Stephen King - Merleau-Ponty e a Lógica Espiritual de Misery.
Giuliane de Alencar & Ubiracy
de Souza Braga
“A ilusão nos engana justamente fazendo-nos passar por uma percepção autêntica”. Maurice Merleau-Ponty
O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty exercitou em sua teoria reflexões sobre a fenomenologia, movimento filosófico segundo o qual, assim que algo se revela frente à consciência humana, o Homem inicialmente o observa e o percebe em completa conformidade com sua forma, do ponto de vista da sua capacidade perceptiva. Na conclusão deste processo, a matéria externa é inserida em seu campo consciencial, convertendo-se, assim, em um fenômeno. O filósofo tem consciência de que as teorias sociais convencionalmente conhecidas sobre a percepção e a psicologia, contrariando Jean-Paul Sartre, percebe em que instante a consciência é integrada no mundo. As críticas analíticas de Merleau-Ponty ao modelo representacional da percepção e da consciência se constituem ao longo de sua démarche no âmbito filosófico. Todavia em O Visível e o Invisível (1996; 2007), praticamente abandona a preocupação com a crítica a estas questões. Aprofunda cada vez mais suas concepções sobre o corpo, sobre o Ser, inaugurando a concepção de “carne”. Escreve que a carne (“Chair”) não é matéria, não é espírito, não é substância. Seria preciso para designá-la, o termo “elemento” (“élément”) “em que era empregado para falar-se da água, do ar, da terra e do fogo. Isto é, no sentido de uma coisa geral, meio caminho entre o indivíduo espaço-temporal e a ideia”.
Essa teoria circunscreve três impulsos filosóficos que serão afastados pelo trabalho merleau-pontyano: o teológico, que coloca o Absoluto como ponto de partida; o humanista, presente tanto nas filosofias da consciência quanto nas antropologias filosóficas, que faz da subjetividade o ponto de partida. Enfim, o naturalismo cientificista e o de um certo materialismo que, desejoso de corrigir as tendências anteriores, toma o homem e o mundo como processos objetivos impessoais. Esta é a tônica do filme Misery em que a miséria humana não é determinista, pois acaso, do latim: “a casu”, significa “sem causa”. Acaso é uma palavra que pode ser usada em três sentidos diferentes, dependendo do significado que se dê à palavra causa. A base do conhecimento está, portanto, na capacidade de perceber o que nos cerca. Implica também o processo de dar significado ao que foi captado pelos sentidos, para que se possam realizar as necessárias conexões entre os objetos perceptíveis, o que torna possível vê-los como um todo expresso na dinâmica de seu movimento. Voltando sua atenção
filosoficamente para a questões sociais e políticas de seu tempo, histórico e
socialmente, Merleau-Ponty publicou em 1947 um conjunto de ensaios marxistas
contidos no volume: Humanisme et Terreur (“Humanismo e Terror”), a mais
elaborada defesa do “comunismo soviético” do final dos anos 1940.
Contrário ao
julgamento do “terrorismo soviético”, atacou o que considerava “hipocrisia
ocidental”. Porém a guerra da Coreia desiludiu-o e fê-lo romper com Jean-Paul
Sartre, que apoiava os comunistas da Coreia do Norte. Em 1955, Merleau-Ponty
publicou mais ensaios marxistas, intitulados através do ensaio: Les Aventures
de la Dialectique (“As Aventuras da Dialética”). Essa coleção, no entanto,
indicava sua mudança político-afetiva e evidentemente metodológica de posição:
o marxismo não aparece mais como a última palavra na História, mas apenas como
uma metodologia heurística. Merleau-Ponty morreu repentinamente de infarto do
miocárdio, em 1961 aos 53 anos, aparentemente enquanto preparava-se para
apresentar uma aula sobre a concepção filosófica de René Descartes, deixando um
manuscrito inacabado, que foi publicado postumamente em 1964, com uma seleção
de notas de trabalho de Merleau-Ponty, organizados por Claude Lefort,
intitulado: “O visível e o invisível”. Foi sepultado no cemitério Père
Lachaise, em Paris, junto com sua mãe Louise, sua esposa Suzanne e sua filha
Marianne.
