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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Terra Fria – Ação Coletiva, Justiça & Interpretação Consciente no Trabalho.

 “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem”. Simone de Beauvoir                         

          

          A Lógica da Ação Coletiva (em inglês The Logic of Collective Action) é um livro escrito pelo economista norte-americano Mancur Olson em 1971 que propõe a utilização de modelos econômicos para a análise dos grupos sociais e da ação coletiva. A tese básica deste extraordinário livro é a de que “mesmo que todos os indivíduos de um grupo grande sejam racionais e centrados em seus próprios interesses, e que saiam ganhando se, como grupo, agirem para atingir seus objetivos comuns, ainda assim eles não agirão voluntariamente para promover esses interesses comuns e grupais” (Olson, 1999). O argumento formal empregado pelo autor para explicar a disjunção entre racionalidade individual e racionalidade coletiva tem como objetivo se contrapor às interpretações academicamente dominantes do comportamento coletivo na década de 1950, classificadas por Olson como pertencendo às “teorias tradicionais dos grupos sociais”. Apropriando-se do método individualista, do princípio da maximização da utilidade marginal da economia neoclássica e do conceito de bens públicos sistematizado por Paul Samuelson, Olson afirma que quando está em pauta um bem público, um benefício caracterizado pela impossibilidade de discriminação entre aqueles que contribuíram para o provimento do mesmo daqueles que não o fizeram, o membro racional, em determinados casos, pode preferir não contribuir para a consecução do bem grupal. Isto porque o ator, mesmo não contribuindo com a consecução do benefício coletivo, poderia, em certas circunstâncias, usufruir de igual modo do bem em questão.

Ainda que os custos da cooperação sejam mais reduzidos do que os benefícios auferidos pelo ator, a deserção na ação coletiva é racional, de acordo com Olson, sempre que o efeito da contribuição de cada indivíduo para a provisão do benefício coletivo não exerce “uma diferença perceptível para o grupo como um todo, ou para o ônus ou ganho de qualquer membro do grupo tomado individualmente”. Como a consequência positiva que cada contribuição individual exerce sobre a produção do bem coletivo não é notada, pelo fato de ser muito reduzida, e essa contribuição envolve custos, é racional que o ator auto-interessado não arque com esses mesmos custos, maximizando assim a sua utilidade. Grupos cujos membros se deparam com essa percepção em relação à contribuição individual dos mesmos para a produção do benefício coletivo são classificados por Olson como latentes. O “dilema da ação coletiva” em grupos latentes tal como formulado por Olson reside justamente nessa ambivalência: na medida em que todos os membros do grupo raciocinam da mesma maneira, isto é, na medida em que procuram maximizar as suas respectivas utilidades às custas da deserção, pelo fato de não notarem, no fim, qualquer acréscimo significativo no nível de provisão do bem coletivo para o grupo como um todo ou para algum membro isoladamente por conta da contribuição individual, o resultado acaba se tornando desastroso do ponto de vista agregado. Do ponto de vista da racionalidade coletiva, todos ganhariam caso houvesse uma cooperação integral.

Porém, de acordo com a racionalidade individual, a deserção não deixa de ser a estratégia que proporciona a recompensa mais vantajosa a cada ator, independentemente dos outros membros do grupo cooperarem ou deixarem de cooperar. Ao contrário da metáfora da mão invisível de Adam Smith (1723-1790) que inverte a moral tradicional atribuindo à busca do autointeresse um caráter positivo em termos sociais, justificando, assim, a própria economia de mercado, para Olson, em situações específicas (aquelas que os economistas do bem-estar chamam de “falhas de mercado”), a mera perseguição do interesse individual do membro, seja ele material ou de qualquer outra natureza, termina produzindo resultados desastrosos do ponto de vista coletivo. Em casos como estes, o bem público não será provido a menos que sejam aplicados incentivos seletivos negativos (como processos de coerção) sobre os membros que não cooperam ou inventivos seletivos positivos (como retribuições individuais materiais ou simbólicas) aos membros que forneceram a sua contribuição para o bem comum. A obrigatoriedade das contribuições sindicais, ou ainda o fornecimento de retribuições materiais individuais aos associados de um sindicato, tal como comparativamente os jornais, espaços de lazer e serviços de assistência jurídica e médica, seriam exemplos comprobatórios da impossibilidade da cooperação se encaminhar de forma voluntária em uma série de situações concretas.                                            

Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, é, simplesmente, mais reconhecida como Simone de Beauvoir (Paris, 1908, Paris, 1986), uma escritora talentosa, filósofa existencialista e feminista francesa par excellence. Escreveu romances, monografias sobre filosofia, política, sociedade, ensaios, uma autobiografia: Mémoires d’une jeune fille rangée (1958) e uma biografia: La Cérémonie des adieux suivi de Entretiens avec Jean-Paul Sartre: août - septembre 1974.  Simone de Beauvoir era a mais velha das únicas duas filhas de Georges Bertrand de Beauvoir, um advogado em tempo integral e ator amador, e Françoise Brasseur, uma jovem mulher de Verdun. Nasceu em Paris como Simone (então um nome pomposo que seu pai gostava) - Lucie (por sua avó materna) - Ernestine (por seu avô paterno, Ernest-Narcisse) - Marie (pela Virgem Maria) Bertrand de Beauvoir (ela foi orientada quando criança a dar seu nome como simplesmente “Simone de Beauvoir”). Era uma criança atraente, mas mimada, teimando para obter o que queria, tendo sido o centro das atenções em família. A mãe não foi uma grande costureira, e as que costurou eram mal ajustadas. Ao crescer, Simone de Beauvoir não tinha amigos, exceto no âmbito familiar a irmã Hélène, que era dois anos e meio mais nova e de quem ela era próxima. Em 1909, o avô materno de Beauvoir, Gustave Brasseur, presidente do Banco Meuse, faliu, jogando toda a sua família em desonra e pobreza.

Georges não recebeu o dote devido por casar-se com Françoise, e a família teve que se mudar para um apartamento menor. Georges de Beauvoir teve de voltar ao trabalho, embora o trabalho não lhe agradasse. A família lutou durante toda a infância das meninas para manter seu lugar na alta burguesia, e Georges dizia frequentemente: “Vocês, meninas, nunca vão se casar, porque vocês não terão nenhum dote”. Beauvoir sempre esteve consciente de que seu pai esperava ter um filho, ao invés de duas filhas. Ele afirmava, “Simone pensa como um homem!” o que a agradava muito, e desde pouca idade Beauvoir distinguiu-se nos estudos. Georges de Beauvoir passou seu amor pelo teatro e pela literatura para sua filha. Ele ficou convencido de que somente o sucesso acadêmico poderia tirar as filhas da pobreza. Hélène tornou-se uma pintora. Do ponto de vista da formação ela se tornou adolescente desajeitada, dedicada aos livros e à aprendizagem, e preferiu ignorar os esportes porque ela não era nada atlética e cada pessoa, socialmente busca determinada coisa e tem uma motivação diferente para se realizar no mundo.  Ela e sua irmã foram educadas no Institut Adeline Désir, ou Cour Désir, “uma escola católica para meninas, algo que era desprezado pelos intelectuais da época”.  

As escolas católicas para meninas eram vistas como lugares onde as jovens aprendiam uma das duas alternativas abertas às mulheres: casamento ou um convento. Sua mãe, que Beauvoir considerava uma intrusa espiando cada movimento seu, frequentou aulas com elas, sentada atrás delas, como se esperava que a maioria das mães fizessem. Lá Beauvoir conheceu sua melhor amiga, Elisabeth Le Coin (ZaZa nas memórias de Beauvoir). Simone amou a escola e se formou em 1924 com “distinção”. Aos 15 anos, Beauvoir já havia decidido que seria uma escritora. Jacques Champigneulle tornou-se seu mentor intelectual e amigo, aquele que sua mãe esperava que fosse cortejá-la e um dia se casar com ela. Geraldine Paro (GéGé) e Estepha Awdykovicz (Stépha) tornaram-se suas amigas. Depois de passar nos exames de bacharelado em matemática e filosofia, estudou matemática no Instituto Católico e literatura e línguas no Instituto Sainte-Marie, e em seguida, filosofia na Universidade de Paris. Em 1929, quando na Sorbonne, Beauvoir fez uma apresentação sobre Leibniz. Lá, ela conheceu outros jovens, incluindo Maurice Merleau-Ponty, René Maheu e Jean-Paul Sartre que sugeriu aos outros dois que Simone, então com 21 anos, fizesse uma apresentação privada de Leibniz para ajudá-los nas provas. Enquanto na Sorbonne, Maheu deu a Beauvoir o apelido que lhe acompanharia ao longo da vida, Castor, dado a ela por causa do trabalho ético do animal. Em 1929, na idade de 21, Beauvoir se tornou “a pessoa mais jovem a obter o Agrégation na filosofia, e a nona mulher a obter este grau”. No exame final, ficou em segundo lugar; Sartre, 24 anos, foi o primeiro, mas ele havia sido reprovado em seu primeiro exame.

O júri do Agrégation discutiu sobre a possibilidade de dar a Sartre ou Beauvoir primeiro lugar na competição.  No final, concederam a Sartre. Sua amizade com Elizabeth Mabille (“Zaza”) foi abruptamente rompida com a morte precoce de Zaza. Simone narrou esse episódio de sua vida, em seu primeiro livro autobiográfico, Memórias de Uma Moça bem-comportada, que é a primeira parte da obra autobiográfica em que critica os valores tipicamente burgueses, onde descreve a sua educação numa família de classe média, sem dinheiro e sem relações sociais, e a sua mudança da vida, graças à literatura, à filosofia e a novas amizades. Move-a um desejo de intervenção filosófica e de que a sua vida seja útil. Sem temor escolher o seu próprio destino e de se tornar alguém. Escolhe a filosofia e com ela uma forma determinada. Logo se uniu estreitamente ao filósofo Jean-Paul Sartre e a seu círculo, dos amigos íntimos (a chamada família) criando entre eles uma relação social polêmica e fecunda, que lhes permitiu compatibilizar suas liberdades individuais com sua vida em conjunto. Na verdade, é difícil caracterizá-los como casal, porque viveram longas relações amorosas cada um com outras pessoas; Beauvoir, por exemplo, teve uma forte relação com o escritor norte-americano Nelson Algren logo após a guerra, e na década de 1950 manteve outra relação duradoura com Claude Lanzmann,  cineasta francês conhecido pelo documentário Shoah (1985) e também Editor chefe da revista Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, e professor da European Graduate School em Saas-Fee, na Suíça.

