A Questão das Vidas Desperdiçadas, de Zygmunt Bauman.
Ubiracy de Souza Braga
“A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano”. Zygmunt Bauman
A
popularidade de Zygmunt Bauman (1925-1917) entrou em franca ascendência quando o autor
passou a analisar a pós-modernidade sob o prisma da liquidez (2004). Como uma
época em que nada é feito realmente para durar, em que a fixidez das relações sociais
obtém um valor descartável no processo de social de comunicação, em que toda comunicação é um processo de trabalho, mas nem todo processo de trabalho é um processo de comunicação, elaborando o
conceito de modernidade líquida que se afasta da pós-modernidade,
na medida em que a modernidade representa um continuun. Ela teria se transformado numa versão consumista,
individualista e despolitizada. O conceito de sociedade é comumente usado para expressar o processo de estratificação de cidadãos de um país, governados por instituições nacionais que aspiram ao bem-estar dessa coletividade. Todavia, a sociedade não é um mero conjunto de indivíduos vivendo juntos em um determinado lugar, é também a existência de uma organização social, de instituições e leis que regem a vida dos indivíduos e suas relações mútuas. Há também em análise comparada alguns pensadores cujo debate insiste em reforçar a oposição entre indivíduo e sociedade, reduzindo, com frequência, ao conflito entre o genético e o social ou cultural.
Émile Durkheim e Max Weber conceituaram a sociedade; Karl Marx na tradição de dialética de Friedrich Hegel fala em sociedade civil. Cada um definiu a constituição da sociedade hic et nunc a partir do nível abstrato de análise político, análise social ou econômica do indivíduo. As relações sociais entre os indivíduos e sociedade
tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Uma de suas
citações as “relações escorrem pelo vão dos dedos”, analogamente poderia
ser traduzida como na música “Tempos Modernos”, de Lulu Santos: “Hoje o tempo
voa, amor/Escorre pelas mãos/Mesmo sem se sentir/Não há tempo que volte amor/Vamos
viver tudo o que há pra viver/Vamos nos permitir”. Desde
tempos imemoriais não há nada que o homem tenha temor do que o contato social, como
categoria antropológica, com o desconhecido, pois evita o contato social com o
que lhe é estranho. À noite ou no escuro, o pavor ante o contato inesperado
pode intensificar-se até o pânico. O suposto medo do ladrão não se deve
unicamente a seu propósito de roubar, mas representa também o temor ante seu
toque súbito, inesperado, saído da escuridão. A mão transformada em garra é o
símbolo que sempre se emprega para representar esse medo. Trata-se aí de uma
questão que, em boa parte, manifesta-se no duplo sentido da palavra “agarrar” (Angreifen).
Nesta encontram-se contidos ao mesmo tempo tanto o “contato inofensivo” quanto
“o ataque perigoso”, e algo deste último sempre ecoam primeiro.
O substantivo
“agressão” (Angriff), por sua vez, viu-se reduzido exclusivamente ao
sentido negativo da palavra: à maneira como nos movemos em meio aos muitos
transeuntes, nos restaurantes e transportes de massa por esse medo em torno de
si, e que foram transmitidas por esse temor do contato social. Curiosamente
somente “na massa” é possível ao homem libertar-se do temor do contato. Tem aí
a única situação na qual esse temor transforma-se no seu oposto. E é da massa
densa que se precisa para tanto, aquela na qual um corpo comprime-se contra o
outro, densa inclusive em sua constituição psíquica, de modo que não atentamos
para quem é que nos comprime, como o poeta Bertolt Brecht, precisou bem na
memória. Tão logo nos entregamos à massa não tememos o seu contato. Na massa
ideal, todos são iguais. Nenhuma diversidade contra, nem mesmo a orgia dos
sexos. Quem quer que nos comprima é igual a nós mesmos. Subitamente, tudo se
passa então como que no interior formasse um único corpo. Talvez essa seja uma
das razões pelas quais a massa busca concentrar-se de maneira tão densa: ela
deseja libertar-se tão completamente quanto possível do temor individual e
coletivo do contato físico. Quanto mais energicamente os homens se apertam uns
contra os outros, tanto mais seguros eles se sentirão de não se temerem
mutuamente. Essa inversão do temor do contato, segundo Elias Canetti, “é
característica da massa”. O alívio que nela se propaga abruptamente alcança uma
proporção notavelmente alta quando a massa se apresenta em sua densidade
máxima.
