domingo, 19 de fevereiro de 2017

Quebrar a Cabaça - Representação Social & História Mítica do Sertão.

                                                                                              Ubiracy de Souza Braga
 
     “As desventuras que mais atingem os homens são aquelas que são escolhidas por eles”. Sófocles
 
 

Sófocles representou na vida social um dramaturgo grego, um dos mais importantes escritores de tragédia ao lado de Ésquilo e Eurípedes, dentre aqueles cujo trabalho sobreviveu. Suas peças retratam personagens nobres e da realeza. Também aperfeiçoou a cenografia e aumentou o número de elementos do coro de 12 para 15, porém esse número pode variar de acordo com o poeta que define a tragédia. Sua concepção teatral foi inovadora e elevou o número de atores de dois para três. Suas primeiras peças foram escritas depois que as de Ésquilo e antes que as de Eurípedes. De acordo com a Suda, uma enciclopédia do século X, Sófocles escreveu 123 peças durante sua vida, mas apenas sete sobreviveram em uma forma completa. Por quase 50 anos, Sófocles foi o mais celebrado dos dramaturgos nos concursos dramáticos da cidade-estado de Atenas, que aconteciam durante as festas religiosas Lineana e Dionísia. Sófocles no processo disciplinar de seu tempo competiu em cerca de 30 concursos, venceu 24 e, talvez, nunca ficou abaixo do segundo lugar; em comparação, Ésquilo venceu 14 concursos e foi derrotado por Sófocles várias vezes, enquanto Eurípides ganhou apenas quatro destas extraordinárias competições.

A “cabaça” por sua reprodutibilidade técnica, no sentido frankfurtiano, foi uma das primeiras plantas cultivadas, não apenas para uso na alimentação, mas para ser utilizada como um recipiente de água. A cabaça pode ter sido levada da África para a Ásia, Europa e nuestras Américas no curso da migração humana, ou por sementes que flutuaram através dos oceanos dentro da cabaça. Provou-se que estava no chamado “Novo Mundo” antes da invasão de Colombo em 1492. Origina-se do árabe “kara bassasa”, “abóbora lustrosa”, designação popular dos frutos das plantas dos gêneros Lagenaria e Cucurbita. Outros nomes incluem “porongo” ou “poranga”, do quíchua “poronco”, que significa “vaso de barro com o gargalo estreito e comprido”, através do espanhol rio-platense, “cuia” do tupi guarani antigo (e) kuîa, “jamaru” do tupi “yama'ru” etc. O “porongo” é utilizado no estado do Rio Grande do Sul e países vizinhos, continental, Argentina e Uruguai, para se fabricar a cuia, recipiente usado para servir o chimarrão, bebida feita pela infusão da erva-mate. A cabaça também é utilizada para fins de ornamentação de residências e festas folclóricas. O termo “cabaço” é transfigurado para referir-se à virgindade mítica. E no caso masculino para “alguém novato, simplório ou ingênuo”.    

Não queremos perder de vista que a virgindade religiosa, ou virgindade sacra, sagrada virgindade ou santa virgindade, são conceitos importantes na tradição cristã, especialmente no que diz respeito à Virgem Maria que ocupa um lugar central no dogma cristão católico e ortodoxo. Votos de castidade e celibato são necessários para entrar na vida monástica ou no sacerdócio. A sagrada virgindade e a perfeita castidade considera a Igreja Católica, quando consagrada ao serviço de Deus, um dos mais “preciosos tesouros” deixados por Cristo à sua Igreja. Afirma ainda a Doutrina da Igreja Católica que a santa virgindade é mais excelente que o matrimônio, isto no Concílio de Trento. Sobre o tema afirma João Paulo II na “Exortação Apostólica Familiaris consortio” (n° 16): - Permanecendo no celibato, o homem pode entregar a Deus um coração indiviso, segundo o modelo do seu Filho, Jesus Cristo, que ao Pai entregou o amor exclusivo e total do seu coração. “- É então que o homem conquista o supremo cume, o vértice do testemunho cristão: Tornando livre de modo singular o coração humano (...) a virgindade testemunha que o Reino de Deus e a sua justiça são aquela pérola que devemos preferir a qualquer outro valor”.


