“Chora, mas seu coração continua
inabalável”. Virgílio, Eneida,
Canto IV (2014).
O Livro de Apocalipse e também chamado de Apocalipse de João, é um livro da Bíblia e o último da seleção do
Cânon bíblico. Foi escrito por João na ilha de Patmos, no mar Egeu. A palavra
apocalipse significa “revelação”. Um apocalipse, na mesma terminologia do
judaísmo e do cristianismo, representa a revelação divina de coisas que até
então permaneciam secretas a um profeta escolhido por Deus. Na maioria das
bíblias em língua portuguesa o título Apocalipse, e não Revelação tornou o
significado da palavra obscuro, sendo usado como sinônimo de “fim do mundo”.
Para os cristãos, o livro possui a previsão dos últimos acontecimentos antes,
durante e após o retorno do Messias de Deus. O objetivo da mensagem
apocalíptica era fornecer estímulo pastoral aos cristãos perseguidos,
confortando, desafiando e proclamando a esperança cristã garantida e certa,
além de ratificar a certeza de que, em Cristo, eles compartilhavam o método
soberano de Deus. Por meio da espiritualidade em todas suas manifestações,
haveriam de alcançar a superação total das forças de oposição à nova ordem que
se estabelecia, pois que essa constituía a vontade do Altíssimo. A literatura
apocalíptica tem uma importância considerável na história da tradição judaico-cristão-islâmica,
ao veicular as crenças como ressurreição dos mortos, o dia do Juízo Final, o
céu, o inferno e outras que são ali referidas de forma mais ou menos explícita
dependendo da leitura.
Uma
pandemia representa uma epidemia de
doença infecciosa que se espalha entre a
população localizada numa grande região geográfica como, por exemplo, um
continente, ou mesmo quase todo o planeta Terra. Uma doença ou condição, não
pode ser considerada uma pandemia somente por estar difundida ou matar um grande
número de pessoas, pois deve também ser infecciosa. O câncer é responsável por
um número grande de mortes, mas não é considerado pandemia porque a doença não
é contagiosa, embora certas causas de alguns tipos de câncer possam ser. A
primeira pandemia reconhecida iniciou na Ásia no verão de 1580 e dentro de 6
meses havia se espalhado para a África e Europa, e em consequência, daí para a
América do Norte. Houve taxas elevadas da doença e uma característica comum a
futuras pandemias de gripe foi relatada no Reino Unido: a ocorrência de várias
ondas de infecção - no verão e outono daquele ano. Além da Gripe, outros tipos
de pandemias têm sido registrados na história, como a pandemia de Tifo no
período histórico de violência das Cruzadas e as de Cólera que têm sido
registradas desde 1816. Houve três pandemias de gripe no século XX: a gripe
espanhola de 1918, a gripe asiática de 1957 e a gripe de Hong Kong de 1968. Nem
todas as pandemias comparativamente têm efeitos sociais tão desastrosos.
As pandemias de 1957 e 1968, respectivamente, provocaram 4 e 2 milhões de
mortes.
A sociedade global ultrapassou a
demografia estatística de 5 milhões de casos do novocoronavírus, conforme a contagem atualizada em tempo real pela
Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos da América (EUA). O Brasil ocupa
o 3° lugar em número total de infectados, com aproximadamente 291,6 mil casos,
e ainda comparado ao sexto no ranking
de vítimas fatais da covid-19, com 18,9 mil. A América Latina concentra em
torno de um terço (1/3) dos 91 mil diagnósticos realizados na última semana,
tornando-se pela primeira vez o continente com mais novos casos de covid-19,
segundo levantamento da agência de notícias Reuters. Os Estados Unidos têm 30%
dos pacientes contabilizados no planeta desde o início da pandemia. O
SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19, já matou 329 mil pessoas desde que foi
identificado em Wuhan, na China, em janeiro de 2020. Desde abril, o planeta
Terra mantém uma média de 1 (hum) milhão de infectados cada duas semanas. Não
há medicamentos com eficácia comprovada contra a covid-19. Mais de 110 pesquisas
produzidas para as vacinas estão em andamento. A fabricação não é autorizada,
mas a OMS recomenda “a higienização das mãos, o uso de máscaras e o
distanciamento social como medidas preventivas”. Mas não é suficiente sem uma mudança radical de comportamento.
O
fechamento temporário de empresas e a paralisação da atividade econômica e burocrática provocadas por tais medidas
deixaram muitos trabalhadores sem renda e as consequências começam a ser
percebidas nos países mais afetados. Por exemplo, a indústria automobilística
registrou uma queda histórica de mais de 70% no mercado francês.
Psicologicamente o pânico e a ansiedade pelo avanço da pandemia retornaram aos
mercados, com perdas expressivas nas bolsas de valores europeias e asiáticas.
Itália e Espanha devem estar próximas do pico de contágios após várias semanas
de confinamento, o ponto máximo ainda não está próximo na América do Norte. Mas
járegistram quase 189 mil contágios, um
número que dobrou em apenas cinco dias. Os ministros das Finanças e presidentes
dos bancos centrais do G20, um grupo
formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores
economias do mundo incluindo a União Europeia. Foi criado em 1999, após as
sucessivas crises financeiras ocorrida nesta década, que se reuniram por
videoconferência, “prometeram ajudar os países mais pobres a suportar o fardo
da dívida e a ajudar os mercados emergentes”. Na semana passada, os líderes
mundiais deste grupo de países mais ricos e emergentes anunciaram que
injetariam US$ 5 trilhões na economia global para dissipar os temores de uma
recessão. Em Wuhan, a cidade de origem da pandemia, as medidas de confinamento
começaram a ser retiradas progressivamente e os primeiros passos ao ar livre de
seus habitantes têm como principal motivação homenagear os mortos.
As
interações humanas ganham corpo nas diversas formas de manifestação de vida
através da arte, filosofia, religião, ciência, como expressão desse caráter
objetivo que a experiência humana, intersubjetivamente constituída assume. Como
o centro da compreensão está na vida como um todo estruturado, mas sempre
resultando da relação entre individualidades, é possível perceber a conexão dos
meios entre a ética e a teoria compreensiva. Em verdade uma determinada concepção
da teoria, se estabelece quando vem permeada lado a lado por um motivo básico:
uma unidade cuja garantia de existência é a presença do sentido. Há uma démarche
que atravessa o homem, e nesta noção de sentido está a marca de uma concessão
fatal a uma metafísica.Nela se desejava
evitar tanto quanto o empirismo dos pesquisadores positivistas, desde que fique
clara a dimensão de ser criador de significados, que se distancia da noção
ampla de vida, mas contém a unidade constitutiva da vivência da experiência
humana. Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma
prática social determinada de acordo com sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de apropriação de
meios administrativos particulares para obtenção de um objetivo particular
autoritário.
Não
está referida a ações articuladas às ideias de reconhecimento externo e
interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como
estratégias balizadas pelas ideias de eficácia e de sucesso no emprego de
determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. A vida no
trabalho é regida pelas ideias de concepção e de gestão de tempo, planejamento,
previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria
existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso,
que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização
privatista, um dado de fato decisivo. A instituição em certa medida sabe, ou
julga saber, por que, para que e onde existe. A vida social deriva
inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão
do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não
tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um
mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros,
depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da
sociedade.
As
novas abordagens sociológicas em termos de classe “c” em seguida de “nova
classe média” constitui a pauta do debate, pós-governos Lula-Dilma pelo volume
dos trabalhos analíticos e estatísticos realizados e pelo impacto de sua linha
interpretativa. Não se trata apenas de uma linha de estudo e de transformação
brasileira, mas de algo que diz respeito as dinâmicas globais. No Brasil, desde
2001, a desigualdade em termos de renda diminuiu regularmente. A renda per
capita dos 10% mais ricos da população aumentou em média de 1,49% ao passo que
a dos mais pobres tem aumentado 6,79%. Isso num movimento oposto ao que
caracterizou os outros BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China, que juntos formam
um grupo político de cooperação intercontinental. Em 14 de abril de 2011, o “S”
foi oficialmente adicionado à sigla para formar o BRICS, após a admissão da
África do Sul. Em consequência, a pobreza diminuiu constantemente desde 2003. -
“Estimamos que, entre 1993 e 2011, 59,8 milhões de brasileiros (o equivalente a
uma République Française) chegaram à condição social de nova classe média”. Mas
a mobilidade chegou mesmo a ritmos consistentes no período conjuntural de 2003
a 2011, quando 40 milhões de brasileiros tornaram-se classe média passando de
65,9 a 105,5 milhões de pessoas, ou seja, um aumento de 60%. Segundo
referências estatísticas, até 2014, mais 12 milhões migraram para a classe “C”
e 7,7 milhões irão para a as classes “B” e “A”. Com exceção do Nordeste, as
classes A, B e C serão a realidade de 75% da população. - “A nova classe média
brasileira é filha da combinação do crescimento com a equidade, que difere de
nossa história pregressa e daquilo que ocorre nas últimas décadas em países
emergentes e desenvolvidos onde a concentração de renda sobe”.
Deixamos
de lado a posse de uma teoria fundada em exigências lógicas ou achados
empíricos incontestáveis. Poder, interesse, dominação, realidade material, são
indispensáveis à análise que nos habituaram a aceitar como verdadeira, pela
força ou pela persuasão dos costumes. Para efeitos da ação, só existem eventos
descritivos. A descrição preferida do intérprete será a mais adequada às suas
convicções morais e não a mais iluminada pela Razão. Política é regulação da
existência coletiva, poder decisório, disputa por posições de mando no mundo,
confrontos entre mil formas. Violência em última análise. Poder, na
modernidade, é uma relação social de mando e obediência. São decisões tomadas
politicamente que se impõe a todos num dado território ou unidade social. Não é
mais suficiente para compreender as estruturas de poder deslocar para os
dispositivos e os procedimentos técnicos uma multiplicidade humana, capaz de
transformar, disciplinar e depois gerir, classificar e hierarquizar todos os
desvios concernentes à aprendizagem, saúde, justiça, forças armadas ou trabalho.
Na política o que faz andar são relíquias de sentido e muitas vezes seus
detritos, os restos invertidos e maculados em torno de grandes ambições. Nome
que no sentido preciso da memória deixaram de ser próprios. Nesses núcleos
simbolizadores se esboçam e talvez se fundem três funcionamentos distintos, mas
conjugados, das relações entre práticas políticas espaciais e significantes: o crível, o memorável e o primitivo.
