sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Arthur Friedenreich - El Tigre, Maior Artilheiro no Futebol Brasileiro.

 Foi através do mulato de origem alemã, por exemplo, que a seleção conquistou seu primeiro título oficial, no Sul-Americano de 1919”. Bruno Freitas                                  

  

Futebolista ou jogador de futebol masculino ou feminino tem como representação social um atleta profissional de futebol, cuja prática deste desporto é a sua fundamental função social. Estes trabalhadores são contratados por clubes de futebol e, devido ao desgaste físico e mental provenientes do trabalho de atleta, suas carreiras são de curta duração. Tendo surgido como emprego apenas para homens, mais recentemente as mulheres também têm tido acesso à profissão de futebolista, na categoria denominada como futebol feminino. Um jogador profissional precisa ter força para suportar colisões com seus adversários, resistência cardiorrespiratória, flexibilidade e muita coordenação motora. Em média, um futebolista dá 60 arrancadas por jogo, onde ele é capaz de correr 35 metros em 4,3 segundos, numa velocidade média de 29 km/h. Nos jogos, os batimentos cardíacos passam dos 60 batimentos por minuto quando em repouso, para 120 e pode chegar até 180 no auge da disputa. Além disso, os jogadores de futebol têm entre 10% e 13% de percentual de gordura corporal. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o percentual dos homens seja de 18%. Segundo um levantamento realizado por Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista do São Paulo, os laterais e meias são mais exigidos em relação à resistência física, pois percorrem, em média, 12 km numa partida contra os 8 quilômetros de atacantes e zagueiros. Beques e candidatos a artilheiros dão quase 50% a mais de piques curtos, em que o fundamental é a força muscular, justamente a aptidão física perdida mais cedo pelo corpo humano.

A aprendizagem da prática do futebol é dada de forma amadora, ainda na infância ou adolescência. O local apropriado para a primeira prática é variado, podendo ser tanto em casa, quanto em quadras e campos, ou mesmo na rua e na praia. Pode tornar a figura de colega na aprendizagem os amigos, vizinhos, parentes do jovem. Há escolinhas de futebol, que através de professores e/ou orientadores, iniciam crianças neste esporte, dando oportunidade de realizar jogos e treinamentos para aprimorar os fundamentos e habilidades. Mas o jovem ainda não possui definição aparentemente sobre a sequência de eventual carreira profissional. Trata-se de divertimento que, aos poucos, cria um elo de paixão pelo esporte. A prática precoce do futebol, bem como qualquer outro desporto, tem a função social de integrar grupos distintos e afastar os jovens da criminalidade. A partir da pré-adolescência, já é possível ingressar nas divisões de base dos clubes profissionais. São realizados testes e, com a aprovação, há ingresso em uma determinada categoria de acordo com cada faixa etária. No Brasil, as categorias sociais disciplinares são divididas em fraldinha (7 a 9 anos), dente de leite (10 a 11 anos), pré-mirim (11 a 12 anos), mirim (12 a 13 anos), infantil (14 a 15 anos), infanto-juvenil (15 a 16 anos), juvenil (17 a 18 anos) e júnior (17 a 20 anos). São moldados com treinamentos aprofundados, definições das posições que exercerão e participação em campeonatos contra outros clubes.

A cada troca de categoria, alguns atletas são dispensados por insuficiência técnica, ou mesmo, pedem para deixar o clube, por não conseguirem conciliar a vida pessoal com a de jogador. Portanto, nem todos aqueles que ingressam nas divisões de base dos clubes de futebol alcançam o profissionalismo. Embora a última faixa etária nas divisões de base seja a de 20 anos, é comum que futebolistas mais novos já ingressem o plantel profissional de um clube ainda mais jovens. O primeiro contrato profissional pode ser assinado, de acordo com as normas da Federação Internacional de Futebol (FIFA), aos 16 anos de idade. Sua duração máxima é de cinco anos e mínima, de três meses. Entretanto, o contrato é apenas um vínculo entre o futebolista e o clube, não garantido o acesso imediato ao elenco principal da equipe. O contrato social, que deve ter cláusula penal para o precoce rompimento, qualifica ao clube os direitos federativos (“vínculo esportivo”, pela doutrina) para inscrever o futebolista nas competições oficiais e determinar, com o consentimento do contratado, seu destino profissional durante a vigência do mesmo. Há também os direitos econômicos, que dizem respeito à quantia equivalente em caso de negociação com valores pecuniários para algum outro clube. Normalmente, os clubes detêm o total dos direitos econômicos, muito embora seja comum serem negociadas futuras porcentagens para parceiros ou mesmo para o próprio futebolista. Com a assinatura do contrato, o clube passa a ter a obrigação de pagar salários mensalmente ao futebolista, que tem todos os direitos laborais semelhantes às outras profissões. Em grandes clubes, os salários dos jogadores costumam ser bastante elevados.                                     


