domingo, 24 de setembro de 2023

Doris Monteiro – A Dor do Samba-canção Para a Bossa Nova.

         Adoro viver. No dia em que me virem num caixão, podem estar certos: fui contrariada”. Dóris Monteiro                                   

Adelina Dóris Monteiro (1934-2023) nasceu e foi criada em Copacabana (RJ), primeiro pela mãe biológica, que sozinha, se viu impossibilitada de trabalhar como empregada doméstica e proporcionar os cuidados que a filha necessitava, e depois, pelo casal Lázaro e Ana, ele porteiro de um prédio e ela dona de casa. Foi uma infância sem privilégios em termos financeiros, mas com uma extraordinária atenção voltada para a educação. Mesmo com dificuldades, os pais conseguiram que ela fizesse o primário em uma escola privada, o Colégio Copacabana, e posteriormente foi aprovada para ingressar no Colégio Pedro II, tradicional instituição de ensino público federal. Ela também estudou na Cultura Inglesa, aprendeu a falar francês com a mãe que havia morado nove anos em Lyon. Esse conhecimento foi decisivo e a insistência da vizinha que ouvia Doris Monteiro cantando em casa e percebia seu talento, a jovem de 15 anos se apresentou no programa Papel Carbono, apresentado por Renato Murce, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O desafio estimulado aos “calouros” era “imitar outros cantores” e Doris escolheu cantar Boléro, interpretada pela francesa Lucienne Delyle (1913-1962). Tirou o 1° lugar e, a partir daí, começou a receber convites para participar de vários programas de calouros.

Lucienne Delyle, nascida Lucienne Henriette Delache a 16 de abril de 1913 no 14º arrondissement de Paris e morreu em10 de abril de 1962 (com 48 anos) em Mônaco, é uma cantora francesa que gravou muitos sucessos nas décadas de 1940 e 1950. Sua canção Mon Amant de Saint-Jean (1942) permanece um monumento atemporal da música popular francesa. Apaixonada pelas canções francesas da década de 1930, ela praticava canto como amadora sob o nome artístico de Lucienne Delyne (com um “n”, como no nome de sua atriz favorita, Christiane Delyne, antes de optar por um “l” (Delyle) em vez do “n” (Delyne). Em 1939, Jacques Canetti, diretor artístico da Polydor, notou a sua interpretação do Fanion da Legião durante o programa de talentos radiofônicos que apresentava na Rádio Cité. Contratou imediatamente a jovem amadora para Le Music-hall des Jeunes, um programa que apresentava jovens talentos. Naquele ano, suas primeiras gravações, notadamente a valsa romântica e poética Sur Les Quais Du Vieux Paris (1939), a ir para o rol das cantoras populares francesas. Duas outras canções, Elle Fréquentait La Rue Pigalle e Je n`en Connais Pas La Fin, foram emprestadas do repertório de Édith Piaf. Em 1939, ela se apresentou no palco do L`Européen e do ABC. Em 1940, ela conheceu o trompetista e arranjador de jazz Aimé Barelli (1917-1995), que se tornou seu companheiro e colaborador, compondo canções para ela com letras do grande letrista Henri Contet (1904-1998). 

Em 1941, ela cantou Paradise Lost com a orquestra de Raymond Legrand e se apresentou no palco da Alhambra. Em 1942, o cantor interpretou Nuages, a melodia de Django Reinhardt (1910-1953) com letra de Jacques Larue. Em 1943, ela se apresentou no Bobino acompanhada pela orquestra de seu amante Aimé Barelli: saindo do salão, por falta de táxis, eles pegaram o metrô, alguns passageiros os reconheceram e cantaram para eles em coro Mon Amant de Saint-Jean. Em 1944, ela foi uma sensação com Malgré tes Serments, uma adaptação francesa de Henri Christiné de I wonder Who`s Kissing Her Now, de Joe E. Howard, Harold Orlob, Frank Adams e Will Hough (1909). Em 1942, Léon Agel e Émile Carrara ofereceram a Lucienne Delyle “Mon Amant de Saint-Jean”, uma “canção nostálgica [...] imersa em puro realismo – uma jovem encontra um cafetão num baile”. Ela fez desta valsa musette um dos maiores sucessos, não sem despertar ciúmes entre os seus contemporâneos, como Édith Piaf (1915-1963), que os dissuadir de trabalharem para a recém-chegada. A canção ultrapassará a barreira do tempo, sendo classificada em 5º lugar na “lista das canções mais bonitas de todos os tempos interpretadas por mulheres” elaborada pela Fnac em 2005. Renato Floriano Murce (1900-1987) foi um radialista brasileiro. 

                                


Roquette Pinto escutando emocionado a primeira transmissão radiofônica, ficou apaixonado pela invenção e em 1923, resolveu montá-lo com toda a sua coragem. Renato Murce foi um dos que angariaram sócios contribuintes para manter a Rádio Sociedade, que sobreviviam com doações e associados. Em 1930 criou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro o programa Cenas Escolares, o personagem central se chamava Manduca, que era um garoto problema, que aprontava todo tipo de confusão na sala de aula. Por falarem de forma tão clara ou explícita sobre os problemas escolares da época, o programa foi vetado pelo famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Murce não se deu por vencido, fazendo alterações no roteiro. Rebatizou-o de Piadas do Manduca, conseguindo ficar “no ar” por vinte anos. No final da década de 1940, Murce foi convidado para dirigir a rádio Transmissora. Em 1941 a radionovela “Em Busca da Felicidade” ficou no ar durante três anos. Foi a primeira radionovela a ser gravada no Brasil. A radionovela que conseguiu parar o país, depois veio no processo o jornalismo do Repórter Esso foi a extraordinária novela “O Direito de Nascer” (1964-1965), adaptado do texto cubano de Félix Caignet. 

Havia séries tais como “Anjo: O Homem Atômico”, Jerônimo - O Herói do Sertão, Presídio de Mulheres, “Felicidade”, etc. Principais radioatores: Renato Murce, Iara Sales, Dayse Lúcide, Floriano Faissal, Roberto Faissal, Celso Guimarães, Abigail Maia, Sônia Maria, Nélio Pinheiro, Vida Alves, Lima Duarte, Lolita Rodrigues, Mario Lago, entre outros. No final da década de 1940, Murce foi convidado para dirigir a rádio Transmissora (emissora com vida curta), voltando para a rádio Nacional em 25 de março de 1948 até a sua aposentadoria. O programa de rádio Almas do Sertão 1954, da rádio Clube à Nacional, era cheio de poesias, músicas sertanejas, moda de violas, descobrindo Manezinho Araújo, o Rei das emboladas, Catulo da Paixão Cearense, e muitos poetas e compositores nordestinos como Luiz Vieira, e interioranos. O programa ficou no ar por mais de 30 anos, sendo suas gravações distribuídas para as emissoras de rádio do interior do Brasil. A veia humorística de Murce esteve presente na televisão com Papel Carbono como Piadas de Manduca, pela TV Rio nos programas de Flávio Cavalcanti e Jota Silvestre e PRK-30. Parte dos programas que tem sido criado na TV inspiraram-se nos tipos sociais e situações criados nos anos 1940 e 1950. Receberam influências os programas de televisão como o da Escolinha do professor Raimundo da TV Globo e Escolinha do Golias na TV Rio e Sistema Brasileiro de Televisão.