Em 2009, ele publicou suas memórias sob o título Le lièvre de Patagonie.  No verão, era comum Simone de Claude Beauvoir e Lanzmann viajarem com Sartre e sua amante Michelle Vian, ex-esposa do escritor Boris Vian. Profissionalmente Simone de Beauvoir foi professora de filosofia até 1943 em escolas de diferentes localidades francesas, como os casos de cidades como Ruão e Marselha. Morreu de pneumonia em Paris, aos 78 anos. Encontra-se sepultada no mesmo túmulo de Jean-Paul Sartre no Cemitério de Montparnasse em Paris. Vale lembrar que Sartre em 1924 ingressou na École Normale Supérieure na mesma turma de Paul Nizan, Daniel Agache e Raymond Aron. Curiosamente músico e ator talentoso e sempre disposto a participar de brincadeiras e eventos sociais, Sartre torna-se muito popular entre os colegas na universidade. Os alunos da escola se dividem em grupos de afinidades religiosas, ateus e “carolas”, e claro das facções políticas, socialistas, comunistas, reacionários, pacifistas. Mas Sartre adere aos ateus e aos pacifistas e enquanto Aron e Nizan aderem aos círculos socialistas e comunistas e começa a participar da vida política francesa, o que o leva a manter o individualismo e o desinteresse pela política que conservaria até o fim da Segunda Guerra. No campo filosófico, além de Bergson, passou a ler Nietzsche, Kant, Descartes e Spinoza. Já na escola começa a desenvolver as primeiras ideias de uma “filosofia da liberdade leiga”, tendo como representação a oposição entre os seres e a consciência, do absurdo e da contingência que ele viria a desenvolver posteriormente em suas grandes obras filosóficas. Seu principal interesse é o indivíduo e a psicologia. A singularidade é o que distingue um homem de outros, é o que o torna na ontogênese humana.

A mão invisível tem como representação social um conceito que inicialmente foi introduzido por Adam Smith (1723-1790) em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais, escrito em 1759, invocando a “interferência natural que o mercado exerceria na economia”. Segundo Smith, se a economia for livre, sem intervenção alguma de órgãos externos ou do governo, ela irá regular de forma automática, como se houvesse “uma mão invisível por trás de tudo, fazendo com que os preços dos produtos fossem ditados pelo próprio mercado, conforme sua necessidade”. Na época em que escreveu A Riqueza das Nações, em 1776, Smith estudou os modelos econômicos dos fisiocratas franceses por muitos anos, e, nesta obra, a “mão invisível” é mais diretamente associada à produção e ao emprego de capital em suporte à indústria doméstica. O único uso do termo “mão invisível” encontrado na obra A Riqueza das Nações se encontra no Livro IV, Capítulo II, “Restrições à Importação de Mercadorias Estrangeiras que Podem Ser Produzidas no Próprio País”. A frase exata é utilizada somente três vezes nas escrituras de Smith. Mas economicamente ele pode ter dado dois significados da frase por influência de Richard Cantillon (1680-1734), que desenvolveu ambas as aplicações econômicas em seu modelo do estado isolado. A ideia de comércio e do mercado de troca automática canalizando o interesse próprio para fins sociais desejáveis é a justificativa central da filosofia econômica de laissez-faire, que antecede a economia neoclássica. Nesse sentido, a discordância central entre ideologias econômicas pode ser vista como uma discordância sobre quão poderosa é a “mão invisível”. A mão invisível é uma expressão da economia política usada três vezes na obra de Adam Smith. 

         1. Na História da Astronomia: “Pois se pode observar que em todas as religiões politeístas, entre os povos primitivos como nas épocas mais remotas da Antiguidade, apenas os fenômenos irregulares da natureza são atribuídos ao poder de seus deuses. O fogo arde, corpos pesados ​​descem e as substâncias mais leves voam por necessidade própria; o recurso à mão invisível de Júpiter jamais é considerado nessas circunstâncias. Mas o trovão e o relâmpago, as tempestades e o Sol, esses fenômenos mais irregulares são atribuídos à sua ira”. 2. Na Teoria dos Sentimentos Morais: “Os produtos da terra sustentam quase todas as pessoas que ela é capaz de sustentar. Os ricos escolhem, dentre essa produção, apenas o que lhes é mais valioso e agradável. Consomem pouco mais que os pobres e, apesar de seu egoísmo e rapacidade natural, embora aspirem apenas ao próprio conforto, o único objetivo que buscam obter do trabalho de milhares de pessoas que empregam seja satisfação de desejos vãos e insaciáveis, compartilham com os pobres os frutos das melhorias que fazem. São guiados por uma mão invisível a realizar uma distribuição das necessidades da vida quase idêntica à que ocorreria se a terra tivesse sido dividida em partes iguais entre todos os seus habitantes; e assim, sem saber, servem aos interesses da sociedade e fornecem os meios para a multiplicação da espécie”.

N`A Riqueza das Nações: “Mas a receita anual de qualquer sociedade é sempre precisamente igual ao valor de troca de toda a produção anual de sua indústria, ou melhor, é precisamente a mesma coisa que esse valor de troca. Portanto, como cada indivíduo se esforça, na medida do possível, 1) para empregar seu capital na promoção da indústria nacional e 2) para direcionar essa indústria de modo a produzir o maior valor possível, cada indivíduo necessariamente trabalha para tornar a receita anual da sociedade a maior possível. Na verdade, sua intenção, em geral, não é servir ao interesse público, e ele nem sequer sabe até que ponto pode ser útil à sociedade. Ao preferir o sucesso da indústria nacional ao da indústria estrangeira, ele está pensando apenas em obter maior segurança pessoal; e ao direcionar essa indústria para que seu produto tenha o maior valor possível, ele está pensando apenas em seu próprio ganho.” Nisso, como em muitos outros casos, ele é conduzido por uma mão invisível a atingir um fim que não faz parte de sua intenção; e nem sempre é o pior para a sociedade que esse fim não faça parte de sua intenção. Ao buscar apenas seus próprios interesses, ele frequentemente trabalha de forma muito mais eficaz para o benefício da sociedade do que se tivesse realmente essa intenção. Nunca vi aqueles que, em seus empreendimentos comerciais, aspiravam a trabalhar para o bem comum, realizarem muito bem. É verdade que essa nobre paixão não é muito comum entre os comerciantes, e não seriam necessários longos discursos para curá-los dela.                                               

Escólio: Após um casamento fracassado, Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no Minnesota, Estados Unidos da América, em busca de emprego. Mãe solteira e com dois filhos para sustentar, ela é contratada pela principal fonte de empregos da região: as minas de ferro, que sustentam a cidade há gerações. O trabalho é duro, mas o salário é bom, recompensa o que compensa o esforço. Aos poucos as amizades conquistadas no trabalho passam a fazer parte do dia-a-dia de Josey, aproximando famílias e vizinhos. Incentivada por Glory (Frances McDormand), uma das poucas mulheres que trabalha nas minas, Josey passa a trabalhar no grupo daqueles que penam para arrancar o minério das pedreiras. Ela está preparada para o trabalho duro e, às vezes, perigoso, mas o que não esperava era sofrer com o assédio dos seus colegas de trabalho. Como ao reclamar do tratamento recebido é ignorada, ela decide levar à justiça o caso.

            Terra Fria (North Country) é um filme de drama norte-americano de 2005 dirigido por Niki Caro, estrelado por Charlize Theron, Frances McDormand, Sean Bean, Richard Jenkins, Michelle Monaghan, Jeremy Renner, Woody Harrelson e Sissy Spacek. O roteiro de Michael Seitzman foi inspirado no livro de 2002 Class Action: The Story of Lois Jenson and the Landmark Case That Changed Sexual Harassment Law (Ação Coletiva: A História de Lois Jenson e o Caso Marcante que Mudou a Lei de Assédio Sexual), de Clara Bingham e Laura Leedy Gansler, que narra o caso Jenson contra a Eveleth Taconite Company e o sindicato USW Local 2705, que apoiou os esforços do empregador durante os eventos horríveis e as subsequentes batalhas judiciais. O filme Terra Fria estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 12 de setembro de 2005, antes de ser lançado pela Warner Bros. Pictures em 21 de outubro de 2005. O filme recebeu críticas positivas, mas teve um desempenho contradizendo “o princípio hologramático significa que não apenas a parte está num todo, mas que o todo está inscrito, de certa maneira, na parte”, do esperado nas bilheterias, arrecadando US$ 25,2 milhões contra um orçamento de US$ 35 milhões. Na 78ª edição do Oscar, Theron e McDormand foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz e de Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Em 1989, Josey Aimes foge do marido abusivo com os filhos, Sammy e Karen.

            Ela retorna à sua cidade natal, na região de Mesabi Iron Range, no Norte de Minnesota, para morar com os pais, Alice e Hank. Hank tem vergonha da filha, que teve Sammy na adolescência com um pai desconhecido: ele acredita que ela é promíscua. Enquanto trabalha em um salão de cabeleireiro, Josey reencontra uma antiga conhecida, Glory Dodge. Ela trabalha na mina de ferro local e Glory sugere que ela faça o mesmo, pois o emprego lá paga seis vezes o seu salário atual. Quando Josey aceita o emprego, seu relacionamento com Hank fica mais tenso. Ele também trabalha na mina e acredita que mulheres não deveriam trabalhar lá, então Josey e seus filhos se mudam para a casa de Glory e seu marido, Kyle. Josey rapidamente faz amizade com várias outras trabalhadoras da mina, mas logo percebe que as mulheres são alvos constantes de assédio sexual e humilhação por parte da maioria de seus colegas homens. Elas, assim como Hank, acreditam que seus trabalhos são mais apropriados para homens. Josey, em particular, é alvo de Bobby Sharp, seu ex-namorado do Ensino Médio. Ela tenta conversar com seu supervisor, Arlen Pavich, sobre o problema, mas ele se recusa a levar suas preocupações a sério. As mulheres sofrem assédio adicional e até mesmo abuso em represália.  