                                  
Úteis em casa e no singular método e processo de trabalho, mágicos nos ritos de passagens, próprios pra fazer música e arte, prontos pra brincar, estes frutos são também bons pra pensar as relações míticas dos homens com os meios em que vivem, com os mundos onde nascem veem e representam e os encontros e desencontros destes homens. Os índios tem uma grande influencia no uso da cabaça, como recipiente para água, cuia para servir ou guardar alimentos preparados, pequenas taças de uso ritual e na confecção de alguns instrumentos sonoros. A cabacinha com quatro furos; a buzina, na qual completa o gomo de taquara. No cinto de algodão, sob a forma de “sininhos sem badalos” que se chocam uns contra os outros. É usado na cintura por corredores, amarrado abaixo do joelho ou socado contra o chão pelos cantores. É usado no cotidiano, como instrumento de trabalho e recipiente para líquidos e alimentos, na música, nos rituais, nas festas e brincadeiras, no artesanato e nas recriações de artesãos urbanos. Entrecascas desses frutos multiformes constituem tanto objetos de uso corriqueiro do dia a dia, quanto os suportes de expressões que distinguem e identificam indivíduos e grupos étnicos da sociedade brasileira, num universo misto de referências culturais. Além disso, dão nomes a cidades, rios, praias, serras e lagoas de Norte a Sul, e estão presentes na tradição oral no Brasil. 
            Nascido na capital cearense passou a infância em Senador Pompeu. Helder Catunda Gomes é formado em Administração de Empresas e mestre de tae-kwon-do. Iniciou sua carreira no cinema em 1991, quando fez suas primeiras participações como dublê de lutas em filmes de artes marciais, em Los Angeles, Califórnia. Estreou como diretor de cinema com o curta-metragem “Cine Holiúdy - O artista contra o caba do mal” (2004); “Sunland Heat - No Calor da Terra do Sol” (2004), gravado na cidade de Fortaleza, o filme teve participação de atores norte-americanos; “Cadáveres” é um filme de terror, lançado diretamente para home-vídeo, em 2008. O longa-metragem foi dirigido por Halder Gomes e Gerson Sanginitto, e escrito por Najla Ann Al-Doori e Andrew Pletcher. O filme, de título pela sequência de “Cadáveres”, de 2006, não tem nenhuma ligação com o longa-metragem original. E, finalmente, “As Mães de Chico Xavier” é um filme de 2011 dirigido por Glauber Filho e Halder Gomes, com roteiro dos diretores baseado no livro: “Por Trás do Véu de Isis”, de Marcel Souto Maior,  é o romance da escritura, constituindo-se uma reportagem realizada durante anos, incluindo a biografia de Chico Xavier, pelo impressionismo jornalístico em busca de evidências empíricas como prova da autenticidade das comunicações mediúnicas. A experiência concreta serviu de embrião para o longa-metragem “Cine Holliúdy”, que foi o filme brasileiro aclamado pela indústria cultural com melhor média de público por sala em 2013. Assinou o roteiro de “Área Q” (2011), dirigido pelo cearense Gerson Sanginitto. Presentemente seus filmes foram exibidos oficialmente em 25 países.