O
que muda comparativamente a esses traços gerais de comportamento refere-se à
hierarquia e o poder que criaram para si as posições fixas e tradicionais. A
partir da maneira como as pessoas se apresentam dispostas uma ao lado da outra,
pode-se facilmente deduzir a diferença de prestígio entre elas. Sabemos o que
significa quando uma pessoa se encontra sentada num plano mais elevado, tendo
todas as demais em pé a circundá-la. Ou quando está em pé, e as demais sentadas
ao seu redor; quando alguém aparece de súbito, e as pessoas reunidas levantam-se;
quando alguém se ajoelha diante de outra pessoa; quando não se convida aquele
que acabou de entrar a sentar-se. Já uma enumeração indiscriminada de exemplos
como esses demonstram a quantidade de configurações mudas que o poder tem como
significado e apresenta. Seria necessário investiga-las, definindo com maior
exatidão o seu significado social e político. Durante um culto religioso numa igreja, os fiéis ajoelham-se muitas vezes; estão acostumados, e mesmo com prazer não atribuem significado a esse gesto frequente.
O orgulho daquele que se encontra
em pé reside no fato dele estar livre e não se apoiar em coisa alguma.
Seja porque interfira aí a lembrança psicológica da primeira vez em que ele,
quando criança, pôs-se de pé sozinho, sentindo-se independente. Aquele que se
levantou, pôs-se de pé em consequência de certo esforço e, assim procedendo,
faz-se tão alto quando pode ser. Mas aquele que se encontra de pé há muito
tempo expressa certa capacidade de resistência, porque pode ser visto por
inteiro, sem ter medo ou ocultar-se. Quanto mais tranquilo se revelar esse seu
estar em pé, quanto menos ele se voltar para espiar em todas as direções, tão
mais seguro ele parecerá. Não temerá sequer um ataque pelas costas, invisível a
seus olhos. O estar em pé causa a impressão de uma energia ainda não consumida,
pois é algo que se encontra no princípio de todo movimento: usualmente, fica-se
em pé antes de se andar ou correr. Trata-se da posição central, a partir da
qual, sem que haja transição alguma, pode-se passar seja para outra posição,
seja para uma forma qualquer de movimento. As pessoas tendem a supor naquele
que está em pé a presença de uma tensão maior. Mesmo nos momentos nos quais sua
intenção é inteiramente diversa; no momento seguinte, talvez se deite para
dormir.
O um fato disciplinar é que na história da vida cotidiana, seja ela social ou tipicamente política é que se superestima aquele indivíduo que se encontra em
pé. Devido
ao conceito de relações líquidas de Bauman em livros como “Amor
Líquido”, onde as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a
ser acúmulode
experiências, ou em “Medo Líquido”, onde erroneamente a insegurança é parte estrutural da
constituição do sujeito pós-moderno, o autor é descrito como “pessimista”,
mas seu propósito é seguir a contracorrente. Se há cientistas, poetas e
artistas exaltando as virtudes do capitalismo, por que não expor exatamente o
contrário, sua face desumana, legado pré-marxista que tem sido amplificado por Bauman
em mais de trinta obras publicadas, tornando-se um ícone para
jovens, dentre as quais a leitura de “Amor Líquido”, “Globalização: as
Consequências Humanas” e “Vidas Desperdiçadas”. Contudo, com o advento da globalização, entevisto por Marx, tornou-se reconhecido por suas análises do
consumismo pós-moderno e das ligações entre modernidade, desperdício e holocausto.
