborando sem cessar, há tempo, a teoria transcultural da interdição do incesto, bem mereceu todo o dispositivo moderno de sexualidade e dos discursos teóricos que produz.  

            O que se passou desde o século XVIII pode ser decifrado do seguinte modo: o dispositivo de sexualidade, que se desenvolvera primeiro nas margens das instituições familiares (na direção espiritual, na pedagogia), vai se recentrar pouco a pouco na família: o que ele podia comportar de estranho, de irredutível, de perigoso, talvez, para o dispositivo de aliança – a consciência desse perigo se manifesta nas críticas tão frequentemente dirigidas contra a indiscrição dos diretores espirituais, em todo o debate, um, pouco mais tardio, sobre a educação pública ou privada, institucional ou familiar das crianças – é tomado em consideração pela família – uma família reorganizada, com laços mais estreitos, intensificada com relação ás antigas funções que exercia no dispositivo de aliança. Os pais, os cônjuges, tornam-se na família, os principais agentes de um dispositivo de sexualidade que no exterior se apoia nos médicos e pedagogos, mais tarde nos psiquiatras e que, no interior, vem duplicar e logo “psicologizar” ou “psiquiatrizar” as relações de aliança. Aparecem estas personagens novas: a mulher nervosa, a esposa frígida, a mãe indiferente ou assediada por obsessões homicidas, o marido impotente, sádico, perverso, a moça histérica ou neurastênica, a criança precoce e esgotada, o jovem homossexual que recusa o casamento ou menospreza sua própria mulher.

São as figuras mistas da aliança desviada e da sexualidade anormal: transferem a perturbação da segunda para a ordem da primeira; dão oportunidade para que o sistema da aliança faça valer seus direitos na ordem da sexualidade. Nasce, então, uma demanda incessante a partir da família: de que a ajudem a resolver tais interferências infelizes entre a sexualidade e a aliança; e, presa na cilada desse dispositivo de sexualidade que sobre ela investira de fora, que contribuíra para solidificá-la em sua forma moderna, lança aos médicos, a todos os “especialistas” possíveis, o longo lamento de seu sofrimento sexual. Tudo se passa como se ela descobrisse, subitamente, o temível segredo do que lhe tinham inculcado e que não se cansaram de sugerir-lhe: ela, coluna fundamental da aliança, era o germe de todos os infortúnios do sexo. Ei-la desde a metade do século XIX, a assediar em si mesma os mínimos traços de sexualidade, arrancando a si as confissões mais difíceis, solicitando a escuta de todos os que podem saber muito, abrindo-se amplamente a um exame infinito. A família é o cristal no dispositivo de sexualidade: parece difundir uma sexualidade que reflete e difrata. Por sua penetrabilidade e sua repercussão voltada para o exterior, ela é um dos elementos táticos mais preciosos para esse dispositivo.

A Zelândia é a maior e a mais povoada ilha da Dinamarca, com mais de 45% da população total do país. Está separada da Fiónia pelo Grande Belt e da Escânia, na Suécia, pelo estreito de Øresund, na sua forma portuguesa Oressunde, é um estreito entre a Dinamarca e a Suécia, mais precisamente entre a ilha dinamarquesa da Zelândia e a província sueca da Escânia. É um dos três principais estreitos dinamarqueses: Øresund, Grande Belt e Pequeno Belt.O nome geográfico Öresund deriva das palavras nórdicas ör (banco de saibro) e sund (estreito). O estreito é mencionado como Ørasundi em 950 e Øræsund em 1353. O estreito liga o mar Báltico no Sul ao estreito de Categate no Norte, em direção ao mar do Norte. Estende-se por cerca de 118 km num eixo Sul-sudeste/nor-noroeste, e tem uma largura de 3 km a 48 km. Separa ao Sul as cidades portuárias de Copenhague (Dinamarca) e Malmo (Suécia), e ao Norte as cidades de Elseneur (Dinamarca) e de Helsingborg (Suécia). Os relevos submarinos e a pouca profundidade de Öresund contribuem a limitar as trocas de água entre o mar do Norte e o mar Báltico. O estreito de Öresund foi palco de numerosos naufrágios. Os principais fatores são sua baixa profundidade, às vezes inferior a 10 metros, e a existência de muitos navios em trânsito. Pelo Tratado de Öresund de 1857, este estreito é considerado água internacional. Inaugurada em 1° de julho de 2000, a Ponte do Öresund liga Copenhaga, na Dinamarca, a Malmö, na Suécia. É a 96ª maior ilha do mundo e a 35ª mais habitada por humanos.