A
instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia
e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isto significa que a instituição
tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa,
enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de
competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras
palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e
pretende definir uma universalidade seja ela imaginária ou desejável que lhe
permita responder às contradições, impostas pela divisão. Ao contrário, a
organização busca gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado
bruto sua inserção num dos polos da divisão social, e seu alvo não é responder
às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais. A questão
nevrálgica refere-se à pergunta: Como foi possível passar da ideia eficaz da
universidade como instituição à definição como organização prestadora de
serviços? Em primeiro lugar através da passagem da produção de massa e da
economia de mercado para as sociedades de conhecimento baseadas na
comunicação.
Na
esfera de ação política e social é regulação da existência coletiva, poder decisório,
luta entre interesses contraditórios, disputa por posições de mundo, confrontos
mil entre forças sociais, violência em última análise. Só que a produção dos
processos políticos, baseados em instituições sociais como esfera de poder, em
segundo lugar, se diferencia radicalmente da produção econômica porque usam
eventualmente suportes materiais, como armas, livros, processos, papéis onde se
inscrevem as ordens, os atos de gestão e comunicação, as sentenças ou as leis,
mas não é uma produção material no sentido marxista do termo. A concepção
tradicional de assédio moral refere-se à exposição de alguém a situações
humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de
trabalho e no exercício prático das funções. São mais comuns em relações
hierárquicas, em normas autoritárias e em oposição assimétrica, em que
predominam condutas negativas, relações desumanas e antiéticas de longa
duração, de um ou mais chefes dirigidas aos subordinados, desestabilizando a
relação do assediado com o ambiente de trabalho emuma organização privada ou pública. É comum de assédio. O objetivo é desestabilizar o trabalhador,
de forma que este produza mais por menos, com falsa a impressão de não atingir os objetivos formais do trabalho. A análise demonstra muitas vezes que já foram ultrapassados.
A
qualidade de vida no trabalho pode ser definida como o conjunto das ações
dentro da empresa que envolve a implantação e manutenção de melhorias e
inovações pessoais, gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de
trabalho. Representa como a gestão associada à educação para o bem-estar no
trabalho, reproduz decisões e escolhas baseadas na cultura organizacional e no
estilo de vida dos diferentes segmentos ocupacionais. Apesar de representar uma linha
de estudo recente e necessitar de detalhamento de situações concretas para
melhor compreensão do tema, a qualidade de vida no ambiente de trabalho tem
atuado com diversas concepções e teorias, que trouxeram à tona fatores
pioneiros para o desenvolvimento da atividade administrativa em função das
condições adequadas de trabalho, incentivos e recompensas salariais oportunas,
cuidados com a saúde do trabalhador etc. Isto porque o capital, dizia Marx, representa uma relação social entre pessoas,
relação que se estabelece por intermédio de coisas. Resulta que tais relações
se convertem em mercadorias porque são os produtos dos trabalhos privados executados
com independência uns em relação aos outros.
Para
os trabalhadores as relações de seus trabalhos privados parecem o que são, isto
é relações sociais imediatas das pessoas em seus trabalhos, senão relações
sociais entre coisas. Só em seu intercâmbio os produtos do trabalho adquirem
como valores, uma existência social idêntica e uniforme, distinta da material e
uniforme que têm como objetos de utilidade. Esta divisão do produto do trabalho
em objeto útil e objeto de valor se ampliam na prática quando o intercâmbio
adquire bastante extensão e importância, de modo que os objetos úteis se
produzam com vistas ao intercâmbio e seu caráter de valor tenha-se já em conta
em sua mesma produção. A cidadania pode ser classificada como um status concedido pelo Estado que
equiparam aos direitos civis os membros de uma sociedade, concedendo-se ao
cidadão um conjunto de direitos e obrigações de ordem civil, política e social.
Na crítica à historiografia se chamam de “cidadãos incompletos” aqueles que
possuem alguns dos três direitos compreendidos pela cidadania, em oposição
àqueles que não se beneficiam de nenhum dos direitos. No Ceará as
formas de incomunicaçãosocial se
esgueiram como sombras em universidades públicas.
As
três dimensões da atividade acadêmica universitária, ensino, pesquisa &
extensão, vêm se tornando dependentes de um processo burocrático senil incontrolável, submetido a normas
e dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de
pesquisa de Tese de Titular em Sociologia que se desenvolve por ação
complementar dos docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito
individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e
próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e
claramente, um órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência,
organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos,
diretamente, com as agências de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o
padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação
funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na
atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instância
representativa da sociedade, em nome da qual exerce uma administração regida
por normas, regulamentos e códigos de conduta que devem ser cumpridos, mas na
realidade social em que vivemos, a prática,
na teoria é outra prática. Não raras vezes, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades à medida de atribuições e responsabilidades.
A forma de comportamento na dinâmica burocrática,
administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às
competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os
conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade
com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e
leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada
um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de
nós atuou. Consequentemente muito pouca responsabilidade individual é atribuída
a cada um de nós, do ponto de vista institucional no caso das universidades. A
sociedade brasileira rejeita a avaliação e a universidade padece com ela,
geralmente vista como algo negativo, como representação simbólica de uma
ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e saudável, no qual a
competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo encontra-se
ausente. Na universidade não há “premiação” para o professor em nada. Mas aqueles que fazem pesquisa e orientam alunos,
fazem-no porque querem fazer. Porque podem fazê-lo. Não porque a universidade lhes
gratifica com reconhecimento.
Na
universidade o homem de certo modo habita e não habita coletivamente. Se por habitar
entende-se simplesmente uma residência. Quando se fala em habitar, para lembrarmos de Heidegger, representa-se costumeiramente um comportamento que o homem cumpre e realiza em
meio a vários outros modos de comportamento. Não habitamos simplesmente, mas
construir significa originariamente habitar. E a antiga palavra construir (“bauen”)
diz que o homem é à medida que habita. Mais que isso, significa ao mesmo tempo:
proteger e cultivar, a saber, cultivar o campo, cultivar a vinha. Construir
significa cuidar do crescimento que, por si mesmo, dá tempo aos seus frutos. No
sentido de proteger e cultivar, construir não é o mesmo que produzir. Note bem:
em oposição ao cultivo, construir diz edificar. Ambos os modos de construir –
construir como cultivar, em latim, colere,
cultura, e construir como edificar construções, aedificare – estão contidos no sentido próprio de bauen. No sentido de habitar, ou
construir, permanece, para a experiência cotidiana do homem. Aquilo que desde
sempre é, como na representação da linguagem diz de forma tão exclusiva e bela,
habitual. Isto esclarece porque acontece
um construir por detrás dos múltiplos modos de habitar das atividades
de cultivo e edificação.
O
sentido próprio de construir, a saber, habitar,
cai no esquecimento. Em que medida construir pertence ao habitar? Quando
construir e pensar são indispensáveis para habitá-lo. Ambos são, no entanto,
insuficientes para habitá-lo se cada um se mantiver isolado, distantes,
cuidando do que é seu ao invés de escutar um ao outro. Ipso facto construir e
pensar pertence ao habitar. Permanecem em seus limites. Quando aprendemos a
pensar que tanto um como outro, provém da obra de longa experiência de um
exercício incessante de pensar. A cultura intelectual, portanto, em sentido
próprio, refere-se a cada pessoa humana em particular e como um todo irredutível.
Somos um ersatz: a cultura social é subsidiária da cultura intelectual, já que
a sociedade existe para o homem e não o homem para a sociedade do trabalho.
Embora seja esta uma condição indispensável para a realização daquele. Não há
cultura intelectual liberta sem cultura social organizada. A cultura
intelectual representa a passagem do domínio e controle da informação da nossa
individualidade total. Pela informação recebemos de fora os elementos estruturais que vão
permitir a eclosão de nossas possibilidades naturais. É a função dahermenêutica quando aglutinamos e assimilamos esses elementos exteriores. Um estilo variado ou contraditório, reduzindo-os a uma unidade irredutível e
elaborando com isso a nossa personalidade. Essa personalidade se projeta para
fora no sentido da atividade de comunicação e de criação, que vai por sua vez
fecundar a coletividade. A
designação campus ou, cidade
universitária, acabaram por definir o mesmo espaço social, com os mesmos
objetivos. Cidade Universitária era a aspiração inicial dos campi instalados no Brasil: uma pequena
cidade, apartada daquelas que poderíamos chamar de regulares. Esse núcleo teria
a capacidade de oferecer ensino, mas também de abrigar centros de pesquisa,
acolher alunos e professores, oferecer, enfim, todos os serviços que qualquer
cidade estruturada oferece. Os serviços que os campi brasileiros oferecem – mesmo um dos maiores, o da
Universidade de São Paulo (USP) são restritos e insuficientes para os seus
usuários. Serviços, como transportes públicos, só funcionam com regularidade
nos dias úteis e outros comércios necessários à subsistência são raros e na
maioria das vezes inexistentes. Os campi
universitários brasileiros não são autossuficientes. Dependem ainda e muito das
cidades em que estão localizados. Ipso facto, a cidade universitária não passa
de uma aspiração que nem sempre se realizou.
O
bairro é um universo social que não aprecia muito a transgressão. Esta é
incompatível com a transparência paradoxal da vida cotidiana, com sua imediata
legibilidade. Esta se deve efetuar, aliás, esconder-se nas trevas dos lugares
reprováveis, fugir para os refolhos privados do domicílio. O bairro é um palco
diurno cujos personagens são, a cada instante, identificáveis no papel que a
conveniência lhes atribui: a criança, o pequeno comerciante, a mãe de família,
o jovem, o aposentado, o padre, o médico, máscaras e máscaras por trás das
quais o usuário do bairro é obrigado a se refugiar para continuar usufruindo
dos benefícios simbólicos com os quais pode contar. A conveniência tende sempre
a elucidar os bolsões noturnos do bairro, o incansável trabalho de curiosidade
que, como um inseto de imensas antenas explora com paciência todos os cantinhos
do espaço público. Mas pari passu
sonda os comportamentos sociais, interpreta os acontecimentos e produz sem
cessar um rumor questionante incoercível: Quem é quem e o que faz quando pensa que está fazendo o bem? Quem é o
novo locatário? É no ruído e tagarelice que a curiosidade exala as pulsões interiores, absolutas, fundamentais na prática. Quando procura
uma razão para tudo, mede tudo pela régua da conveniência política ou social.
