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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Águas Que Corroem – Sobrevivência & Astúcia em Suspense Policial.

          Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Bertolt Brecht  (1898-1956)                           

         Astúcia da razão (do alemão: List der Vernunft) é uma expressão desenvolvida por Friedrich Hegel para designar o processo pelo qual, ao longo da história humana, realiza-se um propósito racional que não é consciente para os indivíduos que nele atuam. Hegel aplica a noção ao fim último do mundo: a tomada de consciência do espírito sobre sua própria liberdade (cf. Löwith, 1991; Žižek, 2013). Esse fim representa o elemento racional da história e se concretiza através das ações humanas, ainda que estas sejam motivadas por paixões ou interesses particulares. A razão seria “astuciosa” porque permite que tais paixões atuem livremente, mas faz delas instrumentos para alcançar seus próprios objetivos. O custo dessa realização não recai sobre a ideia, e sim sobre os indivíduos que, movidos por seus impulsos, sofrem perdas no processo. Para Hegel, a razão não age diretamente; ela interpõe entre si e a realidade um elemento mediador: as ações humanas. A razão governa o mundo e se realiza gradualmente através do desenvolvimento histórico. A história é o processo racional e necessário pelo qual o espírito se desdobra e se torna consciente. É o “progresso na consciência da liberdade”, chegando a ser chamada pelo filósofo de “obra de Deus”. Os indivíduos, nesse processo, tornam-se servidores de uma necessidade superior que eles não compreendem. Suas ações, movidas por paixões privadas, contribuem para a construção da vida ética e para a realização dos fins do espírito do mundo.  Os conceitos se desenvolvem dialeticamente: um contém o outro e se define em oposição a ele. Assim, o Absoluto se realiza historicamente nas etapas do pensamento do “em si”, “para si” e “em si e para si”. 

        Ao longo do decorrer dos séculos, o espírito absoluto se revela progressivamente, sendo desvelado pelo conhecimento como a essência divina manifestada no mundo.  A natureza é o espírito em sua forma alienada. Deus se manifesta na história humana.  O indivíduo, por meio do Estado a que pertence, está submetido a um destino histórico. Grandes figuras na história social como Napoleão Bonaparte (1769-1821), chamado por Friedrich Hegel (1770-1831) de “espírito do mundo a cavalo” — apenas pressentem o que é necessário em determinado momento. Assim, o homem frequentemente se torna instrumento dessas forças objetivas. Fala-se da astúcia da razão quando alguém age sem perceber que está servindo a um fim maior da história. A pessoa pode acreditar estar perseguindo sua honra, ambição ou carreira profissional, mas, na verdade, age como veículo da racionalidade histórica. De acordo com sua compreensão dos processos históricos, o indivíduo pode tornar-se instrumento consciente ou inconsciente de fins superiores. Assim, a concepção kantiana do ser humano como fim em si mesmo perde centralidade. Hegel foi criticado por atribuir peso excessivo ao Estado e menor ao indivíduo, em contraste com autores iluministas como Kant e Rousseau. Para Hegel, a liberdade não é apenas individual, mas objetiva e social, realizando-se plenamente no Estado que ele define como a “realidade da ideia ética”. Depois da Revolução Francesa, a liberdade torna-se algo realizável para todos apenas nos Estados modernos. Nesse processo de realização da liberdade universal, povos e indivíduos podem ser sacrificados e é nesse sacrifício que se expressa a astúcia da razão. 

          A racionalidade prevalece sobre os interesses individuais. A visão de Hegel provocou críticas tanto de hegelianos de esquerda quanto de Karl Marx, que adotou a dialética, mas rejeitou a noção de um espírito que conduz a história. Para Marx, o motor da história não é a astúcia da razão, mas o trabalho humano e as condições materiais.  A crítica de Theodor Adorno à filosofia hegeliana retomaria esse ponto. Apesar disso, para Hegel o indivíduo não é marionete: sua consciência é fundamental nela residem o trabalho e valor pessoal. Águas Que Corroem (Rust Creek) tem como representação social um filme norte-americano de suspense policial de 2018 dirigido por Jen McGowan e escrito por Julie Lipson. Jen McGowan começou sua carreira como cineasta quando recebeu seu Bachelor of Fine Arts Degree da Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, uma instituição privada de pesquisa de Nova York, Estados Unidos da América. Jen McGowan é uma cineasta norte-americana. No Festival de Cinema South by Southwest de 2014, McGowan ganhou o prêmio Gamechanger por Kelly & Cal, seu primeiro longa-metragem. McGowan é a criadora do filmpowered.com, um recurso internacional de compartilhamento de habilidades, networking e empregos para mulheres profissionais no cinema e na televisão. Jen McGowan começou sua carreira como cineasta quando recebeu seu BFA da Tisch School of the Arts da NYU, estudou cinema e treinou como atriz na Atlantic Theater Company com David Mamet, William H. Macy e Sam Shepard. Nesse período, McGowan trabalhou com companhias RSA/Black Dog, A Band Apart, Killer Films e Propaganda. E em longas-metragens independentes, incluindo o vencedor do Oscar Boys Don`t Cry.                                

McGowan recebeu uma bolsa da The Cáucus Foundation para seu filme de tese, Confessions of a Late Bloomer (2005), que começou sua trajetória em festivais no Tribeca Film Festival. McGowan dirigiu então o curta-metragem Touch, que ganhou o Grande Prêmio do Júri de Melhor Curta-Metragem Narrativo no Festival de Cinema da Flórida de 2010, qualificando o filme para a indicação ao Oscar. McGowan começou o desenvolvimento de Kelly & Cal, sua estreia na direção de longas-metragens, através do projeto First Team na Universidade do Sul da Califórnia, que fomentou projetos para seus ex-alunos. Seu segundo longa-metragem, Rust Creek (Águas Que Corroem), foi distribuído pela IFC Midnight. Ela dirigiu episódios de programas de televisão como The Twilight Zone, Star Trek: Discovery e Titans. Ela é membro Icon da Alliance of Women Directors, membro da filial de Los Angeles da Film Fatales, bolsista da Film Independent e membro da Academia de Televisão. McGowan é copresidente do Programa Squad do Comitê Diretivo Feminino da DGA, a apoiar diretoras da DGA em meio de carreira. Rust Creek (Águas Que Corroem) tem como representação social um filme independente de suspense policial estadunidense de 2018 dirigido por Jen McGowan e escrito por Julie Lipson. 

É baseado em uma história original de Julie Lipson e Stu Pollard. Hermione Corfield estrela como uma estudante universitária que se perde durante uma viagem e é caçada por criminosos que acreditam que ela é uma testemunha de seus crimes na vida cotidiana. Ele estreou no Festival de Cinema de Bentonville de 2018 e foi lançado nos cinemas em 4 de janeiro de 2019. O elenco é formado por Hermione Corfield como Sawyer Scott, Jay Paulson como Lowell Pritchert, Sean O`Bryan como Xerife O`Doyle, Micah Hauptman como Hollister, Daniel R. Hill como Buck, Jeremy Glazer como policial Nick Katz, John Marshall Jones como Comandante Douglas Slattery, Laura Guzman como Charlotte, Virginia Schneider como Donna, Denise Dal Vera como Sra. Gander. Escólio: Sawyer Scott, uma veterana do Center College, recebe uma oferta para uma entrevista de emprego em Washington, D. C. Envergonhado por não conseguir o emprego, Sawyer pula o Dia de Ação de Graças com sua família para viajar para a entrevista sem contar a ninguém sobre seus planos. Depois de encontrar tráfego de feriados na Interestadual 64, ela pega uma rota alternativa, mas a encontra parcialmente fechada. Viajando ainda mais fundo na floresta Apalaches, Sawyer eventualmente se vira, mas é avistada pelos irmãos Hollister e Buck, que estão enterrando um corpo. Preocupados em que ela possa tê-los visto, os irmãos seguem Sawyer e a encontram estudando um mapa de papel durante uma parada repentina na estrada. Oferecendo ajuda, os irmãos per se logo se tornam hostis quando Sawyer rejeita o convite para jantar. Buck e Sawyer são feridos por sua faca durante a luta. Os irmãos a perseguem na floresta por uma curta distância, mas voltam quando a noite cai. Desorientada e ferido, Sawyer passa a noite em uma ravina.

Apalaches são uma cordilheira da América do Norte, contraparte oriental das Montanhas Rochosas, que se estende por quase 3 200 km da Terra Nova e Labrador, no Canadá, ao estado de Alabama, no sudeste dos Estados Unidos. Compõem a barreira natural entre a planície costeira oriental e as planícies interiores da América do Norte. Estão divididas em três grandes regiões fisiográficas (Setentrional, Central e Meridional) e incluem as montanhas Shickshocks e as cadeias de Notre Dame em Quebeque; Long Range, na ilha de Terra Nova; o monte Katahdin no Maine; as Montanhas Brancas de Nova Hampshire; as Montanhas Verdes, que se tornam as Colinas Berkshire em Massachussets, Connecticut e o leste de Nova Iorque. As montanhas Catskill, em Nova Iorque, estão no centro dos Apalaches, assim como o início da cordilheira Cume Azul no sul da Pensilvânia e montanhas Allegheny, no sudoeste de Nova Iorque, Oeste da Pensilvânia e Marilândia e Leste de Ohio. Esta área inclui os Alleghenies da Virgínia Ocidental e Virgínia; a cordilheira Cume Azul, que se estende pela Virgínia e pelo oeste da Carolina do Norte, a ponta Noroeste da Carolina do Sul e a parte Nordeste da Geórgia; as Montanhas Unaca, no Sudoeste da Virgínia, Leste do Tenessi e Oeste da Carolina do Norte das quais as montanhas Great Smoky fazem parte; e os montes da Cumberlândia no Leste do Quentuqui, Sudoeste da Virgínia Ocidental e da Virgínia, Leste do Tenessi e norte do Alabama. Suas maiores elevações estão na divisão Norte, com o Monte Katahdin do Maine (1 606 metros), o monte Washington de Nova Hampshire (1 916 metros) e outros pináculos nas Montanhas Brancas que se elevam acima de 1 525 metros, e na região Sul, onde os picos das Montanhas Negras da Carolina do Norte e das Montanhas Great Smoky do Tenessi-Carolina do Norte se elevam acima dos 1 825 metros) e todo o sistema alcança seu pico mais alto no Monte Mitchell (2 037 metros).

