sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Notas Sobre Movimento do Neonazismo na Região Sul do Brasil.

Ubiracy de Souza Braga
 
                        “Bolsonaro tornou-se fenômeno midiático no programa CQC da rede Bandeirantes”. Clara Romain
                                    
           

A Região Sul do Brasil é a menor das cinco regiões do país, com área territorial de 576. 774,31 km², sendo maior que a área da França metropolitana e menor que o estado brasileiro de Minas Gerais. A Região Sul propriamente dita é um grande polo turístico, econômico e cultural, abrangendo grande influência europeia, principalmente de origem italiana e germânica. Apresenta índices sociais acima da média brasileira e das demais regiões em vários aspectos: possui o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, 0,798, e o terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país. A região é também a mais alfabetizada, 95,2% da população, e a com menor incidência de pobreza. Sua história é marcada pela grande imigração europeia, pela Guerra dos Farrapos, e pela Revolução Federalista, com seu principal evento o Cerco da Lapa. Outra revolta ocorrida na história da região foi a Guerra do Contestado, entre os anos de 1912 e 1916. Faz parte da Região Centro-Sul do Brasil. Divide-se em três unidades federativas: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo limitada ao norte pelos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, ao sul pelo Uruguai, a oeste pelo Paraguai e pela Argentina, além de ser banhada a leste pelas águas do Oceano Atlântico.  Sua maior característica é o modo de colonização e o tipo de colonizadores recebidos. A Região Sul começou a ser colonizada durante os séculos XVII e XVIII. 

Em 1648, os portugueses foram os fundadores da vila de Paranaguá, a mais antiga cidade da Região Sul e do Paraná. As populações alóctones recebidas pela região foram de escravos africanos, porém, uma grande quantidade de imigrantes vieram do Uruguai, da Argentina, dos Açores, da Espanha, da Alemanha, da Itália, da Polônia, da Ucrânia, dos Países Baixos, entre outros. A característica populacional dada pelos europeus que contribuíram para o processo de formação da sociedade brasileira do século XIX foi a predominante etnia caucasiana, sendo deixadas na paisagem características dos países de onde originaram. Os europeus foram os introdutores do sistema de pequenas e médias fazendas. A ciência agrícola trazida da Europa para o Sul do Brasil foi a viticultura, adaptada à Serra Gaúcha.  A população das cidades da Região Sul cresceu muito nos anos mais recentes. As cidades mais populosas são, em ordem de quantidade de moradores, Curitiba e Porto Alegre. O desenvolvimento industrial foi iniciado nas décadas mais recentes principalmente no Rio Grande do Sul, nordeste de Santa Catarina e Região Metropolitana de Curitiba. Na região de Criciúma, em Santa Catarina, estão localizadas quase a totalidade das reservas de exploração de carvão no Brasil. O potencial energético, que as inúmeras cachoeiras dos rios das bacias hidrográficas do Paraná e Uruguai, hoje se aproveita muito nas usinas hidrelétricas como a de Machadinho, próximo a Piratuba. 

A categoria sociológica totalitarismo analisada na fronteira dos estudos de filosofia política  e teoria política significa, simplificadamente a  presença de um Estado forte, cujo poder central tem imediatamente autoridade absoluta. O nazismo no Brasil teve início no período entre guerras regionais e mundiais, antes e depois na Europa quando o Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) fez propaganda política no país para atrair militantes entre os membros efetivos da comunidade alemã. Embora a maioria dos teuto-brasileiros não se tenha aderido ou simpatizado afetivamente com a propaganda hitlerista, o Brasil no entanto, tinha a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha. Em 1928, foi fundada em Timbó, Santa Catarina, a seção brasileira do Partido Nazista. Naquela época, viviam no Brasil cerca de 100 mil alemães natos e cerca de um (01) milhão de descendentes. A maior parte deles vivia em comunidades isoladas no Sul do Brasil que preservavam a língua e a cultura alemã. Vale lembrar que diferentes dialetos falados chega a ser chamado por alguns teóricos de riograndenser hunsrückisch. O Hunsrück é uma região do oeste alemão, localizada perto dos rios Reno e Mosela e próxima à atual fronteira com Luxemburgo. “Riograndenser” significa “do Rio Grande”.

            O partido surgiu a partir do nacionalismo alemão combinado à cultura paramilitar racista e populista dos Freikorps, que lutaram contra os levantes comunistas na Alemanha após a primeira guerra mundial. Com a ascensão de Adolf Hitler ao cargo de chanceler, na Alemanha, os teuto-brasileiros passaram a ser assediados pela propaganda nazista para atrair seguidores no exterior. Embora nunca tenha havido um partido político nazista organizado, legal ou clandestinamente no país, vários membros da comunidade teuto-brasileira foram membros da seção brasileira do Partido Nazista da Alemanha. Esta seção chegou a ter 2.822 membros e foi a maior seção do partido nazista alemão no exterior. Como era uma organização estrangeira, “somente alemães natos podiam ser filiados e os brasileiros descendentes de alemães atuavam somente como simpatizantes”. Ainda assim, calcula-se que cerca de 5% dos imigrantes alemães então residentes no Brasil estiveram, em alguma época, associado ao Partido Nazista alemão. Estes nazistas residiam em torno de 17 estados, a maior parte deles em São Paulo. Mas a maioria dos teuto-brasileiros não se deixou “seduzir” pela propaganda nazista e, além disso, nunca se filiou burocraticamente ao nazismo.
 
              O neonazismo está associado ao resgate da ideologia política do nazismo, como máquina de guerra propagada pelo ideólogo Adolf Hitler (1889-1945), a partir do começo da década de 1920. O movimento neonazista tem suas origens assentadas na intolerância e em preceitos racialistas, primando sempre pela “raça pura ariana” ou pela pretensa “superioridade da raça branca”. Os seguidores da doutrina em sua maioria promovem atos públicos e privados de hegemonia encouraçada de coerção/discriminação contra minorias e grupos específicos, como homossexuais, negros, estrangeiros, ameríndios e judeus, além de imigrantes caboclos e islâmicos e contra os comunistas Algumas correntes preferem apenas a segregação da "raça pura ariana" das demais "raças", condenando agressões físicas contra tais grupos, inclusive muitas vezes condenando também a violência moral e psicológica. Outras promovem explicitamente o ataque físico aos grupos citados. Há grande oposição vinda dos neonazistas de grupos punks, fazendo com que cresça uma hostilidade entre os dois grupos. Alguns grupos chegam a defender o uso da força para tomar o controle do Estado ou segregar regiões através de movimentos separatistas, como o Neuland. Contudo, o movimento neonazista ressurgiu no Brasil no início da década de 1980, em meio à efervescência local de práticas ideológicas disseminadas por intermédio cultural do movimento punk.

As duas subculturas,  representando particularidades culturais de um grupo que se dista do modo de vida dominante. Mas sem se desprender dele, por sua vez, têm suas origens locais dentro do mesmo contexto socioeconômico. Neste caso, marcado pelo esgotamento do chamado “milagre econômico” do regime militar, gerando perspectivas sombrias de futuro para a juventude. O “milagre econômico brasileiro” é a denominação dada ao excepcional crescimento econômico ocorrido durante o Regime Militar no Brasil, também reconhecido pelos oposicionistas como “Anos de Chumbo”, especialmente entre 1969 e 1973, no governo do general Médici. Período áureo do desenvolvimento brasileiro em que, paradoxalmente, houve aumento da concentração de renda e da pobreza, instaurou-se um pensamento ufanista de “Brasil potência”, que se evidencia com a conquista da terceira Copa do Mundo de Futebol em 1970, no México, e a criação do mote: “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”. As três vitórias na Copa do Mundo ajudaram a manter no ar um clima de comunicação generalizado, daquilo que o jornalismo político de Élio Gaspari apelidou de “patriotadas”. O Brasil reverberava a canção “Pra frente Brasil”. Tal contexto social e político facilitou a assimilação reativa por grupos específicos hic et nunc de jovens brasileiros da influência do movimento neonazista internacional.