A ilha tinha em 2012 cerca de 2 491 090 habitantes, vivendo a maior parte destes na capital, Copenhague, em dinamarquês København, e seus arredores, em cidades como Helsingør. A sua área é de 7 031 km². Ilha é qualquer pedaço de terra subcontinental cercada por água. Sua etimologia latina, insula, originou o adjetivo insular. As três ilhas mais populosas do mundo atualmente são Honshu, Britânia e Java, sendo que a maior em área é a Groenlândia. Geograficamente Copenhaga está parcialmente situada na costa oriental da Zelândia e parcialmente na ilha de Amager, além de outras ilhas “satélites” menores. Outras cidades importantes da ilha são Roskilde e Helsingør. O nome de Sjælland em dinamarquês provém das grandes populações de focas, em dinamarquês sæel residentes nas costas da ilha. A costa é em geral baixa e arenosa com algumas exceções em forma de falésias calcárias como por exemplo as de Stevns Klint. A ilha é formada por um conjunto de terras com vales de origem glaciar em forma de U e restos de antigas morenas. O ponto culminante da ilha é Kobanke com 122,9 m, no município de Faxe, a Sul da cidade de Rønnede. A Zelândia tem 3 dos maiores lagos da Dinamarca, o Arresø, o Esrum, e o Tissø. O Fiorde de Ise, conectado ao mar de Kattegat, está localizado no Norte da ilha.  Administrativamente a ilha é dividida entre duas regiões, a Região da Capital e a Região de Sjælland, ambas com territórios fora da ilha.

A cidade de Copenhague está localizada na costa Leste da ilha da Zelândia, mas também na ilha menor de Amager, que fica em frente ao Øresund, que liga o Kattegat ao Mar Báltico e separa geograficamente a Dinamarca da Suécia. A parte Oeste de Copenhague é relativamente plana, mas o terreno é mais acidentado ao Norte e ao Sul da cidade. A Noroeste de Copenhague, por exemplo, ergue-se uma cadeia de colinas bastante extensa, que atinge uma altura de 50 metros. Essas paisagens onduladas são cortadas por lagos e pelo rio Mølleåen. O ponto mais alto da Grande Copenhague está localizado na Floresta de Rude, a uma altitude de 91 metros. A maior altitude em torno de Gladsaxe facilitou a construção de um reservatório para o abastecimento de água da cidade, bem como da subestação de Gladsaxe. A Sudoeste, um afloramento calcário se eleva ao longo da Falha de Carlsberg. As áreas centrais de Copenhague situam-se em terrenos com domínio planos ou levemente ondulados, como Valby e Brønshøj. Dois sistemas de vales estendem-se de Nordeste a Sudoeste ao longo dessas pequenas cadeias de colinas; um vale abriga os lagos do centro de Copenhague, enquanto o outro é o Lago Damhussøen. Esses vales são cortados pelos rios Harestrup Å e Ladegårdsåen. Amager e grande parte da cidade velha estão situadas em terreno costeiro plano. Parte da cidade velha, incluindo Christianshavn e Islands Brygge, fica numa área que era o fundo do mar há 500 anos.

            A primeira menção da cidade data de 1043, na Saga dos Cangurus, sob o nome de porto Hafnæ, depois Hafnia, onde se diz que Sueno II da Dinamarca se refugiou ali após ser derrotado por Magno I da Noruega. Na Gesta Danois, escrita no século XIII, Saxo Grammaticus refere-se à cidade como Portus Mercatorum, ou em dinamarquês contemporâneo, Købmannahavn, que significa porto dos mercadores. Do ponto de vista geológico, Copenhague, como a maior parte da Dinamarca, está situada sobre uma morena glacial, que por sua vez repousa sobre um leito rochoso de calcário mais duro. Em alguns lugares, há apenas 10 metros até o leito rochoso de calcário, o que representou problemas significativos durante a construção das linhas de metrô. Devido ao aumento da frequência de eventos de chuva intensa, Copenhague está se transformando em uma cidade esponja, mais capaz de reter água por meio de soluções baseadas na natureza, mas também de armazená-la usando equipamentos técnicos, particularmente subterrâneos. Copenhague possui um clima oceânico, segundo a classificação de Köppen, com uma temperatura máxima recorde de 33,8 °C .12 de agosto de 1975 e como uma mínima histórica de -24,2 ° C26 de janeiro de 1942. A temperatura média anual é de 9 °C.

            O conflito político com a Inglaterra em 1801 e, especialmente, o bombardeio da marinha inglesa em 1807 deixaram mais uma vez suas marcas profundas na cidade. O fim das Guerras Napoleônicas foi muito desfavorável para a Dinamarca, que perdeu grande parte de seu território com a assinatura do Tratado de Kiel (1814). Além disso, a posição comercial da cidade foi ameaçada pela abertura do Canal de Kiel. Para mitigar seus efeitos de poder, foi-lhe concedido um porto franco. Sua vocação industrial também foi fortalecida por certas inovações. Por exemplo, a pasteurização da cerveja revolucionou a indústria cervejeira, possibilitando a produção em larga escala e a distribuição a longas distâncias. Esse desenvolvimento levou rapidamente ao desaparecimento da maioria das numerosas produções artesanais da cidade, ao mesmo tempo que permitiu o surgimento da multinacional Carlsberg e a criação da Ny Carlsberg Glyptotek. A cidade sofreu poucos danos arquitetônicos devido aos conflitos mundiais e, após 1945, foi capaz de desenvolver uma política de planejamento urbano que antecipou os desafios do transporte moderno, ao mesmo tempo que oferecia um ambiente de vida agradável, com suas amplas praças e avenidas, seus parques, seus monumentos e suas muitas instalações culturais.                         