Depois de receber um Relatório de veículo abandonado, o xerife O`Doyle do condado questiona Hollister e Buck, conhecidos criadores de problemas locais, mas eles negam envolvimento com o desaparecimento de Sawyer. Os irmãos mais tarde retornam ao veículo de Sawyer e jogam-no em um aterro na floresta, retomando sua busca por ela. Sawyer encontra os destroços de seu carro e descobre seu telefone celular, mas a bateria do telefone está acabando e não há sinal de celular. Sofrendo de fome, desidratação e perda de sangue, Sawyer perde a consciência perto de um depósito de lixo na floresta e é descoberta por Lowell, um fabricante de metanfetamina que é primo de Hollister e Buck. Lowell trata a perna ferida de Sawyer e oferece a ela comida e água, mas ele a amarra com cordas depois que ela joga soda cáustica em seu rosto em uma tentativa de fuga. Os irmãos chegam para discutir o próximo lote de metanfetamina de Lowell, mas ficam desconfiados quando Lowell os impede de entrar. Depois que os irmãos se vão, Lowell explica que não está mantendo Sawyer como refém, mas esperando que os irmãos entreguem o lote de metanfetamina para que ele possa pegar a caminhonete e levá-la para um local seguro. Sawyer relaxa e se liga a Lowell em  discussão sobre a química envolvida na preparação de metanfetamina, ajudando-o a preparar o lote.   

No escritório do xerife, O`Doyle ordena que o policial Katz ignore o Relatório do veículo desaparecido, mas permite que Katz entre em contato com o proprietário registrado para se acalmar. Quando o comandante Slattery chega, Katz retransmite as informações que reuniu sobre o desaparecimento de Sawyer. Slattery expressa descontentamento com a forma como ele está lidando com o caso e exige ação, irritando O`Doyle que retorna para Hollister e Buck e exige que eles encontrem Sawyer, revelando seu envolvimento com a operação de metanfetamina. Depois que Katz ouve um telefonema entre O`Doyle e os irmãos, ele tenta prender o xerife, mas O`Doyle o mata e faz com que os irmãos se livrem de seu corpo. Quando Slattery retorna, O`Doyle descobre evidências plantadas que implicam Katz no desaparecimento de Sawyer e encobre o assassinato de Katz. Enquanto Slattery mobiliza a polícia estadual, assumindo a investigação de O`Doyle, o xerife sai para ajudar na entrega de metanfetamina dos irmãos, planejando ofuscar o cartel de drogas que está se movendo para a região. Os irmãos chegam a Lowell para pegar o lote de metanfetamina e descobrir Sawyer com ele. Lowell afirma que Sawyer “treinou”, instruindo-a a micro-ondas com uma xícara de café para ele em uma garrafa térmica vista anteriormente como contendo amônia anidra.

O forno micro-ondas explode, matando Buck e ferindo gravemente Lowell e Hollister, mas Lowell protege Sawyer da explosão. Sawyer escapa enquanto o trailer queima, e Lowell luta para dominar Hollister. O`Doyle chega e mata os dois primos, então pega Sawyer. Sawyer reconhece a voz de O`Doyle e percebe que suas intenções são hostis, alertando-o. O” Doyle a leva até o Rust Creek titular e tenta afogá-la, mas ela o esfaqueia com um garfo que escorregou do trailer de Lowell antes. Finalmente livre de seus perseguidores, Sawyer manca com determinação pela estrada enquanto vários carros da polícia estadual convergem atrás dela. O filme estreou no Festival de Cinema de Bentonville em 3 de maio de 2018. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme de Thriller no Festival Internacional de Cinema de San Diego de 2018. Foi lançado para vídeo sob demanda pelos serviços da IFC Midnight Films em 4 de janeiro de 2019. Em 30 de novembro de 2020, Rust Creek estreou na Netflix. O filme ficou mais de uma semana na lista dos dez melhores filmes da Netflix. Rust Creek tem um índice de aprovação de 84% no Rotten Tomatoes com base em 44 avaliações. O consenso crítico do site afirma: “Rust Creek subverte as expectativas com um drama de sobrevivência surpreendentemente em camadas ancorado em um cenário rico e uma atuação principal emocionante de Hermione Corfield”. Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu uma pontuação de 59 de 100 com base em 12 críticos, indicando “revisões mistas ou médias”. Fundada em 1832 por Albert Gallatin (1761-1849), mutatis mutandis, como uma instituição não denominacional exclusivamente masculina perto da Prefeitura, com base em um currículo centrado em educação secular. A universidade mudou-se em 1833 e mantém seu campus principal em Greenwich Village, ao redor do Washington Square Park. 

Desde então, a universidade adicionou uma escola de engenharia no MetroTech Center do Brooklyn e escolas de pós-graduação em Manhattan. A NYU é uma das maiores universidades privadas dos Estados Unidos em número de matrículas, com um total de 51.848 alunos matriculados em 2021. É uma das escolas mais concorridas do país e o processo de admissão é considerado seletivo. Lá, ela estudou cinema e treinou como atriz na Atlantic Theater Company com David Mamet, William H. Macy e Sam Shepard. O filme é baseado em uma história social original de Lipson e Stu Pollard. A atriz Hermione Corfield estrela interpretando o papel de uma estudante universitária que se perde durante uma viagem de carro e passa “a ser caçada por criminosos que acreditam que ela seja testemunha de seus crimes”. O filme estreou no Festival de Cinema de Bentonville de 2018 e foi lançado nos cinemas em 4 de janeiro de 2019 pela IFC Films.  A NYU é um sistema universitário global com campi que conferem diplomas na NYU Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos e na NYU Shanghai na China, e centros de aprendizagem acadêmica em Accra, Berlim, Buenos Aires, Florença, Londres, Los Angeles, Madri, Paris, Praga, Sydney, Tel Aviv, Tulsa e Washington, DC. O corpo docente e os ex-alunos, atuais e antigos, incluem 39 laureados com o Prêmio Nobel, 8 vencedores do Prêmio Turing, 5 medalhistas Fields, 31 bolsistas MacArthur, 26 vencedores do Pulitzer, 3 chefes de Estado, 5 governadores, 12 senadores e 58 membros da Câmara dos Representantes dos Unidos da América. Albert Gallatin (1761–1849) secretário do tesouro sob Thomas Jefferson (1743-1826) e James Madison, declarou sua intenção de estabelecer “nesta imensa e crescente cidade (...) um sistema de educação racional e prática, adequado e graciosamente aberto a todos”. 

Uma “convenção literária e científica” de três dias, realizada na Prefeitura em 1830 e com a presença de mais de 100 delegados, debateu os termos de um plano para uma nova universidade. Esses nova-iorquinos acreditavam que a cidade precisava da universidade voltada para jovens admitidos com base no mérito, e não em direito de nascimento ou classe social. Em 18 de abril de 1831, a instituição que se tornaria a NYU foi fundada com o apoio de “um grupo de proeminentes moradores da cidade de Nova York, incluindo comerciantes, banqueiros e negociantes”. Gallatin foi eleito seu primeiro presidente. Em 21 de abril de 1831, a nova instituição recebeu sua carta constitutiva e foi incorporada como Universidade da Cidade de Nova York pela Assembleia Legislativa do Estado de Nova York; documentos mais antigos frequentemente se referem a ela por esse nome. A universidade é popularmente reconhecida como Universidade de Nova York desde sua fundação e foi oficialmente renomeada como Universidade de Nova York em 1896. Em 1832, a NYU realizou suas primeiras aulas em salas alugadas do Clinton Hall, um prédio de quatro andares situado perto da Prefeitura. Em 1835, foi fundada a Faculdade de Direito, a primeira escola profissional da NYU. Embora o ímpeto para fundar uma nova escola tenha sido em parte uma reação dos presbiterianos evangélicos (cf. Weber, 2003) ao que eles percebiam como o episcopalismo do Columbia College, a NYU, entretanto, foi criada não-denominacional, ao contrário de muitas faculdades norte-americanas.

Debates e propostas sobre a fundação de uma universidade na Província de Nova Iorque começaram a ascender em 1704, quando o então governador Lewis Morris escreveu à Sociedade para Propagação do Evangelho no Exterior - o corpo missionário da Igreja da Inglaterra, tentando persuadi-los de que Nova Iorque era o local ideal para a construção de uma instituição educacional superior. Contudo, somente após a fundação da Faculdade de Nova Jérsei (atual Universidade Princeton), na margem oposta do Hudson, as autoridades da cidade de Nova Iorque consideraram seriamente a fundação de uma universidade própria. Em 1746, a assembleia geral de Nova Iorque aprovou um ato de levantamento de fundos para financiar a nova instituição. Em 1751, a assembleia elegeu uma comissão de dez moradores da região, sete dos quais eram membros da Igreja da Inglaterra, para dirigir os fundos angariados na fundação da faculdade. As primeiras aulas ocorreram em julho de 1754, ministradas pelo primeiro presidente da universidade, Dr. Samuel Johnson. Johnson era o único instrutor da primeira classe da faculdade, que consistia somente em oito docentes. A primeira sede da instituição funcionou num prédio anexo à Igreja da Trindade, hoje na porção sul da Broadway, em Manhattan. Tendo como data oficial de fundação o dia 31 de outubro de 1754, a instituição foi “batizada como King`s College por carta régia de Jorge II da Grã-Bretanha”, tornando-se a primeira instituição de nível superior do estado de Nova Iorque e a quinta a ser fundada no país. Em 1763, Johnson foi sucedido por Myles Cooper, um graduado do The Queen`s College de Oxford e um defensor ferrenho do partido Tory.