O choro, a modinha e as primeiras formas do samba consolidaram-se nas cidades brasileiras entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, formando matrizes musicais que viriam a alimentar a música popular urbana do país. O termo “música popular brasileira” já era utilizado no início do século XX, mas ainda não se referia a um movimento social ou grupo específico de artistas. No ano de 1945, o livro Música Popular Brasileira, de Oneyda Paoliello Alvarenga (1911-1984), musicóloga, jornalista, poetisa, pianista, ensaísta, etnóloga e folclorista brasileira relaciona o termo a manifestações populares, como o bumba-meu-boi. Somente duas décadas depois ganharia também a sigla MPB e a concepção que se tem do termo. Era filha de Orpheu Rodrigues de Alvarenga e de Maria Henriqueta Paoliello de Alvarenga. Foi, por sua mãe, sobrinha neta de Cesário Cecílio de Assis Coimbra e prima em 1º grau do também poeta, Domingos Paoliello. Especializou-se em crítica musical sendo a grande referência na documentação da origem e do folclore da música brasileira. Diplomou-se em Piano pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, em 1934, instituição na qual um de seus criadores e catedráticos, o poeta Wenceslau de Queiroz, após a sua morte, foi sucedido por seu ex-aluno de estética, Mário de Andrade, o grande mentor de Oneyda. É interessante relatar que as famílias Queiroz e Paoliello viriam a entrelaçar-se, em 1944, com o casamento do sobrinho de Wenceslau, Flavio de Queiroz Filho e a prima, em primeiro grau, de Oneyda, Viggianina Paoliello. Foi aluna e colaboradora próxima de Mário de Andrade em suas investigações sobre a música popular em sua perspectiva antropológica contemporânea.

Oneida tinha enfoque etnográfico com visão romântica da cultura popular e uma perspectiva generosa da sua autenticidade na construção de formas estéticas. Manoel Bandeira, em 1934, tornou público os versos de Oneyda e em 1938 ela publicou a seleção de poemas, “A Menina Boba”. Frequentou, ainda em 1934, as aulas sobre etnografia e folclore ministradas pelo casal Dinah e Claude Lévi-Strauss, sob os auspícios do Departamento de Cultura de São Paulo. Em 1935, a convite de Mario de Andrade, tornou-se diretora da Discoteca Pública de São Paulo e foi uma das fundadoras, da hoje extinta Sociedade de Etnografia e Folclore, por ele criada. Foi membro do Conselho Nacional do Folclore do Ministério da Educação e Cultura; membro, desde a sua fundação, do Comitê Executivo da Association Internationale de Bibliothèque de Paris, como representante da América Latina e membro correspondente da International Music Council de Londres. Em 1945 foi laureada com o Prêmio Fabio Prado, pelo seu livro Música Popular Brasileira e recebeu em 1958, a Medalha Sylvio Romero por serviços prestados ao folclore. Realizou palestras em congressos Internacionais da música brasileira, além de artigos e ensaios na imprensa especializada. 

Foi responsável pela organização e publicação dos trabalhos de Mário de Andrade após a sua morte. A Prefeitura Municipal de São Paulo, homenageando Oneyda, deu o seu nome a uma das ruas da capital paulista e a Discoteca do Centro Cultural São Paulo, a Discoteca Oneyda Alvarenga. A profissionalização de músicos, o crescimento das gravadoras e a expansão do mercado do rádio nas décadas de 1920-1930 criaram circuitos de produção e difusão que transformaram práticas locais em produtos com circulação nacional. Na chamada Era do Rádio (cf. Lopes, 1982) aproximadamente entre 1930-1950, cresceram programas de auditório, orquestras e intérpretes fixos que estabeleceram repertórios populares e formatos de apresentação que influenciaram a indústria fonográfica posterior. A partir de cerca de 1958 surgiu a bossa nova, movimento musical urbano do Rio de Janeiro, se baseando na harmonia e o fraseado do samba; que consolidou nomes como João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A circulação internacional da bossa nova projetou a música brasileira no exterior e contribuiu para que, no Brasil, surgissem termos e categorias críticas que dariam origem ao rótulo Música Popular Brasileira (MPB) surgindo exatamente em um momento de declínio da bossa nova. Os festivais televisivos de canção na segunda metade da década de 1960, isto é, os concursos promovidos por emissoras como a pioneira TV Excelsior e as primeiras edições do Festival Internacional da Canção, funcionaram como vitrines nacionais para intérpretes e compositores e foram decisivos para a popularização de repertórios autorais. O evento foi criado por Augusto Marzagão, com apoio do governo do estado da Guanabara, com o objetivo de impulsionar a música popular brasileira, e durou de 1966 a 1972, num total de sete edições.

A Guanabara foi um Estado do Brasil de 1960 a 1975, que existiu no território correspondente à atual localização do município do Rio de Janeiro. Em sua área, esteve situado o antigo Distrito Federal.  Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro, que em 1763 sucedeu a Salvador como capital do Brasil colonial e depois imperial, foi compreendida no Município Neutro, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, após a Proclamação da República do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro continuou sendo a capital do Brasil e a província homônima foi transformada em Estado. No dia 24 de fevereiro de 1891, mediante a promulgação da primeira Constituição republicana do Brasil, o Município Neutro tornou-se o Distrito Federal. Com a mudança da capital do país para Brasília, o antigo Distrito Federal tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Constituição de 1946 e da Lei Número 3 752, de 14 de abril de 1960 (Lei San Tiago Dantas). Com o término da Era Vargas e o vislumbrar de uma nova fase política com o presidente Juscelino Kubitschek, iniciada em 1955, patrocinando a ocupação do interior do Brasil, que na prática eliminava o cenário político brasileiro das pressões sociopolíticas das grandes cidades e de setores políticos influentes, a construção de Brasília representava um baque nos interesses em jogo da elite carioca, pois minimizava o seu tranquilo status de centro das decisões políticas do país.