            Copenhague tem como representação social o centro econômico e financeiro da Dinamarca, com uma economia robusta baseada em serviços e um importante polo econômico para os países escandinavos e a região do Báltico. Existem aproximadamente 2.100 empresas estrangeiras localizadas na área de Copenhague, das quais cerca de 500 são sedes escandinavas. A Microsoft possui um centro de desenvolvimento na cidade. Copenhague também abriga a sede da empresa de navegação dinamarquesa Maersk. Grandes empresas farmacêuticas, como a Novo Nordisk, também têm suas sedes em Copenhague ou nas proximidades. No início da década de 1990, Copenhague estava à beira do colapso. “As fábricas estavam fechando uma após a outra e, quando o exército decidiu transferir sua frota e arsenais, 10.000 empregos desapareceram”, lembra Jens Kramer Mikkelsen (da), prefeito de 1989 a 2004. Embora Copenhague não tenha a crise habitacional aguda vivenciada por cidades como Londres ou Nova York, ela é afetada pelas mesmas tendências principais: as demandas apontam o dedo para especuladores estrangeiros que compram imóveis, salários estagnados e aluguéis crescentes que levam algumas pessoas a sair, enquanto outras sofrem uma deterioração em suas condições de vida, e uma crescente sensação de insegurança. A população dinamarquesa da área metropolitana de Copenhague (Copenhaguois) registada em 2011 era de 1.974.200 habitantes com densidade de 712 hab./km², dos quais um terço vivia no município de Frederiksberg e outro no antigo distrito de Copenhague e outras comunidades da região.

A região de Øresund, que compreende a Zelândia oriental e a Escânia ocidental na Suécia, tem uma população total de 2.800.000 habitantes. Relativamente aos residentes estrangeiros, apresenta-se aqui uma tabela que mostra o número de residentes de Copenhague nascidos fora da Dinamarca em 2017. A Escola Nacional de Cinema e também o Instituto de Cinema da Dinamarca sociologicamente criaram estrutura horizontal e de liderança comunicativa. A Dinamarca produz filmes desde 1897 e desde a década de 1980 mantém um fluxo constante de produtos devido em grande parte ao financiamento do Danish Film Institute, apoiado pelo Estado. Esteticamente, os filmes dinamarqueses são reconhecidos por seu realismo, presença de temas religiosos e morais, franqueza sexual e inovação técnica. Diretores de filmes cinematográficos que ganharam fama internacional, como Lars von Trier, Bille August, Thomas Winterberg e Nicolas Winding Refn, merecem “rasgados elogios que recebem, mas o determinante para o sucesso nacional do cinema do país como seu modelo de organização, no qual a cooperação no trabalho é o ponto chave e central”. Polar, por exemplo, é um filme teuto-estadunidense articulado sobre formas de ação, suspense e policial, dirigido por Jonas Åkerlund, com roteiro da série de graphic novels escritas e ilustradas por espanhol cartunista Victor Santos. Estrelado por Mads Mikkelsen, Vanessa Hudgens, Katheryn Winnick e Matt Lucas, na Netflix em 25 de janeiro de 2019.

As facilidades direcionadas ao público em geral incluem uma livraria e uma cinemateca, além de um museu dedicado ao cinema do país. O instituto é um órgão do Ministério da Cultura da Dinamarca. Seu diretor atual é Henrik Bo Nielsen. Integra o European Film Promotion, uma rede de organizações ligadas ao cinema com o intuito de divulgar a produção do continente. O Instituto de Cinema da Dinamarca foi fundado em 1972, substituindo a Fundação Dinamarquesa de Cinema (Den Danske Filmfond). Em 1996 uma nova Lei fundiu o Instituto de Cinema com a Statens Filmcentral e o Museu Nacional de Cinema da Dinamarca. O Instituto de Cinema da Dinamarca foi fundado em 1972, substituindo a Fundação Dinamarquesa de Cinema. Em 1996 uma nova Lei fundiu o Instituto de Cinema com a Statens Filmcentral e o Museu Nacional de Cinema da Dinamarca. O Instituto de Cinema da Dinamarca (Det Danske Filminstitut) é a agência nacional responsável pelo suporte e incentivo ao cinema e à cultura, e conservação deste material de interesse nacional. É reconhecido como Filmhuset (The House of Film), localizada em Gothersgade, na região central de Copenhague. O cinema dinamarquês na década de 1990 foi dominado pelo cineasta Lars von Trier. Seus filmes Europa (1991), Breaking the Waves (1996), The Idiots (1998) e Dancer in the Dark (2000) receberam grande atenção internacional e foram indicados a vários prêmios.