Enquadrando-se também em uma tendência globalizada de expansão racista, então restrito ao Reino Unido, mas gradualmente fortalecido pelo sucesso político da ultraconservadora e racista British National Front (BNF) que representa um partido político britânico de orientação ultradireitista, populista e fascista cuja atividade política atingiu o pico durante as décadas de 1970 e 1980. Nas eleições gerais de 1979, obteve mais de 190 mil votos, terminando a posição em 6° lugar, com mais votos do que o Partido Unionista Democrático. É considerada uma agremiação racista “por aceitar apenas membros de cor branca”. O sistema prisional e policial britânico proíbem a filiação tanto de seus empregados como ao partido. Apesar de ser considerada pela mídia local uma agremiação de orientação nazifascista, a Frente Nacional nega, dizendo que é um movimento político democrático. Entretanto, o partido trabalha abertamente em cooperação com o site neonazista estadunidense Stormfront. Assim como sua dissidência, o Partido Nacional Britânico, a Frente Nacional não é mais exageradamente antissemita, tendo dois candidatos judeus na década de 1970. O partido é, entretanto, crítico da veracidade do Holocausto, inclinando-se ao factual “revisionismo histórico” que erroneamente diz respeito à reinterpretação da história, baseado na hipocrisia da ambiguidade dos fatos históricos e na imparcialidade com que esses fatos podem ter sido descritos.  Integralistas reunidos na Praça Tiradentes com saudação no estilo nazista. A foto é do dia 19 de novembro de 1937. Acervo Cid Destefani.
Registrou-se recentemente o surgimento do movimento neonazista organizado em nível nacional autointitulado: “Partido Nacional-Socialista Brasileiro”, que atua através de um site na internet para o reavivamento dessa ideologia retrógrada no país. Não raro, acontecem alguns crimes envolvendo neonazistas nessas regiões. Em 2003, por exemplo, um grupo de skinheads neonazistas obrigou dois jovens punks a pular de um trem em movimento em Mogi das Cruzes. Um deles morreu e o outro perdeu um braço. Em São Paulo, o ressurgimento do movimento nazista tem suas origens na década de 1980, quando surgiram os chamados de “Carecas do ABC”, grupo de extrema-direita que se opunha ao movimento sindical liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) surgido na mesma região de conflitos entre patrões e empregados. Desde então, a possibilidade de comunicação social pela internet - rede mundial de computadores - ampliou as fronteiras do movimento que marcha na contramão da história social e política.
O site Valhala88, desativado em 2007, chegou a receber 200 mil visitas diárias por usuários do país. Para a antropóloga Adriana Dias, autora do ensaio etnográfico: Os anacronautas do teutonismo virtual: uma etnografia do neonazismo na internet (2007), da Unicamp, estudiosa da questão do neonazismo no Brasil, o acalorado debate na eleição presidencial de 2010, deu fôlego ao movimento. Para ela, “a questão do preconceito aos nordestinos (...) vem desde as eleições do Lula. Na eleição da Dilma Rousseff (PT), isso se radicalizou muitíssimo porque foi levantada a questão do aborto, do casamento gay”. Segundo Adriana, há dois grandes grupos etários de neonazistas no Brasil. O primeiro tem entre 18 e 25 anos e o segundo tem entre 35 e 45 anos, e seria o líder do primeiro. Segundo ela, a leitura dos neonazistas é composta por pensadores tais como: William Patch, Thomas Haden, Miguel Serrano e Olavo de Carvalho. Em relação às bandas de rock, há o Comando Blindado, a banda Zurzir, Defesa Armada e Resistência 88. O acalorado debate entre tucanos e petistas na eleição presidencial de 2010, quando foram levantados temas como a legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, teria dado um fôlego novo ao movimento
Existem pouco mais de uma dezena de grupos neonazistas operando no Brasil. Congregando um total estimado entre dois e três mil ativistas organizados e um número ainda desconhecido de simpatizantes. Encontram-se espalhados, sobretudo por São Paulo, com grande concentração na capital paulista e na região do ABC - Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano e Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Fortaleza, Rio Grande do Norte e Distrito Federal. Há indícios no sentido que emprega Carlo Ginzburg, de que “os grupos estejam começando a se organizar também em algumas capitais da Região Nordeste”. São tradicionalmente divididos em duas vertentes: a) uma mais “intelectualizada” e elitizada, dedicada ao ativismo político e à produção cultural do movimento. Congregando profissionais liberais, militares, empresários e nichos universitários que alega ser herdeira direta dos integralistas da década de 1930; e, b) outra mais ou menos agressiva, agindo de forma clandestina, composta pelos “carecas”, denominação local dos skinheads, gangues de jovens aparentemente de “origem proletária ou de classe média baixa que frequentemente praticam ataques a minorias, quer por motivos ideológicos, quer pela simples atração pela violência”.
Embora mantenham estreitas relações entre si, chegando a congregar indivíduos com dupla militância, os grupos neonazistas brasileiros caracterizam-se frequentemente pela ausência de hierarquia formal e por inúmeras divergências, discórdias e paradoxos quanto à ideologia e objetivos. Há, entretanto, características comuns a todos, sobretudo a apologia da intolerância. De forma análoga ao movimento internacional, os grupos brasileiros frequentemente professam ideais ultranacionalistas, racistas, xenófobos e discriminatórios e advogam em maior ou menor grau, o uso da violência simbólica e efetiva, prática. À perseguição de negros, homossexuais, judeus e dependentes químicos, os grupos neonazistas também somam outro alvo, os migrantes nordestinos. Estabelecem “um paralelo adaptado à realidade local da perseguição sofrida por imigrantes africanos, asiáticos e latino-americanos por neonazistas europeus e norte-americanos”. Opõem-se ao sionismo, aos comunistas, aos socialistas e à esquerda política como um todo. Vínculos ideológicos com o nazismo e com o fascismo assumidos ou dissimulados também são comuns a quase todos os grupos fascistas.         
Apontado como o mais ativo grupo neonazista brasileiro, “os carecas do subúrbio” surgiram por volta de 1978, ou ligeiramente antes, pois não há informação precisa, a princípio como um grupo punk, fã dos Sex Pistols, aproximando-se gradualmente da ideologia skinhead em sua vertente britânica. Seus membros se concentram na Zona Leste de São Paulo e na região do ABC paulista. Professam ideais ultranacionalistas, opondo-se à presença de empresas estrangeiras no Brasil. Discriminam homossexuais, pois são considerados doentes pelo grupo, judeus e dependentes químicos. Em seu ápice, o pequeno grupo radical chegou a somar cerca de 500 integrantes, mas teve o número de membros reduzidos após sofrer dois “rachas” (cisões), que deram origem aos “Carecas do ABC” e ao “White Power”. Hoje, congregaria por volta de pouco mais de 100 militantes. Fazem apologia da violência, portam armas brancas e de fogo e frequentemente envolvem-se em brigas de gangues e ataques as chamadas minorias. Orgulham-se de sua suposta “tolerância”, por não aceitarem “minorias” em suas fileiras, como negros e nordestinos. No entanto, admitem mulheres.
 Os chamados “carecas do ABC” surgiram como uma dissidência dos “carecas do subúrbio”, ocorrida por divergências ideológicas entre as facções internas. Seus membros, estimados entre 50 e 100 militantes organizados, estão concentrados na região do ABC paulista, sendo na maioria de origem operária. São apontados como mais organizados e mais “intelectualizados” do que seu grupo originário. Adotam hierarquia baseada na organização militar, com “generais” e “soldados”. Aproximam-se dos Carecas do Subúrbio na apologia da violência, mas, ao contrário destes, não portam armas de fogo, tendo no uso exclusivo da força física um pressuposto dos seus ideais. Identificam-se com o integralismo de Plínio Salgado e adotam o lema: “Deus, Pátria e Família”. Admitem a presença de negros e nordestinos em geral em suas fileiras, mas, neste caso, vetam a entrada de mulheres. Perseguem homossexuais, judeus, dependentes químicos e grupos esquerdistas. Também se opõem à presença de multinacionais em território brasileiro.
 O grupo “White Power” surgiu em 1989, originário de uma dissidência dos “carecas do Subúrbio”,  do qual era a princípio uma facção mais extremada. A maioria de seus membros localiza-se na Grande São Paulo, possuindo também ramificações em toda a Região Sul do Brasil, embora não obedeçam a qualquer tipo de hierarquia. É considerado o mais radical e agressivo de todos os grupos neonazistas brasileiros. Ultra-racistas, adotam quase integralmente a estética e a ideologia nazistas/hitleristas. Defendem a superioridade da “raça branca” (sic) e manifestam violento repúdio a negros, mulatos, homossexuais, judeus e demais minorias. Notadamente, perseguem os migrantes nordestinos, apontados pelo grupo como “sub-raça”, responsabilizando-os pelos problemas sociais e econômicos de São Paulo. Defendem a separação dos estados das regiões Sul e Sudeste do restante Brasil. Com objetivos apologéticos, cultuam os ideais da Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo e, no Sul, os movimentos locais de caráter separatista, como a Guerra dos Farrapos. É um dos maiores grupos neonazistas brasileiros, congregando mais de mil militantes, a maioria jovens de classe média, bem como profissionais liberais, estudantes e empresários. É também um dos grupos mais “internacionalizados”, mantendo contatos com agremiações de extrema-direita estrangeiros, sobretudo na Alemanha, Itália e França, e também com a Ku Klux Klan nos Estados Unidos da América. Na foto “Carecas do Subúrbio”: portando rojões, bombas caseiras e instrumentos de agressão durante protestos ocorridos na Avenida Paulista (SP) foram cercados e revistados pela Polícia Militar (PM). 

