domingo, 7 de maio de 2023

Filme Clinical – Cinema, Suspense & Terapia de Confronto.

                                                      “O homem não é nada mais do que aquilo que faz a si próprio”. Jean-Paul Sartre

Clinical é um suspense norte-americano de 2017, dirigido por Alistair Legrand e escrito por Luke Harvis, Alistair Legrand. A Dra. Jane Mathis representa uma psiquiatra especializada em “terapia de confronto”. A utilização de estratégias de confronto no aconselhamento individual, grupal e familiar no tratamento específico do abuso de substâncias surgiu através de uma confluência de fatores culturais na história dos Estados Unidos da América, originado do desenvolvimento técnico de métodos para avaliar com confiabilidade os efeitos no tratamento. Originalmente praticado dentro de comunidades terapêuticas, as referidas abordagens de confrontação se estenderam a relacionamentos individuais baseados em autoridade, onde o potencial de abuso e dano aumentava demasiadamente. Dois anos antes dos acontecimentos narrados ela teve uma paciente que sofria de grave transtorno pós-traumático, Nora Green, que, “um determinado dia, devido a uma forte crise, a atacou com um caco de vidro e logo em seguida tentou o suicídio, cortando sua garganta”. Devido a este evento letal, a terapeuta Jane Mathis desenvolveu um “transtorno de estresse pós-traumático” que a obrigou a parar de acompanhar pacientes problemáticos e a confiar nas sessões do Dr. Terry, seu estimado colega. Ela também começou a namorar Miles, um policial.

A terapia de ataque representou um dos vários métodos pseudo-terapêuticos descritos no livro Crazy Therapies (1996) da psicóloga Margaret Singer e da socióloga Janja Lalich. Envolve interação social conflituosa entre o paciente e um terapeuta, ou entre o paciente e outros pacientes durante a terapia de grupo, na qual “o paciente pode ser abusado verbalmente, denunciado ou humilhado pelo terapeuta ou outros membros do grupo”. O método tem sido usado por grupos como Synanon, que representa uma organização social fundada nos Estados Unidos da América criada em 1958 por Charles E. Chuck Dederich (1913-1977) em Santa Monica, Califórnia, Estados Unidos da América. Atualmente está ativo na Alemanha. Originalmente estabelecido como um programa de reabilitação de drogas, no início dos anos 1960, o Synanon tornou-se uma comunidade alternativa centrada em sessões de grupo para contar a verdade que ficaram conhecidas como o “Jogo Synanon”, uma forma de terapia de ataque.  O grupo acabou se tornando um culto chamado Igreja de Synanon na década de 1970. Synanon se desfez em 1991, devido a membros serem condenados por atividades criminosas incluindo tentativa de homicídio e perda retroativa de seu status de isenção de impostos com o Internal Revenue Service devido a crimes financeiros, destruição de evidências e terrorismo. Foi chamado de um dos “cultos mais perigosos e violentos que a América já viu”.

        Odyssey House Texas é uma das muitas Comunidades Terapêuticas Odyssey House em todo o mundo. A primeira Odyssey House, no East Harlem, foi fundada pela Dra. Judianne Densen-Gerber, uma psiquiatra residente que trabalhava no Metropolitan Hospital na cidade de Nova York que, insatisfeita com a prática de usar medicamentos substitutos de drogas, como a metadona, como intervenção terapêutica primária, iniciou um programa “livre de drogas” em 1966. A Comunidade começou graças à Spindletop Charities, Inc. uma corporação sem fins lucrativos apoiada pela indústria de gás e petróleo com a missão de ajudar jovens necessitados, que por acaso recebeu uma propriedade de doação na década de 1980. Após pesquisas do presidente Orville Gaither (1927-2017) e a esposa Margaret Gaither, as duas organizações sociais se uniram e, em 1988, a propriedade foi transferida para a Odyssey House. As portas foram abertas aos residentes em 1989. Spindletop continua a fazer contribuições para a Odyssey House. Em julho de 2010, a Cenikor Foundation formou uma parceria estratégica com a Odyssey House Texas. Sob o novo acordo comercial, cada organização continuará a atender exclusivamente essas mesmas populações, enquanto a Cenikor cuidará de todos os serviços administrativos e fornecerá suporte financeiro para a Odyssey House. As comunidades terapêuticas da Odyssey House são encontradas nos Estados Unidos, bem como na Austrália (NSW-1977, Victoria-1979) e na Nova Zelândia (Auckland-1980, Christchurch-1985). Embora tenham o nome de Odyssey House, os centros de tratamento operam como entidades independentes desde a década de 1980.

         Em 1976, Mel Sembler, Betty Sembler e Joseph Zappala estabeleceram a fundação como Straight, Inc. em St. Petersburg, Flórida, com James E. Hartz, um psicólogo clínico, como seu primeiro diretor. Os organizadores esperavam substituir o The Seed, um grupo formado por professores e alunos do Departamento de Medicina de Reabilitação da Universidade de Washington (EUA), um controverso programa de reabilitação de drogas para adolescentes na Flórida, que havia fechado no ano anterior, mas disseram que as duas organizações não eram afiliadas. O programa de Straight mantinha seus clientes adolescentes, de 13 a 20 anos, incomunicáveis em armazéns. O programa funcionou em 43 centros nos Estados Unidos, com locais na Califórnia, Connecticut, Delaware, Flórida, Geórgia, Kentucky, Massachusetts, Maryland, Michigan, New Hampshire, Nova York, Ohio, Pensilvânia, Rhode Island, Carolina do Sul, Texas, Virgínia e Washington. Aproximadamente 10.000 crianças “se formaram na organização” em 1989, e mais de 50.000 o fizeram em 1992. Ao anunciar sua criação, os organizadores disseram que inscreveriam jovens de 10 a 18 anos com histórico de abuso ou delitos de drogas, desde jovens cujos pais haviam notado “pequenos problemas com drogas” até aqueles encaminhados pelos tribunais, mas não tratariam “viciados ou pessoas com dependência física de narcóticos”. No entanto, a prática de Straight era matricular crianças habitualmente sem histórico de uso de drogas ou álcool, além de criminosos condenados, usuários de drogas e viciados que precisavam de intervenção médica. O programa de reabilitação de Straight funcionou até 1993.

                                                    

Em todos os estados em que Straight tinha uma instalação, os investigadores estaduais documentaram o abuso ou os pacientes alegaram abuso em processos civis. Os ex-clientes ganharam vários processos e fizeram mais acordos fora do tribunal por práticas abusivas, isolamento, fome, imposição intencional de sofrimento emocional, cárcere privado e outras privações e métodos torturantes. Em 1981, Virgil Miller Newton, pai de um ex-paciente do Straight, tornou-se o diretor das instalações do Straight em St. Petersberg. Os clientes o conheciam como Dr. Newton, pois acabara de se doutorar em Administração Pública e Antropologia Urbana. Naquele ano, Robert DuPont, o diretor fundador do National Institute on Drug Abusevisitou Straight para encorajar a organização a se expandir criando novas instalações em todo o país e treinando crianças “conselheiros de pares” na metodologia de Straight. No entanto, nenhum dos filhos teve formação profissional e poucos tiveram muito mais do que o ensino fundamental ou médio. Em 1982, Mel Sembler nomeou Newton como diretor clínico nacional de Straight. A primeira-dama Nancy Reagan visitou uma instalação do Straight na Flórida em 1982. Antes da visita, ela disse que não endossava especificamente o programa, mas um assessor disse à mídia que Reagan ficou impressionado com o Straight porque era um dos poucos programas de drogas que matriculavam adolescentes, não recebia financiamento do governo, apesar de evidências posteriores de fraude de seguros e subsídios do governo, e era “livre de drogas”. Em 1985, Reagan e a princesa Diana visitaram as instalações de Straight em Springfield, Virgínia. As duas mulheres participaram de uma “sessão de rap” em grupo, onde clientes heterossexuais descreviam a utilidade de uso de drogas e suas consequências às vezes violentas. George Herbert Walker Bush (1924-2018), um político, diplomata e empresário norte-americano que serviu como presidente dos Estados Unidos de 1989 a 1993, também elogiou o programa.                   

A John Dewey Academy é um internato terapêutico preparatório para a faculdade privada e misto em Great Barrington, Massachusetts, anteriormente instalado em Searles Castle. Foi fundada em 1985 pelo Dr. Thomas E. Bratter, falecido em 2012. Em maio de 2020, a escola foi comprada por seu atual diretor, David Baum. Em julho de 2022, a escola estava em um hiato para uma “reinicialização completa” em um novo local. É misto e matricula cerca de 25 alunos do ensino médio, com idades entre 15 e 21 anos, geralmente da 10ª série à pós-graduação. A proporção aluno-professor é de 3:1 e as turmas normalmente têm em média seis alunos. Em seu site, a academia afirma que todos os graduados frequentam a faculdade. A John Dewey foi citada a utilisar a Caring Confrontation Psychotherapy (CCP) como sua principal forma de tratamento, uma forma de terapia criada por Tom Bratter. Os críticos do PCC referem-se a ele como “terapia de ataque” e apontam para seu uso consistente em instituições que foram fechadas por abuso, como Synanon, CEDU e Elan School. Uma postagem de blog de 2011 da John Dewey Academy abordou e criticou o fechamento da Elan School, atribuindo suas alegações e subsequente fechamento à “influência corrosiva do boato, bem como equívocos sobre programas fomentados por fofocas e informações falsas” antes de promover o a própria academia como uma opção para quem buscava frequentar uma escola como a Elan.

Não está claro se a John Dewey Academy segue esse padrão abusivo, pois não houve estudos formais da John Dewey Academy além daqueles feitos por seu fundador, Tom Bratter. Esses estudos consistem principalmente em Bratter fornecendo evidências predominantemente anedóticas dos sucessos da academia e afirmando que “os resultados do tratamento da John Dewey Academy são os melhores de qualquer programa residencial que forneça terapia intensiva e educação para adolescentes alienados que requerem colocação residencial”. A escola foi listada no estudo Spotlight do Boston Globe sobre abuso em escolas particulares, que identificou especificamente processos contra o fundador Thomas Bratter e a professora Gwendolyn Hampton. Em março de 2021, o Berkshire Eagle divulgou uma denúncia sobre o abuso na John Dewey Academy intitulada: “Ex-alunos da escola preparatória de Great Barrington a descrevem como ´câmara de tortura`”. Em resposta, a escola fechou em 2022, com david Baum afirmando “reiniciar, revisar, redefinir a equipe - tudo está na mesa”.

