“Não faço filmes intelectuais. Faço filmes guiados pela emoção”. Paolo Sorrentino
A Juventude (Youth) é o título do novo filme do diretor italiano Paolo Sorrentino, que narra a história de dois amigos que estão chegando aos 80 anos de idade e enfrentam os dilemas humanos da conflitante passagem entre juventude e finitude da vida. Na metafísica finitude é uma característica dos entes que se modificam ou têm limites. Cada atributo é infinito no seu gênero, isto é, não é limitado pela Substância nem por outros atributos, pois não tem nada em comum com os mesmos. Cada atributo tem infinitos modos. Os modos são finitos ou limitados, pois estão em comunidade com outras coisas do mesmo gênero que eles mesmos. A limitação dos modos é carência de infinitude, ou simplesmente finitude, uma característica das coisas singulares que pertencem a certo atributo da Substância. E finitude significa ser limitado por outras coisas singulares do mesmo atributo. Todos os seres vivos são seres finitos isto quer dizer que todos morremos porque temos um final. A filosofia de Spinoza tem muito em comum com o estoicismo, mas difere muito dos estoicos na medida em que rejeitou fortemente a afirmação de que a razão pode dominar a emoção. Pelo contrário, analiticamente defendeu que uma emoção pode ser ultrapassada apenas por uma emoção maior. A distinção crucial deriva, entre as emoções ativas e passivas, sendo as primeiras àquelas que são compreendidas racionalmente e as outras as que não o são.
Sabemos que Espinosa pretende
afirmar a imanência como princípio e retirar a expressão de toda subordinação
no que diz respeito a uma causa emanativa ou exemplar. Expressar não é emanar,
parecer, imitar ou assemelhar-se. Gilles Deleuze interpreta a substância como
singular. O ser é singular, infinito e notável. Ele não é distinto de, ou
diferente de qualquer coisa fora de si mesmo, mas distinto em si. A distinção
da substância nasce de dentro. Causa sui
significa que o ser tanto é infinito quanto definido. Dotado de causalidade
eficiente sua diferença é interna a si. A substância é definida por que é
diferente em si mesma. Esta autodistinção tem como consequência que o ser não é
diferente de qualquer coisa fora do ser, nem é indiferente ou abstrato. A substância
única é qualificada, mas não limitada, se tivesse que ser limitada (ou ter
número) teria que envolver uma causa
externa. A substância é causa de si, o ser é causa material e eficiente de
si mesmo. A substância já é real e qualificada (“complicatio”) e não se coloca
a questão da determinação por que os atributos preenchem o papel da expressão
(“explicatio”). Na definição seis do livro Um da Ética, Espinosa diz que: - “Por
Deus eu entendo um ser absolutamente infinito, quer dizer uma substância que
consiste em uma infinitude de atributos onde cada um exprime uma essência
eterna e infinita”.
Pátria de
Fellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, Monicelli e tantos outros gênios da literatura e da
cinematografia contemporânea, o cinema italiano, aparentemente cansado da fama
de decadente que transige há uma década, começam a antever uma nova geração de
diretores alcançar
projeção internacional aos olhos da crítica e ao gosto do público. Batizada
informalmente de Risorgimento, a onda autoral que invade a Itália,
arrebanhando espectadores e prêmios em festivais como Cannes e Veneza, é movida
pela narrativa nada convencional de realizadores na faixa dos 40 anos, como
Matteo Garrone (“Gomorra”), Emanuele Crialese (“Terraferma”),
Saverio Costanzo (“A solidão dos números primos”), Luca Guadagnino
(“Um sonho de amor”) e, em especial, Paolo Sorrentino (“Il
Divo”), o qual vem sendo considerado o expoente da geração. Seu mais recente filme, “Aqui é o meu
lugar” (“This must be the place”), vem colecionando elogios por
onde passa. - Não faço filmes intelectuais. Faço filmes guiados pela emoção,
talvez este seja o caminho - disse Sorrentino em entrevista ao jornal Globo
(2016) em Cannes, onde foi levantar fundos para seu novo projeto: “La
Grande Bellezza” que traz o mesmo deslumbre angustiado com a decadência de
seu cenário.A palavra Juventude surge sobre imagens de corpos enrugados em um spa luxuoso no início do longa-metragem de Sorrentino. Outros personagens cultuam excêntrica cena do spa, entre eles um ator pesquisando seu próximo papel (Paul Dano), funcionários do hotel e um astro argentino do futebol.
Por
isso, seria uma injustiça, como se tem visto nos jornais, reduzir o filme de
Sorrentino a uma crítica à superficialidade da alta burguesia da Itália, ou à
celebração generosa de um hedonismo refém da corrupção. O boom econômico dos anos 1960, durante o qual Antonioni rodou sua
“trilogia da incomunicabilidade” – A Aventura, A Noite e O Eclipse –,
prometia algo mais do que a tintura de Berlusconi e orgias financiadas por
bravatas publicitárias contra a Camorra. A Itália é uma reserva inesgotável de
estilo, com uma “nonchalance” que sempre resistiria aos discursos políticos e
ao consumismo narcotizante. Quem viu Gomorra, de Matteo Garrone, baseado no
livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano, sabe a que ponto esse consumismo
despido da elegância, conspurcou até mesmo a aura dos chefões, convertidos em
aparentes broncos narcotraficantes. E, mesmo num filme austero como A Noite, havia um
fundo de cretinice nas festas do “jet set
milanês” que era o reverso da medalha contracultural, que começava a mostrar as
garras de seu sentido libertário.
“Nello stesso anno, concorre nuovamente al
Festival di Cannes con This must be the place, il suo primo film in
lingua inglese, con protagonista Sean Penn: la pellicola, scritta con Umberto
Contarello, si aggiudica il David di Donatello per la migliore sceneggiatura.
Sempre con Contarello scrive La grande bellezza, uscito nelle sale
cinematografiche a maggio del 2013, che vede tra i protagonisti Toni Servillo,
Sabrina Ferilli, Carlo Verdone, Isabella Ferrari e Giorgio Pasotti. La
pellicola, che ritrae una Roma decadente e cafona, incassa più di sei milioni
di euro al botteghino, e si aggiudica i premi per il miglior film, il miglior
montaggio, il miglior attore e il migliore regista agli European Film Awards.
