sábado, 16 de setembro de 2017

Andy Warhol & Basquiat - A Epifania Transcendente do Olhar.

                                                                                     Ubiracy de Souza Braga 
            “In the future everyone will be famous for fifteen minutes”. Andy Warhol
 

 A famosa frase: - “No futuro, todos terão seus quinze minutos de fama”, como profetizou certa vez o cineasta e pintor norte-americano Andy Warhol, reconhecido pelos coloridos retratos da glamorosa Marilyn Monroe e Elvis Presley tornou-se sua marca na modernidade. Mais do que isso, sua fama parece ter se tornada eterna, como tem ocorrido no tempo e espaço quando é cada vez mais celebrada. É o que garante o jornal norte-americano The New York Times. No primeiro semestre de 2015, por exemplo, foram programadas pelo menos três mostras com criações de Andy Warhol nos Estados Unidos da América. Em uma extensa reportagem sobre o legado de um dos criadores e principal representante da Pop Art, o jornal divulgou que nada menos que 40 exposições com obras do artista, muitas delas até então inéditas para o público, “inundarão museus e instituições de arte nos próximos cinco anos”. Isso porque a fundação que leva o nome de Andy Warhol está na terceira fase de um projeto que visa popularizar cada vez mais o trabalho do artista, morto em 1987. É neste sentido que a fundação doou mais de 14 mil obras, sobretudo fotografias e gravuras, “com a condição de que os museus as exibam no prazo de cinco anos”. Já foram distribuídas, desde 1999, 52.786 obras do artista para 322 instituições diversas, sobretudo nos Estados Unidos da América.
Marca é a representação simbólica de uma entidade, qualquer que seja ela, objeto/símbolo que permite identificá-la de um modo imediato como, por exemplo, um sinal de presença, uma simples pegada. Na teoria da comunicação, pode ser um signo, um símbolo ou um ícone. Uma simples palavra pode referir uma marca. O termo é frequentemente usado hoje em dia como referência a uma determinada empresa: um nome, uma marca verbal, imagens ou conceitos que distinguem o produto, serviço ou a própria empresa. Quando se fala em marca, é comum estar se referindo, na maioria das vezes, a uma representação gráfica no âmbito e competência do designer, onde a marca pode ser representada graficamente por uma composição de símbolo ou logotipo, tanto individualmente quanto combinados. No entanto, o conceito de marca é bem mais abrangente que a sua representação gráfica. Marca não é um conceito fácil de definir. A marca em essência representa produção-consumo com uma série específica de atributos, benefícios e serviços uniformes aos compradores. A garantia de qualidade surge entre marcas, mas a marca é um símbolo mais complexo, pois em princípio, a relação social entre complexo e símbolo, coincide em muitos aspectos do desejo, comparativamente, pois ambos se enraízam num núcleo de significado arquetípico.  
                                                 
                     
Analogamente se referem enquanto um conjunto de práticas e saberes sociais a unidades de geração que desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo mercado. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo nível social. A unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. Mas a forma como grupos sociais de uma mesma “conexão geracional” lidam com os fatos históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto da sociedade. Karl Mannheim não esconde sua preferência pela abordagem histórico-romântica alemã. E destaca que este é um exemplo bastante claro de como a forma de se colocar uma questão pode variar de país para país, assim como de uma época para outra.                     
Sociologicamente a globalização representa um dos processos de aprofundamento da divisão internacional do trabalho, da integração econômica, social e política, em seus extremos que teria sido impulsionado pela redução dos meios sociais de comunicação dos países no final do século XX e início do século XXI. Embora vários estudiosos situem a origem da globalização em tempos modernos, Marx analisou a sua história social e econômica na gênese do industrial capitalista relacionado com os chamados descobrimentos do Novo Mundo pelos europeus. Um país com imprensa livre hoje pode ter acesso, algumas vezes por televisão por assinatura ou satélite, a emissoras de difusão de comunicação, desde a NHK do Japão a Cartoon Network norte-americana. A globalização é analisada por  sociólogos, historiadores e cientistas políticos como o movimento social sob o qual se constrói o processo de hegemonia econômica, política e cultural ocidental sobre as demais nações. Esta nova dominação é constituída por redes assimétricas, e as relações de poder se dão mais pela via cultural e econômica do que pelo uso coercitivo de força.         
O pensador marxista italiano Antonio Negri admite em seu livro “Império”, que a nova realidade sócio-política do mundo é definida por uma forma de organização distinta das chamadas hierarquias em classes ou das estruturas de poder “arborizadas”, metaforicamente partindo de um tronco único para diversas ramificações ou galhos cada vez menores. Entende que entidades organizadas através de redes como corporações, organizações não governamentais, incluindo grupos separatistas, têm mais poder e mobilidade e mais chances de sobrevivência no ambiente do que instituições paradigmáticas da pré-modernidade como Estado, partidos políticos e empresas nacionais. Antonio Negri é reconhecido como o pensador político e coautor, com Michael Hardt, do livro Império (2000). A tese marcante de Império como estratégia de poder global é que a globalização e informatização dos mercados mundiais desde o fim dos anos 1960, levaram um declínio progressivo na soberania dos Estados-nação com a emergência de uma nova forma de soberania, composta por séries de organismos nacionais e supranacionais unidos sobre uma única regra lógica de governo. Esta nova forma global de soberania é o que os autores chamam “Império”. Esta mudança representa a “subordinação real da existência social pelo capital”. 