Desta forma, numa tentativa de diminuir os impostos e encargos, é realizada uma divisão na cota de pagamento, sendo determinado um valor na carteira de trabalho, outro - superior — para os chamados direitos de imagem e, uma terceira possibilidade, os direitos de arena. Os direitos de imagem, personalíssimos, são concedidos ao clube ou terceiro, garantindo ao jogador certa quantia financeira a ser paga pelo concessionário. Já os direitos de arena, regidos pela Lei Pelé no Brasil, dizem respeito à participação do atleta em cotas recebidas pelo clube através da venda da transmissão dos jogos em que esteja presente. A partir do momento em que o futebolista é integrado ao elenco profissional de um clube, ele passa a realizar treinamentos nos períodos pré-determinados pelo treinador da equipe, atuar nas partidas em que for escalado, realizar viagens para os compromissos do clube e ficar recluso às vésperas dos jogos nas chamadas concentrações. Com o profissionalismo, encerram-se as divisões de faixas etárias e, assim, os jogadores passam a conviver a todo momento com outros atletas de idades superiores e inferiores à sua. Em campo, o futebolista deve zelar pelo cumprimento das regras do futebol, podendo ser advertido em caso contrário. Todos são passíveis de punição individual, inclusive, para o uso de substâncias proibidas, o doping. O objetivo principal do jogador é obter vitórias, através de gols, e ser campeão dos torneios disputados pelos clubes. Contudo, por conta da competitividade existente no esporte, nem sempre as metas são alcançadas, sendo sua participação social nos compromissos fundamental para a qualificação in statu nascendi do trabalho. Os jogadores com melhor desenvolvimento podem ser convocados pelas suas respectivas seleções nacionais de futebol. 

Escolhidos pelo treinador de cada seleção, os futebolistas participam de jogos amistosos e torneios com a camisa de seu país. Alguns atletas naturalizam-se para poderem atuar por outras nações que tenham mais afinidades. Os jogadores das seleções não são assalariados, porém, podem receber quantias decorrentes de premiações. Historicamente, vale lembrar, a República Federativa do Brasil é o maior país da América do Sul e da região da América Latina, sendo o quinto maior do mundo em área territorial, com 8 510 417,771 km², e o sétimo em população com 203 milhões de habitantes, em agosto de 2022.  É o único país na América onde se fala majoritariamente a língua portuguesa e o maior país lusófono do planeta Terra, além de ser uma das nações mais multiculturais e etnicamente diversas, em decorrência da imigração oriunda de variados locais do mundo. Sua atual Constituição, promulgada em 1988, concebe o Brasil como uma república federativa presidencialista, formada pela união dos 26 estados, do Distrito Federal e dos 5 571 municípios. Banhado pelo Oceano Atlântico tem um litoral de 7 491 km e faz fronteira com quase todos os outros países sul-americanos, exceto Chile e Equador, sendo limitado a Norte pela Venezuela, Guiana, Suriname e pelo departamento ultramarino francês da Guiana Francesa; a Noroeste pela Colômbia; a Oeste pela Bolívia e Peru; a Sudoeste pela Argentina e Paraguai e ao Sul pelo Uruguai. Vários arquipélagos formam parte do território brasileiro, como o Atol das Rocas, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Fernando de Noronha, sendo o único habitado por civis e Trindade e Martim Vaz. O Brasil é o habitat de uma diversidade de animais selvagens, ecossistemas e de vastos recursos naturais em uma grande variedade de habitats protegidos. 