Nel 2014, La grande bellezza di Paolo Sorrentino conquista il Golden Globe per il miglior film
straniero, ed entra nella cinquina dei titoli che concorrono al Premio Oscar,
sempre come miglior film straniero”.
A primeira identificação do
neorrealismo italiano diz respeito àquela ideia de Umberto Barbaro quando
chamou de neorrealístico, à “attività con la quale collaborò con i più famosi
registi della sua epoca, in particolare con Luchino Visconti in Ossessione”
(1943), do qual havia sido brilhante montador. Vale lembrar que “Ossessione” é
um filme italiano de 1943, dirigido por Luchino Visconti, baseado no romance
The Postman Always Rings Twice, de James M. Cain. Primeiro longa-metragem de
Visconti é considerado por muitos como o primeiro filme neorrealista italiano.
A outra possibilidade é atribuída a Mario Serandrei, quando este usou o termo
em uma resenha do filme: Quai des Brumes. O Neorrealismo italiano, por características comuns entre as obras e por uma ideologia difundida entre seus realizadores, tanto estética quanto política, constitui um estilo de época do cinema. Teve lugar e tempo na Itália do final 2ª guerra mundial (1941-45), em um processo político de “libertação“ do regime fascista, como veículo estético-ideológico da resistência. Hasteava, por assim dizer, a bandeira da representação objetiva da realidade social como forma de comprometimento político. Seu período mais produtivo e significativo ocorreu entre 1945 e 1948. Seus temas protagonizados por pessoas da classe operária imersas em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, foram trazidos por influência do realismo poético francês. Apesar de haver um certo consenso quanto às suas características, não existe uma delimitação exata, historicamente falando, quanto ao período de duração do movimento estético. Seguindo o paradigma observado na maior parte dos estilos estéticos da História da Arte e do Cinema, o nascimento dessa corrente aconteceu gradualmente, levando algum tempo até que se observasse o aparecimento de um filme genuinamente neo-realista. E, da mesma forma, sofreu uma decadência paulatina, sem um ponto delimitado de começo ou fim.
Seus
temas protagonizados por trabalhadores, como fizera magistralmente Píer
Paolo Pasolini, imersas em um ambiente injusto e fatalista, que “À beira do
desespero, só nos resta fazer companhias uns aos outros e nos divertirmos
juntos”, diz Jep, depois de desconstruir impiedosamente o discurso
autocomplacente de uma amiga, na cena mais antológica de A Grande Beleza, ao
lado daquela na qual satiriza uma artista que maquia a impostura de suas
performances esdrúxulas com uma retórica enigmática. Eis a chave para a
obra-prima de Sorrentino que tenciona o egocentrismo católico-psicanalítico de
Fellini, o existencialismo de Antonioni e o decadentismo de Visconti, A Grande
Beleza acrescenta uma variante narcísica que não se confunde com a vaidade,
uma elegância altiva, quase ascética em sua busca do prazer. Estrelado por
Michael Caine e Harvey Keitel,com feições e modos rudes, mais seu
sotaque do Brooklyn, tornou-o conhecido graças a suas participações nos
primeiros filmes de Martin Scorsese. O longa-metragem narra a história de um
maestro aposentado e um diretor de cinema ainda atuante que passam as férias em
um hotel e enfrentam o desafio de viver uma vida octogenária. O personagem de
Caine recebe a proposta de voltar a conduzir uma orquestra. Repleto de cenas de encantar os olhos. É moral latina, romana, que
não julga nem sente culpa, apenas descarta a vulgaridade de repetir “Io, Io, Io em proveito de um fatalismo
do vício de existir”.
Bibliografia
geral consultada.
CASTELLO,
Giulio Cesare, Il Cinema Neorealístico.
Torino: European Research Institute, 1960; ASOR ROSA, Scrittori e Popolo – Il
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Renato, Conflito e Interpretação em Fellini: Construção da Perspectiva do Público.
Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
São Paulo: Universidade de São Paulo, 1992; FABRIS, Mariarosaria, O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996; DE FELICE, Renzo, Breve
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Hermini, La Ciociara: Romance, Cinema e Relação com o Espaço. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em
Literatura Italiana. Departamento de Letras Modernas. Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo,
2005;MARTIN, Marcel, A Linguagem Cinematográfica. São Paulo: Editora Brasiliense, 2007;SZAPIRO, Ana Maria; RESENDE, Camila Miranda de Amorim, “Juventude: etapa
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“A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for”. Marquês de Sade
Na
Alemanha, o primeiro e legítimo cabaré, no sentido etimológico do termo ocorreu com o reconhecimento do “Überbrett”.
Criado pelo barão Ernst von Wolzogen e Otto Julius Bierbaum, em 1901, para
oferecer “uma forma mais elevada de espetáculos de variedades” (“a higher form
of variety shows”) (cf. Senelick, 1993). O seu maravilhoso e afetado
exibicionismo artístico levou Alfred Kerr (1867-1948) a criticá-lo por desprezo à chamda “arte
pela arte”. No mesmo ano, o jovem Max Reinhardt (1873-1943) e atores do “Deutsches Theater”
inauguravam o “Schall und Rauch” de Berlim, e Frank Wedeking (1873-1943) cantava ao violão
seus poemas macabros no “Elf Scharfrichter”. Os escritores e artistas analogamente
vinculados ao “jornalismo satírico”, como ocorre com o impressionante barão de Itararé (cf.
Konder, 2007), que tem como representação uma forma de jornalismo literário. Seu estilo é agressivo e
contundente crítico com uma intenção política ou ideológica clara. Seu objetivo
tem como escopo divertir e difundir novas tendências literárias, assim como as “manifestações
de vida”, de Friedrich Nietzsche à GeorgSimmel
expressas sob as formas artísticas, estéticas e inclusivamente filosóficas.