Diante dessa ameaça, com intensa mobilização entre os grupos políticos cariocas, ainda indecisa com os rumos que a cidade tomaria, optou-se pela criação do estado da Guanabara, com o estado do Rio de Janeiro que dá nome a capital, nas vizinhanças do jovem estado. Para alguns estudiosos, entretanto, o principal problema político não foi solucionado: a perda do poder político e econômico que os fluminenses possuíam até a Proclamação da República do Brasil, avizinhando-se um possível esvaziamento da cidade do Rio de Janeiro no mesmo sentido. Em plebiscito realizado em 21 de abril de 1963, a população decidiu pela continuidade da existência de um único município na unidade federativa, mantendo-se nessa condição. O primeiro governador, José Sette Câmara Filho, foi nomeado pelo presidente da República e exerceu o cargo até 5 de dezembro de 1960, quando o passou para o primeiro governador eleito, Carlos Lacerda, que exerceu o cargo por cinco anos. O Governo Lacerda dinamizou mudanças radicais na Guanabara, ao promover a remoção de favelas para outras regiões (e a consequente criação da Vila Kennedy, Vila Aliança e da Cidade de Deus), a construção da adutora do Rio Guandu para o abastecimento de água e uma série de modificações paisagísticas. Dentre as principais obras realizadas nesse período, destacam-se a abertura do Túnel Rebouças, o alargamento da Praia de Copacabana e a construção da maior parte do Parque Eduardo Gomes.

Nesse período, também foi organizada a Companhia Estadual de Telefones, cuja missão foi a de instalar serviço de telefones automáticos nos afastados subúrbios, como Irajá, Bento Ribeiro, Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, na baixada de Jacarepaguá e na Barra da Tijuca, assim como na Ilha do Governador e na Ilha de Paquetá. Anos mais tarde a companhia estadual foi incorporada ao sistema telefônico fluminense, que, através da Telerj, passou a atender o restante do estado após a fusão. A pedido de Lacerda, foi efetuada a elaboração do Plano Doxiadis, conjunto de projetos ligados a área urbanística. A Linha Lilás foi a primeira a ser construída, entre as décadas de 1960/1970, e a Linha Verde foi apenas parcialmente construída. A Linha Vermelha e a Linha Amarela foram desengavetadas e concretizadas apenas na década de 1990; todas baseadas no plano que ainda previa as linhas Azul e Marrom. Os outros governadores eleitos para exercer a chefia do Poder Executivo da Guanabara foram Francisco Negrão de Lima (de 1965 a 1971) e Antônio de Pádua Chagas Freitas (1971 a 1975), em cujo governo foi construído o emissário submarino de esgotos de Ipanema. 

A condição desse estado permitiu que a Guanabara, mesmo depois de perder verbas federais com a transferência da capital federal para Brasília, desfrutasse de uma elevada receita per capita de dupla arrecadação com os impostos municipais e estaduais, o que lhe possibilitou o financiamento do grande número de obras públicas realizadas durante a década de 1960. Era um Estado rico, comparativamente, ao contrário do vizinho estado do Rio de Janeiro, que era pobre, com uma economia que se esvaziava desde 1927 mesmo com a industrialização ocorrendo no eixo Rio-São Paulo. Os investimentos efetuados foram considerados instrumentos de estímulo à reinserção da Guanabara num novo cenário político e econômico brasileiro. O governo federal “tirou da gaveta” a antiga ideia de uma ligação entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói por uma ponte Rio-Niterói, a qual seria construída em meados da década de 1970 usada politicamente como um símbolo da fusão. Foi construída, então, a Ponte Presidente Costa e Silva inaugurada em 4 de março de 1974. Outros investimentos federais foram implementados no estado do Rio de Janeiro, como as usinas atômicas de Angra dos Reis. Porém, com a fusão, a cidade do Rio de Janeiro teve sua economia fortemente afetada pela fraca economia do estado do Rio de Janeiro. Pela lei complementar número 20, de 1° de julho de 1974, durante a presidência do general Ernesto Geisel, decidiu-se realizar a fusão (termo usado na Lei) dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, a partir de 15 de março de 1975, mantendo a denominação de estado do Rio de Janeiro, voltando-se à situação territorial de antes da criação do Município Neutro, com a cidade do Rio de Janeiro também voltando a ser a capital fluminense. 

Esse de intensas polêmicas estéticas, como “passeata contra a guitarra elétrica”, que refletiam disputas sobre identidade e modernização da MPB nascente. Samba-canção historicamente tem como representação  social um subgênero originário do samba, que surgiu no final da década de 1920 e da modernização do samba urbano do Rio de Janeiro, quando este iniciava seu processo de distanciamento do maxixe. Também chamado de “samba de meio de ano”, ou seja, sambas feitos fora da época de Carnaval, em linhas gerais, o samba-canção faz uma releitura mais elaborada na melodia, ipso facto, enfatizando-a e possui um andamento moderado, centrado em temáticas de amor, solidão e na chamada “dor-de-cotovelo”. O samba-canção desenvolveu-se a partir de músicos profissionais que tocavam em teatros de revista cariocas. “Linda Flor (Ai, Ioiô)”, do compositor Henrique Vogeler e dos letristas Marques Porto e Luís Peixoto, é considerado o marco inaugural desse estilo de samba. Praticado por autores tão diversificados, o samba-canção teria seu apogeu nas décadas de 1940 e 1950. Entre intérpretes que se destacaram nesse estilo, estão Jamelão e Elizeth Cardoso, que gravaram canções de Lupicínio Rodrigues, Maysa, Ângela Maria, entre outros. Outros grandes compositores de samba escreveram samba-canção, como Noel Rosa (“Pra que mentir”), Cartola (“As rosas não falam”), Nelson Cavaquinho (“A flor e o espinho”, com Guilherme de Brito), Ataulfo Alves (“Boêmios”).                   

     

A década de 1930 representou o período no qual o samba-canção desenvolveu-se como estilo musical, com a produção de massa desses sambas a partir das mudanças no andamento batucado e simples do samba urbano carioca e da conservação da estrutura musical original. Esse desenvolvimento apoiou-se em um contexto de formação dos programas de auditório nas rádios, ao mesmo tempo em que vinha atender aos consumidores de disco durante o período que se estendia da Quaresma até o mês de setembro, quando se voltava o interesse pelas músicas carnavalescas. Em um cenário de formação do incipiente mercado fonográfico brasileiro, as gravadoras passaram a contratar os serviços de músicos profissionais. A atuação deles como diretores artísticos marcaria a forma orquestrada pela qual saíam os sambas que lhes eram entregues. Foram estes profissionais os pioneiros na tentativa de adaptação do ritmo do samba, com a modificação do seu andamento, a fim de obter uma forma mais refinada de composição, um estilo de samba “que permitisse maior riqueza orquestral e um toque de romantismo capaz de servir às letras de fundo nostálgico e sentimental, características das músicas da classe média brasileira, desde o tempo da modinha imperial”. Os primeiros sambas-canções apareciam para atender ao gosto de milhares de cariocas que frequentavam redutos de classe média, como os teatros São José, Fênix, Cassino Beira-Mar e Recreio, onde brilhavam cantores como Araci Côrtes, Francisco Alves e Vicente Celestino.