A Élan School representou um programa de modificação de comportamento residencial privado, misto e abusivo e um internato terapêutico na Polônia, Androscoggin County, Maine. Foi um membro pleno da Associação Nacional de Escolas e Programas Terapêuticos (NATSAP), juntamente com a “indústria adolescente problemática”. A instalação foi fechada em 1º de abril de 2011, devido a relatos de abuso, muitos de ex-alunos, desde sua inauguração em 1970. Élan estava localizado em um campus de 33 acres (13 ha) que anteriormente era um pavilhão de caça. Havia também outros campi, como o da 424 Maplecrest Road em Parsonsfield, Maine, que antes era um hotel e hospital antes de ser comprado por Élan em 1975. Este campus era conhecido por ter alguns dos piores abusos em a história da escola, e foi dito ter sido colocado fora de uso em algum momento na década de 1980. A escola ganhou notoriedade durante a década de 1990 e início dos anos 2000, quando ex-colegas de classe de Michael Skakel, que frequentou Élan na década de 1970, testemunharam contra ele em seu julgamento por um assassinato cerca de dois anos antes de ele se matricular na Élan. A escola também foi objeto de persistentes alegações de abuso em seu programa de modificação comportamental, mas métodos similares têm sido empregados no Treinamento de Conscientização de Grandes Grupos. Um Relatório de 1990 do Instituto de Medicina sobre métodos para tratar problemas relacionados ao álcool sugeria que a autoimagem dos indivíduos deveria ser avaliada antes de serem encaminhados para a terapia de ataque; havia evidências de que pessoas com uma autoimagem positiva podem lucrar com a terapia, enquanto pessoas com uma autoimagem negativa não lucram, ou podem de fato ser prejudicadas.

Sociologicamente todo estado forte da consciência é uma fonte de vida, é um fator essencial de nossa vitalidade geral. Por conseguinte, tudo o que tende a enfraquece-lo nos diminui e nos deprime; resulta daí, seguindo os passos de Émile Durkheim, uma impressão de confusão e de mal-estar análoga a que sentimos quando uma função importante é suspensa ou retardada. É inevitável, pois, que reajamos energicamente contra a causa que nos ameaça com tal diminuição, que nos esforcemos por afastá-la, a fim de mantermos a integridade de nossa consciência. No primeiro plano das causas que produzem esse resultado, devemos colocar a representação de um estado contrário. Uma representação não é, com efeito, uma simples imagem da realidade, uma sombra inerte projetada em nós pelas coisas, mas uma força que ergue a seu redor um turbilhão de fenômenos orgânicos e psíquicos. Não somente a corrente nervosa que acompanha a ideação se irradia nos centros corticais do ponto em que se originou e passa de um plexo a outro, mas ressoa nos centros motores, onde determina movimentos, nos centros sensoriais, onde desperta imagens, excita por vezes começos de ilusões e pode afetar as funções vegetativas; esse ressoar é mais considerável quanto mais intensa for a representação, quanto mais desenvolvido for esse elemento emocional.

Pelo princípio, penetramos na vida. Por que um governo não é uma forma pura. É  uma forma de existência concreta de uma sociedade de homens. Para que os homens submetidos a um tipo particular de governo lhe sejam justa e duravelmente submetidos, não basta a simples imposição de uma forma política, é preciso ainda uma disposição dos homens para essa forma específica. É preciso, diz Montesquieu, ter uma paixão específica. Por necessidade, cada forma de governo implica a sua paixão própria. A república quer a virtude, a monarquia, a honra, o despotismo, o temor. Se o princípio do governo é a sua mola, o que o leva a agir, significa que ele é, enquanto vida do governo, a sua condição de existência. A república não pode, perdoe-nos o leitor a expressão, andar só a virtude. Mas sem virtude a república cai, como a monarquia cai sem honra e o despotismo sem temor. A virtude do cidadão é a totalidade de sua vida submetida ao bem público: esta paixão, dominante no Estado, equivale, num homem, ao domínio das as suas paixões. Pelo princípio é a vida concreta, pública e privada que entra no governo. O princípio está no encontro da natureza do governo e a natureza da vida real dos homens.

O princípio é o concreto abstrato que é a natureza. Só a unidade, a totalidade de ambos é real. A totalidade, que era uma ideia, torna-se uma hipótese científica destinada a analisar e a interpretar os fatos sociais. Torna-se a categoria fundamental que permite pensar não a irrealidade de um Estado ideal, mas a diversidade concreta possibilitada pela constituição pragmática da história humana. A história deixa de ser espaço infinito onde são atiradas as inúmeras obras da fantasia e acaso, de lugar praticado que faz esmorecer a vontade de conhecimento. O tema filosófico do “cativeiro da razão”, expresso através da alegoria da caverna é tão antigo quando a formação do pensamento. Ele surgiu quando os filósofos se deram conta das ilusões provocadas pelas interferências constituída pelo afeto, e das ilusões provocadas pelos sentidos, sempre falíveis, ou pela razão, sempre  as sofísticas intencionais ou involuntárias. O que é novo e pode ser datado do período moderno, é a tentativa de situar no mundo social, mediado pelas relações entre pessoas, a fonte das ilusões da consciência. Essa tentativa nasceu em circunstâncias paradoxais. Tema conspícuo em torno da falsa consciência, de incapacidade “cognitiva condicionada”, é constituído no século XIX, por um pensamento que o desloca (ilusão), no mesmo instante em que o condensa (alusão).

É um objeto cuja inteligibilidade própria da ciência e da filosofia está alhures, lugar vazio cujo verdadeiro lugar “está em outro lugar”. A falsa consciência é o produto exclusivo das relações sociais. E qualquer tentativa de buscar nela própria as leis do seu funcionamento, abstraindo dessas relações, já é em si uma falsa consciência da filosofia de Hegel, que a define ainda-não-consciência do Espírito, dos jovens hegelianos que combatem no pensamento os grilhões imaginários, deixando intactos os grilhões reais. Fato da consciência, ela não pode ser tratada no plano da consciência: tendo em vista que é um objeto ausente, espaço em branco que só pode ser preenchido por algo que não está nele. O espaço pleno é o das estruturas sociais: espaço extraterritorial, externo à problemática da consciência, mas ao qual se atribui o privilégio de revelar a verdade do que está situado fora dos seus limites. Pode-se perguntar se uma estratégia de libertação que consiste em ignorar a existência do objeto a ser libertado é das mais lúcidas. Falsa consciência como epifenômeno da base material, falsa consciência como forma de percepção própria a cada suporte (Träger) do processo social global, falsa consciência como o produto de uma “pedagogia” exercida pelos efeitos dos Aparelhos de Estado – em todos os casos, a análise se concentra num “mais além da consciência”, a história, a economia, as relações de produção, a instância ideológica. Em todos os casos, o nível de investigação são fatores objetivos, palpavelmente, solo tranquilizador em que é fácil proteger-se das mistificações idealistas.

Nesse campo, tudo pode ser investigado, e tudo foi investigado – exceto a falsa consciência – a consciência em que se refratam esses fatores. Ela foi tabuizada, pela razão que leva o primitivo a traçar um “círculo no chão”, e a proibir-se de atravessa-lo, neste caso representa o medo animista dos demônios. Esse medo não era totalmente infundado. Era de fato importante precaver-se contra a tese de que “a consciência determina a existência”, defendendo a tese oposta de que a existência determina a consciência. Mas ao proclamar o primado da consciência, a ideologia produziu um efeito social inesperado, que foi a ocultação da problemática da consciência. Ocultação sui generis, cuja técnica é expor à luz do dia a realidade que se pretende dissimular, estimulando a questão tópica da “razão cativa” que irá exemplificar no conto de Allan Poe, The Purloined Letter (1884), o que a polícia parisiense procura em vão na casa do personagem influente: uma carta politicamente comprometedora, que teria sido roubada pelo próprio dono da residência. A polícia procura o documento roubado, e obviamente nada encontra. Em desespero de causa, o chefe de Polícia pede o auxílio de C. Auguste Dupin, precursor de todos os detetives da literatura policial, que encontra a carta. E explica ao chefe de polícia que ela não estava em nenhum esconderijo, mas à vista. E nisto consiste, justamente, a astúcia. A carta era totalmente visível, e seu ocultamento consistia em sua visibilidade.

Assim, a representação de um sentimento contrário ao nosso age em nós no mesmo sentido e das mesma maneira que o sentimento que ela substitui; é como se ele mesmo tivesse entrado em nossa consciência. Ela tem, de fato, as mesmas afinidades, embora menos vivas; ela tende a despertar as mesmas ideias, os mesmos movimentos, das mesmas emoções. Ela opõe, pois, uma resistência ao jogo de nosso sentimento pessoal e, por conseguinte, o debilita, atraindo numa mesma direção contrária toda uma parte de nossa energia. É como se uma força estranha se houvesse introduzido em nós, de modo a desconcertar o livre funcionamento de nossa vida psíquica. Eis porque uma convicção oposta à nossa não pode se manifestar em nossa presença sem nos perturbar: é que, ao mesmo tempo, ela penetra em nós e, encontrando-se em antagonismo com tudo o que em nós encontra, determina verdadeiras desordens. Sem dúvida, enquanto o conflito só se manifesta entre ideias abstratas, nada há de muito doloroso, pois nada há de mito profundo. A região dessas ideias é, ao mesmo tempo, a mais elevada e a mais superficial da consciência, e as mudanças que nela sobrevêm, não tendo repercussões extensas, afetam-nos apenas debilmente. No entanto, quando se tata de uma crença que nos é cara, não permitimos e não podemos permitir que seja impunemente ofendida.

Toda ofensa dirigida contra ela suscita uma reação emocional, mais ou menos violenta, que se volta contra o ofensor. Nós nos arrebatamos, nos indignamos contra ele, ficamos com raiva e os sentimentos assim provocados não podem deixar de ser traduzidos por atos; fugimos dele, mantemo-lo à distância, banimo-lo de nossa companhia etc. Sem dúvida, não pretendemos que toda nossa convicção forte seja necessariamente intolerante; a observação corrente basta para demonstrar o contrário. Mas isso porque as causas externas neutralizam, então, aquelas cujos efeitos acabamos de analisar. Por exemplo, pode haver entre os adversários uma simpatia geral que contenha seu antagonismo e o atenue. Mas é preciso que essa simpatia seja mais forte do que esse antagonismo, de outro modo não sobrevive a ele. Ou, então, as duas partes em presença renunciam à luta, quando fica claro que esta é incapaz de levar ao que quer que seja, e se contentam com manter suas respectivas situações, toleram-se mutuamente, não podendo autodestruir-se. A tolerância recíproca que por vezes encerra guerras religiosas costuma ser dessa natureza. Nesse casos, se o conflito dos sentimentos não engendra  consequências naturais, não é porque não as contenha, é porque é impedido de produzi-las. Essas emoções violentas constituem uma convocação de forças suplementares que vêm restituir ao sentimento atacado a energia que a contradição lhe retira.