        Depois que Josey rejeita as investidas sexuais de Bobby, ele espalha boatos de que ela tentou seduzi-lo, o que leva sua esposa a repreendê-la publicamente no jogo de hóquei de Sammy que começa a acreditar nos boatos sobre a suposta promiscuidade de sua mãe. Josey leva suas preocupações ao dono da mina, mas suas garantias anteriores de que estava ali para ajudar eram uma farsa. Ao chegar, ela descobre que ele convidou Pavich para a reunião, juntamente com vários executivos. Pearson oferece apenas aceitar sua demissão imediatamente, mas ela recusa. Depois que ele insinua acreditar nos rumores sobre sua promiscuidade, ela sai devastada. Mais tarde, após ser agredida física e sexualmente por Bobby no trabalho, Josey pede demissão. Ela então pede a Bill White, um advogado amigo de Kyle e Glory, que a ajude a entrar com um processo contra a empresa. Ele a aconselha a recrutar outras mulheres para formar uma ação coletiva, que seria a primeira desse tipo. As mineiras, no entanto, temem perder seus empregos e enfrentam ainda mais assédio, então Josey decide prosseguir com o caso sozinha. Ela também descobre que Glory tem esclerose lateral amiotrófica (ELA) e sua saúde está se deteriorando rapidamente. Alice e Hank discutem sobre o processo de Josey e, como Hank ainda se recusa a perdoar a filha, Alice o deixa. Em uma reunião do sindicato, Josey tenta se dirigir aos mineiros para explicar os motivos do processo, mas eles a interrompem e a insultam constantemente, levando Hank a tomar o microfone e repreender seus colegas pelo tratamento dado a Josey e mulheres da mina, recebendo alguns aplausos relutantes.  

Ele e Alice então se reconciliam. No tribunal, o advogado da mineradora tenta usar o histórico sexual de Josey contra ela, com base no depoimento de Bobby de que Sammy é fruto de uma relação sexual consensual entre Josey e seu professor do ensino médio, Paul Lattavansky. Josey então revela que, um dia, depois da aula, enquanto ela e Bobby cumpriam detenção juntos por terem sido pegos se beijando, ela foi estuprada por Lattavansky, o que resultou em sua gravidez de Sammy. O professor está presente na reunião e Hank o ataca. Bill consegue um recesso depois que Josey sai furiosa do tribunal. Sammy continua se recusando a acreditar na mãe e foge de casa, ficando com Kyle e Glory, até que Kyle o convence a reconsiderar. Ele e Josey se abraçam depois de conversarem. Durante o interrogatório de Bobby, Bill o faz admitir que testemunhou Lattavansky estuprando Josey, mas que estava com muito medo de fazer algo a respeito. Glory, que chegou ao tribunal em sua cadeira de rodas e não consegue falar, pede a Kyle que leia uma carta dizendo que ela apoia Josey, embora isso ainda não seja suficiente para se qualificar para uma ação coletiva. Após uma pausa, muitas outras mulheres se levantam, seguidas por familiares e até mesmo vários mineiros que nunca estiveram envolvidos no caso. A mineradora é obrigada a indenizar as mulheres pelo sofrimento e a estabelecer uma política histórica de combate ao assédio sexual no local de trabalho.

Na esfera socioeconômica, domínio da segunda e terceira ocorrências, essa fórmula evoca a ideia de que ações guiadas unicamente pelo interesse próprio podem contribuir para a riqueza e o bem-estar comum. Apesar de sua posição bastante modesta na obra de Smith, essa expressão tornou-se muito popular, a ponto de ser objeto de inúmeros comentários e interpretações, alguns referentes ao seu significado para Smith no contexto de sua época, e a maioria referentes aos seus usos posteriores por outros autores. As diversas interpretações, pelo menos catorze, serão examinadas mais adiante. Uma das razões para a abundância de interpretações reside no fato de Smith ter escrito numa época em que a controvérsia em torno do sistema de otimismo de Leibniz era muito intensa. Isso levanta a questão de se a “mão invisível” seria uma metáfora para algo semelhante a esse sistema. A outra razão para a multiplicidade de interpretações reside em consequências práticas, tanto econômicas quanto políticas; a estas, posteriormente, nos referiremos como as implicações. William Dyer Grampp (2014-2019) identificou nove maneiras de interpretar a mão invisível por pesquisadores: A força que faz com que o interesse de um seja o interesse de outros. É o que Élie Halévy (1870-1937) chama de “harmonização natural dos interesses”. É também a interpretação mais difundida, à qual retornaremos mais tarde. Ela foi notavelmente defendida por Cropsey e Sugden. Uma metáfora para a ideia de consequências não intencionais. Para Grampp (2000), trata-se dos neoaustríacos.

 Vaughn (1987) escreve: “A mão invisível é uma metáfora usada por Smith para designar o princípio pelo qual uma ordem social benéfica emerge das consequências não intencionais das ações individuais dos seres humanos”. Competição. É o que afirma Rosenberg, mas para Grampp, nada no trabalho de Smith apoia esta tese. Bruno partilha desta posição e escreve que “também não pode ser comparada à competição perfeita”. A vantagem mútua da troca. Esta interpretação é a de Frank Knight. Para Grampp, esta ideia já se encontra em Cícero, de quem Smith também poderia ter tomado emprestada uma ou duas ideias sobre os benefícios da divisão do trabalho e do bem-estar material. Uma piada ou uma metáfora irônica. Esta é a interpretação de Emma Rothschild (2001). Um processo evolutivo. Cosmides e Tooby (1994) acreditam que a “mão invisível” é o processo pelo qual os seres humanos adquirem o conhecimento, as habilidades e os hábitos que os levam, ao comprar e vender, a maximizar seus próprios interesses e os de seu país. Para Grampp, esses temas não são estranhos a Smith, mas não têm nada a ver com a “mão invisível”. Uma força providencial. Esta é a interpretação de Jacob Viner, de Spiegel (1979) e de Evensky (1993). A força que restringe as exportações de capital e contribui para a segurança de um país. Interpretação proposta por Persky (1989).

Um dos méritos do artigo de Grampp (2000) é a sua ênfase no forte poder retórico e na capacidade evocativa da expressão “mão invisível”, mostrando que por vezes a interpretamos mais de acordo com a nossa própria compreensão do que com o que Smith realmente escreveu. No entanto, a tipologia de Grampp mistura interpretações a diferentes níveis, e esta é também a sua fragilidade. De fato, enquanto algumas interpretações estabelecem um quadro geral de pensamento ou fazem da “mão invisível” uma metáfora para esse quadro, outras são muito mais técnicas, enquanto outras ainda visam principalmente minimizar o âmbito “realista” da expressão “mão invisível” ou dissociar as diferentes ocorrências econômicas da expressão. Às interpretações inventariadas por Grampp foram acrescentadas as que emanam do próprio Grampp e as, muitas vezes recentes, de economistas e filósofos franceses. Grampp (2000) questiona se as três referências à “mão invisível” encontradas respectivamente na História da Astronomia, na Teoria dos Sentimentos Morais (1999) e em A Riqueza das Nações (1976) constituem um oratório, isto é, se devemos interpretá-las como se todas se referissem ao mesmo princípio, ou se, pelo contrário, são variações sobre um tema não explorado, isto é, se princípios diferentes estão na verdade escondidos por trás das mesmas palavras.

Ele segue um caminho aberto por Macfie (1971). A “mão invisível de Júpiter” e o modelo da “mão invisível” do século XVIII. Macfie, no artigo “A Mão Invisível de Júpiter” (1971), argumenta que a escola escocesa do século XVIII ofereceu interpretações da história semelhantes às de Giambattista Vico (1668-1744), que distinguia entre a Era dos deuses, a Era dos heróis e a Era dos homens. Assim, para Macfie, a “mão invisível de Júpiter” simboliza a intervenção caprichosa e incompreensível dos deuses antigos, ligada à Era da “superstição”. Em contraste, a “mão invisível” está mais alinhada com a ideia de Deus ou do Ser Supremo, tal como se desenvolveu no século XVIII, e serve para preservar a ordem natural. Assim, tornar-se-ia, na Teoria dos Sentimentos Morais e na Riqueza das Nações, o instrumento do “autor da natureza que governa e anima toda a máquina do Universo”. Para este autor, a passagem na Teoria dos Sentimentos Morais, muito mais do que a dos fins não intencionais na Riqueza das Nações, seria um excelente exemplo do esforço de Smith para articular argumentos teológicos, jurídicos e éticos naquilo que seria a sua interpretação do “grande sistema da natureza”. Em Três Variações sobre um Tema Não Explorado (Grampp 2000), este autor vai além de Macfie. Ele distingue três mãos invisíveis diferentes e proclama que continuará a pensar desta forma até que seja demonstrado, com base no que Smith escreveu, que existe uma relação entre elas.

