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sábado, 1 de dezembro de 2018

Rafaela Silva - Disciplina & Alma Desportista da Judoca Brasileira.


                                                                                                      Ubiracy de Souza Braga                                                                                    
                                                        Falaram que eu era uma incógnita”. Rafaela Silva

 
                   
Alguns sinônimos de incógnita têm como representação social a ideia de mistério, problema, segredo, enigma, etc. Mas, por vezes, incógnita também pode ser um adjetivo. Por exemplo, uma pessoa incógnita é alguém desconhecido, que não revela a sua identidade ou localização geográfica. Judô, compreendido como “caminho suave”, ou “caminho da suavidade” é uma arte marcial, que pode ser praticada como esporte de combate e foi fundada por Jigoro Kano em 1882. Os seus principais objetivos são fortalecer o físico, a mente e o espírito de forma integrada, além de desenvolver técnicas de defesa pessoal. O Judô teve uma grande recepção no mundo globalizado, pois Kano conseguiu reunir a essência dos principais estilos e escolas de jiu-jitsu, inclusivo à arte marcial praticada pelos “bushi”, ou cavaleiros durante o período Kamakura, a outras artes de luta praticadas no Oriente e fundi-las em sua unidade. Além disso, para a formação do judoca (aluno) ou de qualquer praticante de arte marcial é necessária uma rígida disciplina e o absoluto respeito à hierarquia. Esses são os pontos fundamentais que se articulam entre si e a eles fazem referencias expressas os regulamentos. Não devemos perder de vista a ideia segundo a qual em sua representação, o judô, além de ser praticado em conjunto é um esporte e técnica de luta e somente poderá ser um bom lutador quem for disciplinado.
Do ponto de vista técnico-metodológico o judoca deve sempre manter silêncio. A posição de lótus é uma postura em que o indivíduo permanece sentado com as pernas cruzadas e os pés em oposição às coxas com o fim de meditar seguindo práticas indianas. Foi estabelecida na tradição da ioga hindu. A posição lembra uma flor de lótus, melhorando a respiração e promovendo a estabilidade física. Esta posição faz parte das tradições da hatha e da raja-ioga. É talvez o maior símbolo da espiritualidade oriental. Mas no caso comparativo também disciplinar da prática do judoca sentar-se corretamente sob a forma de agura, sentado com as pernas cruzadas, ou zarei, sentado sobre os joelhos. Cumprimentar ao entrar e sair do dojo, a arena onde os praticantes dentro ou fora das competições confrontam-se, para treinar ou para exibir as suas técnicas próprias, que, ipso facto, formam uma área retangular de medidas satisfatórias para a prática. Este por sua vez é composto pela junção de várias peças tecnicamente chamadas tatames. Peças de palha de arroz, esteira e coberta de lona são agora tecnologicamente fabricadas de placas de material sintético que possibilitam uma melhor prática do judoca. 
 
 