William Atherton Knight, nascido em 30 de julho de 1947 é um ator norte-americano, reconhecido por interpretar Richard Thornburg em Die Hard (1988) e sua sequência e Walter Peck em Ghostbusters (1984). Estudou atuação na Escola de Teatro da Carnegie Tech e se formou na Carnegie Mellon University em 1969. Os Estados Unidos possuem as melhores escolas de drama do mundo. Atherton teve sucesso nos palcos de Nova York imediatamente após se formar e trabalhou com os principais dramaturgos do país, incluindo David Rabe, John Guare e Arthur Miller, ganhando vários prêmios por seu trabalho da Broadway. Ele apareceu na comédia Ghostbusters (1984) como o oficioso condescendente da EPA, agente Walter Peck. K. Thor Jensen escreveu: “Atherton, que interpreta o covarde advogado da EPA Walter Peck, é o verdadeiro vilão do filme (sua libertação dos fantasmas da unidade de contenção aumentou o caos em Nova York), [ele] foi tão odiado que depois saiu o filme ele foi assediado na rua e desafiado para brigas em bares”. Suas aparições em 2007 incluíram o filme The Girl Next Door, uma adaptação do romance best-seller de Jack Ketchum de mesmo nome. Ele também reprisou seu papel como Walter Peck em Ghostbusters: The Video Game, lançado em 16 de junho de 2009. Atherton foi escolhido para a última temporada de Lost, composta por dezoito episódios, foi ao ar pela ABC nos Estados Unidos da América, e pela CTV no Canadá, em 2 de fevereiro de 2010, com término previsto no dia 23 de maio de 2010. Ele apareceu no musical Gigi para o Reprise Theatre em Los Angeles como “Honoré Lachailles” em 2011. Após seu trabalho no musical, ele assumiu um papel cômico em Billion Dollar Movie de Tim e Eric (2012), produzido por Will Ferrell`s Funny or Die, Gary Sanchez Productions e Abso Lutely Productions. No verão de 2014, Atherton foi escolhido como vice-rei Mercado na segunda temporada da série Defiance do Syfy. Atherton co-estrelou o thriller da Netflix de 2017, Clinical, e aparece em vários documentários sobre seus filmes mais icônicos.

Tendo como escopo de análise o suspense Clinical, histeria representa um tipo de neurose que se caracteriza predominantemente, pela transformação da ansiedade subjacente para um estado físico. A palavra vem do termo grego “hystéra”, que significa útero. A histeria, do francês hystérie e este, do grego ὑστέρα, útero, faz referência a uma hipotética condição neurótica e psicopatológica, predominante essencialmente nas mulheres. O termo per se tem origem no termo médico grego hysterikos, que se referia a uma suposta condição médica peculiar a mulheres, causada por perturbações no útero, hystera em grego. O termo histeria foi utilizado por Hipócrates, que pensava que a causa da histeria fosse um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro. Para especialistas é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional. Os conflitos interiores manifestam-se em sintomas físicos, como por exemplo, paralisia, cegueira, surdez, comportamentos disfuncionais, desordens convulsivas “funcionais”, doenças psicossomáticas, melhor dizendo, transtornos de personalidade. Pessoas histéricas frequentemente perdem o autocontrole devido ao sintoma de “pânico extremo”. Foi intensamente estudada no final do século XIX, Jean-Martin Charcot (1825-1893) e Sigmund Freud (1856-1939) eminente neurologista que empregava a hipnose para estudar a histeria, demonstrou que ideias mórbidas podiam produzir manifestações físicas. Seu aluno, o psicólogo francês Pierre Janet (1859-1947), considerou como prioritárias, para o desencadeamento do quadro histérico, muito mais as causas psicológicas do que comparativamente as causas físicas. Freud em colaboração com Josef Breuer (1842-1925), começou a pesquisar os mecanismos psíquicos ocorridos em torno da histeria, e postulou em sua teoria, que essa neurose era causada por lembranças reprimidas, de grande intensidade emocional.

O termo “hipnótico” aparece no Dicionário da Academia Francesa em 1814 e os termos “hipnotismo”, “hipnose” etc., são propostos por Étienne Félix d`Henin de Cuvillers com base no prefixo “hipn” desde 1820. O Dicionário Etimológico de Palavras em Francês do Grego, por M. Morin; segunda edição de M. Guinon, 2 vol in-8 °, Paris, 1809, e o Dicionário Universal de Boiste, admitem as expressões “hipnobata”, “hipnologia”, “hipnológico”, “hipnótico”. Mas geralmente acredita-se que foi mais tarde, na década de 1840, que o médico escocês James Braid fez a transição do magnetismo animal para a hipnose. Em 1841, Braid assiste a uma demonstração do magnetista público Charles Lafontaine e em 1843 publica Neurhypnologie, Traite du Sleep Nervuse ou Hypnotisme. As teorias de Braid retomam essencialmente a doutrina de “magnetizadores imaginativos” franceses. Braid, porém, censura Bertrand por explicar os fenômenos magnéticos por uma causa mental, os “poderes da imaginação”, ao passo que os explica por uma causa fisiológica, “o cansaço dos centros nervosos ligado à paralisia do aparelho ocular”. Sua contribuição consiste em propor um novo método de fascinação baseado na concentração do olhar sobre um objeto brilhante, um método que se supõe produzir efeitos mais constantes e rápidos do que os antigos métodos de magnetizadores, e uma teoria baseada na noção de mental, fadiga. Para ele, a hipnose representa um estado de concentração mental durante o qual as faculdades da mente do paciente são tão capturadas por uma única ideia que se tornam indiferentes a qualquer outra consideração ou influência. Braid usa seu método em particular para obter anestesia durante cirurgias. O éter não era usado em anestesiologia. Descoberto em 1818 por Michael Faraday, o éter não foi usado até 1846, mas pelo dentista William Morton (1819-1868), responsável pela primeira demonstração pública com sucesso, de uma droga anestésica por inalação.

Historicamente Galeno é um precursor da prática da vivissecção e experimentação com animais. Andreas Vesalius por vezes referido na literatura portuguesa como André Vesálio (1514-1564), foi um médico belga, considerado o “pai da anatomia moderna”. Foi o autor da publicação De Humani Corporis Fabrica, um atlas de anatomia publicado em 1543. Muito pouco havia sido descoberto sobre anatomia e fisiologia desde a Antiguidade, cujas descobertas foram baseadas na dissecação de animais. A falta de aulas práticas de anatomia na Universidade de Paris acabou levando Vesalius, assim como Michelangelo, a frequentar cemitérios em busca de ossadas de criminosos executados e vítimas de praga. Casou-se em 1544 com Anne van Hamme e teve uma filha com o mesmo nome. Graduou-se doutor em Medicina pela Universidade de Pádua, e em 1538 publicou seu primeiro trabalho, as Tabulae Sex, um conjunto de seis desenhos de anatomia feitos por ele próprio. Em 1546 foi nomeado médico da corte do sacro imperador romano Carlos V e ficou a serviço do Império até a abdicação de Carlos em 1556, tendo passado depois disso a servir a Filipe II, rei da Espanha. Através de sua obra De Humani Corporis Fabrica Libri Septem, Vesalius conseguiu refutar diversas teorias abstratas sobre o corpo humano, anteriormente propostas por Galeno, o que foi de extrema importância para o avanço de estudos relacionados à anatomia, provando até mesmo o contrário acerca da crença comum de que “os homens possuíam uma costela a menos que as mulheres”.

Vesalius produziu, em sua obra, ilustrações que retratavam o sistema muscular e as respectivas atuações de cada musculo, possibilitando um maior entendimento sobre a mecânica do corpo humano. Além disso, Vesalius ia em contraste com as ideias de que o coração era o centro das emoções e da mente, sendo definidas estas ao cérebro, isto pelo fato de os nervos serem originários ao mesmo, e não ao coração. Suas descobertas não pararam por aí: como exemplo, afirmou que os rins não filtravam a urina, e sim o sangue, sendo a urina as excretas retiradas deste. Também é creditado como o responsável por fazer a primeira descrição do conceito de ventilação mecânica, um feito de destaque no campo da Anestesia. – “uma abertura deve ser tentada no corpo da traqueia, na qual um tubo de junco ou caniço deve ser inserido; você então deve soprar nesse tubo, de modo que o pulmão possa aumentar de novo e o coração se torne forte”. Fora de dúvida, o trabalho científico ministrado por Vesalius se tornou, neste sentido revolucionário, pois ia contra a tradição que remontava aos antigos, contribuindo assim para o avanço da ciência, mesmo que talvez suas descobertas não fossem totalmente aceitas, em um período de revelações, mudando completamente a forma de se chegar ao conhecimento, que se ilustrava em fontes antigas, baseando-se agora na experimentação e prática.

Vesalius viria a morrer em 1564 em um naufrágio durante uma tempestade. O cenário da Idade Média europeia caracterizava-se pela predominância de florestas, umas poucas cidades e alguns domínios onde servos trabalhavam, monges rezavam, cavaleiros lutavam e nobres governavam. Mundo de refúgio, a floresta possuía seus atrativos. Para os camponeses e os pequenos trabalhadores, era uma fonte de ganho. Lá iam pastar os rebanhos, lá se encontra a madeira, indispensável numa economia por muito tempo pobre em pedra, ferro e carvão mineral. A floresta estava repleta de ameaças, de perigos reais ou imaginários. Era o horizonte inquietante do mundo medieval, cercando-o, isolando-o. Situava-se entre senhorios, mas também entre países. De sua opacidade temível, surgiam os lobos famintos, os malfeitores, os cavaleiros saqueadores. A Cristandade pareceu querer ultrapassar suas fronteiras, substituir a ideia de missão pela de Cruzada, abrir-se para o mundo. Entretanto, ela mantinha-se fechada, uma sociedade que excluía o outro. Pertencer ao Cristianismo era o critério de valor e comportamento no Ocidente. A guerra, considerada um mal aparentemente entre cristãos, era vista como um dever contra não-cristãos. A usura, proibida entre cristãos, era permitida aos infiéis, isto é, aos Judeus.

A sintomatologia, que ao mesmo tempo tanto frustrou e estimulou os médicos do século XIX, quanto representou o grande “continente” a ser revelado para Freud, que, a partir desse quadro ainda misterioso, desenvolveu técnicas específicas para conduzir o tratamento de suas pacientes: nascia a Psicanálise, como resposta a esse puzzle. Empiricamente foi-se observando que a histeria não era um distúrbio que acometia exclusivamente as mulheres, mas nelas predominava. Teorizou-se, então, outra segmentação da estrutura neurótica: encontrava-se diante dos obsessivos que, com sintomas diferentes, também apresentavam grande sofrimento psíquico. Esta sintomatologia, embora predominantemente masculina, não pode ser tratada como exclusiva dos homens. Nas palavras de Freud: - “O nome histeria tem origem nos primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente nos dias atuais, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino”. As neuroses desempenharam um papel significativo na história da civilização; surgiam sob a forma de epidemias, em consequência de contágio psíquico, e estavam na origem do que era factual na história da possessão e da feitiçaria, posteriormente estudado pela antropologia. Alguns documentos comprovam que sua sintomatologia não sofreu modificação. Uma abordagem adequada e uma melhor compreensão da doença tiveram início apenas com os trabalhos de Charcot e da École de la Salpêtrière (cf. Schmidt, 2017), também chamada de École de Paris, que é, junto com a École de Nancy, uma das duas grandes École que participaram da “idade de ouro” da hipnose na França de 1882 a 1892. A histeria tinha sido a bête noire da medicina.