Símbolo
desta época de fausto, do ponto de vista da globalidade/totalidade, e euforia
que feneceu com as guerras do século XX os cabarés constituíram-se como lugares
de glamour onde as elites políticas –
primeiro a europeias, se divertiam com os lucros do espólio imperialista. O “cancan”
era a dança deste lugar onde os janotas bebiam licor e as prostitutas finas
formavam a imagem frenética de um mundo enriquecido e alegre. Uma certeza
inabalável presidia esse mundo: a de que ele era eterno e superior. Nestas casas
os boás eram usados para efeitos
cênicos e para envolver os espectadores pelas cores fortes e beleza. Aí o “fígado
do povo” era desopilado com muito humor, decerto humor sarcástico muitas vezes,
de preferência com ironia, sofisticado para alguns, grosseiro para outros,
agressivo e de alta ferocidade e de alta periculosidade para os tiranos e os
inimigos da liberdade anarco-individualista de todas as equações e conteúdos de
sentido. Os cabarés representavam espaços pequenos e ligados ao submundo das
grandes cidades europeias dedicados a shows, fossem eles de dança, teatro,
música, contadores de piadas, “strippers”, enfim, um grande show de calouros “onde
a fumaça de cigarro nublava os holofotes e enchia as narinas” (“wo
Zigarettenrauch vernebelt das Rampenlicht und die Nasenlöcher gefüllt”).
Autores
notaram a extrema confusão que reina na demasiado rica terminologia do
imaginário social: signos, imagens, símbolos, alegorias, emblemas, arquétipos,
esquemas (schémas), esquemas (schèmes), ilustrações,
representações, diagramas e sinepsias são termos empregados pelos analistas do
imaginário social. O esquema é uma generalização dinâmica e afetiva da imagem,
constitui a factividade e a não-substantividade geral do parcours imaginário. O
esquema aparenta-se ao que Jean Piaget, na esteira de Herbert Silberer, chama
“símbolo funcional” e ao que Gaston Bachelard na filosofia chama de “símbolo
motor”. Faz a junção ente dos gestos inconscientes da sensório-motricidade,
entre as dominantes reflexas e as representações. São esses esquemas que na
antropologia do imaginário formam o “esqueleto dinâmico”, o esboço funcional da
imaginação. A diferença entre os gestos reflexológicos que Gilbert Durand
descreve analogamente e os esquemas é que estes últimos já não são apenas
abstratos engramas teóricos, mas trajetos encarnados em representações
concretas bem mais precisas. Os gestos diferenciados em esquemas vão
determinar, em contato com o ambiente natural e social, os grandes arquétipos
que Jung os definiu. Os arquétipos constituem as substantificações dos
esquemas. E vai buscar esta noção em Jakob Burckhardt e faz dela
sinônimo de origem primordial, de enagrama, de margem original, de protótipo
social.
Não
queremos perder de vista que O Mais Antigo Sistema do Idealismo Alemão é
um ensaio de 1796/1797, de autoria desconhecida, possivelmente escrito por
Friedrich Schelling, Georg Wilhelm Friedrich Hegel ou Friedrich Hölderlin. O
documento foi publicado pela primeira vez (em alemão) por Franz Rosenzweig, que
o designou como Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus.
Embora o documento tenha a caligrafia de Hegel, especula-se se terá sido
escrito por Hegel, Schelling, Hölderlin ou uma quarta pessoa desconhecida. Yves
Bonnefoy considera que foi “certamente inspirado por Hölderlin”. Segundo Glenn
Magee, a maioria dos peritos em Hegel considera-o o autor. No entanto, várias
das ideias defendidas no ensaio (como o desaparecimento do Estado ou a
supremacia da poesia no universo intelectual) parecem contraditórias com a
filosofia hegeliana. Schelling, Hegel, e Hölderlin eram colegas de turma e de
dormitório em Tübinger Stift, o Seminário da Universidade de Tubinga, e eram
reconhecidos magistralmente como os “Três de Tubinga”. Hegel e Hölderlin tinham
27 anos, e Schelling 22 anos. Em 1818 em Berlim, quando ocupou a cátedra de
filosofia, período em que encontra a expressão definitiva de suas concepções
estéticas e religiosas. Tinha grande talento pedagógico, mas considerado mau
orador, pois usava terminologias pouco usadas que dificultavam sua
interpretação. Exerceu enorme influência em seus discípulos que dominaram as
universidades da Alemanha. Logo passou a ser o filósofo oficial do rei da
Prússia (cf. Wickert, 2013). Friedrich Hegel descreve sua concepção filosófica,
no prefácio a uma de suas mais célebres obras, a Fenomenologia do Espírito
(1807).
O
prólogo é posterior à redação da obra. Foi escrito, passado já o tempo,
quando o próprio Hegel pode “tomar consciência de seu avanço e sua descoberta”
(cf. Silva, 2017). Tinha como objetivo assegurar o ligamento entre a
Fenomenologia, a qual só aparece como a primeira parte da ciência, e a Lógica
que, situando-se em uma perspectiva distinta da adotada pela Fenomenologia,
deve constituir o primeiro momento abstrato de uma Enciclopédia. Explica-se que
neste prólogo que é algo assim, comparativamente, como um gonzo entre a
subjetividade da Fenomenologia e a objetividade Lógica, Hegel se
sentira fundamentalmente preocupado em representar uma ideia geral de todo o
seu sistema filosófico. Isto é, segundo sua concepção que só deve ser
justificada pela apresentação do próprio sistema, tudo decorre de entender e
exprimir o verdadeiro não como substância, mas precisamente como sujeito. A
substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou que é na verdade efetivo,
mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação
consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é a negatividade pura e
simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação
oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu
oposto. Só essa igualdade se reinstaurando, ou só a reflexão em si mesmo no seu
ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal,
ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o
círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ipso facto sua antítese, que o tem
como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim.
Friedrich Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que,
para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. Neste sentido, a clareza
não seria adequada para conceituar o próprio objeto. Introduziu um sistema de
pensamento para compreender a história da filosofia e do mundo chamado
geralmente dialética: uma progressão no âmbito da história e sociedade
na qual cada movimento sucessivo surge, pois, como solução das contradições
inerentes ao movimento anterior.
Desta
forma, a Introdução (Eileintung) à Fenomenologia foi concebida ao mesmo
tempo em que a obra é redatada em primeiro termo; parece, pois, que encerra o
substancial pensamento do que é efetivo em toda a obra. Verdadeiramente
constitui uma Introdução em sentido literal aos três primeiros momentos de toda
a obra, isto é: a consciência, a autoconsciência e a razão -, enquanto a última
parte da Fenomenologia, que contêm os particularmente importantes
desenvolvimentos sobre o Espírito e a Religião, ultrapassa por seu conteúdo a
Fenomenologia tal como é definida stricto sensu na muito citada Introdução. Ao
que parece é como se Hegel entrasse no marco de desenvolvimento fenomenológico
com algo que na teoria, em princípio não deveria haver ocupado um posto nele.