O movimento artístico Art pop surgido na década de 1950 na Inglaterra  e parte do continente europeu, alcançou sua maturidade na década de 1960 nos Estados Unidos da América. A defesa do popular traduz uma atitude artística adversa ao hermetismo da arte moderna. Nesse sentido, esse movimento se coloca na cena artística como “uma das mãos que não se movia”. O nome desta escola estético-artística coube ao crítico britânico Laurence Alloway sendo uma das primeiras e mais famosas imagens relacionadas ao estilo de vida. A Pop art propunha que se admitisse a crise da arte que assolava o século XX. Procurava a estética das massas, através da definição da chamada “cultura pop”, aproximando-se do que se costuma chamar  kitsch. A Pop art representa a passagem da modernidade para a pós-modernidade na cultura ocidental. Com o objetivo da crítica da sociedade globalizada pelos objetos de consumo, ela opera com signos estéticos, de cores inusitadas, massificados pela publicidade e pelo binômio produção-consumo, usando produtos com cores intensas, fluorescentes, reproduzindo objetos do cotidiano em tamanho consideravelmente grande, como de uma escala de cinquenta para um objeto pequeno e inversamente ao tamanho normal.
Do ponto de vista da modernidade (cf. Berman, 2003), a análise etnográfica de Mesquita (2009: 10) apresenta-nos uma relação social comparativamente associada de sentido duplo na relação. Durante anos, a interpretação de Andy Warhol foi coberta por brumas, tornando-se a interpretação do temperamento do artista, do seu personagem histórico e social, de suas estratégias de marketing e de suas supostas relações com as formas de arte e de apropriação estética da modernidade. Assim, o artista foi visto ora como a “linha de frente do capitalismo”, ora como seu “epitáfio cultural”. Pensou-se nele como o antimodernismo por excelência e uma defesa da antiarte. O que foi ficando distante, no entanto, foi “sua obra e o modo como ele articulava os seus elementos”. E de fato, “há dez anos, todos os críticos formalistas norte-americanos descartavam a arte pop in toto, essa rejeição global não admitia levar em consideração nenhuma qualidade ou particularidade individual”.
Marshall Berman, o pensador que lecionava ciência política no The City College of New York e filosofia política e urbanismo na City University of New York, com sua obra reconhecida internacionalmente All That Is Solid Melts Into Air: The Experience of Modernity (1982; 2012), tornou-se o mais famoso ensaio marxista dos anos 1980, cujo título alude a frase do Manifesto Comunista, de Marx e Engels de 1848 associada à linguagem estética em que o marxista humanista apresenta-se radicalmente contrário ao conceito de “pós-modernismo” e acreditava na retomada do humanismo marxista. O livro desenvolve a crítica da modernidade, constituindo-se de análises argutas de vários autores e suas épocas e pela ficcionalização das ideias de Fiódor Dostoiévski, até as vanguardas artísticas do século XX. Pode-se ter analogamente uma ideia da complexidade da relação entre modernidade e o modernismo do século XIX, se prestarmos atenção a duas  vozes mais distintas, através de Nietzsche que incluem a dicotomia apolíneo/dionisíaca, a vontade de poder, que é geralmente aceito pelos modernismos do nosso tempo, e Marx, que ainda não era especificamente associado ao modernismo antes da filosofia de Marshall Berman.
Vale lembrar - mutatis mutandis - que Nietzsche contamina a reflexão crítica na Arte. O trágico sempre será afirmativo e não reativo. O reativo, dialético, é simplesmente conservação de força frente ao inesperado. Que precisa do controle e da submissão daquele que é atingido pelo inusitado. O trágico afirma-se na consciência plena do acaso como constituinte da própria realidade e o “cosmiza” ativamente e não reativamente. O trágico não só afirma a necessidade a partir do acaso, como afirma o próprio acaso. Não só afirma a ordem a partir da desordem, como afirma a própria desordem. Não só afirma o cosmos a partir do caos, como afirma o caos. Reitera, sobretudo, o próprio devir. Essa é a grande inversão que tira do pensamento qualquer pressuposição de sentido e valor, para construí-los a partir do “jogo de forças” visando expansão de potência. A tese de Nietzsche e sua relação pressupõe que o valor é Der Wille zur Macht, se firmando  enquanto força e moldando agentes contra a realidade, melhor dizendo: a falta de valor em si e sentido próprio.                  
Essa reflexão é singular diante da tese: -“Escrevo para apagar meu nome” - na afirmação de Georges Bataille (2003) e assume um sentido quase programático quando o livro como um puzzle é História do olho. Publicada originalmente em 1928, sob o pseudônimo de Lord Auch, a novela que marca a estreia do escritor no mundo das Letras expressa, como nenhum outro texto seu, esse desejo de apagamento, já que busca dissimular de forma obstinada os traços que permitem identificar o verdadeiro nome do autor. Não são poucas, aliás, as referências autobiográficas presentes em História do olho. A começar pelo livro produzido a partir de circunstâncias puramente existenciais. A intervenção do psicanalista em sua vida foi decisiva. História do olho traz outra reminiscência de W.-C., que aparece na página de rosto, colocando tudo o que se segue sob o pior dos signos. O nome de Lord Auch faz referência ao hábito de um dos meus amigos: quando irritado, em vez de dizer “aux chiottes!”, ele abreviava dizendo “aux ch”. Em inglês, Lord significa Deus (nas Escrituras): Lord Auch é Deus “se aliviando”. A vivacidade da história impede que ela se torne pesada; cada criatura transfigurada por cada lugar: Deus mergulhado nela rejuvenesce o céu. Ser Deus, nu solar, numa noite chuvosa, no campo: vermelho, divinamente, cagar com a majestade de uma tempestade, o rosto dissimulado, separado do resto, ser impossível  em lágrimas: quem saberia, antes de mim, o que é a majestade? O olho da consciência e as tábuas da justiça encarnando o eterno retorno. Existe imagem mais angustiada sobre esta representação do remorso? 
           Georges Bataille estava então prestes a completar trinta anos de idade, vividos em constante estado de crise. Era um homem dividido pela vida desregrada, dedicada ao jogo, à bebida e aos bordéis e profundas inquietações filosóficas, fomentadas, sobretudo por suas leituras dos místicos, além de Nietzsche e do Marques de Sade. Tal cisão só fazia realçar a solidão e angústia crescente na medida de suas obsessões fúnebres, relacionadas à violência erótica e ao êxtase profano-religioso. Oscilando, como ele mesmo definiu, “entre a depressão e a excitação extrema”, buscou a terapia e passou a frequentar o consultório de Borel em 1926, à procura do processo de transferência e da compreensão da saída para seus impasses existenciais. A intervenção do psicanalista foi decisiva. O próprio Bataille confidenciou a Madeleine Chapsal  antes de seu falecimento, em 1961: - “Fiz uma psicanálise que talvez não tenha sido muito ortodoxa, porque só durou um ano. É um pouco breve, mas afinal transformou-me do ser completamente doentio que era em alguém relativamente viável”.
Com isso, sociologicamente o tema da arte sofria uma desdramatização. Se o ideológico, afinal não passava de uma consequência pura e simples de um processo prático, material, que importância maior poderia ter, na sua esfera social de ação, as controvérsias que lançavam, uns contra os outros, os sujeitos históricos? Os dramas subjetivos reconhecidos como secundários remetiam os pesquisadores à realidade tida como objetiva, que era o nível onde podiam ser encontradas as causas concretas, isto é, a “verdade dos fenômenos”. A questão filosófica cedia lugar a um campo de estudos bem mais restrito, que ficava entregue à competência exclusiva dos sociólogos, incumbidos de verificar a que grupamentos, classes ou atores sociais se ligavam as representações ideológicas. Os marxistas do final do século XIX e, sobretudo do início do século XX, em sua maioria, adotaram uma concepção dedutivamente sociológica da ideologia, que interpela os indivíduos no plano individual e coletivo, limitando-se ao recurso mental (análise) - e neste sentido poder denunciar politicamente - as formas diretas mais simples da expressão dos interesses materiais das classes sociais nos discursos, nos programas de ação ou na produção artística em geral.
Sob a influência do movimento literário da New Left, Marshall Berman refletiu analiticamente sobre uma série de questões sociais e políticas que ampliam o horizonte das esquerdas em relação aos elementos constitutivos da modernidade. Nos Estados Unidos da América, a Nova Esquerda está associada aos movimentos sociais populares, como o de um processo amplo de irradiação social como o hippie, os de protesto à guerra do Norte contra o Vietnã e pelos direitos civis, que visavam acabar com a opressão de classe, inclusiva ao gênero, raça e sexualidade. Apresentou o modo como o indivíduo pode experimentar, de modo rico, em verdadeira profusão, tudo o que a cultura moderna nos oferece, como consumidores na literatura, nas artes em geral, na cotidianidade da vida urbana, sem cair nos vícios empobrecedores ou “reificantes” da existência, ensejados pelo capitalismo, ou na crítica mais convencional marxista que não atenta para essas condições e possibilidades. Em Marshall Berman, o marxismo, em larga medida, perdeu o sentido libertário original presente na obra de Marx, autor que ele classifica como um dos fundadores da concepção crítica de modernidade.   
Ipso facto Marshall Berman disserta com habilidade sobre três fases antevista da longue durée de Fernand Braudel (1990) na história da modernidade. De início do século XVI até o fim do século XVIII onde as pessoas estão apenas começando a experimentar a vida moderna, quando ainda mal fazem ideia do que e como as atingiu. Quando a grande onda revolucionária de 1789-1790, batalhões de limousinants integravam já os grupos da construção; os auvergnats enxameavam por toda parte; os tanoeiros de Saintonge os empregavam todos os anos etc., demarca o início da segunda fase, onde ganha vida um setor moderno da esfera pública e que compartilha o sentimento de viver em uma era revolucionária se expande a ponto de abarcar virtualmente o mundo nacional. Estados nacionais cada vez mais poderosos, burocraticamente estruturados e mal geridos. Que lutam com obstinação para expandir seu poder; movimentos sociais de massificação e de nações, ameaçando seus governantes políticos, lutando por obter  controle sobre suas vidas;  dirigindo e manipulando muitas pessoas e instituições, um mercado capitalista globalizado, drasticamente flutuante, em permanente expansão.
Enfim, de acordo com Anette Michellson, a partir de 1969, Andy Warhol passa a trabalhar em outro sistema típico da sociedade norte-americana. Seus trabalhos envolvem um maior número de assistentes e ele passa a se ocupar do que ele chama de “business art”, assemelhando-se com a obra de um grande costureiro ou como um produtor de cinema dos estúdios de Hollywood. A sua melhor época como pintor antecede esse período, com trabalhos variados, mas que guardam semelhanças e questões permanentes, sobretudo para a pintura e os trabalhos feitos a partir de procedimentos artesanais, mas do tipo fordista de produção em série com o uso da simulação de imagens repetidas transferidas para a tela por meio da fabricação de produtos em uma linha de produção, digamos, como um ato que de alguma forma capitalística de protesto social. A Pop art está sendo produzida como a solução para o hermetismo da arte informal, guardas as proporções, da Europa e dos Estados Unidos.               
Os intérpretes que se ocupavam das pinturas do símbolo Coca-Cola e das sopas Campbell`s realizadas por Warhol perguntavam se aquelas obras representavam uma crítica ou uma adesão à sociedade de consumo? As pinturas de Warhol aparecem como o principal exemplo, para a tensão criada pelo olhar e a mediação de sua análise da arte pop, depreendendo daí dialeticidade através das relações simbolizadas que ela estabelece com a cultura e os meios de comunicação de massa, da produção da imagem do cotidiano com uma espécie de celebração reificada das relações materiais entre coisas. No entanto, contraria a ideia de que a organização das imagens na tela parte do pressuposto dessa obra enquanto ready-made.  Simplesmente como uma manifestação da esfera política radical da intenção estética de Marcel Duchamp de romper com a artesania da operação artística. Trata de apropriar-se de algo que já está feito: escolhe produtos específicos revelador nos mercados industriais, realizados com finalidade prática e não artística como o urinol de louça, pá, roda de bicicleta, e os eleva abstratamente à categoria de obra de arte. Ele é o artista que, através da dimensão do olhar, reúne as condições e possibilidades da arte e da imagem. Andy Warhol entabula uma genialidade inventiva sob a reprodutibilidade técnica da comunicação no plano visual.
O objeto de pensamento, comparativamente como no marxismo, é incorporado de forma dialetizadora propondo o espectador a se relacionar abstratamente com a arte pretendendo a superação. A imitação é uma categoria do pensamento estético para os que aproximam o uso da imagem em sua reprodutibilidade técnica. O que importa é o mecanismo real como Warhol desmonta/monta essas réplicas na galeria, como ele trata da ideia fordista da produção em serie e como ele transforma esse olhar com a apreensão do material isolado. A descontinuidade ou transformação do processo social criativo do olhar conduzirá à produção daquilo que designamos como objeto da utilização de procedimentos técnicos bastante eficazes.  Caracteriza-se por uma operação de conteúdo de sentido que faz retornar o literário ao problema da arte, contrariando a ênfase modernista na forma do objeto artístico. Decide qualificar a produção de “ready mades”. A expressão se referia primariamente aos poucos objetos que não sofreram qualquer intervenção formal. Na qualidade de objetos, assim transformados, temos os objetos ajudados, retificados, corrigidos e recíprocos, segundo o modo pelo qual sua forma sofre, positivamente, a interferência genial do artista. A experiência da viagem é a experiência de fronteira e do horizonte aberto para ser ele mesmo. A epifania do olhar é uma etapa fundamental da descoberta e da constituição de sua própria identidade e do conhecimento aberto e magnífico do mundo que o cerca. É a sua consciência que perambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como realização da primeira vez.
Bibliografia geral consultada.
BRAUDEL, Fernand, La Mediterranée et le Monde Méditerranéen à l`Époque  de Philippe II. Paris: Editeur Armand Colin, 1990; ELIAS, Norbert, Mozart - Sociologia de um Gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995;  BATAILLE, Georges, História do Olho. São Paulo: Editor Cosac Naify, 2003; JUDD, Donald, “De Qualques Objets Spécifics”. In: Écrits: 1963-1990. 12ª Éditions. Paris: Daniel Lelong Éditeur, 2003; CAUQUELIN, Anne, Arte Contemporânea: Uma Introdução. Editora Martins Fontes, 2005; MORETTI, Franco, Signos e Estilos da Modernidade: Ensaio sobre a Sociologia das Formas Literárias. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007; CRUZ Cecilia Mori, Beleza Profana: Uma Integração da Objeção na Arte. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Arte. Instituto de Artes. Brasília: Universidade de Brasília, 2007; BURGER, Peter, Teoria da Vanguarda. São Paulo: Editor Cosac & Naify, 2008; MESQUITA, Tiago dos Santos, Através do Espelho: A Constituição da Pintura Inicial de Andy Warhol (1956-1968). Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.  Universidade de São Paulo, 2009; CASTRO, Adriano Luiz Ramos de, Cidade Gravada: Uma Geografia do Imprevisto. Dissertação de Mestrado. Salvador: Escola de Belas Artes. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2010; BISSOLI, Daniela Coutinho, Graffiti: Paisagem Urbana Marginal. A Inserção do Graffiti na Paisagem Urbana de Vitória. Dissertação de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2011; SMITH, Terry, ¿Qué es el Arte Contemporáneo? Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2012; MARDUCH, Camila Goulart, O Espectro do Caos: A Contemporaneidade e a Ambivalência da Arte. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2016; MIDLEJ, Dilson Rodrigues, Apropriação de Imagens nas Artes Visuais no Brasil e na Bahia. Tese de Doutorado.  Escola de Belas Artes. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2017; entre outros.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Jogo de Significantes - Guerras, Arquétipos & Narrativas Sociais.