                    
 Esta divisão do trabalho dá origem às regras sociológicas que condicionam as relações das funções sociais e sua divisibilidade, mas cuja violação não acarreta medidas reparadoras de caráter expiatório. Do ponto de vista da organização do trabalho a gestão de carreira envolve duas partes principais, a saber, a organização e a concepção material do indivíduo. Diferentemente de décadas passadas, quando as organizações definiam as carreiras de seus empregados, na modernidade o papel do indivíduo na gestão da carreira se torna relevante e assume um papel progressivamente mais atípico. Os empregados assumem de forma astuciosa o papel de planejar a própria carreira. São estimulados a acumulação social de conhecimentos e títulos científicos na administração da carreira para garantir mobilidade social. Em seus quadros de pensamento, os indivíduos buscam desafios inovadores, salários atrativos e planejamento. Quase todos se interessam por autonomia relativa e independência de raciocínio, segurança e estabilidade, competência técnica, funcional e gerencial, além de criatividade intelectual e dedicação exclusiva a um projeto social e político, ou estilo de vida. Mas é necessário que a inteligência, guiada disciplinarmente pela ciência, adquira uma importância maior do que a que tem sido planejada meramente no curso social da vida coletiva.
Mas a que nos referimos especificamente quando falamos sobre a circuncisão da pedagogia na cena pública? Construída sob o signo de ruptura, a obra de Michel Foucault subverteu, transformou, amplificou nossa relação com o saber específico e a verdade institucionalizada. Será preciso balizar: a perversidade da economia do poder e não tanto a fraqueza ou a crueldade é o que ressalta da crítica dos seus reformadores. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se uma política de coerções de trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo entra numa maquinaria de poder que o desarticula e o recompõe. A divisão do trabalho não visa o aprofundamento das relações técnicas, mas apenas seu quadriculamento: uma disciplina linear técnica das pesquisas. Mesmo de corte etnográfico, fabrica corpos submissos e exercitados, os chamados “corpos dóceis”. 
A disciplina aumenta as forças em termos econômicos de utilidade e diminuem essas mesmas forças em termos políticos de obediência programada. É neste sentido que Michel Foucault ressalta que o espaço disciplinar tende a se dividir em tantas parcelas quando corpos ou elementos há a repartir. A disciplina organiza o espaço analítico. Lugares determinados se definem para satisfazer não só a necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil, um dispositivo que afixa e quadricula, decompondo a confusão da ilegalidade e do princípio do mal. Na disciplina, os elementos são intercambiáveis, pois cada um se define pelo lugar que ocupa na série, e pela distância que o separa dos outros. A unidade não é, portanto, nem o território visto como unidade de dominação, nem o local praticado como uma unidade de residência, mas a posição na fila, o lugar que alguém ocupa numa determinada classificação, o ponto em que se cruzam uma linha e uma coluna, o intervalo numa série de intervalos que se pode percorrer sucessivamente. A disciplina, é para Foucault, a arte de dispor em fila, e da técnica, para a transformação dos arranjos, individualiza os corpos pela localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações.
A organização de um espaço serial representou uma das grandes modificações técnicas do ensino elementar. Permitiu ultrapassar o sistema tradicional: um aluno que trabalha alguns minutos com o professor, enquanto fica ocioso e sem vigilância o grupo confuso dos que estão esperando. Determinando lugares individuais tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o espaço escolar como uma “máquina de ensinar”, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar. O tempo penetra o corpo, e com ele todos os controles minuciosos do poder. O controle disciplinar não consiste simplesmente em ensinar ou impor uma série de gestos definidos; impõe a melhor relação entre um gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e de rapidez. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso: tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido. Um corpo disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto dos recursos multimodais (aspectos verbais, gestos, corpo e mundo material) com rigor abrangendo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador.
A aprendizagem corporativa com a utilização de bolsistas, introduzidas pelas castas que formam pequenos grupos de pesquisas nas universidades públicas, surgiu originalmente em 1667, confiados durante certo tempo a um mestre que devia realizar “sua educação e instrução”, depois colocados para a aprendizagem junto aos diversos mestres tapeceiros da manufatura; após seis anos de aprendizagem, quatro anos de serviço e uma prova qualificatória, tinham direito a “erguer e manter loja” em qualquer cidade do reino. Encontramos aí a divisão técnica do trabalho corporativo: relação de dependência ao mesmo tempo individual e total quanto ao mestre; duração estatutária da formação que se conclui com uma prova qualificatória, mas que não se decompõe segundo um programa preciso; troca total entre o mestre que deve dar seu saber e o aprendiz que deve trazer seus serviços, sua ajuda mútua e muitas vezes uma retribuição. A forma de domesticidade se mistura a uma transferência de conhecimento. A escola é dividida em três classes. A primeira para os que não têm nenhuma noção de desenho; a segunda para os que já têm alguns princípios e, na terceira, aprendem as cores, fazem pastel, iniciam-se na teoria e na prática do tingimento. Regularmente, os alunos fazem deveres individuais: cada um desses exercícios, marcado com o nome e a data da execução, é depositado nas mãos do professor. Os melhores são recompensados, reunidos no fim do ano e comparados entre eles, permitem estabelecer os progressos, o valor atual, o lugar relativo de cada aluno, e os que podem seguir para a classe superior.
Em resumo, para sermos breves, pode-se dizer na história que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla quatro tipos de individualidade, ou antes, uma individualidade dotada de quatro características: é celular, pelo jogo da repartição espacial, é orgânica, pela codificação das atividades, é genética, pela acumulação do tempo, é combinatória, pela composição das forças. E, para tanto, utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza táticas. Esta representa em termos de sociabilidade a arte de construir, com os corpos localizados, atividades codificadas e as aptidões formadas, aparelhos em que o produto das diferentes forças se encontra majorado por sua combinação calculada é sem dúvida a forma mais elevada da prática disciplinar. Uma técnica extensiva utilizada nos laboratórios das universidades. É possível que a guerra como estratégia seja a continuação da política. A política, como técnica da paz e da ordem interna, procurou pôr em funcionamento o dispositivo do exército perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil, do regimento na manobra e no exercício. Se há uma série guerra-política que passa pela estratégia, há uma série exército-política que passa pela tática. 
Do ponto de vista hierárquico em termos de regras e relações sociais devemos pedir autorização do professor para sair do dojo. Respeitar o professor e os colegas. Ajoelhar em ordem quando da chegada do professor. Estar atento às instruções do professor. Conservar o dojo sempre limpo e em ordem, pois é o local onde se treinam artes marciais japonesas. Muito mais do que uma simples área, deve ser respeitado como se fosse a casa dos praticantes. Ipso facto, a pontualidade é um hábito que deve ser seguido rigorosamente nas aulas, assim como nos eventos ou competições olímpicas. Em assim sendo, é comum ver o praticante fazendo uma reverência antes de adentrar, tal como se faz nos lares japoneses. Na memória do Japão, há uma tradição que consiste em desafiar uma academia no caso o dojo. Se a academia perdesse, o visitante poderia levar a placa na qual estava escrito o nome do dojo como recompensa. Desta forma se constituiu a área onde os praticantes confrontam-se para treinar ou para exibir as suas técnicas numa área retangular de medidas satisfatórias para a prática do judô. Este por sua vez é composto pela junção de várias peças mencionadas anteriormente chamadas tatames. Essas peças anteriormente feitas de palha de arroz, esteira e coberta de lona são agora mais modernas e fabricadas de placas de material sintético que possibilitam uma melhor prática do judô.
Do ponto de vista técnico o tatame antigo possuía como medida o comprimento de 1,80m por 0,90m de largura e de 5 a 10 cm de espessura, mas através dos atuais sintéticos vão de 1 x 1m até 2,20 x 1,10 m e de 10 a 40 mm de espessura e são bem mais leves. Existem ainda outros dojos feitos de peça única, isto é, um só tatame na medida do dojo. O judoca deverá, tanto na entrada quanto na saída do dojo prestar reverência, pois este é um local considerado sagrado de acordo com as tradições, deverá também, prestar reverência ao Shihan, Sensei ou ao portador de mais alto grau de faixa que estiver presente. Este fará sua saudação de pé ou ajoelhado de acordo com as disposições deste. A reverência ou saudação é a forma de demonstrar o respeito entre os praticantes, seus professores e mestres, pois cada esporte tem sua forma de saudação, ou seja, reverenciar seu mestre, professor e local onde são praticados. Existem duas formas de saudações: Ritsu-rei, a saudação de pé, para que nesta forma de saudação o judoca deverá ficar de pé na posição inicialmente de sentido (“skei”), depois cumprimentar abaixando a cabeça e inclinando o tronco para a frente, e, Za-rei, a saudação de joelhos, sendo que nesta posição e forma de saudação o judoca deverá ficar de joelhos, depois cumprimentar o adversário inclinando suavemente a cabeça e o tronco para a frente em sinal de reverência.
 
     O comando do início ou término da aula será evidente daquele que maior grau possua, porém no caso de dois alunos de mesma graduação, ela caberá ao mais antigo, a não ser que haja determinação especial por parte do sensei. O judoca deve entrar no dojo devidamente composto, isto é, com seu judogi - uniforme de judô limpo, seco e sem odor, apresentando o sadio aspecto de um verdadeiro desportista. A higiene pessoal é uma das principais qualidades que o judoca deve possuir em elevado nível. Neste sentido, quando um judoca se apresenta para uma aula ou competição deve estar de banho tomado. Com as unhas dos pés e das mãos aparadas e/ou cortadas curtas, bem como com os cabelos cortados e/ou presos - amarrados com elásticos - de modo a evitar incomodar seu colega. Deve cuidar para não portar aparelho celular dentro do judogi, como evitar o uso de aparelhos odontológicos, pulseiras, anéis, brincos, colares, relógios, etc., a fim de resguardar a sua integridade física e a dos seus colegas.
O judogi consiste numa vestimenta ampla, branca, quase branca ou azul, de algodão ou outro material semelhante, em boas condições, sem remendos nem rasgões, composta de três peças: Wagui, Shitabaki e Obi, refere-se a parte superior do judogi  que deverá ter comprimento suficiente para cobrir os quadris e deverá ser amarrado à cintura pela faixa. As mangas deverão ser suficientemente compridas para cobrir os antebraços, admitindo-se de 1 a 5 cm a partir do pulso e ter folga de 10 a 15 cm nos braços. Shitabaki ou zubon é a parte inferior do judogi que deverá ser folgada e ter comprimento para cobrir a perna, admitindo-se de 1 a 5 cm entre o tornozelo e a bainha. Obi, é a faixa que representa seu nível de aprendizado, deverá ser amarrado com duas voltas em torno da cintura com nó duplo e suficientemente apertado na altura da cintura para que o Wagui, devido aos movimentos do corpo em defesa e ataque, não venha a se soltar, deixando duas pontas livres de 20 a 30 cm a partir do nó.
A problemática da governamentalidade fora retomada por Michel Foucault no “resumo dos cursos do College de France” (1970-1984): “gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar hoje, e nos que deverei pronunciar aqui, talvez durante dez anos”. Veio a falecer em 25 de junho de 1984, “quando seu estado de saúde não mais lhe permitia prepará-los”. Salvo engano, nenhum sistema de pensamento obteve repercussão tão ampla e evidente, do ponto de vista da mudança de simbólica, a partir de temas como: a crítica da razão governamental, a analítica do poder, sobre as relações “espaço-tempo” e “poder-saber”, “estética da existência” e “experimento moral”, e mesmo entre o “império do olhar” e a “arte de ver”. É impossível esquecer a tese foucaultiana segundo a qual “a visibilidade é uma armadilha” que “canceriza” a vista através do poder disciplinar.  O estudo dedicado ao “cuidado de si” teve como referência Alcibíades, retratado pelo pintor Pedro Américo em 1865. Nele, as questões dizem respeito ao “cuidado de si” com estão representadas através da política, com a história técnica e social através da pedagogia e per se o conhecimento de si.
Sócrates recomendava a Alcibíades que aproveitasse a sua juventude para ocupar-se de si mesmo, pois, “com 50 anos, seria tarde demais”. Mas isso, numa relação que diz respeito talvez ao enamoramento, na acepção de Francesco Alberoni e que não pode “ocupar-se de si” sem a ajuda do outro. O exercício da morte, como evocado na Antiguidade por Sêneca, consiste em viver a duração da vida como se fosse tão curta quanto um dia e viver cada dia como se a vida inteira coubesse nele; todas as manhãs, deve-se estar na infância da vida, mas deve-se viver toda a duração do dia como se a noite fosse o momento da morte. Na hora de dormir, afirma Sêneca na Carta 12, com um sorriso: “eu vivi”. Mas há uma advertência, importantíssima na existência humana: “é preciso tempo para isso”. E é um dos grandes problemas dessa cultura de si, fixar, no decorrer do dia ou da vida, a parte que convém consagrar-lhe. Recorre-se a muitas fórmulas diversas. Podem-se reservar, à noite ou de manhã, alguns momentos de recolhimento para o exame daquilo que se fez para a memorização de certos princípios úteis, para o exame do dia transcorrido; o exame matinal e vesperal dos pitagóricos se encontra, sem dúvida com conteúdos diferentes, nos estoicos; Sêneca, Epiteto, Marco Aurélio, fazem referência a esses momentos revigorados na plenitude da vida que se deve consagrar a voltar-se para si mesmo. 
Pode-se também interromper de tempos em tempos, historicamente, as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Musonius, dentre outros, recomendava vivamente. Eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no trabalho filosófico ou, como Spurrima, na calma de uma existência agradável, “à posse de si próprio” no espaço e tempo sociais habituais. Esse tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas que são ocupadas pelas reflexões de nosso dia a dia. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades.

Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de “anacorese em si próprio”: trata-se de um longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não se deixar irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo. Ela não constitui simplesmente um mero exercício da solidão; mas sim uma verdadeira prática sociológica. E isso, em vários e amplos sentidos. Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino e dos profissionais da direção da alma; ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação.
Quando, no exercício do cuidado de si, faz-se apelo a outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito; e é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda a outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode dar na duração da vida. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações sociais preexistentes às quais ele dá uma nova coloração e um sentido de calor expresso em intensidade maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então como uma intensificação mais do que necessária das relações sociais. É sobretudo neste sentido que Sêneca dedica um consolo à sua mãe. Justamente no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores sobre a solidão. O “cuidado de si” aparece intrinsecamente ligado a uma espécie de “serviço da alma” que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas.
Portanto é a partir dela que, se tomarmos como analogia a reflexão realizada por  Foucault para identificar as condições e possibilidades nas “formações discursivas” entre arqueologia e história das ideias, pode-se agora inverter o procedimento. Pode-se descer no sentido da corrente e, uma vez percorrido o domínio das formações discursivas e dos enunciados, uma vez esboçada sua teoria geral, correr para os domínios possíveis de sua aplicação. Recorrer sobre a utilidade dessa análise que ele batizou de “arqueologia” recoloca o problema da escansão do discurso segundo grandes unidades que não eram as das obras, dos autores, dos livros ou dos temas. Sua singularidade refere-se ao fato social de que em sua épistème “já existem muitos métodos capazes de descrever e analisar a linguagem, para que não seja presunção querer acrescentar-lhes outro”. Ele já havia mantido “sob suspeita”, hic et nunc, unidades de discurso como no que se refere ao livro ou a obra porque desconfiava que não fosse tão imediata e evidente quanto pareciam ser no âmbito da pesquisa hermenêutica e propriamente filosófica.
Portanto, será razoável opor-lhes unidades estabelecidas à custa de tal esforço, depois de tantas hesitações e segundo princípios tão obscuros que foram necessárias centenas de páginas para elucidá-los? E o que todos esses instrumentos acabam por delimitar, esses famosos “discursos” cuja identidade eles demarcam, coincide com as figuras chamadas “psiquiatria” ou “economia política” ou “história natural” de que ele tinha empiricamente partido, e que serviu de pretexto para remanejar esse estranho arsenal. Forçosamente, ele precisa agora medir a eficácia descritiva das noções que tentou definir. Precisa saber se a máquina funciona e o que ela pode produzir. O que pode, então, oferecer essa “arqueologia”, que outras descrições não seriam capazes de dar? Qual é a recompensa de tão árdua empresa, indagava o bravo filósofo. Em vista dos acontecimentos inusitados a di-visão entre ironia e absurdismo. Poder-se-á dizer em sua complementariedade que a originalidade da filosofia de Michel Foucault reside justamente na forma como desfaz a oposição entre história e analítica, entre argumentação descritiva e argumentação propositiva, porque justamente o seu desígnio é fazer uma genealogia. Ou seja, um estudo da proveniência que identifica o lugar em que se deu um conflito e uma ruptura que ainda exerce efeitos sociais específicos no nosso presente. 
O Judô foi considerado desporto oficial no Japão nos finais do século XIX e no âmbito do Estado imperial a polícia nipônica introduziram nos seus treinos. O primeiro clube judoca na Europa foi o londrino Budokway (1918). A vestimenta utilizada nessa modalidade é o judogi e que, com a faixa (“obi”), formam o equipamento necessário à prática. O Judogi é composto pelo casaco (“Wagi”), pela calça (“Shitabaki”), pela faixa, sendo que o judogi pode ser branco ou azul. O último vem sendo utilizado para facilitar as arbitragens em campeonatos e na identificação dos atletas durante as transmissões de eventos por TV a cabo. Com milhares de praticantes e federações espalhados pelo mundo, o Judô se tornou um dos esportes mais praticados, representando um nicho de mercado fiel e bem definido. Não restringe seus adeptos aos homens com vigor físicos,  estendendo este conjunto de práticas e saberes  sociais para mulheres, crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais, o judô agregou significativo número de praticantes. 
Sua técnica utiliza basicamente a força e equilíbrio do oponente contra ele. Palavras ditas por mestre Kano para definir a luta: “arte em que se usa ao máximo a força física e espiritual”. A vitória, ainda segundo seu mestre fundador, representa um fortalecimento espiritual. Apesar de o judô ter sido idealizado em 1882, somente trinta e um anos depois, portanto em 1923, é que o instituto Kodokan inaugurou um      departamento experimental de judô feminino. Entretanto, antes disso, culturalmente algumas mulheres já treinavam, sendo que etnograficamente as pioneiras eram esposas ou irmãs de alguns assistentes do mestre Kano. As aulas eram desenvolvidas no instituto Kodokan e oficialmente sob que método eram praticadas, ou qual orientação  pedagógica há reminiscências ou vestígios. O que se divulgava era para ingressar no instituto, mesmo depois de inaugurado o departamento feminino, uma “pretendente judoca deveria provar a seriedade e a sua idoneidade moral”.  Aliás, com respeito a essa exigência é interessante informar que vem sendo exigida até os nossos dias.  No âmbito da divisão do trabalho foi a partir de 1934, que o departamento de judô feminino, deixaria de ser experimental.  estava completamente organizado e em condições de ministrar cursos realmente especializados de judô feminino. 
Então dois estudiosos do assunto, mestre Honda e Uzawa, foram designados para serem os responsáveis pelos cursos de judô feminino do instituto Kodokan. Todavia a orientação básica era a mesma que Jigoro Kano, o estudo dos Ukemis sobre as técnicas de amortecimento de quedas praticados, aperfeiçoados certos golpes de projeção, e corpo a corpo sob a forma de katas: exercícios, duas a duas, estilizados de ataque e de recebimento e/ou defesa onde uma praticante ou adversária irá fazer evitando a competição. Gradativamente o departamento feminino ganhava um número maior de alunas, chegando a contar em março de 1952 com 389 judocas. Alguns anos mais tarde, um cem número de praticantes estavam graduadas. O mais alto grau ou escalão conquistado por uma Yudansha, praticante de judô faixa preta, até hoje foi o nono grau ou Kyodan. Em 1980, o I Campeonato Mundial de Judô para mulheres era estabelecido. O judô feminino estava na cena a sete ou oito anos antes, iniciando sem marcas entre países como na Europa em 1975, nas competições continentais. E foi apenas quando os torneios estavam estabelecidos em todos os continentes que a Federação Internacional de Judô concordou em promover o campeonato mundial para mulheres ocorrido em Nova York no ginásio do Madison Square Garden, as categorias eram: abaixo de 48 kg, abaixo de 52 kg, abaixo de 61 kg, abaixo de 66 kg, abaixo de 72 kg e acima de 72 kg. Participando destas competições continentais desde o I Campeonato Mundial as atletas foram adquirindo experiência para disputarem de forma experimental a Olimpíada de Seul, em 1988. Contudo foi só em 1992 na Olimpíada de Barcelona que o judô feminino tornou-se esporte olímpico as mulheres começaram a aparecer com sucesso.