 No tenso cenário política da Revolução Americana, seu principal oponente ideológico foi um docente da classe de 1777, Alexander Hamilton (1755/1757-1804). Quando da eclosão da Guerra da Independência em 1776, a faculdade suspendeu suas atividades por oito anos. A suspensão permaneceu durante a ocupação de Nova Iorque pelas tropas britânicas até a sua rendição e partida em 1783. Durante a campanha militar, a biblioteca da universidade foi loteada e seu prédio utilizado como hospital militar por tropas americanas e britânicas. Após o conflito, a liderança expulsou os Lealistas da universidade, que teve seu nome modificado para Columbia College, visando reforçar os ideais nacionalistas americanos. Os Lealistas, por sua vez, liderados pelo Bispo Charles Inglis (1734-1816), fundaram o King`s Collegiate School, em Windsor. Na década de 1780, o nome da instituição foi modificado para homenagear Colúmbia, personificação do ideal revolucionário americano. Após o período revolucionário, a universidade voltou-se ao estado de Nova Iorque na tentativa de restaurar seus anos de atividade, prometendo modificar o que fosse necessário para suprir as demandas estaduais. A legislatura concordou em assistir financeiramente à faculdade e, em 1° de maio de 1784, aprovou “um ato concedendo certos privilégios à instituição anteriormente conhecida como King`s College”.

O ato estabeleceu uma Comissão de Regentes com finalidade de supervisionar a reestruturação da faculdade e, numa tentativa de demonstrar seu apoio ao governo federal emergente, a legislatura estipulou que “a faculdade na Cidade de Nova Iorque a partir de então seria chamada e conhecida pelo nome Columbia College”, uma referência à personificação da América. A Comissão de Regentes concluiu a constituição da faculdade em fevereiro de 1787 e, logo em seguida, elegeu um comitê revisor, liderado por John Jay e Alexander Hamilton. Em abril do mesmo ano, uma nova carta foi adotada pela instituição, sendo a que se mantém até a atualidade. Em 21 de maio de 1787, William Samuel Johnson, filho de Samuel Johnson, foi eleito por unanimidade para a presidência do Columbia College. Antes de presidir a universidade, Johnson havia sido membro do Primeiro Congresso Continental e delegado na Convenção de Filadélfia. Durante certo período na década de 1790, em que Nova Iorque foi capital federal e estadual, a universidade voltou ao seu auge. George Washington (1732-1799) e John Adams (1735-1826), os primeiros presidente e vice-presidente, ipso facto, presentes na cerimônia de inauguração da universidade em 6 de maio de 1789. Columbia sempre figurou entre as 20 melhores instituições de Ensino Superior do mundo globalizado e recentemente, 2014, foi considerada a 4º melhor universidade dos Estados Unidos, segundo o US News & World Report, e como a 12º melhor universidade do mundo pelo Times Higher Education.

A universidade tem mais de 132 000 m² só no seu campus principal. Columbia é dividida em várias escolas de graduação/profissionais como por exemplo: Columbia College (CC), The Fu Foundation School of Engineering and Applied Sciences (SEAS), The School of General Studies (GS), The Business School (BS), entre outras. Além do campus principal há o campus de Ciências Médicas, localizado no bairro de Washington Heights. Várias residências estudantis estão localizadas dentro do próprio campus e o alojamento nestas é garantido a todos os alunos de graduação. A universidade atualmente opera postos de pesquisa em 8 localidades ao redor do mundo, com o objetivo de fomentar e facilitar a troca de conhecimento e propor soluções para problemas globais. Os primeiros centros foram inaugurados em março de 2009 em Pequim e Amã, sendo em seguida inaugurados centros em Paris e Bombaim, em março de 2010, e Nairóbi, em janeiro de 2012. Outros centros foram abertos em Istambul, Santiago e Rio de Janeiro, Brasil em 2012 e 2013, respectivamente. Não queremos perder de vista que a Sociedade Americana de Química foi fundada em 1876 na NYU. Logo após sua fundação, tornou-se uma das maiores universidades do país, com 9.300 alunos matriculados em 1917.        

A universidade adquiriu um campus em University Heights, no Bronx, devido à superlotação no antigo campus. A NYU também desejava acompanhar o desenvolvimento da cidade de Nova York em direção ao norte. A mudança da NYU para o Bronx ocorreu em 1894, liderada pelos esforços do Chanceler Henry Mitchell MacCracken (1840-1918). O campus de University Heights era muito mais espaçoso do que seu antecessor. Como resultado, a maior parte das operações da universidade, juntamente com a Faculdade de Artes e Ciências e a Escola de Engenharia, foram instaladas lá. As operações administrativas da NYU foram transferidas para o novo campus, mas as escolas de pós-graduação da universidade permaneceram em Washington Square. Em 1914, o Washington Square College foi fundado como a faculdade de graduação da NYU no centro da cidade. Em 1935, a NYU inaugurou o “Nassau College-Hofstra Memorial da Universidade de Nova York em Hempstead, Long Island”. Esta extensão universitária mais tarde se tornaria uma Universidade Hofstra totalmente independente. Em 1950, a NYU foi eleita para a Associação de Universidades Americanas, uma organização sem fins lucrativos de universidades de pesquisa públicas e privadas líderes. A crise financeira atingiu o governo da cidade de Nova York no final da década de 1960 e início da década de 1970, e os problemas se espalharam para as instituições da cidade, incluindo a NYU.

Sentindo a pressão econômica da falência iminente, o presidente da NYU, James McNaughton Hester (1924-2014), negociou a venda do campus de University Heights para a City University of New York, o que ocorreu em 1973. Neste ano, a Escola de Engenharia e Ciências da Universidade de Nova York fundiu-se com o Instituto Politécnico do Brooklyn, que eventualmente se fundiu novamente com a NYU em 2014, formando a atual Escola de Engenharia Tandon. Após a venda do campus do Bronx, o University College fundiu-se com o Washington Square College. Na década de 1980, sob a liderança do presidente John Brademas, a NYU lançou uma campanha de um bilhão de dólares liderada por Naomi B. Levine (1923-2021) e gasta quase inteiramente na modernização das instalações. A campanha estava prevista para ser concluída em 15 anos, mas acabou sendo concluída em 10. Em 1991, Lawrence Jay Oliva (1933-2014) foi empossado como o 14º presidente da universidade. Após sua posse, ele iniciou a formação da Liga das Universidades Mundiais, uma organização internacional composta por reitores e presidentes de universidades urbanas em seis continentes. A liga e seus 47 representantes se reúnem a cada dois anos para discutir questões globais na educação. Em 2003, John Sexton lançou uma “campanha de 2,5 mil milhões de dólares para serem gastos especialmente em recursos para o corpo docente e para o auxílio financeiro”.

Sob a liderança de Sexton, a NYU também começou a sua transformação numa universidade global, incluindo a abertura de um campus em Abu Dhabi em 2010. Empréstimos hipotecários concedidos pela universidade a alguns administradores e professores foram criticados após a publicação de reportagens em agosto de 2013, que detalhavam os termos dos empréstimos, incluindo o fato de a instituição ter concedido alguns com taxas de juros próximas de zero por cento e outros que foram parcialmente perdoados. De forma singular entre as universidades, a instituição também concedeu empréstimos multimilionários para casas de férias de luxo. O presidente Sexton renunciaria ao cargo no final de seu mandato em 2016, após um voto de desconfiança em março de 2013, seguido de perto por controvérsia sobre ter recebido um empréstimo para uma casa de férias da NYU. Em agosto de 2018, a Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque anunciou que iria oferecer bolsas de estudo integrais a todos os alunos atualmente e futuros do seu programa de Medicina, independentemente da necessidade ou do mérito, tornando-se a única escola de medicina entre as 10 melhores dos Estados Unidos a fazê-lo.  Na primavera de 2022, o presidente Andrew D. Hamilton anunciou que o ano letivo de 2023 seria o seu último e que ele retornaria à pesquisa. Ele foi sucedido por Linda G. Mills, a primeira presidente mulher da universidade.

Bibliografia Geral Consultada.

BENJAMIN, Walter, L`Opera d`Arte nell`Epoca della Riproducilità Técnica. Turim: Einaudi Editore, 1966; HESTER, James, Universidade de Nova York; A Universidade Urbana Atingindo a Maioridade. Nova York: Sociedade Newcomen na América do Norte, 1971; STOECKEL, Althea Lucille, Presidents, Professors, and Politics: The Colonial Colleges and the American Revolution. Publisher Ball State University. Department of History, 1976; IANNI, Octavio, Dialética e Capitalismo – Ensaio Sobre o Pensamento de Marx. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1982; ADORNO, Theodor, Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985; LÖWITH, Karl, From Hegel to Nietzsche. New York: Columbia University Press, 1991; GITLOW, Abrahm, NYU`s Stern School of Business: A Centennial Retrospective. New York: NYU Press, 1995; MIRANDA, Paulo Henrique Façanha de, Das Palavras à Vida: O Prazer em Max Weber. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2009; ASLAN, Odete, O Ator no Século XX. São Paulo: Editora Perspectiva, 1994; ELIAS, Norbert, A Sociedade dos Indivíduos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1994; Idem, O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Volume 1. 2ª edição. Apresentação de Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011; ŽIŽEK, Slavoj, Menos Que Nada: Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013; FANTA, Daniel, A Neutralidade Valorativa: A Posição de Max Weber no Debate sobre os Juízos de Valor. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Sociologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; LIMA, Bruna Della Torre de Carvalho, Adorno, Crítico Dialético da Cultura. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; BECKER, Howard Saul, Outsiders: Estudo de Sociologia do Desvio. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2019; OLIVEIRA, Helena, “Não Recomendado para Cardíacos: No Prime Vídeo, “Águas Que Corroem” Aposta em Tensão Constante e Escolhas Sem Retorno”. Disponível em: https://www.revistabula.com/17/12/2025BOTELHO, Letícia Olano Morgantti Salustiano, Patriarcado e Capitalismo na Obra de Bertolt Brecht. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2026; entre outros.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Charles Bukowski – Identidade, Estilo Literário & Fascínio de Gerações.