                                                                                     Ubiracy de Souza Braga
Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas”. Sun Tzu

                        
As estruturas sociais de classe, gênero e etnia são geralmente reduzidas às  imagens do social e vividas através do meio de reprodução das imagens e de estilo de vida no processo concreto de globalização. Queremos dizer com isto, que a estrutura implica pelo contrário, certo dinamismo transformador. O substantivo “estrutura”, acrescentando a atributos com sufixos tomados da etimologia da palavra “forma”, e que, na falta de melhor expressão, utilizamos metaforicamente, significando simplesmente duas coisas: são dinâmicas e sujeitas a transformações por modificações de um dos termos, e constituem modelos taxionômicos e pedagógicos, quer dizer, que servem comodamente para a classificação, mas que podem servir, dado que são transformáveis, para modificar os níveis de análise por nós considerados no âmbito do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os símbolos, os ritos). Desnecessário dizer que estamos de acordo com uma aproximação mais evidente entre Claude Lévi-Strauss da  tradição de Radcliffe-Brown.
Em todas as nações e nacionalidades envolvidas em emblemas tais como Oriente Médio, África do Sul, Índia, Rússia, Estados Unidos, Europa, América Latina, Caribe, ou, Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo; ou ainda Centro e Periferia; para não repetir Ocidente e Oriente em todas as nações e nacionalidades há problemas raciais, pouco evidentes ou agudos, antigos ou recentes, que se desenvolvem, mas não se resolvem. Uma pesquisa global, no sentido que emprega Ianni (1997) "demonstra que a consciência étnica está realmente em ascensão, como uma força política"; e que as fronteiras dos Estados nacionais, conforme se acham presentemente desenhadas, estão sendo crescentemente desafiadas por essa tendência. O caráter contrastivo destas identidades constitui, portanto, um atributo essencial da identidade étnica. O processo histórico de segregação de Fortaleza tornou-a uma cidade triste, solitária e vazia no Centro da cidade. Sem bares ou restaurantes que sirvam bebida alcóolica numa área superior a 50 mil. Sem boemia e segurança pública. Dos 119 bairros que a capital possui, 88, 22% tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é baixo ou muito baixo e só 11, 7 % médio ou alto o que representa sociologicamente segregação humana.