O líder dessa escola, o neurologista Jean Martin Charcot, contribui para reabilitar a hipnose como objeto de estudo científico ao apresentá-la como um fato somático específico da histeria. Charcot também usa a hipnose como método de investigação, pensando em colocar seus pacientes histéricos em um “estado experimental”, permitindo que seus sintomas sejam reproduzidos e interpretados. Isto é importante e decisivo. A obra de La Salpêtrière também introduz uma nova visão dos fenômenos histéricos. Charcot não considera mais os pacientes histéricos como pretendentes e descobre, para surpresa de todos, que a histeria não é privilégio das mulheres. Por fim, Charcot relaciona a histeria aos fenômenos da paralisia pós-traumática, estabelecendo as bases de uma teoria do trauma psíquico. Há evidências que a primeira paciente estudada por Freud, mas diagnosticada, tratada e relatada por Breuer, e que supostamente sofria de histeria, Bertha Pappenheim (1859-1936), reconhecida como Anna O., não foi completamente curada. Além disso, revisando-se cuidadosamente seu diagnóstico chega-se à conclusão que Anna O. provavelmente sofria de epilepsia do lobo temporal e não de histeria.  A psiquiatria, em sua mais recente classificação das doenças mentais (CID - 10), dividiu a histeria em vários diagnósticos, acabando assim com a validade do termo. As divisões principais são: 1. Transtorno de personalidade histriônica 2. Transtorno dissociativo ou conversivo. A divisão do trabalho não é específica do nível de análise econômico (cf. Durkheim, 2010): podemos observar sua influência crescente nas regiões distintas da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais, como ocorre com as funções artísticas e científicas nas universidades.

As especulações filosóficas da biologia nos demonstraram, na divisão do trabalho, um fato social de uma tal generalidade que os economistas, que foram os primeiros a mencioná-lo, não haviam podido suspeitar. Não é mais uma instituição social que tem sua fonte na inteligência e na vontade dos homens. Mas um fenômeno de biologia geral, cujas condições, ao que parece, precisam ser buscadas nas propriedades essenciais da disciplina organizada. A divisão do trabalho social passa a aparecer apenas como uma forma particular desse processo geral, e as sociedades, conformando-se a essa lei, parecem ceder a uma corrente de pensamento que nasceu bem antes delas e que arrasta no mesmo sentido todo o mundo vivo. Semelhante fato não pode, evidentemente, produzir-se sem afetar profundamente nossa constituição moral, pois o desenvolvimento do homem se fará em dois sentidos de todo diferentes. Descessário demonstrar a gravidade desse problema; qualquer que seja o juízo sobre a divisão do trabalho, sabe-se que ela é e se torna cada vez mais uma das bases da ordem social tanto quanto política.

Bertha Pappenheim era uma mulher de origem judia e alemã, de personalidade extremamente forte, guerreira e visionária. Foi líder de diversos movimentos sociais pela defesa e garantia dos Direitos Humanos, civis e políticos das mulheres; em plena ascensão do Nazismo na Alemanha. Por volta dos vinte anos, ela sofreu muito com a longa doença terminal do pai que, juntamente com as tensões da infância, foram as responsáveis pelo desencadear de um quadro chamado na época de histeria, e marcado por sintomas como depressão, nervosismo, tendência ao suicídio, paralisia, perturbações visuais, contraturas musculares e outros, e que a deixavam praticamente inválida. Foi, então, levada ao médico Josef Breuer, pertencente à elite de cientistas vienenses da época, e ele a tratou de 1880 a 1882, documentando o seu caso.  Inicialmente, Bertha foi submetida a sessões de hipnose pelo método criado por Jean-Martin Charcot, conhecido como sugestão hipnótica. O médico hipnotizava a paciente e emitia uma ordem para que o sintoma remitisse. Mas, no decorrer do tratamento de Bertha a sugestão hipnótica parecia ser ineficaz e, num certo momento, o Dr. Josef Breur descobriu que ao invés de emitir uma ordem ele deveria pedir para que ela recordasse, sob hipnose, o momento traumático que leva ao surgimento do sintoma, lembrança essa oridinária que ela não tinha acesso consciente, ou seja, sem estar hipnotizada.

Ainda sob hipnose, a paciente conseguia relatar essas lembranças intoleráveis que haviam sido recalcadas e assim, através da fala, o sintoma desaparecia. A própria Bertha chamou o tratamento de “cura pela fala”. Freud considera esse o primeiro caso de tratamento pela psicanálise pois envolve a possibilidade de tratar sintomas físicos pela fala. Desse caso deriva uma das primeiras teorias de funcionamento psíquico da psicanálise, a teoria da defesa, apresentada no importante livro Estudos sobre a Histeria, escrito por Josef Breuer e Sigmund Freud conjuntamente. Muitas pessoas acreditam que Breuer posteriormente a encaminhou para Freud, o que não é verdade. Segundo Freud, em sua autobiografia, o caso termina sem Bertha estar plenamente curada. Ela desenvolve uma “gravidez psicológica” dizendo ser o filho do Dr. Breuer o que leva ele à abandonar o caso, diferentemente do que o Dr. relata em Estudos sobre a Histeria. Posteriormente, esse tipo de situação, comum nos casos clínicos, será conceituado por Freud como fenômeno transferencial onde o inconsciente é atualizado na sessão clínica.

Dessa forma, Bertha Pappenheim teve um papel social muito importante no desenvolvimento do método que Breuer denominou catarse, e que viria ser o fundamento da futura Psicanálise. Após várias internações, e do agravamento dos sintomas da doença em razão da dependência em morfina, começou a dedicar-se ao trabalho social em prol da dignidade da mulher judia. Em 1902, Bertha fundou e dirigiu por 29 anos a Weibliche Fürsorge (Assistência da Mulher), uma instituição destinada a colocar órfãs em lares adotivos, a educar mães sobre o cuidado com seus bebês, e a dar orientação vocacional e oportunidades de emprego para moças. Foi o primeiro abrigo e lar coletivo para mães solteiras e seus filhos, para crianças e meninas retiradas da prostituição. Fundou a Liga das Mulheres Judias (1904), a primeira organização a lutar pelos direitos civis e religiosos da mulher judia, e da qual foi a presidente por vinte anos.

Sociologicamente todo estado forte da consciência é uma fonte de vida, é um fato essencial de nossa vitalidade geral. Por conseguinte, tudo o que tende a enfraquece-lo nos diminui e nos deprime; resulta daí, seguindo os passos de Émile Durkheim, uma impressão de confusão e de mal-estar análoga a que sentimos quando uma função importante é suspensa ou retardada. É inevitável, pois, que reajamos energicamente contra a causa que nos ameaça com tal diminuição, que nos esforcemos por afastá-la, a fim de mantermos a integridade de nossa consciência. No primeiro plano das causas que produzem esse resultado, devemos colocar a representação de um estado contrário. Uma representação não é, com efeito, uma simples imagem da realidade, uma sombra inerte projetada em nós pelas coisas, mas uma força que ergue a seu redor um turbilhão de fenômenos orgânicos e psíquicos. Não somente a corrente nervosa que acompanha a ideação se irradia nos centros corticais do ponto em que se originou e passa de um plexo a outro, mas ressoa nos centros motores, onde determina movimentos, nos centros sensoriais, onde desperta imagens, excita por vezes começos de ilusões e pode afetar as funções vegetativas; esse ressoar é mais considerável comparativamente quanto mais intensa for a representação, quanto mais desenvolvido for esse elemento emocional.

Assim, a representação de um sentimento contrário ao nosso age em nós no mesmo sentido e das mesma maneira que o sentimento que ela substitui; é como se ele mesmo tivesse entrado em nossa consciência. Ela tem, de fato, as mesmas afinidades, embora menos vivas; ela tende a despertar as mesmas ideias, os mesmos movimentos, das mesmas emoções. Ela opõe, pois, uma resistência ao jogo de nosso sentimento pessoal e, por conseguinte, o debilita, atraindo numa mesma direção contrária toda uma parte de nossa energia. É como se uma força estranha se houvesse introduzido em nós, de modo a desconcertar o livre funcionamento de nossa vida psíquica. Eis porque uma convicção oposta à nossa não pode se manifestar em nossa presença sem nos perturbar: é que, ao mesmo tempo, ela penetra em nós e, encontrando-se em antagonismo com tudo o que em nós encontra, determina verdadeiras desordens. Sem dúvida, enquanto o conflito só se manifesta entre ideias abstratas, nada há de muito doloroso, pois nada há de mito profundo. A região dessas ideias é, ao mesmo tempo, a mais elevada e a mais superficial da consciência, e as mudanças que nela sobrevêm, não tendo repercussões extensas, afetam-nos apenas debilmente. No entanto, quando se tata de uma crença que nos é cara, não permitimos e não podemos permitir que seja impunemente ofendida.

Devido à sua má experiência técnico-metodológica com Nora, a Dra. Jane Mathis relutou em prescrever medicamentos para seus pacientes, pois os culpava, provavelmente em grande parte, pelo que aconteceu. Um dia ela é contatada por um homem chamado Alex que pede sua ajuda terapêutica para superar uma forte experiência traumática e embora ela inicialmente esteja bem intencionada em encaminhá-lo aos cuidados de um colega seu, a insistência dele a faz desistir de sua intenção, não cuidar dele. No primeiro encontro, ele descobre que o rosto de Alex foi desfigurado em terrível acidente de carro e que ele tem enorme dificuldade em falar sobre o evento sem desmaiar. Falando nisso, Jane Mathis ensina a ele uma técnica de respiração para se acalmar durante os ataques de pânico. Com a representação de cenas de flashbacks, ou seja, memórias repentinas, involuntárias e vívidas de experiências pessoais passadas. Em muitos casos, essas memórias poderosas estão intimamente ligadas a eventos traumáticos. Flashbacks são fenômenos psicológicos durante os quais uma pessoa revive um evento passado ou fragmentos de uma experiência passada, quando por exemplo, é revelado que Nora começou a sair com Jane “devido aos múltiplos abusos sexuais de seu próprio pai”. 