   

O Dogme 95 Collective, representou um movimento social cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto publicado em 13 de março de 1995 em Copenhague, na Dinamarca. Os autores foram os cineastas dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier. Chamou a atenção do mundo ocidental do cinema internacional com seus estritos “votos de castidade” ou regras para cineastas que forçam os cineastas a se concentrarem na pureza da história e nas performances dos atores, em vez de efeitos especiais e outros dispositivos cinematográficos. O primeiro filme Dogme 95, The Celebration (Festen, 1998), dirigido por Thomas Vinterberg, recebeu muitos prêmios no circuito internacional de festivais de cinema e foi nomeado pela Los Angeles Film Critics Association e pelo New York Film Critics Circle como “o melhor filme de língua estrangeira filme do ano”. Os membros do Dogme 95 Collective eram von Trier, Vinterberg, Kristian Levring e Søren Kragh-Jacobsen. Embora o movimento Dogme 95 tenha se originado na Dinamarca, cineastas de todo o mundo logo experimentaram as diretrizes rígidas e buscaram a certificação para seus filmes como Dogme. Além disso, o próprio filme Dogma (1995) de Lars von Trier, Idioterne (1998), iniciou uma onda separada de filmes mainstream de arte com sexo não simulado. Lars von Trier também fez história cinematográfica ao ter sua empresa Zentropa sendo a primeira empresa de cinema mainstream do mundo “a produzir filmes pornográficos hardcore”.

Três desses filmes Constance (1998), Pink Prison (1999) e o crossover adulto/mainstream All About Anna (2005), foram realizados principalmente para um público feminino e foram extremamente bem sucedidos na Europa, com os dois primeiros sendo diretamente responsáveis pela “legalização da pornografia em março de 2006 na Noruega”. O cinema dinamarquês continua a ser influenciado positivamente pelo Estado através do bem-sucedido Danish Film Institute (DFI), fundado em 1972. É a agência nacional de cinema e cultura cinematográfica do Ministério da Cultura. DFI apoia o desenvolvimento, produção e distribuição de filmes e administra os arquivos nacionais. Os programas se estendem à educação cinematográfica de coproduções internacionais e à promoção internacional em festivais de cinema. Apenas uma semana antes de vencer em Göteborg, A House Made of Splinters (2022) recebeu o World Cinema Documentary Directing Award em seu lançamento mundial em Sundance. – “As in Heaven” estreou no Festival de Cinema de Toronto (2021) e ganhou duas Conchas de Prata em San Sebastian de Melhor Diretor para Tea Lindeburg, o primeiro dinamarquês a ganhar este prêmio, e de melhor desempenho para Flora Ofelia Hofmann Lindahl, mais reconhecida como Flora Ofelia, cantora e atriz dinamarquesa que venceu o concurso de canto do Festival Eurovisão da Canção (2015), com sua canção “Du Du Du Du” e desde a série de televisão Cry Wolf e no longa-metragem As in Heaven, dividem o prêmio com Jessica Chastain.

São reconhecidos os vencedores do Festival de San Sebastián, que penetraram na sua 58ª edição. O Festival Internacional de Cinema de San Sebastián decorreu de 17 a 25 de setembro, no País Basco espanhol, em San Sebastián. A DFI Film House é aberta ao público e abriga a Cinemateca nacional. Inclui uma biblioteca, um arquivo de fotos e pôsteres e um arquivo de filmes. A DFI apoia a produção de 20-25 longas-metragens e 25-30 documentários e curtas-metragens todos os anos. Existem três tipos de apoio: o esquema do comissário de cinema, o esquema de mercado e o de desenvolvimento de talentos na New Danish Screen. A DFI incentiva parcerias internacionais e permite 5-9 coproduções menores em longas-metragens e 4-6 coproduções menores em documentários por ano. Uma pedra angular da política cinematográfica dinamarquesa é financiar filmes infantis e juvenis para os quais 25% de todos os subsídios são alocados. DFI recebeu críticas por falta de inovação - notavelmente, Dogme 95 aconteceu apesar do financiamento do Film Institute - e às vezes é acusado de nepotismo e compadrio, por exemplo, quando o comissário de cinema Mikael Olsen de 1998 a 1999 deu luz verde a 28 milhões de coroas de dinheiro de subsídio para seu amigo de infância Peter Aalbæk Jensen, é um produtor cinematográfico dinamarquês que em 1992, com Lars von Trier, fundou a produtora cinematográfica dinamarquesa Zentropa e mais tarde um enorme complexo de estúdios Filmbyen. Seu pai era o escritor Erik Aalbæk Jensen (1923-1997), depois passou a trabalhar para ele “em uma posição de alto escalão”. O Danish Film Institute, também alcançou tout court alto nível de profissionalismo, policompetente, para lembrarmos de Edgar Morin, mesmo que mais ou menos reservado para alguns gêneros e empresas de produção selecionados, principalmente Nordisk Film, Zentropa e Nimbus Film. Em fevereiro de 2008, a Nordisk Film comprou metade da Zentropa, que coproduz com a Nimbus Film, mas esses monopólios financiados (cf. Hilferding, 2011) por impostos e sancionados pelo Estado muito raramente são desaprovados na Dinamarca.