No Brasil estão estreitamente vinculados ao Partido Nacionalista Revolucionário Brasileiro (PNRB), fundado por Armando Zanine Teixeira Júnior. Gangues ligadas ao grupo costumam portar armas brancas e de fogo. Praticam o culto da força física, fazem musculação e treinam artes marciais. Admitem mulheres em suas fileiras. Já o denominado Partido Nacional-Socialista Brasileiro (PNSB). Apesar da denominação, não é reconhecido como um partido político oficial. Foi fundado em 1988 pelo antigo oficial da marinha mercante carioca Armando Zanine Teixeira Júnior. Atua, sobretudo no Rio de Janeiro, possuindo ramificações em São Paulo, no Espírito Santo, na Bahia e no Distrito Federal. De ideologia excludente, mantém um discurso calcado em pressupostos ultranacionalistas, xenófobos e antissemitas. Opõe-se ao comunismo e à esquerda política. O grupo afirma repudiar o racismo, a discriminação contra nordestinos e a violência dos skinheads, mas possui alguns carecas de dupla militância em suas fileiras. Carecas do Brasil: Seus membros atuam no Rio de Janeiro. O grupo é apontado como a facção fluminense dos “Carecas do Subúrbio”. Estiveram ligados no passado recente ao Partido Nacionalista Revolucionário Brasileiro. Somam cerca de 50 militantes organizados burocraticamente. Agressivos, perseguem homossexuais, judeus e dependentes químicos. Tornaram-se conhecidos ao protagonizar um violento tumulto durante o show da banda punk Ramones na casa de shows Canecão, no Rio, na noite de 23 de setembro de 1992.
Enfim, Soberanos da Revolução (SDR) é um movimento composto por 5 a 8 membros, provavelmente sediado em São Paulo e que pregam sua doutrina na internet, sendo acessível para todo o público internauta em seus websites. Não pratica atos de violência nem crimes de ódio, no entanto tem ideais ofensivos a diversos grupos. Não se espelham nem se baseiam aparentemente em nenhuma teoria, visão política ou movimento, tendo uma filosofia única, mas formada pelo rebusque de diversas teorias. Não defendem quase nenhuma causa, demonstrando-se adversos a tudo e em favor apenas de suas concepções ou teorias. Sua doutrina apresenta ideias antipatriotas, ateus, racistas: têm aversão a negros, latinos e nipônicos, contrárias a qualquer religião ou etnia, neonazistas, xenófobas são contra as migrações nordestinas e bolivianas, anticomunistas, elitistas e segregacionistas. Reacionários, são a favor do desligamento de máquinas de um indivíduo em estado de eutanásia, contra a transfusão de sangue e doação de órgãos, lembrando ideias dos testemunhos de Jeová, apesar de se dizerem ateus. As teorias mais conhecidas são as da “Síndrome de Cirilo”, teoria racista que condena a dita autosegregação de negros e suas “manias de perseguição”, tratando-as como doenças psicológicas e as teorias “anti-cariocas”, que repudiam o suposto comportamento pouco sutil e indiscreto do povo do Rio de Janeiro, seus desapegos ao trabalho e condenam a influência direta das favelas na vida carioca, como por exemplo, com o gosto musical, com a aparente falta de cultura, com a mistura racial, etc., além de fazerem duras críticas à vida na cidade, principalmente por sua violência e por sua imagem negativa que traz para o país mundo afora.
     Após a eleição de Jair Bolsonaro à presidência, Adriana Dias detectou o surgimento de grupos neonazistas em estados até então sem registros de atividade, como Goiás, que já conta com seis grupos, localizados nas cidades de Goiânia, Luziânia e Pirenópolis. Conforme a pesquisadora, “as células haviam começado a se dirigir para o Centro-Oeste [nos estudos anteriores], mas foi a primeira vez que elas apareceram extremamente fortes”. O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura. E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições. Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo.
                De modo que, como admite Adriana Dias (2019) uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra. Enfim, querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime. Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano. 
Bibliografia geral consultada.
TRINDADE, Hélgio Henrique Casses, L´Action Intégraliste Brésilienne: Un Mouvement de Type Fasciste au Brésil. Tese de Doutorado em Études Politiques. Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne, 1971; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Einaudi Editore, 1986; OTT, Hugo, Martin Heidegger. Éléments pour une biographie. Paris: Éditions Payot, 1990; NESKE, Gunther; GRAMSCI, Antonio, “Quaderni del Carcere”, n° 7 (1928-1937), “Guerra di Posizione e Guerra Manovrata o Frontale”. In: Note Sul Machiavelli Sulla Politica e Sullo Stato Moderno. Torino: Editore Riuniti, 1991, pp. 84 e ss.; SALEM, Helena, As Tribos do Mal: O Neonazismo no Brasil e no Mundo. 5ª edição. São Paulo: Editora Atual, 1995; BRAGA, Ubiracy de Souza, “A Ideologia Fascista”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 4 de dezembro de 2004; BOBBIO, Norberto, Il Futuro della Democrazia. 1ª Edizione. Itália: Editore Einaudi, 2005; SILVA, Nadiana Lima da, Enquetes do Controle de Qualidade do CQC: Uma Análise Multimodal. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Centro de Artes e Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2011; LUCAS, Taís Campelo, Nazismo & Além Mar: Conflito e Esquecimento (Rio Grande do Sul). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grade do Sul, 2011; Artigo: “A Onda Bolsonaro e o Despertar do Neonazismo”. Disponível em: http://www.pavablog.com/2012/04/05; LERY, Julia, (Não) é só uma piada. Cinismo, ironia e entretenimento nos talk shows The Noite e Agora é Tarde. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2015;  entre outros.
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  * Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP) junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE). 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Terrorismo de Estado & Silêncio no Pavilhão do Riocentro.

Ubiracy de Souza Braga*


  “Foi ação articulada do Estado, diz Comissão Nacional da Verdade”. In: Revista Istoé, 21 de janeiro de 2016



            Terrorismo de Estado consiste num regime de violência instaurado por um governo. Em que o grupo político hegemônico que detém o poder se utiliza do terror como estratégia de manutenção da governabilidade. Um Estado terrorista é entidade política que usa a força e violência contra outros Estados ou seus cidadãos com a intenção de intimidar ou coagir sem reservas em aceitar sua ideologia, e, assim, alcançar uma posição dominante no mundo ou estadia permanente no poder em seu próprio país. No Brasil, terrorismo de Estado decorreu da atuação do DOPS durante a ditadura militar (1964-1985). O acúmulo sistemático de informações sobre cidadãos considerados suspeitos de “subversão” potencializou um processo de terror. Organizações de defesa dos direitos civis consideram que a lentidão de apuração dos atos cometidos durante a repressão “configura uma extensão do terrorismo mesmo durante o regime democrático”, incidindo sobre um crime letal de Estado que colocou a vida de aproximadamente 20 mil pessoas em risco. Quanto aos meios de comunicação de massa, deslocando o tema para os crimes letais de Estado, nota-se que a mídia é mais seletiva ao divulgar crimes políticos em que haja envolvimento estatal se compararmos o dia a dia com a abundância com que divulga outros crimes.
             As chamadas grandes potências e a mídia mundial consideram terrorismo apenas atos praticados por indivíduos e grupos, mas não preveem “terrorismo de Estado”, como é o caso dessa conjuntura política, fora de moda das discussões e dos noticiários, mas em alta por parte de alguns países, encontrando seu ápice nos EUA – Estados Unidos da América especialmente nos oito longos anos que se estenderam de 2001 a 2009, sob a administração Bush. E o escândalo mundial que se tornaram as torturas e estupros na cadeia de Abu Ghraib no Iraque, cometidas por soldados norte-americanos contra presos locais (mais de 80% sem nenhuma ligação com atos terroristas, como ficaria provado) é a maior evidência deste fato contra os direitos civis cometidos pelos EUA. Tais atrocidades, somadas às barbáries contra civis têm se configurado em graves crimes de guerra e contra a humanidade de acordo com a Convenção de Genebra, ratificada inclusive pelos Estados Unidos da América (EUA), que dá tiros nos próprios pés e também de acordo com o Tribunal Penal Internacional– TPI (artigos 7 e 8), o qual os Estados Unidos se negam a assinar. 

 
Por quais razões? Fora de duvida a invasão norte-americana ao Iraque perpetrada por Bush em 2003. Em oito anos de invasão ao Iraque, de março de 2003 a março de 2011, o saldo estatístico de civis mortos é de 110 mil, e mais de1 milhão de refugiados do país, igualmente, como ao Afeganistão em 2001, feriu a Constituição dos Estados Unidos a qual não autoriza “guerra preventiva”, isto é, “declaração de guerra sem que o país haja sido agredido antes pelo que será atacado, muito menos sem aprovação do Congresso como foi o caso”. No plano externo, Bush atropelou ou ignorou os Acordos Internacionais estipulados pela Organização das Nações Unidas (ONU), a qual prevê guerra apenas como “ação em caso de ameaça à paz, ruptura de paz e agressão” em sua Carta, capítulo VII, ratificada por seus 192 países-membros, inclusive pelos próprios Estados Unidos da América.
      Riocentro é a designação de um centro de convenções localizado no bairro de Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro. É considerado o maior centro de convenções da América Latina. É composto por cinco pavilhões interligados, que somam 100 000 metros quadrados em um parque de 571 000 metros quadrados, com estacionamento para cerca de 7 000 automóveis e 60 ônibus de turismo. Foi eleito, nos anos de 2006 e 2007, o mais destacado da América do Sul pelo World Travel Awards. Inaugurado em 1977, foi projetado e construído especificamente para a realização de eventos de grande porte, em área nobre e acessível do ponto de vista da comunicação tendo sediado, entre outros, a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92), o 17º Congresso Mundial de Petróleo 2002 e a Rio+20, além de sediar regularmente a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Era administrado pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, mas foi privatizado para a empresa francesa GL Events Worlwide Offices France sob uma concessão de 50 anos, nos preparativos dos Jogos Pan-americanos de 2007. A GL promoveu uma reforma parcial, para uma reestruturação global, a fim de ampliar o complexo futuramente.
O golpe militar de 1 de abril de 1964 marca uma série de eventos ocorridos em 31 de março de 1964 no Brasil, e que culminaram em um golpe de Estado no dia 1° de abril de 1964. Esse golpe pôs fim ao governo do presidente João Goulart, também reconhecido como Jango, que havia sido de forma democrática, eleito vice-presidente pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Imediatamente após a tomada de poder num consórcio civil-militar, foi estabelecido o AI-1. Com 11 artigos, o mesmo dava ao governo militar o poder de modificar a constituição, anular mandatos legislativos, interromper direitos políticos por 10 anos e demitir, colocar em disponibilidade ou aposentar qualquer pessoa que fosse contra a segurança do país, o regime democrático e a probidade da administração pública, além de determinar eleições indiretas para a presidência da República.
Durante o regime golpista militar, ocorreu um fortalecimento do poder central, sobretudo do poder Executivo, caracterizando um regime de exceção, pois o Executivo se atribuiu a função de legislar, em detrimento dos outros poderes estabelecidos pela Constituição de 1946. O Alto Comando das Forças Armadas passou a controlar a sucessão presidencial, indicando um candidato militar que era referendado pelo Congresso Nacional. A liberdade de expressão e de organização era quase inexistente. Partidos políticos, sindicatos, agremiações estudantis e outras organizações representativas da sociedade foram suprimidas ou sofreram interferência do governo. Os meios de comunicação e as manifestações artísticas foram reprimidos pela censura. A década de 1960 curiosamente iniciou também, um período de grandes transformações na esfera da economia do Brasil, de modernização da indústria e dos serviços de telecomunicações, de enorme concentração de renda, na cidade e no campo e de abertura ao capital estrangeiro com o  endividamento externo.