O maior intérprete de sambas-canções naquele período foi Orlando Silva. De origem humilde (trabalhava como trocador de ônibus), ele foi levado ao rádio por Francisco Alves e se tornou um grande cantor não somente em sambas-canções, como também em todos os gêneros musicais populares à época, como a valsa e o choro. Sua grande capacidade de improvisação vocal era elogiada até por nomes do talento do cantor italiano Carlo Buti, nascido em Florença, Itália (1902-1963) foi um intérprete de música popular e local, conhecido como a “Voz de Ouro da Itália”, que deixou 1574 gravações de suas canções. Um jovem que adorava cantar, era pago por aqueles que queriam fazer serenatas para as mulheres que cortejavam. Estudou canto com Raoul Frazzi e apresentou-se no rádio; em 1930, obteve seu primeiro contrato de gravação com a Winner Records e, em 1934, outro com a Columbia Records. Vale lembrar também de intérpretes como Vicente Celestino, Silvio Caldas e Augusto Calheiros. Deste período, destacaram-se sambas-canções como “Último Desejo” (letra de Noel Rosa), “Menos Eu” (de Roberto Martins e Jorge Faraj), “Amigo Leal” (de Benedito Lacerda e Aldo Cabral) e “Eu sinto uma vontade de chorar” (de Dunga). Depois de um período de grande sucesso nas emissoras de rádio da década de 1930, as marchinhas e os sambas carnavalescos começaram a perder hegemonia cultural, a partir da década de 1940, para temas de conteúdo passional, estrangeiros como a balada, o bolero, a guarânia e o tango, e sobretudo o samba-canção, que foi muito influenciado no período intermediário por esses gêneros citados. A indústria fonográfica, especialmente no mercado do Rio de Janeiro e em São Paulo, ampliava-se e procura crescer ainda mais no mercado nacional. O público comprador de discos no Brasil era formado principalmente a classe média urbana cada vez mais influenciada pelos costumes do American Way of Life.

          

Neste contexto, a indústria fonográfica brasileira estimulou uma nova roupagem comercial do samba-canção, adaptado às influências musicais vindas de fora e bastante tocadas nas rádios brasileiras no período. Lançada entre julho e agosto de 1946 na voz de Dick Farney, “Copacabana” com letra de João de Barro e Alberto Ribeiro, é considerada pelo estudioso Ary Vasconcelos como o marco dessa nova fase do samba-canção com “Dick Farney cantando em português com a entonação de cantor americanos (Crosby, Sinatra) (...)”. O bairro de Copacabana, por sinal, tornou-se um dos principais redutos desse novo samba-canção, por sua vida noturna intensa de boates e cabarés. O samba-canção passou a ser vinculado como música de “dor-de-cotovelo” e a excessos sentimentais. As melodias expandiam-se “em contornos mirabolantes, enquanto o acompanhamento exibia soluções orquestrais dramáticas”. Nesta fase histórica e social, despontaram grandes mestres do estilo como Lupicínio Rodrigues (“Vingança”, “Nervos de Aço”, “Ela disse-me assim”, “Nunca”, “Loucura”, “Sozinha”), Antonio Maria (“Ninguém me ama”, “Se eu morresse amanhã de manhã”, “Quando tu passas por mim”, esta última composta com Vinicius de Moraes), Herivelto Martins e Dolores Duran. Além destes compositores, e outros como Alberto Ribeiro, Alcir Pies Vermelho, Benny Wolkoff, Luís Bittencourt, Jair Amorim, João de Barro, José Maria de Abreu, Marino Pinto e Mario Rossi e Oscar Belandi começaram a produzir sambas à base de orquestrações americanizadas, em que a notável influência musical de Dick Farney “entrava com seu sussurro sobre os acordes jazzísticos do piano”.

 Foram os casos de sucessos como “Barqueiro do São Francisco” (letra de Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho), “Aquelas Palavras” (de Benny Wolkonoff e Luís Bittencourt), “Ser ou Não ser” (de José Maria de Abreu e Alberto Ribeiro), “Um cantinho e você” e “Ponto final” (ambas de José Maria de Abreu e Jair Amorim), “Olhos Tentadores” (de Oscar Belandi e Chico Silva), “Reverso” (de Marino Pinto e Gilberto Milfont), “Se o tempo entendesse” (de Marino Pinto e Mario Rossi), “O direito de amar” (de Lúcio Alves), “A volta do boêmio” (de Adelino Moreira). Outros dois, Tom Jobim fizeram suas primeiras composições através do samba-canção, como “Incerteza”, “Faz uma semana” e “Pensando em você”. Até nomes consagrados em outros estilos, como Ary Barroso (com “Risque”), Lamartine Babo (com “Serra da Boa Esperança”) e Dorival Caymmi (como “Sábado em Copacabana”) que também se arriscaram em compor sambas-canções nesse período. Entre os grandes intérpretes desta fase, temos Nelson Gonçalves, Jamelão, Dircinha Batista, Linda Batista, Elizeth Cardoso, Doris Monteiro, Dalva de Oliveira, Nora Ney, Maysa, Tito Madi e, claro, Dolores Duran também compositora de sucesso. Também surgiu uma nova geração de orquestradores, como Radamés Gnatalli, Custódio Mesquita, Garoto, Zé Menezes, Valzinho, Fernando Lobo.

Eles criavam arranjos bastante diferentes daqueles que haviam criado o samba-canção de 20 anos antes. Críticos dessas influências culturais estrangeiras dentro da música brasileira criaram até novas designações, de cunho cultural aparentemente pejorativo, para sambas-canções, chamados de sambaladas ou samboleros. O ambiente social da década de 1950 estimulou a expansão desse gênero no mercado nacional, mas com transformações estritamente dentro do estilo, o que levou alguns estudiosos a marcar uma diferenciação do samba-canção clássico, expressas nos termos que podem ou não ser considerados como subgêneros, de acordo com cada interpretação de autor, sambalada e sambolero durante os anos cinquenta. As melodias eram marcadas por influências de gêneros musicais estrangeiros, isto é, como a balada estadunidense e o bolero cubano, especialmente enfatizado por orquestras. No que diz respeito às letras, uma interpretação pessimista das propostas ligadas à filosofia existencialista e a sociologia weberiana que traduzem um forte desencantamento com o mundo. Esse conteúdo melancólico mais tarde incorporaria a palavra “fossa” para o subgênero. Com o surgimento da Bossa Nova, no final da década de 1950, o samba-canção perderia terreno dentro da música brasileira, mas manteria um vasto e rico acervo de obras em permanente processo de regravações.