Livro é um objeto
comunicativo, imprescindível composto por páginas encadernadas, contendo texto
manuscrito ou impresso com imagens e que forma uma publicação unitária, ou a
parte principal de um trabalho literário, científico ou outros, formando um
volume. Em ciência da informação, o livro é chamado monografia, para
distingui-lo de outros tipos de publicações como revistas, periódicos, teses,
tesauros, artigos etc. O livro é um produto intelectual e, como tal, encerra
reconhecimento e expressões individuais ou coletivas. Mas também é um produto
de consumo, um bem. A parte final de sua produção é realizada por meios
industriais, a impressão e distribuição, envolvendo o design de livros. A
tarefa de criar conteúdo passível de ser transformado em livro é tarefa do
autor. A produção dos livros, no que concerne a transformar os originais num
produto “comercializável”, é tarefa do Editor, em geral contratado por uma
editora. A coleta, a organização e a indexação de coleções de livros, por outro
lado, é tipicamente tarefa do bibliotecário. Finalmente, destaca-se o livreiro,
cuja função principal é disponibilizar os livros editados ao público em geral,
vendendo-os nas livrarias generalistas ou de especialidade. Compete ao livreiro
merceologicamente, todo o trabalho de pesquisa temática que vá ao
encontro da vontade dos leitores contumazes.
A história social do
livro é uma história de inovações técnicas que permitiram a melhora da
conservação dos volumes e do acesso à informação, da facilidade em manuseá-lo e
produzi-lo. Esta história está intimamente ligada às contingências
político-econômicas e à história de ideias e religiões. A escrita surgiu na
antiguidade, antecedente ao texto e ao livro. A escrita consiste em um de
código capaz de transmitir e conservar noções abstratas ou valores concretos,
em suma, palavras. É importante destacar que o meio condiciona o signo, ou
seja, a escrita foi em alguns momentos orientada por esse tipo de suporte; não
é possível esculpir em papel ou escrever em mármore, por exemplo. Os primeiros
suportes utilizados para a escrita foram tabuletas de argila ou de pedra em
escrita cuneiforme encontradas na Mesopotâmia. O livro mais antigo reconhecido
é: Instruções a Xurupaque (c2600-c2500). Considerando as limitações
tecnologicamente que os suportes materiais possuíam, os livros utilizados no período
da chamada Idade do Bronze eram curtos. A Epopeia de Gilgamesh, por exemplo, é
a maior obra literária em tabuletas de argila, e suas traduções ocidentais não
chegam a 16 mil palavras.
Mais tarde veio o khartés,
volumen, para os romanos, a forma pela qual ficou mais conhecido que consistia
em um “cilindro de papiro”, facilmente transportável. O “volumen” era
desenrolado conforme ia sendo lido, e o texto era escrito na maioria das vezes
em colunas, e não no sentido do eixo cilíndrico. Algumas vezes, um mesmo
cilindro continha várias obras e, por conta disso, era denominado tomo. O
comprimento total de um “volumen” era 6 ou 7 metros, e quando enrolado seu
diâmetro chegava a seis centímetros. O papiro consiste a parte da planta, que
era liberada, livrada do restante da planta - daí surge a palavra “liber
libri”, em Latim, e posteriormente livro em português. Os fragmentos de papiros
mais recentes são datados do século II a. C. Aos poucos o papiro é substituído
pelo pergaminho, excerto de couro bovino ou de outros animais. A vantagem do
pergaminho é que conserva mais ao longo do tempo. O nome pergaminho deriva de
Pérgamo, cidade da Ásia Menor onde teria sido inventado e era muito usado.