Enquanto isso, Jane parece ver Nora ocasionalmente pairando ao seu redor, o que ela associa ao seu remorso pelo que aconteceu dois anos antes, e por isso ela decide visitar a instituição psiquiátrica onde Nora estava internada, na qual ela afirma que ela não está mais lá, tendo em vista que ela recebeu alta recentemente da instituição por falta de dinheiro para cobrir os custos da hospitalização após a morte de seu pai. Jane vê as filmagens das sessões de Nora no instituto, que revelam a raiva violenta de Nora em relação ao pai. Jane, após as aparições de Nora que parecem se tornar cada vez mais concretas com o tempo, espaço e lugar praticado, instala câmeras de segurança dentro e fora em sua casa e revela a Alex, durante uma de suas sessões, seu fracasso com Nora em fazê-lo parar de depender demais das drogas. Alex, graças a isso, relembra mais de seu acidente; depois de ajudar a salvar algumas pessoas de um carro colidido, ele percebeu que sua filha estava vagando pela estrada e na tentativa de salvá-la, os dois foram atropelados por um caminhão que causou sua desfiguração facial e a morte dela.

Coisas estranhas continuam acontecendo na casa de Jane; ruídos estranhos, pegadas sujas e fotografias sangrentas. Miles percebe que alguém mexeu no sistema de segurança, pois faltam horas de filmagens. Jane, embora muito abalada, se recusa a prestar queixa contra Nora por medo de que, se o fizesse, acabaria trancada em uma instituição psiquiátrica, recheada de drogas e sem saída. Durante uma de suas sessões com o Dr. Terry, ela rouba seu bloco de receitas porque seus remédios acabaram. De volta para casa, Jane conhece Alex, que a espera na varanda de sua casa, embora ela já tenha cancelado todas as visitas de seus pacientes por causa dos estranhos acontecimentos com Nora. Embora Alex pareça ter ternura por ela, Jane insiste que deve haver limites claros entre médico e paciente, o que é aceito por Alex. Durante aquela noite, Jane revive o horror do ataque que sofreu de Nora. Assim que ela acorda já se encontra desorientada, mas vê Nora perto dela que está pronta para machucá-la. Depois de fugir e ter falhado em uma tentativa rudimentar de se barricar na cozinha, acerta Nora, que já a havia dominado fisicamente, em legítima defesa, na cabeça com um saca-rolhas, matando-a instantaneamente. No fim do século XVIII e começo do século XIX, a despeito de algumas grandes fogueiras, a melancólica festa de punição via-se extinguindo. Nessa transformação, segundo Foucault em Vigiar e Punir (2014: 13 e ss.), misturaram-se dois processos.

Não tiveram nem a mesma cronologia nem as mesmas razões de ser. De um lado, a supressão do espetáculo punitivo. O cerimonial da pena vai sendo obliterado e passa a ser apenas um novo ato de procedimento ou de administração. A confissão pública dos crimes tinha sido abolida na França pela primeira vez em 1791, depois novamente em 1830 após ter sido restabelecida por breve tempo; o pelourinho foi supresso em 1789; a Inglaterra o aboliu em 1837. As obras públicas que a Áustria, a suíça e algumas províncias americanas como a Pensilvânia obrigavam a fazer em plena rua ou nas estradas – condenados com coleiras de ferro, em vestes multicores, grilhetas nos pés, trocando com o povo desafios, injúrias, zombarias, pancadas, sinais de rancor ou de cumplicidade – são eliminados mais ou menos em toda a parte no fim do século XVIII, ou na primeira metade do século XIX. O suplício de exposição do condenado foi mantido na França até 1831, apesar das críticas violentas – “cena repugnante”; ela é abolida em abril de 1848. Quanto às cadeias que arrastavam os condenados a serviços forçados através de toda a França, até Brest e Toulon, foram substituídas em 1837 por decentes carruagens celulares, pintadas de preto. A punição pouco a pouco deixou de ser uma cena. E tudo o que pudesse implicar de espetáculo desde terá um cunho negativo; e como as funções da cerimônia penal deixavam pouco a pouco de ser compreendidas, ficou a suspeita de que tal rito que dava um “fecho” ao crime mantinha com ele afinidades espúrias: igualando-o, ou mesmo ultrapassando-o em selvageria, acostumando os espectadores a uma ferocidade de que todos queriam vê-los afastados, mostrando-lhes a frequência dos crimes, fazendo o carrasco se parecer com criminosos, os juízes aos assassinos, invertendo no último momento os papéis, fazendo do supliciado um objeto de piedade e de administração.

Desde então, o escândalo e a luz serão partilhados de outra forma; é a própria condenação que marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto à execução, ela é como uma vergonha suplementar que a justiça tem vergonha de impor ao condenado; ela guarda distância, tendendo sempre a confiá-la a outros e sob a marca do sigilo. É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir. Daí esse duplo sistema de proteção que a justiça estabeleceu entre ela e o castigo que ela impõe. A execução da pena vai-se tornando um setor autônomo, em que um mecanismo administrativo desonera a justiça, que se livra desse secreto mal-estar por um enterramento burocrático da pena. É um caso típico na França que a administração das prisões por muito tempo ficou sob a dependência do Ministério do Interior, e a dos trabalhos forçados sob o controle da Marinha e das Colônias. E acima dessa distribuição dos papéis se realiza a negação teórica: o essencial da pena que nós, juízes, infligimos, não creiais que consista em punir; o essencial é procurar corrigir, reeducar, “curar”; uma técnica de aperfeiçoamento recalca, na pena, a estrita expiação do mal, e liberta os magistrados do vil ofício de castigadores. Enfim, existe na justiça moderna e entre aqueles que a distribuem uma “vergonha de punir”, que nem sempre exclui o zelo; ela aumenta constantemente: sobre esta chaga pululam os psicólogos e o pequeno funcionário que Michel Foucault chama da “ortopedia moral”. O desaparecimento dos suplícios é, pois o espetáculo que se elimina; mas é também o domínio sobre o corpo que se extingue. Enfim, o castigo passou historicamente de uma arte das sensações insuportáveis, melhor dizendo: a tortura, ou morte, à economia dos direitos suspensos.  

Bibliografia geral consultada.

TRUFFAUT, François, Hitchcock. New York: Editors Simon & Schuster, 1985; BRAIER, Eduardo Alberto, Psicoterapia Breve de Orientação Psicanalítica. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1991; BROWN, Roger, “The Authoritarian Personality and the Organization of Attitudes”. In John T. Jost; Jim Sidanius (eds.), Political Psychology: Key Readings. Psychology Press. pp. 45–85; 2004; LEMAIRE, Gérard-Georges, “Iniciação à Dor do Amor”. In: Kafka. Porto Alegre: L & PM Editor, 2006, pp. 88 e ss.; BECK, Judith, Terapia Cognitiva: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed Editora, 2007; OUTEIRAL, José, Adolescer. 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Revinter, 2008; MARSICO, Katie, The Columbine High School Massacre: Murder in the Classroom. New York: Marshall Cavendish Benchmark Books, 2010; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; VIEIRA, Carlos, Depressão-Doença: O Grande Mal do Século XXI. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; SCHMIDT, Eder, Charcot e a Escola da Salpêtrière: A Afirmação de uma Histeria Neurológica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Instituto de Ciências Humanas. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2017; TEIXEIRA, Matheus, Guia On-line e de Acesso Gratuito para Roteirização de Documentários Imersivos. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação. Bauru: Universidade Estadual Paulista, 2019; SOUZA, Lidiane Alves de, Concepção, Esterilidade e Saúde das Mulheres na Medicina Medieval (Montpellier - Sécs. XIII-XIV). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História.  Faculdade de História. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2020; CABRAL, Deborah Garson, A Forja Narrativa em Umberto Eco: Uma Aventura em Busca da Experiência da Verdade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2020; DOMINGUES, Jádina Santos Vieira, Transtorno do Estresse Pós-traumático Aumenta a Sensibilidade à Dor por Reduzir a Modulação Descendente Serotoninérgica e Noradrenérgica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Biociências Aplicada à Saúde. Alfenas (MG): Universidade Federal de Alfenas, 2020; AMARAL PENHA, Diego, Faces do Horror em Freud: Palavras, Gestos e Imagens. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica. Instituto de Psicologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; ROMANETTO, Matheus Capovilla, Clínica e Política: Bases Subjetivas da Transformação Social em Erich Fromm. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; MACHADO, Clarissa Ferrarez Alcon & SIQUEIRA, Emílio Conceição, “Uma Abordagem Geral do Transtorno de Estresse Pós-Traumático: Revisão de Literatura”. In: Revista Eletrônica Acervo Médico, 18, 2022; entre outros. 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Meu Nome é Sara – Confissão, Partisans & Vida Aterrorizada.

                                                  “O normal e os estigmatizados não são pessoas, mas perspectivas”. Erving Goffman  

     

          A confissão permanece ainda hoje, a matriz geral que rege a produção do discurso verdadeiro sobre o sexo. Entretanto, ela se transformou consideravelmente. Durante muito tempo permaneceu solidamente engastada na prática da penitência. Mas, pouco a pouco, a partir do protestantismo, da Contra-Reforma, da pedagogia do século XVIII e da medicina do século XIX, perdeu sua situação ritual e exclusiva: difundiu-se, foi utilizada em toda uma série de relações sociais: crianças e pais, alunos e pedagogos, doentes e psiquiatras, delinquentes e peritos. As motivações sociais e os efeitos dela esperados se diversificaram, assim como as formas que toma: interrogatórios, consultas, narrativas autobiográficas ou cartas, que são consignados, transcritos, reunidos em fichários, publicados e comentados. Mas a confissão se abre, senão a outros domínios, pelo menos a novas maneiras de percorrer tais domínios. Não se trata somente de dizer o que foi feito – o ato sexual – e como; mas de reconstituir nele e a seu redor, os pensamentos e as obsessões que o acompanham, as imagens, os desejos, mas modulações e a qualidade do prazer que o contém. Pela primeira vez, segundo Foucault (1984: 62-67), uma sociedade se inclinou a solicitar e ouvir a confidência dos prazeres individuais. Disseminação, dos procedimentos de confissão, localização múltipla de sua coerção, extensão de seu domínio: constituiu-se, progressivamente, um grande arquivo dos prazeres do sexo.  

            Durante muito tempo, à medida que se constituía, tal arquivo apagou-se. Passou sem vestígios, pois assim o desejava a confissão cristã, até que a medicina, a psiquiatria, e também a pedagogia, começaram a solidificá-lo: Campe, Sazmann, depois Kaan, Kraft-Ebing, Tardieu, Mole e Havelock Ellis reuniram com cuidado toda esta pobre lírica do despropósito sexual. Ellis desenvolveu outros conceitos psicológicos importantes, tais como autoerotismo e narcisismo, os quais foram posteriormente aprofundados pelas pesquisas realizadas por Sigmund Freud. Assim as sociedades ocidentais começaram a manter o registro infinito de seus prazeres. Estabeleceram o herbário, instauraram a classificação desses prazeres; descreveram tanto as deficiências cotidianas quanto as estranhezas ou as exasperações. Momento importante: é fácil rir dos psiquiatras do século XIX, que se desculpavam, com ênfase, dos horrores a que tinham, que dar a palavra, evocando os “atentados aos costumes” ou as “aberrações dos sentidos genésicos”. A “ciência do sexo” no século XIX se organizaria tendo como representação a fisiologia da reprodução e como medicina da sexualidade. Nesse momento os prazeres mais singulares eram solicitados a sustentar um discurso de verdade sobre si, discurso que deveria articular-se não mais aquele que fala do pecado e da salvação, da morte e da eternidade – mas ao que fala do corpo e da vida – o discurso da proeminência da ciência nas sociedades. 