O programa Papel carbono foi inspirado num filme antigo assistido por Murce, que fez uma adaptação depois para o rádio. Começou na rádio Clube contava com Ary Barroso (1903-1964), um renomado compositor brasileiro de música popular. Ele se tornou famoso por seus sambas, especialmente por “Aquarela do Brasil”, considerada uma expressão emblemática do chamado samba-exaltação, e continuou depois na rádio Nacional. Renato que acumulava a função de animador, tratava o iniciante com grande respeito, como também encaminhava os vitoriosos na vida artística. Chamava os calouros de “ilustres desconhecidos”. Revelaram-se artistas como Os Cariocas, Dóris Monteiro, Alaíde Costa, Ângela Maria, Ellen de Lima, Claudete Soares, Ivon Curi, Ademilde Fonseca, Baden Powell, Chico Anysio, Agnaldo Rayol, Roberto Carlos, Luiz Vieira etc. Ely Macedo Murce, nome de Eliana Macedo, atriz do cinema brasileiro. O nome artístico foi uma homenagem a uma amiga que se chamava Ana. Eliana se casou com Murce em 1950, causando muitos comentários na época, pela diferença de idade entre os dois e por ela ser a namoradinha do Brasil e a estrela dos musicais da Atlântida (as chanchadas) sob a direção do diretor Watson Macedo (seu tio). Murce continuou à trabalhar depois da aposentadoria, quando sofreu um infarto, não mais se recuperando. Apresentou o programa de rádio Ontem, hoje e sempre com material produzido de arquivo, por muitos anos. Depois da morte de Eliana Macedo, o acervo de Renato Murce foi doado ao Instituto Cravo Albin, pelo seu neto mais velho Ney Murce.

Bibliografia Geral Consultada.

MURCE, Renato, Bastidores do Rádio: Fragmentos do Rádio de Ontem e de Hoje. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976; CONTIER, Arnaldo, Música e Ideologia no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Editora Novas Metas, 1978; LOPES, Maria Immacolata Vassallo, O Rádio dos Pobres – Estudo sobre Comunicação de Massa. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Ciências da Comunicação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1982; MANNHEIM, Karl, “El Problema de las Generaciones”. In: Revista Española de Investigaciones Sociológicas, n° 62, pp. 193-242; 1993; VELLOSO, Mônica Pimenta, Imaginário Humorístico e Modernidade Carioca. Tese de Doutorado em História Social. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995;  FERREIRA, Suzana Cristina de Souza, Os Filmes Musicais Cariocas dos Anos 30 e 40 ou Alice Através do Espelho. Dissertação de Mestrado em História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1999; SODRÉ, Muniz, Samba, o Dono do Corpo. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 1998; NAVE, Santuza Cambraia, “Entre Biografia e História”. In: Rev. Bras. Cien. Soc. Vol. 13 n° 38. São Paulo Oct. 1998; PERDIGÃO, Paulo, No Ar: PRK-30: O Mais Famoso Programa de Humor da Era do Rádio. Rio de Janeiro: Editor Casa da Palavra, 2003; BAUMAN, Zygmunt, Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004; GOÉS, Ludenbergue, Mulher Brasileira em Primeiro Lugar: O Exemplo e as Lições de Vida de 130 Brasileiras Consagradas no Exterior. São Paulo: Ediouro Publicações, 2007; LUCINI, Gianni, Luci, Lucciole e Canzoni Sotto il Cielo di Paris - História de Cantores nella Francia del Primo Novecento. Novara: Editore Segni e Parole, 2014; ALMEIDA, Angela Teixeira de, Música, Gênero e Dor de Amor: As Composições de Dolores Duran e Maysa (1950-1974). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Letras. Assis: Universidade Estadual Paulista, 2017; FERREIRA, Mauro, “Doris Monteiro Chega aos 85 Anos Como Símbolo de Modernidade na Música do Brasil”. In: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/2019/10/21/; CAETANO, Maria do Rosário, “Dóris Monteiro Participou de Dez filmes Como Atriz ou Cantora”. In:  https://revistadecinema.com.br/2023/07/24; entre outros.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

The Train Street – Comboio Passa & Comércio Recua em Hanói.

                                                                                                            “A vida é o trem, não a estação”. Paulo Coelho

      

          A História do Vietname começou há cerca de 2700 anos. Os chineses dominaram  o Vietname diretamente durante grande parte do período entre 207 a.C. até 938, quando os vietnamitas recuperaram a sua Independência. Apesar disso, Vietname permaneceu um Estado tributário da China, mas conseguiu repelir desde então as invasões chinesas, bem como três invasões dos mongóis, entre 1255 e 1285. O imperador Trần Nhân Tông (1258 – 1308) foi o terceiro imperador da dinastia Trần en Vietnam. Decidiu pacificamente tornar o Vietname um Estado tributário da dinastia Yuan, para evitar novos conflitos sociais com os mongóis. A sua Independência terminou na segunda metade do século XIX, quando o país foi colonizado pela França. Durante a 2ª guerra mundial (1939-1945), o Japão ocupou o Vietname, embora mantendo a “máquina administrativa colonial” francesa durante a ocupação. Após a guerra, a França tentou restabelecer o seu domínio colonial, mas falhou na Primeira Guerra da Indochina (1946-1954). Os Acordos de Genebra dividiram o país em Vietname do Norte e Vietname do Sul. Os tratados foram elaborados durante quatro Convenções de Genebra que aconteceram de 1864 a 1949. Ao invés da reunificação pacífica, a divisão do país levou à Guerra do Vietnã (1955-1975). A República Popular da China e a União das Repúblicas Socialistas Soviética apoiaram o Vietname do Norte, enquanto que os Estados Unidos da América apoiaram o Vietname do Sul. Após a morte de milhões de vietnamitas, a guerra finda com a queda de Saigon para o Norte em abril de 1975.

No Apêndice: Introdução à Edição de 1968, Norbert Elias (2011: 207) com o objetivo de esclarecer observações colhidas nas sociedades modernas sobre o controle das emoções, agimos na suposição tácita de que é possível elaborar teorias sobre as estruturas emocionais do homem em geral, com base no estudo de pessoas em uma sociedade específica que poderia ser observada. Não obstante, há numerosas observações relativamente acessíveis indicando que podem diferir o padrão e o modelo de controle das emoções em sociedades que se encontrem em diferentes estágios de desenvolvimento, e mesmo em diferentes estratos da mesma sociedade. Se estamos ou não interessados no desenvolvimento de países europeus, que prossegue há séculos, ou naquele dos chamados “países em desenvolvimento”, o fato é que deparamos com frequência com observações que dão origem à seguinte pergunta: como e porque, no curso das transformações da sociedade, que ocorrem em longos períodos de tempo e em determinada direção e significativa para as quais foi adotado, desde  Hegel, o termo “desenvolvimento”, produzem a afetividade e de experiências humanas, o controle das emoções individuais por limitações externas e internas, e, assim as estruturas de todas as formas de expressão, são alterados em uma direção particular? 