No Brasil, diversos são os fatores sociais e políticos apontados como causa do surgimento das “cidades-dormitório” como ocorre na cidade de Fortaleza. Dentre eles, podem ser destacados os processos de conurbação e metropolização marcados pela expansão urbana de áreas com baixo dinamismo econômico, elevado crescimento populacional e que, ocupada por população de baixa renda residente em assentamentos precários. Há uma associação quase que imediata do processo de metropolização ao surgimento das “cidades-dormitório”  (cf. Ojima; Silva; Pereira, 2007) baseado no modelo dicotômico marxista “centro-periferia”. Essas dinâmicas alteram a apropriação do espaço sob a óptica da contradição marxista na relação centro-periferia de modo a evidenciar novas centralidades. Assim, a identidade produzida pela identidade contrastiva aparece como uma identidade que surgiu historicamente de uma oposição. Para tentar delimitar analiticamente a identidade étnica, é necessário reconhecer os “mecanismos de identificação” que contém a identidade em constante processo histórico e social. Através do desenvolvimento histórico de contato, os grupos étnicos em relação (em conjunção) desenvolvem uma “consciência de si da situação”, o que significa que a identidade étnica varia de acordo com as diversidades e diferenças de contato.
O símbolo não sendo já de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos grandes símbolos da imaginação em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, se se parte dos objetos bem definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas “chaves dos sonhos”, segundo as estruturas antropológicas do imaginário, cai-se rapidamente, pela massificação das motivações, numa inextricável confusão. Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos para os devaneios imaginários. Tais são as classificações mais profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso ou da imaginação de modo geral literária.  
Tanto escolhem como norma classificativa uma ordem de motivação cosmológica e astral, na qual são as grandes sequências das estações, dos meteoros e dos astros que servem de indutores à fabulação, tanto são os elementos de uma física primitiva e sumária que, pelas suas qualidades sensoriais, polarizam os campos de força no continuum homogêneo do imaginário; tanto, enfim, se suspeita que são os dados sociológicos do microgrupo ou de grupos que se estendem aos confins do grupo linguístico que fornecem quadros primordiais para os símbolos. Quer a imaginação estreitamente motivada seja pela língua, seja pelas funções sociais, se modele sobre essas matrizes sociológicas e antropológicas, quer pelos seus genes raciais intervenham bastante misteriosamente para estruturar os conjuntos simbólicos, distribuindo seja as mentalidades imaginárias, sejam os rituais religiosos, querem ainda, com uma matriz evolucionista, se tente estabelecer uma hierarquia das grandes formas simbólicas e restaurar a unidade no dualismo de Henri Bergson das Deux Sources, quer enfim que atravessando a técnica da psicanálise se tente encontrar uma síntese entre as pulsões de uma libido em evolução e as pressões recalcadoras do microgrupo familiar. São estas diferentes classificações das motivações simbólicas que precisamos criticar antes de estabelecer um método de análise pretensamente firme na ordem das motivações.
Ares, reconhecido como Marte pelos romanos, era o deus da guerra, do derramamento de sangue e da violência e o único filho de Zeus e Hera. A trajetória evoca um movimento, mas resulta ainda de uma projeção sobre um plano, de uma redução. Estratégia refere-se ao cálculo das relações de força que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder é isolável em um ambiente. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e, portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta. A nacionalidade política, econômica ou científica foi construída segundo esse modelo estratégico. Para descrever essas práticas cotidianas que produzem sem capitalizar, isto é, sem dominar o tempo, segundo Certeau, impunha-se um ponto de partida por ser o foco exorbitado da cultura contemporânea e de seu consumo: a leitura. Da televisão ao jornal, da publicidade a todas as epifanias mercadológicas, a nossa sociedade canceriza a vista, mede a realidade por sua capacidade de mostrar ou de se mostrar e transforma as comunicações em viagens do olhar. Até a economia, transformada em “semiocracia”, fomenta uma hipertrofia da leitura. O binômio produção-consumo poderia ser substituído por seu equivalente: escritura-leitura. A leitura (da imagem ao texto) parece, aliás, constituir o ponto máximo de passividade que caracterizaria o consumidor, constituído em voyeur (troglodita ou nômade) em uma sociedade do espetáculo.   
Enfim, os gestos diferenciados em esquemas sociológicos vão determinar, em contato com o ambiente natural, os grandes arquétipos mais ou menos como Jung os definiu. Os arquétipos constituem as substantificações essenciais dos esquemas. Esta noção em Jacob Burckhardt é sinônima de “origem primordial”, de “enagrama”, de “imagem original”, de “protótipo”. Metáforas de guerra quando Carl Jung evidencia claramente o caráter de trajeto antropológico dos arquétipos quando escreve: - “A imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz respeito também a certas condições interiores da vida do espírito e da vida em geral”. Este arquétipo, intermediário entre os esquemas subjetivos culturalmente e as reproduções de imagens fornecidas pelo ambiente perceptivo, é como representar o número da linguagem que a intuição percebe.
Militante do Sudão do Sul em guerra civil desde 2014.
Decerto, Jung insiste, sobretudo, no caráter coletivo e inato das imagens primordiais, mas sem entrar nessa metafísica das origens e sem aderir à crença em “sedimentos mnésicos” acumulados do decurso da filogênese podemos fazer nossa uma observação capital do psicanalista, que vê nesses substantivos simbólicos que são os arquétipos “o estádio preliminar, a zona matricial da ideia”. Contudo, bem longe de ter a primazia sobre a imagem, a ideia seria tão-somente o comprometimento pragmático do arquétipo imaginário num contexto histórico e epistemológico dado. No âmbito da guerra, sublinhamos a importância essencial dos arquétipos que constituem o ponto de junção entre o imaginário individual (os sonhos) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) e os processos racionais. É que, com efeito, os arquétipos se ligam a imagens individuais e coletivas muito diferenciadas pelas culturas e nas quais vários esquemas se vêm imbricar. Encontram-nos então em presença do símbolo em sentido estrito, símbolos que assumem tanto mais importância quanto são ricos em sentidos diferentes.
No prolongamento dos esquemas explicativos, arquétipos e simples símbolos modernos pode-se considerar o mito. Lembramos, todavia, que não estamos tomando este termo na concepção restrita que lhe dão os etnólogos, que fazem dele apenas o reverso representativo de um ato ritual. Entendemos por mito, “um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a compor-se na narrativa”. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a ideia e que o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem observou Bréhier, a narrativa histórica e lendária. O método de convergência evidencia o mesmo isomorfismo na constelação e no mito. Enfim, para sermos breves, este isomorfismo dos esquemas, arquétipos e símbolos no seio dos sistemas míticos ou de constelações estáticas pode levar-nos a verificar a existência de protocolos normativos das representações imaginárias, bem definidos e relativamente estáveis, agrupados em torno dos esquemas originais e que antropologicamente a literatura refere-se como estruturas.
Aí se mesclam diversidades e desigualdades de tipos sociais e narrativas, compreendendo manifestações religiosas e linguísticas, mas sempre envolvendo alguma forma de racialização das relações étnicas e sociais. Produzidas ao longo de migrações, escravismos e outras formas de trabalho forçado, convívios pacíficos, conflitos inesperados, progrons, genocídios, revoluções, guerras. Assim, não é difícil admitir, de acordo com Ianni (1997), que o tribalismo, adormecido por séculos, reacende para destruir nações e nacionalidades. Sempre que há um contexto de crise social, há o risco de que as intolerâncias se acentuem. Aliás, está acontecendo uma incrível “racialização do mundo”, embora ocorram desde as grandes navegações, os acontecimentos nos últimos anos do século XX estão acentuando a intolerância racial em escala mundial. Em 1978 Edward Said publicou a sua obra mais conhecida, Orientalismo, na qual analisa a visão ocidental arquetípica oriental, mais concretamente do mundo árabe. Segundo o autor, o Ocidente criou uma visão distorcida do Oriente como o “Outro”, numa tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo. Na construção do argumento central do livro Said analisou uma série de discursos literários, políticos e culturais que iam desde textos das Cruzadas ou de Shakespeare, nos quais encontrou um denominador comum: a representação dos habitantes do mundo oriental como bárbaros.