          Se você vai tentar, vá até o fim, caso contrário, nem comece”. Charles Bukowski  

          Henry Charles Bukowski, nascido Heinrich Karl Bukowski; em Andernach, uma cidade da Alemanha, localizada no distrito de Mayen-Koblenz, estado de Renânia-Palatinado, em 16 de agosto de 1920 e morto, em Los Angeles, em 9 de março de 1994 foi um poeta, contista e romancista. Sua obra, de caráter inicialmente obsceno e estilo literalmente coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinou gerações que buscavam uma obra com a qual pudessem se identificar. Filho do soldado teuto-americano Heinrich Bukowski e de Katharina (nascida Fett), aos três anos mudou-se para os Estados Unidos com seus pais. Foram inicialmente para Baltimore em 1923, depois para o subúrbio de Los Angeles. Com um pai autoritário e frustrado e uma mãe submissa, sofria, frequentemente, abusos físicos e psicológicos paternos. Seus pais conheceram-se em Andernach, na Alemanha, após a 1ª guerra mundial (1914-1918). Na adolescência, surgiram inflamações que cobriram o rosto e toda a parte superior do corpo, fazendo-o submeter-se a tratamentos médicos no hospital público de sua cidade. Na escola, a situação também não era das melhores, tendo poucos amigos e sendo, o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol. Por causa do tratamento médico, abandonou temporariamente a escola, voltando um ano depois. Descobriu duas coisas que ajudaram a tornar a sua vida suportável: o álcool e os livros.

Em 1939, começa a frequentar aulas de arte, jornalismo e literatura na Los Angeles City College, ganha uma máquina de escrever de seu pai e logo se põe a escrever. Mas, por causa de seus escritos e contos, seu pai o expulsa de casa. Morando em pensões e sem emprego, abandonou as aulas que frequentava na LACC. Com problemas com o alcoolismo, trabalhou em empregos temporários em várias cidades americanas como faxineiro, frentista e motorista de caminhão. Em 1944, aos seus 24 anos, seu conto Consequências de uma longa “carta de rejeição” foi publicado na revista Story. Dois anos depois, o conto 20 tanques de Kasseldown (1946) foi publicado no terceiro volume da revista Portfolio: An Intercontinental Quarterly, em edição limitada com curadoria de Caresse Crosby (1892-1970), nascida Mary Phelps Jacob foi a beneficiária de uma patente para o primeiro sutiã moderno de sucesso, uma patrona norte-americana das artes, uma editora e a mulher que a revista Time chamou de “madrinha literária da Geração Perdida de escritores expatriados em Paris”. Ela e seu segundo marido, Harry Crosby (1898-1929), foi um extraordinário poeta, editor e bon vivant americano, praticamente esquecido com o trabalho de poeta, mas, conforme Jerome Rothenberg (1931-2024), um dos intelectuais precursores na dinâmica da chamada poesia concreta, ao lado do poeta E. E. Cummings (1894-1962), entre outros. Los Angeles City College (LACC) é uma faculdade comunitária pública em East Hollywood, Califórnia. Parte do Los Angeles Community College District, está localizada na Vermont Avenue, ao Sul da Santa Monica Boulevard, no antigo campus da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). 

De 1947 a 1955, a faculdade compartilhou seu campus com a California State University, Los Angeles (Cal State LA), então reconhecida como Los Angeles State College of Applied Arts and Sciences (LASCAAS), antes que a universidade se mudasse para seu atualmente campus de 175 acres (71 ha) na seção Nordeste da cidade de Los Angeles, 5 milhas (8 km) a Leste do Civic Center. O campus do LACC era originalmente uma fazenda fora de Los Angeles, de propriedade de Dennis Sullivan, Dennis um matemático estadunidense. Ele uniu a teoria do caos e os espaços geométricos. Dennis Sullivan recebeu o Prêmio Abel de 2022, por suas contribuições nos campos de topologia e sistemas dinâmicos. É um dos nove campi universitários separados do Los Angeles Community College District. Quando a Pacific Electric Interurban Railroad conectou o centro de Los Angeles e Hollywood em 1909, a área começou a se desenvolver rapidamente. Em 1914, o Conselho de Educação de Los Angeles mudou a Escola Normal dos Professores para o local. O campus do Romanesque Italiano se tornou o campus original da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) em 1919. Precisando de mais espaço, a UCLA mudou-se para sua localização em Westwood em 1929. Em 9 de setembro de 1929, o campus abriu as portas como Los Angeles Junior College com mais de 1.300 alunos e 54 professores. Mas mudou seu nome para Los Angeles City College em 1938. A California State University, Los Angeles (Cal State LA) foi fundada em 2 de julho de 1947 por um ato da legislatura da Califórnia e abriu para aulas como Los Angeles State College (LASC) no campus do Los Angeles City College. Como presidente do LACC, Peter Victor Peterson (1892-1979) se tornou o presidente interino da faculdade estadual.  

Filho de uma família de ricos banqueiros, participou como voluntário na 1ª Guerra Mundial (1914-18), onde dirigia ambulâncias. Escapando de forma surpreendente de um ataque da artilharia alemã que destruiu o carro que guiava em um episódio da guerra, completamente ileso, Harry Crosby declarou que naquele momento deixará de ser um garoto e transforma-se em um homem. Casando-se após a guerra com Mary Polly Peabody (1803-1891), em Boston, vai viver em Paris e funda, juntamente com a esposa, uma editora chamada Black Sun Press, vivendo do lucro da empresa e da publicação de sua poesia. Foi uma editora de língua inglesa reconhecida por publicar as primeiras obras de muitos escritores modernistas, incluindo Hart Crane, D.H. Lawrence, Archibald MacLeish, Ernest Hemingway e Eugene Jolas (1894-1952). Ela teve maior longevidade entre as várias editoras expatriadas fundadas em Paris durante uma década de 1920, publicando quase três vezes mais títulos do que Edward Titus sob sua Black Manikin Press. Expatriados americanos que viviam em Paris, Harry Crosby e a esposa Caresse Crosby (1892-1970), inventora do sutiã moderno (cf. Lima, 2022), fundaram a editora para publicar seu próprio trabalho em abril de 1927 a Éditions Narcisse. Eles acrescentaram isso em 1928, quando imprimiram uma importante edição limitada de 300 cópias numeradas de “A Queda da Casa de Usher” de Edgar Allan Poe. Eles gostaram da recepção tipicamente social que seu trabalho inicial recebeu e decidiram expandir a editora para atender outros autores, renomeando a empresa para Black Sun Press, seguindo a obsessão de Harry pelo simbolismo do Sol. A Terra é o terceiro planeta próximo do Sol, mais denso e quinto dos oito do Sistema Solar. É também o maior dos quatro planetas telúricos.

Vale lembrar que O Escaravelho de Ouro tem como representação um conto do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, publicado em 1843. O enredo é sobre William Legrand, que descobriu um inseto incomum de cor dourada e ficou obcecado. Seu servo, chamado Júpiter, teme que Legrand esteja ficando louco e vai até o amigo de Legrand, um narrador não identificado, que concorda em visitar seu velho amigo. Legrand os puxa para uma aventura depois de decifrar uma mensagem secreta que os levará a um tesouro enterrado. A história ambientada na Ilha de Sullivan, na Carolina do Sul, Estados Unidos da América, é frequentemente comparada aos “contos de raciocínio” de Poe, como uma das primeiras formas de ficção policial. Poe tomou conhecimento do interesse do público pela escrita secreta em 1840 e pediu aos leitores que desafiassem suas habilidades como decifrador de códigos. Ele aproveitou a popularidade da criptografia enquanto escrevia “O escaravelho de Ouro”, e o sucesso da história técnica e socialmente gira em torno de um desses famosos criptogramas. Os críticos modernos julgaram a caracterização do servo de Legrand, Júpiter, como “racista”, especialmente por causa de seu discurso dialetal. O discurso dialetal é uma variedade linguística regional que coexiste com a língua padrão. O termo dialeto surgiu na Grécia antiga, onde a língua grega apresentava diferenças regionais. A variação dialetal ocorre devido a diversos fatores, como: região onde vive o usuário; grupo social; classe social; geração; sexo; grau de escolaridade; função exercida na sociedade. Um exemplo de dialeto no Brasil é o caipira, que é uma forma de se expressar própria do interior de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e Paraná. O continuum dialetal é um termo que se refere ao conjunto de dialetos falados em uma área geográfica extensa. Nesses dialetos, as diferenças são pequenas nas regiões próximas, mas a inteligibilidade mútua diminui à medida que a distância aumenta. 

Poe apresentou “O Escaravelho de Ouro” como inscrição para um concurso de escrita patrocinado pelo Philadelphia Dollar Newspaper. Sua história ganhou o grande prêmio e foi publicada em três episódios, começando em junho de 1843. O prêmio também incluiu US$ 100, provavelmente a maior quantia que Poe recebeu por uma de suas obras. Um sucesso instantâneo, “O escaravelho de Ouro” foi a obra em prosa de Poe mais popular e amplamente lida durante sua vida. Também ajudou do ponto de vista comunicativo a popularizar os criptogramas e a escrita secreta. Na literatura autores notaram a extrema confusão que reina na demasiado rica terminologia do imaginário social: signos, imagens, símbolos, alegorias, emblemas, arquétipos, esquemas (schémas), esquemas (schèmes), ilustrações, representações, diagramas e sinepsias são termos empregados pelos analistas do imaginário social. O esquema é uma generalização dinâmica e afetiva da imagem, constitui a factividade e a não-substantividade geral do parcours imaginário. O esquema aparenta-se ao que Jean Piaget, na esteira de Herbert Silberer, chama “símbolo funcional” e ao que Gaston Bachelard na filosofia chama de “símbolo motor”. Faz a junção dos gestos inconscientes da sensório-motricidade, entre as dominantes reflexas e as representações. São esses que na antropologia do imaginário formam o “esqueleto dinâmico”, o esboço funcional da imaginação. A diferença entre os gestos reflexológicos que Gilbert Durand descreve analogamente e os esquemas é que estes já não são apenas abstratos engramas teóricos, mas trajetos sociais encarnados em representações concretas bem mais precisas. Os gestos diferenciados em esquemas vão determinar, em contato com o ambiente natural e social, os grandes arquétipos que Carl Jung os definiu. Os arquétipos constituem as substantificações dos esquemas. E vai buscar esta noção em Jakob Burckhardt e faz dela sinônimo de origem primordial, de enagrama, de margem original, de protótipo social.