O “volumen” também foi
substituído pelo códex, que era uma compilação de páginas, não mais um rolo. O
códex surgiu entre os gregos como forma de codificar as leis, mas foi
aperfeiçoado pelos romanos nos primeiros anos da chamada Era Cristã. O uso do
códice e do pergaminho era complementar, pois era mais fácil “costurar códices
de pergaminho do que de papiro”. Uma consequência fundamental do códice é que
ele faz com que se comece a pensar no livro como objeto, identificando
definitivamente a obra com o livro. A consolidação do códex acontece em Roma,
como já citado. Em Roma a leitura ocorria tanto em público (para a plebe),
evento chamado recitatio, como em particular, para os ricos. Além disso,
é muito provável que em Roma tenha surgido pela primeira vez a “leitura por
lazer” (voluptas), desvinculada do senso prático que a caracterizara até
então. Os livros eram adquiridos em livrarias. Assim aparece também a figura do
editor, com Atticus, homem de grande senso mercantil. Algumas obras eram
encomendadas pelos governantes, como a Eneida, encomendada à Virgílio por
Augusto. Acredita-se que o sucesso da religião cristã se deve em parte ao
surgimento do códice, pois a partir de então tornou-se mais fácil distribuir
informações em forma escrita.
Livro é um objeto
comunicativo, composto por páginas encadernadas, contendo texto manuscrito ou
impresso e/ou imagens e que forma uma publicação unitária, ou a parte principal
de um trabalho literário, científico ou outros, formando um volume. Em ciência
da informação, o livro é chamado monografia, para distingui-lo de outros tipos
de publicações como revistas, periódicos, teses, tesauros, artigos etc. O livro
é um produto intelectual e, como tal, encerra reconhecimento e expressões
individuais ou coletivas. Mas também é um produto de consumo, um bem. A parte
final de sua produção é realizada por meios industriais, a impressão e
distribuição, envolvendo o design de livros. A tarefa de criar conteúdo
passível de ser transformado em livro é tarefa do autor. A produção dos livros,
no que concerne a transformar os originais num produto “comercializável”, é
tarefa do Editor, em geral contratado por uma editora. A coleta, a organização
e a indexação de coleções de livros, por outro lado, é tipicamente tarefa do
bibliotecário. Finalmente, destaca-se também o livreiro, cuja função principal
é disponibilizar os livros editados para consumo ao público em geral,
vendendo-os nas livrarias generalistas ou de especialidade. Compete também ao
livreiro todo o processo de trabalho individual e coletivo de pesquisa que vá
ao encontro da vontade dos leitores.
Leitora ardente e fã número 1 dos livros dele, Annie o prende na própria casa e o submete a uma série de torturas inimagináveis. Uma adaptação elegante, fiel e recheada de humor mórbido. Escritor de best-sellers, Paul Sheldon (James Caan) é salvo de um acidente por uma fã que resolve “guardá-lo para ela”. Ela se chama Annie Wilkes (Kathy Bates), enfermeira fanática pela personagem Misery Chastain. Paul, com as duas pernas quebradas e preso à cama, sente o alívio de não ter morrido tornar-se horror quando Annie descobre que a personagem Misery morre no último romance da série. Ele é obrigado a queimar o manuscrito com que esperava conquistar respeitabilidade literária. Annie exige que ele resgate Misery dentre os mortos e, diante do trágico e o inusitado, escrever essa história dramática, pois será sua única garantia de vida. Vale lembrar que num curso sobre o conceito de Natureza, ministrado em 1956/57, no Collège de France, Merleau-Ponty afirma que o problema ontológico é aquele ao qual se subordinam todos os outros e por isso mesmo a ontologia não pode ser um teísmo, um naturalismo ou um humanismo, ou seja, não pode identificar o Ser com um dos seres - Deus, o homem ou a Natureza. Essa posição é reafirmada na última nota de trabalho de seu livro inacabado, O Visível e o Invisível (2007), quando apresenta o plano de seu escrito, escrevendo: - “Trata-se precisamente de mostrar que a filosofia não pode mais pensar segundo esta clivagem: Deus, o homem, as criaturas”.