  Atentado do Riocentro é o nome pelo qual ficou reconhecido um ataque a bomba que perpetrada no Pavilhão Rio centro, no Rio de Janeiro, na noite de 30 de abril de 1981, por volta das 21 horas, quando ali se realizava um show comemorativo do Dia do Trabalhador, durante o período que finda a ditadura militar no Brasil. As bombas seriam plantadas pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo então capitão Wilson Dias Machado, hoje coronel, atuando como educador no Colégio Militar de Brasília. Por volta das 21 horas, com o evento já mobilizado e em andamento, uma das bombas explodiu dentro do carro onde estavam os dois militares, no estacionamento do Rio centro. O artefato, que seria instalado no edifício e utilizado com fins políticos, explodiu antes da hora determinada, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão Wilson Dias Machado. Uma bomba é um dispositivo bélico, geralmente algum tipo de invólucro com material explosivo dentro, projetado para causar destruição quando ativado. A explosão da bomba pode ser controlada, geralmente por um relógio, um controle remoto ou algum tipo de sensor, geralmente de pressão (altitude), radar ou contato. A palavra vem do grego: βόμβος (“bombos”), um termo onomatopeico com um significado semelhante a “bum” em português, mas pode ter um caráter letal.   
Para o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, o caso Riocentro foi o último de uma série de 40 atentados ocorridos entre janeiro de 1980 e abril de 1981, “que visavam dificultar a abertura política iniciada em 1979 e dar uma sobrevida ao regime militar”. Segundo o relatório da CNV, apresentado pelo gerente de projetos Daniel Lerner, cerca de 20 mil pessoas estavam no Riocentro na noite de 30 de abril de 1981 para assistir um show organizado por Chico Buarque de Hollanda para o Dia do Trabalhador. O grupo que planejou o atentado conseguiu até que a Polícia Militar recebesse uma ordem para não realizar policiamento dentro do espaço onde ocorria o show. O número de vítimas do atentado frustrado poderia ser muito maior. Além da bomba que explodiu no estacionamento, mais uma bomba explodiu na casa de força do Riocentro. O intuito era que faltasse energia que impedisse o show. Mas o artefato não causou o efeito desejado. Depoimentos apontam que duas bombas sob o palco foram retiradas antes de serem detonadas e Pimentel e outras testemunhas afirmam que havia duas outras bombas no carro, que foram retiradas da cena do crime.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV), para a elaboração do presente Relatório preliminar de pesquisa, utilizou como fontes primárias principais: (i) a documentação integral constante dos autos e anexos dos Inquéritos Policiais Militares (IPM) conduzidos em 1981 e em 1999 para a apuração do caso de ordem política e social do Riocentro; (ii) os fundos documentais do Arquivo Nacional; (iii) as reportagens jornalísticas feitas a partir de 1981 sobre o caso; (iv) a literatura específica sobre o tema, cuja bibliografia é indicada ao final; (v) a documentação recentemente encontrada em poder do Coronel Júlio Miguel Molina Dias (2012), ex-Comandante do DOI do I Exército, e entregue a esta Comissão, disponível na íntegra em: www.cnv.gov.br.
Na ocasião o governo culpou grupos radicais da esquerda pelo atentado. Essa hipótese já não tinha sustentação na época e atualmente já se comprovou, inclusive por confissão, que o atentado no Rio centro foi uma tentativa de setores mais radicais do governo (principalmente do CIE e o SNI) de convencer os setores mais moderados do governo de que era necessária uma nova onda de repressão de modo a paralisar a lenta abertura política que estava em andamento. Uma segunda explosão ocorreu a alguns quilômetros de distância, na miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia do Rio centro. A bomba foi jogada por cima do muro da miniestação, mas explodiu em seu pátio e a eletricidade do pavilhão não chegou a ser interrompida. Esse episódio trágico é um divisor de águas e dos que marcam a decadência de domínio político do regime militar no Brasil, que daria lugar dali a quatro anos ao restabelecimento da plena democracia através do movimento Diretas Já.
Enterro do sargento Guilherme do Rosário no Cemitério de Irajá - O Globo, 16.02.2014.

            Irajá é um bairro da Zona Norte do município do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro. É cortado pela Avenida Brasil. É um bairro de porte médio, com quase 100 000 habitantes. Seu índice de desenvolvimento humano, no ano 2000, era de 0,798, o 95º melhor do município do Rio de Janeiro. Até o século XVI, a região era ocupada pelos índios tupinambás. Nesse século, houve a conquista portuguesa da região e a sua divisão em sesmarias. O bairro teve origem na maior sesmaria do Rio de Janeiro, que ia de Benfica, passando por Anchieta, até Campo Grande. Ela Durante o século XVII, Irajá foi um centro de abastecimento importante de alimentos e de material de construção. O que pode ser considerado como tradição do mercado local por ele ter abrigado, por vários anos, a fábrica de cimento branco Irajazinho e a Central de Abastecimento do Rio de Janeiro, importante ponto de venda de gêneros alimentícios. Em 1775, havia treze engenhos na região, todos com mão de obra escrava. Como outras sesmarias, a de Irajá foi desmembrada, moldando o mapa da cidade que hoje conhecemos. Atualmente, o bairro é, essencialmente, um bairro residencial. As famílias tradicionais do Irajá são: Bral, Campos, Eleutério, Gamas, Borges, Matos, Tavares e Esteves.
               A Polícia Militar costumava destacar homens para patrulhar eventos no Rio centro, assim como em qualquer outra grande aglomeração de pessoas. Mas, no dia do atentado, o policiamento fora suspenso pouco antes do show. A justificativa foi a de que, por ser um evento privado, a responsabilidade pela segurança era exclusiva dos organizadores. O carro que carregava a bomba - um Puma cinza-metálico placa OT-0297 - fora visto na tarde daquele mesmo dia no restaurante “Cabana da Serra”, que ficava num ponto isolado da estrada Grajaú-Jacarepaguá, parado junto a outros seis carros. Desses carros desceram cerca de quinze homens, que usaram uma mesa do restaurante para examinar um grande mapa. Depois de perceber que vários dos homens carregavam armas na cintura, um dos funcionários resolveu ligar para a polícia. Uma viatura atendeu o chamado, mas limitou-se a anotar as placas enquanto pedia reforços devido a grande movimentação de público presente. Mas os carros evidentemente abandonaram o local antes que outros policiais chegassem.
No dia fatídico várias placas de trânsito num trajeto que leva ao Riocentro foram pichadas com a sigla VPR. Provavelmente foram os próprios envolvidos no atentado que as vandalizaram enquanto encaminhavam-se para o pavilhão. A VPR - Vanguarda Popular Revolucionária - foi um grupo de guerrilha de esquerda, mas já havia sido desmantelado em 1972, quando a maioria dos seus integrantes foi morta. As pichações foram uma tentativa de culpar militantes de esquerda pelas explosões. O carro Puma levava dois passageiros, o capitão Wilson Luís Alves Machado, como veremos a seguir, proprietário do carro, e o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Ambos integravam o DOI do I Exército, no Rio de Janeiro e o sargento Rosário era treinado em montagem de explosivos. Tratava-se do Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) um órgão subordinado ao Exército, de inteligência e repressão do Estado brasileiro durante o regime inaugurado com o golpe militar de 1964. Destinado a combater inimigos internos que, supostamente, ameaçariam a segurança nacional, como a de outros órgãos de repressão brasileiros no período, a sua ideologia política de atuação era pautada na Doutrina de Segurança Nacional, formulada no contexto da Guerra Fria nos bancos do National War College, instituição norte-americana, e aprofundada, no Brasil, pela Escola Superior de Guerra (ESG).
      O órgão foi criado pelo então comandante do I Exército, general Siseno Ramos Sarmento.Quando o carro começou a sair da vaga onde estacionara no Riocentro, provavelmente já para plantar a bomba, o artefato explodiu antecipadamente. A explosão inflou o teto do carro e esbugalhou as portas. O sargento Rosário faleceu, enquanto que o capitão Machado sobreviveu. Ele se jogou para fora do carro e pediu para ser levado a um hospital. Muitas pessoas se aglomeraram em volta do carro. Alguns dos espectadores, inclusive o tenente Wachulec, viram um homem retirar do interior do carro duas granadas do tipo cilíndrico usado pelo Exército Brasileiro. A explosão não chamou a atenção do público do Riocentro. Curiosamente, a segunda explosão, que ocorreu na caixa de força da estação elétrica, pôde ser ouvida dentro do pavilhão como um ruído abafado. Os artistas só eram avisados sobre o atentado político-militar à medida que deixavam o palco e de forma inutilmente discreta. A plateia só foi informada perto ao final do show, quando Gonzaguinha subiu ao palco e disse: - “Pessoas contra a democracia jogaram bombas lá fora para nos amedrontar”.
“O coronel reformado Wilson Machado viveu os últimos 33 anos como um típico carioca na Barra da Tijuca, onde mora, e na Praia Vermelha, seu local de trabalho até 2012. As cicatrizes de seu abdome – marca que carrega pela participação no atentado do Riocentro – o impedem de circular sem camisa no calor do Rio de Janeiro, mas nunca limitou seus compromissos sociais na cidade. O silêncio do militar lhe garantiu uma vida tranquila e, graças à proteção de seus pares, o passado não o incomodava. Nos últimos dois meses, porém, Machado alterou sua rotina pacata e desapareceu. Ele tomou essa iniciativa depois de saber que agentes da Polícia Federal o procuram para que ele preste depoimento à Comissão da Verdade em Brasília. A Comissão quer saber dele detalhes sobre o transporte clandestino de bombas em seu carro, no dia 30 de abril de 1981, para promover o atentado em evento organizado pelo Partido Comunista Brasileiro nos pavilhões do Riocentro” (cf. ISTOÉ independente. N° edição: 2319,  03.05.2014).