Nesta
direção do entendimento humano se é possível dizer que todo rito é a assunção
ordenada de uma desordem pulsional inicial, o seu “trancafiamento” simbólico no
campo social, então a conveniência é o rito do bairro. O que ocorre no bairro
universitário? A conveniência subtrai à troca social os ruídos que poderiam alterar a imagem do reconhecimento; é ela que
por extensão no processo de comunicação filtra tudo o que não visa a clareza.
Mas, e esta é a sua face positiva, se ela impõe a sua coerção, o faz em vista
de um benefício simbólico que se há de adquirir ou preservar. O conceito de
conveniência ganha particular pertinência no registro do consumo. Como relação
social cotidiana com a busca dos alimentos e dos serviços. Assim, comprar não é
apenas trocar dinheiro no sentido marxista por alimentos (mercadoria), no
sentido do binômio: produção-consumo, mas, ser bem servido quando se é bom
freguês. O ato da compra vem aureolado
por uma motivação que, poder-se-ia dizer, o precede antes de sua efetividade: a
fidelidade. Esse algo mais, não
contabilizável na lógica estrita da troca de bens e serviços, é diretamente
simbólico: é o efeito do consenso, de um acordo tácito. É o fruto de um longo
costume recíproco pelo qual um sabe o que pode pedir ou dar ao outro, em vista
de melhorar a relação com os objetos desejantes da troca.
Pelo
fato do seu uso habitual, o bairro
pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público, ao
contrário da universidade. O bairro constitui o termo médio de uma dialética
existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um
dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro,
que se efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma
ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias
individuais inauguradas a partir do seu local de afeto, conscrito na origem de
sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana para todos, ou estatisticamente
mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de
inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível
continua sendo sempre a esfera do privado.Existe a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia:
cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de
controle pessoal possível, pois tanto aqueles que moram como os que fazem dele
sua moradia são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode
fazer aquilo que se quiser.
A
ética ou a filosofia moral se tornam uma luz que permite discernir entre aquilo
que é certo ou não do ponto de vista ético. É um dos valores que não se
encontra inserido no contexto de uma religião específica, mas no contexto da
lei natural que rege aquilo que é conveniente para o ser humano de acordo com
sua dignidade e natureza. A moral tem sua base na liberdade do ser humano
através da qual uma pessoa pode realizar boas ações, mas que também tem a
liberdade de praticar atitudes injustas. A reflexão moral ajuda o ser humano a
tomar consciência de sua própria responsabilidade no trabalho de crescer como
pessoa, tendo sempre claro o princípio da verdade e do bem. A filosofia como
reflexão moral é muito importante, uma vez que a retidão no trabalho ajuda o
ser humano a melhorar como pessoa e a alcançar uma vida boa. A filosofia moral
mostra a responsabilidade humana em trazer esperança à sociedade que vive, uma
vez que através de ações individuais exerce influência no bem comum. Esta filosofia
moral toma como fundamental os princípios da conduta humana. Estas normas
éticas dignificam a pessoa através de valores como mostra a superação pessoal,
o amor próprio, o respeito ao próximo, o princípio do dever e a busca pela
felicidade. Um princípio moral essencial é lembrar que o fim nem sempre
justifica os meios.
O presidente da Câmara dos
Deputados, Rodrigo Maia (DEM), defendeu um debate com o poder Executivo para
que o auxílio emergencial seja prorrogado e também possa evoluir para um
programa de renda permanente. Maia já vinha se colocando a favor da extensão,
com mais duas ou até três parcelas de R$ 600 da ajuda governamental. – “Acho
que nós deveríamos, em conjunto com o poder Executivo, organizar o debate do
que seria uma renda mínima permanente. Acho que seria uma resposta importante
para a sociedade brasileira”, disse Maia em entrevista coletiva, já projetando
a retomada econômica, após a crise
causada pela pandemia do coronavírus. O presidente, porém, voltou a
reforçar que é a favor da prorrogação por no mínimo dois meses da ajuda como já
vem sendo feita. – “Deixo clara a minha posição, sinto a importância de renovar
por pelo menos dois meses”. Inicialmente, o governo se comprometeu a pagar três
parcelas de R$ 600, sendo que a terceira já está sendo paga.
O movimento Renda Básica que Queremos reúne 163 organizações da sociedade
civil, quando promoveu campanha para pressionar senadores e deputados a
prorrogarem o auxílio emergencial de R$ 600 até dezembro de 2020, quando pode terminar
o “estado de calamidade pública decretado durante a pandemia da covid-19”. A
campanha ocorre na esteira das negociações no Congresso para a prorrogação do
auxílio, que ganharam força nos últimos dias depois que o ministro da Economia,
Paulo Guedes, acenou com a concessão de mais duas pequenas parcelas de R$ 300. A
prorrogação da estratégia paternalista
tem o apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que no último fim
de semana publicou nas suas redes sociais mensagem com um recado ao governo. – “O
governo não pode esperar mais para prorrogar o auxílio. A ajuda é urgente e é
agora”, afirmou Maia, que enfatizou que a sua posição é acompanhada pela
maioria dos deputados. Maia defendeu, no entanto, a prorrogação por mais dois
ou três meses no valor de R$ 600, ao contrário de Guedes que quer reduzir o
valor à metade das próximas parcelas. A despesa mensal do auxílio está em torno
de R$ 51,5 bilhões.
- “É uma emergência que não foi
emergencial como deveria e estamos passando dos 50 mil mortes, inúmeras cidades
com bandeira vermelha e necessidade de distanciamento, desemprego lá em cima”,
afirma a diretora de relações institucionais da Rede Brasileira de Renda Básica, Paola Carvalho. Para ela, o
próprio governo, ao vetar trechos da lei do auxílio, acabou criando problemas
graves para administrar na implementação do programa. São ao todo 13 propostas
de mudanças na legislação. Entre elas, a fixação de um prazo de dez dias para
que o governo dê reposta à análise dos pedidos. Pelos cálculos da Rede, cinco
milhões de pessoas ainda aguardam resposta da análise do pedido. Na lista das
propostas, estão a retirada da exigência de terem ganho menor que R$ 28.559,70
durante o ano de 2018, a garantia de que os beneficiários do Bolsa Família retornem automaticamente
ao programa após fim do auxílio emergencial e permissão para que os
estabelecimentos correspondentes ou conveniados das instituições financeiras
públicas sejam autorizados a pagar o benefício. Segundo Paola Carvalho, é
preciso garantir também que bases de dados do governo usadas no cruzamento de
dados para a concessão do benefício sejam atualizadas. Em caso de impossibilidade,
deve valer a autodeclaração do solicitante. Outro aspecto importante “é que os pedidos de auxílios negados
sejam acompanhados de justificativas claras, com a criação de canais de recurso
e apresentação de documentos”.
A
prática social do bairro introduz novas formas de gratuidade no lugar da necessidade. Ela favorece uma utilização do
espaço urbano não finalizado pelo seu uso somente funcional. No limite, visa
conceder o máximo de tempo contrapondo a um mínimo de espaço para liberar
possibilidades de deambulação. A cidade é, em seu sentido característico,
poetizada pelo sujeito: este a refabricou para o seu uso próprio desmontando as
correntes do aparelho urbano: ele impõe à ordem externa da cidade a sua lei de
consumo do espaço. O bairro é, por conseguinte, no sentido econômico do termo,
um objeto de consumo do qual se apropria o usuário no modo da privatização do
espaço público. Aí se acham reunidas todas as condições para favorecer esse
exercício: conhecimento dos lugares, trajetos cotidianos, relações de vizinhança
(política), relações como os comerciantes (economia), sentimentos difusos de
estar no próprio território (etologia), tudo isso cuja acumulação
e combinação produzem, e mais tarde organizam o dispositivo social e cultural
segundo o qual o lugar praticado se torna não somente o objeto de conhecimento,
mas o lugar de um reconhecimento afetivo.
A
conveniência se impõe em primeiro à
análise pelo seu papel negativo. Neste sentido poucos membros da comunidade ueceana perceberam ou avaliaram o efeito
moral da Resolução nº 1442/2018 que “proíbe
o uso, porte, comercialização de bebidas alcóolicas e outras drogas nas
dependências dos campi da
Universidade Estadual do Ceará, inclusive para a realização de eventos cívicos”.
Pois ela proíbe o uso de bebidas no campus, através de uma medida de gabinete, sem
um plebiscito real, onde ela se encontra no lugar da Lei. Aquela que torna
heterogêneo o campo social proibindo que aí se distribua em qualquer ordem e a
qualquer momento não importa que comportamento
social. Isto quer dizer que a conveniência poderia manter relações muito
estreitas com os processos de educação implícitos a todo grupo social. Ela se
encarrega de promulgar as regras do método sociológico, enquanto o social é o espaço do outro e o ponto médio
relacional da posição de perda da pessoa enquanto ser público. A conveniência é
o gerenciamento simbólico da face pública oculta de cada um de nós desde que
nos achamos na démarche entre a casa
e a rua. A conveniência é simultaneamente o modo pelo qual se é percebido e, de
fato, o meio obrigatório de se permanecer submisso a ela. Exige que se evite dissonância
no jogo dos comportamentos e ruptura qualitativa na percepção do meio social.
Por isso é que produz comportamentos estereotipados, prêt-à-porter, que têm por função possibilitar o reconhecimento “de
não importa quem em não importa que lugar”. É contradição brasileira
a falácia de que qualquer dúvida a respeito de uma lei, só possa ser
sanada através da representação de outra Lei.
Quando é possível discernir
entre aquilo que é certo ou não do ponto de vista ético? É um dos valores que
não se encontra inserido no contexto de uma religião específica. Mas no
contexto da lei natural que rege aquilo que é conveniente para o ser humano de
acordo com sua dignidade e natureza. A moral tem sua base na liberdade do ser
humano através da qual uma pessoa pode realizar boas ações, mas que também tem
a liberdade de praticar atitudes injustas. A reflexão moral é decisiva na
tomada de consciência de sua própria responsabilidade no trabalho, de crescer
como pessoa, tendo sempre claro o princípio da verdade e do bem. A filosofia
como reflexão moral é muito importante. Uma vez que a retidão no trabalho ajuda
o ser humano no discernimento como pessoa e a alcançar uma vida boa. Assim demonstra
a responsabilidade em trazer esperança à sociedade, uma vez que através de
ações individuais exerce influência no bem comum. Esta moralidade toma como
fundamental os princípios da conduta humana. As normas dignificam a
pessoa através de valores demonstrando o ser social. O amor próprio, a compreensão
e o respeito ao próximo, enquanto princípio do dever e busca pela felicidade.