Em seu artigo, ele interpreta a “mão invisível de Júpiter” de maneira semelhante à de Macfie. A mão invisível da Teoria dos Sentimentos Morais claramente lhe apresenta problemas, por pelo menos três razões: é um componente da ordem natural, ele considera o livro “enigmático” (confuso) e, sobretudo, este livro não separa a economia da ética. Ele escreve a este respeito: “O tema da Teoria dos Sentimentos Morais diz respeito a como formamos nossos juízos éticos, o que pode ou não ser de interesse para os economistas”. Ele opta claramente pela segunda solução e parece pensar que os economistas não estão interessados ​​em juízos éticos: “o que lhes interessa é a distribuição de rendimentos, e esse é também um tema do livro”. A mão invisível da RDN, a única que, segundo ele, interessa aos economistas, guia o interesse próprio dos industriais ou comerciantes que não carecem de bom senso e que, depois de calcular a taxa de retorno dos negócios realizados dentro e fora do território nacional, optam, uma vez incluído o prêmio de risco, pelo seu próprio país. Grampp demonstra um desejo de reduzir o papel da mão invisível. Um conceito marginal na obra de Adam Smith? Para Élie Halévy, a mão invisível ocupava de fato um lugar central na obra de Smith. Essa afirmação foi recentemente contestada de forma radical por Emma Georgina Rothschild e, de maneira mais sutil, por Michaël Biziou. Para entender essa oposição, é necessário lembrar que existem duas leituras de Smith: uma conservadora, com Edmund Burke, e outra progressista, com Thomas Paine, Mary Wollstonecraft ou James Mackintosh.

Emma Rothschild traça um paralelo entre Smith e Nicolas de Condorcet e adota um “liberalismo progressista”. Isso pode explicar por que ela minimiza o papel da mão invisível. Lois Jenson, em quem a personagem Josey é baseada, começou a trabalhar na mina EVTAC (de “Eveleth Taconite”) em Eveleth, Minnesota, em 1975 e iniciou seu processo em 1984, quatro anos antes do ano em que o filme começa. O filme condensou a linha do tempo, mas na realidade levou quatorze anos para que o caso fosse resolvido. Jenson recusou uma oferta para consultoria no filme e não quis vender os direitos de sua história; assim, os cineastas criaram um relato ficcional com personagens originais. A personagem Glory Dodge, interpretada por Frances McDormand, foi baseada em Pat Kosmach, uma das autoras originais da ação coletiva. Kosmach morreu durante o processo, em 7 de novembro de 1994. A Eveleth Mines fez um acordo quatro anos depois, em dezembro de 1998, pagando a quinze mulheres um total de US$ 3,5 milhões. O filme foi filmado nas cidades do Norte de Minnesota de Eveleth, Virginia, Chisholm e Hibbing; Minneapolis; bem como Silver City e Santa Fé no Novo México. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2005 e foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Chicago antes de ser lançado nos EUA, onde arrecadou US$ 6.422.455 em seu fim de semana de estreia, ficando em 5º lugar nas bilheterias.

Com um orçamento de US$ 35 milhões, acabou arrecadando US$ 18.337.722 nos EUA e US$ 6.873.453 em mercados estrangeiros, para uma bilheteria mundial total de US$ 25.211.175. No agregador de críticas Rotten Tomatoes, 70% dos críticos deram ao filme avaliações positivas, com base em 174 críticas, e uma classificação média de 6,7/10, com Theron e McDormand recebendo elogios da crítica por suas atuações. O consenso do site afirma: “Embora às vezes melodramático e previsível, Terra Fria é, no entanto, uma história emocionante e poderosa de coragem e humanidade”. No Metacritic, o filme tem uma pontuação média de 68 em 100, com base em 39 críticas. O público pesquisado pelo CinemaScore deu ao filme uma nota média de “A−” em uma escala de A+ a F.  Manohla Dargis, do The New York Times, chamou-o de “um veículo para estrelas com coração – um drama liberal à moda antiga sobre verdade e justiça” e acrescentou: “[Ele] é um daqueles entretenimentos de Hollywood que se esforçam para contar uma história difícil e amarga com o máximo de otimismo possível. O fato de o filme funcionar tão bem, apresentando uma primeira hora difícil apenas para se desintegrar como um jornal molhado, atesta a habilidade dos cineastas, bem como as restrições impostas a eles por uma indústria que insiste em colocar um laço bonito até mesmo na verdade mais sórdida”. Em sua crítica no Chicago Sun-Times, Roger Ebert observou: “Terra Fria é um daqueles filmes que te agitam e te deixam furioso, porque dramatiza práticas sobre as quais você já ouviu falar, mas nunca realmente visualizou. Lembramos que Frances McDormand interpretou uma policial nessa mesma região em Fargo, e valorizamos essa lembrança porque ela fornece uma base para Josey Aimes.

O papel de McDormand neste filme é diferente e muito mais triste, mas traz a mesma coragem e bom senso para a tela. Junte essas duas mulheres (como atrizes e personagens) e elas podem realizar praticamente qualquer coisa. Vê-las fazer isso é uma ótima experiência cinematográfica”. Ruthe Stein, do San Francisco Chronicle, chamou o filme de “um filme envolvente, embora ocasionalmente desnecessariamente complexo... Os primeiros 15 minutos são uma bagunça... Felizmente, [ele] se acalma e se torna extremamente cativante, especialmente nas batalhas do tribunal... tudo é cuidadosamente calculado para efeito dramático e consegue brilhantemente envolver o espectador e provocar lágrimas no processo... Terra Fria teria se beneficiado de uma edição mais concisa. Dura pelo menos 15 minutos a mais do que o necessário... Apesar de todas as suas falhas, [ele] causa um forte impacto emocional e apresenta algumas atuações dignas de reconhecimento na época das premiações”. Na revista Rolling Stone, Peter Travers deu ao filme duas de quatro estrelas possíveis e comentou: “Quaisquer semelhanças entre Josey e Lois Jenson, a mulher real que fez a Eveleth Mines pagar por seus pecados em um processo histórico de ação coletiva em 1988, são mera coincidência. Em vez disso, temos uma fantasia de filme para a TV sobre o empoderamento feminino, revestida de teatralidade de novela. Os atores, a diretora Niki Caro (Whale Rider) e o excelente diretor de fotografia Chris Menges se esforçam para que tudo pareça autêntico.

Mas uma farsa é uma farsa, apesar da ferocidade e da emoção que Theron traz para o papel... Embora a sujeira e a fuligem em Terra Fria sejam aplicadas artisticamente, são puramente cosméticas e superficiais”. Em “Stories from North Country”, um documentário que acompanha o filme no DVD, Lois Jenson, em quem a história é baseada, disse: “Acho importante que as pessoas vejam isso”. Sobre Charlize Theron, Jenson disse: “Ela tem a personagem. [...] Ela conhecia o papel. Ela sabia o que era preciso – a profundidade que precisava alcançar. Ela fez um ótimo trabalho com isso”. David Rooney, da Variety, disse: “[O filme] recorre à manipulação cinematográfica em suas cenas culminantes no tribunal. Mas continua sendo uma história emocionalmente potente, contada com grande dignidade, à qual as mulheres, em especial, se identificarão... O filme representa um próximo passo confiante para a protagonista Charlize Theron. Embora os desafios de suceder um papel que redefiniu sua carreira e lhe rendeu um Oscar tenham frustrado atrizes, Theron transita de Monster para uma atuação, em muitos aspectos, mais bem-sucedida... A força tanto da atuação quanto da personagem ancora o filme firmemente na tradição de outros dramas sobre mulheres da classe trabalhadora liderando a luta por questões trabalhistas na indústria, como Norma Rae ou Silkwood”.

Vale lembrar que Norma Rae é um filme estadunidense de 1979, dos gêneros drama biográfico, dirigido por Martin Ritt. O roteiro é baseado na história real de Crystal Lee Sutton, que liderou uma campanha contra as condições de trabalho oferecidas pela empresa J.P. Stevens Mill. Em 1978, em Hinleyville, uma pequena cidade do Alabama no sul dos Estados Unidos, a maioria da população trabalha em uma indústria têxtil, cujas condições de trabalho são péssimas. Lá também trabalha Norma Rae, uma mãe solteira de dois filhos e que vive com os pais que também são operários da fábrica. De repente, chega de Nova Iorque o sindicalista Reuben Warshowsky, que procura um lugar na casa de uma família para morar. Segundo ele, aquela fábrica é a única no país que não possui um sindicato e ele quer que os trabalhadores se organizem para formar um no local, mas os mesmos resistem pois temem a reação dos patrões. Ele também enfrenta preconceito por ser judeu e na cidade haver predominância da religião Batista. Norma Rae e Reuben acabam amigos e ele passa a influenciá-la para que se engaje na luta sindical. Mesmo admirando Reuben, Rae se casa com o operário Sonny Webster que a ama, mas fica inseguro quando ela se filia à entidade de classe e começa a passar muito tempo com o sindicalista. No St. Petersburg Times, Steve Persall classificou o filme como A e o chamou de “profundamente, inegavelmente comovente... cinema de cruzada no seu melhor”.

Bibliografia Geral Consultada.

HOBBES, Thomas, A Natureza Humana. Prefácio e tradução de João Aloísio Lopes. Lisboa: Editora Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987; COHEN, Ierome Bernard, La Rivoluzione nella Scienza. Milano: Editore Longanesi, 1988; MARÍAS, Julián, A Felicidade Humana. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1989; ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon, “Nova Ordem Política traz o Fim dos Alinhamentos Ideológicos”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/18; VIGARRELLO, Georges, Storia della Violenza Sessuale. Veneza: Marsilio Editore, 2001; MACÉ, Eric (Org.), Penser les Médiacultures. Nouvelles Pratiques et Nouvelles Aproches de la Represéntation du Monde. Paris: Editeur Armand Colin, 2005; RUSSELL, Matt, “Metade de Terra Fria foi filmada no Novo México”. In: Post Bulletin, 20 de outubro de 2005; MANOHLA, Dargis, “Algumas mulheres em uma mina, dando um golpe por todas”. In: The New York Times, 21 de outubro de 2005; Artigo: “Filmes indicados ao Oscar contam histórias reais do ambiente de trabalho”. In: workplacefairness.org. 7 de março de 2006; PERSALL, Steve, “Uma vítima se levanta”. In: St. Petersburg Times. Arquivado do original em 7 de agosto de 2011; EBERT, Roger, “Uma mina de atuações dignas de Oscar”. In: Rogerebert.com, 20 de outubro de 2005; STEIN, Ruthe, “Uma mineira impressionante consegue extrair emoção de uma situação desoladora”. In: San Francisco Chronicle, 21 de outubro de 2005; THOREAU, Henry, Walden, La Vida en los Bosques. Buenos Aires: Parsifal Ediciones, 1989; Idem, A Desobediência Civil. São Paulo: Penguin Classics; Editora Companhia das Letras, 2012; METZ, Christian, A Significação no Cinema. São Paulo: Editora Perspectiva, 2012; DIAS, Janaina Almeida Ortins, Ambiguidade e Liberdade na Filosofia Moral de Simone de Beauvoir. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2016; GRÜNER, Eduardo, Lo Sólido en el Aire: El Eterno Retorno de la Crítica Marxista. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2022; Artigo: “Charlize Theron Fala Sobre Desgaste Físico aos 50: ‘Sinto Falta da Juventude’”. In: https://www.estadao.com.br/emais/gente/25/05/2026; entre outros.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

As Duas Faces de Um Crime – Suspense & Interpretação Dramatúrgica.