O filme Shaolin do Sertão (2016) dirigido por Halder Catunda Gomes, inclui a participação do elenco da comédia cearense, com destaque ao notório humorista Falcão, que representa um pseudomestre chinês, colocando citações também pseudos-filosóficas como: - “A partir da meia noite, a tendência é amanhecer”.  Vale lembrar que em 2013, Halder Gomes cativou a audiência nacional com uma história regionalista falada em “cearês” que, ao baixo custo de um R$ 1 milhão, levou cerca de 500 mil pessoas ao cinema.  A história social se passa na década de 1980, época em que os chamados brucutus fizeram tanto sucesso quanto aos “Backstreet Boys” fez nos anos 1990. Quando comparativamente numa espécie de “UFC do Sertão”, um lutador em decadência decide criar desafios nas pequenas cidades do Ceará e anuncia um evento, junto com o Prefeito para enfrentar alguém da cidade em que Aluízio faz pão, o Shaolin decide que é hora de buscar a ajuda milenar de um antigo guerreiro chinês chamado Chinês, que por incrível que pareça é interpretado por Falcão, o cantor do nordeste. Em um retorno para a televisão, em 2012 Falcão estreou um talk show, Leruaite, na TV Ceará. Ele é o apresentador e a cada programa convida uma personalidade diferente. Falcão entrevistou nomes como Raimundo Fagner e o ex-governador Ciro Gomes. O programa também é composto pela banda Num Tô Nem Vendo, formada por músicos portadores de deficiência visual. No mesmo ano, foi considerado um dos 30 cearenses mais influentes do ano, de acordo com uma enquete realizada pela revista Fale! Em 2013, Falcão participou do longa-metragem Cine Holliúdy que narra a história de Francisgleydisson, um cearense que quer montar um cinema em sua cidade. Falcão interpretou o cego Isaías, um cego que ia “ver” o filme no cinema.
Shaolin, traduzido do chinês, significa “espessa floresta da montanha Shaoshi”, a montanha Shaoshi é uma das duas que formam o monte Song ou “jovem floresta”. O templo Shaolin foi construído em 495 pelo imperador Xiaowen da dinastia Wei do Norte (386-557) para abrigar o mestre indiano Batuo (Buddhabhadra), que veio a ser o primeiro abade do mosteiro. Nesta época, muitas pessoas se converteram ao budismo, não tanto pela religião em si, mas para fugir das obrigações para com o imperador, pois as leis permitiam, aos convertidos, seguir apenas a Buda e à espiritualidade. Já existiam traços de marcialidade entre os monges budistas. Esses traços se tornaram fato em 520 com a chegada do monge indiano Bodhidharma, também conhecido como Ta Mo, em chinês e Daruma Taishi em japonês. Bodhidharma passou nove anos meditando na caverna do pico Wuru, atrás do mosteiro. Visando a fortalecer os monges, que estavam debilitados devido às longas horas meditando, Bodhidharma “lhes ensinou exercícios que se tornariam a arte marcial do kung fu de Shaolin e as técnicas de meditação que viriam a constituir a escola ch’an de budismo.
Baseado nestes princípios Aloisio decide defender a honra individual e coletiva dos habitantes da cidade enfrentando o tal desafiante, contando com a ajuda de piolho (Igor Janssen) e do primo dele, o fanho Jesus (Haroldo Guimarães), que irão a cidade de Quixeramobim a procura do mestre Chinês (Falcão) para que o habilite com suas técnicas milenares de Kung Fu. O longa-metragem se destaca com a captura das imagens e fotografia colocando em evidência o sertão de Quixadá com a representação de seus monólitos, pertencendo geograficamente à mesorregião dos sertões cearenses e à microrregião do sertão de Quixeramobim. É a maior do sertão central, com uma população de 100.000 habitantes. Apenas uma definição é consenso quanto à origem do nome Quixadá. É uma palavra derivada de alguma das línguas indígenas faladas no território cearense antes do (des)cobrimento; há grandes controvérsias. Ideologicamente se diz que o sertão não é tão belo quanto às praias que fazem o Ceará tão (des)conhecido.    
Índia Tupinambá: criança e cabaça.

Originalmente, a região foi habitada pelos índios Jenipapo-Canindé (cf. Saraiva   de Souza, 2001) pertences ao grupo dos Tapuias, resistindo à invasão portuguesa no início do século XVII, sendo aparentemente pacificados em 1705, quando Manuel Gomes de Oliveira e André Moreira Barros ocuparam as terras quixadaenses. Estes grupos indígenas resistiram até 1760, pois os conflitos entre índios e colonos, ocasionados pelo desenvolvimento da pecuária desde 1705, praticamente extinguiram essas tribos. A colonização da área compreendida pelo município de Quixadá através da penetração pelo rio Jaguaribe, seguindo seu afluente o rio Banabuiú e depois o rio Sitiá, cujo objetivo principal era a conquista de terras para a pecuária de corte e leiteira. A primeira escritura pública da região foi a do Mosteiro Beneditino, hoje Casa de Repouso São José, na Serra do Estêvão, onde hoje é o distrito de Dom Maurício, em 1641.
Manuel da Silva Lima, alegando ter descoberto “dois olhos d'água”, obteve uma sesmaria. Essas terras, inicialmente de Carlos Azevedo, eram o “Sítio Quixedá” adquirido por compra conforme escritura de 18 de dezembro de 1728. Oito anos depois, José de Barros, construiu casas de morada, capela e curral, lançando assim as bases da atual cidade de Quixadá, sendo considerado, portanto, o legítimo fundador da cidade. A fazenda prosperou e se transformou em distrito do município de Quixeramobim. A partir do século XIX, com a estrada de ferro que ligava o Cariri à Fortaleza ocorreu a urbanização do município, influenciada pela produção de algodão exportado para a Inglaterra, que nesta época vivia a segunda fase da Revolução Industrial. Desde sua emancipação até hoje, teve cinquenta e três governos municipais, sendo Laurentino Belmonte de Queiroz, o primeiro gestor no período de crises de 1871 a 1873.