O pensador evidencia claramente o caráter de trajeto antropológico dos arquétipos quando escreve que a imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz respeito também a certas condições inferiores da vida do espírito e da dinâmica da vida em geral. Bem longe de ter a primazia sobre a imagem, a ideia seria tão-somente o comprometimento pragmático do arquétipo imaginário num contexto histórico e epistemológico dado. Neste sentido, o mito representa um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema tende a compor uma narrativa. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias culturais. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do modo que o arquétipo promovia a ideia, o símbolo o nome, concordamos com Gilbert Durand que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem anteviu Émile Bréhier, a “narrativa histórica e lendária”.  Foi este princípio, que Carl Jung sentiu abrangido por seus conceitos de “Arquétipo” e “Inconsciente coletivo”, justamente o que uniu o médico psiquiatra Jung ao físico Wolfgang Pauli, dando início às pesquisas interdisciplinares em física e psicologia. A sincronicidade, vale lembrar, se manifesta muitas vezes atemporalmente e/ou em eventos energéticos acausais, e em ambos são violados princípios associados ao paradigma científico vigente.

Nesta démarche Christophe Dejours é considerado o “pai da psicanálise do trabalho”, a disciplina que estuda as relações psíquicas do homem com seu trabalho, as realizações e o sofrimento nelas envolvidas e as estratégias de defesa para lidar com as diversas aflições, com suas repercussões no corpo e no estabelecimento da identidade individual. Na confluência destas duas amplas áreas de estudo está o corpo. Sua primeira publicação sobre o assunto data de 1986, quando delimita cuidadosamente a diferença entre o corpo biológico e o corpo erótico (cf. Dejours, 2019), resultado do trabalho de representação do corpo biológico no psiquismo, com seu investimento, suas falhas de representação e sua psicopatologia. Dejours parte da subversão libidinal das funções biológicas em proveito da economia erótica, resultado do trabalho de criação do corpo erótico a partir do corpo biológico, que ocorre em função da interação entre o corpo do bebê e a ação comprometida pelo inconsciente de cuidadores. Dessa influência mútua, porém dissimétrica, surge tanto a “ordem erótica” que representa a subjetividade, o fundamento da experiência subjetiva e o lugar eletivo onde se vivencia a subjetividade em si, quanto as falhas da erotização, suas descompensações nos diferentes níveis de psicopatologia, do psicossomático ao psicopata, passando pelo psicótico e pelo paranoico. Ele se dedica a descrever e explicar minuciosamente cada uma destas categorias frente à dinâmica da erotização.  A análise propõe a aporia, teoria alternativa à “escolha de órgão”, chegando à “escolha da função”, como a origem individualmente da orientação de um “alvo orgânico” resultante da “descompensação somática”.

Mormente as estruturas sociais de classe, gênero e etnia são reduzidos às imagens do social e vividos através do meio de reprodução das imagens e de estilo de vida. Observou que os “meios realizadores” estão em coisas muito diferentes às expectativas geradas, e, ainda segundo ele, que atendam satisfações mais superficiais, mas jamais aspectos profundos da vida humana como geralmente propõem. Sob este aspecto radicalizou ao desenvolver a ideia que os indivíduos imersos nas práticas e relações de consumo, não combatem nem condenam, mas exploram ao máximo as tendências figuradas. As sensações imediatas, as experiências ardentes e isoladas, tanto quanto as intensidades da sociedade-cultura de consumo. Sem procurar significados obtém prazer estético de intensidades superficiais. Na ordem da produção, o objeto carece de unicidade e singularidade, pois, objetos tornam-se simulacros indefinidos uns dos outros como objetos, os homens que os produzem. A pretensa objetividade do mundo erigido pela racionalização corresponde à universalização arbitrariamente advindo da generalização da economia política na forma da lei do valor. A partir do código, considerado como sistema de signos generalizados, a simulação opera a inversão das relações entre pessoas, identificada entre o real e sua representação, estabelecendo oposições binárias que permitem a objetividade do discurso e o controle dos objetos.

       O símbolo não sendo já de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão da sociedade. As motivações que os ordenam não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta essencialmente para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos símbolos da imaginação em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, se se parte dos objetos bem definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas “chaves dos sonhos”, segundo as estruturas antropológicas do imaginário, cai-se muito rapidamente, pela massificação das motivações, numa inextricável confusão. Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse humano de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos para os devaneios imaginários. Tais são as classificações sociais mais profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso ou da imaginação de modo geral literária. 

Tanto escolhem como norma classificativa uma ordem de motivação cosmológica e astral, na qual são as grandes sequências das estações, dos meteoros e dos astros que servem de indutores à fabulação, tanto são os elementos de uma física primitiva e sumariamente que, pelas suas qualidades sensoriais, polarizam os campos de força no continuum homogêneo do imaginário individual e coletivo; tanto, enfim, se suspeita que são os dados sociológicos do microgrupo ou de grupos que se estendem aos confins do grupo linguístico que fornecem quadros primordiais para os símbolos. Quer a imaginação estreitamente motivada pela língua ou funções sociais, se modele sobre essas matrizes sociológicas e antropológicas e seus genes raciais intervenham bastante misteriosamente para estruturar os conjuntos simbólicos, distribuindo seja as mentalidades imaginárias, sejam os rituais religiosos, querem ainda, com uma matriz evolucionista, se tente estabelecer uma hierarquia das grandes formas simbólicas e restaurar a unidade no dualismo de Henri Bergson das Deux Sources, quer enfim que atravessando a técnica da psicanálise se tente encontrar uma síntese entre as pulsões de uma libido em evolução e as pressões recalcadoras do microgrupo familiar. São estas diferentes classificações das motivações simbólicas que precisamos criticar na sociedade antes de estabelecer um método pretensamente firme na ordem das motivações.          

A trajetória social evoca um movimento, mas resulta ainda de uma projeção sobre um plano, de uma redução. Estratégia refere-se ao cálculo das relações de força que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder é isolável em um ambiente. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e, portanto, capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta. A nacionalidade política, econômica ou científica foi construída segundo esse modelo estratégico. Para descrever essas práticas cotidianas que produzem sem capitalizar, isto é, sem dominar o tempo, segundo a fenomenologia de Michel de Certeau, impunha-se um ponto de partida por ser o foco exorbitado da cultura contemporânea e de seu consumo: a leitura. Da televisão ao jornal, da publicidade a todas as epifanias mercadológicas, a nossa sociedade canceriza à vista, mede a realidade por sua capacidade de mostrar ou de se mostrar e transforma as comunicações em viagens do olhar. Até a economia, transformada em “semiocracia”, fomenta uma hipertrofia da leitura. O binômio produção-consumo substituído por seu equivalente: escritura-leitura. A leitura da imagem ao texto parece, aliás, constituir o ponto máximo de passividade que caracterizaria a relação de inexorabilidade entre o consumidor, constituído em voyeur (troglodita ou nômade) em uma sociedade do espetáculo.  

Enfim, os gestos diferenciados em esquemas sociológicos vão determinar, em contato com o ambiente natural, os grandes arquétipos mais ou menos como Jung os definiu. Os arquétipos constituem as substantificações essenciais dos esquemas. Esta noção em Jacob Burckhardt é sinônima de “origem primordial”, de “enagrama”, de “imagem original”, de “protótipo”. Metáforas de guerra quando Carl Jung evidencia claramente o caráter de trajeto antropológico dos arquétipos quando escreve: - “A imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz respeito também a certas condições interiores da vida do espírito e da vida em geral”. Este arquétipo, intermediário entre os esquemas subjetivos culturalmente e as reproduções de imagens fornecidas pelo ambiente perceptivo, é como representar o número da linguagem que a intuição percebe. Decerto, Jung insiste, sobretudo, no caráter coletivo e inato das imagens primordiais, mas sem entrar nessa metafísica das origens e sem aderir à crença em “sedimentos mnésicos” acumulados do decurso da filogênese podemos fazer nossa uma observação capital do psicanalista, que vê nesses substantivos simbólicos que são os arquétipos “o estádio preliminar, a zona matricial da ideia”. Contudo, bem longe de ter a primazia sobre a imagem, a ideia seria tão-somente o comprometimento pragmático do arquétipo imaginário num contexto histórico e epistemológico dado. No âmbito da guerra, sublinhamos a importância essencial dos arquétipos que constituem o ponto de junção entre o imaginário individual (os sonhos) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) e os processos racionais. É que pensando assim, com efeito de poder, os arquétipos se ligam a imagens individuais e coletivas diferenciadas pelas culturas e nas quais vários esquemas se vêm imbricar.