Rafaela Lopes Silva nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de abril de 1992 e cresceu na reconhecida favela carioca da Cidade de Deus. Aos cinco anos, Rafaela saiu da Cidade de Deus, a comunidade carente e violenta que ficou famosa com o filme homônimo de Fernando Meireles, para se tornar a melhor judoca que o Brasil já teve. Em 2013, foi campeã mundial, também em sua casa, no Rio de Janeiro. Nenhum outro judoca do país tem títulos olímpicos e mundiais. Sarah Menezes, Aurélio Miguel e Rogério Sampaio têm ouros olímpicos, mas nunca venceram Mundiais. João Derly (duas vezes), Tiago Camilo, Luciano Correa e Mayra Aguiar têm o Mundial, mas não o ouro olímpico. A história da judoca começou em uma academia montada em sua rua, quando seus pais buscavam uma atividade para acalmar a menina brigona. E fez com que Geraldo Bernardes, o técnico de Flavio Canto, medalhista de bronze dos Jogos de Atenas-2004, visse na garota uma futura campeã. Ela foi treinar no Instituto Reação, que Bernardes e Canto criaram para ensinar judô em chamadas “comunidades carentes”.
O primeiro esporte de que gostou foi o futebol, praticando contra outros meninos em um campo de terra próximo a sua casa, no bairro de Jacarepaguá. Preocupados com o tempo gasto brincando na rua, quando Rafaela tinha sete anos seus pais, Luiz Carlos e Zenilda Silva, a inscreveram junto da irmã, Raquel, para aulas de judô no Instituto Reação, recém-criado na Cidade de Deus pelo ex-atleta Flávio Canto. A aptidão das irmãs era tamanha que o técnico Geraldo Bernardes pediu ao pai Luiz Carlos que elas permanecessem no judô, pois “tinham potencial de se tornarem atletas da seleção”. O desempenho de Raquel começou a entrar em declínio após sucessivas lesões nos joelhos, mas Rafaela logo se destacava, servindo de inspiração para que Raquel superasse as dificuldades. Em 2008, ganhou uma das etapas da Copa do Mundo de Judô e tornou-se campeã mundial Sub-20. O trabalho já dava resultado, com o título mundial sub-20. Em 2009, foi a melhor brasileira no Mundial de Roterdã, com um quinto lugar. Em Londres-2012, já vice-campeã mundial, quase deixou o esporte havendo sido liminada por tentar um golpe de judô ilegal, “acabou bombardeada com mensagens racistas em redes sociais. Reagiu. Quando chegou no Brasil, queria parar”.
Judoca mais experiente da equipe brasileira no Campeonato Mundial Sub-20 na Cidade do Cabo, África do Sul, Rafaela Silva (57kg) preferiu não fazer previsões sobre sua participação no evento. Apesar do ouro no Mundial Sub-20, em 2008, e da prata no Mundial Sênior, em Paris, e no Pan de Guadalajara, a atleta sublimou seu favoritismo. - Eu conheço algumas adversárias, mas no Sub-20 muda muito. Não tem isso de medalha garantida no judô. Inclusive, alguns atletas no Sub 20 são até mais perigosos que os que eu costumo enfrentar na seleção principal - disse Rafaela. Na edição passada do Campeonato Mundial, realizada em 2010, em Agadir, no Marrocos, o Brasil conquistou quatro medalhas. Ouro com Mayra Aguiar (78kg), prata com Águeda Silva (44kg) e Eleudis Valentim (52kg), e bronze com Nathália Brígida (48kg). - Estou mais experiente do que no ano passado, quando fui vice-campeã, e eu me cobro muito para lutar cada vez melhor e procurar o lugar mais alto no pódio. Me lembro que estava tranquila durante todas as lutas no Marrocos e espero mais uma vez não sentir a pressão de estar num mundial - explicou Águeda Silva (44kg), na estreia com Nathália Brígida (48kg), Gabriela Chibana (48kg), Mike Chibana (55kg) e Allan Kawabara (60kg).
O judô entrou na vida técnica e social de Rafaela Lopes Silva em 2000, com apenas oito anos de idade e morava na Cidade de Deus, comunidade localizada em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, conhecida mundialmente em decorrência do famoso filme de mesmo nome e dirigido pelo cineasta Fernando Meirelles. Sem sair do bairro onde nasceu a jovem carioca aprendeu os primeiros golpes na academia Body Planet. É lá que ainda funciona o núcleo coordenado pelo professor Geraldo Bernardes, do Instituto Reação/polo Cidade de Deus, ONG criada pelo judoca e medalhista olímpico Flávio Canto. – “Meu pai me incentivou muito. E sempre dizia que a rua não dava futuro. Eu teria que estudar ou fazer um esporte. Foi aí que o judô entrou na minha vida”. A judoca conquistou seguidamente os campeonatos carioca, estadual, regional, brasileiro e sul-americano. É bicampeã pan-americana e campeã mundial júnior. E também no Grand Prix de Judô, em Düsseldorf: arrebatou a medalha de ouro na categoria leve, demarcada com peso e medida em até 57 kg,  depois de vencer cinco lutas derrotando extraordinariamente as campeãs olímpica e mundial. Treinando para ficar com algumas medalhas nos Jogos Olímpicos de 2016, Rafaela também se preparava para conquistar uma vaga histórica nas olimpíadas de Londres de 2012. - “Minha meta é acumular pontos e me manter na margem do ranking”. Em agosto de 2013 tornou-se a 1ª brasileira a se sagrar campeã mundial de Judô. 