Em termos metodológicos, o estudo de comunidade, instrumento com que a Sociologia nasceu entre nós, largamente influenciada pelos desdobramentos da escola de Chicago, fora enriquecido pela investigação histórica das relações entre brancos e negros durante a escravidão. Em termos interpretativos, porque Nogueira, desafiando as lições de Herbert Blumer (1900-1987) e de seu mestre Donald Pierson (1900-1995), teorizava uma forma nova de preconceito racial, presente em sociedades como o Brasil, quando distinguem os dois tipos básicos de preconceito racial: - Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o “preconceito de raça” se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências sociais do preconceito, pois se diz que é de origem histórica e socialmente determinada.  

O primeiro aspecto, no plano de análise identifica a distinção entre preconceito de marca (aparência) e preconceito de origem (ascendência), que historicamente tem o intuito de qualificar a situação racial brasileira vis-à-vis aos condicionamentos históricos-raciais na sociedade norte-americana. Tratava-se de estabelecer uma crítica às análises que diferenciavam o preconceito racial brasileiro daquele das demais sociedades (em especial a norte-americana) apenas em termos de intensidade, sem qualificá-lo. Essa abordagem significou o ponto de partida de sua contribuição sociológica ao tema na medida em que o autor, ao analisar o preconceito, além de reconhecê-lo, situa-o como um problema central nos estudos das relações raciais no Brasil. Sua perspectiva acerca da sociedade norte-americana foi desenvolvida durante sua estadia naquele país, posteriormente à passagem de Gilberto Freyre na University of Columbia, entre os anos de 1945 e 1947, na Universidade de Chicago, para a realização do doutorado. Ao longo do texto, ele fornece relatos etnográficos de situações cotidianas que vivenciou nos Estados Unidos e cujo impacto social proporcionou o insight para a criação do quadro teórico-metodológico de referência para compreender a situação racial brasileira. Os Estados Unidos da América e o Brasil constituem dois tipos de “situações raciais”: um em que o preconceito racial “é manifesto e insofismável” e outro em que “o próprio reconhecimento do preconceito tem dado margem a uma controvérsia de não se superar”.

O ponto central da reflexão de da sociologia de Oracy Nogueira é a permanência, o desenvolvimento e a especificidade do preconceito racial no Brasil, que ele chama de “preconceito de cor”, ou “preconceito de marca”. Preconceito que facilitou a integração e a ascensão social dos imigrantes europeus e retardou e impediu a ascensão dos negros. Primeiro, porque os brasileiros natos, seja no cotidiano, seja em sua ideologia política ou literária, sempre viram no imigrante branco um elemento de melhoramento ou a ideologia de branqueamento da raça. Segundo, “enquanto a ascensão de descendentes de imigrantes tanto se pode dar com o cruzamento como sem o cruzamento com descendentes de antigos colonizadores portugueses, a ascensão de elementos de cor ou pressupõe ou se faz acompanhar do cruzamento com elementos brancos, seja qual for a origem deles”. Em consequência, cada conquista do negro ou do mulato que logra vencer econômica, profissional ou intelectualmente tende a ser absorvida, em uma ou duas gerações, pelo grupo branco, através do branqueamento progressivo e da progressiva incorporação dos descendentes a esse grupo. O negro, a cada geração, teria, portanto, de começar, de novo, lutando contra o preconceito e sem a solidariedade de um grupo identitário. Sim, porque Oracy confirma o que já se sabia antes dele, e será reafirmado depois: não há, no Brasil, grupo racial qua grupo. A diferença, para Oracy, é que, existindo o grupo para os outros, ainda que não para si, torna-se objeto de discriminação, mas não cria laços de solidariedade que possam fortalecê-lo em sua luta contra o preconceito.