Um princípio essencial é bom lembrar, que o fim em seu ersatz nem sempre justifica os meios.
Bibliografia
geral consultada.
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“A fase da transação é a que exige mais
prudência, mais tino, mais devoção”. Justiniano José da
Rocha
O senhorio é o proprietário de um
condomínio, casa, terra ou bens imobiliários que são alugados ou arrendados a um indivíduo ou a uma empresa, que recebe
o nome de inquilino. Quando uma
pessoa jurídica se encontra nesta posição utiliza-se o termo senhorio também.
Outros termos incluem locador e proprietário. O termo senhoria pode ser
utilizado, mas raramente para proprietárias. As duas partes contratantes
assumem um compromisso por lei da propriedade imobiliária mediante a assinatura
de um contrato de arrendamento. Através deste contrato, a parte contratante que
detém o título da propriedade - o senhorio - cede a sua posse e utilização por
um período de tempo limitado à outra parte contratante: o inquilino (cf. Romero, 1994). O senhorio ou a senhoria pode não ser
o real proprietário ou proprietária, mas mantem de alguma forma o direito de
subarrendamento. Um contrato de locação é o que define condições tais como a
renda, as penalizações de atraso no pagamento, a duração da locação e o tempo
de pré-aviso necessário antes de o proprietário ou inquilino rescindir o
contrato.
Alteridade é a concepção que parte do
pressuposto de que todo o ser humano social interage e interdepende do outro.
Assim, pode também se dizer que a alteridade tem como representação a capacidade de se colocar no lugar do outro na relação com grupos, como na família, quase sempre
no trabalho, nas formas desejáveis de lazer e a relação que temos com os
outros, com consideração, identificação e, sobretudo, em como dialogar com o
outro. Mas a noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à
medida que esta se efetiva através das dinâmicas das relações sociais, sendo,
que a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de
tensão e conflito. Apontamentos podem ser feitos não só durante o processo de
conquista e colonização das Américas, mas na história social do contato entre diferentes culturas. Para
os indígenas é o símbolo da traição, ou sociologicamente da mestiçagem, quando
a humanidade do “outro” só foi concebida quando integrada à cultura.
A descoberta e colonização violenta no processo civilizatório do chamado Novo Mundo, isto é, o longo caminho percorrido da colonização
europeia nas Américas, parece ser o ponto de chegada para a análise teórica que
envolve a alteridade. O encontro com o “outro” é marcado pelo medo e pelo
fascínio, pela distinção clara entre o que é estranho e o que não é. O contraste cultural, de certa forma, acaba
fortalecendo a noção de paradoxo de consequências não intencionais de que
“aquilo que sou é diferente daquilo que não sou”, o que, em outras palavras,
significa dizer que o mundo estranho é um enorme espelho que reflete o que é
familiar ao destacar tudo àquilo que nos é estranho.A alteridade é uma tarefa ética sobre a
condição humana deste outro, partindo
do pressuposto que o outro não é um inimigo desumanizado. Mas que deve ser
visto como um humano ao mesmo tempo igual e diferente. A experiência de se
colocar no lugar do outro implica a
conduta e o reconhecimento de perceber o mundo em que o outro em oposição se insere, que é fruto
de suas experiências e hábitos culturais, sua história e conhecimentos. Num contextomarcado pela ausência da ética de
solidariedade, de uma reflexão sobre nossas ações, hábitos e costumes, a
alteridade enquanto proposta torna-se difícil de concretizar-se. Demonstra uma prática autoritária sob a forma estrutural de hierarquia.
O
Relatório da Deutsche Bank, analisa
todos os anos os preços de aluguéis de imóveis
ao redor do mundo para se terem uma noção dos lugares mais caros e mais em
conta para se morar de aluguel. O complexo de moradias, reconhecido como “o
projeto habitacional mais antigo do mundo”, fica na cidade alemã de Augsburg,
na Baviera. O valor do aluguel não subiu ali desde o século XVI, quando era
cobrado em florins. O locador ou senhorio é aquele que cede o bem mediante
pagamento do locatário ou inquilino para que este o utilize conforme suas
finalidades, isto é, para moradia, se for um imóvel residencial. Para o
trabalho, se for um imóvel comercial ou industrial; para locomoção, se for um
automóvel, etc. É o contrato social pelo qual o locador propõe-se a ceder o uso
e o gozo da coisa ao locatário. Mas o presente fundado em 1521 por Jakob
Fugger, um comerciante e banqueiro que destinou parte de seu ímpeto filantrópico
à criação de um complexo residencial dedicado aos necessitados da cidade não
representa in statu nascendi caridade. O presente veio sob a forma de condições
registradas por escrito, como uma espécie de contrato social. Para viver
em Fuggerei, além de necessitado por motivos econômicos, era preciso ser
católico e rezar três vezes por dia.
O
complexo residencial conta com uma igreja e um padre que também vive ali. Mas
há outras exigências disciplinares, como por exemplo, as portas são fechadas às
10 horas da noite. Quem volta para casa depois desse horário precisa pagar uma
multa entre 50 centavos de euro e um euro, dependendo da hora. Originário de
uma família abastada, ele consegue ampliar sua fortuna familiar com operações
comerciais e em mineração. Mas seu sucesso também lhe rendeu críticas,
inclusive de Martin Lutero. Para aplacar as críticas, o banqueiro criou também
um fundo com nome do santo Ulrich,
mediante uma doação de 10 mil florins. Isso garantiria recursos suficientes
para manter o funcionamento das organizações econômicas e sociais de caridade
que criou. Os investimentos da família e os juros que lhes renderam, dai a
crítica religiosa de Lutero, asseguraram a sobrevivência de Fuggerei até a
atualidade. Não há dúvida de que seu segredo origina-se já na palavra alemã Beruf, e quem sabe, ainda mais na
palavra inglesa calling, pois existe
uma conotação religiosa – a de uma tarefa ordenada, ou pelo menos sugerida, por
Deus – que se torna tanto mais manifesta, quanto maior for a ênfase no caso
concreto. Haja vista a trajetória histórica e etnográfica da palavra através
dos “idiomas civilizados” (Kultursprachen),
nos quais se nota que, para aquilo que chamamos vocação, nem os povos
predominantemente católicos, nem aqueles da Antiguidade Clássica conheceram um
termo equivalente, pela sua singularidade, ao passo que existe em
todos os povos predominantes protestantes.
Aparece
pela primeira vez na tradução de Lutero, da Bíblia, num lugar do Jesus de Sirac
(II, 20, 21), usada completamente em conformidade com o nosso sentido coloquial
contemporâneo. Da mesma forma que o significado da palavra, o pensamento
subjacente é novo, e é um produto da Reforma. É verdade que certa valorização
do trabalho cotidiano secular, contida nesta concepção, segundo Max Weber,
já se havia manifestado, não apenas na Idade Média, mas também na baixa antiguidade
helenística. Esta valorização do cumprimento do dever dentro das profissões seculares, no mais alto grau
permitido pela atividade do indivíduo. Foi isso que deu pela primeira vez este
sentido ao termo vocação, e que,
inevitavelmente teve como consequência “a atribuição de um significado
religioso ao trabalho secular cotidiano”. Foi nesse conceito de vocação que se manifestou o dogma
central de todos os ramos do protestantismo, descartado pela divisão católica
dos preceitos éticos em praecepta e concilia, e segundo a qual a única
maneira de viver aceitável para Deus não
estava na superação da moralidade secular pela ascese monástica, mas no
cumprimento das tarefas sociais impostas ao indivíduo pela sua posição no
mundo. Nisso é que está a sua vocação. Nisso é que está a singularidade do
pensamento. Contudo, a autoridade da Bíblia, da qual Martin Lutero acreditava
retirar a autoridade de sua concepção de vocação,
favorecia toda uma interpretação tradicionalista. Especialmente o Antigo Testamento,
que, embora não fizesse referência alguma à moralidade
secular nas profecias originais, e, afora elas só apresentassem alguns
rudimentos e indícios dela, expressa um pensamento religioso muito parecido com
essa orientação, segundo a qual “cada um deve preocupar-se com seu próprio
sustento e deixar os ateus correr sozinhos atrás do lucro”. Este é o sentido de
todos os trechos que tratam das ocupações seculares. Na época apostólica do
Cristianismo, antes da intensa perseguição aos cristãos chegada através do Novo Testamento, especialmente com
a consagração de São Paulo, as primeiras gerações de cristãos encaravam a
vocação secular, seja com indiferença, seja de um modo essencialmente
tradicionalista. Como esperavam a vinda do senhor, cada um devia permanecer em
seu posto e na atividade secular em que o chamado do Senhor o tivesse achado, e
nele continuar trabalhando como
antes, não constituindo dessa forma a pobreza um peso para os outros, pois
tudo só teria ainda curta duração.
No
dia 31 de outubro de 1517, véspera do Dia
de Todos os Santos, o monge agostiniano Martinho Lutero aproveitou a grande
procura das pessoas pelas missas comemorativas e divulgou sua proposta de
reforma da Igreja Católica. Ele literalmente pregou nas portas da Igreja do
Castelo, em Wittenberg suas 95 teses, questionando “as práticas do papado, sua
doutrina e a venda de indulgências”. Também reconhecida como Igreja de Todos-os-Santos de Wittenberg
(em alemão Schlosskirche) é uma
igreja luterana localizada na Alemanha. Ela é reconhecida mundialmente por ter
sido o local onde Martinho Lutero afixou as 95 Teses no ano de 1517. Como a
igreja ficava na rua principal, suas portas funcionava como “uma espécie de
quadro de avisos públicos”. Com esse gesto de debater publicamente com o papa,
Lutero deu início a uma “batalha teológica” que posteriormente se tornaria uma
guerra religiosa que dividiria países europeus e mudaria para sempre a
história. O principal argumento de Lutero era o ensinamento das Escrituras que “o justo viverá pela fé”.
Estabeleceu então a doutrina da “justificação pela fé”, ou seja, a justificação
do pecador diante de Deus não vem pelo esforço pessoal, mas trata-se de algo
recebido por todos que creram na obra de Cristo na cruz. Como o nome indica, a
Reforma desejava reformar a Igreja, não dividi-la.