O território que forma o Brasil foi oficialmente “descoberto” pelos portugueses em 22 de abril de 1500, em expedição liderada por Pedro Álvares Cabral. Segundo alguns historiadores como Antonio de Herrera e Pietro d`Anghiera, o encontro do território teria sido três meses antes, em 26 de janeiro, pelo navegador Vicente Yáñez Pinzón, durante uma expedição. A região, então habitada por indígenas ameríndios divididos entre milhares de grupos étnicos e linguísticos diferentes, cabia a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, e tornou-se uma colônia do Império Português. O vínculo colonial foi rompido, de fato, quando em 1808 a capital do reino, expulso, foi transferida de Lisboa para a cidade do Rio de Janeiro, depois de tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte invadirem o território português. Em 1815, o Brasil se torna parte de um reino unido com Portugal. Dom Pedro I, o primeiro imperador, proclamou a Independência política do país em 1822. Inicialmente “independente” como um império, período no qual foi uma monarquia constitucional parlamentarista, o Brasil tornou-se uma República em 1889, em razão de um golpe de Estado, político-militar chefiado pelo alagoano marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente, embora uma legislatura bicameral, agora chamada de Congresso Nacional, já existisse desde a ratificação da primeira Constituição, em 1824. Desde o início do período republicano, a governança foi interrompida por longos períodos de regimes autoritários, e um governo civil e eleito assumir o poder em 1985, com o fim da ditadura civil-militar (1964-1984). Como potência global, a nação tem reconhecimento e influência internacional, que também é classificada economicamente uma “potência global emergente” e como potencial “superpotência” por vários analistas sociais.

O Produto Interno Bruto nominal brasileiro é o nono maior do mundo globalizado e o oitavo por paridade do poder de compra (PPC), sendo, em ambos, o maior da América Latina e do Hemisfério Sul. É um dos principais “celeiros” do planeta, o maior produtor de café dos últimos 150 anos, além de ser classificado como uma “economia de renda média-alta” pelo poderoso Banco Mundial e país recentemente industrializado, que detém a maior parcela de riqueza global da América do Sul. No entanto, o país ainda mantém níveis notáveis de corrupção, criminalidade e desigualdade social. É membro fundador da Organização das Nações Unidas, G20, ou Grupo dos 20, representando um grupo formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos das 19 maiores economias mais a União Africana e União Europeia. Foi criado em 1999, após as sucessivas crises financeiras da década de 1990, BRICS. O agrupamento começou com quatro países sob o nome BRIC, reunindo Brasil, Rússia, Índia e China, até que, em 14 de abril de 2011, o “S” acrescido resultou da admissão da África do Sul ao grupo, um país situado na extremidade sul do continente africano e marcado por vários ecossistemas diferentes.

Em 1° de janeiro de 2024, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aderiram ao bloco como membros plenos, e assim mudando o nome de “BRICS” para “BRICS+”. O grupo “não é um bloco econômico” ou uma associação de comércio formal, como no caso da União Europeia, uma união econômica e política de 27 Estados-membros situados principalmente na Europa. A UE tem as suas origens na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e na Comunidade Econômica Europeia, formadas por seis países em 1957. Nos anos que se seguiram, o território da UE foi aumentando de dimensão através da adesão de novos Estados-membros, ao mesmo tempo que aumentava a sua esfera de influência através da inclusão de novas competências políticas. O Tratado de Maastricht instituiu a União Europeia com o nome atual em 1993. A última revisão significativa aos princípios constitucionais da UE, o Tratado de Lisboa, entrou em vigor em 2009. Diferentemente disso, os quatro países fundadores procuraram formar um “clube político” ou uma “aliança”, e assim converter “seu crescente poder econômico em uma maior influência geopolítica”. Desde 2009, os líderes do grupo realizam cúpulas anuais. A mídia tem classificado os BRICS como uma geopolítica em relação ao G7, visto que o grupo buscou alternativas em relação aos métodos utilizados por algumas nações ocidentais, do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas. As relações bilaterais entre países têm sido conduzidas com base nos princípios de não-interferência, igualdade e benefício mútuo como tem ocorrido com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, União Latina, Organização dos Estados Americanos, Organização dos Estados Ibero-americanos e Mercado Comum do Sul.