O objeto teorizado por Oracy Nogueira é justamente essa complexa constelação de preconceitos baseados em marcas (1998), afastados de origens geográficas ou culturais, resguardados por ideologias “assimilacionistas”, que impedem o cultivo de diferenças identitárias pelos setores já discriminados. Muitos desses decadentes foram carreados a cargos burocráticos, quando não, a ofícios manuais, considerados menos prestigiosos na localidade. As violações ao “intra-casamento” alimentaram as formas em que se dá a miscigenação. Neste caso foram recolhidos casos frequentes de “uniões pré-maritais” – duradouras ou ocasionais – de homens brancos de projeção, com “mulheres de cor”, prática que chegou até as primeiras décadas deste século. Isso, em detrimento da salvaguarda das famílias brancas, que detinham status social superior e concentravam poder econômico e político. Mestiços resultantes dessas uniões (ostentando alguns deles nome de família tradicional), quando instruídos e dotados de traços negroides pouco acentuados, beneficiaram-se desse conjunto de circunstâncias para atingir posto em atividades menos desvalorizadas, podendo até conquistar destaque político. De qualquer modo, o apelo a atitudes e práticas simulatórias, dissimulatórias ou elusivas, indicavam o mal-estar provocado por tais fatos sociais, em razão do preconceito aí vigente.

Servem de exemplos: o uso de termos imprecisos, como “pardo”, “mestiço” para designações mais embaraçosas; e a dissimulação social em reconhecer o status social como de negros (as), a despeito dos traços étnicos denunciadores, identificados pelo pesquisador, fotografia(s) de pessoa(s) socialmente aceita(s) como integrante(s) do segmento branco. Oracy Nogueira rememora que outro recurso esclarecedor da chamada resistência local às oportunidades, acessíveis a negros e negroides, encontram-se no paralelo entre a efetiva ascensão social no quadro de estrangeiros (principalmente italianos), portadores de conhecimentos técnicos, e a de negros e seus mestiços, mesmo quando, porventura, também portadores desses conhecimentos. A estes últimos o casamento com brancas representou sempre condição indispensável, mas não àqueles outros. Aposentado o etnólogo escreveria, entre outras coisas, a expressiva Introdução a seu livro: Tanto Preto Quanto Branco (1985), que reedita seus artigos sobre relações raciais e a original biografia: Negro Político, Político Negro (1992) que mistura ficção à pesquisa histórica e sociológica na narrativa da trajetória pessoal e política do Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, prefeito de Cunha na República Velha, caso singular de ascensão social e política de um homem negro no Brasil recém-saído do regime escravocrata é o objeto de estudo de Oracy Nogueira neste livro, que alia reflexão sociológica a relato biográfico ao analisar a vida desse médico negro que teve intensa atividade política no interior de São Paulo e chegou inclusive a ocupar cadeira de Senador da República.