Neste sentido vale lembrar que a contribuição engelsiana conferiu ao marxismo que engloba uma teoria econômica, uma teoria sociológica, um método filosófico e uma visão revolucionária de mudança social, o caráter particular de Antropologia, contrariando a generalização metodológica. A partir das pesquisas antropológicas de L. H. Morgan, lidas e anotadas por Marx, formulou Engels a teoria antropológica do Estado, na obra: ”Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staats” (2000), cujos pressupostos não estavam em sua reflexão anterior, nem de forma sistêmica e embasada na história e na antropologia. A sua importância na literatura de diversos países, ocorre que muitos antropólogos se valeram do arcabouço marxista para entender sociedades não capitalistas e sociedades camponesas. Não só a escola estruturalista francesa, da segunda metade do século XX, com Maurice Godelier e Claude Meillassoux são notáveis exemplos. Com o surgimento da Antropologia moderna, como admite Leslie White, este influenciou a geração de antropólogos próximos ao marxismo, como Marshal Sahlins, antes de seu “acerto de contas” no ensaio: “Cultura e Razão Prática”, assim como Erick Wolf e Elman Service.
O volumoso tomo de Bachofen estava escrito em alemão, isto é, na língua da nação que menos se interessava, então, pela pré-história da família contemporânea. Por isso permaneceu ignorado. O sucessor imediato de Bachofen nesse terreno entrou em cena em 1865, sem jamais ter ouvido falar dele. Esse sucessor foi J. F. Mac Lennan, o polo oposto de seu predecessor. Ao invés do místico genial, temos aqui um árido jurisconsulto; em lugar de uma exuberante e poética fantasia, as plausíveis combinações de um arrazoado de advogado. Mac Lennan encontra em muitos povos selvagens, bárbaros e até civilizados, dos tempos antigos e modernos, uma forma de matrimônio em que o noivo, só ou assistido por seus amigos, deve arrebatar sua futura esposa da casa dos pais, simulando um rapto com violência. Este costume deve ser vestígio de um costume anterior, pelo qual os homens de uma tribo obtinham mulheres tomando-as realmente de outras tribos, pela força. Por outro lado, e com frequência não menor, encontramos em povos não civilizados certos grupos que em 1865, ainda eram muitas vezes identificados com as próprias tribos, no seio dos quais era proibido o matrimônio, vendo-se os homens obrigados a buscar esposas – e as mulheres, esposos – fora do grupo; enquanto isso, outro costume existe, em outros povos, pelo qual os homens de determinado grupo só devem procurar suas esposas no seio de seu próprio grupo social.
Mac Lennan chama as primeiras de tribos exógamas; e as segundas, de endógamas e, de imediato, sem maior investigação, estabelece uma antítese bem definida entre “tribos” exógamas e endógamas. E, ainda quando as suas próprias investigações científicas sobre a exogamia lhe evidenciam que, em muitos casos, senão na maioria, ou mesmo em todos, essa antítese só existe na sua imaginação, nem por isso deixa de toma-la como base para toda a sua teoria. De acordo com ela, as tribos exógamas não podiam tomar mulheres senão de outras tribos, o que apenas podia ser feito mediante rapto, dada a guerra permanente entre as tribos, característica do estado selvagem. De onde provém a exogamia? Em sua opinião, as ideias de consanguinidade e incesto nascidas mais tarde nada têm a ver com ele. Sua causa poderia ser o costume entre eles de matar as crianças do sexo feminino logo após seu nascimento.
Disso resultaria um excedente de homens em cada tribo, tomada separadamente, tendo como consequência imediata a posse de uma mesma mulher, em comum, por vários homens, isto é, a poliandria. Daí decorria, por sua vez, que a mãe de uma criança era conhecida, mas não o pai; por isso, a ascendência era contada pela linha materna, e não paterna pelo direito paterno. E da escassez de mulheres no seio da tribo, atenuada, mas não suprimida pela poliandria, advinha, ainda, outra consequência, que era precisamente o rapto sistemático de mulheres de outras tribos. Para Mac Lennan, como a exogamia e a poliandria procedem de uma só causa, do desequilíbrio numérico entre os sexos, devemos considerar que, “entre todas as raças exógamas, existiu primitivamente a poliandria”. O mérito de Mac Lennan consiste em ter indicado a difusão geral e a grande importância do que ele chama de exogamia. Quanto ao fato da existência de grupos exógamos, não o descobriu e muito menos o compreendeu.
 Além disso, também Morgan observara e descrevera perfeitamente o mesmo fenômeno, em 1847, em suas cartas sobre os iroqueses, e em 1851 na Liga dos Iroqueses, ao passo que a mentalidade do advogado de Mac Lennan causou confusão ainda maior sobre o assunto do que a causada pela fantasia mística de Bachofen no terreno do direito materno. Outro mérito de Mac Lennan consiste em ter reconhecido como primária a ordem de descendência baseada no direito materno, conquanto, também aqui, conforme reconheceu mais tarde, Bachofen se lhe tenha antecipado. Mas, também neste ponto, ele não vê claro, pois fala, sem cessar, “em parentesco apenas por linha feminina” (“kinship through females only”), empregando continuamente essa expressão, exata apara um período anterior, na análise de fases posteriores de desenvolvimento, em que, se é verdade que a filiação e o direito de herança continuam a contar-se exclusivamente segundo a linha materna, o parentesco por linha paterna reconhecida e expressa na estreiteza de critério do jurisconsulto, que forja um termo jurídico socialmente fixo e continua aplicando-o, sem modifica-lo.
Não obstante, sua teoria foi acolhida na Inglaterra com grande aprovação e simpatia. Mac Lennan foi considerado por todos como o fundador da história da família e a primeira autoridade na matéria. A proposta de uma antropologia da guerra não é nenhuma novidade no âmbito dos estudos antropológicos. Concebida por alguns autores como uma espécie de especialização temática da antropologia política, a antropologia da guerra pretende constituir-se como um corpo em torno de conhecimentos sobre os mecanismos sociais de produção de violência, conflitos e guerras. Keith Otterbein num artigo de 1999 descreve o percurso desses estudos disciplinares demarcando quatro períodos: o período da fundação (1850 a 1920); o período clássico (1920-1960); a idade dourada (1960-1980); e o período atualmente. Quer dizer, o período da fundamentação e ipso facto de institucionalização ocorre antropologicamente com Lewis Morgan e Edward Tylor e caracteriza-se essencialmente pela coleta de dados empíricos e por uma visão evolucionista das práticas guerreiras das sociedades ditas primitivas.
Etnograficamente o período clássico é atravessado por duas tendências distintas: a) a continuação de uma linha analítica de cariz ainda evolucionista, concentrada no estabelecimento de tipologias comparativas sobre os procedimentos violentos e guerreiros em diferentes sociedades primitivas; b) o surgimento do mito do “selvagem pacífico”. No primeiro caso o autor destaca um texto de Bronislaw Malinowski (1941), no qual estabelece seis tipos sociais de conflitos armados, segundo uma escala “dos menos violentos aos mais violentos”. São eles: 1) as lutas entre membros do mesmo grupo, 2) as lutas como mecanismos jurídicos de regulação de diferenças entre indivíduos, 3) razias militares com carácter recreativo, 4) as guerras enquanto expressão política de um protonacionalismo, 5) expedições militares com fins de pilhagem organizada, 6) guerras como instrumento de política nacional. Nesta tipologia só os últimos dois tipos de violência, ou de guerras propriamente ditas imperialistas, assumem um caráter verdadeiramente moderno e letal como ocorreu recentemente com o ataque dos aviões ocorridos em 11 de setembro às torres gêmeas.
Lembrando ainda que em torno do agrupamento imaginário de imagens que ela é suscetível de se articular numa estrutura mais geral e que não são agrupamentos rígidos. Assim como, por um lado, de formas imutáveis pelos traços tipológicos dos indivíduos, e por outro lado, que ligam as suas transformações sociais às pressões históricas e antropomórficas numa filosofia pretensamente de análise do imaginário que se interrogue sobre a forma comum que integra esses regimes heterogêneos e sobre a significação funcional dessa forma de imaginação e do conjunto das estruturas e dos regimes que ela subsumiu. Na ordem da produção simbólica, o objeto carece de unicidade e singularidade, pois, objetos tornam-se simulacros indefinidos uns dos outros e, juntamente com os objetos, os homens que os produzem. A pretensa objetividade do mundo erigido a partir da racionalização técnica corresponde à universalização de um modelo arbitrário advindo da generalização da economia política na forma da lei do valor. A partir do código, considerado como sistema de signos generalizados, a simulação opera a inversão das relações entre o real e sua representação, estabelecendo simples oposições binárias que permitem a objetividade do discurso e o controle dos objetos. Em relação ao discurso, reduzindo o signo ao puro jogo dos significantes, anula a relação entre significante e significado necessária ao processo de significação.