  O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não - afirmava Darcy Ribeiro -, não vou me resignar nunca. Portanto, urge preveni-los do muito que se poderia fazer, com apoio no saber científico, e do descalabro e pequenez do que se está fazendo. Mas as vicissitudes do saber e o testemunho dado pelos autores, dos quais deriva a sua autoridade e que ao mesmo tempo a transmite como tradição de geração em geração, dizem a respeito da causa da visão, que a coisa vista envia em todas as direções uma exibição, ou aspecto visível, ou um ser visto, cuja recepção nos olhos é a visão. O antropólogo Darcy Ribeiro foi aquele que num projeto ambicioso em seus estudos de antropologia da civilização mais contribuiu, nestes dias para precisar o conceito de “processo civilizatório”, fazendo com que a antropologia brasileira obtenha status de categoria mundial, no âmbito simultaneamente da etnologia & história intervindo na elucidação dos grandes problemas da evolução das sociedades humanas. Os mulatos são comuns no Brasil desde os tempos coloniais, em decorrência da interação sexual sobretudo entre homens portugueses e mulheres africanas. Esses mulatos são resultado dos mais diversos cruzamentos étnicos e sociais: “banda forra” (branco com negro), “salta-a trás” (mameluco com negro), “terceirão” (branco com mulato). Segundo Darcy Ribeiro (1922-1997), os mulatos foram parte essencialmente da formação da identidade brasileira, porquanto, por serem mestiços, extraordinariamente não se identificavam com suas origens europeias e africanas, restando a eles assumir uma identidade, uma concepção que indica a condição social de um indivíduo e que sintetiza um conjunto de sentimentos que o fazem se sentir identificado e parte integrante de uma ou mais nações e com suas culturas.

 O conceito em si é fruto da modernidade, começa a ser definido a partir do século XVIII e se consolida no século XIX, tanto nos países europeus quanto no restante do mundo.  Curiosamente, não se sabe ao certo qual o tamanho da população mulata no Brasil, mesmo estatisticamente, uma vez que o censo brasileiro não inclui essa categoria, existindo a categoria de “pardos”, que não abrange somente os mulatos, mas também outros tipos de miscigenação, como os “caboclos”. Ela é construída por meio de uma autodescrição da cultura patrimonial de uma sociedade, que se pode apresentar a partir de uma consciência de unidade identitária ou como forma de alteridade, buscando demonstrar a diferença com relação à população de outros países. Isso, em nível sociológico abstrato das estruturas sociais, das manifestações concretas culturais, baseados na língua, nos hábitos e dos valores, modelos de virtudes nacionais, na série de heróis, nos monumentos, no folclore, na paisagem típica, nos seus símbolos nacionais (no hino, na bandeira, etc.), mas também numa ideia de um passado comum.

Segundo diferentes estudos genéticos, a maioria dos brasileiros, incluindo os brancos, pardos e negros, têm ancestrais europeus, africanos e indígenas, não se enquadrando perfeitamente na definição de mulato, que não inclui a ancestralidade indígena. Meghan Markle, norte-americana e membro da Família real britânica, é filha de mãe negra e pai branco. Duquesa de Sussex é uma ex-atriz norte-americana, aristocrata e membro da família real britânica por ser a esposa do príncipe Henrique, Duque de Sussex. Em seu casamento com Henrique, ela teve dois filhos: os príncipes Archie e Lilibet de Sussex. Barack Obama, ex-presidente norte-americano, é filho de mãe branca e pai negro. Estudos demonstram que o termo “mulato” é pouco usado pelos brasileiros: segundo pesquisa de 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística, somente 0,6% dos entrevistados classificaram-se como “mulatos”; conforme outra pesquisa, de 2007, com estudantes do Rio de Janeiro, somente 0,21% deles classificam-se como “mulatos”. No Brasil, o termo “moreno” é mais utilizado ideologicamente pela população, embora seja um termo ambíguo e que apenas parcialmente esteja ligado à miscigenação.

Arthur Friedenreich nascido em São Paulo, em 18 de julho de 1892 e morto em São Paulo, em 6 de setembro de 1969 foi um futebolista brasileiro. Apelidado El Tigre ou Fried, foi a primeira grande estrela do futebol, na época amadora, que durou até 1933. Friedenreich participou da excursão do Paulistano pela Europa em 1925 onde disputou dez jogos e voltou invicto. Teve importante participação no campeonato sul-americano de seleções, atual Copa América de 1919. O apelido de El Tigre foi dado pelos uruguaios após a conquista do Campeonato Sul-Americano de seleções de 1919. Ele marcou o gol da vitória contra os uruguaios na decisão e, ao lado de Neco, foi o artilheiro da competição. Após o feito, suas chuteiras ficaram em exposição na vitrine de “uma loja de joias raras no Rio de Janeiro”. Se for considerando dados extraoficiais, Friedenreich teria sido o jogador com mais gols da história mundial, com a marca de 1 329 gols, somando partidas oficiais e não-oficiais, superando o futebolista Pelé. Oficialmente, marcou 338 gols em partidas oficiais do campeonato paulista, além de 10 pela seleção brasileira, em 23 jogos, e 96 pela seleção paulista. Em 1935‎ encerrou sua carreira no Flamengo Futebol Clube. Em 1999, foi eleito o 5° maior jogador brasileiro de todos os tempos pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, organização que registra a história e os recordes do futebol. Foi fundada em 1984 por Alfredo W. Pöge em Leipzig. Esteve sediada em Abu Dhabi, mas, em 2010, mudou-se para Bonn, Alemanha, e depois, em 2014, para Zurique, no Norte da Suíça.

