“Adoro viver. No dia em que me virem num caixão, podem estar certos: fui contrariada”. Dóris Monteiro
Adelina Dóris Monteiro
(1934-2023) nasceu e foi criada em Copacabana (RJ), primeiro pela mãe
biológica, que sozinha, se viu impossibilitada de trabalhar como empregada
doméstica e proporcionar os cuidados que a filha necessitava, e depois, pelo
casal Lázaro e Ana, ele porteiro de um prédio e ela dona de casa. Foi uma
infância sem privilégios em termos financeiros, mas com uma extraordinária
atenção voltada para a educação. Mesmo com dificuldades, os pais conseguiram
que ela fizesse o primário em uma escola privada, o Colégio Copacabana, e
posteriormente foi aprovada para ingressar no Colégio Pedro II, tradicional
instituição de ensino público federal. Ela também estudou na Cultura Inglesa,
aprendeu a falar francês com a mãe que havia morado nove anos em Lyon. Esse conhecimento
foi decisivo e a insistência da vizinha que ouvia Doris Monteiro cantando em
casa e percebia seu talento, a jovem de 15 anos se apresentou no programa Papel
Carbono, apresentado por Renato Murce, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O
desafio estimulado aos “calouros” era “imitar outros cantores” e Doris escolheu
cantar Boléro, interpretada pela francesa Lucienne Delyle (1913-1962). Tirou o
1° lugar e, a partir daí, começou a receber convites para participar de vários
programas de calouros.
Lucienne Delyle, nascida Lucienne Henriette Delache a 16 de abril de 1913 no 14º arrondissement de Paris e morreu em10 de abril de 1962 (com 48 anos) em Mônaco, é uma cantora francesa que gravou muitos sucessos nas décadas de 1940 e 1950. Sua canção Mon Amant de Saint-Jean (1942) permanece um monumento atemporal da música popular francesa. Apaixonada pelas canções francesas da década de 1930, ela praticava canto como amadora sob o nome artístico de Lucienne Delyne (com um “n”, como no nome de sua atriz favorita, Christiane Delyne, antes de optar por um “l” (Delyle) em vez do “n” (Delyne). Em 1939, Jacques Canetti, diretor artístico da Polydor, notou a sua interpretação do Fanion da Legião durante o programa de talentos radiofônicos que apresentava na Rádio Cité. Contratou imediatamente a jovem amadora para Le Music-hall des Jeunes, um programa que apresentava jovens talentos. Naquele ano, suas primeiras gravações, notadamente a valsa romântica e poética Sur Les Quais Du Vieux Paris (1939), a ir para o rol das cantoras populares francesas. Duas outras canções, Elle Fréquentait La Rue Pigalle e Je n`en Connais Pas La Fin, foram emprestadas do repertório de Édith Piaf. Em 1939, ela se apresentou no palco do L`Européen e do ABC. Em 1940, ela conheceu o trompetista e arranjador de jazz Aimé Barelli (1917-1995), que se tornou seu companheiro e colaborador, compondo canções para ela com letras do grande letrista Henri Contet (1904-1998).
Em 1941, ela cantou Paradise Lost com a orquestra de Raymond Legrand e se apresentou no palco da Alhambra. Em 1942, o cantor interpretou Nuages, a melodia de Django Reinhardt (1910-1953) com letra de Jacques Larue. Em 1943, ela se apresentou no Bobino acompanhada pela orquestra de seu amante Aimé Barelli: saindo do salão, por falta de táxis, eles pegaram o metrô, alguns passageiros os reconheceram e cantaram para eles em coro Mon Amant de Saint-Jean. Em 1944, ela foi uma sensação com Malgré tes Serments, uma adaptação francesa de Henri Christiné de I wonder Who`s Kissing Her Now, de Joe E. Howard, Harold Orlob, Frank Adams e Will Hough (1909). Em 1942, Léon Agel e Émile Carrara ofereceram a Lucienne Delyle “Mon Amant de Saint-Jean”, uma “canção nostálgica [...] imersa em puro realismo – uma jovem encontra um cafetão num baile”. Ela fez desta valsa musette um dos maiores sucessos, não sem despertar ciúmes entre os seus contemporâneos, como Édith Piaf (1915-1963), que os dissuadir de trabalharem para a recém-chegada. A canção ultrapassará a barreira do tempo, sendo classificada em 5º lugar na “lista das canções mais bonitas de todos os tempos interpretadas por mulheres” elaborada pela Fnac em 2005. Renato Floriano Murce (1900-1987) foi um radialista brasileiro.