Bibliografia geral consultada.

CLASTRES, Pierre, Archéologie de la Violence. La Guerre dans les Sociétés Primitives. Paris: Éditions Libre, 1977; Idem, La Palabra Luminosa: Mitos y Cantos Sagrados de los Guaraníes. Buenos Aires: Ediciones del Sol, 1993; BACHELARD, Gaston, La Intuición del Instante. México: Fondo de Cultura Económica, 1985; SACHS, Ignacy, Espaços, Tempos e Estratégias do Desenvolvimento. São Paulo: Editora Vértice, 1981; Idem, Ecodesenvolvimento: Crescer sem Destruir. São Paulo: Editora Vértice, 1986; Idem, Estratégias de Transição para o Século XXI: Desenvolvimento e Meio Ambiente. São Paulo: Studio Nobel/Fundap, 1993; MARCHAL, Roland, “La Cause des Armes au Mozambique: Anthropologie d une Guerre Civile”. In: Cultures & Conflits, 1990; JUNG, Carl, Sincronicidade. 5ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1991; BACHOFEN, Johann Jakob, El Matriarcado: Una Investigación sobre la Ginecocracia en el Mundo Antiguo según su Naturaleza Religiosa y Jurídica. 2ª edición. Madrid: Ediciones Akal, 1992; FLORÊNCIO, Fernandes, “Christian Geffray e a Antropologia da Guerra: Ainda a Propósito de La Cause des Armes au Mozambique”. Disponível em: http://ceas.iscte.pt/etnografica/; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário: Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; ENGELS, Friedrich, El Origen de la Familia, la Propriedad Privada y el Estado. Moscú: Editorial Progreso, 2000; HOBSBAWM, Eric, Nazioni e Nazionalismi dal 1780. Programma, Mito, Realtà. Torino: Einaudi Editore, 2002; LANNA, Marcos, “De Claude Lévi-Strauss a Pierre Clastres: Da Troca à Filosofia da Chefia e desta à Política como Código Estrutural”. In: Perspectivas. São Paulo, vol. 43, pp. 17-33, jan./jun. 2013; BIUSO, Alberto Giovanni, Anarchisme et Anthropologie. Pour une Politique Matérialiste de la Limite. Paris: Éditions Asinamali, 2016; Vivemos uma tragédia. Entrevista Fernanda Montenegro. In: Revista Veja. Editora Abril, edição 2528, ano 50, nº 18, 3 de maio de 2017; entre outros.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Teorias da Comunicação, Produção e Consumo nos Bairros.