Não obstante, seu estudo, em maior medida que o do prólogo, nos permitirá
elucidar o sentido da obra que Hegel quis escrever, assim como a técnica que
para ele representa o desenvolvimento fenomenológico. Precisamente porque a
Introdução não é como um Prólogo anexo posterior que contêm consideráveis
informações gerais sobre o objetivo que se propunha o autor e as relações que
sua obra tem com outros tratados filosóficos do mesmo tema. Ao contrário, de
acordo com a interpretação de Hyppolite (1974), “a introdução é parte
integrante da obra, constitui o delineamento mesmo do problema e determina os
meios postos em prática para resolvê-lo”. Em primeiro lugar, Hegel define na
Introdução como se coloca para ele o problema do conhecimento. Vem um certo aspecto retorna ao ponto de vista de Kant e de Fichte.
A
Fenomenologia não é uma noumenologia nem uma ontologia, mas segue sendo,
todavia, um conhecimento do Absoluto, pois, que outra coisa poderia conhecer se
só o Absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é Absoluto? Não obstante, em vez
de apresentar o saber do Absoluto “em si para si”, filosoficamente considera o
saber tal como é na consciência e precisamente desde esse saber
fenomênico, mediante sua autocrítica, é como ele se eleva ao saber Absoluto. Em
segundo lugar, Hegel define a Fenomenologia exatamente como desenvolvimento e
cultura, isto é, no sentido de seu progressivo afinamento da consciência
natural acerca da ciência, isto é o saber filosófico, o saber do Absoluto; por
sua vez indica a necessidade per se de uma evolução. Em último lugar,
Hegel precisa a técnica teórica do desenvolvimento fenomenológico e em que
sentido este método é precisamente obra própria da consciência que faz sua
aparição na experiência, em que sentido é suscetível de ser repensado em sua
necessidade pela filosofia. A lei cujo desenvolvimento necessário engendra todo
o universo é a da dialética, segundo a qual toda ideia abstrata, a começar pela
de ser considerada no seu estado de abstração, afirma necessariamente a sua
negação, a sua antítese, de modo que esta contradição exige para se resolver a
afirmação de uma síntese mais compreensiva que constitui uma nova ideia, rica
em desenvolvimento, ao mesmo tempo, do conteúdo das duas outras.
Na
Introdução à Fenomenologia Hegel repete suas críticas a uma filosofia que não
fosse mais que teoria do conhecimento. E não obstante, a Fenomenologia, como
têm assinalado quase todos os seus expressivos comentaristas, marca em certos
aspectos um retorno ao ponto de vista de Kant e de Fichte (cf. Salvadori,
2014). Em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um
instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se
for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a
própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe
que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o
Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si
mesmo, nem o saber, fora da relação dialética, poderia ser saber do Absoluto.
Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece
efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia
bastar porque deixa a margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta
dualidade o que reconhecia Schelling quando opunha o saber fenomênico e o saber
absoluto, mas não demonstrava os laços entre um e outro. Uma vez colocado o
saber absoluto não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber
fenomênico por sua parte fica igualmente separado do saber Absoluto. Hegel
retorna ao saber fenomênico, ao saber típico da consciência comum, e pretende
demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que
ele mesmo é um saber absoluto que, todavia, não se sabe como tal.
Não
apenas Fichte, mas o próprio Schelling, adverte Hösle (2007), tampouco satisfaz
a exigência de uma estrutura de sistema que retorna a si mesma, pois o dualismo
fichteano do eu e Não-Eu, perdura, em última análise, no primeiro projeto
resumido de sistema, no Sistema do idealismo transcendental. Segundo ele, a
filosofia tem, com efeito, duas partes – filosofia natural e filosofia
transcendental, a qual, por sua vez, contém, entre outras coisas, filosofia
prática e filosofia teórica. Schelling argumenta do seguinte modo: já que o
saber seria unidade de subjetividade e objetividade, o ponto de partida da
filosofia teria de ser ou o objetivo (a natureza) ou o subjetivo (a
inteligência). Naquele caso, surgiria a filosofia da natureza; neste, a
filosofia transcendental. No entanto, o objetivo de cada uma dessas duas
ciências seria avançar na direção da outra – portanto, de um lado, “partindo da
natureza chegar ao inteligente”, e, de outro, partindo do subjetivo, “fazer
surgir dele o objetivo”. Esta afirmação apenas poderia fazer sentido se para
Hösle, com ela se tivesse em mente que a inteligência tem de objetivar e
naturalizar em atos práticos e estéticos, como Schelling tenta demonstrar no
Sistema. A segunda falha resulta da
primeira. Friedrich Schelling conhece, em última instância, apenas duas esferas em tono da concepção de filosofia, as quais, na terminologia de Hegel, pertencem ambas à filosofia.
Aquela estrutura que precede à ambas e que Hegel tematiza na Ciência da Lógica
não tem lugar neste projeto de sistema de Schelling. É fácil ver que não se
pode um renunciar a ela, e por três motivos.
Em
segundo lugar, somente desse modo se pode compreender porque ambas as partes
são momentos de uma unidade. Não basta afirmar sua relação mútua, é preciso
explicitar estruturas ontológicas gerais que subjazem de igual modo à natureza
e à inteligência. Em segundo lugar, somente desse modo se pode tornar plausível
a dependência da natureza em relação a uma esfera ideal. E, em terceiro lugar,
uma filosofia natural e uma filosofia transcendental apriorísticas são
inconcebíveis sem essa esfera abrangente, pois a partir de que deveriam ser
fundamentadas as primeiras suposições de ambas as filosofias da realidade?
Depois de se desfazer do “resto de fichteanismo”, ainda reconhecível sobretudo
na execução do Sistema do idealismo transcendental, Schelling introduziu na
Apresentação, como base destas duas ciências, o Absoluto, e o definiu como
identidade de subjetividade e objetividade. No entanto, não se pode deixar de
ver um limite na doutrina schellinguiana do absoluto que representa um
retrocesso, ficando, no mínimo, aquém de Fichte e, em certo sentido, até mesmo
aquém de Immanuel Kant: as categorias analíticas que Schelling utiliza para a
caracterização do Absoluto são catadas e, de modo algum deduzidas do próprio
Absoluto. Unidade, identidade, infinitude são determinações que Schelling toma
da tradição e que, em primeiro lugar, ele não legitima a relação em si e por si – ele
apenas mostra que em sua utilização de mera identidade, antes elas que seu
contrário conviria ao absoluto, o qual é entendido como unidade de
subjetividade e objetividade, e que em segundo lugar, ele nem sequer põe em um
nexo causal ordenado.