Roquette Pinto escutando emocionado a primeira transmissão radiofônica, ficou apaixonado pela invenção e em 1923, resolveu montá-lo com toda a sua coragem. Renato Murce foi um dos que angariaram sócios contribuintes para manter a Rádio Sociedade, que sobreviviam com doações e associados. Em 1930 criou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro o programa Cenas Escolares, o personagem central se chamava Manduca, que era um garoto problema, que aprontava todo tipo de confusão na sala de aula. Por falarem de forma tão clara ou explícita sobre os problemas escolares da época, o programa foi vetado pelo famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Murce não se deu por vencido, fazendo alterações no roteiro. Rebatizou-o de Piadas do Manduca, conseguindo ficar “no ar” por vinte anos. No final da década de 1940, Murce foi convidado para dirigir a rádio Transmissora. Em 1941 a radionovela “Em Busca da Felicidade” ficou no ar durante três anos. Foi a primeira radionovela a ser gravada no Brasil. A radionovela que conseguiu parar o país, depois veio no processo o jornalismo do Repórter Esso foi a extraordinária novela “O Direito de Nascer” (1964-1965), adaptado do texto cubano de Félix Caignet.
Havia séries tais como
“Anjo: O Homem Atômico”, Jerônimo - O Herói do Sertão, Presídio de Mulheres,
“Felicidade”, etc. Principais radioatores: Renato Murce, Iara Sales, Dayse
Lúcide, Floriano Faissal, Roberto Faissal, Celso Guimarães, Abigail Maia, Sônia
Maria, Nélio Pinheiro, Vida Alves, Lima Duarte, Lolita Rodrigues, Mario Lago,
entre outros. No final da década de 1940, Murce foi convidado para dirigir a
rádio Transmissora (emissora com vida curta), voltando para a rádio Nacional em
25 de março de 1948 até a sua aposentadoria. O programa de rádio Almas do
Sertão 1954, da rádio Clube à Nacional, era cheio de poesias, músicas
sertanejas, moda de violas, descobrindo Manezinho Araújo, o Rei das emboladas,
Catulo da Paixão Cearense, e muitos poetas e compositores nordestinos como Luiz
Vieira, e interioranos. O programa ficou no ar por mais de 30 anos, sendo suas gravações
distribuídas para as emissoras de rádio do interior do Brasil. A veia
humorística de Murce esteve presente na televisão com Papel Carbono como Piadas
de Manduca, pela TV Rio nos programas de Flávio Cavalcanti e Jota Silvestre e
PRK-30. Parte dos programas que tem sido criado na TV inspiraram-se nos tipos
sociais e situações criados nos anos 1940 e 1950. Receberam influências os
programas de televisão como o da Escolinha do professor Raimundo da TV Globo e
Escolinha do Golias na TV Rio e Sistema Brasileiro de Televisão.
O choro, a modinha
e as primeiras formas do samba consolidaram-se nas cidades brasileiras entre o
final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, formando matrizes
musicais que viriam a alimentar a música popular urbana do país. O termo “música
popular brasileira” já era utilizado no início do século XX, mas ainda não se
referia a um movimento social ou grupo específico de artistas. No ano de 1945,
o livro Música Popular Brasileira, de Oneyda Paoliello Alvarenga (1911-1984),
musicóloga, jornalista, poetisa, pianista, ensaísta, etnóloga e folclorista
brasileira relaciona o termo a manifestações populares, como o bumba-meu-boi.