                “Os grandes artistas são aqueles que impõem à humanidade a sua ilusão particular”. Guy Maupassant                       

        Medo Primário (Primal Fear) ou As Duas Faces de Um Crime tem como representação social um filme norte-americano de “suspense jurídico” de 1996 dirigido por Gregory Hoblit, um diretor de cinema americano, diretor de televisão e produtor de televisão. Ele é reconhecido por dirigir os filmes Primal Fear (1996), Fallen (1998), Frequency (2000), Hart`s War (2002), Fracture (2007) e Untraceable (2008), no primeiro caso, o filme baseado no romance homônimo de 1993 de William Diehl (1924-2006), um escritor americano, com roteiro de Steve Shagan e Ann Biderman. Criou o personagem Martin Vail, protagonista de três dos seus livros. O advogado de “causas perdidas” foi interpretado por Richard Gere no filme Primal Fear, baseado no romance de mesmo título. Estrelado por Richard Gere, Laura Linney, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand e Edward Norton em sua estreia no cinema, o filme acompanha um advogado de defesa de Chicago que acredita na inocência de seu cliente, um coroinha, “acusado de assassinar um bispo católico”. O filme foi um sucesso de bilheteria e recebeu críticas positivas, com a atuação de Norton recebendo elogios. Norton ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Cinema e foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e ao BAFTA de Melhor Ator Coadjuvante.

            Chicago é a cidade mais populosa do estado de Illinois, nos Estados Unidos. É a sede do Condado de Cook, o segundo condado mais populoso dos Estados Unidos depois do Condado de Los Angeles, na Califórnia. Possui menos de 1% de seu território no Condado de DuPage. Foi fundada em 1833, perto de um varadouro entre os Grandes Lagos e a bacia do rio Mississipi. É a quinta localidade mais densamente povoada de Illinois. Sua área metropolitana, vulgarmente conhecida por Grande Chicago, é a 27ª aglomeração urbana mais populosa do mundo, abrigando um número superior a 9,6 milhões de pessoas espalhadas pelos estados estadunidenses de Illinois, Indiana e Wisconsin. Pouco mais de 21% da população total de Illinois vive em Chicago. A cidade mantém o seu status como um importante polo para a indústria das telecomunicações, transporte e infraestrutura, com o Aeroporto Internacional O`Hare, sendo o segundo aeroporto mais movimentado, em termos de movimentos de tráfego, em todo o mundo. Em 2008, a cidade recebeu 45,6 milhões de visitantes nacionais e estrangeiros. Em 2010, a área metropolitana de Chicago tinha o 4º maior Produto Interno Bruto (PIB) entre as áreas metropolitanas do mundo. É um centro de negócios e finanças e é listada como um dos dez melhores do mundo pela Índice de Centros Financeiros Globais.

Henri-René-Albert-Guy de Maupassant foi o primeiro filho de Laure Le Poittevin e Gustave de Maupassant, de prósperas famílias burguesas. Quando Maupassant tinha onze anos e seu irmão Hervé tinha cinco anos, sua mãe separou-se do marido. Em outubro de 1868, com a idade de 18 anos, salvou o poeta Algernon Charles Swinburne (1837-1909) de afogamento na costa da Étretat na Normandia. Na escola secundária, ele conheceu o grande autor Gustave Flaubert. Ele entrou pela primeira vez um seminário em Yvetot, mas foi expulso. A Guerra Franco-Prussiana eclodiu logo após sua formatura na faculdade em 1870, e Maupassant se alistou como voluntário. Posteriormente, em 1871, deixou a Normandia e se mudou para Paris, onde passou dez anos como funcionário do Departamento da Marinha. Gustave Flaubert (1821-1880) tomou-o sob sua proteção e atuou como uma espécie de tutor literário, guiando a sua estreia no jornalismo e na literatura. Foi na casa de Flaubert que conheceu Émile Zola (1840-1902) e o romancista russo Ivan Turgenev (1818-1883). Em 1878, foi transferido para o Ministério da Instrução Pública e tornou-se editor de contribuição de vários jornais de referência como Le Figaro (1935), Blas Gil (1715), Le Gaulois (1868) e l`Écho de Paris (1937). Ele dedicou seu tempo livre para escrever romances e contos. Em 1880 publicou o que é considerada a sua primeira obra-prima, “Boule de Suif”, que teve sucesso instantâneo.                          

 

Esta foi primeira peça de Maupassant de ficção curta ambientada durante a Guerra Franco-Prussiana, e foi seguida por histórias curtas, como “Deux Amis”, “La Mère Sauvage” e “Mademoiselle Fifi”. A década de 1880-1891 foi o período mais fértil da vida de Maupassant. Tornou-se famoso pelo seu primeiro conto e trabalhou de forma metódica. Em 1881 publicou seu primeiro volume de contos sob o título de La Maison Tellier, que alcançou sua décima segunda edição dentro de dois anos; em 1883 terminou seu primeiro romance, Une Vie, do qual “25 mil cópias foram vendidas em menos de um ano”. Nos seus romances, ele reuniu todas as observações dispersas nos seus contos. Sua segunda novela Bel-Ami, que saiu em 1885, tinha “trinta e sete edições em quatro meses”. Seu editor, Havard, encomendou obras-primas e Maupassant continuou a produzi-las. Ele escreveu o que muitos consideram ser o seu maior romance, Pierre et Jean (1888). Com uma aversão natural à sociedade, ele amava o retiro, solidão e meditação. Ele viajou extensivamente na Argélia, Itália, Inglaterra, Bretanha, Sicília, Auvergne, e de cada viagem trouxe um novo volume. Ele navegava em seu iate privado “Bel-Ami”, o nome de seu romance. Conheceu Alexandre Dumas (filho) e Hippolyte Taine. Maupassant foi um dos vários parisienses do século XIX, entre eles Charles Gounod, Alexandre Dumas, filho, e Charles Garnier que não apreciavam a Torre Eiffel construída entre 1887 e 1889.

Ele costumava almoçar no restaurante situado na sua base, não por preferência pela comida, mas porque “somente ali podia evitar a visão do perfil da torre”, de outro modo inevitável. Ele e outros quarenta e seis notáveis parisienses do meio literário e artístico assinaram uma elaborada e indignada carta de protesto contra a construção da torre, dirigida ao Ministro das Obras Públicas e publicada em 14 de fevereiro de 1887. Recusou a nomeação para a Legião de Honra e a sua eleição para a Academia Francesa, Maupassant também escreveu sob vários pseudônimos, tais como “Joseph Prunier”, de “Guy de Valmont” e “Maufrigneuse” que ele usou entre 1881–1885. Encontram-se contos da sua autoria na revista literária portuguesa A Leitura (1894-1896). Em seus últimos anos ele desenvolveu um constante desejo de solidão, uma obsessão para a autopreservação, e um medo de morte e paranoia de perseguição enlouquecida que veio da sífilis que contraiu na juventude. Em 2 de janeiro de 1892, Maupassant tentou cometer suicídio cortando sua garganta e estava internado no célebre asilo privado do Dr. Esprit Blanche, em Passy, em Paris, onde morreu de sífilis em 6 de julho de 1893. Era um grande autor e sempre será lembrado como um dos maiores escritores franceses de todos os tempos. O primeiro surto registrado de Sífilis na Europa ocorreu em 1494/1495 em Nápoles, Itália, durante uma invasão francesa. Como foi disseminada por tropas francesas que retornaram dessa campanha, a doença ficou reconhecida como “mal francês”, e só em 1530 o termo “sífilis” foi aplicado pela primeira vez pelo médico e poeta italiano Girolamo Fracastoro. 

O agente causador, Treponema pallidum, foi identificado em 1905 por Fritz Schaudinn e Erich Hoffmann na clínica Charité em Berlim. O primeiro tratamento eficaz, Salvarsan, foi desenvolvido em 1910 por Sahachiro Hata no laboratório de Paul Ehrlich. Seguiu-se a introdução da penicilina em 1943. Muitas figuras reconhecidas, como Scott Joplin, Franz Schubert, Friedrich Nietzsche, Al Capone e Édouard Manet, acredita-se que tenham contraído a doença. O histórico da sífilis é bem estudado, mas a origem exatamente da doença só foi esclarecida quando evidências arqueológicas e genéticas demonstraram que ela se originou nas Américas. Duas hipóteses surgiram: uma de 1950, propunha que a sífilis chegou à Europa pelas tripulações de Cristóvão Colombo como parte da Troca colombiana; a outra, dos anos 1930, sugeria que já existia na Europa, mas não havia sido reconhecida. A história das mentalidades representa do ponto de vista teórico um meio de compreensão dos mecanismos sócio históricos sobre um plano de fundo onde os conceitos elaboram-se a partir dos “estados mentais de grupos coletivos”. Desse modo, as manifestações que estão ligadas ao amar, lazer, morrer e viver num sentido de desvelar os discursos. Para além do óbvio visando uma interação entre o antropológico, a sociologia e a psicanálise. 