A
obra Vidas Desperdiçadas (Wasted Lives - Modernity and its Outcasts, 2004)
deBauman pode ser discutida com uma
sensibilidade tipicamente da sociologia contemporânea das emoções. Para onde
mandar os indivíduos que não possuem mais nenhuma utilidade e que, por sua vez,
não podem mais ser incorporados a nenhum sistema produtivo? É essa a pergunta
que orienta a discussão sociológica do polonês em sua obra. Simplificadamente
podemos afirmar que emoção é uma experiência subjetiva, associada ao
temperamento masculino e feminino, sua personalidade, sexualidade e motivação.
Existe uma distinção entre a emoção e os resultados da emoção, principalmente
os comportamentos gerados e as expressões emocionais. As emoções complexas
constroem-se sobre condições culturais ou associações combinadas com as emoções
básicas. Outro importante significado sobre classificação das emoções refere-se
a sua ocorrência no tempo. Algumas emoções ocorrem sobre o período de segundos:
a surpresa; outros demoram anos, como o amor. A palavra emoção provém do Latim emotione, “movimento, comoção, ato de mover”.
As
ciências sociais frequentemente examinam a emoção pelo papel que desempenha na
cultura humana e nas interações sociais. Na sociologia contemporânea, as emoções são
examinadas de acordo com o papel que desempenham na sociedade humana, os
padrões e interações sociais e a cultura. Em antropologia, os estudiosos
utilizam a etnografia para realizar análises contextuais e comparações
culturais de uma gama de atividades humanas; alguns estudos de antropologia
examinam o papel das emoções nas atividades humanas. No campo das chamadas ciências da
comunicação, e particularmente os processos sociais comunicativos contemporâneos,
especialistas em críticas organizacionais têm examinado o papel das emoções nas
organizações, a partir das perspectivas de gestores, trabalhadores e mesmo
clientes. Algumas das mais brilhantes e influentes teorias sociais da emoção do século 20
foram desenvolvidas precisamente em sua última década.
Há
três aspectos analisados em Vidas Desperdiçadas que sistematizam a exclusão social:
1) por meio da construção da ordem, 2) por meio do progresso econômico, e, 3)
por meio da globalização. No primeiro caso, a modernidade representou a era dos
projetos. Um momento da história em que o ocidente se viu diante do mundo com a
pretensão de modificá-lo e construí-lo segundo traços previamente concebidos.
Os projetos nazistas, capitalistas e comunistas tinham, como o pós-capitalista
ainda tem, o objetivo de construir um mundo novo sob a égide de alguns
referenciais considerados universais, como a utilização da força e a dominação,
no caso da brutalidade do nazismo; o livre mercado, no caso do capitalismo; e a supressão das classes,
no caso do comunismo. Não é novidade em geral nas formulações discursivas das
humanidades que “a mente moderna nasceu juntamente com a ideia de que o mundo
pode ser transformado”. Ipso facto o
progresso econômico que se espalha pelos mais remotos recantos do nosso planeta
“abarrotado”, vem esmagando em seu caminho as formas de vida
remanescentes que se apresentem como alternativas à sociedade de consumo.
A segunda metade do século XIX viu
o surgimento na Alemanha e na Áustria-Hungria do movimento völkisch,
desenvolvido por reacionários como Houston Stewart Chamberlain (1855-1927) e
Paul de Lagarde (1827-1891). O movimento apresentava um racismo com uma base
biológica pseudocientífica, onde os judeus eram vistos como uma raça em um
combate mortal com a raça ariana pela dominação do mundo. O antissemitismo völkisch
inspirou-se em estereótipos do antissemitismo cristão, mas difere dele
porque os judeus eram considerados uma raça, não uma religião. Em um discurso
perante o Reichstag em 1895, o líder völkisch Hermann Ahlwardt (1846-1914) chamou
os judeus de “predadores” e de “bacilos da cólera”, que deviam ser “exterminados”
para o bem do povo alemão. Em seu best-seller Wenn ich der Kaiser wär (“Se
eu fosse o Kaiser”), de 1912, Heinrich Class, o líder do grupo völkisch
Alldeutscher Verband, pediu que todos os judeus alemães fossem destituídos de
sua cidadania e fossem reduzidos à Fremdenrecht (estrangeiro). Class
também pediu que os judeus fossem excluídos de todos os aspectos da vida alemã,
proibidos de possuir terras, ocupar cargos públicos ou de participar do
jornalismo, de bancos e de profissões liberais. Class definia “como judeu
alguém que era membro da religião judaica no dia em que o Império Alemão foi
proclamado em 1871 ou qualquer pessoa com pelo menos um avô judeu”.