Neste aspecto filosófico e metodológico, Marx, depois de Hegel, é quem melhor precisa, a ideia segundo a qual “não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência”. Assim como não se julga um indivíduo pela ideia que ele faz de si próprio, não se poderá julgar uma tal época de transformação pela mesma consciência de si; é preciso, pelo contrário, explicar esta consciência pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma organização social nunca desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela é capaz de conter; nunca relações de produção novas e superiores se lhe substituem antes que as condições materiais de existência destas relações se produzam no próprio seios da velha sociedade. É por isso que a humanidade só levanta os problemas que é capaz de resolver e numa observação atenta, descobrir-se-á que o próprio problema só surgiu quando as condições materiais para resolvê-lo existiam ou estavam, ao menos em via de aparecer. Narra que existe a “carne do mundo” e a “carne do corpo” e se imbricam na relação de percepção mútua. - “A carne é fenômeno de espelho e o espelho é extensão da minha relação com meu corpo”. É a possibilidade de corpo e mundo terem carne que os faz reconhecíveis para o outro, que nos faz capazes de, percebendo o mundo, refletirmos sobre este e sobre nós mesmos.
Merleau-Ponty foi, ao lado de Jean-Paulo Sartre, a figura mais representativa do pensamento filosófico francês após a 2ª guerra mundial, e que se celebrizou por uma de suas manifestações reconhecidas: o existencialismo.Ele procura persuadir o leitor de que os conceitos fundamentais da filosofia - sujeito e objeto, fato e essência, ser e nada, consciência, imagem, coisa, palavra - já representam determinada interpretação singular do mundo. Sua obra foi profundamente inspirada pelos trabalhos de Edmund Husserl, considerado o pai da fenomenologia, apesar de negar sua doutrina do conhecimento intencional, preferindo basear sua construção teórica na maneira de se portar do corpo e na captação de impressões dos sentidos.No exame minucioso da percepção, Merleau-Ponty converte o processo fenomenológico em uma modalidade existencial, resumindo no logos a estrutura do mundo. Segundo sua concepção, a filosofia permite um novo aprendizado do olhar sobre o universo que o envolve, um retorno ao âmago do objeto. A base do conhecimento está, portanto, na capacidade suscetível de perceber o que nos cerca, o que implica também o processo sociológico de dar significado ao que foi captado pelos sentidos, para que se possam realizar as necessárias conexões entre os objetos perceptíveis, o que torna possível vê-los como um todo.
O trabalho parece ser uma categoria muito simples. A ideia de trabalho nesta universalidade, como trabalho em geral, é também das mais antigas. No entanto, concebido do ponto de vista econômico nesta forma simples, o trabalho é uma categoria tão moderna como as relações que esta abstração simples engendra. Assim, apesar de historicamente a categoria mais simples poder ter existido antes da mais concreta, pode pertencer, no seu completo desenvolvimento - em compreensão e em extensão -, precisamente a uma forma de sociedade complexa, enquanto a categoria mais concreta se achava já completamente desenvolvida numa forma de sociedade mais atrasada. Assim, a abstração mais simples, que a economia política moderna coloca em primeiro lugar e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece no entanto sob esta forma abstrata como verdade prática enquanto categoria da sociedade mais moderna. Isto é importante, na medida em que para Marx, o todo, na forma em que aparece no espírito como todo-de-pensamento, ou seja, analiticamente, é um produto do cérebro pensante, que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, de um modo que difere da apropriação desse mundo pela arte, pela religião, pelo espírito prático, antes como depois, o objeto real conserva a sua independência fora do espírito; e isso na duração em que tiver uma atividade meramente especulativa, meramente teórica. No emprego do método teórico é necessário que o objeto, a sociedade, esteja constantemente presente no espírito como dado primeiro.
No filme, a máquina de escrever de
Paul tem como representação uma tecla “N” defeituosa, o que alude assim como
uma das primeiras máquinas históricas de escrever de Stephen King. Antes de
James Caan assumir o papel de Paul Sheldon, ele foi oferecido para o genial
Jack Nicholson. O ator recusou porque tinha feito O Iluminado em 1980, e não
queria fazer outra adaptação de um livro de King. Curiosamente James Caan apareceu uma vez
no set de ressaca, e todas as cenas que ele filmou naquele dia obviamente não
ficaram boas para exibição. O diretor Rob Reiner disse a James Caan que ele teria que fazer
as cenas novamente porque havia “um problema no laboratório”. Quando Caan descobriu
que não tinha nada de errado com o laboratório, ele se ofereceu para cobrir o
dinheiro que o estúdio perdeu com a gravação extra. Annie Wilkes é a personagem favorita na literatura ficcionista de King, porque ela sempre
foi surpreendente para escrever, com profundidade e simpatia inesperadas.