Em que a autoridade, tradição e passado está ligado à investigação multidisciplinar. Apesar de estudar o modo de agir e pensar do indivíduo a História das mentalidades estava ficando “fora de moda” e os historiadores não gostam de serem tratados e rotulados como “historiador do mental” e a partir de meados da década de 1980, na França, esse tipo de análise histórica já estava sendo reformulada, dando lugar a sua principal herdeira, a Nova História Cultural. Para compreender a história das mentalidades é preciso remontar aos séculos XIX e XX, onde conceitos estabelecidos pelo historiador Leopold von Ranke que idealizava uma história tradicional, política voltada à biografia dos reis, foi contestada mais tarde por Marc Bloch e Lucien Febvre que, em busca de uma história-problema e de uma história do cotidiano fundaram a “Revue des Annales”, em torno da qual se estabeleceu a chamada Escola dos Annales. A história das mentalidades teve como destaques principais dois historiadores que com suas obras mostraram o pensar e o agir na História do mental: Bloch editou “Os Reis Taumaturgos”, uma obra comparativa entre crença e autoridades dos Reis e Febvre publicou “O Problema do Ateísmo no Século XVI: a religião de Rabelais” onde defendia a tese da História representar uma forma de estudo interdisciplinar.

Na perspectiva abstrata da dimensão simbólica, da capacidade própria ao ser humano de fixar o vínculo social pela criação de sentido e de valores, em primeiro lugar, a unidade da condição humana implica diferenças nas relações de gênero tanto individuais (o sonho) quanto coletivas (os mitos, os ritos, os símbolos). De um lado, ela gera a diversidade cultural, de outro, acarreta a singularidade das maneiras pelas quais os indivíduos delas se apropriam. As percepções sensoriais, ou a experiência, e a expressão das emoções parecem irradiar da intimidade secreta do sujeito empregado por Nicolau Maquiavel (1469-1527), no caso da têmpera, entretanto, elas também são social e culturalmente modeladas. Os gestos que sustentam a relação social com o mundo e que colorem a presença não provêm, nem da pura e simples fisiologia, nem unicamente da psicologia: ambas se encrustam a um simbolismo corporal, segundo Le Breton (2019), que lhes confere sentido, nutrindo-se, ainda, da cultura afetiva que o sujeito vive à sua maneira, tendo em vista a sua capacidade de interpretar a realidade. Na perspectiva antropológica, os sentimentos e emoções não são estados absolutos, substâncias que se pode transpor de um indivíduo ou grupo a outro. 

Elas tampouco são, ao menos não exclusivamente, processos fisiológicos cujos segredos estariam contidos no corpo. Trata-se de relações, que, embora os sentimentos e emoções não sejam fenômenos unicamente fisiológicos ou psicológicos, eles não são deixados ao acaso ou à iniciativa pessoal de cada ator. Sua emergência e expressão corporal correspondem a convenções que não se distanciam da linguagem, mas, no entanto, que dela se distinguem. As emoções nascem de uma avaliação mais ou menos lúcida, como é comum na vida cotidiana, de um acontecimento presenciado por um ator social provido de sensibilidade própria. Elas são pensamentos em ação dispostas num sistema de sentido e de valores. Enraizadas numa cultura afetiva, elas também se exprimem mediante uma linguagem gestual e mímica que pode, em princípio, ser reconhecida pelos integrantes de seu meio social. A cultura afetiva, de acordo com a análise pontual de Le Breton, oferece os principais esquemas de experiência e de ação sobre os quais o indivíduo como um tecelão desenvolve a sua conduta de acordo com a sua história pessoal, seu estilo de vida e, notadamente, sua avaliação da situação. A emoção experimentada traduz a significação conferida pelo indivíduo às circunstâncias que nele ressoam. É pari passu uma atividade produtiva de conhecimento, uma construção social e, a qual se torna um fato pessoal mediante o estilo de vida particular do indivíduo real. Os sentimentos ou as emoções fazem parte de um sistema de sentidos e de valores próprios a um grupo social cujo bem-fundado, os principais organizadores de elo social, eles confirmam. O fundo biológico universal se declina social e culturalmente em modos por vezes análogos ou diversos.           

A natureza realiza-se somente na cultura que o acolhe. As particularidades da afetividade nas sociedades, as sensíveis divergências dos etos de uma época e de um lugar a outro, consoante as orientações coletivas são marcadas pela existência de emoções ou de sentimentos que não são traduzíveis sem erros grosseiros de interpretação para o vocabulário do outro grupo. A fidelidade aos significados visados implica a conservação do termo local para designar a singularidade do estado afetivo ou o recurso a explicações, a longas perífrases a fim de discernir com sutileza e precisão. Diversos etnólogos, segundo Le Breton, admitiram sua incapacidade de descrever a cultura afetiva da sociedade que estudam por causa da singularidade da mesma. Tal viés antropológico demonstra hic et nunc a relatividade cultural dos etos e o aplainamento das diferenças operado pela afirmação peremptória da universalidade emotiva e de sua expressão. O obstáculo da tradução remete a muitas diferenças de sentimentos entre uma sociedade ou época e outra. Além disso, cada estado afetivo se insere num conjunto de significados e de valores do qual depende e do qual pode ser desagregado sem romper seu enredo. Uma cultura afetiva forma um tecido estreito onde cada emoção é colocada em perspectiva no interior de um conjunto indissociável. Falar de emoções em absoluto, como, por exemplo, da raiva, do amor, da vergonha, etc., implica incorrer em etnocentrismo de forma mais ou menos clara, pois que propõe implicitamente um significado comum a diferentes culturas.

Os motivos da vergonha, por exemplo, podem ser estranhos ou desconhecidos para outras sociedades e suas consequências podem ser muito diferentes, assim, o sentimento afetivo assim denominado pode não ter nada em comum com o estado afetivo do indivíduo “envergonhado”, entre aspas para traduzir o fato de que ele somente pode ser realmente entendido no interior de um etos próprio.  O simbolismo conforma seu corpo e lhe possibilita compreender as modalidades corporais dos outros. Para desenvolver plenamente seu relacionamento social com o mundo, o homem demanda que a presença dos outros sobre ele reverbere. Neste sentido, o outro não é somente o “transformador” do homem da qualidade de infans para a de ator social, ele é também a condição de perpetuidade do simbolismo que o atravessa e do qual ele se serve para comunicar-se com os outros. O outro é a estrutura que organiza a ordem de significado do mundo. Ele relativiza, na falta de melhor expressão, “o não saber e o não perceber, pois o outro, para mim, introduz o sinal do não perceber naquilo que eu percebo, determinando-me a compreender o que eu não percebo, mas que é perceptível pelo outro.

Em todos esses sentidos, é sempre pelo outro que passa o meu desejo, e que o meu desejo recebe um objeto. O que eu desejo é o que é visto, pensado, possuído por um possível outro. Eis o fundamento de meu desejo. É sempre o outro que pondera o meu desejo sobre um objeto. A partir do comportamento desta ordem de significação, nunca estamos sozinhos em nosso corpo. Esse se revela uma superfície e uma espessura de inscrição cuja forma e sentido são delineadas pelas injunções culturais que se apõem.  De outro ponto de vista, ainda que eurocentrista, entendemos que o tema central da teoria moral de Marx é: como realizar a liberdade humana. Isso significa que ele tem de investigar não só os obstáculos criados pelo homem – ou seja, autoimpostos – à liberdade na forma dada de sociedade, mas também a questão geral da natureza e das limitações da liberdade como liberdade humana. O problema da liberdade emerge na forma de tarefas práticas no curso do desenvolvimento humano e apenas mais tarde, de fato muito mais tarde, segundo Mészáros (2006: 149) podem os filósofos elevá-lo ao nível da abstração. Assim, a verdadeira questão é a liberdade humana, não um princípio abstrato chamado “liberdade”. 

E como o caráter específico de tudo é ao mesmo tempo a “essência” (poder, potencial, função) daquela determinada coisa bem como o seu limite, chegaremos então ao fato de que a liberdade humana não é a transcendência das limitações (caráter específico) da natureza humana, mas uma coincidência com elas. Em outras palavras, a liberdade humana não é a negação daquilo que é especificamente natural no ser humano – uma negação em favor do que parece ser um ideal transcendental – mas, pelo contrário, sua afirmação. Os ideais transcendentais – no sentido em que transcendental significa a superação das limitações inerentemente humanas – não têm lugar no sistema de Marx. Ele explica seu aparecimento em sistemas filosóficos anteriores como resultado de uma suposição a-histórica, socialmente motivada, de certos absolutos. Um exemplo: se o economista político do século XVIII funda suas teorias na “natureza humana”, identificada com o egoísmo, o filósofo moral que é sua contrapartida, como no caso de Adam Smith, pode ser a mesma pessoa, irá completar o quadro superpondo a esse “homem egoísta” a imagem ideal transcendental. Não deixa de ser significativo que Immanuel Kant tenha sido influenciado por Adam Smith. Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade.

É, em particular, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as funções econômicas absorvem o maior número de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim (2010), como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Não sem razão, com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases sociais.

Os únicos agrupamentos dotados de permanência são os que se chamam sindicatos, seja de patrões, seja de operários. Historicamente, temos aí in statu nascendi o começo e o princípio ético de uma organização profissional, mas ainda de forma rudimentar. Isto porque, em primeiro lugar, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovida, por conseguinte, de qualquer poder regulamentador. O número deles é teoricamente ilimitado, mesmo no interior de uma categoria industrial; e, como cada um é independente dos outros, se não se constituem em federação e se unificam, não há neles nada que exprima a unidade da profissão em seu conjunto de práticas e saberes sociais. Não só os sindicatos de patrões e de empregados são distintos uns dos outros, o que é legítimo e necessário, como não há entre eles contatos regulares. Não existe organização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em comum uma regulamentação que, estabelecendo suas relações mútuas, imponha-se a ambas as partes com a mesma autoridade; por conseguinte, é sempre a “lei dos mais forte” que resolve os conflitos sociais, e o estado de guerra subiste inteiro. Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera moral comum estão na mesma situação. A tese sociológica conforma: para que uma moral e um direito profissionais possam se estabelecer nas diferentes profissões, é necessário, pois, que a corporação, em vez de permanecer um agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, volte a ser, um grupo definido, organizado, uma instituição pública.