            Foram mais de três décadas de silêncio, até que o major reformado Divany Carvalho Barros resolveu falar o que sabe sobre o atentado do Riocentro. Ele trabalhava na Seção de Operações do DOI-CODI no Rio de Janeiro em 1981. Ao depor na nova investigação sobre o caso, assumiu ter ido ao estacionamento do centro de convenções para retirar do carro destruído pela explosão provas que incriminassem os militares como autores do crime. Barros entregou os armamentos ao comandante do DOI ainda na noite do atentado, fato que ficou comprovado depois que anotações de Molinas vieram à tona, após sua morte. O tenente-coronel jamais fez referência a esses materiais nem os encaminhou ao encarregado do primeiro Inquérito Policial Militar (IPM), de 1981. A agenda telefônica de Rosário ficou com Barros até 1999 quando ele a entregou ao encarregado de um novo inquérito sobre o caso, general Sérgio Conforto. Os contatos telefônicos da agenda subtraída da cena do crime por Divany Barros revelariam que o sargento Guilherme Pereira do Rosário era comprovadamente amigo de altos oficiais, inclusive coronéis e generais. Os contatos de um sargento com o alto oficialato é algo reputado como estranho no meio militar e poderia ter sido um indício de ligação de Rosário e de outros indivíduos do Grupo Secreto, organização paramilitar de direita que desencadeou atos terroristas para deter as condições e possibilidades em curso do processo de abertura política com os membros do núcleo de planejamento da organização criminosa.
            Conclusões preliminares da Comissão Nacional da Verdade (CNV) sobre os Atentados à Bomba, ocorridos no Riocentro no dia 1° de maio de 1981: a) O atentado do Riocentro insere-se no contexto de outras bombas que foram detonadas entre 1980 e 1981 no Brasil; b) As explosões no Riocentro foram fruto de um minucioso e planejado trabalho de equipe, que contou com a participação de militares, especialmente de agentes ligados ao I Exército, predominantemente do DOI-CODI e da 2ª Seção e ao SNI; c) Há fortes indícios de que o planejamento da operação tenha contado com o conhecimento e comando de altas autoridades militares, notadamente do I Exército; d) O IPM de 1981, supostamente destinado a apurar as responsabilidades sobre o atentado, a partir de sua condução pelo coronel Job Lorena de Sant’Anna, foi manipulado com vistas ao estabelecimento de conclusões pré-definidas, tendentes a: (i) posicionar o capitão Wilson Machado e o sargento Rosário como vítimas; e (ii) encaminhar as investigações a uma conclusão de indefinição da autoria do atentado; e) As autoridades que questionaram a lisura dos procedimentos apuratórios conduzidos sofreram pressões, reprimendas, com repercussão, inclusive, em suas carreiras militares. É o caso do coronel Luiz Antônio do Prado Ribeiro e do almirante Júlio de Sá Bierrenbach; f) Os idealizadores do atentado visaram atribuir sua autoria a grupos armados de resistência ao regime, o que não se sustentou diante de um conjunto robusto de provas e indícios; e finalmente. g) Devido a falhas na execução do plano, o resultado do atentado não foi tão devastador quanto poderia ter sido.
Bibliografia geral consultada.

HOBSBAWM, Eric, Les Primitifs de la Révolte dans l`Europe Moderne. Paris: Éditions Fayard, 1966; Idem, Bandits. Paris: Éditions François Maspéro, 1972; COMBLIN, Padre Joseph, “The National Security Doctrine”. In: The Repressive State: The Brazilian National Security Doctrine and Latin America. Toronto: LARU, 1976; SIMMEL, Georg, La Tragédie de la Culture. Paris: Petite Bibliothèque Rivages, 1988; DREIFUSS, René, Política, Poder, Estado e Força - uma leitura de Weber. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1993; WEFFORT, Francisco Correia, “What is a new democracy?”. In: International Social Science Journal, volume 136, pp. 155-175, 1993; FEARSTHERTONE, Mike (Organizador), Cultura Global. Nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1994; MERLEAU-PONTY, Maurice, Fenomenologia da Percepção. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2006; Artigo: “Frei Tito de Alencar: Nem tortura nem perseguições evitarão o socialismo”. Disponível em: http://averdade.org.br/2012/07/15; Artigo: “Riocentro: Exército Escondeu Granada que Sargento Levava”. Disponível em: http://oglobo.globo.com/16.02.2014; Artigo: “General Reformado se cala sobre Atentado do Riocentro”. Disponível em: http://noticias.ne10.uol.com.br/brasil/2014/07/31/; Artigo: “Relatório da CNV Aponta que Atentado do Riocentro foi Realizado por Militares para Retardar a Abertura Política”. Disponível em: http://www.cnv.gov.br/29.04.2014; FRIEDE, Reis, “Caso Riocentro: um panorama histórico-jurídico”. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/02/2018; entre outros.

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* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE).   

domingo, 9 de agosto de 2015

Atame! - Mitos urbanos, Cinema & Síndrome de Estocolmo.

Ubiracy de Souza Braga*

“A história é a verdade que se deforma, a lenda é a falsidade que se encarna”. Jean Cocteau (1889-1963)

         

Jean Maurice Eugène Clément Cocteau (nascido em Maisons-Lafitte, em 5 de julho de 1889 e morto em Milly-la-Forêt, em 11 de outubro de 1963, foi um poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, ator, e encenador de teatro francês. Em conjunto com outros surrealistas da sua geração (Jean Anouilh e René Char, por exemplo), Cocteau conseguiu conjugar com maestria os novos e velhos códigos verbais, linguagem de encenação e tecnologias do modernismo para criar um paradoxo: um avant-garde clássico. O seu círculo de associados, amigos e amantes incluiu Jean Marais, Henri Bernstein, Édith Piaf e Raymond Radiguet. Nascido numa pequena vila próximo a Paris, Jean Cocteau foi um dos mais talentosos artistas do século XX. Além de ser diretor de cinema, foi poeta, escritor, pintor, dramaturgo, cenógrafo e ator e escultor. Atuou ativamente em diversos movimentos artísticos, nomeadamente o reconhecido Groupe des Six (grupo dos seis) cujo núcleo era Georges Auric (1899–1983), Louis Durey (1888–1979), Arthur Honegger (1892–1955), Darius Milhaud (1892–1974), Francis Poulenc (1899–1963), Germaine Tailleferre (1892–1983). Além destes, outros também tomaram parte, como Erik Satie e Jean Wiéner. Foi eleito membro da Academia Francesa em 1955.

Homossexual pouco dissimulado, foi o autor de Le livre blanc, publicado anonimamente em 1928, mas nunca renegado, e que mais tarde ilustrou, onde em tom confessional relata etnograficamente episódios da vida amorosa na sua juventude. Teve por amantes Jean Le Roy, Raymond Radiguet, Jean Desbordes, Marcel Khill, Jean Marais (seu ator favorito) e Édouard Dermit, entre outros. Dentre os seus amigos destacam-se Pablo Picasso, Max Jacob, Serge Diaghilev, Vaslav Nijinsky, Roland Garros, Marcel Jouhandeau, Jean Genet, Edith Piaf, Christian Bérard, Pierre Bergé, Georges Auric, Valentine Hugo, Coco Chanel, Francine Weisweiller, Colette, entre muitos outros. Cocteau realizou sete filmes e colaborou enquanto argumentista, narrador em mais alguns. Todos ricos em simbolismos e imagens surreais. É considerado um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. As suas peças foram levadas aos palcos dos Grandes Teatros, nos Boulevards da época parisiense em que ele viveu e que ajudou a definir e criar. A sua abordagem versátil e nada convencional e a sua enorme produtividade estética e artística trouxeram-lhe fama internacional e reconhecimento. Muitas das chamadas “lendas urbanas” representam em sua origem, baseadas em fatos sociológicos reais ou preocupações legítimas, no sentido sociológico e filosófico, mas geralmente acabam distorcidas ao longo do tempo. 