No Império
Alemão, o movimento völkisch e o racismo pseudocientífico tornaram-se comuns e
aceitos por toda a Alemanha, sendo que as classes profissionais educadas do
país, em particular, adotaram uma ideologia de desigualdade humana. Embora
os partidos völkisch tenham sido derrotados em eleições para o Reichstag em
1912, sendo quase dizimados, o antissemitismo foi incorporado nas plataformas
dos principais partidos políticos do país. O Partido Nacional Socialista dos
Trabalhadores Alemães foi fundado em 1920 como um desdobramento do movimento
völkisch e adotou a ideologia antissemita. Grandes mudanças científicas
e tecnológicas na Alemanha durante o século XIX e início do século XX,
juntamente com o crescimento do Estado de bem-estar social, criaram esperanças
generalizadas de que a utopia estava próxima e que em breve todos os problemas
sociais poderiam ser resolvidos. Ao mesmo tempo, era comum a visão racista,
darwinista social e eugenista que classificava pessoas
como biologicamente superiores a outras.
O historiador Detlev
Peukert (1950-1990) afirma que o Holocausto não foi resultado apenas do
antissemitismo, mas foi um produto da “radicalização cumulativa”, em que “numerosas
correntes menores” alimentavam a “corrente principal”, o que levou ao
genocídio. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o clima otimista pré-guerra deu
lugar à desilusão conforme os burocratas alemães perceberam que os problemas
sociais eram mais insolúveis do que pensavam, o que os levou a colocar uma
ênfase maior em salvar os biologicamente “aptos”, enquanto os biologicamente “inaptos”
deviam ser eliminados. Cerca de 100 mil soldados judeus alemães, lutaram pelo
império alemão durante a I Guerra Mundial Em 1919, foi criada a Reichsbund
jüdischer Frontsoldaten (associação de soldados judeus alemães veteranos de
guerra). Seu objetivo era combater a Dolchstoßlegende (“Lenda da
Punhalada pelas Costas”) que acusava os judeus, entre outros, de serem
traidores da pátria e culpados pela derrota alemã. Em torno de 12 mil soldados
judeus morreram durante a guerra, servindo no Exército Imperial Alemão.
Essa
é a expressão da vida contemporânea, carregada de uma ideologia pós-moderna
consumista que prega a individualização nas referências do individuo e,
consequentemente, a negação do sentido humano de uma ética da solidariedade.
Neste caminho segue a produção de “refugo humano” e de lixo em maiores
quantidades, haja vista que a sociedade de consumidores se sobrepôs à sociedade
de produtores. Tese: Quem não consume torna-se “refugo humano” e o que é
consumido transforma-se em lixo, dejeto ou sujeira. A globalização da sociedade
mudou a trajetória de vida desta geração, acabou com sonhos e projetos, criou
dicotomias, rompeu com tradições e acelerou suas vidas. Para Zygmunt Bauman, a
globalizante “modernidade líquida” deixou pra trás a sociedade de produtores
por uma sociedade de consumidores onde o que impera é a produção de refugos e
de lixo. Ela fez com que os projetos humanos causassem a desordem e o caos no
“admirável mundo líquido”. Trata-se de uma reflexão apurada do caminho trágico
a ser trilhado por indivíduos em diversas partes do mundo, caminho esse que nos
conduz a uma “exclusão forçada” e que é, ao mesmo tempo, inerente ao convívio
social. Astúcia reflexiva e sensibilidade aguçada fazem do pensamento crítico do
polonês preocupação com o destino da humanidade.