                                                                                        Ubiracy de Souza Braga
O bairro é uma porta de entrada e de saída entre espaços qualificados e o espaço quantificado”. Henri Lefebvre

                         
O bairro se define como uma organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de “se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um “engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois sistemas com o auxílio do conceito de conveniência, que surge no nível dos comportamentos, representando um compromisso pelo qual cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a vida coletiva,  retirando daí benefícios simbólicos necessariamente protelados. Pela relação “saber comportar-se”, o usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidiana.  
   A contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que percorre. O bairro é por definição, um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se sente reconhecido. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente, como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social integrado. A fixidez do habitat dos usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento que se estabelecem graças á coexistência concreta em um mesmo território urbano, todos esses elementos práticos se nos oferecem como imensos campos de exploração em vista de compreender um pouco melhor esta grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.

 
A história social do bairro Benfica origina-se no período compreendido entre o final do século XIX até o início da década de 1950. A “Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios”, projetada por Adolfho Herbster em 1875, a área espacial do futuro bairro já tinha sido anexada à área urbana (cf. Vasconcelos, 2015: 42). Portanto, a parte do bairro denominada Gentilândia, surgiu nos últimos anos do século XIX, quando o coronel e banqueiro José Gentil Alves de Carvalho, nascido em Sobral em 11 de setembro de 1866, transferiu-se para Fortaleza em 1893 onde com outros parentes, fundou a firma Frota e Gentil. Dedicando-se principalmente ao ramo de tecidos a firma prosperou com muitas representações. Casou-se em 1866 com Maria Amélia Tome da Silva Frota, também de Sobral com quem teve 15 filhos. Adquiriu de João Antonio Garcia a área onde é a Reitoria da Universidade Federal do Ceará. A Chácara Garcia passava a ser Chácara Gentil e, remodelada em 1918, perdeu as feições rurais para virar palacete.
Na década de 1920 o destaque era a presença das chácaras de duas famílias ilustres. Os Manços Valente com residência nas proximidades das caixas d’água de ferro que possuíam como casa principal uma mansão de três andares de frente para a Avenida Visconde do Cauípe, atual avenida da universidade, e duas casas menores direcionadas para a Rua Tristão Gonçalves pertencentes aos herdeiros da família. E a família Gentil que possuía a chácara de maior dimensão na qual se localizava quatro mansões cuja principal era residência do patriarca, o Cel. José Gentil Alves de Carvalho, localizada de frente para a Av. Treze de Maio onde adentrava o bonde vindo do Centro que ia para o Prado. Vizinhas a essa, na direção da estrada de Arroches, estava a residência de sua filha Beatriz Gentil Campos, um bangalô de aluguel onde residiu Aziz Kalil e próximo ao final da linha de bondes do Benfica estava a residência de seu filho João Gentil, considerada a mansão mais moderna da cidade, tanto que o presidente Getúlio Dornelles Vargas hospedou-se nela em sua visita ao Ceará em 1935. O empresário dos Bancos Frota e Gentil, do Centro de Fortaleza construíram “uma cidade dentro do bairro em formação”. Ipso facto, a história de José Gentil se confunde com a do bairro Benfica. A maior parte da Chácara Gentil foi desmembrada durante sua vida, para compor os quarteirões, as ruas e as praças do pequeno bairro da Gentilândia implantado na década de 1930. Da área construída parte foi reservada para a família Gentil e o restante foi alugado para famílias da emergente classe média.
 O bairro surge como o domínio onde a relação espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares impostos pelo urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para satisfazer o desejo urbano dos usuários da cidade.    
 


            
A expansão da Vila Gentil foi planejada por seu proprietário praticamente em todos os detalhes. As residências projetadas por ele para as famílias de maior poder aquisitivo não possuíam garagem porque havia um quarteirão destinado a elas na própria Gentilândia para que a entrada de carros na frente das residências não prejudicasse a beleza arquitetônica do conjunto. A preservação das frondosas mangueiras que compunham sua chácara quando da construção da vila é outro fator apontado como diferencial desse espaço no Benfica. O periódico O Povo, na capital ao noticiar o falecimento do comerciante, em 12 de março de 1941 destaca a Vila Gentil e as preocupações urbanísticas de seu idealizador: - “Amigo de Fortaleza construiu dentro da capital uma cidade moderna, higiênica e aprazível, aquela que lhe tem o nome. Encantado pela paisagem, perdia horas noturnas diante de uma planta de construção, dedicado a estudar o meio de poupar as árvores” (cf. Pereira, 2008: 67).
Pelo fato do seu uso habitual, o bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro, que se efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.  Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. O limite público/privado, que parece ser a estrutura fundadora do bairro para a prática de um usuário, não é apenas uma separação, mas dialeticamente constitui uma separação que une.
A relação entrada/saída, dentro/fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa/trabalho, conhecido/desconhecido e assim por diante, mas representa sempre uma relação social entre uma pessoa e o mundo material e social, condicionado por uma dialética constitutiva da autoconsciência que vai haurir, nesse movimento de ir e vir, de mistura social e de recolhimento íntimo, a certeza de si mesma enquanto imediatamente social. Essa diferença entre a essência e o exemplo, entre a imediatez e a mediação, quem faz não somos nós apenas, mas a encontramos na própria certeza sensível; e deve ser tomada na forma em que nela se encontra, e não como nós acabamos de determina-la. Na certeza sensível, por exemplo, um momento é oposto como o essente simples e imediato, ou como a essência: o objeto. O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, mas por meio do Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto faz que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido – enquanto o saber não é, se o objeto não souber que pode ser. Trata-se assim da singularidade imediata de apreensão do objeto.