Os
argumentos de Lutero atingia o centro do poder: o Vaticano. Entre suas
críticas, negava a infalibilidade
papal, sua autoridade para tirar almas do purgatório e que o pontífice possuía
as chaves do céu. Ipso facto que
fosse abandonado o culto aos ídolos (santos). Lutero não apenas leu a Bíblia,
como foi intérpreteda Bíblia através da perspectiva de sua
tendência geral, e esta, no decorrer da sua evolução entre 1518 e mais ou menos
1530, não apenas permaneceu tradicional, como se foi tornando cada vez mais
tradicional. Isto é importante na medida em que Lutero não estabelece uma
concepção fundamentalmente nova, nem
mesmo original no pacífico relacionamento da vocação secular aos princípios religiosos. Todavia, a pureza da
doutrina como único critério da infalibilidade da igreja, cada vez mais aceita
por ele depois da guerra dos vinte, bastou para por em cheque o desenvolvimento
de novos pontos de vista no plano ético. O conceito de vocação permaneceu em sua forma tradicional. A vocação para ele era
logo aceito como uma ordem divina, a
qual uma devia adaptar-se. Essa tendência domina o outro pensamento, também
presente, de que o trabalho vocacional é uma, ou melhor, a tarefa ordenada por Deus. Em seu desenvolvimento posterior, o
luteranismo ortodoxo iria levar este princípio mais longe ainda. O único
resultado ético era, pois, algo de negativo: a submissão dos deveres seculares
aos ascéticos da situação existente.
É
o contrato comutativo, oneroso, bilateral e de execução continuada. Portanto, é
sempre bom lembrar que locador é o
personagem que figura na condição de senhorio, e locatário é o personagem social que figura na condição de
inquilino. O contrato de aluguel pode ser rompido através da denúncia de uma
das partes. Luvas é o nome dado ao valor excedente
adiantado pago pelo inquilino ao locador (proprietário) ou sublocador,
reservadamente, para assinatura de contrato de locação, além do aluguel mensal.
É um costume que os proprietários de imóveis comerciais localizados em áreas
muito valorizadas adquiriram, frente à grande demanda. A origem da expressão
remete ao cristianismo. No séc.
XVIII, durante as procissões, o andor com a imagem de Cristo era carregado por
fiéis que “deviam trazer luvas nas mãos”. Tais luvas eram fornecidas pela Igreja que cobrava uma pequena
importância para cedê-las aos fiéis que desejavam carregar a padiola. A
expressão “pagar luvas” estendeu-se às próprias contribuições que os fiéis
faziam às paróquias. Mais tarde passou a ter o significado que reconhecemos.
Durante
o período de permanência de D. João no Rio de Janeiro, o número de habitantes
da capital passou de 50 mil para cerca de 100 mil pessoas. Chegaram europeus
das mais diversas nacionalidades. Instalavam-se também inúmeros diplomatas do
governo português. A transferência da corte portuguesa para o Brasil foi o
episódio da história de Portugal e da história do Brasil em que a família real
portuguesa, a sua corte de nobres e mais servos e demais empregados domésticos
(tais como valetes) e inclusive uma biblioteca com mais de 60 000 livros,
radicaram-se no Brasil, entre 1808 e 1821. Tendo a leva numérica inicial de 15
000 pessoas. Posteriormente, após 1821, muitos destes voltaram a Portugal. A
capital do Reino de Portugal foi estabelecida na cidade do Rio de Janeiro,
registrando-se o que alguns historiadores denominam de “inversão
metropolitana”, ou seja, o novo fato político da colônia que passou a ser
exercida a soberania e o governo do império ultramarino português. Pela
primeira e única vez na história política de formação do Estado uma colônia
passava a sediar uma corte europeia, trocando alhos por bugalhos. O plano de
transferência da família real e da corte de nobres para o Brasil, refúgio
seguro para a soberania quando a resistência militar a um invasor fosse inútil
na metrópole, já havia sido anteriormente cogitado.
Historicamente
durante a crise de sucessão de 1580, ante o avanço dos tercios do duque de Alba, D. Antônio I terá sido aconselhado a
buscar um refúgio para além-atlântico. No contexto da Restauração da
Independência (1640), quando a França abandonou Portugal no Congresso de Münster
(1648), o padre Antônio Vieira vislumbrou ideia semelhante a D. João IV,
associando-a ao vaticínio da fundação do Quinto Império. Posteriormente, embora
sem ameaça militar iminente, o diplomata Luís da Cunha defendeu a ideia de se
transferir para o Brasil a sede da poderosa monarquia portuguesa. No início do
século XIX, no contexto internacional criado pela ascensão do império de
Napoleão Bonaparte, a ideia da retirada da família real para o Brasil voltou à
tona no imaginário parlamentar, defendida pelo marquês de Alorna em 30 de maio
de 1801 e, novamente, em 16 de agosto de 1803, por D. Rodrigo de Sousa
Coutinho.
A
ideia ainda vaga na economia política global de uma transferência para o
Brasil, ressurgindo como um meio de reforço à segurança nacional, sobretudo em
contextos de ameaça iminente à soberania de Portugal, foi apresentado como uma
via necessária ao cumprimento de um projeto messiânico,
como em Antônio Vieira, ou como um meio político para redefinir as relações de
forças no equilíbrio europeu pós-Vestefália, com o marquês de Alorna, Luís da
Cunha e o conde de Linhares. Depois das campanhas do Rossilhão e da Catalunha,
a Espanha abandonara a aliança com Portugal, fazendo causa comum com o inimigo
da véspera – a França imperialista de Napoleão. Resultou daí a invasão de 1801,
em que a Grã-Bretanha de nada serviu a Portugal. O plano de Napoleão era o de
aprisionar a família real portuguesa, sucedendo ao Príncipe-regente Dom João de
Bragança, futuro Rei Dom João VI, e o que veio a suceder a Fernando VII de
Espanha e a Carlos IV de Espanha em Baiona – forçar uma abdicação. Teria
Portugal um Bonaparte no trono e, paralelamente, a Inglaterra apossar-se-ia das
colônias do império ultramarino português, sobretudo a extraordinária colônia
do Brasil.
Havia
na Corte em 1813, duas livrarias, ambas de franceses, Paul Martin Filho e Jean
Robert Bourgeois. Em 1821, nove: a de Manoel Joaquim da Silva Porto, à rua da
Quitanda; a de Antônio José Rebelo, no largo do Desterro; a de Jerônimo
Gonçalves Guimarães, à rua do Sabão; a de João Batista dos Santos, à rua da
Cadeia; a de Francisco Luís Saturnino da Veiga, à rua da Alfândega; a de
Cipriano José de Carvalho; a de Francisco Nicolau Mandillo; a da rua Direita,
defronte do Arsenal, que vendia folhetos com os discursos pronunciados nas
Cortes de Lisboa. Em 1823, proclamada a Independência, surgiram outras: a de
José Antônio da Silva, à rua Direita, a de Joaquim Antônio de Oliveira, à rua
José Antônio da Silva, à rua Direita, a de Joaquim Antônio de Oliveira, à rua
da Quitanda, a da rua dos Latoeiros; a da rua da Ajuda; a de Vera Cruz &
Cia, à rua da Quitanda; a da rua das Violas; a da rua Nova do Senado, a da rua
dos Arcos. Eram por vezes lojas mistas. A imprensa
dava comercialmente sinal de vida, em anúncios, de venda de livros usados prova
que o negócio dos livros dava para viver.
O espírito de conciliação (cf. Rodrigues, 1982; Bello, 1983) data dos primeiros
contatos sociais decorrentes da alteridade entre luso-indígenas. Quando os
primeiros portugueses invadiram o Brasil calcula-se em um (1) milhão e
quinhentos mil o número de indígenas que aqui viviam. E começaram, logo nos
primeiros dias, aquele método de
dissolução cultural com que pensaram amansá-los. E assim foi durante longo
tempo. Uma desafeição geral contra a terra e a indiada dominava a gente
portuguesa. Um ódio incontido contra o gentio levava-a a praticar as maiores
iniquidades, como as praticava Mem de Sá e Jerônimo de Albuquerque, ao mandarem
colocar à boca de bombardas, feitos em pedaços, os índios que mataram cristãos.
Foi na base histórica do terrorismo,
realizado aqui, na Índia e na África, que se impôs a paz cristã, que se
sujeitou todo o gentio à lei do colono. Tirar o medo aos cristãos, senhorear o
gentio pela guerra, amedrontá-lo com grandes ameaças, domá-lo e metê-lo no jugo
e sujeição, tomar suas terras e roças e reparti-las pelos colonos. Aí está um
quadro sumário dos contatos luso-indígenas do primeiro século – afirma
Rodrigues (1982), que “ensopou nossa terra de sangue indígena, apesar dos
esforços da catequese jesuítica, sempre mais lembrada e louvada” porque representa um teatro de operações da
história triunfante e oficial.
Se de modo geral, prevalece da parte
do povo o espírito de conciliação, que se manifesta na ideia de Francisco Adolfo de
Varnhagen (cf. Cezar, 2007), na unidade linguística, na mestiçagem, na
tolerância racial e nas acomodações que atenuam os antagonismos sociais, seria
falso sustentar que seu comportamento foi conformista.
Lutas sociais sem fim e com grande derramamento de sangue demonstram as
divisões inconciliáveis entre extratos sociais e políticos dominantes e
dominados e os comportamentos inconformistas. A chamada Guerra dos Bárbaros (1688-91) prossegue miseravelmente campanhas de
extermínio indígena do primeiro século. Travadas no Rio Grande do Norte, quando
os índios resistem à expropriação de suas terras e terminadas com terrível
morticínio, condenado pelas autoridades eclesiásticas, elas se efetuam em todo
o país. Outro exemplo de lutas sangrentas é a guerra do gentio Paiaguá
(1732-1736), ordenada por provisão régia, mais tarde repetida contra todos os
índios bravos, especialmente os botocudos, em 1808. As guerras ofensivas no
Mato Grosso, em Goiás e Minas Gerais exterminaram os grupos indígenas, e não
só, mas por isso também, Capistrano de Abreu descreveu que “os alicerces
assentaram sobre sangue, com sangue se foi amassando e ligando o edifício e as
pedras de desafazem, separam e arruínam”.