Encontramo-nos então em presença do símbolo em sentido estrito, símbolos que assumem tanto mais importância quanto são ricos em sentidos diferentes. No prolongamento dos esquemas explicativos, arquétipos e simples símbolos modernos podem-se considerar o mito. Lembramos, todavia, que não estamos tomando este termo na concepção restrita que lhe dão os etnólogos, que fazem dele apenas o reverso representativo de um ato ritualmente. Entendemos por mito, antropologicamente “um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a compor-se na narrativa”. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a ideia e o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como observou Bréhier, a narrativa histórica e lendária. O método de convergência evidencia o mesmo isomorfismo, comparativamente, na constelação de objeto e propriamente no mito. Enfim, para sermos breves, este isomorfismo dos esquemas, arquétipos e símbolos no seio dos sistemas míticos ou de constelações estáticas pode levar-nos a verificar a existência de protocolos normativos das representações imaginárias, bem definidos e relativamente estáveis, agrupados em torno dos esquemas e filosoficamente a literatura refere-se como estruturas.

Aí se mesclam diversidades e desigualdades de todos os tipos e narrativas, compreendendo manifestações religiosas e linguísticas, mas sempre envolvendo alguma forma de racialização das relações étnicas e sociais. Produzidas ao longo de migrações, escravismos e outras formas de trabalho forçado, convívios pacíficos, conflitos inesperados, pogroms, genocídios, revoluções, guerras. Assim, não é difícil admitir, sociologicamente, que o tribalismo, adormecido por séculos, reacende para destruir nações e nacionalidades. Sempre que há um contexto de crise social, há o risco de que as intolerâncias se acentuem. Aliás, está acontecendo uma incrível “racialização do mundo”, embora ocorram desde as grandes navegações, os acontecimentos nos últimos anos do século XX estão acentuando a intolerância racial em escala mundial. Em 1978 Edward Said publicou a sua obra provavelmente mais reconhecida, Orientalismo, na qual analisa a visão ocidental arquetípica oriental, mais concretamente do mundo árabe. Segundo o autor, o Ocidente criou uma visão distorcida do Oriente como o “Outro”, numa tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo. Na construção do argumento central do livro Said analisou uma série de discursos literários, políticos e culturais que iam desde textos das Cruzadas ou de Shakespeare, nos quais encontrou um denominador comum: a representação dos habitantes do mundo oriental como bárbaros.

O que determina a escolha de um ponto de vista sobre o sujeito e o mundo são os objetivos pragmáticos. Deixamos de lado a posse de uma teoria fundada em exigências lógicas ou achados empíricos incontestáveis. Poder, interesse, dominação, realidade material, são indispensáveis à análise que nos habituaram a aceitar como verdadeira, pela força ou pela persuasão dos costumes. Para efeitos da ação, só existem eventos descritivos. A descrição preferida do intérprete será a mais adequada às suas convicções morais e não a mais iluminada pela razão. Política é regulação da existência coletiva, poder decisório, disputa por posições de mando no mundo, confrontos entre mil formas. Violência em última análise. Assim, é também diferente da produção simbólica porque se exercita sobre o interesse dos agentes sociais, quando não sobre o seu próprio corpo. Não produz mensagens, discursos cotidianos, produz obediências, obrigações, submissões, controles. Poder, na modernidade, é uma relação social de mando e obediência. São decisões tomadas politicamente que se impõe a todos num dado território ou unidade social. Todavia, convertem-se em atividades coercitivas, administrativas, jurídico-judiciárias e deliberativas. Eis a grande questão: o processo político diz respeito a pergunta: - Quem pode o quê sobre quem? A mesma pulsão escópica, analogamente, frequenta a ficção real ou imaginária individual e coletiva que cria leitores, que muda de legibilidade a complexidade urbana. Não é mais suficiente para compreender as estruturas de poder deslocar para os dispositivos e os procedimentos técnicos uma multiplicidade humana, capaz de transformar, disciplinarmente e depois gerir, para consumar o delito: classificar e hierarquizar os desvios concernentes à aprendizagem, saúde, justiça, forças armadas ou trabalho social.

Na política contemporânea o que faz andar são relíquias de sentido e às vezes seus detritos, os restos invertidos de grandes ambições. Nome que no sentido preciso da memória deixaram de ser próprios. Nesses núcleos simbolizadores se esboçam e talvez se fundem três funcionamentos distintos (mas conjugados) das relações políticas entre práticas espaciais e significantes: o crível, o memorável e o primitivo. Em relação ao discurso, reduzindo o signo ao puro jogo dos significantes, anula a relação entre significante e significado necessária ao processo de significação. Assim, diferentemente da ordem da produção, o controle das relações do homem com as “coisas” não mais advém do agir racional-com-respeito-a-fins, pois a predominância do código inaugura o monopólio da palavra como característica básica da dominação contemporânea. Da mesma forma, enquanto técnica de controle do objeto, o processo de simulação opera uma completa inversão, de forma que o real se torne efeito ou reflexo de modelos gerativos. Simulacros e Simulação representam historicamente um tratado filosófico de Jean Baudrillard que discute a relação entre realidade, símbolos e sociedade. Simulacros são cópias que representam níveis de análise que nunca existiram ou que não possuem mais o seu equivalente na realidade. Simulação é a imitação de um processo virtual existente no mundo real. Se a visão de Jean Baudrillard é problemática e pessimista porque não depreende nos mass media a possibilidade real da comunicação e da troca, estando restrita ao encontro “face a face”, por outro lado, ela é profícua na medida em que, já no início da década de 1970, o autor ergue-se contra o domínio da semiologia italiana e francesa, relativizando a prática teórica no que respeita à comunicação social.

Denomina-se “Queima de sutiãs” (“Miss America protest”), ou simplesmente “bra-burning” a um protesto público, com a participação efetiva de cerca de 400 ativistas do Women’s Liberation Movement (WLM) quando da realização do badalado concurso de Miss America, em 7 de setembro de 1968, em Atlantic City, uma cidade turística na costa atlântica de Nova Jérsei, com seu histórico Immigration Museum e a famosa Estátua da Liberdade, reconhecida pela utilidade de uso de vários casinos, pelas grandes praias e pelo icônico Boardwalk, que representa um calçadão de 400 metros repleto de excelentes restaurantes, lojas exclusivas e uma vida noturna glamourosamente agitada pelo consumo da irradiante classe média . Estabelecida no início do século XIX como uma estância de saúde, a cidade está atualmente pontilhada por discotecas e hotéis elevados e resplandecentes. Além dos jogos de azar nas chamadas “slot machines” e nas mesas, os casinos disponibilizam tratamentos de spa, famosos espetáculos de comédia e música e comércio sofisticado nos Estados Unidos da América. Quando os manifestantes também desdobraram com êxito uma grande faixa estampada visivelmente com o tema politizado “Liberação Feminina” dentro do salão de competição, atraíram atenção da mídia mundial e atenção nacionalmente para o Movimento de Libertação das Mulheres.

Este movimento social representou um alinhamento político das mulheres e do intelectualismo feminista que emergiu no final dos anos 1960 e continuou na década de 1980, principalmente nas nações industrializadas do mundo ocidental, que efetuou grandes mudanças políticas, intelectuais, culturais em parte do mundo. O ramo do MLM do feminismo radical, baseado na filosofia contemporânea, incluía mulheres de diversas origens comunitárias raciais e culturais que propunham que a liberdade econômica, psicológica e socialmente era necessária para que as mulheres progredissem de “cidadãs de segunda classe em suas sociedades”. Para alcançar a igualdade das mulheres, o MLM questionou a validade cultural e legal do patriarcado e a validade prática das hierarquias sociais e sexuais usadas para controlar e limitar a independência legal e física das mulheres na sociedade. As mulheres liberacionistas propuseram que o sexismo, ou seja, a discriminação formal e informal legalizada baseada no sexo, consequência da existência da construção social de gênero era o principal problema político com a dinâmica de poder das sociedades. Em geral, o MLM propôs uma mudança socioeconômica da esquerda política, rejeitou a ideia de que a igualdade gradativa, dentro e de acordo com a classe social, eliminaria a discriminação sexual contra as mulheres, e promoveu os princípios do humanismo, especialmente o respeito pelos direitos humanos de todas as pessoas. Nas décadas durante as quais o movimento social de libertação das mulheres floresceu, as chamadas liberacionistas mudaram com sucesso a forma extraordinária como as mulheres em suas lutas, desejos e devaneios eram bem vistas em suas novas formas de culturas, e com “efeito de poder” redefiniram os papéis socioeconômicos e políticos delas na sociedade e transformaram as regras dominantes.

A repórter Lindsy Van Gelder, uma escritora de San Diego cujo trabalho aparece regularmente na Allure, Ms. Magazine, entre muitas outras publicações nacionais, fez uma analogia entre as manifestantes feministas que jogavam sutiãs nas latas de lixo e os manifestantes da Guerra do Vietnã que queimavam seus cartões de alistamento militar. A reportagem foi publicada sob a manchete “Bra Burners and Miss America”. A queima de sutiãs, embora nunca tenham sido realmente incinerados, tornou-se a marca simbólica do protesto e um slogan da Era Feminista. No século XX, a deslocação de mão-de-obra masculina para as frentes de batalha nos dois conflitos mundiais, que exigiu uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho, reacendeu as lutas pelos direitos femininos. Nos Estados Unidos, nas décadas de 1950 e 1960 o movimento tomou força e foi marcado por uma manifestação que chamou a atenção dos meios de comunicação, vindo a tornar-se emblemática. Visando denunciar e acabar com a exploração comercialmente contra as mulheres, as ativistas aproveitaram a realização de um concurso de beleza que era percebido como veículo de visão arbitrária e opressiva em relação às mulheresː o Miss America de 1968. As ativistas dispuseram “arqueologicamente” no chão do local do evento sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquiagens, revistas femininas, espartilhos, cintas e outros objetos que simbolizavam o padrão merceológico de mercado imposto através da manipulação ideológica de beleza feminina. A “queima” nunca chegou a acontecer, e por se tratar de espaço privado, não foi autorizada. A atitude das manifestantes foi incendiária e o evento tornou-se lendário.