O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, mas por meio de Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido – enquanto o saber não é, se o objeto não é. O objeto, portanto deve ser examinado, para vermos se é de fato, na certeza sensível mesma, aquela essência que ela lhe atribui; e se esse seu conceito – de ser uma essência – corresponde ao modo imediato como se encontra na certeza sensível. Enfim, nós não temos, para esse fim, de refletir sobre o objeto, nem indagar o que possa ser em verdade; mas apenas no âmbito da filosofia de Hegel através da ideia de formação em “considerá-lo como a certeza sensível o tem nela”.
Para sermos breves, pensamento social e particularmente a Antropologia tem por tradição hic et nunc desvalorizar ontologicamente a imaginação, e sociologicamente sua função fomentadora de erros e falsidades. No limite, a “imaginação sociológica”, para lembrarmo-nos de Wright Mills, é reduzida pelos clássicos e contemporâneos àquela concepção de sensação de uma imagem remanescente ou repetida e consecutiva do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos). Desvalorizado para explicar “conexões imaginativas”, capaz de estimular a criatividade no âmbito da teoria social, sem perder a conexão de sentido com o imaginário social, que pode cometer o erro de reduzir a imaginação a um puzzle técnico-metodológico. A teoria produz significados reflexivamente de um ponto de vista sobre um ponto de vista.
Assim, a análise reproduz um “recorte” empírico a meio caminho entre a solidez da sensação e a pureza da ideia correlata ao associacionismo psicológico ao abrir dimensões novas no continuum de elucidação da consciência. Associar a questão da consciência à formação e significado nas relações de poder oligárquico, tolda as organizações populares que enquadram a chamada “opinião pública” inexistente. As comissões oficiais funcionam segundo uma lógica para criar um grupo com todos os elementos exteriores necessários para formar uma opinião digna de ser expressa. De acordo com determinados padrões nas democracias modernas porque representam conquistar o poder, mas, sobretudo saber exercê-lo através das mediações da autoridade na sociedade contemporânea. Temos assim a formação publicitária da informação.    
Enfim, a prática do bairro introduz um pouco de gratuidade no lugar da necessidade; ela favorece uma utilização do espaço urbano não finalizado pelo seu uso somente funcional. No limite, visa conceder o máximo de tempo a um mínimo de espaço para liberar possibilidades de deambulação. A cidade é, em seu sentido característico, “poetizada” pelo sujeito: este a “refabricou” para o seu uso próprio desmontando as correntes do aparelho urbano: ele impõe à ordem externa da cidade a sua lei de consumo do espaço. O bairro é, por conseguinte, no sentido econômico do termo, um objeto de consumo do qual se apropria o usuário no modo da privatização do espaço público. Aí se acham reunidas todas as condições para favorecer esse exercício: conhecimento dos lugares, trajetos cotidianos, relações de vizinhança (política), relações como os comerciantes (economia), sentimentos difusos de estar no próprio território (etologia), tudo isso como indícios cuja acumulação e combinação produzem, e mais tarde organizam o dispositivo social e cultural segundo o qual o espaço urbano se torna não somente o objeto de um conhecimento, mas o lugar de um reconhecimento. 
A conveniência se impõe em primeiro à análise pelo seu papel negativo. Ela se encontra no lugar da lei, aquela que torna heterogêneo o campo social proibindo que aí se distribua em qualquer ordem e a qualquer momento não importa que comportamento social. Isto quer dizer que a conveniência mantém relações muito estreitas com os processos de educação implícitos a todo grupo social: ela se encarrega de promulgar as “regras” do uso social, enquanto o social é o espaço do outro, e o ponto médio da posição da pessoa enquanto ser público. A conveniência é o gerenciamento simbólico da face pública de cada um de nós desde que nos achamos na rua. A conveniência é simultaneamente o modo pelo qual se é percebido e o meio obrigatório de se permanecer submisso a ela. No fundo, ela exige que se evite toda dissonância no jogo dos comportamentos, e toda ruptura qualitativa na percepção do meio social. Por isso é que produz comportamentos estereotipados, “prêt-à-porter” sociais, que têm por função possibilitar o reconhecimento “de não importa quem em não importa que lugar”.  

O bairro representa um universo social que não aprecia muito a transgressão; esta é incompatível com a suposta transparência da vida cotidiana, com sua imediata legibilidade. Esta se deve efetuar, aliás, esconder-se nas trevas dos “lugares reprováveis”, fugir para os refolhos privados do domicílio. O bairro é um palco “diurno” cujos personagens são, a cada instante, identificáveis no papel que a conveniência lhes atribui: a criança, o pequeno comerciante, a mãe de família, o jovem, o aposentado, o padre, o médico, máscaras e máscaras por trás das quais o usuário do bairro é “obrigado” a se refugiar para continuar usufruindo dos benefícios simbólicos com os quais pode contar. A conveniência tende sempre a elucidar os bolsões noturnos do bairro, o incansável trabalho de curiosidade que, como um inseto de imensas antenas, explora com paciência todos os cantinhos do espaço público, sonda os comportamentos, interpreta os acontecimentos e produz sem cessar um rumor questionante incoercível: Quem é quem e faz o quê? De onde vem este novo freguês?
Quem é o novo locatário? A tagarelice e a curiosidade são as pulsões interiores absolutamente fundamentais na prática cotidiana do bairro que procura uma “razão para tudo”, mede tudo pela régua da conveniência. Enfim, se é possível dizer que todo rito é a assunção ordenada de uma desordem pulsional inicial, o seu “trancafiamento” simbólico no campo social, então a conveniência é o rito do bairro. A conveniência subtrai à troca social os ruídos que poderiam alterar a imagem do reconhecimento; é ela que filtra tudo o que não visa a clareza. Mas, e esta é a sua face positiva, se ela impõe a sua coerção, o faz em vista de um benefício simbólico que se há de adquirir ou preservar. O conceito de conveniência ganha particular pertinência no registro do consumo. Como relação cotidiana com a busca dos alimentos e dos serviços. Comprar não é trocar dinheiro por alimentos (mercadoria), mas, além disso, ser bem servido quando se é bom freguês. O ato da compra vem “aureolado” por uma “motivação” que, poder-se-ia dizer, o precede antes de sua efetividade: a fidelidade. Esse algo mais, não contabilizável na lógica estrita da troca de bens e serviços, é diretamente simbólico: é o efeito do consenso, de um acordo tácito. É o fruto de um longo costume recíproco pelo qual um sabe o que pode pedir ou dar ao outro, em vista de melhorar a relação com os objetos desejantes da troca.
Bibliografia geral consultada. 
LIPOVETSKY, Gilles, O Crepúsculo do Dever: A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004; PEREIRA, Ilaina Damasceno, Lugares no Bairro: Uma Etnografia no Benfica. Fortaleza: Dissertação de Mestrado em Geografia. Universidade Federal do Ceará, 2008; CAMPOS, Ricardo Marnoto de Oliveira, Pintando a Cidade: Uma Abordagem Antropológica ao Graffiti Urbano. Tese de Doutorado em Antropologia Visual. Lisboa: Universidade Aberta, 2007; LASSALA, Gustavo, Pichação não é Pixação. São Paulo: Altamira Editorial, 2010; CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre, A Invenção do Cotidiano. 2. Morar, cozinhar. 12ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2013; pp. 46 e ss.; DEJOURS, Christophe, Le Choix - Souffrir au Travail n`est pas une Fatalité. Paris: Bayard Éditions, 2015; RODOLFO, Renato Mesquita, A Universidade (Federal) do Ceará entre o Benfica e a Gentilândia: Espaços, Lugares e Memórias (1956-1967). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em História. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará. 2015; CHAGAS, Juliana Almeida, Pixação e as Linguagens Visuais no Bairro Benfica: Uma Análise dos Modos de Ocupação de Pixos e Graffiti e de Suas Relações Entre Si. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2015; VASCONCELOS, Monica Monteiro da Costa, A Cidade em Movimento: Práticas Educativas do Morar e Conviver no Bairro Benfica. Dissertação de Mestrado.  Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal do Ceará. Faculdade de Educação, 2017; entre outros.