Alfredo W. Pöge (1940-2013) foi um químico medicinal e historiador do esporte alemão. Pöge cresceu órfão na Alemanha Oriental. Seu pai era italiano e sua mãe tinha ascendência meio francesa e meio alemã, razão pela qual ele inicialmente tinha o status de apátrida. Entre 1960 e 1965, estudou química na Universidade Karl Marx em Leipzig. Enfrentou dificuldades políticas pela primeira vez quando, apesar de ter obtido notas máximas (“muito bom”) nos exames de medicina e ciências naturais, seu desempenho em ciências sociais e, portanto, na formação marxista-leninista obrigatória foi considerado apenas “suficiente”. Foi acusado de ser uma provocação. Pouco antes dos exames finais, a universidade descobriu sua condição de apátrida. Após Pöge concordar em arcar com os custos de seus estudos durante os primeiros dez anos de sua carreira profissional, obteve a cidadania da República Democrática Alemã (RDA), comumente chamada de Alemanha Oriental, foi um Estado que existiu entre 1949 e 1990, período em que a parte oriental da Alemanha fazia parte do Bloco Oriental durante a Guerra Fria. Comumente descrito como um Estado comunista, o país descrevia-se como um “Estado socialista dos trabalhadores e camponeses”. Em 1970, recebeu seu doutorado em Ciências Naturais (Dr. rer. nat.) com sua dissertação intitulada: “Uma Contribuição para N-Lost - Quimioterapia do Câncer “, avaliada por Siegfried Hauptmann, Helmut Wolff e Karlheinz Lohs.

Após a graduação, Pöge iniciou sua carreira profissional no Hospital Universitário de Leipzig. Lá, ascendeu rapidamente na hierarquia e, aos 28 anos, foi nomeado chefe do Departamento de Química Clínica e Diagnóstico Laboratorial. No entanto, em 1970, o departamento de pessoal da faculdade de medicina informou-o de que, por razões políticas, ele estava impedido de obter sua habilitação. Isso o impediu de seguir sua trajetória profissional planejada para se tornar professor titular. Nos anos seguintes, dedicou-se mais intensamente à sua paixão particular: colecionar e compilar estatísticas históricas do futebol. Em 27 de março de 1984, fundou a IFFHS em seu apartamento no bairro de Marienbrunn, em Leipzig. Alguns dos membros fundadores, de 20 países, estiveram presentes, enquanto outros enviaram seu consentimento por correio. O secretário-geral da FIFA, Helmut Käser, também manifestou seu apoio à fundação. Por meio de uma carta oficial da IFFHS à Federação Alemã de Ginástica e Esportes (DTSB), enviada somente após a sua fundação, as autoridades também tomaram conhecimento da existência da nova associação esportiva, que havia sido criada sem a aprovação do presidente da DTSB, Manfred Ewald. Em maio de 1984, Pöge foi, portanto, solicitado pela primeira vez pelo Ministério da Segurança do Estado (Stasi) a dissolver a associação. Após sua recusa, ele permaneceu sob constante vigilância estatal e foi convocado várias vezes ao Tribunal Distrital de Leipzig a partir de agosto de 1984. Em junho de 1985, Pöge e família foram forçados a deixar a Alemanha Oriental e inicialmente se estabeleceram em Wiesbaden, onde o ex-técnico da seleção alemã, Helmut Schön, conseguiu uma vaga para seu filho em um colégio. Mais tarde, Pöge mudou sua residência e também a sede da IFFHS para Bonn. No século XXI, ele enfrentou críticas crescentes às estruturas opacas da IFFHS e consideráveis ​​dúvidas públicas sobre a legitimidade da organização.