Somente duas décadas depois ganharia também a sigla MPB e a concepção que se
tem do termo. Era filha de Orpheu Rodrigues de Alvarenga e de Maria Henriqueta
Paoliello de Alvarenga. Foi, por sua mãe, sobrinha neta de Cesário Cecílio de
Assis Coimbra e prima em 1º grau do também poeta, Domingos Paoliello. Especializou-se
em crítica musical sendo a grande referência na documentação da origem e do
folclore da música brasileira. Diplomou-se em Piano pelo Conservatório
Dramático e Musical de São Paulo, em 1934, instituição na qual um de seus
criadores e catedráticos, o poeta Wenceslau de Queiroz, após a sua morte, foi
sucedido por seu ex-aluno de estética, Mário de Andrade, o grande mentor de
Oneyda. É interessante relatar que as famílias Queiroz e Paoliello viriam a
entrelaçar-se, em 1944, com o casamento do sobrinho de Wenceslau, Flavio de
Queiroz Filho e a prima, em primeiro grau, de Oneyda, Viggianina Paoliello. Foi
aluna e colaboradora próxima de Mário de Andrade em suas investigações sobre a
música popular em sua perspectiva antropológica contemporânea.
Oneida tinha enfoque etnográfico com visão romântica da cultura popular e uma perspectiva generosa da sua autenticidade na construção de formas estéticas. Manoel Bandeira, em 1934, tornou público os versos de Oneyda e em 1938 ela publicou a seleção de poemas, “A Menina Boba”. Frequentou, ainda em 1934, as aulas sobre etnografia e folclore ministradas pelo casal Dinah e Claude Lévi-Strauss, sob os auspícios do Departamento de Cultura de São Paulo. Em 1935, a convite de Mario de Andrade, tornou-se diretora da Discoteca Pública de São Paulo e foi uma das fundadoras, da hoje extinta Sociedade de Etnografia e Folclore, por ele criada. Foi membro do Conselho Nacional do Folclore do Ministério da Educação e Cultura; membro, desde a sua fundação, do Comitê Executivo da Association Internationale de Bibliothèque de Paris, como representante da América Latina e membro correspondente da International Music Council de Londres. Em 1945 foi laureada com o Prêmio Fabio Prado, pelo seu livro Música Popular Brasileira e recebeu em 1958, a Medalha Sylvio Romero por serviços prestados ao folclore. Realizou palestras em congressos Internacionais da música brasileira, além de artigos e ensaios na imprensa especializada.
Foi responsável pela organização e publicação dos trabalhos de Mário de Andrade após a sua morte. A Prefeitura Municipal de São Paulo, homenageando Oneyda, deu o seu nome a uma das ruas da capital paulista e a Discoteca do Centro Cultural São Paulo, a Discoteca Oneyda Alvarenga. A profissionalização de músicos, o crescimento das gravadoras e a expansão do mercado do rádio nas décadas de 1920-1930 criaram circuitos de produção e difusão que transformaram práticas locais em produtos com circulação nacional. Na chamada Era do Rádio (cf. Lopes, 1982) aproximadamente entre 1930-1950, cresceram programas de auditório, orquestras e intérpretes fixos que estabeleceram repertórios populares e formatos de apresentação que influenciaram a indústria fonográfica posterior. A partir de cerca de 1958 surgiu a bossa nova, movimento musical urbano do Rio de Janeiro, se baseando na harmonia e o fraseado do samba; que consolidou nomes como João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A circulação internacional da bossa nova projetou a música brasileira no exterior e contribuiu para que, no Brasil, surgissem termos e categorias críticas que dariam origem ao rótulo Música Popular Brasileira (MPB) surgindo exatamente em um momento de declínio da bossa nova. Os festivais televisivos de canção na segunda metade da década de 1960, isto é, os concursos promovidos por emissoras como a pioneira TV Excelsior e as primeiras edições do Festival Internacional da Canção, funcionaram como vitrines nacionais para intérpretes e compositores e foram decisivos para a popularização de repertórios autorais. O evento foi criado por Augusto Marzagão, com apoio do governo do estado da Guanabara, com o objetivo de impulsionar a música popular brasileira, e durou de 1966 a 1972, num total de sete edições.