Simplificadamente,
segundo Vittorio Hösle (2007), o sistema pensamento de Hegel pode ser
representado da seguinte forma: 1) o princípio supremo da filosofia
transcendental tem de ser, com Fichte, uma estrutura iniludível e que
fundamente a si mesma reflexivamente. 2) no entanto, esse princípio não pode
ter nada perante si, se quer ser absoluto; sendo determinado como
subjetividade, ele não pode, portanto, ser subjetividade finita, mas tem de ser
com Schelling, unidade de subjetividade e objetividade ou, em terminologia
hegeliana, ideia. 3) com o reconhecimento, porém, de que o Absoluto é unidade
de subjetividade e objetividade, a filosofia ainda não está concluída. Antes,
trata-se decisivamente de explodir o caráter pontual desse conhecimento, por
quatro motivos: a) a estrutura absoluta não pode ser posta imediatamente, pois
então ela mesma seria, na verdade, uma mera abstração, da qual nada decorreria;
b) apenas assim pode-se alcançar uma prova da absolutidade dessa
estrutura. Mas então é necessária uma prova, mas de um modo necessariamente
diferente de como elas mesmas são pressupostas pela ideia absoluta, se é que o
círculo deve ser evitado; c) a determinação da exata relação entre “lógica” e
“metafísica”, isto e´, entre a doutrina das categorias finitas e a ciência do
princípio absoluto, é o problema para o
qual em Jena, pelo fim de sua temporada Friedrich Hegel, conseguiu encontrar
uma solução que o satisfizesse até o final de sua vida, enquanto, para a maior
parte das demais estruturas fundamentais de sua filosofia , ele chegou bem mais
cedo a respostas que sustentou até a Enciclopédia. A ideia Absoluta origina,
não apenas as categorias lógicas anteriores a ela, por meio das quais ela mesma
é constituída, sem abdicar da centralidade de seu sistema, ela mesma é
constituída em termos de origem assimétrica.
Para
resolver esse problema, oferece-se propriamente apenas um caminho. O espírito
assim, reconhece Hegel já cedo contra Friedrich Schelling - tem de estar acima
da natureza, a qual tem de corresponder às categorias deficientes da Ciência
da Lógica. Friedrich Hegel que
parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro
uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo
ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação.
Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua
saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe
de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do
desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como
força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são
instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os
sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos.
Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que
determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas,
bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto.
Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda
não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de
afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método
dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção
clara e exata.
Assim,
temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto
através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa
e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e
infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força
geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência
abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e
não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si
mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a
determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a
faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se
idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito
não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua
universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade
representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse
poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as
coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia
eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito
finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em
oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a
oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia,
mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria
realidade.
A
Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza,
produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua
exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois,
ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece
a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim
a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças,
sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se
a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto
e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua
atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel
ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à
existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O
espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como
consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na
minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente
isto: produzir-se, na esfera do pensamento e poder sair fora de si, saber na consciência o que ele é. Nisto consiste a grande
diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem
isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é essencialmente razão.
O
homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para
isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em
nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma
possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por
exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que
nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser
expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o
homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história
para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o
desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele
é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si,
em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo,
então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os
pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer,
todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não
possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no
interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se
objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do
mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o
homem seja livre. Esta é a sua natureza.
Isto
pertence à essência do homem: a liberdade. O europeu sabe de si, afirma
Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele
se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua
substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem.
Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem
relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se
também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber
libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o
segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença
do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou
livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que
existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer
dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por
conseguinte, haveria ali uma condição de sentido e variação, que dizer, mudança.
Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência,
podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o
outro, o que resulta, é idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o
ser em si não seja negado.
Para
Friedrich Hegel a evolução não somente faz aparecer o interior originário,
exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si
através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito abstrato
assim adquire o poder concreto da realização. O concreto é em si diferente, mas
logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente
está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e,
contudo, simples. É em si mesmo
contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão,
deste este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com
isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não
postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto
(ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo
que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado
novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste
em que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade
verdadeiramente concreta. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na
unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o
gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia evoluir. Na alma,
enquanto determinada como indivíduo, as diferenças aparecem na consciência e assim estão enquanto enquanto mudanças que
se dão no indivíduo, que é o sujeito uno que nelas persiste e, segundo Hegel,
enquanto momentos do seu desenvolvimento.
Por
serem elas diferenças, à uma, físicas e espirituais, seria preciso, para
determinação ou descrição mais concreta, antecipar a noção do espírito
cultivado. As diferenças são: 1) curso natural das idades da vida, desde a
criança, desde a criança, o espírito envolvido em si mesmo – passando pela
oposição desenvolvida, a tensão de uma universalidade ela mesma ainda subjetiva
em contraste com a singularidade imediata, isto é, como o mundo presente, não
conforme a tais ideais, e a situação que se encontra, em seu ser-aí para esse
mundo, o indivíduo que, de outro lado, está ainda não-autônomo e em si mesmo
não está pronto (o jovem) – para chegar à relação verdadeira, ao reconhecimento
da necessidade e racionalidade objetivas do mundo já presente, acabado; em sua
obra, que leva a cabo por si e para si, o indivíduo retira, por sua atividade,
uma confirmação e uma parte, mediante a qual ele é algo, tem uma presença
efetiva e um valor objetivo; até a plena realização da unidade com essa
objetividade do conhecer: unidade que, enquanto real, vem dar na inatividade da
rotina que tira o interesse, enquanto ideal se liberta dos interesses
mesquinhos é das complicações do presente exterior (o ancião).