Para o que nos interessa, do ponto de vista analítico, a lenda construída em torno da memória histórica do célebre atleta mestiço afirmou com frequência que ele era filho de um rico comerciante alemão com uma lavadeira negra brasileira. Na realidade, Arthur pertencia a uma família de funcionários públicos subalternos. Era filho de um funcionário público oriundo de Blumenau, chamado Oscar Friedenreich. O avô do jogador, Karl Wilhelm Friedenreich, nascido na Alemanha, era um veterinário e naturalista amador, que ocupou o cargo de delegado de polícia em Santa Catarina. Karl transferiu-se com a família para São Paulo, para assumir a função de naturalista assistente no Museu do Ipiranga, em 1891. Como entomologista, Karl pesquisava para a secretaria da agricultura as pragas que atacavam lavouras. Esse contato facilitou uma colocação para o filho, Oscar, no funcionalismo público como desenhista técnico do departamento de obras, subordinado à mesma secretaria. Oscar desenhava plantas de agrimensura e projetos para edificações públicas, por isso às vezes foi citado como “arquiteto”. Essa foi a única ocupação profissional do pai de Arthur Friedenreich ao longo de toda a vida, logo ele era oriundo de uma família de funcionários em setores dos serviços que na época se expandiam, perfil comum entre as camadas médias urbanas. A mãe do jogador, Matilde de Morais e Silva, era professora de primeiras letras em escolas públicas, formada pela Escola Normal em 1879, antes de conhecer Oscar. É provável que o equívoco de identificar Matilde, uma mulher negra com marido branco, como sendo lavadeira e esposa de um estrangeiro rico, tenha se originado para justificar  a presença do jogador mestiço no Club Athletico Paulistano, equipe ligada à elite fazendeira paulistana.

 

Para a interpretação do jornalista Edson Leite em 1947, Friedereich era uma “figura quasi excêntrica”, um “rapazinho magro e ágil”. O Jornal do Brasil em 1914, descreveu Friedenreich aos 22 anos e ainda menos popular que Rubens Salles, como um “inside right” (ponta-direita): “É um excelente footballer para qualquer posição. É de uma agilidade notável e dispõe de shoot rigorosíssimos com ambos os pés e, talvez o forward que mais perigos oferece aos Keepers”. Geraldo Romualdo Silva descreveu: “Pesava menos de 67 quilos, base movediça de seus 1,70 de pés descalços. (..). Nem por isso, dentro ou fora da área, Fried deixava de arriscar o pêlo. Os argentinos quando o viram com aquela decisão inquebrantável de correr e brigar puxaram pelo besunto e descobriram um apelido redondo para ele: El Tigre”. Conforme crônica recordado em sua biografia: “Distribui com calma, com precisão, os seus cabeceios são certeiros e os tiros finais fortíssimos. Não é jogador egoísta, não abusa dos dribles, do jogo pessoal. Mesmo à porta do gol, vendo um companheiro bem colocado, não titubeia em passar a bola. É, afinal, jogador que não faz jogo para as arquibancadas e sim para o conjunto”. Não por acaso, outra biografia descreve os dribles de Fried: “A finta de Friedenreich desenvolvia-se numa série de velozes, hábeis, pequenos desvios do couro a cargo sobretudo da face externa das botas, dando-lhe grande penetração, o que lhe proporcionava em poucos segundos o ganho de espaço para conseguir a posição do arremate”.

De acordo com o Diário Carioca em análise de 1957, Fried também voltava para distribuir o jogo: “Friedenreich nas partidas difíceis, jogava longos minutos como segundo centromédio. Quem viu Schiaffino fazer nossa caveira no mundial deve ter guardado essa multiplicidade de aptidão”. O Correio da Manhã destaca a atuação de Friedenreich contra o combinado Fla-Flu em 1934 como “um pivot do ataque” que “não parava um minuto sequer”. Em excursão do Paulistano pela França em 1925, Fried arrancou elogios da imprensa europeia: “Seu jogo de combinações é extraordinário e sublime”. O jornalista sueco Torsten Tegnér (1888-1977), foi um atleta e jornalista sueco, filho da compositora Alice Tegnér. Ele foi proprietário da revista de esportes Idrottsbladet entre 1915 e 1957. Como editor da revista esportiva Idrottsbladet, afirmou que Fried tinha um modo de tratar a bola superior a José Leandro Andrade, e era superior a György Orth, “Friedenreich é o melhor centroavante que eu vi jogar”. Na época o futebol era distribuído em “fatias” fixas (defesa, meio de campo e ataque) com cada jogador com função definida em campo, Fried ainda chegou a pegar a alteração na regra do impedimento em 1924 que deixou as partidas mais dinâmicas. Porém atuou durante toda a carreira no esquema 2-3-5, ou pirâmide. Uma vez que o 3-2-2-3, ou W-M, que seria predominante no futebol até os anos 1960, só chegaria ao futebol brasileiro em 1937 com Dori Kürschner. Guillermo Stábile em entrevista para o jornal Globo Sportivo em 1940, afirmou que Arthur Friedenreich era um dos cinco maiores [jogadores] que viu jogar ao lado de Gabino Sosa, José Piendibene, György Sárosi e Matthias Sindelar. Em enquete da imprensa paulista em 1948, foi escolhido o melhor jogador brasileiro de todos os tempos.