A Guanabara foi um Estado do Brasil de 1960 a 1975, que existiu no território correspondente à
atual localização do município do Rio de Janeiro. Em sua área, esteve situado o
antigo Distrito Federal. Em 1834, a
cidade do Rio de Janeiro, que em 1763 sucedeu a Salvador como capital do Brasil
colonial e depois imperial, foi compreendida no Município Neutro,
permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a
ser capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, após a Proclamação da
República do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro continuou sendo a capital do
Brasil e a província homônima foi transformada em Estado. No dia 24 de
fevereiro de 1891, mediante a promulgação da primeira Constituição republicana
do Brasil, o Município Neutro tornou-se o Distrito Federal. Com a mudança da
capital do país para Brasília, o antigo Distrito Federal tornou-se o estado da
Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Constituição de 1946 e
da Lei Número 3 752, de 14 de abril de 1960 (Lei San Tiago Dantas). Com o
término da Era Vargas e o vislumbrar de uma nova fase política com o presidente
Juscelino Kubitschek, iniciada em 1955, patrocinando a ocupação do interior do
Brasil, que na prática eliminava o cenário político brasileiro das pressões
sociopolíticas das grandes cidades e de setores políticos influentes, a
construção de Brasília representava um baque nos interesses em jogo da elite
carioca, pois minimizava o seu tranquilo status de centro das decisões
políticas do país.
Diante dessa ameaça,
com intensa mobilização entre os grupos políticos cariocas, ainda indecisa com
os rumos que a cidade tomaria, optou-se pela criação do estado da Guanabara,
com o estado do Rio de Janeiro que dá nome a capital, nas vizinhanças do jovem
estado. Para alguns estudiosos, entretanto, o principal problema político não
foi solucionado: a perda do poder político e econômico que os fluminenses
possuíam até a Proclamação da República do Brasil, avizinhando-se um possível
esvaziamento da cidade do Rio de Janeiro no mesmo sentido. Em plebiscito
realizado em 21 de abril de 1963, a população decidiu pela continuidade da
existência de um único município na unidade federativa, mantendo-se nessa
condição. O primeiro governador, José Sette Câmara Filho, foi nomeado pelo
presidente da República e exerceu o cargo até 5 de dezembro de 1960, quando o
passou para o primeiro governador eleito, Carlos Lacerda, que exerceu o cargo
por cinco anos. O Governo Lacerda dinamizou mudanças radicais na Guanabara, ao
promover a remoção de favelas para outras regiões (e a consequente criação da
Vila Kennedy, Vila Aliança e da Cidade de Deus), a construção da adutora do Rio
Guandu para o abastecimento de água e uma série de modificações paisagísticas.
Dentre as principais obras realizadas nesse período, destacam-se a abertura do
Túnel Rebouças, o alargamento da Praia de Copacabana e a construção da maior
parte do Parque Eduardo Gomes.
Nesse período, também foi organizada a Companhia Estadual de Telefones, cuja missão foi a de instalar serviço de telefones automáticos nos afastados subúrbios, como Irajá, Bento Ribeiro, Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, na baixada de Jacarepaguá e na Barra da Tijuca, assim como na Ilha do Governador e na Ilha de Paquetá. Anos mais tarde a companhia estadual foi incorporada ao sistema telefônico fluminense, que, através da Telerj, passou a atender o restante do estado após a fusão. A pedido de Lacerda, foi efetuada a elaboração do Plano Doxiadis, conjunto de projetos ligados a área urbanística. A Linha Lilás foi a primeira a ser construída, entre as décadas de 1960/1970, e a Linha Verde foi apenas parcialmente construída. A Linha Vermelha e a Linha Amarela foram desengavetadas e concretizadas apenas na década de 1990; todas baseadas no plano que ainda previa as linhas Azul e Marrom. Os outros governadores eleitos para exercer a chefia do Poder Executivo da Guanabara foram Francisco Negrão de Lima (de 1965 a 1971) e Antônio de Pádua Chagas Freitas (1971 a 1975), em cujo governo foi construído o emissário submarino de esgotos de Ipanema.