Bastava para tornar trêmulas as palavras; constituía-se, então, essa coisa improvável: uma ciência-confissão, ciência que se apoiava nos rituais da confissão e em seus conteúdos, ciência que supunha essa extorsão múltipla e insistente e assumia como objeto o inconfessável-confesso. Escândalo, e, em todo caso, repulsão do discurso científico, institucionalizado no século XIX, quando assumiu todo esse discurso inferior. Paradoxo e metodológico também: as longas discussões sobre a possibilidade de constituir uma ciência do sujeito, a validade da introspecção, a evidência da experiência, ou a presença para si da consciência respondia em dúvida, a esse problema que era inerente ao funcionamento dos discursos de verdade, em nossa sociedade: poder-se-ia articular a produção da verdade, segundo o velho modelo jurídico-religioso da confissão e a extorsão da confidência segundo a regra do discurso científico?  Deixemos falar aqueles que acreditam que a verdade do sexo foi elidida mais rigorosamente do que nunca, no século XIX, por um temível mecanismo de barragem e por um déficit central do discurso. Déficit não, mas digamos, sobrecarga, reduplicação de discursos, mais exagerada do que insuficiente; em todo caso, interferência entre duas modalidades de produção da verdade: os procedimentos da confissão e a discursividade científica. E em vez de contar os erros e as ingenuidades dos moralistas que, no século XIX, povoaram os discursos de verdade sobre o sexo, seria melhor delimitar os procedimentos pelos quais essa vontade de saber relativa ao sexo, que caracteriza o Ocidente moderno, fez funcionar os rituais da confissão nos esquemas da regularidade científica; de que maneira se chegou a constituir essa imensa e tradicional extorsão de confissão sexual em formas científicas?

1. Através de uma codificação clínica do “fazer falar”; combinar a confissão com o exame, a narração de si mesmo com o desenrolar de um conjunto de sinais e de sintomas decifráveis; o interrogatório cerado, a hipnose com a evocação das lembranças, as associações livres: eis alguns meios para reinscrever o procedimento da confissão num campo de observações cientificamente aceitáveis. 2. Através do postulado de uma causalidade geral e difusa: o dever de dizer tudo e o poder de interrogar sobre tudo encontrarão sua justificação no princípio de que o sexo é dotado de um poder causal inesgotável e polimorfo. O acontecimento mais discreto na conduta sexual – acidente ou desvio, déficit ou excesso – é, supostamente, capaz de provocar as consequências mais variadas ao longo de toda a existência; não há doença ou distúrbio para os quais o século XIX não tenha imaginado pelo menos uma parte da etiologia sexual. O princípio do sexo “causa de tudo e de nada” é o inverso teórico de uma exigência técnica: fazer funcionar numa prática de tipo científica os procedimentos de uma confissão que, ao mesmo tempo, deveria ser total, meticulosa e constante. Os perigos ilimitados que o sexo traz consigo justificam o caráter exaustivo da inquisição a que é submetido. 3. Através de um princípio de latência intrínseca à sexualidade: se é preciso arrancar a verdade do sexo por meio da técnica da confissão, não é, simplesmente, porque ela seja difícil de dizer, ou porque esteja submetida às interdições da decência. O funcionamento do sexo é obscuro; porque escapar faz parte de sua natureza e sua energia, assim como seus mecanismos esquivam; porque seu poder causal é, em parte, clandestino.  

O século XIX desloca a confissão ao integrá-la a um projeto de discurso científico; ela não tende mais a tratar somente daquilo que o sujeito gostaria de esconder, porém, daquilo que se esconde ao próprio sujeito, e que só se pode revelar progressivamente e através de uma confissão da qual participam o interrogador e o interrogado, cada um por seu lado. O princípio de uma latência essencial à sexualidade permite articular a coerção de uma confissão a uma prática científica. É bem preciso arrancá-la, e à força, já que ela se esconde. 4. Através do método da interpretação: não é somente porque aquele que ouve tem o poder de perdoar, de consolar e de dirigir que é necessário confessar. É que o trabalho da verdade a ser produzida, caso se queira validá-lo cientificamente, deve passar por essa relação. A verdade não está unicamente no sujeito, que a revelaria pronta e acabada ao confessá-la. Ela se constitui em dupla tarefa: presente, porém incompleta e cega em relação a si própria, naquela que fala, só podendo completar-se naquele que a recolhe. A este incumbe a tarefa de dizer a verdade dessa obscura verdade: é preciso duplicar a revelação da confissão pela decifração daquilo que ela diz. Aquele que escuta não será simplesmente o dono do perdão, o juiz que condena ou isenta: será o dono da verdade. Sua função é hermenêutica. Seu poder em relação à confissão não consiste somente em exigi-la, antes dela ser feita, ou em decidir após ter sido proferida, porém em constituir, através dela e de sua decifração, um discurso de verdade. O século XIX tornou possível fazer funcionar os procedimentos de confissão na formação regular de um discurso científico, fazendo dela não mais uma prova, mas um sinal e, da sexualidade, algo a ser interpretado. 5. Através da medicalização dos efeitos da confissão: a obtenção da confissão e seus efeitos são recodificados na forma de operações terapêuticas.

O que significa, inicialmente, que o domínio do sexo não será mais colocado, exclusivamente, sob o registro da culpa e do pecado, do excesso ou da transgressão e sim no regime que, aliás, nada mais é do que sua transposição do normal e do patológico; define-se pela primeira vez, uma morbidez própria do sexual; o sexo aparece como um campo de alta fragilidade patológica: superfície de repercussão para outras doenças, mas também centro de uma nosografia própria, a do instinto, das tendências, das imagens, do prazer e da conduta. O que quer dizer, também, que a confissão ganhará sentido e se tornará necessária entre as intervenções médicas: exigida pelo médico, indispensável ao diagnóstico e eficaz, por si mesma na cura. A verdade cura quando dita a tempo, quando dita a quem é devido e por quem é, ao mesmo tempo, seu detentor e responsável.  Enfim, consideremos os grandes marcos históricos: em ruptura com as tradições da ars erotica, nossa sociedade constituiu uma scientia sexualis. Mais precisamente atribuiu-se a tarefa de produzir discursos verdadeiros sobre o sexo, e isto tentando ajustar, não se dificuldade, o antigo procedimento da confissão às regras do discurso científico. A scientia sexualis, desenvolvida a partir do século XIX, paradoxalmente, guarda como núcleo o singular rito da confissão obrigatória e exaustiva, que constituiu, no Ocidente cristão, a primeira técnica para produzir a verdade do sexo. Desde o século XVI este rito fora desvinculado do sacramento da penitência e, por intermédio da condução das almas e da direção espiritual – ars artium – emigrou para a pedagogia, para as relações entre adultos e crianças, para as relações familiares, a medicina e a psiquiatria. Nas relações de poder, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade: utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de apoio, de articulação às mais variadas estratégias.

Em todo caso, há quase cento e cinquenta anos, um complexo dispositivo foi instaurado para produzir discursos verdadeiros sobre o sexo: um dispositivo que abarca amplamente a história, pois vincula a velha injunção da confissão aos métodos da escuta clínica. E, através desse dispositivo, pode aparecer algo como a “sexualidade” enquanto verdade do sexo e de seus prazeres. A “sexualidade” é o correlato dessa prática discursiva desenvolvida lentamente, que é a scientia sexualis. As características fundamentais dessa sexualidade não traduzem uma representação mais ou menos confundida pela ideologia, ou um desconhecimento induzido pelas interdições; correspondem às exigências funcionais do discurso que deve produzir sua verdade. No ponto de interseção entre uma técnica de confissão e uma discursividade científica, lá onde foi preciso encontrar entre elas alguns grandes mecanismos de ajustamento (técnica de escuta, postulado de causalidade, princípio de latência, regra da interpretação, imperativo de medicalização), a sexualidade foi definida como sendo, “por natureza”, um domínio penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização; um campo de significações a decifrar; um lugar de processos ocultos por mecanismos específicos; um foco de relações causais infinitas, uma palavra obscura que é preciso, em tempo, desencavar e escutar. A história da sexualidade – que funcionou no século XIX como domínio de verdade específica – deve ser feita do ponto de vista de uma história dos discursos. O filme My Name is Sara, também reconhecido como The Occupation, é um drama biográfico norte-americano de 2019, dirigido por Steven Oritt, estrelado por Zuzanna Surowy, Eryk Lubos e Michalina Olszańska. 

É baseado na vida da sobrevivente do Holocausto, Sara Góralnik, a menina polonesa e judia que, aos 13 anos de idade, perde a família, vítima dos nazistas, e vai para a Ucrânia com a identidade de outra pessoa. Lá, ela é acolhida por fazendeiros, mas descobre segredos sombrios de seus novos amigos. Os partisans judeus participaram do movimento de resistência judaica contra a Alemanha nazista e seus colaboradores durante a devastadora 2ª guerra mundial (1939-1945). Eles lutaram militarmente constituindo-se com a formação de grupos nas florestas. Partisan é um membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada região. Os partisans operavam atrás das linhas de frente inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação política, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem durante a guerra imperialista. O termo é reconhecido durante a guerra global para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã, principalmente no Leste Europeu. Na Iugoslávia, o movimento partisan, liderado pelo guerrilheiro comunista Josip Broz Tito (1892-1980), foi responsável por quase toda a resistência contra o Eixo e ainda teve de lutar contra os croatas fascistas da Ustaše, aliados dos nazistas. Tito tornar-se-ia o presidente do país unificado. Ele nasceu com filiação de pai croata e mãe eslovena na aldeia de Kumrovec, historicamente no âmbito da formação da Áustria-Hungria, atualmente Croácia.