A
equação: Lixo na cidade + autodeterminação= “heteronomia”, é um ideia de
aproximação conceitual para denominar sociologicamente a sujeição do individuo
à vontade de terceiros (Estado) ou de uma coletividade ou grupamento social.
Opõe-se, por assim dizer, no âmbito da vida cotidiana das cidades
metropolitanas ao conceito de autonomia, onde o ente possui arbítrio e pode
expressar sua vontade livremente, opondo-se também a noção de “anomia” que
representa a ausência de regras. A “heteronomia” é a característica da norma
jurídica que estabelece que esta se imponha à vontade sobre as vontades. Sendo exterior está diante do cinismo e da violência do Estado
onde a consciência moral, em determinadas condições sociais e políticas evolui
da heteronímia para a autonomia.
O
lado trágico nietzschiano dessa história higienista, apenas para elucidarmos uma problemática da razão: o lixo não é apenas
um indicador estatístico curioso de desenvolvimento cultural de um bairro, classe
ou nação. O bairro se define como uma organização coletiva de trajetórias
individuais: com ele ficam postos à disposição dos seus usuários “lugares” na
proximidade dos quais estes se encontram necessariamente para atender as suas
necessidades cotidianas. Mas o contato interpessoal que se efetua nesses
encontros é, também ele aleatório, não calculado previamente; define-se pelo
acaso dos deslocamentos exigidos pelas necessidades da vida cotidiana: no
elevador, na mercearia, no supermercado, na praia etc. Passando pelo bairro é
impossível não encontrar algum “conhecido”, mas permite dizer de antemão que e
onde na escadaria, na calçada. Quanto mais pujante for a ignorância, mais sujeira irá produzir na condução de sua própria vida. O problema está ganhando uma dimensão perigosa por causa da mudança tecnológica e descartável no perfil do lixo.
Um dos
maiores problemas é que em grande parte das sociedades homens e
mulheres pensam que basta jogar o lixo na lata e o problema da sujeira vai
estar resolvido. Nada disso. O problema social só começa aí! O lixo é caro,
gasta energia, leva tempo para decompor e, claro, demanda muito espaço. O lixo
é um problema mundial, só no Brasil são produzidas 90 milhões de toneladas de
lixo por ano, e cada pessoa abastada produz, em média, 300 kg de lixo
anualmente. Tal referência estatística é necessária, tendo em vista o crescente número
de denúncias, matérias, protestos e dos tipos de repúdio emanados da sociedade
civil, que tomaram conta das mídias sociais, além da imprensa dominante
organizada. Essa conscientização, materializada pela conduta proativa do tema
ao conhecimento geral, mas também, de forma determinante, das autoridades
competentes, tem levado a questão a ser cada vez mais apreciada pelo
judiciário. A palavra pobre veio do latim pauper, que vem de pau- = pequeno e pário = “dou à luz” e originalmente referia-se a terrenos agrícolas ou gado que não produziam o desejado. A pobreza mais severa se encontra nos países ditos “subdesenvolvidos”, mas esta existe em todas as regiões. Nos países imperialistas, “manifesta-se na existência de sem-abrigo e de subúrbios pobres”. A pobreza pode ser vista como uma coletividade de pessoas pobres, grupos e mesmo de nações. Para evitar este estigma, essas nações são chamadas ideologicamente “países em desenvolvimento”. A pobreza pode ser absoluta ou relativa. A pobreza absoluta refere-se a um nível que é consistente ao longo do tempo e entre países. Um exemplo de um indicador de pobreza absoluta é a percentagem de pessoas com uma ingestão diária de calorias inferior ao mínimo estatístico necessário, ou seja, aproximadamente 2 000/2 500 quilocalorias. O Banco Mundial define a pobreza extrema como viver com menos de 1 dólar por dia, economicamente em paridade do poder de compra e pobreza moderada como viver com entre 1 e 2 dólares dos norte-americanos por dia. Estima-se que 1 bilhão e 100 milhões de pessoas a nível mundial tenham níveis de consumo inferiores a 1 dólar norte-americano por dia e que 2 bilhões e 700 milhões tenham um nível inferior a 2 dólares. Quase todas as cidades enfrentam diversos