Três anos depois, em agosto de 2016, conquistou a medalha de ouro da categoria até 57Kg nas Olimpíadas Rio 2016, após derrotar a judoca da Mongólia, Dorjsürengiin Sumiyaa, então líder do ranking mundial. Nunca é demais repetir que se tornou a primeira atleta da história social do judô brasileiro, entre homens e mulheres, a ser campeã olímpica e mundial. Atleta que faz parte do programa esportivo das Forças Armadas Brasileiras tem a patente de terceiro sargento na Marinha do Brasil e integra a equipe do Centro de Educação Física Almirante Nunes (CEFAN), parte do Departamento Militar Esportivo. Em 2011, para competir nos Jogos Pan-americanos de Guadalajara, no México, desbancou Ketleyn Quadros, a primeira brasileira a subir ao pódio no judô nos Jogos Olímpicos, e ganhou a medalha de prata na categoria até 57 kg. Foi vice-campeã mundial adulta em Paris, com apenas 19 anos de idade.
Nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres, Rafaela foi desclassificada pelos juízes na segunda rodada por um golpe ilegal. Mas, em dezembro, foi medalhista de bronze no Grand Slam de Tóquio, categoria até 63 kg. Contudo, 2013 foi um ano de glórias para a judoca. Em abril, conseguiu a medalha de ouro no Pan Americano de Judô. Em agosto, Rafaela entrou para a história social do Judô brasileiro ao tornar-se a 1ª brasileira consagrada campeã Mundial de Judô, vencendo na final a norte-americana Marti Malloy. Em fevereiro de 2015 entrou para a Marinha, vencendo em seguida o Grand Prix de Dusseldorf, na Alemanha, ganhando cinco lutas, quatro por ippon. Nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, conquistou a medalha de ouro na categoria inclusiva até 57 kg, vencendo a rival Dorjsürengiin Sumiyaa, da Mongólia. Historicamente foi a primeira medalha de ouro ganha pelo judô brasileiro nas Olimpíadas de 2016. No final de abril de 2017, Rafaela conquistou, com a Seleção Brasileira de judô feminino, a medalha de ouro no Pan-Americano realizado no Panamá.
Bibliografia geral consultada.
FREIRE, João Batista, Educação de Corpo Inteiro: Teoria e Prática da Educação Física. São Paulo: Editora Scipione, 1990; MESQUITA, Carlos Wagner, Identificação de Incidências Autoritárias Existentes na Prática de Judô e Utilizadas pelo Professor. Dissertação de Mestrado.  Escola de Educação Física e Desportos. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1994; DAÓLIO, Jocimar, Educação Física Brasileira: Autores e Atores da Década de 1980. Campinas (SP): Editora Papirus, 1998; GARDENSWRTZ, Lee; ROWE, Anita, Diverse Teams at Work: Capitalizing on the Power of Diversity. Virginia (USA): Oxford Editor, 2008; KANO, Jigoro, Energia Mental e Física: Escritos do Fundador do Judô. São Paulo: Editor Pensamento, 2008; SOUZA, Gabriela Conceição de, História do Judô Feminino no Brasil da Quebra da Proibição (1979) à Oficialização em Olimpíadas (1992). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 2008; Idem, Mulheres do Tatame: O Judô Feminino no Brasil. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Mauad X, 2011; FLORES-PEREIRA, Maria Teresa, “Corpo Pessoa, Sexo e Gênero”. FREITAS, Maria Ester de; DANTAS, Marcelo (Org.), Diversidade Sexual e Trabalho. São Paulo: Editor Cengage Learning: 2012; FOUCAULT, Michel, El Orden del Discurso. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973; Idem, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; MIARKA, Bianca, Modelagem das Interações Técnicas e Táticas em Atletas de Judô: Comparações Inter e Intra Categoria de Combates do Circuito Mundial de Judô e dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Tese de Doutorado. Escola de Educação Física e Esporte. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; MACHADO, Aline Gomes; PIRES, Roberta Gondim, Identidade de Gênero e suas Implicações sobre a Sexualidade na Perspectiva de Professores de Educação Física. In: Motrivivência, vol. 28, n° 48, pp. 360-375, setembro de 2016; BRUM, Adriana, Mulheres que Lutam: As Narrativas de Judocas Brasileiras e a Contribuição na Construção da Memória da Modalidade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Setor de Ciências Biológicas. Curitiba: Universidade Federal do paraná, 2016; SOUZA, Gabriela Conceição de, Trajetórias e Percepções do Judô Feminino Brasileiro de Alto Rendimento. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências do Exército e do Esporte. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2016; KONS, Rafael Lima, Relação entre o Desempenho Técnico-Tático e Testes Genéricos e Específicos em Atletas de Judô. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2018; entre outros.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Cláudio Coutinho - Disciplina & Técnica no Futebol Mundial.

                                                                                                  Ubiracy de Souza Braga

                                Fomos os campeões morais dessa Copa”. Cláudio Coutinho, invicto no Mundial de 1978

      
            A organização técnica e tática no futebol é um conceito anterior à consolidação do próprio esporte. Em 1529, por exemplo, dois grupos de 27 jogadores escolheram o futebol para resolver um problema entre eles. O duelo ocorreu na Piazza Santa Croce, em Florença, e houve o primeiro registro de organização tática. Numa época em que todos os atletas eram defensores e atacantes ao mesmo tempo, as equipes começaram a dividir suas funções para ocupar melhor os espaços no campo e melhorar a marcação ao adversário. Durante quase um século, prevaleceu a organização com 15 jogadores no ataque, uma linha de cinco homens no meio e sete na defesa. Essa formação mudou para um 3-4-5-5 quando o número de atletas por equipe foi reduzido para 17, por volta do século XVII. A formação do futebol com 11 atletas em cada equipe se deu no fim do século XIX, e pela primeira vez em 1863, quando foram definidas as primeiras regras da modalidade. A existência de uma série de impedimentos legais criou mais exigências para as equipes, dando origem aos sistemas táticos para reduzir o número de erros. A evolução tática do futebol está diretamente ligada ao confronto entre defensores e atacantes, assim como a busca por espaços não utilizados no gramado. Como as equipes procuram persuadir através de jogadas e dribles para vencer seus adversários de uma forma mais fácil, este aspecto deu origem a uma necessidade de organização e controle.
            A tática é a arte do fraco. Clausewitz, militar do Reino da Prússia que ocupou o posto de general é considerado um grande estrategista militar e teórico da guerra por sua obra “Da Guerra” (“Vom Kriege”). Foi diretor da Escola Militar de Berlim nos últimos treze anos de vida, em que escreveu a obra “Vom Kriege”, publicada postumamente. Nela ficou conhecida a tese materialista em que ele define a associação entre guerra e política: - “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Especificamente, Clausewitz considerava fundamental que a guerra estivesse sempre submetida à política. Isso porque nenhuma guerra pode ser vencida sem a compreensão precisa dos objetivos e da disponibilidade de meios¸ em primeiro lugar, ou sem o cálculo racional das capacidades e das oportunidades, assim como o estabelecimento dos limites éticos ao uso da força - sempre submetida aos objetivos políticos estabelecidos. Suas lições de tática e estratégia vão, porém, além dos exercícios militares propriamente ditos, para se constituírem, inclusive, numa profunda reflexão sobre a filosofia da guerra e da paz. A estratégia pode ser compreendida como a elaboração técnica do planejamento. A tática faz parte convencimento da estratégia definida, ou seja, fazer as ações corretas para atingir a estratégia escolhida.
 