A condição desse estado permitiu que a Guanabara, mesmo depois de perder verbas federais com a transferência da capital federal para Brasília, desfrutasse de uma elevada receita per capita de dupla arrecadação com os impostos municipais e estaduais, o que lhe possibilitou o financiamento do grande número de obras públicas realizadas durante a década de 1960. Era um Estado rico, comparativamente, ao contrário do vizinho estado do Rio de Janeiro, que era pobre, com uma economia que se esvaziava desde 1927 mesmo com a industrialização ocorrendo no eixo Rio-São Paulo. Os investimentos efetuados foram considerados instrumentos de estímulo à reinserção da Guanabara num novo cenário político e econômico brasileiro. O governo federal “tirou da gaveta” a antiga ideia de uma ligação entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói por uma ponte Rio-Niterói, a qual seria construída em meados da década de 1970 usada politicamente como um símbolo da fusão. Foi construída, então, a Ponte Presidente Costa e Silva inaugurada em 4 de março de 1974. Outros investimentos federais foram implementados no estado do Rio de Janeiro, como as usinas atômicas de Angra dos Reis. Porém, com a fusão, a cidade do Rio de Janeiro teve sua economia fortemente afetada pela fraca economia do estado do Rio de Janeiro. Pela lei complementar número 20, de 1° de julho de 1974, durante a presidência do general Ernesto Geisel, decidiu-se realizar a fusão (termo usado na Lei) dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, a partir de 15 de março de 1975, mantendo a denominação de estado do Rio de Janeiro, voltando-se à situação territorial de antes da criação do Município Neutro, com a cidade do Rio de Janeiro também voltando a ser a capital fluminense.
Esse de intensas polêmicas estéticas, como “passeata contra a guitarra elétrica”, que refletiam disputas sobre identidade e modernização da MPB nascente. Samba-canção historicamente tem como representação social um subgênero originário do samba, que surgiu no final da década de 1920 e da modernização do samba urbano do Rio de Janeiro, quando este iniciava seu processo de distanciamento do maxixe. Também chamado de “samba de meio de ano”, ou seja, sambas feitos fora da época de Carnaval, em linhas gerais, o samba-canção faz uma releitura mais elaborada na melodia, ipso facto, enfatizando-a e possui um andamento moderado, centrado em temáticas de amor, solidão e na chamada “dor-de-cotovelo”. O samba-canção desenvolveu-se a partir de músicos profissionais que tocavam em teatros de revista cariocas. “Linda Flor (Ai, Ioiô)”, do compositor Henrique Vogeler e dos letristas Marques Porto e Luís Peixoto, é considerado o marco inaugural desse estilo de samba. Praticado por autores tão diversificados, o samba-canção teria seu apogeu nas décadas de 1940 e 1950. Entre intérpretes que se destacaram nesse estilo, estão Jamelão e Elizeth Cardoso, que gravaram canções de Lupicínio Rodrigues, Maysa, Ângela Maria, entre outros. Outros grandes compositores de samba escreveram samba-canção, como Noel Rosa (“Pra que mentir”), Cartola (“As rosas não falam”), Nelson Cavaquinho (“A flor e o espinho”, com Guilherme de Brito), Ataulfo Alves (“Boêmios”).
A década de 1930 representou
o período no qual o samba-canção desenvolveu-se como estilo musical, com a
produção de massa desses sambas a partir das mudanças no andamento batucado e
simples do samba urbano carioca e da conservação da estrutura musical original.
Esse desenvolvimento apoiou-se em um contexto de formação dos programas de
auditório nas rádios, ao mesmo tempo em que vinha atender aos consumidores de
disco durante o período que se estendia da Quaresma até o mês de setembro,
quando se voltava o interesse pelas músicas carnavalescas. Em um cenário de
formação do incipiente mercado fonográfico brasileiro, as gravadoras passaram a
contratar os serviços de músicos profissionais. A atuação deles como diretores
artísticos marcaria a forma orquestrada pela qual saíam os sambas que lhes eram
entregues. Foram estes profissionais os pioneiros na tentativa de adaptação do
ritmo do samba, com a modificação do seu andamento, a fim de obter uma forma mais
refinada de composição, um estilo de samba “que permitisse maior riqueza
orquestral e um toque de romantismo capaz de servir às letras de fundo
nostálgico e sentimental, características das músicas da classe média
brasileira, desde o tempo da modinha imperial”. Os primeiros sambas-canções
apareciam para atender ao gosto de milhares de cariocas que frequentavam
redutos de classe média, como os teatros São José, Fênix, Cassino Beira-Mar e
Recreio, onde brilhavam cantores como Araci Côrtes, Francisco Alves e Vicente
Celestino.