Em História de Amor em Copenhague (2005), a talentosa escritora Mia encontra o amor com o carismático Emil, um “pai solo”, na falta de melhor expressão, na bela capital da Dinamarca. Mas a felicidade dos dois é colocada em xeque quando decidem fazer tratamentos para infertilidade. O longa-metragem dirigido por Ditte Hansen e Louise Mieritz é principalmente sobre os efeitos de poder das pressões matrimoniais. A definição do casamento enquanto vínculo tão exclusivo quanto possível para o exercício dos aphrodisia abre-se (ou poderia abrir-se) para um conjunto de questões que dizem respeito à integração ao papel, à forma e à finalidade dos atos de prazer no jogo das relações afetivas ou estatutárias entre o homem e a mulher. De fato, deve-se reconhecer que, mesmo nas formas de reflexão onde o casamento ocupa um lugar importante, a economia dos prazeres na relação conjugal é tratada com extrema reserva. O casamento, nessa moral rigorosa que é professa da por alguns, demanda o monopólio do prazer; mas nada se diz sobre quais prazeres serão admitidos e quais outros serão excluídos. Dois princípios bem gerais são, todavia, frequentemente evocados. Por um lado, acentua-se que a relação conjugal não deve ser estranha a Eros, a esse amor que alguns filósofos quiseram reservar para os rapazes; mas por outro lado, que ela também não deve ignorar ou excluir Afrodite. Musonius, no texto onde mostra que o casamento, longe de ser um obstáculo, é uma obrigação para o filósofo, acentua a grandeza e o valor do estado matrimonial; e lembra quais são as três grandes divindades que velam sobre ele.

Desde Michel Foucault (1984) sabemos que não se deve descrever a sexualidade como um ímpeto rebelde, estranha por natureza e indócil por necessidade, a um poder que, por sua vez esgota-se na tentativa de sujeitá-la e muitas vezes fracassa em dominá-la inteiramente. Ela aparece mais como um ponto de passagem particularmente denso pelas relações de poder; entre homens e mulheres, entre jovens e velhos, entre pais e filhos, entre educadores e alunos, entre padres e leigos, entre administração e população. Nas relações de poder, Foucault defende a tese segundo a qual, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade: utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de ponto de apoio, de articulação às mais variadas estratégias.  Isto quer dizer o seguinte: Não existe uma estratégia única, global, válida para toda a sociedade e uniformemente referente a todas as manifestações do sexo: a ideia, por exemplo, de muitas vezes se haver tentado, por diferentes meios, reduzir todo o sexo à sua função reprodutiva, à sua forma heterossexual e adulta contemporânea e à sua legitimidade matrimonial não explica, essencialmente, sem a menor dúvida, os múltiplos objetivos visados, os inúmeros meios postos em ação nas políticas sexuais concernentes aos dois sexos, às idades diferentes e a formação das classes sociais. Historicamente a classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (cf. Thompson, 1979; 1998), herdadas ou partilhadas, sentem e articulam a identidade de interesses, contra outros homens cujos interesses diferem, e geralmente se opõem dos seus. A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente.

É neste sentido que para Thompson a consciência de classe representa a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais, sendo vistas como “encarnadas em tradições, sistema de valores, ideias e formas institucionais”. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. E neste sentido a particularidade é a seguinte. Podemos entender uma lógica nas reações de grupos profissionais semelhante que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma. Além disso, existe uma tentação generalizada em se supor que “a classe é uma coisa”. Não era esse o significado utilizado por Marx, em seus escritos históricos, ou de análise de conjuntura, mas o erro deturpa muitos textos aparentemente marxistas contemporâneos. Fora do nível empírico de análise, “ela”, a classe operária, é tomada como tendo existência real, capaz de ser definida quase matematicamente – uma quantidade de homens que se encontra numa certa proporção com os meios de produção. Esta “classe dirigente” ou dominante estava, ela própria, muito dividida em suas frações, e de fato só conseguiu maior coesão nesses mesmos anos porque certos antagonismos de classe no sentido estrutural do termo, realmente se dissolveram ou se tornaram insignificantes frente a uma classe operária que estava se originando de forma insurgente no plano das nações. Uma vez isso assumido torna-se possível deduzir a consciência de classe que “ela” deveria ter (mas raramente tem), se estivesse consciente de sua própria posição e interesses reais.

 Evidentemente, a questão é como o indivíduo veio a ocupar esse “papel social”, na falta de melhor expressão, e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Essas são questões históricas. Se determos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas ao examinarmos esses homens num período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas ideias e instituições. A classe social é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história e, ao final, esta é sua única definição. Thompson observa que entre os anos 1780 e 1832 os trabalhadores ingleses em sua maioria vieram a sentir uma “identidade de interesses entre si”, e contra seus dirigentes e empregadores. A presença operária em 1832, foi o fator histórico e sociológico determinante como nível concreto estrutural e de classe mais significativo da vida política britânica. 