             Produtores desconhecidos, poetas de seus negócios, inventores de trilhas nas selvas da racionalidade funcionalista, produzem algo que se assemelha às trajetórias indeterminadas, aparentemente desprovidas de sentido porque não são coerentes com o espaço constituído, escrito, ou que se movimentam. São frases imprevisíveis num lugar ordenado pelas técnicas organizadoras dos sistemas. Não queremos perder de vista que estratégias referem-se ao cálculo ou a manipulação das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações técnicas, políticas ou meramente sociais, com uma exterioridade de alvos concretos ou ameaças. Gesto cartesiano, quem sabe: circunscrever um próprio num mundo global enfeitiçado pelos poderes invisíveis do outro. Mas que também pode ser interpretado como gesto da modernidade científica, política ou militar. É preciso recorrer a outro modelo quando interpretamos as imagens, tentando nos convencer a tomar decisões ou mesmo mudando nossa forma de sentir, pensar e agir.
             Clausewitz compara ainda a astúcia à palavra espirituosa: - “Assim como a palavra espirituosa é uma espécie de prestidigitação em face das ideias e das concepções, a astúcia é uma prestidigitação relativa a atos”. Isto porque o modo pelo qual a tática, verdadeira prestidigitação, se introduz por surpresa numa ordem. A arte de “dar um golpe” é o senso de ocasião. Mediante procedimentos que psicanaliticamente Freud precisa a respeito do chiste, combina elementos audaciosamente reunidos para insinuar o insight de uma coisa na linguagem de um lugar para atingir o destinatário. Raios, relâmpagos, fendas e achados no reticulado de um sistema, as maneiras de fazer são os equivalentes práticos dos chistes. Contudo, sem lugar próprio, sem visão globalizante, cega e perspicaz, como se fica no corpo a corpo sem distância, comandada pelos acasos do tempo, a tática é determinada pela ausência de poder, assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder. Deste ponto de vista, sua dialética poderá ser iluminada pela arte da sofística, de fortificar ao máximo a posição do mais fraco. Mas destaca a relação de forças que está no princípio de uma criatividade tão tenaz como sutil, incansável, mobilizada à espera da ocasião.  
              
           As estratégias são, portanto, ações que, graças ao postulado de um lugar de poder, elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem. Elas combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos outros. Privilegiam, portanto, as relações espaciais. Ao menos procuram elas reduzir a esse tipo as relações temporais pela atribuição analítica de um lugar próprio a cada elemento particular e pela organização combinatória dos movimentos específicos a unidades ou a conjuntos de unidades. O modelo para isso foi antes o militar que o científico. As táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço, ás relações entre momentos sucessivos de um golpe, como na política, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos heterogêneos. As estratégias apontam para a resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto do tempo; as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões de um poder. Os métodos praticados pela arte da guerra cotidiana jamais se apresentam sob uma forma nítida, nem por isso - last but not least - menos certo que apostas feitas no lugar ou no tempo distinguem as maneiras “estruturantes” de sentir, pensar e agir. O técnico do Clube de Regatas Flamengo Claudio Coutinho cumprimentando o técnico do Palmeiras, Osvaldo Brandão, no Maracanã em abril de 1980.

               Cláudio Pêcego de Moraes Coutinho (1939-1981) foi o único militar, preparador  físico e treinador de futebol brasileiro do Flamengo e na seleção brasileira na década de 1970. Dirigiu o Brasil em 45 partidas com 27 vitórias, 15 empates e 3 derrotas. Pelo Flamengo, obteve 76 compromissos com 47 vitórias, 20 empates e nove derrotas, segundo o Almanaque do Flamengo, dos autores Clóvis Martins e Roberto Assaf. Nascido na cidade Dom Pedrito na fronteira com o Uruguai mudou-se para o Rio de Janeiro com quatro anos de idade. Com a maioridade ingressou na Escola Militar e seguiu carreira, chegando ao posto de capitão. Demonstrando interesse na área esportiva, se graduou na Escola de Educação Física do Exército que se  destina a especializar oficiais em educação física e desportos e em esgrima, especializar oficiais médicos em Medicina Esportiva, sargentos para o exercício das funções de monitor de Educação Física, ministrado para os Sargentos das Forças Armadas, Forças Auxiliares e Nações Amigas, e por  extensão comunicativa, além de cooperar e realizar pesquisas no campo da Educação Física e Desportos.
             Trata-se de uma atividade física regulamentada, de carácter individual ou coletivo, cuja finalidade é alcançar o melhor resultado ou vencer lealmente em competição. Para tal, é necessário uma interação do corpo, da inteligência e da vontade. O desejo de progresso tem de estar sempre presente, custe o que custar. Ipso facto, há que saber distinguir Educação Física de Desporto. A grande diferença passa por e na Educação Física quando temos a oportunidade de praticar várias modalidades. E como se trata de uma disciplina escolar, que consiste na conduta dos alunos num ambiente escolar, sendo que esta deve agir consoante as normas preestabelecidas pela instituição de ensino,praticam-se não só os melhores, mas também os menos habilidosos. Enquanto que o Desporto se destina a uma só modalidade onde só os melhores são selecionados, é preciso grande dedicação e gosto para se prosseguir a carreira. A grande maioria dos atletas federados teve o seu primeiro contato com a modalidade específica que pratica nas aulas de educação física. Entretanto, a educação física é inclusiva, destinada a um público mais amplo, enquanto que o desporto é exclusivo, destinando-se fundamentalmente aos que têm uma habilidade especial. A educação física visa a saúde e o bem-estar, enquanto que o desporto tem como principal objetivo o rendimento e a obtenção de resultados. No desporto existe um quadro competitivo e regras muito formais, na educação física as competições e as regras podem ser mudadas e acordadas entre os membros participantes. Cláudio Coutinho em 1968 representou sua escola em congresso mundial sobre desportos realizado nos Estados Unidos da América (EUA). 