          Aldeia de Kumrovec pertence ao condado de Zagorje-Krapina. Ele está localizado no Noroeste da Croácia, na fronteira com a Eslovénia. A aldeia tem menos de 300 habitantes, enquanto o município de Kumrovec tem cerca de 1500. Esta aldeia está escondida no verde das colinas croatas de Zagorje, perto do rio Sutla. A apenas uma hora de carro de Zagreb fica Kumrovec, que podemos chamar de museu rural. Sendo o berço do lendário Josip Broz Tito, e escondendo vistas interessantes como um monumento ao hino nacional croata, não admira que Kumrovec seja famosa entre turistas locais e internacionais. Kumrovec possui uma riqueza de coleções e exposições históricas. A aldeia étnica Staro Selo parece exatamente como a era que representa - o final do século XIX e o início do século XX. O museu “ao ar livre” apresenta-lhe a vida e os costumes tradicionais do povo de Zagorje. O Memorial de Jasenovać, atualmente dirigido por Slavko Goldstein, possui uma lista de 59 188 nomes de vítimas desse local; essa lista foi compilada por assessores do governo comunista iugoslavo. Como esse processo foi algo impreciso, estima-se que a lista mencione entre 60 e 75% do total de vítimas, elevando o número de mortos nesse complexo à faixa entre oitenta e cem mil. O antigo administrador do Memorial, Simo Brdar, é um diretor, historiador e poeta de Kozarska Dubica e sua esposa Karina, famosa professora e atriz lituana, organizaram  programas que afirmam a cultura lituana, russa e sérvia no Ginásio Aleksandar Pushkin, em Kaunas, quando estimou em torno de 365 mil mortos em Jasenovac.

            As análises dos estatísticos Vladimir Žerjavić e Bogoljub Kočović são similares às do memorial. Em toda a Iugoslávia, o número estimado de mortes de sérvios chega a 487 mil, de acordo com Kočović, e 530 mil segundo Žerjavić, de um total de 1 014 000 ou 1 027 000 mortos, respectivamente. Žerjavić declarou que 197 mil civis sérvios foram assassinados no NDH, sigla em croata para o Estado Independente da Croácia, sendo 78 mil como prisioneiros em Jasenovac, bem como 125 mil combatentes dessa etnia. No entanto, esses dados foram acusados como sendo artificialmente inflados devido ao crescimento do nacionalismo sérvio. Žerjavić e Kočović estimaram a taxa de crescimento populacional dos sérvios na Bósnia, dentro do Estado Independente da Croácia, como 1,1%, a mesma taxa média de crescimento da Iugoslávia como um todo. Na verdade, a taxa de crescimento era de 2,4% entre 1921 e 1931, passando para 3,5% entre 1949 e 1953; acredita-se que eles tenham subestimado a taxa de crescimento populacional sérvia para diminuir a contagem de mortos dessa etnia. O Museu do Holocausto de Belgrado compilou uma lista de mais de 77 mil nomes de vítimas de Jasenovac. O museu era dirigido por Milan Bulajić – que apoiava uma estimativa de setecentas mil vítimas ao todo. Atualmente, o museu defende que o número de mortos está na casa dos oitenta mil. Os primeiros campos de concentração Ustaše foram formados em 1941 e dissolvidos em outubro de 1942. O complexo de Jasenovac foi construído entre agosto de 1941 e fevereiro de 1942. Os campos de concentração anteriores, Krapje e Bročica, foram fechados em novembro de 1941. Outros três campos (Ciglana, ou Jasenovac III), Kozara (Jasenovac IV) e Stara Gradiška (Jasenovac V) funcionaram até o final da ocupação, em 1944. O número de prisioneiros segundo estimativas varia de oitenta a 100 mil, trezentos a 350 mil até 700 mil em contextos de interação social e política e de reestruturação de tempo-espaço.

        A palavra estatística deriva do Neolatim Statisticum Collegium: Conselho de Estado, do Italiano “statista” compreendido na literatura como “estadista” ou “político”. O alemão Statistik, introduzido por Gottfried Achenwall em 1749, designava “a análise de dados sobre o Estado”, significando a “ciência do Estado” então chamada “Aritmética Política” (“political arithmetic”). Gottfried Achenwall (1719-1772), historiador e jurista alemão, é considerado um intelectual que mais significativamente contribuiu para o desenvolvimento da Statistik - uma ciência que guarda muito poucas relações com a atual estatística, pois concernia à descrição abrangente das características sócio-político-econômicas dos diferentes Estados. Achenwall estudou nas universidades de Jena, Halle e Leipzig, sendo nomeado em 1748, docente junto à Universidade de Göttingen. Por mérito em 1761, obteria nesta mesma universidade o cargo de professor de Direito Natural e Política. A sua obra mais relevante sobre a relação entre estatística e Estado é o  “Abriß der neuen Staatswissenschaft der vornehmen Europäischen Reiche und Republiken” (1749), título que seria alterado posteriormente para “Staatsverfassung der Europäischen Reiche im Grundrisse”.

Na pesquisa a palavra adquiriu o significado usual de coleta e classificação de dados em geral através de Sir John Sinclair (1754-1835). O propósito original da “statistik” que era fornecer os dados a serem usados pelo governo e organizações sociais se restringe na modernidade à coleta de dados sobre Estados nacionais e regiões, em grande parte através de órgãos estatísticos nacionais e internacionais, em particular, os censos demográficos obtidos de instituições privadas que fornecem dados regulares sobre as populações, Adolphe Quételet (1796-1874), em suas obras: “Recherches sur la population, les naissances, les décès, les prisons, les` dépôts de mendicité, etc., dans le royaume des Pays-Bas` (1827), “Sur l`homme et le developpement de ses facultés, essai d`une physique sociale” (1835), “Sur la statistique morale et les principes qui doivent en former la base” (1848), “Anthropométrie, ou Mesure des différentes facultés de l`homme” (1870) contribuíram notadamente para os estudos criminológicos. Os jornais contemporâneos coletam dados de ocorrências desse tipo de crime desde que a contagem estatística começou a ser disponibilizada na forma de “Crimes Violentos Letais Intencionais” (CVLIs).

O pensamento queteletiano está fundado na ideia de que a ciência moderna é a via mais elevada para o acesso ao conhecimento das leis divinas que regem o mundo tanto natural como social, bem como o único conhecimento que possibilita a intervenção do ser humano no mundo, o que torna a ciência um conhecimento necessário para o governo dos homens. Em seu primeiro livro, publicado em 1835, considerou o homem enquanto parte de uma espécie e, assim, formulou o conceito de homem médio: “a medida de todos os homens”. Para tanto, considerou não apenas a média aritmética de medida e peso dos homens, mas, principalmente, suas dispersões e concluiu que a “curva normal” poderia ser acomodada às médias aritméticas. Assim, desenvolveu o conceito da estatística, analisando pormenorizadamente a teoria da probabilidade, abordando o problema da carência de organização na coleta de dados que pudessem satisfatoriamente demonstrar as características sociais de um povo ou uma nação. Em 1846, propôs a organização de censos. Exemplificou seu estudo estatístico do chamado “homem médio” com a criminalidade social, que apresentaria resultados habituais em relação a diferentes países e classes sociais, estudo esse que seria a “Pesquisa sobre a Propensão de Cometer Crimes em Diferentes Idades”.

          A palavra ustaše é plural de ustaša, e descreve uma pessoa que participa de um ustanak, levante, em croata. Os ustaše tinham como objetivo estabelecer uma Croácia pura do ponto de vista racista – assim sendo, pessoas de origem sérvia e bósnia eram seu principal alvo. Sobre essa forma de genocídio, os ministros Mile Budak, Mirko Puk e Milovan Žanić declararam, em maio de 1941, que as três principais metas Ustaše eram: converter um terço dos sérvios ao catolicismo; exterminar um terço dos sérvios residentes na Croácia; expulsar/deportar o terço restante. Uma contradição da ideologia nazifascista seguida pelos Ustaše era o fato etno-histórico de que os croatas são de etnia eslava e, portanto, considerados racialmente inferiores aos olhos dos mentores nazistas. Assim, os ideólogos Ustaše elaboraram uma teoria sobre a suposta origem “gótica” dos croatas, visando melhorar seu status aos olhos dos alemães. Para os ustaše, os bósnios eram considerados croatas islâmicos. Estes não eram formalmente perseguidos pelos ustaše; inclusive, alguns alistaram-se em divisões das Waffen-SS nazistas, como a divisão Handschar, comandada por Amin al-Husayni, e a Kama, chefiada por Edmund Glaise von Horstenau, então adido militar do Terceiro Reich na Croácia e pelo coronel Viktor Pavicic. Os princípios básicos do movimento ustaše foram enunciados por Ante Pavelić (1889-1959) em seu manifesto Princípios do Movimento Ustaše, em 1929.

O maior e mais famoso deles foi o de Jasenovać, comandado por Dinko Sakić que fugirá para a Argentina ao final da guerra, sendo descoberto e levado a julgamento em solo croata em 1998, condenado a vinte anos de prisão. Não se sabe ao certo o número exato das vítimas dos ustaše, e as estimativas existentes confirmam que dezenas ou até mesmo centenas de milhares de inocentes foram mortos com a disseminação desses campos de concentração, ou mesmo fora deles. Mas o número de judeus mortos é bastante confiável: 32 mil pereceram em território croata durante a 2ª guerra mundial. Mais de 40 mil ciganos iugoslavos também vieram a ser assassinados; com relação ao número de sérvios vitimados pelos Ustaše, as estimativas estão aproximadas entre 172 mil a 197 mil. As atrocidades cometidas pelos ustaše eram tão grotescas que horrorizaram até mesmo os nazistas, que tiveram que intervir para frear o terrorismo ustaše. Livros didáticos de História editados durante o regime comunista na Iugoslávia afirmam que o número de vítimas dos ustaše chega a 700 mil pessoas somente em Jasenovać. Este número foi citado com base em um cálculo de perdas demográficas de população, a diferença entre a população atual e a de formação do período bélico pré-guerra, somando-se aí um eventual crescimento populacional impedido pelo conflito.

Era Poglavnik, o equivalente de Führer ou Duce em servo-croata. Após a invasão pela Alemanha nazista em 6 de abril de 1941, a Jugoslávia foi desmembrada e Ante Pavelić tornou-se o líder do Estado Independente da Croácia. Pavelić tratou então de dar forma ao plano Ustaše para a “purificação” do seu novo país, segundo a célebre fórmula do deputado Mile Budak: “matar um terço, exilar um terço e converter o outro terço” da população sérvia ao Catolicismo. Campos de concentração tais como o de Jasenovac foram estabelecidos e a Legião Negra Ustaše varria as vilas da Sérvia a “pente fino”, prendendo os judeus e ciganos que encontravam. Ante Pavelić logo estabeleceu uma “nova ordem”, baseado no culto da nação, do Estado e sua figura. Pavelić promoveu o culto da personalidade, aparecendo como o “reviver da Croácia” e dando a impressão político-ideológica de que “a Independência era unicamente devido a seu trabalho duro e sacrifício”. Estabeleceu um novo juramento de fidelidade ao novo estado, obrigatório para todos os funcionários do país, Pavelić incluído como representante da soberania nacional. A ditadura perseguiu caracteristicamente judeus, sérvios, ciganos, homossexuais e da oposição croata especialmente comunistas. Clara Stauffer não aparece como uma mentira. Com dinheiro, com energia, com contatos, com ideologia, com duplicidades como espanhola e alemã, nazista e falangista, esportista de competição e propagandista da opressão da Seção Feminina - braço do partido fascista Falange Espanhola -, generosa com os seus e implacável com o restante da humanidade, “ela comandou de seu apartamento madrilenho uma rede clandestina que ajudou 800 criminosos de guerra a burlar a Justiça internacional a partir de 1945” (cf. Constela, 2017).