O pai de Friedenreich, Oscar Friedenreich, começou a anotar em pequenos cadernos todos os gols marcados pelo filho desde que começou a atuar. A partir de 1918, Oscar Friedenreich confiou a tarefa a um colega do filho no Paulistano, o center-forward (centroavante) Mário de Andrada, que seguiu a trajetória do craque por mais 17 anos, registrando detalhes das partidas até o encerramento da carreira de Fried, em 21 de julho de 1935, quando ele vestiu a camisa do Flamengo. Ao fechar as contas, o abnegado colega teria chegado à marca de 1 239 gols. A lenda ganhou consistência em 1962. Naquele ano, Mário de Andrada informou a De Vaney, um dos jornalistas esportivos mais famosos do Brasil, que tinha as fichas de todos os jogos de Fried, podendo provar que o craque atuara em 1 329 partidas, marcando 1 239 gols. Andrada, porém, morreu antes de mostrar as fichas a De Vaney. Mesmo sem nunca comprovar esses dados, De Vaney resolveu divulgá-los, mas erroneamente inverteu o número das dezenas de 1 239 para 1 329 gols. A estatística, no entanto, começou a rodar o mundo do futebol. No livro Gigantes do Futebol Brasileiro, de Marcos de Castro e João Máximo, de 1965, consta que Fried marcou 1 329 gols. Outros livros e até enciclopédias referendaram o registro. Publicações começaram a alegar que a Fédération Internationale de Football Association (FIFA), teria oficializado os números. Em 1998, o jornalista Alexandre da Costa, procurou a FIFA para confirmar a informação. A entidade negou ter validado os gols de Friedenreich, alegando ser apenas uma organização que promove competições internacionais. Alexandre da Costa registrou suas pesquisas no livro O Tigre do Futebol. Com base nas informações publicadas em pelo menos dois jornais, “Correio Paulistano” e “O Estado de S. Paulo”, chegou aos números: 554 gols em 561 partidas.

  

- “Não quis destruir o mito”, jura o autor de O Tigre do Futebol. “Adoro o Fried. Apenas quis esclarecer essa questão”. Por outro lado, o jornalista Severino Filho, no livro Fried versus Pelé (Orlando Duarte e Severino Filho), chega a outros números: 558 gols em 562 partidas. Conforme André Kfouri e Paulo Vinícius Coelho: “Fried não foi rei, não fez mais de mil gols. Não se impressione com as mentiras. Fique com as verdades. Essas já fazem de Arthur Friedenreich um jogador de poucos similares”. No cômputo de gols por clubes, de acordo com os mesmos, chegou se ao número de 557 gols, e somando se aos 10 marcados pelo selecionado nacional e 86 da seleção paulista, teríamos 653, fora os jogos por diversos “combinados” também relacionados neste artigo. Há diversos motivos para os dados divergirem. A primeira é que muitos dos jogos encontrados não possuem o placar e consequentemente quem marcou os gols. A segunda é que em uma época de futebol amador as partidas eram, às vezes, diárias e com tempo de duração diferente, como partidas de torneio início que eram em média de vinte minutos. Por fim, Friedenreich jogou muitas partidas por “combinados” de duas ou mais equipes, estaduais e nacionais, de amigos e até divisões por conotações étnicas como nas três partidas em que fez pelo “Combinado dos brancos” contra o “Combinado dos pretos” em 1927 e 1928.