Com a proximidade com o professor Kenneth Cooper, e seu método de avaliação física, foi convidado pelo pesquisador e frequentou o Laboratório de Estresse Humano da National Aeronautics and Space Administration (NASA), responsável pela pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias e programas de exploração espacial. Prosseguindo às suas experiências internacionais, defendeu dissertação de mestrado na Universidade de Fontainebleau, na França. Criado por Kenneth Cooper, médico norte-americano o método foi desenvolvido com base no preparo físico dos soldados norte-americanos da década de 1960, no ápice da guerra imperialista contra os comunistas no Vietnã. Médico das Forcas Armadas por 13 anos, o especialista desenvolveu um programa em que avaliava o desempenho físico e mental (psicológico) dos soldados durante 12 minutos. Na técnica transplantada pela seleção brasileira, os jogadores tinham como meta que percorrer no mínimo 3,4 km para que seu desempenho fosse considerado bom.  No entanto, foi no Brasil que a palavra Cooper foi adotada culturalmente como tradução para o jogging, no final da década de 1960, quando os educadores físicos militares brasileiros adotaram o Cooper Test para medir níveis de aptidão física.
O Teste de Cooper foi idealizado pelo médico e preparador físico norte-americano Kenneth H. Cooper em 1968 para ser utilizado pelas Forças Armadas para verificar o nível geral de condicionamento físico. O teste consiste em uma corrida em velocidade constante que varia de acordo com a faixa etária, sexo e seu desempenho profissional ou amador. Este método é adequado para atletas, pois exige 100% da velocidade (carga). Para um profissional exige-se um desempenho de 3400 metros em 12 minutos em sua boa forma. O sobrenome “Cooper” foi agregado ao seu famoso criador. Em passagem pelo Brasil para o Congresso Brasileiro de Medicina do Exercício e do Esporte, o médico norte-americano participou de uma caminhada de 3 km no campus do Butantã da Universidade de São Paulo (USP).  O termo se popularizou em 1970, quando o Dr. Cooper ajudou a seleção brasileira de futebol a ganhar a Copa do Mundo no México com seu program de treinamento. - “O Cooper PT Mentorship é baseado em descobertas da ciência e experimentação com numerosas metodologias de treinamento”, explica Carla Sottovia, PhD, diretora de programas educativos de fitness e personal training, além de diretora e criadora do sistema CooperPT Mentorship. - “Acreditamos ter criado o mais avançado modelo de treinamento que o nosso setor tem para oferecer. Seja qual for a sua meta – aprender um sistema novo ou melhorar a sua metodologia atual – o CooperPT foi feito para você", explica Carla Sottovia. 
Para Carlos Alberto Parreira, preparador físico da equipe no Mundial de 1970, a conquista só foi possível devido à técnica que foi adaptada ao futebol. Além do título, a equipe foi eleita “a mais bem preparada fisicamente”. - Poderia nem ter dado resultado, mas deu. E deu muito resultado. Naquela ocasião, e acho que não houve outra repetição, a Organização Mundial de Saúde (OMS) fez um teste de avaliação física com todos os jogadores. Pegaram dois ou três de cada seleção e fizeram um teste. O Brasil foi indicado o mais preparado fisicamente antes da Copa. E não foi porque ganhou o título. Em 1970 Cláudio Coutinho foi convidado para ser preparador físico da seleção  tricampeã mundial na Copa do Mundo de 1970, no México. Nos treinamentos, passou a trabalhar com o método Cooper, sendo a partir daí reconhecido por ser o introdutor de sua técnica no Brasil. Após a competição, trabalhou como supervisor na Seleção Peruana de Futebol, no Vasco da Gama, como Coordenador Técnico do Brasil na Copa do Mundo de 1974, e como preparador físico do Olympique de Marseille.
Com seu desempenho nos cargos de preparador físico e supervisor da seleção brasileira Olímpica, assumiu também o cargo de treinador em 1976, poucas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos de Verão de 1976, em Montreal, com a demissão de Zizinho. A seleção obteria o 4° lugar. Estreou como treinador do Flamengo em  1976, substituindo Carlos Froner. Sua equipe venceu o Sport por 3 a 0, no Maracanã. Com seu histórico na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), credenciaram Cláudio Coutinho para ser o substituto de Osvaldo Brandão na seleção brasileira de futebol, então postulante a uma vaga na Copa do Mundo de Futebol de 1978, na Argentina. Anunciado em 27 de fevereiro de 1977, sua escolha causou surpresa, já que era considerado, por ser militar pouco experiente para o cargo. Contudo, assumindo o comando, Cláudio Coutinho colocou em prática seu método revolucionário de trabalho. 
Em primeiro lugar o treinador demonstrou que era um ardoroso defensor da europeização dos métodos empregados no sistema de organização espacial do futebol. A seleção brasileira, renovada, já não dependia mais de craques chamados “foras-de-série”, mas sim de um esquema técnico em grupo, com disciplina tática coletiva. Em segundo lugar ele também reapropria  uma terminologia científica nova para descrever seu novo estilo de trabalho. Assim, com palavras como o overlapping, o “ponto futuro” que, etnograficamente, descrevia o procedimento do jogador e a jogada com seu companheiro se posicionando para receber a bola posteriormente, e neste exato sentido popularizou a ultrapassagem dos laterais no ponto futuro, e também desenvolveu a ideia da “polivalência”, em que cada jogador passaria a exercer mais de uma função em campo. Mas na verdade o conceito estava sendo influenciado pelo “futebol total” holandês de 1974, baseado um sistema em que os jogadores saem constantemente de suas posições de jogo originais e são substituídos por outros jogadores do time, sem perder a sua estrutura de jogo. Neste sistema, nenhum jogador tem uma posição de jogo fixa, qualquer um pode ser o atacante, o meio campista e o zagueiro. O futebol total depende da capacidade de adaptação de todos os jogadores. Para funcionar exige ainda uma classe de jogadores atentos taticamente, permitindo-os alternar posições em alta velocidade. Todo jogador está apto a desempenhar qualquer função. Como exige esforço técnico e físico de desempenho dos jogadores, ao que parece, a apropriação do método teórico e sua prática levaram o brasileiro à fama mundial.
Metodologicamente as origens do chamado Futebol total remontam a Jack Reynolds, treinador do AFC Ajax por 33 anos no começo do século XX. Rinus Michels, que jogou sob o comando de Reynolds, se tornou o técnico do Ajax e trabalhou o conceito de seu ex-treinador no que se denominou mais tarde Futebol total, usando-o tanto para o Ajax quanto para a seleção dos Países Baixos nas décadas de 1960 e 1970. O Futebol total é baseado em uma total mobilidade e liberdade dos jogadores em campo, graças ao seu grande condicionamento e preparo físico. Ficou mais conhecido em língua portuguesa como “carrossel holandês” embora possa também ser referida como Futebol total. O esquema parecia uma versão melhorada do esquema tático utilizado pela Hungria de 1954 e foi chamado de “carrossel” porque os jogadores não tinham posições fixas e circulavam pelo campo, buscando sempre o gol. O criador do esquema foi o treinador Rinus Michels. Sua equipe devolvia o futebol de seus grandes dias do passado, quando o gol era, acima de tudo, a própria razão de ser do jogo. Mas não residia apenas nisso seu encanto, era uma equipe extremamente tática, fazia a bola rolar de pé em pé, em jogadas ensaiadas com admirável talento coletivo.

       Na sua estreia contra a seleção do Uruguai, a imprensa televisada mundial viu uma seleção praticando um futebol bonito, harmonioso e eficiente. Do ponto de vista coletivo, a seleção holandesa era quase  perfeita. Comparativamente é como se fosse uma orquestra que tinha como regente o elegante Johann Cruyff. Na Copa do Mundo de 1974, Cruyff se tornava o novo rei do futebol. Era o símbolo vivo daquela seleção que os estrategistas batizaram de carrossel holandês. Alcançando a final da atual Liga dos Campeões da UEFA na temporada 1968/69 e dominando-a entre as temporadas de 1970/71 e 1972/73 com o Ajax, posto que a temporada de 1969/70 foi vencida por outro time dos Países Baixos, o Feyenoord. Outros times adotaram sistemas similares com o termo “Futebol total”, o próprio Michels dirigiu o FC Barcelona no título da liga espanhola de 1974 antes da seleção vice-campeã da Copa de 1974. Pupilo de Michels no Ajax e na seleção dos Países Baixos, Johan Cruijff também dirigiu mais tarde o Barcelona com o qual conquistou 4 ligas espanholas entre 1991 e 1994 e o primeiro título europeu do time catalão. Vale lembrar que este feito tornou-se repetido por outro técnico neerlandês, Frank Rijkaard na temporada 2005/2006 com comando do mesmo FC Barcelona.