O fervor por justiça, que foi diminuindo à medida que esquentava a chamada Guerra Fria (1947-1991) e “esfriava” a 2ª guerra mundial (1939-1945), chegou a “salpicar” a própria Clara, também reconhecida como Clarita. Ela foi a única mulher que figurou na lista de 104 pessoas que o Conselho de Controle Aliado pediu em 1947 ao ministro espanhol dos Assuntos Exteriores, Alberto Martín-Artajo (1905-1979), que fossem entregues para julgamento. Nem Clara, filha do diretor da cervejaria Mahou e íntima amiga e correligionária da dirigente falangista Pilar Primo de Rivera, ou outra da lista foram entregues pelo regime de Franco, que protegeu alguns dos mais seletos membros da indústria de extermínio do Terceiro Reich, do croata Ante Pavelic ao belga Léon Degrelle. Depois de passar leis antissemitas, abriu campos de concentração e extermínio como o campo de concentração de Jasenovac, onde foram mortas cerca de 60 mil pessoas. Ao fim da guerra, com a derrota das forças fascistas, Pavelić fugiu para a Áustria e depois para a Itália, chegou a Roma em 1946, disfarçado de monge e usando passaporte espanhol. Durante esse ano e no próximo, ele residiu no Pontificio Collegio Croato Di San Girolamo a Roma. Chegou à Espanha, sob a ditadura de Franco e que abrigou exilados fascistas e nazistas de países. Morreu em hospital alemão em Madri, em 28 de dezembro de 1959, e foi enterrado nesta cidade, no Cemitério de San Isidro.

Os ustaše tentaram exterminar sérvios, judeus, ciganos ou quaisquer outros que a eles se opusessem ou não professassem a fé católica, incluindo-se aí alguns comunistas croatas. Aliando-se às tropas nazistas, em 1941, os ustaše criaram campos de concentração para isolar com base numa política de terror as suas vítimas. O maior e mais famoso deles foi o de Jasenovać, comandado por Dinko Sakić que fugirá para a Argentina ao final da guerra, sendo descoberto e levado a julgamento em solo croata em 1998, condenado a vinte anos de prisão. Não se sabe ao certo o número exato das vítimas dos ustaše, e as estimativas existentes confirmam que dezenas ou até mesmo centenas de milhares de inocentes foram mortos com a disseminação desses campos de concentração, ou mesmo fora deles. Mas o número de judeus mortos é bastante confiável: 32 mil pereceram em território croata durante a 2ª guerra mundial. Mais de 40 mil ciganos iugoslavos também vieram a ser assassinados; com relação ao número de sérvios vitimados pelos Ustaše, as estimativas estão aproximadas entre 172 mil a 197 mil. As atrocidades cometidas pelos ustaše eram tão grotescas que horrorizaram até mesmo os nazistas, que tiveram que intervir para frear o terrorismo ustaše. Livros didáticos de História editados durante o regime comunista na Iugoslávia afirmam que o número de vítimas dos ustaše chega a 700 mil pessoas em Jasenovać. Este número foi citado com base em um cálculo de perdas demográficas, i. e., a diferença respectiva entre a população atual e a de formação do período bélico pré-guerra, somando-se aí um eventual crescimento populacional impedido pelo conflito geracional da guerra.

       Convocado, destacou-se tornando-se sargento-mor mais jovem do Exército Austro-Húngaro. Depois de ser gravemente ferido e capturado pelos russos da 1ª grande guerra (1914-1918), foi enviado para um campo de trabalho nos Montes Urais. Ele participou de alguns eventos da Revolução Russa em 1917 e da subsequente Guerra Civil. Após seu retorno aos Bálcãs em 1918, ingressou no recém-criado Reino da Iugoslávia, onde filiou-se ao Partido Comunista da Iugoslávia (KPJ). Tendo assumido o controle de fato do partido em 1937, foi formalmente eleito secretário-geral em 1939, e posteriormente presidente, cargo que ocupou até sua morte. Durante a 2ª guerra mundial, após a invasão nazista na região beligerante, liderou o movimento guerrilheiro iugoslavo, os Partisans (1941–1945). Movimento de resistência representa o conjunto de iniciativas levado a cabo por um grupo de pessoas que defendem uma causa normalmente política, na luta contra um invasor num país ocupado. O termo pode também se referir a qualquer esforço organizado por defensores de um ideal comum contra uma autoridade constituída. Assim, movimentos sociais de resistência podem incluir qualquer milícia, ou guerrilha de guerrilha armada que luta contra uma autoridade, governo ou administração imposta e estabelecida. No final da guerra, os guerrilheiros com o apoio dos Aliados, desde meados de 1943, assumiram o poder sobre a Iugoslávia. 

A reorganização política da Alemanha após a 1ª grande guerra (1914-18) ficou reconhecida como a República de Weimar, cidade onde foi elaborada a Constituição que deu as novas diretrizes políticas e administrativas ao país. O nazismo articulou-se dentro da República de Weimar com vários partidos políticos e facções paramilitares que fizeram pressão contra o novo poder instituído. Entre essas outras facções, havia o movimento Espartaquista comunista influenciada pela Revolução Russa, de 1917 e liderada por Rosa Luxemburgo. Em 1923, os nazistas articularam um golpe no Estado da Baviera e acabaram sendo presos e condenados. Em 1933, após o parlamento alemão ter sido incendiado e o crime ter sido reportado aos militantes comunistas, os nazistas passaram a pressionar o presidente Paul von Hindenburg (1847-1934) a lhe dar maiores poderes. foi um militar alemão que comandou o Exército Imperial Alemão durante a 1ª grande guerra e posteriormente serviu como Presidente da República de Weimar de 1925 até sua morte. Hindenburg é geralmente lembrado como o homem que, como Presidente alemão, nomeou o líder nazista Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha. Ele e Hindenburg se detestavam, mas ele se referia a Hitler como um “cabo boêmio”.

O filme Meu Nome é Sara (2019), realizado pelo cineasta norte-americano Steven Oritt apresenta a dramatização de um relato etnográfico, protagonizado pela personagem judia Sara Guralnick (Zuzanna Surowy). Após se separar do irmão em uma fuga pelas florestas da Ucrânia, em 1942, Sara assumindo a identidade de uma amiga, Mania Romanchuck, é acolhida pelo casal Nadya (Michalina Olszanska) e Pavlo (Eryk Lubos), que lhe oferece comida e abrigo em troca de trabalho duro nas atividades agrícolas de sua fazenda e nos cuidados com seus dois filhos pequenos. A partir daí inicia-se a dupla ornada, marcada por inúmeras adversidades, pela manutenção de seu segredo, e por consequência de sua própria vida, ao mesmo tempo em que adentra a intimidade de seus “empregadores”, que também escondem seus próprios segredos. A jornada de Sara é resumida a um acúmulo de provações embebidas no processo inevitável de rotinização política, per se baseado na história religiosa, com direito a interpretação de imagens da verdadeira Sara e formas de encerramento sobre os anos seguintes de sua vida. Não que sua história social e política não deva ser respeitada, ignorada, ou ainda que não mereça um retrato à própria altura. Contudo, este oferecido por Oritt raramente consegue romper a particularidade de sua interpretação. Aquele de forma repetida e forçada, pressionou Hindenburg para nomeá-lo como Chanceler, mas este recusou o pedido.

Embora com 84 anos e a saúde precária, Hindenburg foi convencido a candidatar-se a Presidente para as eleições de 1932, pois era considerado o único candidato que podia derrotar o nazista Adolf Hitler. Hindenburg foi reeleito na segunda volta. Embora se opusesse a Hitler, a deterioração da estabilidade política da República de Weimar permitiu-lhe ter um papel importante na ascensão ao poder do Partido Nazi. Hindenburg dissolveu o parlamento, por duas vezes, em 1932, e acabou por nomear Hitler como Chanceler da Alemanha em janeiro de 1933. Em fevereiro, emitiu o chamado Decreto de Fogo do Reichstag que suspendia várias liberdades civis e, em março, assinou a Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933 na qual o parlamento dava à administração de Hitler poderes legislativos. Hindenburg morreu no ano seguinte, após o qual Hitler declarou que o lugar de Presidente ficava vazio e, como “Führer und Reichskanzler”, ele próprio era o Chefe de Estado. Com a morte de Hindenburg, em 1934, o líder nazista agregou à sua tirania pessoal os títulos de chanceler, presidente e Führer dos alemães. 

O regime adota um caráter político absolutamente totalitário. As características principais do nazismo, enquanto ideologia instituída no poder, derivaram-se das ideias neste período após o golpe de Estado. O controle da população por meio da propaganda política era uma de suas principais motivações. O uso do rádio e do cinema foi decisivo para que as ideias nazistas fossem propagadas. O antissemitismo era uma dessas ideias fundamentais. O ódio aos judeus, a quem o líder nazista atribuía a culpa por problemas que a Alemanha enfrentava, sobretudo problemas de ordem econômica, intensificou-se no período de propaganda nazista. Esse fato culminou no Holocausto com a morte de mais de 6 milhões em campos de concentração. Associado ao antissemitismo, estava a noção racista e eugenistas da “superioridade do homem branco germânico”, ou da “raça ariana”, e a construção de um “espaço vital” para que essa raça construísse seu império mundial. Esse espaço vital compreendia vastas regiões do continente europeu, que segundo os planos de mentores nazistas deveriam ser invadidas e conquistadas pelos povos germânicos, já que a raça estava incumbida, por sua pretensa “superioridade”, de se tornar “senhora” sobre os outros povos.  

Dos 9 milhões de judeus que residiam na Europa antes do Shoah, cerca de dois terços foram mortos; estatisticamente mais de 1 milhão de crianças, 2 milhões de mulheres e 3 milhões de homens judeus morreram durante este período. A força policial foi reforçada através da incorporação de membros de organizações paramilitares nazistas como policiais auxiliares. O genocídio nazista contra os judeus representou parte de um conjunto mais amplo de atos de repressão e de assassinatos em massa agregados, e também cometidos pelos nazistas contra vários grupamentos étnicos e políticos entreguerras na Europa, e particularmente alemã. Entre as principais vítimas não judias encontram-se, outrossim, grupos estritos de ciganos, poloneses, comunistas, homossexuais, prisioneiros de guerra soviéticos, Testemunhas de Jeová e portadores de deficiência física. Segundo estimativas recentes, baseadas em números obtidos desde a queda da União Soviética, ou União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS) uma nação comunista entre 1922 e 1991, morreram em torno de 12 milhões de civis. Eslavos e prisioneiros de guerra foram mortos quando, após haverem silenciado-os, expandiram o terror a outros marginalizados.

Bibliografia geral consultada.

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