Na trilogia de Edward Palmer Thompson, “Árvore da liberdade” (I); “Maldição de adão” (II) e sobre “A força dos trabalhadores” (III), assim está a sua forma de exposição. Na Parte I, Thompson faz o resgate das tradições populares vigentes no século XVIII que influenciaram a fundamental agitação jacobina dos anos 1790. Na Parte II, as experiências de grupos de trabalhadores durante a Revolução Industrial, enfatizando o caráter da nova disciplina industrial do trabalho e da posição, a esse respeito, da Igreja Metodista. Na Parte III, recolhe aspectos da história social e da emergência do “radicalismo plebeu”, levando-a através do luddismo à época heroica no final das guerras napoleônicas. Finalmente, Edward Thompson apresenta na exposição, last but not least, alguns aspectos da teoria política e da consciência de classe nos anos 1820 e 1830 que alterou “as atitudes subpolíticas do povo, afetou os alinhamentos de classe e iniciou tradições que se prolongam até o século atual”. O que é válido para divisão manufatureira do trabalho na oficina vale também para a divisão do trabalho na sociedade. Enquanto artesanato e manufatura constituem a base geral da produção social, a subsunção do produtor a um ramo exclusivo da produção, a supressão da diversidade original de suas ocupações é um momento necessário do desenvolvimento. Sobre essa base, cada ramo particular da produção encontra empiricamente a configuração técnica que lhe corresponde, aperfeiçoa-a lentamente e, num certo grau de maturidade, cristaliza-a rapidamente. Além dos matérias de trabalho do comércio, a única coisa que provoca modificações aqui e ali é a variação gradual do meio de trabalho.

Uma vez alcançada a forma adequada à experiência, também ela se ossifica, como o comprova sua transmissão, muitas vezes milenar, de uma geração a outra. O princípio da “grande indústria”, na expressão de Marx, a saber, o de dissolver cada processo de produção em seus elementos constitutivos, e, antes de tudo, fazê-lo sem nenhuma consideração para com a mão humana, criou a mais moderna ciência da tecnologia. As formas variegadas, aparentemente desconexas e ossificadas do processo social de produção se dissolveram, de acordo com o efeito útil almejado, nas aplicações conscientemente planificadas e sistematicamente particularizadas das ciências naturais. Em contraposição com os anos radicais que a precederam e os anos cartistas que a sucederam, a década de 1820 parece estranhamente calma, como diz Thompson, “um planalto mansamente próspero de paz social”. Mas, muitos anos depois, um verdadeiro londrino advertiu Mayhew: - as pessoas imaginam que, quando tudo está quieto, está se estagnando. O propagandismo continua apesar disso. É quando tudo está quieto que a semente cresce, os republicanos e socialistas levam à frente suas doutrinas”. Esses anos calmos in statu nascendi formam a luta de Richard Carlile (1790-1843) pela chamada “liberdade de imprensa”; da força sindical e revogação das Leis de Associação; do crescimento do livre pensamento; da experiência cooperativa e da teoria owenista.

São anos em que grupos sociais e indivíduos tentaram teorizar as experiências gêmeas descritas por E. P. Thompson sobre a Revolução Industrial e a experiência do radicalismo popular insurgido e derrotado. E, no final da década, quando a luta entre a Velha Corrupção e a Reforma atingiu o seu clímax, é possível fala de uma nova forma de consciência dos trabalhadores em relação aos seus interesses e à sua situação enquanto classe.  É neste sentido determinado, que Thompson teoriza o que chama de “radicalismo popular daqueles anos como uma cultura intelectual. Isto é, a consciência articulada do autodidata era sobretudo uma consciência política. Representou a primeira metade do século XIX, quando a educação formal de grande parte do povo se resumia a ler, escrever e contar, como havia reiterado Marx. Mas não foi absolutamente um período de atrofia intelectual. As vilas, assim como as aldeias, ressoavam com a energia dos autodidatas. Dadas as técnicas de alfabetização, os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes e mestres-escolas punham-se a aprender por conta própria, individual ou em grupo. E os livros ou instrutores eram os que contavam com a aprovação da opinião reformadora.

A Partir de sua própria experiência e com o recurso à sua instrução errante e arduamente obtida, os trabalhadores formaram fundamentalmente político da organização da sociedade.  Mas a capacidade de operar com a razão argumentos abstratos e sucessivos não era absolutamente inata; tinha de ser descoberta à custa de dificuldades quase esmagadoras, tendo em vista a falta de tempo livre, o preço das velas (ou dos óculos), além das carências de formação. Nos inícios do movimento radical, às vezes empregavam-se ideias e termos que, evidentemente, tinham um valor mais fetichista do que racional para alguns adeptos fervorosos. Essas evidências relativas à instrução alcançada por operários nas duas primeiras décadas do século servem apenas para mostrar que as generalizações são tolas. O ludismo foi um movimento que ocorreu na Inglaterra durante o século XVIII, onde os luddistas quebravam as máquinas como forma de protesto frente as más condições de trabalho. Na época luddista quando poucos não-operários teriam apoiado suas ações sociais, as mensagens anônimas variam desde autoconscientes sobre a “liberdade com seus Sorridentes Atributos” até pichações quase ilegíveis. Se as Sociedades Bíblicas e da Escola Dominical não foram frequentadas outro bem, observou Sherwin, “pelo menos produziram um efeito benéfico – foram o meio de ensinar muitos milhares de crianças a ler”. As cartas de Brandreth e mulher, dos conspiradores da Caio Street e outros do Estado dão-nos alguma ideia sobre aquele grande espaço entre as realizações dos artesãos qualificados e as dos semiletrados.              