Segundo Merleau-Ponty, a esfera humana é uma espécie de “intermundo”, o qual
pode ser explicado como o contexto histórico, a simbologia, ou a verdade a ser
construída.
Algo que acena com a possibilidade
de uma significação das coisas, apesar de todos os paradoxos existenciais.
Neste sentido, ser é visto pelo outro como uma fração de mundo, a interação
social entre as consciências e a ligação dialética
entre o senhor e o escravo no sentido hegeliano. Contudo, as obras mais
significativas de Merleau-Ponty são as de natureza psicológica, para o que nos
interessa, estão entre elas: A Estrutura do Comportamento, de 1942, e Fenomenologia
da Percepção, de 1945. Na sua fase de inferência política elaborou uma série
de outros ensaios de teor marxista como: Humanismo e Terror, de 1947, uma apologia
do comunismo soviético de fins da década de 1940. Em 1955 ele passa por uma
modificação na sua weltanschauung
sobre este regime, no ensaio: As Aventuras da Dialética, de 1955, no qual o
marxismo é visto comparativamente mais como um método
de análise do que representando uma práxis revolucionária para se avançar politicamente sobre o debate da questão tópica da verdade no âmbito histórico da fenomenologia. Ao distanciar-se de suas
primeiras obras e buscar a ontologia, Merleau-Ponty busca o Espírito Selvagem
e o Ser Bruto. Sua interrogação vem exprimir-se na nota de O Visível e o Invisível, na medida em que para ele: “o Ser é o
que exige de nós criação para que dele tenhamos experiência”. Frase cujo
prosseguimento reúne emblematicamente arte e filosofia, pois a nota continua:
“filosofia e arte, juntas, não são fabricações arbitrárias no universo da
cultura, mas contato com o Ser justamente enquanto criações”. Por que criação?
Porque entre a realidade dada como um fato, instituída, e a essência secreta
que a sustenta por dentro há o momento instituinte, no qual o Ser vem a ser:
para que o ser do visível venha à visibilidade, solicita o trabalho do pintor;
para que o ser da linguagem venha à expressão, pede o trabalho do escritor;
para que o ser do pensamento venha à inteligibilidade, exige o trabalho do
pensador. Se esses trabalhos são
criadores é justamente porque tateiam ao redor de uma intenção de exprimir
alguma coisa para a qual não possuem modelo que lhes garanta o acesso ao Ser,
pois é sua ação queabre a via de acesso
para o contato pelo qual pode haver experiência do Ser. Que laço amarra num
tecido único experiência, criação, origem e Ser? Aquele que prende Espírito
Selvagem e Ser Bruto. Que é Espírito Selvagem? É o espírito de práxis, que quer e pode alguma coisa, o
sujeito que não diz “eu penso”, e sim “eu quero”, “eu posso”, mas que “não
saberia como concretizar isto que ele quer e pode senão querendo e podendo”. Isto
é, agindo, realizando uma experiência e sendo essa própria experiência na existência.
O que torna possível a experiência criadora é a existência de uma falta ou de uma lacuna a serem preenchidas, sentidas pelo sujeito da ação como intenção de significar alguma coisa muito precisa e determinada no campo da ação social. Em A Estrutura do
Comportamento, obra dedicada ao tema da relação entre corpo e espírito,
Merleau-Ponty confronta as posições behavioristas e gestaltistas em psicologia,
e afirma que o interesse pela noção de comportamento advém de suas
possibilidades para uma compreensão do mundo humano que escape tanto da redução
mecanicista dos acontecimentos psíquicos quanto da assimilação do psiquismo à
consciência pura. Graças a essa noção, pensada como estrutura, o filósofo pode
distinguir entre a ordem física, a biológica e a humana, ordens que não podem
ser reduzidas umas às outras, por nenhum tipo de mentalidade, mas dotadas de especificidade e diferença
intrínseca. A elaboração da idéia de ordem humana como instituição da ordem
simbólica da cultura efetuada pela percepção, pela linguagem e pelo trabalho,
ou como relação com o possível e com o ausente,assegura airredutibilidade dessa
ordem à ordem física e à biológica, mas nem por isso a concebe como uma
construção intelectual específica posta pela consciência reflexiva: o comportamento humano
não é uma coisa nem é uma ideia.