tipos de problemas, dentre os quais a expectativa quanto maior a cidade mais as
adversidades são acentuadas, embora persista a ideia de Jacques Le Goff, como estudioso
da cidade como lugar de troca de diálogo, como lugar de segurança, como lugar de
poder e de aspiração à beleza. Diante desta afirmativa, um dos problemas que
mais se destaca nas cidades não deveria ser a questão do lixo residual,
principalmente o sólido. Diariamente as cidades emitem uma enorme quantidade de
lixo e grande parte desses detritos não são processados, ou seja, o excedente
vai sendo armazenado em proporções alarmantes. O problema cresce
gradativamente, e quantitativamente devido o elevado número de pessoas que se
tornam cada vez mais distante da consciência ecológica no mundo e o grande
estímulo ao consumo na perspectiva presente nas sociedades que avançam para o
sujeito pós-moderno. Ou como diz a escritora e tradutora Lya Luft, “deve ser o
nosso jeito de sobreviver – não comendo lixo concreto, mas engolindo esse lixo
moral e fingindo que está tudo bem”. Fortaleza é uma cidade suja. Não sabe
tratar o seu lixo moral.
Bibliografia geral consultada.
CANETTI, Elias, Massa e Poder. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1995; LE GOFF, Jacques, Pour l`Amour des Villes:
Entretiens avec Jean Lebrun. Paris: Éditions Textuel, 1997; RORTY,
Richard, Contingência, Ironia e Solidariedade. Lisboa: Editorial
Presença, 1994; SANTOS, Boaventura de Souza, A Crítica da Razão Indolente:
Contra o Desperdício da Experiência. São Paulo: Cortez Editores, 2000;
PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia, “Entrevista com Zygmunt Bauman”. In: Tempo
Soc. Vol.16 no.1 São Paulo June 2004; ELIAS, Norbert, Escritos & Ensaios: 1 : Estado, Processo, Opinião Pública. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006;BAUMAN, Zygmunt; TESTER, Keith, La
Ambivalencia de la Modernidad y otras Conversaciones. Barcelona: Ediciones Paidós,
2002; Idem, Amor Líquido: Sobre
a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004;
Idem, Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005; Idem, Confiança e Medo na Cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2009; Idem, Capitalismo Parasitário e Outros Temas Contemporâneos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010; Idem, Sobre
Educação e Juventude: Conversas com Ricardo Mazzeo. Tradução Carlos Alberto
Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar Editor,
2013; Idem, Entrevista com Carlos Lopes: “O Brasil não é um líder ambiental”. In: Revista
Época. Edição735, 18 de junho de 2012; ABREU, Cleto Junior Pinto de, A
Sociologia da Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman: Ciência Pós-Moderna e
Divulgação Científica. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, 2012; REIS,
Andréa; NOVAES, Liza; FARBIARZ, Jackeline, “O Design na Modernidade Líquida e
suas Interações com a Educação na Criação de Jogos e Atividades Lúdicas”. In: Estudos
em Design, vol. 24, nº 2 (2016); VIEIRA, Patrícia Elias, O Consumidor no
Ciberespaço Transnacional: O Devir da “Sociedade Líquido-Moderna” e do Estado
Contemporâneo na Construção da Ciberdemocracia. Tese de Doutorado. Programa
de Pós-Graduação em Ciência Jurídica. Itajaí: Universidade do Vale do Itajaí,
2016; entre outros.
______________
* Sociólogo (UFF), Cientista Político
(UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Nenhum comentário:
Postar um comentário