Seu nome em italiano é Cristóforo Colombo, em latim Christophorus Columbus e em espanhol, Cristóbal Colón. Este antropónimo inspirou o nome de, pelo menos, um país, Colômbia e duas regiões da América do Norte: a Colúmbia Britânica no Canadá e o Distrito de Colúmbia nos Estados Unidos da América. Entretanto o Papa Alexandre VI escrevendo em latim sempre chamou ao navegador pelo nome de Christophorum Colon com significado de Membro e nunca pelo latim Columbus com significado de Pombo. Colombo é creditado como o primeiro explorador europeu a estabelecer e documentar rotas comerciais para as Américas, apesar de ter sido precedido cinco séculos por uma expedição viquingue liderada por Leif Erikson no século XI. As viagens de Cristóvão Colombo abriram caminho para um período de contato, expansão, exploração, conquista e colonização do continente americano pelos Europeus pelos próximos séculos. Essas viagens e expedições trouxeram várias mudanças e desenvolvimentos na história moderna do conturbado Mundo Ocidental. Entre várias outras coisas, impulsionou, por exemplo, o comércio atlântico de escravos. Colombo é acusado por diversos historiadores de iniciar e incitar o genocídio e repressão cultural dos povos nativos na América. O próprio Colombo viu suas conquistas sob a luz de expandir a religião cristã. Ele foi também acusado, até por contemporâneos, de “comportamento tirânico, corrupção e vários crimes contra os nativos indígenas, como espancamentos, torturas, saques e estupros”.

Há denúncias sobre como a chegada/invasão de Colombo ao Novo Mundo esteve ligada à perseguição, agressão, estupro e morte de nativas, consequência da subvalorização e desconhecimento da humanidade dos povos nativos. Essas reavaliações de seus feitos fizeram com que a visão dos acadêmicos e historiadores sobre Colombo ficasse um tanto quanto negativa com o passar do tempo. Na biografia História del Almirante Don Cristóbal Colón escrita pelo filho, este obscureceu a pátria e origem de Colombo, afirmando que o pai não queria que fossem conhecidas tais informações, enumerando várias cidades italianas, em especial lígures, que disputavam tal glória. No livro Pedatura Lusitana, um nobiliário de famílias de Portugal, Cristóvão Colombo é apresentado como um homem natural de Gênova, junto aos seus dois irmãos, Bartolomeu Colombo e Diogo Colombo. Também é possível observar que no documento é relatado o seu casamento com uma mulher portuguesa chamada D. Filipa Muniz de Melo. Em Espanha Colombo invariavelmente foi considerado como estrangeiro, lamentando-se de como essa situação o prejudicava em alguns dos documentos que escreveu. Esteve constantemente em contacto com italianos, e neles depositava a sua confiança. Mas “as regras do tempo mostram-nos que um plebeu nunca se casava com uma nobre, pelo que a origem de Colombo é assaz duvidosa”.               

Apesar do esforço desenvolvido na investigação da vida do navegador, ainda restam algumas incertezas, ou fantasias nacionalistas ou ideológicas. Um dos principais problemas apresentados é o da pátria do navegador, e embora este assunto não seja de interesse primário, a importância que lhe tem sido dada e a sua constante atualidade obrigam a que se lhe faça menção. Em 2020, achou-se na Península de Yucatán um esqueleto de 30 anos, datado de mais de 9.900 anos, com peritonite por treponema, doença relacionada à sífilis. Filogenias de 2008 e 2024 apontam origem americana de cerca de 9.000 anos, reforçando evidências arqueológicas e o registro histórico que vincula a chegada da sífilis ao retorno das tripulações de Colombo. A sífilis é a mais letal das treponematoses em adultos. As outras, bejel, frambésia e pinta, são doenças endêmicas da infância, geralmente não fatais, mas desfigurantes. Confundia-se com lepra, elefantíase e escabiose, entre outras. Por isso, ganhou o apelido de “o grande imitador”, sem nome próprio por longos períodos. Historiadores e paleopatólogos debatem se ela chegou com Colombo ou já existia na Europa, dando origem às hipóteses “colombiana” e “pré-colombiana”. Estudos de Marylynn Salmon demonstram que deformidades típicas de sífilis aparecem historicamente em iluminuras medievais, comparáveis a registros médicos modernos. 

Uma deformidade típica, o nariz em sela, e marcas de ptose e incisivos de Hutchinson aparecem em iluminuras de flagelantes e algozes de Cristo, indicando referência a sífilis, mas faltam citações diretas. É intrigante que tratados médicos medievais evitem descrever a sífilis, talvez por confundi-la com outras doenças ou por omissão, pois revelar associação com elites sociais poderia provocar escândalo. Estudos em Castela sugerem esforços de ocultação pela nobreza. Termos como “morbus curialis”, “mal de cour” e “doença da realeza” refletem essa vinculação. Alfred Crosby sugeriu em 2003 que linhagens treponêmicas ancestrais podem ter migrado com humanos pelo estreito de Bering e, em 1490, evoluído para sífilis venérea e não venérea sob novas condições ecológicas. Outra versão afirma que forma não venérea similar à frambésia foi trazida por Colombo e deu origem à sífilis. O primeiro surto europeu bem documentado ocorreu em 1495 entre tropas francesas invasoras da Itália. A transmissão pode ter ocorrido via mercenários espanhóis a serviço de Carlos VIII da França. Conforme relata Jared Diamond, “Quando a sífilis foi definitivamente registrada em 1495, suas pústulas cobriam o corpo da cabeça aos joelhos, faziam a carne cair dos rostos e levavam à morte em poucos meses”. O padrão epidemiológico sugere doença nova ou mutante. Pesquisas variam entre a teoria colombiana e a pré-colombiana; muitos tripulantes de Colombo teriam servido depois ao exército de Carlos VIII, espalhando a doença por toda a Europa, causando até cinco milhões de mortes.

Estudos genéticos indicam que bactérias tropicais não venéreas teriam mudado de forma na Europa com maior letalidade. A sífilis foi grande matadora no Renascimento. Em 1539, Ruy Díaz de Isla estimou mais de um milhão de infectados e originou a teoria de Hispaniola. Estudo de 2020 estimou que mais de 20% dos indivíduos de 15–34 anos em Londres no final do século XVIII foram tratados para sífilis. O nome sífilis foi caracterizado por Girolamo Fracastoro (1478-1553), um médico, matemático, geógrafo e poeta italiano, em seu poema latino Syphilis sive morbus gallicus (1530), “Sífilis ou Doença Francesa”, e usado em seu tratado De Contagione et Contagiosis Morbis (1546). Antes, na Itália, Malta, Polônia e Alemanha, era “mal francês”; na França, “doença italiana”; nos Países Baixos, “doença espanhola”; na Rússia, “doença polonesa”; e no Império Otomano, “doença cristã” ou “frengi”. No século XVI, “grande pústula” diferenciava da varíola. Também se usou “[lues]” ou “lues venérea”, e “doença de Cupido”. Na Escócia, “Grandgore” ou “Spanyie Pockis”. Soldados britânicos em Portugal chamavam as úlceras de “The Black Lion”. Sem cura eficaz, recorriam a sangrias, laxantes e banhos de vinho, ervas ou azeite. Ibn Sina recomendou mercúrio na lepra (1025); Paracelso o aplicou à sífilis. Sommariva, em 1496, talvez tenha sido o primeiro. Aplicava-se por pele, emplastro, ingestão ou fumigação em tabernáculos. Visava salivação; causava úlceras gengivais e perda dentária. Persistiu até o século XIX.

O Grupo de Estudos de Cidades Globais da Universidade de Loughborough avaliou Chicago como uma “cidade global alfa”. Em uma pesquisa de 2010 feita pela Foreign Policy e a A.T. Kearney, Chicago foi classificada na sexta posição, logo depois de Paris e Hong Kong. A classificação avalia cinco dimensões: o valor do mercado de capitais, a diversidade do capital humano, os recursos de informação internacionais, os recursos internacionais culturais e a influência política. Chicago foi classificada pela revista Forbes como a quinta cidade mais economicamente poderosa do mundo. Chicago é um reduto do Partido Democrata e foi o lar de muitos políticos influentes, incluindo o ex-presidente Barack Hussein Obama II é um advogado e político norte-americano que serviu como o 44º presidente da República de 2009 a 2017, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo. A notoriedade da cidade expressa na cultura popular é encontrada em romances, peças teatrais, filmes, músicas, revistas de esportes, entretenimento, negócios, comércio e acadêmicas, e nos meios de comunicação. Chicago tem apelidos que refletem as impressões e opiniões históricas e contemporâneas sobre Chicago. Os nomes mais reconhecidos incluem: “Chi-town”, “Windy City” e “Second City”. Chicago também tem sido chamada de “a mais americana das grandes cidades”.

            Ipso facto no caso cinematográfico Martin Vail é um arrogante advogado de defesa de Chicago, reconhecido por defender “clientes indesejáveis”, porém de “alto perfil”, incluindo o suposto chefe da máfia Joey Piñero. Vail era anteriormente promotor público, mas, após perceber que era uma carreira sem futuro, tornou-se advogado de defesa. Apreciador dos holofotes, Vail é tema de uma matéria de capa de revista e, em seguida, tenta reatar um relacionamento casual com uma ex-colega, a promotora Janet Venable. O arcebispo Rushman, muito querido pelo público, é encontrado assassinado e mutilado em seu quarto. Aaron Stampler, um coroinha de 19 anos do Kentucky, é preso enquanto fugia do local coberto de sangue e, posteriormente, acusado de assassinato. Vail se oferece para defendê-lo gratuitamente. O tímido e gago Aaron alega ser inocente, mas sofre de amnésia e não consegue se lembrar do que aconteceu durante o assassinato. Ele afirma que havia uma terceira pessoa no quarto. Vail acredita em Aaron, enquanto o promotor, John Shaughnessy, designa Venable para conduzir o caso e buscar a pena de morte. No apartamento de Aaron, o investigador de Vail, Tommy Goodman, é atacado por outro coroinha, Alex, que foge. A neuropsicóloga Dra. Molly Arrington entrevista Aaron sobre sua infância difícil, seus lapsos de memória e o desaparecimento de sua namorada, Linda.