            A epígrafe em questão do escritor Paulo Coelho, nascido no Rio de Janeiro, em 1947, descreve a sua chegada à Vladivostok, capital do Extremo Oriente russo, no fim de uma viagem que começou no dia 15 de maio, em Moscou. Percorreu o mesmo caminho de Solzhenitsyn, prêmio Nobel de Literatura em 1970, que depois de um exílio de 29 anos decidiu voltar com sua família à Rússia saindo de Vladivostok a bordo do Transiberiano para entrar em contato com o povo do país. - Sempre associei a Sibéria a um cárcere. Sempre pensei que a Sibéria era só frio e mistério, mas também há casais que se beijam na rua e telefones celulares. lembrou ainda o 32º aniversário de sua prisão pela ditadura brasileira, em 1974, período no qual Coelho foi um ativo dissidente. - Espero que esses tempos terríveis relatados por Solzhenitsyn não voltem jamais. Atualmente, a Rússia é um grande país, livre e democrático. Longa vida à Rússia - declarou. Assim como o dissidente russo, o escritor Paulo Coelho entrou no coração da Sibéria e desceu do trem para se encontrar com seus leitores em Yekaterimburgo (Urais), Novosibirsk, Irkutsk e Jabarovsk, além de ter passado dois dias descansando no lago Baikal e de ter percorrido de barco o rio Amur, fronteira natural entre a Rússia e a China. Paulo Coelho, que havia tentado, em vão, percorrer a Transiberiana em 1982, criou um link para que os leitores pudessem acompanhá-lo em sua viagem pela extensa Sibéria.

A Cidade de Ho Chi Minh representa o ponto de partida quando foi criada pela pequena vila de pescadores Nokor Prey, ou Gia Đình. Ambos os nomes Saigon e Ho Chi Minh City aparecem no logotipo oficial da cidade. A área onde se encontra a cidade tinha como representação um pantanal, e era habitada pelos khmers durante séculos antes da chegada dos primeiros vietnamitas. A partir do começo do século XVII, iniciou-se gradualmente a colonização da área por colonos vietnamitas, que habitavam isoladamente a região do Delta do rio Mekong, próximo ao atual Camboja. Em 1623, o rei Chey Chettha II (1573-1628) do Camboja permitiu que refugiados vietnamitas, originalmente da Guerra civil Trịnh-Nguyen, habitassem outras regiões além de Nokor Prey e expandissem a dominação étnica dos vietnamitas sobre a atual região Sul do Vietnã. A Cidade de Ho Chi Minh recebeu vários nomes diferentes na história, refletindo a influência dos diferentes grupos étnicos, culturais e políticos do Extremo Oriente. Na década de 1690, Nguyen Hữu Canh (1650-1700), um nobre vietnamita, foi enviado pelos governantes Nguyen, de Hué, para estabelecer administrações vietnamitas na região do Delta do rio Mekong. Mais de 1,5 bilhão de pessoas, melhor dizendo, com cerca de 40% dos asiáticos que vivem no Extremo Oriente, o que faz dessa região uma das mais populosas do mundo contemporâneo, com uma densidade demográfica de 210 habitantes por km², ou seja, mais de cinco vezes a média mundial.

 O controle social da área da cidade passou para domínio vietnamita, que deu à cidade o nome oficial da Gia Đình. Este nome permaneceu até o momento da invasão e conquista francesa na década de 1860, quando a força de ocupação europeia adotou o nome de Saigon para a cidade, uma forma ocidentalizada do nome tradicional, embora a cidade ainda tenha sido identificada (cf. Li, 2014) em mapas chineses até pelo menos o ano de 1891. Após a tomada comunista no Vietnã do Sul, em 1975, o governo renomeou a cidade para Ho Chi Minh, homenageando o falecido líder norte-vietnamita Hồ Chí Minh. No entanto, permanece o nome informal de Saigon na fala tanto nacional como internacionalmente, especialmente entre a diáspora vietnamita. Em particular, Saigon ainda é utilizado para se referir a um distrito. Conquistado durante o processo civilizatório de ocupação territorial pela França em 1859, Saigon foi influenciada pelos franceses durante a ocupação colonial do Vietnã, e um grande número de edifícios de estilo clássico ocidental e vilas francesas ainda são vistos na cidade. Em 1929, um registro populacional de Saigon revelou uma população de 123 890 habitantes, com um notável destaque para os franceses, que eram 12 100 habitantes na cidade. A partir da década de 1620, Prey Nokôr foi colonizada por refugiados vietnamitas que fugiam da Guerra Trinh-Nguyen, no Norte. Em 1623, o rei Khmer Chey Chettha II (1618–1628) permitiu que vietnamitas se estabelecesse nesta área; e posteriormente, eles chamaram o lugar de Saigon e estabeleceram uma alfândega em Prey Nokôr.

A onda crescente de colonos vietnamitas dominou o reino Khmer – enfraquecido pela guerra com a Tailândia – e lentamente vietnamizou a região. Depois de capturar a cidade durante a Campanha da Cochinchina em 1859, os franceses ocidentalizaram oficialmente o nome tradicional da cidade para Saigon. Desde a época em que o povo vietnamita se estabeleceu aqui, o nome não oficial Saigon ainda é usado na linguagem cotidiana. Além dos documentos oficiais, ainda é a forma mais comum de se referir à cidade no Vietnã, apesar de seu nome oficial ter mudado após o fim da Guerra do Vietnã em 1975. Saigon ainda é reconhecido como Saigon e refere-se ao distrito no centro da cidade. No entanto, algumas pessoas escrevem o nome da cidade como “SaiGon” ou “Saigon” para economizar espaço, ou dar ao nome uma aparência mais ocidentalizada. Além disso, os nomes Saigon e Ho Chi Minh City aparecem no logotipo oficial da cidade. Saigon pode se referir às sumaúmas (algodão) que são comuns em toda a cidade de Ho Chi Minh. Uma explicação plausível comum é que Sai é um empréstimo chinês, que significa “lenha, galho”, enquanto Gon outro empréstimo chinês “vara, vara, caule”, e seu significado tornou-se “algodão” em vietnamita, literalmente “vara de algodão”, mais tarde abreviado para gon. O nome pode ter se originado dos algodoeiros que os Khmer plantaram ao redor de Prey Nokôr, que ainda podem ser vistos no Pagode Cay Mai e arredores. Significados etimológicos de “galho” (sai) e “tronco” (gon) foram utilizados ​​para se referir à questão ecológica da floresta alta e densa que existiu ao redor da cidade, uma floresta cujo nome Prey Nokor do Khmer foi usado para referir-se.

Hanói é a capital e segunda maior cidade do Vietnã. Situa-se no centro da planície do delta do rio Vermelho, a 88 km das costas do golfo de Tonquim, onde está o seu anteporto, Hai Phong. Em 1° de agosto de 2008, ocorreu uma expansão dos limites políticos-administrativos da cidade de Hanói, que passou a cobrir uma área quase 4 vezes maior que a anterior, que na divisão social do trabalho entre cidade e campo com vasta área rural. A área da cidade anterior à expansão era de 921 km² e a população de 3,4 milhões de habitantes no final de 2007. Rodeada por um amplo cinturão agrícola, nos finais do século XX, a cidade registou um próspero desenvolvimento na indústria e no setor terciário. As grandes instalações industriais operam no setor mecânico, das aparelhagens eléctricas, da borracha, químico, cimenteiro, alimentar, têxtil e do vestuário. Importante nó rodoferroviário, Hanói também é servida por um porto fluvial. É o maior centro de educação do país. Estima-se que 62% de todos os cientistas do país estejam vivendo e trabalhando em Hanói. O acesso ao ensino superior é obtido mediante exames de ingresso, que se realizam anualmente e é aberto para todos aqueles que concluíram com sucesso o ensino secundário. A maioria das universidades em Hanói são públicas, mas há anos no mercado da educação têm surgido universidades privadas.