O referencial teórico de
Merleau-Ponty ainda conserva ressonâncias da tradição esquecida da antropologia filosófica, pois o
papel central é conferido à consciência perceptiva e não à percepção. Diante
das operações da ciência e da filosofia cabe indagar: por que nossa existência
é convertida em objeto de conhecimento, nosso corpo, em coisa qualquer, a
percepção, em pensamento de perceber, a palavra, em pura significação,
instrumento a serviço do mutismo do intelecto? Por que nossa inerência ao
mundo, à história e à linguagem são dissimuladas? Recusa do imprevisível, o
pensamento de sobrevôo é um “projeto de posse intelectual do mundo domesticado
pelas representações construídas pelo sujeito do conhecimento”. A crítica analítica do possessivo é, simultaneamente, afirmação de que a filosofia e a
ciência não são a fonte do sentido e que não há um ponto de partida absoluto, Deus, o homem, a Natureza, mas um solo originário e uma inerência ao mundo
que merecem ser interrogados: o que está ligado de forma inseparável ao ser. É aquilo que está intimamente unido e que diz respeito ao próprio ser. A miséria humana é inerente e faz parte da pessoa ou coisa e que lhe é inseparável por natureza. É o que é intrínseco, específico e que pode servir para caracterizar algo ou alguém para o bem ou o mal. Bibliografia geral consultada.
DE MASI, Domenico (Org.), L`Emozione e la Regola. I Gruppi Creativi
in Europa dal 1850 al 1950. Bari: Casa Editrice Laterza, 1991; MERLEAU-PONTY, Maurice, La
Structure du Comportement. Paris: Presses Universitaires de France, 1942;
Idem,Ciências do Homem e Fenomenologia. São Paulo: Editor Saraiva, 1973;
Idem, “Textos Selecionados”. In: Coleção OsPensadores. São Paulo: Abril
Cultural, 1980; Idem, Fenomenologia da
Percepção. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1996; Idem, Le Primat de la Perception et ses
Conséquences Philosophiques, Précédé de, Projet de Travail sur la Nature de la
Perception. Lagrasse: Éditios Verdier, 1996; Idem, Le Visible et le
Invisible. Paris: Éditions Gallimard, 1996; Idem, O Visível e o Invisível. 4ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva,
2007; MOUTINHO, Luiz Damon Santos, “O Invisível como Negativo do Visível: A
Grandeza Negativa em Merleau-Ponty”. In: Trans/Form/Ação.
Vol.27 n° 1 Marília, 2004; SILVA, Claudinei Aparecido de Freitas da, A Carnalidade da Reflexão: Ipseidade e Alteridade em Merleau-Ponty. Tese de Doutorado em Ciências Humanas. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2007; ZILLI, Bruno Dallacort, A Perversão Domesticada: Estudo do Discurso
de Legitimação do BDSM na Internet e seu Diálogo com a Psiquiatria.
Dissertação de Mestrado em Medicina Social. Programa de Pós-Graduação em Saúde
Coletiva. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2007;
WEBER, Max, La Objetividad del Conocimiento en la Ciencia Social y en la
Política Social. Madrid: Alianza Editorial, 2009; CHAUÍ, Marilena, “Merleau-Ponty: A Obra Fecunda”. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/;
GRESS, Thibaut, “Maurice Merleau-Ponty: Oeuvres”. In: Actu-Philosophia, 6 février 2011; KING,
Stephen, Misery: Louca Obsessão. Rio
de Janeiro: Editor Francisco Alves, 1991; Idem, Misery: Louca Obsessão. São Paulo: Editora Suma de Letras, 2014; MONTEIRO, Daniel Lago, William Hazlitt, um Ensaísta ao Rés-do-chão: Ensaio e Crítica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada. Departamento de Letras. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; entre outros.
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