Com a ajuda de Piñero, Vail descobre que líderes cívicos influentes, incluindo Shaughnessy, perderam milhões em investimentos imobiliários devido à decisão de Rushman de não desenvolver terrenos pertencentes à igreja, incluindo uma clínica gratuita administrada por Piñero. Uma passagem ligada a A Letra Escarlate foi tatuada no peito de Rushman, o que a polícia interpreta como o motivo do assassinato e uma denúncia de que o arcebispo era hipócrita. Vail e Goodman encontram Alex, que afirma estar procurando uma fita de Video Home System incriminatória no apartamento de Aaron. É um padrão comercial para consumidores de gravação analógica em fitas de videoteipe. O sistema foi desenvolvido pela Japan Victor Company. Foi o formato de vídeo doméstico dominante durante as décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000. Ao retirar a fita do armário do arcebispo na cena do crime, e, portanto, não a registrar corretamente na cadeia de custódia, Vail e sua equipe descobrem imagens gravadas pelo arcebispo nas quais ele coage Aaron, Linda e Alex a praticarem atos sexuais. Vail e sua equipe presumem que Rushman ameaçou os jovens com o despejo da casa de acolhimento, fornecendo um motivo evidente para Aaron assassinar Rushman. Vail confronta Aaron furiosamente sobre o ocultamento de informações, mas ele nega as acusações, ficando cada vez mais angustiado à medida que Vail continua a pressioná-lo.

O comportamento de Aaron muda abruptamente de deferente para agressivo, e ele repreende Vail por “assustá-lo”. Essa personalidade violenta, que se apresenta como Roy, admite ter matado o arcebispo, mas ameaça Vail para que não apresente a gravação no julgamento. De repente, ele retorna à personalidade dócil de Aaron, sem qualquer lembrança do episódio. O Dr. Arrington conclui que Aaron sofre de transtorno dissociativo de identidade causado por anos de abuso tanto por seu pai quanto, posteriormente, por Rushman. Vail fica em conflito, sabendo que poderia absolver seu cliente alegando insanidade, mas não pode legalmente mudar sua estratégia no meio do julgamento. Vail entrega as provas anonimamente a Venable, forçando-a a usar a gravação no tribunal como prova do motivo de Aaron, correndo o risco de prejudicar a imagem do arcebispo e gerar simpatia por Aaron. Shaughnessy exige que ela destrua as provas, mas ela se recusa e as apresenta no tribunal. Piñero é encontrado assassinado, e Vail surpreende o tribunal ao chamar Shaughnessy como testemunha. Vail sugere que guardava ressentimento do arcebispo por este ter impedido o negócio imobiliário de 60 milhões de dólares e o acusa de ocultar provas anteriores da predileção sexual do arcebispo e de ser cúmplice na morte de Piñero. A juíza intervém e multa Vail por usar o tribunal para suas vinganças pessoais. Ela também desconsidera o depoimento do Dr. Arrington, por considerá-lo muito próximo de uma alegação de insanidade.               

Vail chama Aaron ao banco das testemunhas, provocando-o intencionalmente para que ele se transforme em Roy, que grita obscenidades e agride Venable. A juíza dispensa o júri e decide realizar um julgamento sem júri para declarar Aaron inocente por motivo de insanidade. Vail informa Aaron que ele será internado em um hospital psiquiátrico para tratamento e provavelmente liberado. Quando Aaron expressa remorso por ter ferido o pescoço de Venable, Vail percebe que Aaron estava ciente de seus atos durante o ataque, contradizendo sua suposta amnésia. Aaron elogia a advogada por sua perspicácia; ele se vangloria de ter assassinado Linda e Rushman sem remorso e revela que nunca houve um “Aaron”. Vail deixa o tribunal por uma porta dos fundos, atônita e desiludida. Diversas personalidades da televisão de Chicago fizeram participações especiais interpretando a si mesmas ao apresentarem reportagens sobre o caso, incluindo Diann Burns e Linda Yu da WLS, Mary Ann Childers, Lester Holt e Jon Duncanson da WBBM-TV, e Bob Jordan e Randy Salerno da WGN-TV. A Paramount queria Leonardo DiCaprio como Aaron Stampler; ele recebeu a oferta, mas recusou por achar o roteiro “problemático”.

Testes de elenco foram realizados na Califórnia e na Inglaterra, onde 2.100 atores foram avaliados para o papel de Aaron, incluindo Matt Damon, James Van Der Beek, e Pedro Pascal. Connie Britton recusou o papel de Naomi, que acabou ficando com Maura Tierney. Primal Fear foi filmado em diversas locações, incluindo Chicago, Illinois, Keystone, Virgínia Ocidental e Los Angeles, Califórnia. O filme também utilizou os estúdios da Paramount em Hollywood para algumas cenas. As filmagens ocorreram entre 28 de abril de 1995 e 12 de julho de 1995. A banda sonora inclui o fado português “Canção do Mar” cantado por Dulce Pontes. O filme foi lançado em 5 de abril de 1996 e estreou em primeiro lugar, permanecendo lá por três semanas consecutivas. Arrecadou US$ 56,1 milhões nos Estados Unidos e US$ 46,5 milhões internacionalmente, totalizando uma bilheteria mundial de US$ 102,6 milhões. O filme foi lançado em VHS e LaserDisc em 15 de outubro de 1996. Em 21 de outubro de 1998, foi lançado em DVD. A Paramount lançou Primal Fear em Blu-ray em 10 de março de 2009. 

O Blu-ray inclui uma faixa de comentários em áudio do diretor Gregory Hoblit, da roteirista Ann Biderman, do produtor Gary Lucchesi, do produtor executivo Hawk Koch e da diretora de elenco Deborah Aquila, bem como os extraordinários vídeos “Primal Fear: The Final Verdict”, “Primal Fear: Star Witness - Casting Edward Norton” e “The Psychology of Guilt”. A estreia de Edward Norton no cinema foi aclamada pela crítica, rendendo-lhe o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Cinema, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O site agregador de críticas Rotten Tomatoes reporta uma taxa de aprovação de 77% com base em 48 críticas, com uma classificação média de 6,8/10. O consenso dos críticos do site diz: “Primal Fear é um thriller direto, porém divertido, elevado por uma atuação brilhante de Edward Norton”. O Metacritic, que usa uma média ponderada, lista o filme com uma pontuação média ponderada de 47/100 com base em 18 críticos, indicando “críticas mistas ou medianas”. O público pesquisado pelo CinemaScore atribuiu ao filme uma nota média de B+ em uma escala de A+ a F.  Janet Maslin, do The New York Times, escreveu que o filme tem um “bom charme superficial”, mas “a história depende de uma sobrecarga de subtramas tangenciais para parecer movimentada”. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, deu a Primal Fear três estrelas e meia, escrevendo que “o enredo é tão bom quanto o de filmes policiais, mas o filme é realmente melhor do que o seu enredo por causa dos personagens tridimensionais”. Ebert descreveu a atuação de Gere como uma das melhores de sua carreira, elogiou Linney por se destacar do que poderia ter sido um personagem estereotipado e aplaudiu Norton por oferecer uma interpretação “completamente convincente”.

Bibliografia Geral Consultada.

VOVELLE, Michel, Ideologies et Mentalités. Paris: Éditions François Maspéro, 1982; Idem, Le Mort et l’Occident de 1300 à Nous Jours, à Paraître fin 1982. Paris: Éditions Gallimard, 1982; VINCENTE-BUFFAULT, Anne, História das Lágrimas: Séculos XVIII-XIX. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988; DELUMEAU, Jean, História do Medo no Ocidente: 1300-1800, Uma Cidade Sitiada. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1989; BLOCH, Marc, Os Reis Taumaturgos. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1993; SALLMANN, Jean-Michel, “Santi Patroni e Protezione Collettiva”. Santi Barocchi: Modelli di Santità, Pratiche Devozionali e Comportamenti Religiosi nel Regno di Napoli dal 1540 al 1750. Lecce: Argo Ediciones, 1996; FURET, François, A Oficina da História. Lisboa: Editora Gradiva, 1991; VERNANT, Jean-Pierre, O Universo, os Deuses, os Homens. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2000; BAILYN, Bernard, As Origens Ideológicas da Revolução Americana. Bauru: Editora da Universidade Sagrado Coração, 2003; MÉSZÁROS, István, O Poder da Ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, especificamente cap. 3 - Política e Ideologia, pp. 143-239; DOBB, Maurice Herbert, Estudios sobre el Desarrollo del Capitalismo. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 2005; CASETTI, Federico Francesco, Cómo Analizar un Film. Barcelona: Ediciones Paidós, 2007; MACKENZIE, Debora, “Columbus blamed for spread of syphilis”. In: New Scientist, 15 de janeiro de 2008; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; SCARAMBONI, Bruna Aline, Além de Freud: Um Estudo sobre a Relação entre a Sociologia de Norbert Elias e a Psicanálise Freudiana. Dissertação de Mestrado. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2015; COURTINE, Jean-Jacques, História do Rosto: Exprimir e Calar as Emoções (do século 16 ao começo do século 19). Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; LE BRETON, David, Antropologia das Emoções. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2019; LEPORE, Jill, Estas Verdades: A História da Formação dos Estados Unidos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2020; Artigo: “Célébrités Âgées Aujourd’hui: Découvrez Comment Elles Vivent Leur Vie”. Disponível em: https://www.tipgalore.com/10/21/2025; GUERRA, Gustavo Tatis, “La Invisible Maravilla”. In: El Diário Madrid, 11 de março de 2026; entre outros.