Ao que parece, todos os prisioneiros da Caio Street sabiam escrever, de uma ou outra forma. A despeito da repressão a partir de 1819, a tradição de manter salas de notícias, às vezes associadas à loja de um livreiro radical, continuou pelos anos 1820. Em Londres, depois da guerra, houve uma proliferação de cafés, muitos com essa dupla função.  Em 1833, o famoso Café e Sala de Notícias de John Doherty (1798-1854), anexo à sua livraria em Manchester, recebia semanalmente nada menos de noventa e seis jornais, inclusive os ilegais “não-franqueados”. Nas aldeias e vilas menores, os grupos de leitura eram menos formais, mas não menos importantes. Às vezes encontravam-se em estalagens, “bares ilegais” ou casas particulares; às vezes, o periódico era lido e discutido na oficina. O preço alto dos periódicos, durante a época dos “impostos sobre o conhecimento” mais pesados, levou milhares de arranjos ad hoc, em que pequenos grupos faziam uma arrecadação para comprar o jornal escolhido. Esta era a cultura, com suas ávidas disputas em torno das bancas de livros, nas tavernas, oficinas e cafés, que Shelley saudou em sua “Canção aos Homens da Inglaterra”, e onde amadureceu o gênio literário de Charles Dickens (1812-1870). Mas seria um erro mormente vê-la como um único “público leitor” indiferenciado. Podemos dizer que existiam vários “públicos” hic et nunc  em que se entrechocavam e se sobrepunham, mas, no entanto, organizados segundo princípios diversos. Entre os mais importantes estavam o público comercial, puro e simples, que podia ser explorado em períodos de excitação radical, mas atendido apenas menos organizados, em torno das Igrejas ou dos Institutos de Artes e Ofícios; o público passivo que as sociedades de aperfeiçoamento tentavam conquistar e redimir; e o público radical ativo que se organizou frente às Seis Leis e os impostos sobre o conhecimento.

A luta para este último público foi admiravelmente apresentada por W. D. Wichwar, em A Luta pela Liberdade de Imprensa. Segundo Thompson, “talvez não exista nenhum país no mundo onde a disputa pelos direitos da imprensa tenha sido tão áspera, tão enfaticamente vitoriosa e tão particularmente identificada com a causa dos artesãos e diaristas”.  A maioria dos motins em teatros do início do século XIX tinha um certo toque radical, mesmo que expressasse apenas o simples antagonismo entre barracas e deuses. A vitalidade do teatro plebeu não era acompanhada por um correspondente mérito artístico. A influência mais positiva sobre a sensibilidade dos radicais proveio não tanto dos pequenos teatros, e sim da revivescência shakespeariana – Hazlitt, Wooler, Bamford, Cooper e uma série de jornalistas radicais e cartista autodidatas tinham como praxe coroar seus argumentos com citações de Shakespeare. O aprendizado de Wooler fora com a crítica dramática; ao passo que o jornal estritamente sindicalista Trades Newspaper começou, em 1825, com uma seção de crítica teatral e também uma coluna de esportes. Mas houve uma arte popular que, entre 1780 e 1830, atingiu um auge de complexidade e qualidade – o cartum político. A cultura do teatro e da oficina de cartuns foi popular num sentido mais amplo do que a cultura literária dos artesãos radicais. A estrutura do caráter puritano sustenta a seriedade moral e a autodisciplina que permitiram aos homens trabalhar à luz de vela depois de um dia inteiro de labor. Mas podemos fazer duas ressalvas importantes. A primeira é que o metodismo foi uma influência fortemente anti-intelectual, da qual a cultura popular britânica nunca se recuperou totalmente.

O círculo ao qual Wesley restringiria a leitura de metodistas era bastante estreito; o principal de uma biblioteca metodista consistiria de suas próprias obras e sua série pessoal de compilações e resumos. No início do século XIX, os pregadores locais e líderes de classe foram estimulados a ler mais: reedições de Baxter, a hagiografia do movimento ou os “volantes de Missionary Register”. Mas a poesia era suspeita, e a filosofia, a crítica bíblica ou a teoria política eram tabus. Todo o peso do ensinamento metodista recaía sobre o caráter abençoado dos “puros do coração”, independentemente do seu nível ou grau de instrução. Foi o que deu à Igreja seu apelo espiritual igualitário. Mas também alimentou as justificativas filistinas dos semiletrados. Se a investigação intelectual (pesquisa social) foi desestimulada pelos Metodistas, a aquisição de conhecimento útil podia ser considerada piedosa e cheia de mérito. A ênfase recaia sobre o uso. A disciplina de trabalho, por si só, não bastava; era necessário que a força de trabalho progredisse para níveis de realização mais sofisticados. O velho argumentou oportunistas baconiano (1973) – que não pode existir nenhum mal no estudo da natureza, a qual é a evidência visível das leis de Deus - fora agora assimilado dentro da apologia cristã.            