O
espírito manifesta aqui sua independência da própria corporalidade, em poder
desenvolver-se antes que nela torne. Com frequência, crianças têm demonstrado
um desenvolvimento espiritual que vai muito mais rápido que sua formação
corporal. Esse foi o caso histórico, sobretudo em talentos artísticos
indiscutíveis, em particular nos gênios da música. Também em relação ao fácil
apreender de variados conhecimentos, especialmente na disciplina matemática; e
tal precocidade tem-se mostrado não raramente também em relação a um raciocínio
de entendimento, e mesmo sobre objetos éticos e religiosos. O processo de
desenvolvimento do indivíduo humano natural decompõe-se então em uma série de
processos, cuja diversidade se baseia sobre a relação do indivíduo para
com o gênero, e funda a diferença da criança,
do homem e do ancião. Essas diferenças são as apresentações das diferenças do
conceito. A idade da infância é o tempo da harmonia natural, da paz do sujeito
consigo mesmo e com o mundo. Um começo tão sem-oposição quanto a velhice é um
fim sem-oposição. As oposições que surgem ficam sem interesse mais profundo. A
criança vive na inocência, sem sofrimento durável; no amor aos seus pais, e no
sentimento de ser amado por eles.
O
pensador evidencia claramente o caráter essencial de trajeto antropológico dos arquétipos
quando escreve que a imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação
com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e
são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz
respeito também a certas condições inferiores da vida do espírito e da dinâmica
da vida em geral. Bem longe de ter a primazia sobre a imagem, a ideia seria
tão-somente o comprometimento pragmático do arquétipo imaginário num contexto
histórico e epistemológico dado. Neste sentido, o mito representa um sistema
dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o
impulso de um esquema tende a compor uma narrativa. O mito é já um esboço de
racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se
resolvem em palavras e os arquétipos em ideias culturais. O mito explicita um
esquema ou um grupo de esquemas. Do modo que o arquétipo promovia a ideia, o
símbolo o nome, concordamos com Gilbert Durand que o mito promove a doutrina
religiosa, o sistema filosófico ou, como anteviu Émile Bréhier, a “narrativa
histórica e lendária”. Foi este
princípio, que o psicólogo Carl Jung sentiu abrangido por seus conceitos de
“Arquétipo” e “Inconsciente coletivo”, justamente o que uniu o médico psiquiatra
Jung ao físico Wolfgang Pauli, dando início às pesquisas interdisciplinares em
física e psicologia. A sincronicidade, vale lembrar, se manifesta muitas vezes
atemporalmente e/ou em eventos energéticos acausais, e em ambos são violados
princípios associados ao paradigma científico vigente.
Do
ponto de vista da memória a concepção de tempo baseada no progresso,
metodologicamente, permanece no pensamento e na emancipação do conceito desde Hegel,
que interioriza no tempo da arte, a relação estruturada entre imagem e história
(cf. Kern, 2005), constituindo uma espécie de duração formadora de ciclos e
destino. Para tal, estabelece a dialética que dirige a continuidade da arte e
se fundamenta, primeiramente, no Espírito, depois no Absoluto e que deve se
encontrar finalmente como Espírito Absoluto. Essa noção de tempo concebida na
duração, em direção a um futuro misterioso, mas inevitável e determinado,
torna-se a base filosófica da historiografia em geral e particularmente da
museologia, a partir do século XIX. Metafisicamente a história da arte revela
essa progressiva evolução do espírito humano. Assim, nesse momento, as grandes
histórias universais da arte emergem estruturadas em narrativas e obras
selecionadas do passado, buscando dar unidade e sentido evolutivo as mesmas,
sendo essas premissas também utilizadas na organização dos museus. Hegel
substitui a filosofia da história pela filosofia do Espírito, elimina a
separação entre sujeito e razão, assim como a ação dos atores sociais e
históricos que são absorvidos pelo Espírito Absoluto, símbolo do devir, do
progresso e da perfeição humana concebida no universo.
As
formas nas quais resulta esse processo social
de comunicação ganham vida própria. São liberadas de todos os laços com os
conteúdos. Existem por si mesmas e pelo fascínio que difundem pela própria
liberação desses laços. É isso precisamente o conceito a que chamamos “sociabilidade”.
Sendo a interação e o contato no plano real/virtual, se quisermos pensar em
termos de sociedade contemporânea o fundamento para realização dos instintos,
desejos, ideias e interesses com o outro, para ou contra ele, a sociabilidade é
despedida do conteúdo objetivo originário. Ela apenas assegura a sucessão das “interações
formais”, das partidas jogadas, que prosseguem perpassando as gerações, para
lembrarmo-nos de Mannheim, ora remodelando-se, ora conservando-se. O âmbito
dessa estrutura estética tem caráter eminentemente lúdico. É regido pela forma de seus participantes conscientes “em
si”, em sua transitoriedade simmeliana.
No
século XIX e parte do XX, domina na historiografia a noção de “espírito do
tempo” que é contestada pelas vanguardas devido ao seu caráter homogêneo, face
à diversidade de suas múltiplas e diferenciadas ações em prol da invenção e da
projeção do devir. Entretanto, a historiografia continua, em geral, articulada
ao historicismo, numa concepção de tempo unitário e evolutivo e de arte universal.
Ela centraliza seus estudos em artistas ou movimentos estéticos e filosóficos,
cujas obras fundam-se nas categorias de autonomia, qualidade e originalidade,
segundo a visão de mundo unitária de seu tempo, assim como exalta os feitos
criativos dos artistas que anunciam o futuro, numa orientação teleológica. As
noções de “progresso” e “espírito absoluto” representam os fins aspirados pelos
artistas e adotados, em parte, pela historiografia. O “espírito do tempo”
aparece muitas vezes interligado ao “querer artístico” de Riegl, ou à ideia de
cosmovisão de mundo na perspectiva de Erwin Panofsky, o que leva alguns
historiadores, críticos de arte e filósofos contestarem essas categorias: a)
tendo em vista a percepção e a necessidade de que o tempo da arte é um tempo
próprio, e, b) que na realidade é pluralista e heterogêneo do ponto de vista da
atividade cultural.
No
plano concreto, histórico e real, propostas semelhantes eram apresentadas no “Els
Quatre Gats”, em Barcelona e no “Zielony Balonik” na Cracóvia, nascidas de
encontros de pintores. Na Rússia, as associações eram mais ligadas ao teatro. O
“Letuchaya Mysh” foi criado por Nikita Baliev e a partir das hilariantes “Festas
do Repolho” promovidas pelo Teatro de Arte de Moscou, rapidamente transformou-se
em um teatro em miniatura apresentando peças e cenas baseadas na literatura
clássica russa e no folclore. Após a revolução de 1905, tornou-se mundialmente
famoso como “Le Chauve-Souris”. O “Krivoe Zerkalo”, fundado em 1908, em São
Petersburgo, sob a direção de Nicolai Evreinov, se destacava pela paródia e
formas experimentais, como por exemplo, o melodrama. O mais literário desses
cabarés era o “Brodyachaya Sobaka” (“O Cão Vadio”, 1913-1915), refúgio de
futuristas. Ele foi sucedido pelo “Prival Komediantov” (“Repouso dos
Comediantes”, 1916-1919), um teatro aconchegante que tinha na presidência
Vsevolod Meyerhold, para ficarmos nestes exemplos.