A 2ª revolução industrial é vista como apenas uma fase da Revolução Industrial já que, de um ponto de vista sócio tecnológico, não houve uma clara ruptura entre as duas. Na verdade a chamada 2ª revolução industrial representou um aprimoramento e aperfeiçoamento das tecnologias da primeira etapa industrialista. Ainda, é argumentável que ela se divide no meio no século XIX, com o crescimento de estradas de ferro, os navios a vapor e invenções cruciais como o processo de Bessemer e o processo de produção de aço de Siemens com o forno Siemens-Martin, que resultaram no barateamento do aço, transporte rápido e menores custos e difusão da produção industrial. Nos Estados Unidos da América (EUA) a 2ª revolução industrial é comumente associada com a eletrificação de Nikola Tesla, Thomas Alva Edison e George Westinghouse e com o gerenciamento de métodos e técnicas de trabalho racionais de Frederick Taylor, considerado o pai da administração e um dos primeiros sistematizadores da disciplina científica da administração de empresas.  
Na película tendo como background o processo migratório, a seca etc., Aloisio decide defender a honra individual (os sonhos) e coletiva (os mitos, os ritos, os símbolos) da cidade enfrentando o tal desafiante, contando com a ajuda de piolho (Igor Janssen) e do primo dele, o fanho Jesus (Haroldo Guimarães), que irão a cidade de Quixeramobim a procura do mestre Chinês (Falcão) para que o habilite com suas técnicas milenares de Kung Fu. O longa-metragem se destaca nas imagens e fotografia colocando em evidência o sertão de Quixadá com seus monólitos, pertencendo à mesorregião dos sertões cearenses e à microrregião do sertão de Quixeramobim. É a maior do sertão central, com uma população em torno de 100.000 habitantes. Apenas uma definição é consensual na parca historiografia cearense quanto à origem do nome Quixadá. É uma palavra derivada das línguas indígenas no território cearense antes do “descobrimento” (1500); há controvérsias. Ideologicamente se diz que o sertão não é tão belo quanto às praias que fazem o Ceará (des) conhecido. A cultura cearense, assim como em todo o sertão nordestino, é de base essencialmente ibérica com influências indígenas e africanas.  Em diversas áreas do interior cearense, os cordéis, assim como os repentistas e poetas populares, especialistas no improviso de rimas, ainda estão presentes e ativos, seguindo uma tradição que remonta aos trovadores e poetas populares da Idade Média lusitana. Outra forte influência portuguesa se encontra na grande importância das festas religiosas nas cidades de todo o interior, particularmente as festas de padroeiro, que estão entre as principais festividades da cultura cearense, abarcando não só cerimônias religiosas, mas também danças, músicas e outras formas de entretenimento, numa complexa mistura de aspectos sagrados e profanos.

Uma atividade narrativa, mesmo que seja multiforme e não mais unitária, continua, portanto se desenvolvendo onde se trata de fronteiras e de relações com o estrangeiro. Fragmentada e disseminada, ela não cessa de efetuar operações de demarcação. Os relatos são animados por uma contradição que neles representa a relação entre a fronteira e a ponte, isto é, entre um espaço (legítimo) e sua exterioridade (estranha). A região vem a ser, portanto o espaço criado por uma interação. Daí se segue  que, num mesmo lugar, há tantas “regiões” quantas interações ou encontros entre programas. Deste modo, se introduz uma contradição dinâmica entre cada delimitação e sua mobilidade. Segundo a fenomenologia de Michel de Certeau, o relato não se cansa de colocar fronteiras. Multiplica-as, mas em termos de interações entre personagens e movimentos: coisas, animais, e seres humanos. Resultam de um trabalho da distinção a partir de encontros. A junção e a disjunção são aí indissociáveis. Dos corpos em contato, qual deles possui a fronteira que os distingue? Nem um nem o outro. Então, ninguém? – Chamado cada um, este anti-herói é também Ninguém, Nemo, ou o Everyman inglês se torna o Nobody ou o Jedermann alemão se torna Niemand. No entanto, mesmo neste teatro humanista, ele ainda ri. E nisto é sábio e louco ao mesmo tempo, lúcido e ridículo, no destino que se impõe e reduz a nada a isenção que almeja.
       O filme repete a estratégia que garantiu o sucesso de Cine Holliúdy (2012): regionalismo linguístico; cenário ambientado no sertão de Quixadá; trilha sonora marcada por cantores nordestinos, com faixas de Raimundo Fagner e Reginaldo Rossi; atores e personalidades de destaque no cenário regional, como Tirullipa, Falcão, Karla Karenina, Camilla Uckers, Bráulio Bessa, Denis Lacerda, além do rememorado Trapalhão, Dedé Santana, Marcos Veras e Bruna Hamú. O elenco ainda repete a dose dupla que fez sucesso no primeiro longa-metragem de Halder, Edmilson Filho e Haroldo Guimarães, e revela Igor Jansen, destaque como intérprete do menino Piolho. A trama utiliza recursos clássicos da narrativa cinematográfica, descrevendo a trajetória do herói “cabeça chata” com o auxílio do vilão Toni Tora Pleura (Fábio Goulart), da mocinha Anesia (Bruna Hamú), do pai da mocinha (Dedé Santana), além do plano de fundo que tem como escopo a disputa política de coronéis e da população interiorana. Em 2019 o filme foi adaptado para série de televisão brasileira produzida e exibida pelo serviço de streaming Globoplay, cujo lançamento da primeira temporada ocorreu em 30 de abril de 2019. A primeira temporada estreou na Rede Globo em 7 de maio de 2019 em 10 episódios na série de Marcio Wilson e Claudio Paiva, inspirada no filme homônimo Cine Holliúdy de 2013. Edmilson Filho interpreta o protagonista na série. Escrito por Halder Golmes e direção conjunta de Patricia Pedrosa, Halder Gomes e Renata Porto D’Ave.    
      Vale lembrar em análise comparada que o humor moleque dos “humoristas do Ceará” (cf. Silva Neto, 2015), já acusado pelos mais civilizados ou educados de ser apelador ou picante, pode ser resguardado pelo fato de ter como fonte o “popular local”, a essência da alma cearense. É possível agir como moleque fazendo gaiatices ou sendo “fulêro” nos dias atuais sem muita culpa ou ressaca moral já que, na verdade, este é um comportamento visto como importante para aqueles que pretendem ser “cearenses autênticos”. E ainda, seguindo o raciocínio de Cas Wouters (1998), este “humor moleque” que ainda pode ser encontrado na piada “pesada” ou de “mal gosto” só poderia acontecer nessas sociedades onde chega o processo de informalização que libera os impulsos e as emoções mais contidas no exercício do convívio em coletividade. Assim, a “cultura moleque cearense” que não está restrita aos humoristas locais, mas está difusa em um imaginário e memória coletivos orientando práticas ou condutas humorísticas no cotidiano e mesmo propagandeada como uma marca ou característica definidora da identidade cearense pelos meios de comunicação e governos do Ceará na promoção turístico-cultural, encontraria no processo de informalização a sua evasão no meio social contemporâneo. A molecagem, neste sentido, não seria o contrário da civilização dos comportamentos. Mas parte dos avanços e recuos do processo civilizador descrito por Norbert Elias. Contar uma piada picante e por vezes preconceituosa seria um momento de distensões. Das tensões provocadas por uma sociedade vigilante. E mais vigilante legalmente no que dito e escrito politicamente correto. 