Daí brotou aquele fenômeno curioso do início da cultura vitoriana, o pastor não-conformista com a mão no Antigo Testamento e o olho no microscópio. Os efeitos dessa conjunção já se fazem sentir na cultura operária da década de 1920. As ciências botânica, biologia, geologia, química, matemática e, particularmente, as ciências aplicadas, os metodistas viam-na com negatividade, desde que essas investigações não se misturassem com política ou filosofia especulativa. O mundo sólido, estatístico, intelectual que vinham construindo os utilitaristas era compatível também com a Assembleia Metodista. Também compilavam suas tabelas estatísticas do comparecimento na escola dominical, e Jabez Bunting (1779-1858) ficaria feliz se pudesse calcular os graus de graça espiritual com a mesma precisão com que Chadwick calculava a dieta mínima que sustentaria o pobre com força suficiente para trabalhar. Vale lembrar que Chadwick era ligado a John Stuart Mill (1806-1873) e Jeremy Bentham (1748-1832), e mantinha amplos contatos com os líderes da burguesia liberal de seu tempo, que contavam com um projeto político bastante claro e que passou a incluir claramente uma reforma sanitária. Ainda que não representasse um profissional de saúde, Chadwick era político e administrador, e sua obra e atuação política refletem toda uma maneira de pensar o processo saúde-doença. Por sua orientação filosófica marcadamente positivista, Chadwick e seu grupo viam a determinação social da doença não como fruto das contradições políticas e sociais do capitalismo.

Neste ínterim veio a aliança entre não-conformistas e utilitaristas sobre a prática pedagógica e a divulgação do conhecimento “aperfeiçoador”, ao lado de exortações piedosas. Nesta década está firmemente estabelecido esse tipo de literatura, onde as admoestações morais (e relatos das orgias bêbadas de Tom Paine (1737-1809) em seu leito de morte solitário) aparecem ao lado de pequenas notas sobre a flora venezuelana, estatísticas sobre o número de mortes no terremoto de Lisboa, receitas de verduras cozidas e considerações sobre hidráulica. Nos anos pós-guerra, Hunt e Cobbett insistiram mito no apelo à abstinência de todos os artigos taxados, e particularmente nas virtudes da água em comparação ao álcool é à cerveja. A sobriedade dos metodistas foi o primeiro (e único) atributo de sua seita que Cobbett achou louvável: - “considero a embriaguez como a raiz de bem mais da metade dos males, misérias e crimes que afligem a sociedade”. Nem sempre era esse o tom Cobbett; em outras ocasiões, podia lamentar o preço da cerveja para o diarista. Mas, em mitos pontos, encontrar-se-ia uma meticulosa correção moral generalizada. Era, em particular, a ideologia do artesão ou do trabalhador qualificado frente à impetuosa maré não-qualificada. É o que se encontraria no relato de Carlile sobre seus primeiros anos de homem adulto: - sempre detestei a cervejaria (...) achava que um homem (...)   seria tolo se não aplicasse corretamente cada xelim”. Denunciados em sátiras legalistas e púlpitos religiosos como exemplos ignominiosos de todos os vícios, buscavam mostrar-se com um caráter irrepreensível, ao lado de suas opiniões não-ortodoxas.

Lutaram contra as lendas legalistas da França revolucionária, apresentada como uma cozinha de ladrões sanguinários, cujos Templos da Razão eram bordeias. Eram particularmente sensíveis a qualquer acusação de indecência sexual, má conduta financeira ou falta de apego às virtudes familiares. Carlile publicou em 1830 um livrinho de homilias, O Moralista, ao passo que o Conselho aos Jovens de Cobbett, comparativamente, não passava de um ensaio, talvez mais entusiástico, e de leitura mais amena, sobre os mesmos temas da industriosidade, perseverança e independência. Dorothy Thompson foi uma importante historiadora especialista no movimento cartista. Nascida em Greenwich, sudeste de Londres, Dotothy ingressou no Girton College, Cambridge, em 1942. Durante a guerra, seu trabalho como desenhista industrial para a Royal Dutch Shell interrompeu sua educação formal. Ipso facto, ela continuou a seguir carreira na história social e era politicamente ativa. Ela se juntou aos Jovens Comunistas, casou-se com o historiador Edward Thompson em 1948 e mudou-se para Halifax, onde Edward trabalhou na educação de adultos e ambos eram ativos no movimento pela paz. Com o marido EP Thompson, ela fazia parte do grupo dissidente do Partido Comunista da Grã-Bretanha, que em 1956-7 fundou o jornal humanista socialista New Reasoner, onde sua competência significava que seu papel principal era uma espécie de “gerente de negócios”. Embora tenha achado o rompimento com o Partido Comunista doloroso, ela se inspirou trabalhando com escritores, artistas, historiadores e sindicalistas na formação de novos clubes de esquerda em muitas cidades irradiadas; ela admirava figuras como o campeão dos mineiros escoceses Lawrence Daly e a operária Gertie Roche.

Bibliografia Geral Consultada.

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