A editora publicou obras do amigo de Crosby, Hart Crane, de Kay Boyle, James Joyce, René Crevel e T. S. Eliot, entre outros. No dia 10 de dezembro de 1929, por razões não esclarecidas pela polícia, cometeu suicídio juntamente com uma amante chamada Josephine, em um hotel de Nova Iorque. Apesar disso, algumas fontes afirmam que o poeta vivia basicamente de rendas e que, como seu amigo Hart Crane, teria se suicidado em função do chamado Crash da Bolsa de Nova Iorque, de outubro de 1929, hipótese provável, levando em conta que Crosby era considerado também uma espécie de playboy, reconhecido por gastar enormes quantias de dinheiro que não poderiam ser resultantes do seu trabalho como escritor e editor. Considerado por alguns um “poeta menor” e um representante da chamada Geração Perdida, apesar do trabalho essencialmente de Crosby como editor, sua poesia apresenta em dados momentos literários com características absolutamente vanguardistas, como em “Telephone Directory,” um poema Ready made que não necessita de tradução. Segundo o poeta e crítico literário Jerome Rothenberg, Crosby teria sido um dos precursores da Poesia concreta, sendo negligenciado pela posterior Nova Crítica dos Estados Unidos. Rothenberg escreve: Crosby, cuja Editora Black Sun em Paris primeiro publicou The Bridge, de Crane, um poeta cujas obsessões míticas giravam em torno de deuses & deusas do Sol, que apareceram numa variedade de novas formas poemas prosaicos, encantamentos em versos longos & poesia concreta inicial & poesia-coisa.

Ele compartilha uma posição, fortemente influenciada pelos surrealistas, assim como por experimentalistas da visão/estrutura anteriores como Blake, Rimbaud & Lautreamont, com Eugene Jolas & até com poetas mais jovens como Charles Henri Ford & Parker Tyler. Poemas seus foram incluídos na antologia da poesia de vanguarda dos Estados Unidos da América, organizada por Rothenberg, intitulada: Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914-1945, publicada em 2009. Entretanto, fundaram a Black Sun Press, fundamental na publicação das primeiras obras de muitos autores que mais tarde se tornariam famosos, entre eles Anaïs Nin, Kay Boyle, Ernest Hemingway, Archibald MacLeish, Henry Miller, Charles Bukowski, Hart Crane e Robert Duncan. Não obtendo reconhecimento literário e sem conseguir publicações, Bukowski decepcionou-se com o processo criativo e parou de escrever por quase uma década, época em que se descreve como um “bêbado por dez anos”. Essa década perdida formou a base de suas crônicas semiautobiográficas publicadas posteriormente, bem como para a criação de seu álter ego fictício Henry Chinaski. Em 1952, consegue um emprego de carteiro. Com uma vida errante e úlceras estomacais, bebe em excesso e escreve alucinadamente. Enviou seus trabalhos para as mais diversas editoras literárias independentes dos Estados Unidos, e quase sempre, eram recusados.

A literatura dos Estados Unidos pode ser considerada como um ramo literário distinto, comparativamente, ou como fazendo parte da Literatura inglesa. Entretanto, a editora da revista Harlequin, Barbara Frye, estava convencida de que Bukowski era um gênio. Ela era editora e publicava alguns escritos de Hank Green. Ela o considerava um gênio. Trocaram cartas durante bastante tempo. Em certa altura, ela lhe escreveu dizendo que temia que nunca fosse se casar, pois sofria de uma deficiência que a deixara “sem pescoço”. Bukowski escreveu em resposta: “Eu me casarei”. E, logos após se conhecerem pessoalmente, casaram-se em 29 de outubro de 1955. Mas apenas 2 anos depois em 18 de março de 1958 se divorciaram. Pouco se sabe sobre o que houve com Barbara Frye. Algumas fontes esclarecem que ela e sua filha morreram na Índia, “dado que a Índia pode ser um país perigoso para as pessoas que vão lá despreparadas”. Começaram a se corresponder e, em determinado momento, Frye declarou que nenhum homem nunca se casaria com ela. Bukowski respondeu: “Eu me casarei”. Casaram-se logo depois de se conhecerem pessoal e tão rápido quanto se conheceram, separaram-se.

Na Roma antiga, o gênio representava o espírito ou guia de uma pessoa, ou mesmo de uma gens inteira. Um termo relacionado é genius loci, o espírito de um local específico. Por contraste a força interior que move todas as criaturas viventes é o animus. Um espírito específico ou daimon pode habitar uma imagem ou ícone, dando-lhe poderes sobrenaturais. Gênios são dotados de excepcional brilhantismo, mas frequentemente também são insensíveis às limitações da mediocridade bem como são emocionalmente muito sensíveis, algumas vezes ambas as coisas. O termo prodígio indica simplesmente a presença de talento ou gênio excepcional na primeira infância. Os termos prodígio e criança prodígio são sinônimos, sendo o último um pleonasmo. Deve-se ter em consideração que é perigoso tomar como referência as pontuações em testes de QI quando se deseja fazer um diagnóstico razoavelmente correto de genialidade. Há que se levar em consideração que em todos as pontuações, e em todas as medidas, existe uma incerteza inerente, bem como os resultados obtidos nos testes representam a performance alcançada por uma pessoa em determinadas condições, não refletindo necessariamente toda a capacidade da pessoa em condições ideais. É de crer que, para que o gênio se manifeste num indivíduo, este indivíduo deve ter recebido como herança a soma de poder cognitivo que excede o que é necessário para o serviço da vontade individual, para lembramos de Sussekind (2008), é este excedente que, tornado livre, serve para constituir um objeto liberto de vontade, um claro espelho do ser do mundo.

Através disto se explica a vivacidade que os homens de gênio desenvolvem por vezes até a turbulência: o presente raramente lhes chega, visto que ele não enche, portanto, a sua consciência; daí a sua inquietude sem tréguas; daí a sua tendência para perseguir sem cessar objetos novos e dignos de estudo, para desejar enfim, quase sempre sem sucesso, seres que se lhes assemelham, que estejam à sua medida e que os possam compreender. O homem comum, plenamente farto e satisfeito com a rotina atual, aí se absorve; em todo lado encontra seus iguais; daí essa satisfação particular que experimenta no curso da vida e que o gênio não conhece. - Quis-se ver na imaginação um elemento essencial do gênio, o que é bastante legítimo; quis-se mesmo identificar os dois, mas isso é um erro. O fato é que, seja em que medida for, o certo é o incerto e o incerto é uma estrada reta. O objeto do gênio, considerado como tal, são as ideias eternas, as formas persistentes e essenciais do mundo e de todos os seus fenômenos. Onde reina só a imaginação, ela empenha-se em construir castelos no ar a lisonjear o egoísmo e o capricho pessoal, a enganá-los momentaneamente e a diverti-los; mas neste caso, conhecemos sempre, para falar com propriedade, apenas as relações das quimeras assim combinadas. Talvez ponha por escrito os sonhos da sua imaginação realmente: é daí que nos vêm esses romances ordinários, de todos os gêneros, que fazem a alegria do grande público e das pessoas semelhantes aos seus atores sociais, visto em geral que o leitor sonha que está no lugar do herói, e acha tal representação um lugar bastante agradável.  A história da matemática é uma área de estudo dedicada à investigação sobre a origem das descobertas da matemática e, em uma menor extensão, à investigação dos métodos matemáticos e aos registros etnográficos ou notações matemáticas do passado. A matemática islâmica desenvolveu e expandiu a matemática destas civilizações. Muitos textos gregos e árabes sobre matemática foram rapidamente traduzidos ao Latim, o que contribuiu com o desenvolvimento da matemática na Europa do período medieval.

Dos tempos remotos, antigos à Idade Média, a eclosão da criatividade matemática foi frequentemente seguida por séculos de estagnação. Com o Renascimento, novos progressos técnicos da matemática, interagindo no progresso da disciplina com as novas descobertas científicas, foram realizados de forma crescente, continuando assim decerto sem paixão. A falta de carinho familiar na vida de Charles Bukowski e a humilhação de ter um rosto deformado obrigam-no a fugir. Abandonou a escola para só voltar um ano depois. Neste meio tempo descobriu duas coisas que o ajudaram a tornar a sua vida suportável: o álcool e os livros. Teve problemas comuns com alcoolismo e trabalhou em empregos temporários em várias cidades norte-americanas, como carteiro, frentista e motorista de caminhão apesar de ter estudado jornalismo sem nunca se formar. Bukowski começou a escrever poesias aos 15 anos, mas seu primeiro livro somente foi publicado 20 anos depois em 1955. Em 1962 estreou na prosa caracterizada pela descrição de sua vida pessoal. Escreveu, entre outros livros, “Mulheres”, “Hollywood” e “Cartas na Rua”. Iniciou assim uma vida errante, bebendo em excesso e escrevendo alucinadamente. Os produtos destas noites e mais noites de trabalho eram enviados para as mais diversificadas publicações com opiniões literárias independentes dos Estados Unidos, mas quase sempre recusados. Até este momento, Charles Bukowski era apenas um poeta iniciante - apesar de ter quase quarenta anos. Mas foi a partir de sua separação que começou a surgir a imagem de Bukowski que o tornaria famoso. Jim Christy, autor do livro The Buk Book, disse que ele havia sido um vagabundo, um imprestável, um proletário, um bêbado; bem, que fosse. Outros trabalharam o mesmo território, mas o que diferenciava Bukowski do resto: os Knut Hamsun, Jack London, o escritor anarquista Máximo Gorki (1868-1963) e Jim Tully é que Charles Bukowski era muito engraçado. Trabalhando esta imagem ele conseguiu criar um mito ao seu redor.    