O
filme: “Burlesque”, objeto de pensamento,
representa o resgate do musical escrito e dirigido por Steven Antin e estrelado
pelas cantoras Christina Aguilera e Cher, e também Eric Dane, Cam Gigandet,
Julianne Hough, Alan Cumming, Peter Gallagher, Kristen Bell, Stanley Tucci e
Dianna Agron. O filme foi lançado em 24 de novembro de 2010 na América do
Norte, e foi o filme de estreia de Aguilera como atriz, e o retorno de Cher á Sétima Arte. Cher e Aguilera
contribuíram para a trilha sonora do filme, com Aguilera cantando oito faixas e
Cher duas. O álbum foi lançado nos Estados Unidos em 22 de novembro de 2010, e
recebeu duas indicações ao Grammy Award.
A canção “You Haven`t Seen the Last of Me”, foi escrita por Diane Warren e
cantada por Cher, e também ganhou o Globo
de Ouro na categoria “Melhor Canção Original” (2011), foi
indicado para o Globo de Ouro de “Melhor Filme - Musical ou Comédia”.
O filme arrecadou 90 milhões dólares em todo o mundo.
Qual o papel social do filme “Burlesque”?
Em primeiro lugar a ambientação de Burlesque é toda inspirada em Chicago (EUA),
em especial pelo estilo de cabaré empregado. Na 1ª grande guerra (1914-1918), a capacidade
industrial de Chicago foi expandida de modo a atender às necessidades da
economia de guerra, enquanto milhares de afro-americanos, vindos do sul do
país, instalaram-se na cidade para trabalhar nas indústrias em busca de uma
vida melhor. Os afro-americanos eram segregados do restante da população, sendo
que a massiva maioria habitava um bairro pobre na região sul da cidade. A década
de 1920 foi um tempo de prosperidade na cidade, bem como nos Estados Unidos em
geral. A indústria ainda prosperava, os habitantes da cidade gastavam seu
dinheiro sem pensar. A década também foi marcada: a) por altas taxas de
criminalidade, b) diversas gangues lutando entre si, c) pelo controle regional
de drogas e álcool então proibido no país. Assim, um dos shows performáticos chega ao ponto de copiar movimentos cênicos apresentados no filme estrelado por Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones.
Sem a mesma
criatividade nem intensidade, porque não é seu objetivo, a história cultural por
sua vez, é praticamente igual à de “Show Bar” O número musical final lembra
bastante “Nine”, filme “musical-romance” norte-americano de 2009 dirigido por
Rob Marshall, baseado no livro de Arthur Kopit de 1982 para o prêmio Tony
musical de mesmo nome. Foi, igualmente, derivada de um jogo italiano de Mario
Fratti, inspirado pelo filme autobiográfico de Federico Fellini 8 ½. Maury Yeston compôs a música e
escreveu as letras das músicas. O filme ainda conta com uma versão de “Diamonds
are a Girl`s Best Friend”, clássico cantado por Marilyn Monroe em: “Os Homens
Preferem as Loiras”, em que fora da crítica apressada é
completamente desprovido de glamour e
charme. Contudo, nem só de cópias é feito “Burlesque”. Em especial de Cher, a
dona da boate Burlesque. Impressiona perceber que a atriz que levou o Óscar por
“Feitiço da Lua” agora mal consegue mover um músculo facial.
Seu
rosto impávido, como Mohamed Ali, permanece o mesmo ao longo de todo o filme. Seja
para expressar alegria, bronca ou preocupação diante da iminente perda econômica
da boate. Seja lá o que aconteça, Cher está sempre a mesma. Em 1878, em sua
historicidade, Emile Goudeau fundou um clube no “Le Sherry Cobbler”, em Paris,
onde poetas liam suas próprias produções. Foi, porém, no “Chat Noir”, nome
tirado do conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe, que deu origem ao termo
genérico “cabaré artístico” a programas apresentados em cafés e bares. Ele foi
fundado em 1881 pelo pintor Rudolphe Salis, que lhe deu o nome de cabaré porque
as canções e esquetes se sucediam como os pratos de um “menu”. O local que
ocupavam em Montmartre - com 60 lugares e projetado em estilo Luís XIII: a) era
palco não somente de leitura de poesia nas noites de sexta-feira, b) bom como
de complexos jogos de sombra, para os quais renomados artistas escreviam os
textos e elaboravam os projetos artísticos, estéticos e filosóficos, c) além de
fazerem duplamente o acompanhamento musical. Quando o “Chat Noir” mudou-se para
um prédio em 1885, a sua sede antiga abrigou o “Le Mirliton”,
de Aristide Bruant, um dos muitos cabarés de Montmartre por ele nitidamente inspirados.
A atmosfera acolhedora permitiu que muitos artistas, como Yvette Guilbert desenvolvesse
uma forma nova e sutil de atuação e tratassem de assuntos gostosamente naturalistas
para época que redescobrira as delícias do corpo. Além de Sade, outros autores também foram condecorados com a criação de termos com base em seus nomes, um deles é Sacher Masoch, escritor austríaco que, diferentemente de Sade, escrevia histórias em que os protagonistas, em vez de bater, gostavam de levar umas boas bofetadas, masoquistas. O romance mais clássico do libertino Sacher Masoch, A vênus de peles, traz a narrativa de um escravo sexual e sua dominadora, que mais tarde, com a popularização de ambos os autores, faria nascer uma outra palavra: “Sadomasoquista”. Para além das influências terminológicas, Marquês de Sade também deixou sua marca no mundo ocidental ao ser um ferrenho defensor republicano ainda numa França monarquista. Iluminista radical, pregava a ruptura com práticas concretas da humanidade com seus deuses em troca da felicidade libertina.