Bibliografia geral consultada. 

LÉVI-STRAUSS, Claude, O Cru e o Cozido (Mitológicas I). São Paulo: Editora Brasiliense, 1964; Idem, Mito e Significado. Lisboa: Edições 70, 1989; ABREU, Alexandre Veloso de, Do Sertão ao Ílion: Uma comparação entre Grande Sertão: Veredas e Ilíada. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2005; SILVA, Márcio Inácio da, Nas Telas da Cidade: Salas de Cinema e Vida Urbana na Fortaleza dos anos de 1920. Dissertação de Mestrado em História.  Programa de Pós-Graduação em História Social. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2007; BAECQUE, Antoine de, Cinefilia: Invenção de um Olhar, História de uma Cultura, 1944-1968. São Paulo: Editor Cosac Naify, 2010; MAGALHÃES, Luiz Ricardo, Sertão Planaltino: Cultura, Religiosidade e Política no Cadinho da Modernização (1950-1964). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de História. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2010; BASTOS, Moira Anne Bush, Poética da Cabaça: Fruto de Tradição, Arte e Comunicação. Dissertação de Mestrado em Artes. São Paulo: Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, 2010; SOARES, Ednalda, Miguilins no Sertão da Cabaça Azul: Incandescência, Infância e Devaneios Poéticos em Mutum. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2011; GUEDES, Paulo Henrique Marques de Queiroz, No Íntimo do Sertão: Poder Político, Cultural e Transgressão na Capitania da Paraíba (1750-1800). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2013; COLAÇO, Douglas, A Unidade de Perspectivas entre a Geografia e a Cartografia Medievais: Paralelos com as Artes Visuais. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Geografia. Francisco Beltrão: Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2015; SILVA NETO, Francisco Secundo da, A Gênese da Cultura Moleque Cearense: Análise Sociológica da Interpretação e Produção Culturais. Tese de Doutorado.  Programa de Pós-graduação em Sociologia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2015; PEREIRA, Paul Kennedy Gondim, Clube de Cinema de Fortaleza: Sociabilidade Intelectual e Cultura cinematográfica na Cidade de Fortaleza (1948-1963). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2017; entre outros. 

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