Podem ser pequenas histórias de caráter fabuloso ou sensacionalista, amplamente divulgadas de forma oral, hoje por e-mails, pela mídia e que constituem um tipo de manifestação. São frequentemente narradas como sendo fatos acontecidos a um “amigo de um amigo” ou de “conhecimento público”. Muitas delas já são bastante antigas, outras tendo sofrido apenas pequenas alterações ao longo dos anos. Muitas foram mesmo traduzidas e incorporadas a outras culturas. É o caso, por exemplo, da história da “loira do banheiro”, lenda urbana brasileira que fala sobre o fantasma de uma garota jovem de pele muito branca e cabelos loiros que costuma ser avistada em banheiros. Outras dessas histórias têm origem mais recente. Como as que dão conta de homens seduzidos e drogados em espaços de diversão noturna que, ao acordarem no dia seguinte, descobrem que tiveram um de seus rins cirurgicamente extraído por uma quadrilha especializada na venda de órgãos humanos para transplante. Síndrome de Estocolmo é o nome comumente associado a um estado psicológico particular, em que alguém é submetido há um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu opressor.  Apesar de o termo ser utilizado pelo senso comum na vida, a síndrome não consta entre as patologias psiquiátricas listadas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição DSM-5, havendo relativamente poucas publicações sobre o tema. 

   

Nesse cenário, alguns especialistas preferem tratar a pretendida síndrome como um “mito urbano”, afirmando não haver “base empírica” e uniforme para classificá-la como um distúrbio da mente enquanto tal. Controle mental é um termo genérico para diversas teorias que propõem que os pensamentos de um indivíduo, bem como seu comportamento, emoções e decisões, possam estar sujeitos à manipulação de fontes externas ou não voluntárias. Basicamente, o controle da mente é o controle bem-sucedido dos pensamentos e ações de outro ser humano sem o seu consentimento. O termo também pode ser usado em teorias controversas de manipulação arbitrária do pensamento de um indivíduo, como na esfera política da chamada “lavagem cerebral” do inglês brainwashing. A possibilidade do controle da mente e os métodos para assumi-la, de forma direta ou sutil, são temas para discussões entre psicólogos, neurocientistas e sociólogos. A definição exata do pontom de vista conceitual de controle mental e a extensão de sua influência psíquica e social sobre o indivíduo também são debatidos. A questão tem sido discutida em conjunto com religião, política, prisioneiros de guerra, totalitarismo, manipulação de células neurais, cultos, terrorismo, tortura e alienação paternal. 
Os diferentes pontos de vista sobre o assunto possuem implicações legais. Controle mental foi o tema do caso judicial de Patty Hearst e de julgamentos envolvendo novos movimentos religiosos. O conceito surgiu após um assalto a banco ocorrido em 1973 em Estocolmo, na Suécia. Quatro vítimas, sendo três mulheres, tornaram-se reféns de assaltantes durante seis dias e, como defesas contra a ameaça de violência que pudesse resultar de atos de confrontação aos sequestradores, passaram a se solidarizar com eles. A tal ponto que em tais circunstâncias haverem-se recusado a testemunhar no julgamento subsequentemente realizado, e ainda, terem levantado recursos financeiros para a sua defesa. Uma das vítimas teria ficado “noiva” de um dos sequestradores quando cumpria pena, segundo relatos. Não são todas as vítimas que desenvolvem traumas após o fim da situação. E neste sentido, síndrome de Oslo comparativamente, é um estado psicológico que se desenvolve em pessoas que enfrentam uma situação de grande perigo ou ameaça. Consiste essencialmente num autoengano sobre as verdadeiras intenções da ameaça. Pode passar pela “desculpabilização” do agressor, sendo uma forma de síndrome de Estocolmo ou, inversamente, de auto-culpabilização pela situação. Neste caso a vítima da síndrome de Estocolmo tende a considerar que, de alguma forma, merece aquele determinado castigo.                
Talvez o caso mais famoso e mais característico historicamente do quadro sintomatológico da doença é o que tem sido reconhecido através de Patty Hearst, que desenvolveu a síndrome em 1974, após ser sequestrado durante um assalto a banco realizado pela organização político-militar “Exército de Libertação Simbionesa”. Depois de libertada do cativeiro, Patty Hearst juntou-se aos seus raptores, indo viver com eles e sendo cúmplice em assalto a bancos. A síndrome pode se desenvolver essencialmente: a) em vítimas de sequestro, b) em cenários de guerra, c) sobreviventes de campos de concentração, d) pessoas que são submetidas à prisão domiciliar por familiares, e) também em vítimas de abusos pessoais externos (ruas etc.), f) finalmente, como pessoas submetidas à violência física doméstica e familiar em que a vítima é agredida pelo cônjuge, continua a amá-lo e defendê-lo como se as agressões fossem normais. Historicamenbte a síndrome de Estocolmo pode muito bem ser identificada no âmbito da literatura infantil. Ocorre no clássico conto francês, escrito por Marie le Prince de Beaumont, “A Bela e a Fera”, que narra a história de uma garota bonita e inteligente que é vítima de “cárcere privado” por uma Fera, e por fim desenvolve um relacionamento afetivo e se casa com ela. 

Na série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo” (1996) escrita pelo norte-americano George R. R. Martin, assim como na sua adaptação para a televisão, Game of Thrones (2011), Theon Greyjoy desenvolve um amor por seu raptor e torturador, Ramsay Snow, que o transformou em seu “brinquedo” após castrá-lo e amputá-lo. Na literatura policial, podemos citar o exemplo do livro Stolen, de Lucy Christopher. Nele o personagem, Gemma, é sequestrada por Tyler, o qual a leva para o deserto australiano. A garota tenta escapar em vão. A administração do tempo no encadeamento da relação com o opressor Gemma sente afeto por Tyler, e realmente pode amá-lo. Há correlação da síndrome com dois personagens centrais de “Jogos Mortais”. A jovem ex-drogada Amanda (Shawnee Smith) após ter conseguido concluir uma das provas do cientista e escritor Jigsaw (John Kramer), conquistou a admiração dele por lutar por sua vida e passou a trabalhar para ele, “dando continuidade à sua série de matanças”. No filme “Paranoia”, o personagem Ronnie (Aaron Yoo) fala para Ashley (Sarah Roemer) sobre a síndrome de Estocolmo, após Ashley ter conversado com o assassino da vizinhança, e tê-la convencido de que não era um assassino, achando que Ashley estava apaixonada pelo assassino.             
No filme espanhol Atame! de Pedro Almodóvar, a protagonista Marina se apaixona pelo raptor Ricky e volta a procurá-lo depois de ser libertada para casar-se com ele. A síndrome também está presente no filme The World Is Not Enough, da franquia James Bond, a personagem Elektra King (Sophie Marceau), sequestrada por um terrorista internacional de planos maquiavélicos. Na série de TV Homeland, a personagem de Damian Lewis, Nicholas Brody, durante os 8 anos em que ficou preso, desenvolve uma relação afetiva com seu captor, Abu Nazir, devido a pequenos gestos por parte deste, em meio a torturas físicas e psicológicas. Homeland segue Carrie Mathison, uma oficial de operações da Central Intelligence Agency (CIA) que, depois de conduzir uma operação não autorizada no Iraque, é colocada em liberdade condicional e transferida para o Centro Contraterrorista da CIA em Langley, Virgínia. Enquanto conduzia a sua operação no Iraque, Carrie foi avisada por uma fonte que um prisioneiro de guerra norte-americano passou para o lado da Al-Qaeda. O seu trabalho é complicado quando o seu chefe, David Estes, a chama junto com seus colegas para uma reunião de emergência. Nela, Carrie descobre que Nicholas Brody, um sargento dos Fuzileiros Navais que desapareceu durante o serviço em 2003, foi resgatado durante uma incursão da Delta Force num complexo pertencente a Abu Nazir. Carrie passa a acreditar que Brody é o prisioneiro de guerra que sua fonte tinha falado. 
O governo federal e seus superiores consideraram Nicholas Brody como um herói. Na série de TV norte-americana, “Criminal Minds” a síndrome é inúmeras vezes referidas numa arquetipologia no sentido antropológicos de sequestros, como no episódio “The Company” (Ep. 20 Temporada 7), onde a prima do policial Derek Morgan é submetida à síndrome, devido a ter passado 8 anos submissa ao convívio com seu agressor. Na música, a banda de rock Muse tem canção intitulada: “Stockholm Syndrome”. Entre letras opacas, é perceptível “a influência real da síndrome na discussão lírica proposta pela música e mesmo pela interpretação da mesma”. A banda de punk rock Blink-182 também tem uma música chamada “Stockholm Syndrome”. Além destas, a banda de rock The Who possui uma música chamada “Black Widow`s Eyes”, que tem a síndrome como tema central. A banda inglês-irlandesa, One Direction, também tem uma música chamada “Stockholm Syndrome”, que faz parte de seu álbum de gravação de estúdio intitulado “Four”. Na música percebe-se a “descrição da síndrome de Estocolmo do ponto de vista da vítima”. Homeland segue Carrie Mathison, uma oficial de operações da CIA que, depois de conduzir uma operação não autorizada no Iraque, é colocada em liberdade condicional e transferida para o Centro Contraterrorista da CIA em Langley, Virgínia. Enquanto conduzia a sua operação no Iraque, Carrie foi avisada que um prisioneiro de guerra americano passou para o lado da Al-Qaeda. O seu trabalho é complicado quando o seu chefe, David Estes, a chama junto com seus colegas para uma reunião de emergência. Nela, Carrie descobre que Nicholas Brody, um sargento dos Fuzileiros Navais que desapareceu durante o serviço em 2003, foi resgatado durante uma incursão do Delta Force num complexo pertencente a Abu Nazir chefe do terrorismo. 