As lutas sangrentas pela posse da terra, pela expulsão indígena contínua, de
latifundiários e latifundiários destes com os sertanejos fizeram também correr muito
sangue. Somente em 1699 que se tentou hic
et nunc impor ordem aquele campo de batalha cotidiano. O crime no sertão, onde reinou sempre mais
respeito pela propriedade privada propriamente que pela vida, as lutas de famílias oligárquicas mancharam de
sangue os alicerces sociais e com sangue se foi formando a consciência
política. Nem foram menores a violência, a crueza e o sangue das guerras das
facções armadas de latifundiários de contra quilombos negros, mineiros,
baianos, cariocas, pernambucanos. O de Palmares suportou 17 expedições
punitivas, na última das quais em 1694, foi cercado por 3 mil homens, e custou
inumeráveis vítimas e muito sangue; quilombos do Rio de Janeiro, no século
XVII, foram também afogados em derramamento de sangue. Revoltas populares de
colonos contra excessos fiscais, favores e privilégios sociais foram suprimidas
cruelmente, como no Rio de Janeiro, em 1660, quando foi enforcado Jerônimo
Barbalho e sua cabeça sangrenta foi exposta no pelourinho; ou como no caso comparativo
no extremo, o Maranhão, em 1684, quando Manoel Bequimão e Jorge Sampaio foram
decapitados e Francisco Dias Deiró foi supliciado em efigie.
Pedro Américo, A Carioca (1882) à D. Pedro II (1884).
Portanto,
se as lutas em Minas Gerais, entre paulistas e emboabas (1708-1709), e as atrocidades do Capão da Traição foram menos
cruentas do que se costumam supor, a Guerra
dos Mascates (1710-1711) custou 150 vidas, 80 feridos e 490 presos; em Vila
Rica, nas duas sublevações de 1720, uma e outra cruenta, o Conde Assumar teve
mais de dois mil homens para rebater os sublevados e acabou enforcando e
esquartejando Felipe dos Santos e queimando as casa dos principais
revolucionários; no motim militar de 1728, na Bahia, dos 23 réus, 7 foram condenados
á pena de morte, sendo os dois chefes esquartejados e os demais sofreram
açoites e degredo por toda a vidas para Benguela e Angola; em 1792, os chefes
do movimento da Conjuração Mineira (1792) foram degredados para a África, mas
Tiradentes, o líder radical que não negou haver premeditado o levante, foi
enforcado: - seu corpo será dividido em quatro partes e pregado em postes, pelo
caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas
infames práticas, e o mais nos sítios de maiores povoações, até que o tempo
também os consuma”, e infamado réu, seus filhos e netos, “e a casa em que vivia
em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique”.
Segundo De Oliveira (2013) em 1864,
o pintor brasileiro Pedro Américo, bolsista do Imperador Pedro II na Europa,
envia para a Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes, a tela A
Carioca. A pintura recebe a medalha de Ouro e, Pedro Américo, em
agradecimento ao financiamento de seus estudos, decide presentear Sua Alteza
Real com o quadro. Para a surpresa do artista a pintura é recusada pelo Mordomo
Mor da Casa Imperial, Paulo Barbosa, por considerá-la licenciosa. Em uma época
em que a Mordomia da Casa Imperial tinha como uma de suas funções adquirir
obras de arte que exaltavam a raça brasileira em formação, como a tela de Vitor
Meirelles, A primeira missa no Brasil (1861), parece que a tela não evocava,
para um representante do Império, um florão do triunfo do povo brasileiro. Do
ponto de vista do público que compareceu ao Salão, a tela também não agradou. A
ilustração de Henrique Fleiuss na revista Semana da Semana de 1855
apresenta, em tom satírico, uma matrona oitocentista escandalizada e ofendida
ao fruir a figura feminina desnuda. Ultrajada diz ao marido que, com o seu
monóculo escrutina a mulher representada: “Veja que desaforo. Mandar-se pintar
sem ter roupa para vestir”. A ilustração de Fleiuss parece apontar para uma
crítica moral ao objeto representado na tela, indicando uma fruição
desestabilizadora que, obviamente, alude ao papel da mulher na sociedade
brasileira oitocentista.
A matrona da ilustração
de Fleiuss é provavelmente uma representante da boa família fluminense, e, como
membro da família patriarcal encarna o papel da mulher na época: o da grande
Mãe da Nação brasileira, qual seja, atuar com recato e decoro, cuidar da prole
e da escravaria, manter o domínio de seus sentimentos, ponderar os conflitos
conjugais, mantendo, assim, a estabilidade nas relações domésticas e o respeito
ao marido. A imagem da mulher recatada, envolvida apenas com o universo
doméstico, no controle de suas sensibilidades íntimas e de seu pudor era
central nos discursos sobre a construção de uma Nação constituída por
indivíduos de qualidade, os quais auxiliariam na edificação de uma raça
saudável, possibilitando o progresso moral e econômico da Nação. Partindo do
programa de construção da obra seguido pelo artista, a imagem d´A Carioca
é uma alegoria ao Rio Carioca – principal fonte abastecedora de água da cidade
na época – e não a mulher nascida no Rio de Janeiro. O primeiro registro
histórico do Rio Carioca remonta o ano de 1503, quando o Governador Geral da
Província do Rio de Janeiro Gonçalo Coelho manda construir uma casa em sua
nascente, no Silvestre – região localizada no caminho da Floresta da Tijuca, no
Rio de Janeiro. Os índios Tamoios que lá viviam passaram a chamar o Rio, de Rio
Carioca – palavra que na língua indígena significa “Casa de Homem Branco”. Com
o tempo, a palavra indígena que dava nome ao Rio passou, também, a aludir ao
povo que vivia na cidade. O rio Carioca ganhou
importância ainda maior quando foi canalizado no século XIX, e construído o
Aqueduto da Carioca, que possibilitou que a água chegasse até o Centro da
cidade, tornando-se, assim, acessível à população da cidade.
A Carioca, de
Pedro Américo, sendo uma alegoria de enaltecimento à geografia local, não
parecia em nada contrariar a política imperial em relação às artes e tão pouco
àquela levada a cabo pela Academia Imperial de Belas Artes. Desde a sua
concepção, em 1826, a Academia tinha como ação principal incentivar seus
artistas e dar a conhecer ao Imperador e à sociedade em geral os seus
progressos. As obras executadas pelos alunos da Academia seriam ao mesmo tempo,
uma forma de homenagear o Imperador pelo patrocínio às artes, ao mesmo tempo em
que davam início a uma galeria de obras útil a diversas finalidades como, por
exemplo, aquelas voltadas ao enaltecimento da história da cidade e da Nação.
Havia, ainda, o interesse, por parte da Academia e do Imperador Pedro II, de
formar artistas nacionais capazes de figurarem ao lado dos artistas
estrangeiros. A produção nascida do fazer artístico desses mestres e alunos
contribuiria para criar um acervo nacional, cujas obras refletiriam a história
do país, a peculiaridade das diversas regiões, a sua fauna e flora, as suas
riquezas, a sua gente. Uma reflexão sobre a arte nacional na segunda metade do
século XIX implica em considerar a relação entre as estéticas Neoclássica e
Acadêmica. Os artistas franceses que chegam ao Rio de Janeiro em 1816
estruturam a Academia Imperial em torno dos princípios neoclássicos. Estes,
quando adotados pela primeira geração de artistas brasileiros formados pela
Academia Imperial, da qual o pintor Pedro Américo faz parte, já são tomados na
versão acadêmica.
Por Academicismo podemos compreender o movimento que, durante
o século XIX e parte do XX, se caracterizou por uma releitura do Neoclássico
por meio de adaptações modernizantes, configuradas pela incorporação dos
diversos movimentos artísticos que se sucederam ao longo do século XIX, do
Romantismo ao Pontilhismo.Em
1798, com a luta na revolução social, em Salvador, dos 32 implicados foram
condenados à morte, executados e esquartejados 4 modestos patriotas que
sonharam com a liberdade nacional; também o martírio do preto da liberdade
Isidoro, nas Minas Gerais, em 1809, as insurreições dos negros Haussás, na
Bahia, em 1807, 1809, 1813 e 1816, com vários mortos, suicídios, açoites,
degredos e condenações à morte; as lutas indígenas de 1813, no Araguaia, com
muitos mortos; finalmente, em 1817, na primeira revolução da independência, em
que combateram mais de 5 mil homens e que deu aos brasileiros mais de 2 meses
de efetivo exercício do governo, perderam a vida ais de 350 pessoas nos
combates, especialmente na batalha de Pindoba, afora os mortos nas ruas, os
“suicidados” que foram falecidos nos cárceres, degredados, e os 4 carbonizados
na Bahia e 9 enforcados em Pernambuco. Essas explosões de sangue demonstram o
inconformismo do povo, o radicalismo da liderança popular e a violência e
crueza da repressão pela minoria dominante. A fase colonial não valida a tese
da tradição política pacífica, que uma historiografia oficial vem sustentando
para abater os impulsos de revolta e para satisfazer as esperanças da minoria
dominadora. No fim do período colonial já se podiam ver alguns frutos positivos
e alguns resultados negativos. Para começar por estes, a liderança, mesmo a que
conciliava, aparando as tensões e os conflitosmais graves e ameaçadoras, foi sempre privilegiada e ortodoxa. Por isso que
o historiador Capistrano de Abreu escreveu que “o povo foi capado e sangrado”.
Os
historiadores brasileiros, afirma Bello (1983), fazem datar historicamente de
longe a decadência do princípio
monárquico. Para Euclides da Cunha, por exemplo, a conciliação do Marquês do
Paraná, prolongada virtualmente até 1860, assinala-lhe o início da descida ou,
como diria Joaquim Nabuco, o início da maré da enchente da democracia. Para
Oliveira Vianna, a ideia republicana, “como força organizada e não como ideia
isolada, vincula-se claramente à reação liberal, iniciada com a queda do
gabinete Zacarias em 1868”. Daí surgiria a organização do partido Republicano
em 1870. A ostensiva intervenção do Imperador, não somente no sacrifício do
gabinete Zacarias, mas na entrega do poder aos conservadores de Itaboraí contra
uma Câmara unanimemente liberal, determinaria mudança geral no sistema de
crenças e ideias dominantes no mundo político. Começaria a “descrença
progressiva nas virtudes do sistema monárquico parlamentar e uma crescente
aspiração para um novo regime, uma nova ordem de coisas”. A queda do gabinete
Zacarias por motivos imediatos, que não recomendavam a argúcia daquele político,
mal influiria na crença ou descrença pública sobre as vantagens do regime
parlamentar. A Monarquia estranha à índole brasileira, transplantada em
circunstâncias extraordinárias, da Europa, onde representava a estratificação
de séculos de história não chegara na América a ser uma superestrutura. A
análise do regime extinto em 1889 reduz-se quase ao estudo das figuras que o
encarnaram ou definiram, a começar naturalmente pela que se encontrava no
pináculo.