Os vietnamitas haviam proclamado sua Independência em 1945, após uma ocupação francesa e japonesa combinada, e antes da revolução comunista na China. Eles eram liderados por Hồ Chí Minh (1890-1969), um revolucionário, político, escritor, poeta e jornalista vietnamita. Também reconhecido por seu nome de batismo Nguyễn Sinh Cung e pelo pseudônimo Nguyen Ai Quoc, foi um revolucionário e estadista vietnamita. Ele serviu como primeiro-ministro do Vietnã do Norte de 1945 a 1955 e como Presidente de 1945 até sua morte em 1969. Ideológica e politicamente com formação tática e estratégica na guerra de guerrilha marxista-leninista, atuou como presidente e primeiro secretário do Partido dos Trabalhadores do Vietnã. Hồ Chí Minh nasceu na província de Nghệ An, no Vietnã Central. Ele liderou o movimento social de independência de Việt Minh de 1941 em diante. Inicialmente, era um grupo que atuava em todas as partes em células que lutavam pela independência do Vietnã, mas o Partido Comunista ganhou o apoio da maioria depois de 1945. Hồ Chí Minh liderou a República Democrática do Vietnã liderada pelos comunistas em 1945, derrotando a União Francesa em 1954 na Batalha de Điện Biên Phủ, foi uma fase decisiva da Guerra de Resistência Antifrancesa que opôs as forças da União Francesa e do Việt Minh, em Tonkin, entre 13 de março e 7 de maio de 1954, finda a Primeira Guerra da Indochina com a divisão política do Vietnã, com os comunistas no controle social e político do Vietnã do Norte.  

Hồ Chí Minh foi uma figura chave no Exército Popular do Vietnã e o Việt Cộng durante a Guerra do Vietnã, que durou de 1955 a 1975. Ho deixou oficialmente o poder em 1965 devido a problemas de saúde e morreu em 1969. O Vietnã do Norte acabou vitorioso contra o Vietnã do Sul e seus aliados e o Vietnã foi oficialmente unificado em 1976. Saigon, a antiga capital do Vietnã do Sul, Saigon, foi renomeada para cidade de Ho Chi Minh em sua homenagem. Os Estados Unidos, sempre na contramão da história, decidiram apoiar a França na sua reconquista de sua ex-colônia. O ex-imperador, Bao Dai, fez de Saigon a capital do Estado do Vietname, em 1949, como chefe de Estado. Após o movimento Việt Minh ganhar o controle do Vietname do Norte, em 1954, tornou-se comum referir-se ao governo de Saigon como “Vietnã do Sul”. O governo passou a se chamar República do Vietname, quando Bao Dại foi deposto por seu primeiro-ministro, Ngo Dinh Diem, em 1955, em referendo fraudulento. Saigon foi combinada unidade administrativa reconhecida como Djo Thành Sai Gon (Capital Saigon). Na conclusão da Guerra do Vietname, em 30 de abril de 1975, a cidade ficou sob o controle do Exército do Povo do Vietnã. Entre as comunidades da diáspora vietnamita e particularmente os Estados Unidos da América que havia lutado contra os comunistas. Este evento político-ideológico é comumente chamado pela mídia global de “Queda de Saigon”, enquanto a República Socialista do Vietname se refere a ela como a Libertação de Saigon. Em 1976, quando da unificação do Vietname do Norte e Vietname do Sul sob o regime comunista, e a criação da República Socialista do Vietnã, a cidade de Saigon - incluindo a pequena cidade próxima de Cholon, a província de Gia Dịnh e dois bairros suburbanos de duas outras províncias vizinhas, foi renomeada para Ho Chi Minh, em homenagem ao líder comunista Hồ Chí Minh, que veio a falecer em 1969. Entretanto, o antigo nome de Saigon, como vimos, ainda é amplamente utilizado por muitos vietnamitas, especialmente em contextos informais.

O Vietnã reunificado sofreu repressão interna e foi isolado devido à manutenção da chamada Guerra Fria e da invasão vietnamita do Camboja. Em 1986, o Partido Comunista do Vietnã começou as reformas do setor privado semelhantes às da China, tendo um crescimento econômico e ligeira redução na repressão, apesar de ter um aumento de denúncias de corrupção. Dia da Reunificação ou de nome oficial Dia da Libertação Sul para a Reunificação Nacional (Giải phóng miền Nam, thống nhất đất nước) é um feriado público no Vietname que marca o evento quando as forças norte-vietnamitas e Việt Cộng capturaram Saigon, atual cidade de Ho Chi Minh a 30 de abril de 1975. Isto assinalou o fim da Guerra do Vietname, reconhecida em vietnamita como Kháng chiến chống Mỹ cứu nước (Anti-American Resistance War for National Salvation) ou Chiến tranh Việt Nam (“Guerra do Vietname”). Representou o início do período de transição para a reunificação, que ocorreu durante as eleições nacionais para a reunificação a 2 de julho de 1976, quando permitiram que a República do Vietname do Sul e o Vietname do Norte organizassem politicamente os dois países independentes, formando o Vietname dos tempos modernos. Certas partes da comunidade vietnamita ultramarina denominam politicamente de diversas formas: o dia como a “Queda de Saigon”, o “abril Negro” (Tháng Tư Đen), o “Dia Nacional da Vergonha” (Ngày Quốc Nhục) ou last but not least “Dia do Ódio” (Ngày Quốc Hận).

Train Street é o nome turístico da via, oficialmente reconhecida Ngõ 224 Lê Duẩn entre as ruas Le Duẩn e Kham Tien, no centro antigo da cidade. Por ela passa a linha férrea que conecta Hanói à maior cidade vietnamita, Ho Chi Minh. Ngõ 224 Lê Duẩn é um beco estreito no bairro antigo de Hanói, conhecido como “The Train Street”, onde um trem em alta velocidade passa duas vezes ao dia perto de edifícios em ambos os lados dos trilhos. A Indochina francesa foi parte do Império Colonial Francês, do qual foi sua possessão mais rica e populosa. Até o seu desaparecimento, em 1954, reuniu várias possessões no Extremo Oriente: três países do Sudeste da Ásia, Vietnã, Laos e Cambodja, além da porção do território chinês, situada na atual província de Cantão (Guangdong). Esses territórios tinham diferentes estatutos e haviam sido conquistados entre 1858 e 1907 durante a expansão colonialista francesa na Ásia Oriental, tendo como consequência a colônia de Cochinchina, no extremo Sul do Vietnã, os protetorados de Annam e do Tonkin, no Centro e no Norte do Vietnã, o protetorado do Cambodja, o protetorado do Laos e o território chinês de Kouang-Tchéou-Wan, arrendado à França.