Carrie passa a acreditar que Brody é o prisioneiro de guerra que sua fonte tinha falado. Entretanto, o governo federal e seus superiores consideraram Nicholas Brody como um herói. Percebendo que seria quase impossível convencer Estes a colocar Brody sob vigilância, Carrie pede ajuda da única pessoa que ela pode confiar, Saul Berenson. Os dois começam a trabalhar juntos para investigar Brody e impedir um novo ataque em solo norte-americano.De acordo com o verbete do dicionário de psicologia da American Psychological Association, esse conjunto de sintomas é caracterizado por uma resposta tanto mental quanto emocional em que um prisioneiro – um refém, por exemplo – “apresenta lealdade, e até mesmo afeto, pelo seu próprio captor”. A partir disso, pode existir uma visão distorcida daqueles que oferecem ajuda, sendo estes tomados como inimigos, já que a percepção da realidade está confusa. Nestes casos, sendo o captor aquele que detém o poder de “vida ou morte” do prisioneiro, este acaba por desenvolver uma dependência do primeiro, como forma de sobrevivência. Mas se, inicialmente, existia o caráter de defesa, com a progressão da crise ele torna-se uma reação de cópia e de costume. Ou seja, numa relação interindividual que já coloca um em papel social de submissão ao outro, o detentor do poder opta por manter a vida do indivíduo, criando, assim, a percepção de gratidão, fidelidade e até mesmo de carinho pelo captor. 

É um processo social de comunicação que se dá no nível psíquico (mental) e físico (cativeiro) de adaptação, mas pari passu de autodefesa, de sobrevivência humana, em que a vítima “seduz” o agressor para eliminar ou reduzir ameaças externas resultantes da ação que a faz vítima por determinada duração de tempo e produção de confinamento espacial. A consciência está ligada à ação. Esse pressuposto é fundamental na interpretação de Henri Bérgson, pois que permite que se propague a consciência pela cadeia dos seres vivos. - “Então, a rigor, tudo o que é vivo poderia ser consciente: em princípio, a consciência é coextensiva à vida”. A vida, portanto, implica movimento. Do fato de que o movimento autônomo dos seres vivos implica certa sobrevivência do passado. No presente e a antecipação do futuro, poder-se-ia dizer que o movimento implica memória. E memória implica relação com a questão da consciência. A consciência aparece não como uma instância metafísica, mas como o que se da a partir do movimento animado como sua condição e ao mesmo tempo de recurso produzido. Enfim, é importante compreender analiticamente a síndrome de Estocolmo nos dias de hoje porque apresenta relevância cotidiana para milhares de pessoas que vivam relações afetivas em que são feitas vítimas por opressores: a) no âmbito do Estado corporativo, fascista, nazista, stalinista, putinista etc. b) na empresa  em que podem ser chefes, ou trabalhadores corporativos que, principalmente em sociedades patriarcais, praticam atos abusivos e/ou terrorismo psicológicos, diante de greves legais no setor público, ou, c) violência física contra pessoas que estão em uma relação de dependência em relação àqueles. A vítima só consegue a libertação psíquica com ajuda da psicologia e da prática associativa da terapia.

Questões sobre controle mental são levantadas em debates éticos relacionados ao assunto do livre-arbítrio. Enquanto o controle mental continua sendo um assunto controverso, a principal possibilidade de suas influências sobre um indivíduo por métodos como publicidade, manipulação da mídia, propaganda, dinâmicas de grupo e pressão pública são bem pesquisados pela psicologia social são indisputados. Manipulação eletromagnética de neurônios, desde que foi descoberto que células neurais podem ser queimadas sob o estabelecimento de uma voltagem potencial ao redor da membrana da célula, por volta da década de 1930, foi sugerida como uma tecnologia empregada como hipnose em vítimas insuspeitas por agentes do governo norte-americano. Esse tipo de hipnose era empregado durante o sono da pessoa, quando ela desconhece totalmente o que está havendo. O fato de a vítima estar inconsciente disto e, portanto, incapaz de impedir o que está sendo feito faz, deste, o único método onde a hipnose é considerada controle mental propriamente dito. A crença de que alguém esteja sendo manipulado ou controlado por forças externas também é reconhecida como um dos principais sintomas do complexo de paranoia, entre outras psicoses. Geralmente, essas sensações são de invasão ou controle total por entidades diversas como satélites governamentais em órbita, agentes do governo, aparelhos de televisão, animais, alienígenas, ou anjos e demônios. Os que sofrem desse tipo de complexo podem chegar a extremos mesmo com uma total falta de evidências sobre o que poderia estar controlando-as. Terapia psiquiátrica com medicamentos antipsicóticos muitas vezes pode dar fim à paranoia ou pelo menos minimiza-la. 

Em alguns casos, no entanto, especialmente em casos de internação, a pessoa pode ver o tratamento como outra forma de controle mental. A crença de uma pessoa de estar sob controle mental é um indicador da psicose apenas quando isto se torna uma fixação obsessiva. Em 2016, pesquisadores relataram que eles acreditam ser o primeiro esforço bem-sucedido para mexer os dedos individualmente e independentemente um do outro usando um braço artificialmente controlado para controlar o movimento. O conceito surgiu após um assalto a banco ocorrido em 1973 em Estocolmo, na Suécia. Quatro vítimas, sendo três mulheres, tornaram-se reféns de assaltantes durante seis dias e, como defesas contra a ameaça de violência que pudesse resultar de atos de confrontação aos sequestradores, passaram a se solidarizar com eles. A tal ponto que em tais circunstâncias haverem-se recusado a testemunhar no julgamento subsequentemente realizado, e ainda, terem levantado recursos financeiros para a sua defesa. Uma das vítimas teria ficado “noiva” de um dos sequestradores quando cumpria pena, segundo relatos. Não são todas as vítimas que desenvolvem traumas após o fim da situação. 

E neste sentido, síndrome de Oslo comparativamente, é um estado psicológico que se desenvolve em pessoas que enfrentam uma situação de grande perigo ou ameaça. Consiste essencialmente num autoengano sobre as verdadeiras intenções da ameaça. Pode passar pela “desculpabilização” do agressor, sendo uma forma de síndrome de Estocolmo ou, inversamente, de auto-culpabilização pela situação. Neste caso a vítima tende a considerar que, de alguma forma, merece aquele determinado castigo. Talvez o caso mais famoso e mais característico historicamente do quadro sintomatológico da doença é o que tem sido reconhecido através de Patty Hearst, que desenvolveu a síndrome em 1974, após ser sequestrado durante um assalto a banco realizado pela organização político-militar “Exército de Libertação Simbionesa”. Depois de libertada do cativeiro, Patty Hearst juntou-se aos seus raptores, indo viver com eles e sendo cúmplice em assalto a bancos. A síndrome pode se desenvolver: a) em vítimas de sequestro, b) em cenários de guerra, c) sobreviventes de campos de extermínio, d) que são submetidas à prisão domiciliar por familiares, e) também em vítimas de abusos pessoais externos (ruas etc.), f) e, como pessoas submetidas à violência doméstica e familiar em que a vítima é agredida pelo cônjuge, continua a amá-lo e defendê-lo como se as agressões fossem normais.