O maior intérprete de sambas-canções naquele período foi Orlando Silva. De origem humilde (trabalhava como trocador de ônibus), ele foi levado ao rádio por Francisco Alves e se tornou um grande cantor não somente em sambas-canções, como também em todos os gêneros musicais populares à época, como a valsa e o choro. Sua grande capacidade de improvisação vocal era elogiada até por nomes do talento do cantor italiano Carlo Buti, nascido em Florença, Itália (1902-1963) foi um intérprete de música popular e local, conhecido como a “Voz de Ouro da Itália”, que deixou 1574 gravações de suas canções. Um jovem que adorava cantar, era pago por aqueles que queriam fazer serenatas para as mulheres que cortejavam. Estudou canto com Raoul Frazzi e apresentou-se no rádio; em 1930, obteve seu primeiro contrato de gravação com a Winner Records e, em 1934, outro com a Columbia Records. Vale lembrar também de intérpretes como Vicente Celestino, Silvio Caldas e Augusto Calheiros. Deste período, destacaram-se sambas-canções como “Último Desejo” (letra de Noel Rosa), “Menos Eu” (de Roberto Martins e Jorge Faraj), “Amigo Leal” (de Benedito Lacerda e Aldo Cabral) e “Eu sinto uma vontade de chorar” (de Dunga). Depois de um período de grande sucesso nas emissoras de rádio da década de 1930, as marchinhas e os sambas carnavalescos começaram a perder hegemonia cultural, a partir da década de 1940, para temas de conteúdo passional, estrangeiros como a balada, o bolero, a guarânia e o tango, e sobretudo o samba-canção, que foi muito influenciado no período intermediário por esses gêneros citados. A indústria fonográfica, especialmente no mercado do Rio de Janeiro e em São Paulo, ampliava-se e procura crescer ainda mais no mercado nacional. O público comprador de discos no Brasil era formado principalmente a classe média urbana cada vez mais influenciada pelos costumes do American Way of Life.
Neste contexto, a
indústria fonográfica brasileira estimulou uma nova roupagem comercial do
samba-canção, adaptado às influências musicais vindas de fora e bastante
tocadas nas rádios brasileiras no período. Lançada entre julho e agosto de 1946
na voz de Dick Farney, “Copacabana” com letra de João de Barro e Alberto
Ribeiro, é considerada pelo estudioso Ary Vasconcelos como o marco dessa nova
fase do samba-canção com “Dick Farney cantando em português com a entonação de
cantor americanos (Crosby, Sinatra) (...)”. O bairro de Copacabana, por sinal,
tornou-se um dos principais redutos desse novo samba-canção, por sua vida
noturna intensa de boates e cabarés. O samba-canção passou a ser vinculado como
música de “dor-de-cotovelo” e a excessos sentimentais. As melodias expandiam-se
“em contornos mirabolantes, enquanto o acompanhamento exibia soluções
orquestrais dramáticas”. Nesta fase histórica e social, despontaram grandes
mestres do estilo como Lupicínio Rodrigues (“Vingança”, “Nervos de Aço”, “Ela
disse-me assim”, “Nunca”, “Loucura”, “Sozinha”), Antonio Maria (“Ninguém me ama”,
“Se eu morresse amanhã de manhã”, “Quando tu passas por mim”, esta última
composta com Vinicius de Moraes), Herivelto Martins e Dolores Duran. Além
destes compositores, e outros como Alberto Ribeiro, Alcir Pies Vermelho, Benny
Wolkoff, Luís Bittencourt, Jair Amorim, João de Barro, José Maria de Abreu,
Marino Pinto e Mario Rossi e Oscar Belandi começaram a produzir sambas à base
de orquestrações americanizadas, em que a notável influência musical de Dick
Farney “entrava com seu sussurro sobre os acordes jazzísticos do piano”.