A fisiognomonia teve sua origem na Índia, quando antigos habitantes daquele país estudavam rugas no corpo, as causas e as origens das mesmas. Mais tarde foi levada para a China, onde foi estudada e desenvolvida como diagnóstico e hoje é tida como uma subdivisão da medicina chinesa. Segundo a fisiognomonia os traços sociais da face podem auxiliar em um diagnóstico preciso e ainda indicar um tratamento correto em qualquer área médica, estética, nutricional ou psicológica, e a sua técnica consiste em uma avaliação completa do indivíduo. As marcas e traços que surgem no nosso corpo são registos dos nossos hábitos de vida, podendo servir como indicadores de desequilíbrios diversos. O rosto é movimento. O século XVIII prolonga essa concepção surgida no século anterior e vai dar-lhe uma amplitude e intensidade novas: se a expressão continua sendo movimento do rosto, será agora mais ressaltada a sua vivacidade, a sua energia. Uma estética da mímica do rosto como gesto facial, segundo Courtine e Haroche (2016: 121), desenvolve-se assim na segunda metade daquele século. Encontra-se aí o sensualismo dos filósofos, quer perpassa a fisiognomonia, o teatro, a pintura. Elabora-se um pensamento complexo sobre um tema histórico e pontual, revelando a oposição entre corpo em repouso e corpo em movimento, privilegiado em detrimento daquele. Assim Johann Kaspar Lavater (1741-1801) distingue a “fisiognomonia” que “revela o caráter em repouso da “patognomonia” que detecta “o caráter em movimento”, ressaltando a importância desta última. Assim também para Johann Jakob Engel (1741-1802) ao tomar parte no debate sobre a interpretação do ator teatral, cujo rosto se torna gesto com o nome hoje comum “aparência”. Ele concebe a mímica do ator como verdadeira linguagem do movimento facial, de que temia dar conta com um sistema ordenado de gestos ao mesmo tempo sensíveis e enérgico. A tout court a representação e a percepção do gesto de que “fala” a expressão facial se transformara. Sua linguagem é linguagem interior. A pintura do retrato malgré o ilustra com o ligeiro tremor da tinta pastel nos retratos de Quentin de La Tour, ou Chardin, traduz a delicadeza do movimento fisionômico socialmente.

A linguagem do sentimento possui uma tonalidade e uma temporalidade que lhe são próprias. Assim cada paixão tem sua cor; e cada paixão se decompõe em uma miríade de instantes que se distinguem pelas sutilezas de suas nuances. Um tempo sempre mais fugitivo desliza sobre o rosto e modifica suas percepções. Esse tempo do sensível que no final do século XVIII vê oscilar sobre a fisiognomia é um tempo complexo, que não se reduz à sombra fugitiva do sentimento. Não há, pois, na expressão espontânea do olhar, “nenhum intervalo, or assim dizer, entre o sentimento e seu efeito, ressalta Engel. Mas um domínio absoluto do rosto é quase impossível, no orgânico alguma coisa que escapa ao império da vontade. Uma praga corrói a máscara do cortesão, que cai pouco a pouco em pedaços. O rosto é por vezes tomado pelo movimento interior, faísca instantânea que já percebe, mas ainda não conseguimos identificar. Com efeito, são várias temporalidades cujos períodos se entrecruzam na fisionomia: tempo fulgurante da agitação involuntária, tempo súbito da emoção, tempo efêmero da paixão e ainda o tempo de ciclos mais longos da evolução orgânica, que é o tempo irreversivelmente das metamorfoses sociais da idade sobre o rosto orgânico que lentamente leva o corpo ao seu fim. Neste caso, lembramos de Max Weber num ensaio sobre a objetividade do conhecimento científico-social admite, “fim é a representação de um resultado que se converte em causa de uma ação”.  A expressão é, então, o próprio indivíduo. E, no indivíduo, a expressão é ao mesmo tempo universal e singular. Portanto, não há nada no homem que não seja expressão como ao andar.

Manteve pensadores ilustes como  Ernest Hemingway e Fiódor Dostoiévski como principais influências literárias  afetivamente. Com o escritor russo, aprendeu: “Quem não quer matar seu pai?”. O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra: “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele” merece morrer. Esse ódio por seu pai, na realidade um “alcoólatra violento”, permeia toda a obra do velho “Buk”. Essa capacidade de transformar o dia-a-dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transforma-las em arte é a mágica de Bukowski. Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram Charles Bukowski, alemão que passou a vida nos becos dos Estados Unidos, na composição de toda sua obra. Cada poesia, cada romance e cada conto do escritor traz um pouco da vida do “Velho Safado”, como ficou reconhecido no mundo inteiro. E Howard Sounes é prova disso. O jornalista inglês assina o extraordinário ensaio: “Charles Bukowski - Vida e Loucuras de um Velho Safado” (Editora Conrad); consagrando a biografia considerada como uma das mais completas e sérias do gênero literário. Funcionário dos Correios até os 49 anos, Bukowski sonhou a vida inteira em ser reconhecido pelo seu trabalho como escritor. Dono de um talento nato, o poeta usava a simplicidade e a singularidade dos fatos sociais mais rotineiros e transformava o cotidiano em obra de arte. 

Inconformado e, de forma contumaz, com a garrafa na mão, ele sentava em sua antiga máquina de escrever e, com uma sutileza surpreendente, deixava fluir seus pensamentos sem censura alguma. Uma de suas principais atividades durante anos foi a leitura de suas poesias em universidades e eventos culturais. Sua leitura debochada às vezes provocava escândalos e brigas com a plateia, algumas delas registradas em áudio. Na década de 1980, Bukowski desfrutou de certa fama, convivendo com artistas e tornando-se uma celebridade. Ele morreu de leucemia aos 73 anos, em 9 de março de 1994, e em seu túmulo se lê: “Don´t Try”. Com o tempo, apareceram alguns herdeiros seus na literatura, principalmente na questão do estilo de violência simbólica e despudorado de sua linguagem, e que acabou inclusive tendo desdobramentos no cinema. Mas poucos são aqueles que como ele, vivenciaram e permaneceram com naturalidade na sarjeta, fazendo dela, sua fonte plena de inspiração. De todo aquele inferno imundo e fedido, Bukowski fez o seu paraíso. Está presente em álbuns, músicas, letras, entre outros de bandas musicais, dentre as quais: Anthrax, Apollo 440, Modest Mouse, Leftover Crack, Bad Radio, uma das bandas de começo de carreira de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, Red Hot Chili Peppers, a Lupercais foi formada em 1995, é uma banda envolta na mística da poesia marginal.  Tendo como inspiração a cena gótica e pós-punk inglesa, além de bandas nacionais como Muzak e Finis Africae, a Lupercais se cercava das imagens da literatura maldita, do cinema alternativo e da contracultura que, sem tremor de Charles Bukowski a Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) e inclusivamente a banda Macacos Espaciais, entre muitas outras.

Charles Bukowski vivia em um mundo atormentado e distorcido, quase que totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade transformadora de seu tempo. O escritor nunca fez questão de esconder que seus trabalhos eram, quase sempre, autobiográficos. E sua falta de discrição era tão grande, que durante toda vida teve de lidar com a quebra de laços de amizade. Ele citava, sem qualquer preocupação, nomes e, quando muito inspirado, fazia duras críticas às pessoas que o cercavam. Algumas vezes os personagens “nada fictícios” ficavam sabendo das “peripécias do poeta bêbado após a publicação dos textos”. Sua obra surtiu tanto efeito de poder que alguns de seus contos e romances acabaram sendo adaptados para o cinema por alguns diretores. Inclusive, o próprio Bukowski recebeu diversos convites para escrever argumentos, apesar de assumir que nunca gostou muito de filmes. Bukowski tem sido erroneamente identificado com a geração Beat, por certos temas e estilo correlatos, mas sua vida e obra demonstraram essa inclinação. A cidade de Los Angeles, suas ruas e atmosfera social, foram sua principal influência, tratando de histórias com temas simples, misturando por exemplo “corridas de cavalo, prostitutas e música clássica”. Ele escreveu mais de cinquenta livros, sem contar milhares de publicações baratas para seu público receptor.

Bibliografia Geral Consultada.

PIRES, Paulo Roberto, Hélio Pellegrino - A Paixão Indignada. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará, 1998; BUKOWSKI, Charles, Notas de um Velho Safado. Porto Alegre: L&PM Editores, 2002; BECKER, Harold, Outsiders: Estudos da Sociologia do Desvio. Rio de Janeiro: Editor Zahar, 2008; SUSSEKIND, Pedro, Shakespeare, o Gênio Original. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2008; TOLLINI, Aldo, Lo Zen: Storia, Scuole, Testi. Torino: Giulio Einaudi Editore, 2012; COMPAGNON, Antoine, O Demônio da Teoria. Literatura e Senso Comum. 2ª edição. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2011; CORREDOR, Juan, Charles Bukowski: Retrato de un Solitario. Sevilla: Editora Renacimiento, 2014; BALBY, Luis Fernando Gonçalves, O Trágico em Charles Bukowski. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Departamento de Letras. Centro de Teologia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2014; BARBOSA, Bruno de Paula, Factotum: A Tradução de Bukowski para o Cinema. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Centro de Humanidades. Departamento de Literatura. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2015; POE, Edgar Allan; ALCAZAR, Cesar, O Escaravelho de Ouro. Curitiba: Editora Arte e Letra, 2016; DEJOURS, Christophe, Primeiro, o Corpo: Corpo Biológico, Corpo Erótico e Senso Moral. Porto Alegre: Editora Dublinense, 2019; VELASCO, Samuel, O Conflito entre a Ética Protestante e o Tradicionalismo Laboral em Post office e Factotum, de Charles Bukowski. Dissertação de Mestrado.  Programa de Pós-Graduação em Letras. Centro de Letras e Ciências Humanas. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2019; LIMA, Maria Erlane Mendonça, As Representações Simbólicas do Sutiã para as Discentes da Universidade Federal do Ceará. Trabalho de Conclusão de Curso.  Instituto de Cultura e Arte. Curso de Design de Moda. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2022; DIAS, Pablo Emmanuel Araújo, Mulheres Inventadas: Uma Leitura do Machismo Estrutural no Romance de Charles Bukowski. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade. Campina Grande: Universidade Estadual da Paraíba, 2023; FABBRINI, Fernando, “Bukowski Revisitado”. In: https://www.otempo.com.br//2024/10/10/entre outros.