            A síndrome de Estocolmo pode muito bem ser identificada na literatura infantil. Ocorre no clássico conto francês, escrito por Marie le Prince de Beaumont, “A Bela e a Fera”, que narra a história de uma garota bonita e inteligente que é vitima de “cárcere privado” por uma Fera, e por fim desenvolve um relacionamento afetivo e se casa com ela. Na série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo” escrita pelo norte-americano George R. R. Martin, assim como na sua adaptação para a televisão, “Game of Thrones”, Theon Greyjoy desenvolve um amor por seu raptor e torturador, Ramsay Snow, que o transformou em seu “brinquedo” após castrá-lo e amputá-lo. Na literatura policial, podemos citar o exemplo do livro “Stolen”, de Lucy Christopher. Nele o personagem, Gemma, é sequestrada por Tyler, o qual a leva para o deserto australiano. A garota tenta escapar em vão. A administração do tempo no encadeamento da relação com o opressor Gemma sente afeto por Tyler, e realmente pode amá-lo.
     Há correlação da síndrome com dois personagens centrais de “Jogos Mortais”. A jovem ex-drogada Amanda (Shawnee Smith) após ter conseguido concluir uma das provas do cientista e escritor Jigsaw (John Kramer), conquistou a admiração dele por lutar por sua vida e passou a trabalhar para ele, “dando continuidade à sua série de matanças”. No filme “Paranoia”, o personagem Ronnie (Aaron Yoo) fala para Ashley (Sarah Roemer) sobre a síndrome de Estocolmo, após Ashley ter conversado com o assassino da vizinhança, e tê-la convencido de que não era um assassino, achando que Ashley estava apaixonada pelo assassino. No filme espanhol “Atame!”, de Pedro Almodóvar, a protagonista Marina se apaixona pelo raptor Ricky e volta a procurá-lo depois de ser libertada para casar-se com ele. A síndrome também está presente no filme “The World Is Not Enough”, da franquia James Bond, a personagem Elektra King (Sophie Marceau), sequestrada por um terrorista internacional de planos maquiavélicos.
Na série de TV “Homeland”, a personagem de Damian Lewis, Nicholas Brody, durante os 8 anos em que ficou preso, desenvolve uma relação afetiva com seu captor, Abu Nazir, devido a pequenos gestos por parte deste, em meio a torturas físicas e psicológicas. “Homeland” segue Carrie Mathison, uma oficial de operações da CIA que, depois de conduzir uma operação não autorizada no Iraque, é colocada em liberdade condicional e transferida para o Centro Contraterrorista da CIA em Langley, Virgínia. Enquanto conduzia a sua operação no Iraque, Carrie foi avisada por uma fonte que um prisioneiro de guerra norte-americano passou para o lado da Al-Qaeda. O seu trabalho é complicado quando o seu chefe, David Estes, a chama junto com seus colegas para uma reunião de emergência. Nela, Carrie descobre que Nicholas Brody, um sargento dos Fuzileiros Navais que desapareceu durante o serviço em 2003, foi resgatado durante uma incursão da Delta Force num complexo pertencente a Abu Nazir. Carrie passa a acreditar que Brody é o prisioneiro de guerra que sua fonte tinha falado. Entretanto, o governo federal e seus superiores consideraram Nicholas Brody como um herói.
Na série de TV norte-americana, “Criminal Minds” a síndrome é inúmeras vezes referidas numa arquetipologia de sequestros, como no episódio “The Company” (Ep. 20 Temporada 7), onde a prima do policial Derek Morgan é submetida à síndrome, devido a ter passado 8 anos submissa ao seu agressor. Na música, a banda de rock Muse tem uma canção intitulada “Stockholm Syndrome”. Entre letras opacas, é perceptível “a influência real da síndrome na discussão lírica proposta pela música e mesmo pela interpretação da mesma”. A banda de punk rock Blink-182 também tem uma música chamada “Stockholm Syndrome”. Além destas, a banda de rock The Who possui uma música chamada “Black Widow`s Eyes”, que tem a síndrome como tema central. A banda inglês-irlandesa, One Direction, tem uma música chamada “Stockholm Syndrome”, que faz parte de seu álbum de estúdio intitulado “Four”. Na música percebe-se a “descrição da síndrome de Estocolmo do ponto de vista da vítima”.
Homeland segue Carrie Mathison, uma oficial de operações da CIA que, depois de conduzir uma operação não autorizada no Iraque, é colocada em liberdade condicional e transferida para o Centro Contraterrorista da CIA em Langley, Virgínia. Enquanto conduzia a sua operação no Iraque, Carrie foi avisada por uma fonte que um prisioneiro de guerra americano passou para o lado da Al-Qaeda. O seu trabalho é complicado quando o seu chefe, David Estes, a chama junto com seus colegas para uma reunião de emergência. Nela, Carrie descobre que Nicholas Brody, um sargento dos Fuzileiros Navais que desapareceu durante o serviço em 2003, foi resgatado durante uma incursão do Delta Force num complexo pertencente a Abu Nazir. Carrie passa a acreditar que Brody é o prisioneiro de guerra que sua fonte tinha falado. Entretanto, o governo federal e seus superiores consideraram Nicholas Brody como um herói. Percebendo que seria quase impossível convencer Estes a colocar Brody sob vigilância, Carrie pede ajuda da única pessoa que ela pode confiar, Saul Berenson. Os dois começam a trabalhar juntos para investigar Brody e impedir um novo ataque em solo norte-americano.
De acordo com o verbete do dicionário de psicologia da American Psychological Association, esse conjunto de sintomas é caracterizado por uma resposta tanto mental quanto emocional em que um prisioneiro – um refém, por exemplo – “apresenta lealdade, e até mesmo afeto, pelo seu próprio captor”. A partir disso, pode existir uma visão distorcida daqueles que oferecem ajuda, sendo estes tomados como inimigos, já que a percepção da realidade está confusa. Nestes casos, sendo o captor aquele que detém o poder de “vida ou morte” do prisioneiro, este acaba por desenvolver uma dependência do primeiro, como forma de sobrevivência. Mas se, inicialmente, existia o caráter de defesa, com a progressão da crise ele torna-se uma reação de cópia e de costume. Ou seja, numa relação interindividual que já coloca um em papel social de submissão ao outro, o detentor do poder opta por manter a vida do indivíduo, criando, assim, a percepção de gratidão, fidelidade e até mesmo de carinho pelo captor. É um processo social de comunicação que se dá no nível psíquico (mental) e físico (cativeiro) de adaptação, mas pari passu de autodefesa, de sobrevivência humana, em que a vítima “seduz” o agressor para eliminar ou reduzir ameaças externas resultantes da ação que a faz vítima por determinada duração de tempo e produção de confinamento espacial.
A consciência está ligada à ação. Esse pressuposto é fundamental na interpretação de Henri Bérgson, pois que permite que se propague a consciência pela cadeia dos seres vivos. - “Então, a rigor, tudo o que é vivo poderia ser consciente: em princípio, a consciência é coextensiva à vida”. A vida, portanto implica movimento. Do fato de que o movimento autônomo dos seres vivos implica certa sobrevivência do passado. No presente e a antecipação do futuro, poder-se-ia dizer que o movimento implica memória. E memória implica consciência. A consciência aparece não como uma instância metafísica, mas como o que se da a partir do movimento animado como sua condição e ao mesmo tempo de recurso produzido. Enfim, é importante compreender analiticamente a síndrome de Estocolmo nos dias de hoje porque apresenta relevância cotidiana para milhares de pessoas que vivam relações afetivas em que são feitas vítimas por opressores: a) no âmbito do Estado corporativo, fascista, nazista, stalinista, putinista etc. b) na empresa privada em que podem ser chefes, ou trabalhadores corporativos que, principalmente em sociedades patriarcais, praticam atos abusivos e/ou terrorismo psicológicos, diante de greves legais no setor público, ou, c) violência física contra pessoas que estão em uma relação de dependência em relação àqueles. A vítima só consegue a libertação psíquica de seu algoz com ajuda da psicologia e da prática associativa da terapia. 
Bibliografia geral consultada. 

CHAVES, Ernani, Mito e História: Um Estudo da Recepção de Nietzsche em Walter Benjamin. Tese de Doutorado. Departamento de Filosofia: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1983; FREUD, Sigmund, “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância”. In: Obras Psicológicas Completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1986; Idem, “A Dinâmica da Transferência”. In: Obras Psicológicas Completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1986; CESAROTTO, Oscar, No Olho do Outro. São Paulo: Editoras Iluminuras, 1996; BAQUERO, Marcelo, A Vulnerabilidade dos Partidos Políticos e a Crise da Democracia na América Latina. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000; CLASTRES, Pierre, Arqueologia da Violência. Pesquisas de Antropologia Política. São Paulo: Editora Cosac & Naify, 2004; ERWING, Charles Patrick &; McCANN, Joseph, Minds on Trial: Great Cases in Law and Psychology. New York: Editor Oxford University Press, 2006; AGAMBEN, Georges, O que Resta de Auschwitz. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008; SILVA, Roberto Romano da, O Nome do Ódio. São Paulo: Editora Perspectiva, 2009; ABEL, Marcos Chedid, “Verdade e Fantasia em Freud”. In: Ágora (Rio J.) 14 (1) – jun. 2011; DIDI-HUBERMAN, Georges, Peuples Exposés, Peuples Figurants: L`Oeil de l`Histoire 4. Paris: Les Éditions Minuit, 2012; PINTO, Pedro Arnoldo Henriques Serra, Eu, o Outro e Nossas Circunstâncias: O Legado de Stanislavski para uma Formação Teatral Eticamente Comprometida. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2013; LOURENÇO, Lara Cristina D`Alia; PADOVANI, Ricardo da Costa, “Fantasias Freudianas: Aspectos Centrais e Possível Aproximação com o Conceito de Esquemas de Aaron Beck”. In: Psico – USF. Bragança Paulista, vol. 18, nº 2, pp. 321-328, maio/agosto 2013; SCHMITT, Lara Stresser, Sequestro de Meninas e Síndrome de Estocolmo: Cativeiro, Trauma e Tradução. Dissertação de Mestrado. Departamento de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2013; ALVES, Felipe, “Um Governo com Síndrome de Estocolmo?”. Disponível em: http://economico.sapo.pt/noticias/09/02/2015; entre outros.

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* Sociólogo (UFF), Mestre em Ciências Sociais (UFRJ), Doutor em Ciências do Programa de Doutorado em Comunicação Social da Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).