A ascensão de Pedro II ao trono no
Brasil, em 1840, afirmando a continuidade
da Monarquia marca o início do longo período de entorpecimento da ideia
republicana, depois das agitações da Regência, dos movimentos sociais
nativistas e republicanos de Pernambuco em 1817 e em 1824, e da prolongada
guerra federalista dos Farrapos, traduz muito mais o cansaço geral das lutas
passadas do que crença ou entusiasmo pelo regime político. A inglória revolta dos
Praieiros, em 1848, derradeiro fermento do velho espirito de insubordinação dos
pernambucanos, assinala também a última escaramuça revolucionária. Pedro II,
mal saído da adolescência, liberta-se das tutelas palacianas, para começar o
governo pessoal, em que mal se disfarça, muitas vezes, em hábil simulação, a
sua jovem vontade fria e tenaz. Com evidente tato, sabe aproveitar-se das
aspirações esparsas de apaziguamento político para levar o Marquês de Paraná a
promover a famosa conciliação de 1853, em que se anulam, no amalgama
oportunista, as antigas ideologias partidárias. Prepara-se para a ação soberana
do jovem imperador, através da maquinaria parlamentar é o grande árbitro da
vida brasileira, expressão por sua vez, do regime econômico dos latifúndios de
escravos que se simboliza.
É
possível distinguir a evolução psicológica de Pedro II em duas fases distintas.
Findaria a primeira antes dos cinquenta anos, ao termo da carnificina na guerra
do Paraguai. Ele é o árbitro da vida na nação, um tanto insulada do mundo.
Disfarça menos a própria autoridade. Liberto do que lhe tutelaram o primeiro
ano de reinado sente-se na plenitude de suas forças. O altivo Paraná pode
realizar sob “inspiração augusta” a política de conciliação, que eliminaria as
fronteiras ideológicas dos partidos,
facilitando consequentemente a ação do poder pessoal do soberano. O casamento
sem amor dá-lhe uma esposa modelar de virtudes domésticas. O romantismo renova
a casada seiva literária, de tão pobre sabor reinol; os primeiros conhecimentos
as da filosofia positivista e agnóstica abrem as elites das escolas superiores
à nova compreensão dos fenômenos do mundo físico e moral. Agia como dissolvente
da ideia monárquica, tão exótica na América republicana e igualitária. O
pesadelo da escravidão humilhava as melhores consciências. Vitorioso na
perseguição e morte de Solano López, Pedro II conseguiu protelar-lhe o
desaparecimento. As suas viagens à Europa e à América são como evasões às
coisas aborrecidas que o cercavam. A nação não tolerava sequer a ideia da
chefia do Estado em mãos de uma princesa, piedosa e digna, mas casada com um
príncipe estrangeiro, profundamente antipático e injustiça ao sentimento
púbico.
Tão
forte quanto na literatura foi a
influência francesa na vida artística do Brasil. No crepúsculo do reinado, esboçava-se
certa reação nacionalista na pintura. Na música, equilibravam-se as influências
francesa e italiana, e na arquitetura religiosa e civil, o que havia de melhor
era a velha tradição colonial portuguesa. A imprensa perdera a paixão ou a
virulência do período regencial. Não reconhecia nesta fase o que se denomina hoje
sensacionalismo. O regime de liberdade que alvorecia e que lhes era compactuado
estimulara o florescimento dos jornalistas doutrinários
na pena de aluguel de Evaristo da Veiga e Justiniano José da Rocha. Num país de
escassas atividades intelectuais, por intermédio dos livros e das revistas de
cultura, convertera-se a imprensa no instrumento e monopólio de divulgação de
ideias. Os homens de letras procuravam abrir os próprios caminhos. – “Antigos
panfletários políticos como Sales Torres-Homem, do extremado Libelo do Povo, acabaram por acomodar-se
nos conselhos do governo. Em publicações ineditoriais do Jornal do Commércio, nos famosos A pedidos, ecoavam debates políticos como as ásperas polêmicas
pessoais, as diatribes de toda espécie, as pequenas calúnias, as pequenas
misérias, como o sentimentalismo piegas de uma cidade de hábitos profundamente
provincianos. Os grandes jornais gabavam-se de neutralidade política, e os que
se enfeudavam diretamente aos dois partidos rotativos só conseguiam êxito
quando em oposição. Nos últimos anos do Império, elevara-se o tom da imprensa
oposicionista. A ardente campanha abolicionista de José do Patrocínio, como os
grandes artigos de Rui Barbosa e Quintino Bocaiúva no Diário de Notícias e no País,
eram claros sinais do novo ímpeto combativo” (cf. Bello, 1983: 43).
Justiniano
José da Rocha que redigia na Corte, O
Brasil, tinha razão quando situava a nova Folha de Borges da Fonseca como outra ressureição do Repúblico. O movimento de rebeldia
estava em ressurreição. O terrível panfletário colocar-se-ia desde logo na
esquerda das forças oposicionistas, ipso facto, o centro e a direita da Praia não a poupariam por isso mesmo. Em
agosto de 1847, foi levado a julgamento: não negou suas ideias republicanas e
confessou-se adversário de D. Pedro I. Foi condenado a oito anos de prisão por
ter, em seu jornal, injuriado aa pessoa do Imperador e escrito a favor da
desmembração do Império. Em dezembro a Relação
de Pernambuco anula a iníqua sentença. Foi no período de julgamento que Borges
da Fonseca lançou O Repúblico, que
circulou como meio de comunicação entre 13 de agosto de 1847 e 4 de novembro de
1848 e em que se pode acompanhar o processo de sua aproximação com a Praia,
iniciado de uma posição de veemente repulsa. A epígrafe de seu novo jornal, de
que circularam 120 números era significativa. Com a rebelião, o jornal desapareceu e, a 12 de janeiro de 1849, o chefe
de Polícia, Jerônimo Martiniano Figueira de Melo, que figura entre os primeiros
bacharéis formados pela Faculdade de Direito de Olinda, em 1832, apreendeu a
tipografia e recolheu-a ao Arsenal de
Guerra, pois sua atividade “não podia deixar de ser sumamente danosa à
causa da ordem e da legalidade”.
O
jornal impresso em sua oficina cuja redação foi atribuída sem fundamento, a
Jacinto Manuel Severino da cunha, mereceu de Justiniano José da Rocha, segundo
Sodré (1999), “nova diatribe”. Para o servidor do regresso, cabia aquela folha
“espalhar na classe inferior as suas monstruosas doutrinas”, pondo-as “ao
alcance dos que menos tempo têm para ler, menos ainda para refletir, dos que
por triste predisposição facilmente se inflamam com incendiárias declarações”.
Posição característica da reação, em todos os tempos, como se verifica pela
repetição dela, inconformada em que consentisse em ouvir os que lhe
contrariavam os interesses, em não ver as “classes inferiores” concordar na
tutela dos justinianos e seus mandantes, encarregando-os de ler, por elas, de
pensar por elas, mas ao contrário, com “a triste predisposição” para a
liberdade. Como escritor tornou-se reconhecido por sua índole panfletária, em
que sobressaía o jornalista, patente na obra Ação, Reação, Transação, de 1855. Traduziu O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas (1845) e Os Miseráveis, de Victor-Marie Hugo
(1862). Em 1837 Manuel de Araújo Porto Alegre publica a primeira caricatura do Brasil (cf. Lustosa, 2013),
retratando as disputas entre personagens políticas das Regências. A litografia demonstra
Justiniano José da Rocha contratado por um alto salário para ser o redator do
jornal Correio Oficial do período
regencial, publicado no Rio de Janeiro entre 2 de janeiro de 1830 a 30 de
dezembro de 1840, e que de 1° de julho de 1833 a 30 de junho de 1836 publicou
as matérias oficiais da Regência e,
na gravura, “aparece de joelhos recebendo um saco de dinheiro do governante”.
Este
seu papel subserviente ao poder de Justiniano foi paradigmático como símbolo de
um setor da imprensa brasileira, como assinala Nelson Werneck Sodré: “Porta-voz
conservador, pena alugada, Justiniano
é apresentado, pela historiografia oficial, como nosso maior jornalista, sem
que, para isso, tivesse tido condições”. O historiador acrescenta ainda que foi
ele o personagem típico do jornalismo
de seu tempo, ocupando destaque na imprensa palaciana. Foi apadrinhado pelo
maranhense e ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Paulino José Soares de
Souza, além de visconde de Uruguai que, como ministro, “julgara oportuno
possuir o governo um jornal que se lhe prestasse à publicidade como meio de
influência e formação de opinião”.Alguns
fatores externos à constituição do gênero folhetim também permitiram seu grande
sucesso na Europa oitocentista e no Brasil do século XIX. Dentre os periódicos
fundados ou que participou Justiniano José da Rocha, estão O Atalante (1836), O Cronista,
fundado por Josino do Nascimento Silva e Firmino Rodrigues da Silva para
combater o Regente Feijó, O Brasil
jornal oficial do Partido Conservador, o Correio
do Brasil, O Constitucional e,
por fim, O Regenerador, O Atalante (1836). A imprensa teve
importância capital para os que aspiravam cargos eletivos na arena política ou
viver das letras no século XIX, dentro e fora do Brasil, uma vez que o jornal atingia
um número cada vez maior de leitores, possibilitando formação e o acesso à popularidade.
Como
o desenvolvimento das técnicas de impressão a partir de 1830 responde de modo
eficaz a uma demanda de leitura em plena expansão, ampliando o incipientemercado dos livros e o da imprensa não podiam
ignorar essa massificação de leitores.
A imprensa tem papel fundamental na formação desses novos leitores europeus. A
descoberta da “mina de ouro” para os jornais ocorre nas províncias brasileiras naquela
década, criando, como é de se esperar, um público amplo e cativo. Espelhando o
paradigma familiar, representado através da troca de lealdade e obediência por
proteção e favores constituía a matriz das relações sociais entre clientes e
patrões, recriados quase que indefinidamente entre os mais diversos estratos
sociais. Em 1836, José Justiniano da Rocha, saúda a novidade da ficção
“abençoada invenção periódica”, principalmente no Rio de Janeiro, centro político
e irradiador da cultura em nível nacional. O folhetim
surgiu na França no início do século XIX. Foi importado e incorporado para os
meios de comunicação no Brasil logo depois, fazendo enorme sucesso na segunda
metade do século XIX. Ao tratar de amenidades da vida da classe média, se
aproximava do realismo literário. Também realizava um registro ágil do
cotidiano típico do jornalismo, mas não com a pretensão de registrar a “verdade”,
mas apenas de ser verossímil.