Os
fantásticos figurinos de Burlesque e
a coreografia ousada conquistam Ali, que se promete que, um dia, subirá ao
palco do teatro. Logo, Ali fica amiga de uma dançarina (Julianne Hough),
provoca o ciúme de Nikki, uma dançarina desequilibrada (Kristen Bell) e
conquista o amor de Jack (Cam Gigandet), que trabalha como barman e músico. Com a ajuda de um esperto cenógrafo (Stanley
Tucci) e o apresentador transformista (Alan Cumming), Ali consegue sair do bar
e subir ao palco. Sua voz espetacular ajuda a recuperar a antiga glória do “The
Burlesque Lounge”, porém somente depois que um empresário carismático (Eric
Dane) chega com uma proposta tentadora. Burlesque tem 12 números de música e
dança. Cher canta duas músicas no filme, sendo uma delas a performance de
abertura. Peter Gallagher que já atuou ao lado de Cher há quase 20 anos no
filme de Robert Altman chamado: “The Player”, faz o papel do ex-marido de Cher
e seu parceiro nos negócios do “Burlesque Lounge”.
Aguilera estreou no seu primeiro
filme como personagem principal, uma “garota da cidade com uma grande voz”, que
encontra trabalho em um clube burlesco em Los Angeles, inspirado no “Cabaret”,
de Bob Fosse, um entretenimento burlesco europeu. As gravações de Burlesque começaram
em 9 de novembro de 2009 e terminaram em 3 de março de 2010. Cher por sua vez,
estrelou em seu primeiro papel no cinema desde 2003, em “Stuck on You”. Ela
interpreta Tess, uma ex-dançarina que luta para manter o clube aberto e serve
como uma mentora para o personagem de Aguilera, Ali. O amor de Ali (Aguilera) é
interpretado por Cam Gigandet, Stanley Tucci é o gerente da boate, e Alan
Cumming, Kristen Bell, Eric Dane e Julianne Hough completam o elenco. Dianna
Agron faz uma aparição no filme como noiva de Jack, Natalie. Antin escreveu o
roteiro, e Diablo Cody fez uma revisão, que foi revisto e
editado por Susannah Grant. Burlesque é um dos filmes mais caros da empresa “Screen
Gems”, com exceção dos filmes de “Resident Evil”, com custos de US$ 55 milhões.
Ali é uma jovem de uma cidade do
interior, com uma bela voz, que escapa da vida dura e de um futuro incerto e
vai a Los Angeles para concretizar os seus sonhos. Na cidade grande, ela chega
a um teatro majestoso, porém em péssimo estado de conservação, “The Burlesque
Lounge”, onde está sendo exibido um fantástico musical. Ali é contratada como
garçonete por Tess, dona e administradora do teatro. Os fantásticos figurinos
de Burlesque e a coreografia ousada conquistam Ali, que fará de tudo para subir
ao palco do teatro e se tornar uma grande artista. Em seu primeiro trabalho
como atriz no cinema, Christina Aguilera não trilhou o caminho de outras
cantoras pop, como Mariah Carey e Britney Spears, duramente criticadas por suas
atuações em “Glitter - O Brilho de Uma Estrela” (2001) e “Crossroads - Amigas para
Sempre” (2002). Não recebeu indicação ao Óscar por seu desempenho
em “Burlesque”, mas também escapou de uma marota premiação intitulada:
“Framboesa de Ouro”, que ironicamente escolhia os piores filmes daquele ano. Repleto
de belas, glamourosas e talentosas mulheres, o local se mantém com dificuldades financeiras.
Com números musicais representados com dançarinas bem preparadas e
disciplinadas. Mas que só cantam com a segurança do “playback” – interpretação
em que o cantor ou o ator sincronizam o seus movimentos com sons pré-gravados, com
exceção de Tess, única a fazer a articulação entre os dois. Até Ali usar os
cenários cheios de espelhos, plumas, perucas e brilhos para mostrar suas
habilidades vocais. – “O burlesco dos anos 1920, 30 e 40 é algo que se via nos
livros. Todo o lance dos cabelos, da maquiagem, da sensualidade envolvida na
dança me intrigava. Afirma Aguilera: - “E eu cresci ouvindo músicas como Something`s Got a Hold On Me, cantada
por Etta James, e vi em Paris o número I
am a Good Girl”. Já não se produzem mais tantos musicais como no início do
século. É um gênero que, como o “western”, tem produzido poucas novidades pela chamada
“indústria cultural”. A partir daí, os grandes musicais, com a mudança de
simbólica estética e artística nas sociedades industriais para as sociedades de controle da informação seriam
completamente diferentes. Mais refinados, abordando temas complexos, realistas,
como o racismo, a guerra, o autoritarismo do nazismo, a pobreza, a marginalidade de massa, e a complexidade entre a proximidade e distância da morte, para ficarmos em alguns exemplos tais como: “West Side Story” (1961), “Cabaret, All That Jazz” (2002), ou, o
clássico e atualíssimo “O Ovo da Serpente” (“Das Schlangenei”/The Serpent`s Egg”), dirigido
pelo extraordinário cineasta Ingmar Bergman e ambientado na Berlim protofascista da década de 1920.
Bibliografia geral consultada.
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1920-1940. Baltimore:
Johns Hopkins University Press, 1993; ROBERTS, Nickie, As Prostitutas na História. Rio de Janeiro: Editora Record/Rosa dos
Tempos, 1998; MALDONADO ALEMÁN, Manuel, El
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Síntesis, 2006; CASTRO, Clara Carnicero, O Sistema Filosófico do Marquês de Sade: Estudo da Elaboração do Sistema Filosófico do Marquês de Sade a partir das Filosofias Iluministas e Libertinas do Século XVIII na França. Dissertação de Mestrado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2006; HALBWACHS,
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Jorge, REIS FILHO, Daniel Aarão (org.), A
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Hegel. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira.
Faculdade de Educação. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2013;
SALVADORI, Mateus, Para Além da Justiça Formal: Hegel e o Formalismo
Kantiano. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia.
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre: Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2014; SILVA, Rodrigo D’Avila Braga, O Marquês de Sade no Brasil: Tradução, Recepção e Crítica de Historiettes, Contes et Fabliaux. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução. Brasília: Universidade de Brasília, 2016; entre outros.
_______________
* Sociólogo
(UFF), Cientista Político (UFRJ) e Doutor em Ciências junto à Escola de
Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP).Professor Associado
da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).