Foram os casos de sucessos como “Barqueiro do
São Francisco” (letra de Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho), “Aquelas
Palavras” (de Benny Wolkonoff e Luís Bittencourt), “Ser ou Não ser” (de José
Maria de Abreu e Alberto Ribeiro), “Um cantinho e você” e “Ponto final” (ambas
de José Maria de Abreu e Jair Amorim), “Olhos Tentadores” (de Oscar Belandi e
Chico Silva), “Reverso” (de Marino Pinto e Gilberto Milfont), “Se o tempo
entendesse” (de Marino Pinto e Mario Rossi), “O direito de amar” (de Lúcio
Alves), “A volta do boêmio” (de Adelino Moreira). Outros dois, Tom Jobim
fizeram suas primeiras composições através do samba-canção, como “Incerteza”, “Faz
uma semana” e “Pensando em você”. Até nomes consagrados em outros estilos, como
Ary Barroso (com “Risque”), Lamartine Babo (com “Serra da Boa Esperança”) e
Dorival Caymmi (como “Sábado em Copacabana”) que também se arriscaram em compor
sambas-canções nesse período. Entre os grandes intérpretes desta fase, temos
Nelson Gonçalves, Jamelão, Dircinha Batista, Linda Batista, Elizeth Cardoso,
Doris Monteiro, Dalva de Oliveira, Nora Ney, Maysa, Tito Madi e, claro, Dolores
Duran também compositora de sucesso. Também surgiu uma nova geração de
orquestradores, como Radamés Gnatalli, Custódio Mesquita, Garoto, Zé Menezes,
Valzinho, Fernando Lobo.
Eles criavam arranjos
bastante diferentes daqueles que haviam criado o samba-canção de 20 anos antes.
Críticos dessas influências culturais estrangeiras dentro da música brasileira
criaram até novas designações, de cunho cultural aparentemente pejorativo, para
sambas-canções, chamados de sambaladas ou samboleros. O ambiente social
da década de 1950 estimulou a expansão desse gênero no mercado nacional, mas
com transformações estritamente dentro do estilo, o que levou alguns estudiosos
a marcar uma diferenciação do samba-canção clássico, expressas nos termos que
podem ou não ser considerados como subgêneros, de acordo com cada interpretação
de autor, sambalada e sambolero durante os anos cinquenta. As
melodias eram marcadas por influências de gêneros musicais estrangeiros, isto
é, como a balada estadunidense e o bolero cubano, especialmente
enfatizado por orquestras. No que diz respeito às letras, uma interpretação
pessimista das propostas ligadas à filosofia existencialista e a sociologia
weberiana que traduzem um forte desencantamento com o mundo. Esse conteúdo
melancólico mais tarde incorporaria a palavra “fossa” para o subgênero. Com o
surgimento da Bossa Nova, no final da década de 1950, o samba-canção
perderia terreno dentro da música brasileira, mas manteria um vasto e rico
acervo de obras em permanente processo de regravações.
O programa Papel
carbono foi inspirado num filme antigo assistido por Murce, que fez uma
adaptação depois para o rádio. Começou na rádio Clube contava com Ary Barroso (1903-1964),
um renomado compositor brasileiro de música popular. Ele se tornou famoso por
seus sambas, especialmente por “Aquarela do Brasil”, considerada uma expressão
emblemática do chamado samba-exaltação, e continuou depois na rádio
Nacional. Renato que acumulava a função de animador, tratava o iniciante com
grande respeito, como também encaminhava os vitoriosos na vida artística.
Chamava os calouros de “ilustres desconhecidos”. Revelaram-se artistas
como Os Cariocas, Dóris Monteiro, Alaíde Costa, Ângela Maria, Ellen de
Lima, Claudete Soares, Ivon Curi, Ademilde Fonseca, Baden Powell, Chico Anysio,
Agnaldo Rayol, Roberto Carlos, Luiz Vieira etc. Ely Macedo Murce, nome de
Eliana Macedo, atriz do cinema brasileiro. O nome artístico foi uma homenagem a
uma amiga que se chamava Ana. Eliana se casou com Murce em 1950, causando
muitos comentários na época, pela diferença de idade entre os dois e por ela
ser a namoradinha do Brasil e a estrela dos musicais da Atlântida (as
chanchadas) sob a direção do diretor Watson Macedo (seu tio). Murce continuou à
trabalhar depois da aposentadoria, quando sofreu um infarto, não mais se
recuperando. Apresentou o programa de rádio Ontem, hoje e sempre com material
produzido de arquivo, por muitos anos. Depois da morte de Eliana Macedo, o
acervo de Renato Murce foi doado ao Instituto Cravo Albin, pelo seu neto mais
velho Ney Murce.
Bibliografia Geral Consultada.
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