Assim muitas destas partidas nunca foram registradas. Por outro lado, analistas esportivos recentes têm questionado a obsessão pela soma geral de gols. Alega-se que todos os dados possuem inconsistências. Mesmo Pelé teria contado gols em amistosos e torneios festivos de duvidosa competitividade. Assim, algumas publicações tem adotado o critério de gols apenas em jogos oficiais. O que dificultaria ainda mais a tarefa de registrar os gols de Friedenreich uma vez que brilhou na era amadora do futebol. Gols na carreira entre 1909 e 1935: 554 gols em 561 partidas, média de 0,99 gols por partida, Alexandre da Costa, no livro O Tigre do futebol.  Outras fontes descrevem que Friedenreich fez 595 gols em 605 partidas. 558 gols em 562 partidas - Orlando Duarte e Severino Filho, no livro Fried versus Pelé. 105 gols em 125 partidas - Memorial do São Paulo Futebol Clube. Chegou a ser anunciado que Friedenreich fez 1 239 gols, segundo o colega centroavante Mário de Andrada que até então mantinha anotações dos gols de Friedenreich, mas que nunca foram recuperadas. Segundo levantamento do jornalista Alexandre da Costa, autor do livro O Tigre do Futebol, Friedenreich converteu uma média superior à de Pelé, 0,99 por jogo, contra 0,93 de Pelé ou 0,987 gols/jogo contra 0,931/jogo. Independente dos gols por clubes e combinados, Friedenreich marcou 10 gols em jogos oficiais da seleção brasileira, e 86 em 71 jogos pela seleção paulista.

O termo “lenda urbana” aparece em impressos pelo menos desde 1968. Jan Harold Brunvand, professor de inglês da Universidade de Utah, Estados Unidos, introduziu o termo ao público em geral através de uma série de livros publicados a partir de 1981. Brunvand usou sua coletânea de lendas, The Vanishing Hitchhiker: American Urban Legends & Their Meanings, para enfatizar dois pontos: primeiro, que lendas e folclores não acontecem exclusivamente nas chamadas sociedades primitivas ou tradicionais e, segundo que se pode aprender bastante sobre as culturas moderna e urbana ao estudar tais lendas. Desde então Brunvard publicou uma série de livros similares, sendo creditado como o primeiro a usar o termo “vetor” (inspirado no conceito de vetores biológicos) para descrever o indivíduo que ajuda a propapagar uma lenda urbana. Outra lenda urbana é a de que Friedenreich nunca perdeu um pênalti na carreira. O próprio Friedenreich alimentava a lenda ao afirmar: “Nunca perdi um pênalti. Em toda a minha carreira, observei muito a maneira de os goleiros se posicionarem na hora da cobrança de penalidade máxima. Percebi que o melhor lugar para chutar era o canto esquerdo do arqueiro, porque só canhotos ali pulavam. Os demais, a grande maioria destra, caía para a direita. Encontrei, assim, o ponto fraco dos goleiros”. Há um parque no bairro de Vila Alpina, na zona Leste de São Paulo, com seu nome. O parque, situado no início da avenida Francisco Falconi, é um dos maiores da região. Ainda em São Paulo, uma rua na zona leste tem seu nome. Friedenreich também tem uma escola com seu nome no Rio de Janeiro, coincidentemente, essa escola fica localizada dentro do complexo esportivo do Maracanã, próximo à entrada principal, a esquerda da estátua de Bellini.

           

Em 2017, o Club Athletico Paulistano decidiu criar uma mascote e abriu uma votação entre os associados, que decidiram homenagear o atleta e decidindo como mascote um tigre de nome Fried. O personagem foi apresentado após o título do campeonato estadual de basquete. Lendas urbanas, mitos urbanos ou lendas contemporâneas são pequenas histórias de caráter fabuloso ou sensacionalista muitas vezes com elementos de mistérios ou também com temas horripilantes, amplamente divulgadas de forma oral, por e-mails ou pela imprensa e que constituem um tipo de folclore moderno. São frequentemente narradas como sendo fatos sociais acontecidos a um “amigo de um amigo” ou de conhecimento público. Muitas delas já são bastante antigas, tendo sofrido apenas pequenas alterações ao longo dos anos. Muitas foram mesmo traduzidas e incorporadas a outras culturas. É o caso, por exemplo, da história da loira do banheiro, lenda urbana brasileira que fala sobre o fantasma de uma garota jovem de pele muito branca e cabelos loiros que costuma ser avistada em banheiros, local onde teria se suicidado ou, em outras versões, sido assassinada. Outras dessas histórias têm origem mais recente, como as que dão conta de homens seduzidos e drogados em espaços de diversão noturna que, ao acordarem no dia seguinte, descobrem que tiveram um de seus rins cirurgicamente extraído por uma quadrilha especializada na venda de órgãos humanos para transplante. Muitas das lendas urbanas são, em sua origem, baseadas em fatos reais (ou preocupações legítimas), mas geralmente acabam distorcidas ao longo do tempo. Com o advento da Internet, muitas lendas passaram a ecoar de maneira tão intensa que se tornaram praticamente universais.

Bibliografia Geral Consultada.

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