O
jornalista Justiniano José da Rocha nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 8 de
novembro de 1812. Filho de uma escrava, em 1823 seguiu para a França em
companhia de José Joaquim da Rocha, um dos patriotas exilados por D. Pedro I e
que se acredita ter sido seu pai. Educou-se em Paris e, de volta ao Brasil,
completou em 1833 o curso de direito em São Paulo e publicou o Compêndio de
geografia elementar (1838). Dirigiu OBrasil, órgão do Partido Conservador
cuja primeira edição data de 16 de junho de 1840. Foi deputado geral por Minas
Gerais em duas legislaturas, nas décadas de 1840 e 1850. Foi um polemista
durante o Segundo Reinado, objeto da primeira charge política publicada no
país: uma caricatura que demonstrava o jornalista no momento em que recebia
dinheiro do Partido Conservador. Publicou anonimamente o panfleto Ação, reação, transação (1855), sobre os
fatos políticos da história do Brasil no período entre a Independência e a
conciliação, e outros do mesmo tipo. Dirigiu e fundou vários jornais, entre os
quais se destaca O Regenerador,
publicado a partir de 1860. Justiniano José da Rocha morreu no Rio de Janeiro,
em 10 de julho de 1862.
No
plano político, caberia a Justiniano José da Rocha a elaboração de uma teoria do movimento batizado por conciliação. A apologética da época e de
sua política fundava-se no princípio que o ideólogo tornava axiomático e que
dizia inspirar-se no estudo da História. Na luta da autoridade com a liberdade,
sucediam-se, segundo ele, períodos de ação, de reação e, por fim, de transação.
Neste último, o progresso do espírito humano realiza-se, e se firma a conquista
da civilização. O justo equilíbrio seria a conciliação dos contrários, do
radicalismo, atuante e dinâmico, com a reação que procurava deter-lhe a marcha,
firmando o princípio da autoridade. A fase da transação era a que exigia mais prudência, “mais tino, mais devoção
nos estadistas a quem é confiada a força governamental e a alta direção dos
negócios públicos; pois se a não sabem ou não querem reconhecer, se não querem
ou não sabem facilitar, se ainda mais a contrariam, provocam calamidade a que
depois não há sabedoria que possa acudir”.
Os
artigos de jornais, formando um processo de trabalho e de comunicação, incluem,
além da vinculação com os proprietários da empresa, o público consumidor, a
circulação e cooperação, os quais são expressivos para o estudo de cooptação das teorias e explicações
históricas, que ajustadas ao imediatismo da publicação, assumem indisfarçável
caráter ideológico. Ipso facto, os
panfletos são muitas vezes fontes de maior interesse. Sua produção envolve
perguntas cujas respostas encaminham sua decodificação. Sendo um
pronunciamento, deseja atingir a quem, defender o que ser atacado por que
supôs. O panfleto Ação; Reação; Transação, de Justiniano José da
Rocha, publicado em 1855, é um ensaio político. O aspecto ideológico do texto
se delineia quando fundamenta a periodização que embora ele tenha balizado sua
história entre 1822 e 1856, é impelido a retroceder ao fundamentar-se no período
colonial e, em prospecção futura a um processo de novas ações e reações, caso a
transação não cumpra seus objetivos de pacificação. A regra é clara. O primeiro
e o segundo períodos, isto é, de 1822 a 1836, referem-se à luta da democracia
com o princípio monárquico.
Assim
a produção social através da cooperação
de indivíduos no mesmo processo de trabalho e de produção, executa diversas
operações simultaneamente, ou economiza os meios de produção por meio de seu
uso coletivo, ou confere a passagem do processo de trabalho individual ao leitmotiv, o caráter de trabalho social
médio, quando a força produtiva específica da jornada de trabalho combinada é
força produtiva social do trabalho ou, com a divisão sociológica do trabalho, a
composição técnica enquanto força produtiva do trabalho social. Ipso facto, ela
deriva da própria cooperação. Ao cooperar
com outros modos de planejamento, o trabalhador supera suas limitações
individuais e desenvolve sua capacidade genérica. Se os trabalhadores não podem
cooperar diretamente uns com os outros sem estar juntos, de modo que sua
aglomeração num determinado local de trabalho é condição de sua cooperação, os
trabalhadores assalariados não podem cooperar sem que o mesmo capital, o mesmo
capitalista os empregue simultaneamente, comprando ao mesmo tempo, portanto,
suas forças de trabalho. O valor total dessa combinação, ou a soma dos salários
dos trabalhadores por um dia, uma semana, tem de estar
reunido no bolso do capitalista antes da própria força de trabalho ser reunida
no processo de produção.
Com
o triunfo da democracia, a ação é o
tema político central reduzindo-se a parte inicial à justificativa da segunda.
O mesmo se dá em relação ao terceiro e quarto períodos. A reação e o triunfo
monárquico redundam na mesma temática, demonstrando que a divisão é mais um
recurso didático de forma do que fruto de uma exigência teórica. O último
período, também não se caracteriza como “último”, pois entrevê a continuação do
processo. Tanto a ação quanto a reação são concebidas comportando fases de luta
e de triunfo. A ação (1822 a 1836)
inicia-se com o antagonismo entre “as camadas superiores da inteligência” e o
absolutismo. Na Constituinte as contradições acirraram-se. O poder reagiu,
dissolveu a Assembleia e organizou a repressão. Entretanto, ofereceu uma
Constituição em que aparentemente assegurava todas as liberdades, realizando
uma obra idealizada do admirável fruto dos publicistas mais adiantados na
formação da escola liberal. O ódio aos portugueses torna-se o principal motor
do desenvolvimento democrático que foi aparecendo em toda a população e, que
poderia ter sido tão fatal ser a Providência, não houvesse querido salvar-nos.
Na conjuntura final do primeiro reinado, a conspiração democrática chegou ao
auge.A reação (1836-1852) originou-se da extinção dos meios legítimos de
atuação do poder que por sua vez havia gerado revoltas, descontentamentos e
anarquia. As revoltas sucederam-se, ascendendo nos espíritos o desejo de
encurtar a minoridade do príncipe.
Em
uma providencial inversão de papéis, a oposição democrática empalma a
maioridade, e o governo não conseguiu se lhe opor porque na verdade, “a
maioridade era o remate de sua obra”. Os ministérios que se sucederam de 1840 a
1851, contribuíram para obra da reação conservadora, melhor dizendo o
fortalecimento do poder moderador. Curiosamente, o poder moderador, repugnante
aos princípios parlamentares, foi reforçado inclusive por ministérios liberais,
embora no poder, achavam-se tolhidos pela tendência que encontravam a sociedade
os obrigava a recuar. A facção extremada dos liberais acreditou poder pelas
armas, defender algumas das conquistas democráticas. Temendo a velha ideia
grega de que anarquia leva ao caos e a incapacidade de governabilidade, a
reação monárquica recrudesceu e encetou a reforma do código de processo na
determinação de revogar as instituições democráticas. Dessa nova organização
“nasceu um monstro horrível, que ameaça toa a segurança individual que aniquila
toda a liberdade, monstro que,
segundo Janotti (1982), em mil vítimas que cotidianamente, persegue, não se
farta, não sacia os seus instintos: a prisão
arbitrária.
Não
será a primeira vez que o sentido e o significado do habeas corpus serão reduzidos em sua eficácia simbólica, de forma
quase absoluta. A força política das assembleias provinciais despareceu. O
Exército e a Marinha reorganizaram-se. A Guarda Nacional transformou-se em
instrumento de poder. O país não poder estar permanentemente ao sabor dos
acontecimentos da ação e da reação, deve descobrir na sabedoria política os
meios de combinar os dois elementos constitucionais, “ordem como condição de
liberdade” e “liberdade como condição de ordem”. Impõem-se a transação. Ao escrever a reação, na teoria, Justiniano José da Rocha, revela algumas
inconsistências de seu discurso ideológico.
Mas como a reação surge necessariamente ao término da obra democrática e se lhe
opõe em todos os atos, aprioristicamente pode-se prever o seu desenrolar. Assim
o autor descaracteriza fatos históricos atribuindo-lhes inexorabilidade. Como
poderia o princípio monárquico conciliar-se com a democracia, que no período de
interpretação da ação fora
identificada com a República?
No
tema da transação, a vontade
interfere no processo histórico, juntamente com o patriotismo, os grupos de
poder decidirão os destinos da sociedade. A ideia central é a mais abrangente
do discurso. Comumente apontar-se-ia a transação como ideia dirigente do texto,
pois nela se realiza o equilíbrio entre a democracia e a autoridade, mas, na
busca do sentido mais amplo e explicativo das três fases, encontra-se o sentido
moralista: a luta entre o bem e o mal. O mal no tema da ação representa a
anarquia, e a reação representa o absolutismo. O bem é a transação que evita os
excessos da ação e da reação.Foi nesse
universo político, que se estende apenas até 1855, para Janotti (1982), que
Justiniano José da Rocha se movimenta e define a sua opinião sobre a arena política.
Ativo jornalista, em 1840 posicionara-se contra a maioridade, por ser ela
anticonstitucional. Mas conservador convicto, a partir de 1841 defende os
ministérios do partido conservador, sendo subvencionado
diretamente pelo poder. Em 1852 e 1853 sustentou no Correio do Brasil polêmica com Sales Torres Homem, sobre a
inconveniência da conciliação. Experiente foi deputado por Minas
Gerais nas legislaturas de 1842-1843, de 1850-1852 e na de
1853-1856. De início havia sido contra a conciliação preconizada pelos
liberais, mas aderiu ao projeto do visconde de Paraná, para no mesmo ano em que
saiu a publicação Ação, Reação; Transação rompeu com o ministério. Esse
rompimento em maio de 1855 fundamentava-se em sua discordância em relação á
política externa, na questão platina, pois o gabinete agira sem consultar a
câmara, à sombra de poderes que Carneiro Leão enfeixara em suas mãos. Não era
mais um político conciliador em suas ações. Ao desprezar a pena de aluguel não
foi mais reeleito.
Bibliografia geral consultada.
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