Com Cláudio Coutinho, a Seleção brasileira conseguiu seu melhor resultado até então: chegou às semifinais, mas parou nas fortes seleções do bloco socialista, que levavam o que tinham de melhor. O time perdeu para a Polônia de Lato, Deyna e Szarmach e em seguida terminou em quarto, ao também cair na decisão do bronze para a União Soviética de Oleg Blokhin. Mas o bom desempenho do time renderia frutos ao treinador dentro de pouco tempo. Em setembro de 1976, o Flamengo havia acabado de demitir o técnico Carlos Froner, após quase um ano no cargo. Para o posto, tentou Zagallo, que não conseguiu se desvencilhar de um contrato no Kuwait. Tentou Oswaldo Brandão, técnico da Seleção principal, mas não conseguiu a liberação por parte da Confederação Brasileira de Desportos. A entidade, porém, fez uma contraproposta: “emprestaria” ao clube, até o fim do ano, o treinador das equipes de base, Cláudio Coutinho. Consultado pelos dirigentes rubro-negros, Júnior, que havia trabalhado com Coutinho nos Jogos Olímpicos, deu seu aval: era um treinador jovem - 37 anos - e cheio de ideias novas, ainda sem a mesma experiência de outros nomes, mas ideal para um trabalho de médio ou longo prazo. Algumas de suas ideias e conceitos, burilados por suas obcecadas leituras e observações do futebol europeu de então, eram explicadas pelo treinador em entrevista ao Jornal do Brasil, sua primeira após assumir o cargo na Gávea. Entre outras coisas, afirmava: - “É preciso que algum clube comece a atuar de uma forma mais moderna para que os outros sejam forçados a mudar. O problema é que ninguém quer ser o primeiro. Por isso passamos algum tempo estagnados. No futebol tem que haver uma participação total, durante os 90 minutos, quase como no basquete. O jogador que chuta em gol deve ajudar imediatamente na marcação, e vice-versa. Passou a época do jogador que só ataca ou só defende”. 
 Enfim, embora o Brasil não tivesse chegado à final, foi o único time invicto da competição, um dos fatores que levaram Cláudio Coutinho a cunhar uma frase que se tornaria célebre: - “Fomos os campeões morais dessa Copa”. Mesmo assim, o treinador acabou responsabilizado pelo pragmatismo da mídia e seu papel negativo na opinião pública pelo fracasso de seu selecionado. Ainda permaneceu à frente do time nacional  quando comandou a seleção pela última vez, na semifinal da Copa América de 1979, no empate de 2 a 2 contra o Paraguai. No Flamengo e, pouco tempo depois, conseguiria dar a volta por cima na equipe ao ser tricampeão estadual em 1978, 1979 e 1979 (especial) e campeão brasileiro em 1980. E, de certa forma, ao ser o criador da equipe que fora campeã Mundial Interclubes de 1981, sob o comando de Paulo César Carpegiani. Neste ano treinou o Los Angeles Aztecs, dos Estados Unidos da América (EUA), um clube de futebol fundado em 1974 e extinto em 1981.  Disputou a North American Soccer League, consagrando-se o campeão oportunamente em seu ano de estreia, em 1974. Contou com talentosos jogadores como George Best e Johan Cruyff, e treinadores como Rinus Michels e o brasileiro Cláudio Coutinho.
    No final desta temporada encontrava-se em férias no Rio de Janeiro. Exímio mergulhador, no dia 27 de novembro praticava um de seus hobbies, a pesca submarina nas Ilhas Cagarras, arquipélago próximo à Praia de Ipanema (RJ), quando morreu afogado, aos 42 anos. Em Porto Velho - Rondônia o maior ginásio da capital leva seu nome como bela homenagem. As cagarras são aves migratórias de longa distância, que passam a maior parte da vida voando sobre os oceanos de águas temperadas a frias. O seu único contato com terra é na época de reprodução, quando se reúnem em ilhas e áreas costeiras para nidificar em zonas rochosas. O ninho é construído como uma espécie de toca e visitado pelos progenitores apenas durante a noite. Cada postura é composta por um único ovo. A alimentação das cagarras é feita à base de peixes e cefalópodes. Nos arquipélagos portugueses de Madeira e Açores encontra-se a maior concentração mundial de cagarras, espécie que se encontra em regressão a nível mundial devido à vulnerabilidade que apresenta e à presença de predadores terrestres e à atividade humana. Ipso facto foi necessário proceder pela lei à proteção desta ave marinha com leis nacionais e internacionais, que impedem a sua captura, detenção ou abate, assim como a destruição ou danificação do seu habitat. Trata-se da ave marinha mais abundante nos Açores, que regressa todos os anos em março para acasalar e nidificar. É uma ave adaptada à vida em alto mar e que pode viver até 40 anos.
Bibliografia geral consultada.

SOEIRO, Renato Souza Pinto, A Contribuição da Escola de Educação Física do Exército para o Esporte Nacional: 1933 a 2000. Dissertação de Mestrado em Educação Física. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Rio de Janeiro: Universidade Castelo Branco, 2003; ALABARCES, Pablo (Org.), Futbologías: Fútbol, Identidad y Violencia en América Latina. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2003; MACHADO, Murilo D’Almeida, O Êxtase no Futebol: A Comunicação Ritual e suas Experiências Sensoriais. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Multimeios. Campinas: Universidade de Campinas, 2005; ZOBOLI, Fabio, A Episteme de Cisão Corpo/Mente: As Práxis da Educação Física como Foco de Análise. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2007; VILAÇA, Murilo, Vida e Violência em Jogo: O Esporte como Prática Pedagógica e Exercício da Biopolítica. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009; NOGUEIRA, Jefferson Gomes, Educação Militar: Uma Leitura da Educação no Colégio Militar no Brasil (SCMB). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Campo Grande: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2014; AMORIM, Adriana Silva, A Experiência Trágica do Torcedor Brasileiro: A Copa do Mundo de Futebol de 1950 enquanto Unidade Dramática. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Escola de Teatro. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2015; MORAES, Ivan Furegato, Formação de Jogadores de Futebol no Brasil: Da Implementação às Perspectivas Futuras do Certificado de Clube Formador. Dissertação de Mestrado em Gestão Desportiva. Porto: Universidade do Porto, 2015; COELHO, José Hailton Costa, Futebol e Política no Brasil: Bases de Multinotabilidade e Padrões de Imbricação. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. Departamento de Sociologia e Antropologia. São Luís: Universidade Federal do Maranhão, 2017; KOCH, Rodrigo, Identidades em Construção: Um Olhar sobre a Futebolização da Juventude no Ensino Médio. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Centro de Educação. Santa maria: Universidade Federal de Santa maria, 2018; entre outros.