Historicamente em 1858, na esfera política o breve período de unificação sob o Império do Vietname terminou com um ataque bem-sucedido em Da Nang pelo almirante francês Charles Rigault de Genouilly (1807-1873), sob as ordens de Napoleão III. Com a missão diplomática de Louis Charles de Montigny (1805-1868), um diplomata francês que atuou na Ásia durante o século XIX, embora tendo falhado, a missão Genouilly foi enviada para interromper as expulsões dos missionários católicos. Suas ordens eram para parar a perseguição de missionários e “garantir a propagação desimpedida da fé”, mas com a utilização da força bruta da política em setembro, 14 navios franceses, 3 000 homens e 300 soldados filipinos fornecidos pelos espanhóis atacaram o porto de Tourane, atual Da Nang, causando danos materiais e humanos significativos, com a ocupação da cidade. Após alguns meses decorridos, Rigault teve de deixar a cidade devido a questões de suprimentos e doenças. O Laos foi introduzido em 1893, e Guangzhouwan em 1900. A capital foi transferida de Saigon (na Cochinchina) para Hanoi (Tonkin), em 1902. A colônia foi administrada pela França de Vichy, ideologicamente com o nome comum do État Français, liderado pelo Marechal Philippe Pétain, durante a Guerra Mundial. Representa a “Zona Livre”, desocupada na parte Sul da França metropolitana e império colonial quando esteve sob ocupação japonesa.    

De 1940 a 1942, enquanto o regime de Vichy era o governo nominal de toda a França, exceto a região da Alsácia-Lorena, os militares alemães ocuparam o norte da França. Enquanto Paris se manteve a capital de jure da França, o governo decidiu mudar-se para a cidade de Vichy, a 360 km ao Sul na Zona Livre, a qual se tornou a capital de fato do Estado francês. A seguir aos desembarques Aliados no Norte da África francês em novembro de 1942, o Sul da França também foi militarmente ocupado pela Alemanha e Itália. O regime de Pétain manteve-se em Vichy constituindo-se como representação de governo nominal da França, embora claramente administrado como Estado cliente de fato da Alemanha a partir de novembro de 1942 em diante. O governo de Vichy manteve-se, nominalmente, no papel até ao fim da dramaturgia da guerra, embora tenha perdido toda a sua autoridade de fato no final de 1944, quando os Aliados libertaram toda a França. No início, durante as guerras revolucionárias francesas esses estados foram erigidos como as chamadas Républiques soeurs ou “repúblicas irmãs”. Foram criadas na Itália (República Cisalpina no Norte da Itália, República Partenopéia no Sul da Itália, Suíça, Bélgica e Holanda como uma República e uma Monarquia. Durante o Primeiro Império Francês, enquanto Napoleão e o exército francês conquistavam a Europa, tais estados foram alterados, e novos formados. As italianas foram transformadas no Reino da Itália sob o domínio direto de Napoleão no Norte e o Reino de Nápoles, no Sul, sob o governo de José Bonaparte e adiante sob o governo do Marechal do Império Joachim Murat.

Após ter sido nomeado Premier pelo Albert Lebrun, como Presidente da França de 1932 a 1940, o último da Terceira República Francesa, o marechal Pétain ordenou que os representantes militares do governo assinassem um armistício com a Alemanha em 22 de junho de 1940. Em seguida, Pétain estabeleceu um regime autoritário quando a Assembleia Nacional da Terceira República francesa lhe concedeu plenos poderes em 10 de julho de 1940. A partir daquela data a Terceira República foi dissolvida. Apelando à “Regeneração Nacional”, o governo francês em Vichy anulou muitas políticas liberais e começou um controle rígido da economia política, tendo como característica fundamental o planejamento centralizado. Os sindicatos ficaram sob controlo apertado do governo. A independência da mulher foi revertida, com a ênfase colocada na maternidade. Os católicos conservadores ganharam um papel de destaque. Paris perdeu o seu estatuto de cidade vanguardista em termos de arte e cultura europeia. Os meios de comunicação passaram a ser controlados, passando a transmitir mensagens antissemitas e, a partir de junho de 1941, antibolcheviques. O Estado francês manteve a soberania nominal sobre a totalidade do território francês, mas apenas tinha plena soberania na Zona Livre ocupada a Sul. O Estado autoridade civil, e mesmo esta era limitada, no Norte de Zonas sob ocupação militar. A ocupação seria “uma situação provisória enquanto se aguardava pela conclusão da guerra, o que não parecia iminente”. 

A ocupação apresentava pequenas vantagens, tais como manter a Marinha francesa e o império colonial francês sob controle francês, e evitar a completa ocupação do país pela Alemanha, mantendo um grau de Independência e neutralidade francesas. O governo francês em Vichy nunca se aliou ao Eixo. Começando em maio de 1941, o Việt Minh, forma curta de Việt Nam Ðộc Lập Ðồng Minh Hội, (Liga pela Independência do Vietnã), um exército comunista liderado por Ho Chi Minh, começou uma revolta contra o domínio francês, reconhecida como a Primeira Guerra da Indochina. Em Saigon, o anticomunista Estado do Vietname, liderado pelo antigo imperador Bao Dai, recebeu a Independência em 1949. Após o Acordo de Genebra de 1954, o Viêt Minh tornou-se o governo do Vietname do Norte, embora o governo Bao Dai continuasse a governar no Vietname do Sul. A capital foi transferida de Saigon, na Cochinchina, para Hanoi (Tonkin), em 1902. Durante a 2ª guerra mundial, a colônia foi administrada pela França de Vichy e esteve sob ocupação japonesa. Em maio de 1941, o Viêt Minh, começou uma rebelião popular contra o domínio francês, reconhecida como a Primeira Guerra da Indochina. Em Saigon, o anticomunista Estado do Vietname, liderado pelo imperador Bao Dai, recebeu a Independência em 1949. Após o Acordo de Genebra de 1954, o Viêt Minh tornou-se o governo do Vietname do Norte, embora o governo Bao Dai (1913-1997) continuasse a governar no Vietname do Sul. A França esteve politicamente envolvida no Vietname no Século XIX, protegendo o trabalho da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris. O Império do Vietname (11/03/1945) via os missionários católicos cada vez mais como uma ameaça tanto política quanto moralista; as cortesãs, uma facção influente no sistema imperial, temiam pelo status de sociedade influenciada por uma insistência na monogamia. A pista Ngõ 224 Lê Duẩn foi construída pelos franceses em 1902 e é uma linha férrea ativa em 2023.

Metodologicamente à frente do interesse sociológico do presente, segundo Elias (2011) encontramos processos de prazo longo relativamente curto e, em geral, apenas problemas relativos a um dado estado da sociedade. As transformações a longo das estruturas sociais e, por conseguinte, também, das estruturas da personalidade, perderam-se de vista na maioria dos casos. A sua compreensão pode ser facilitada por uma curta indicação dos vários tipos que esses processos assumem. Inicialmente, podemos distinguir duas direções principais nas mudanças estruturais das sociedades: as que tendem para maior diferenciação e integração, e as que tendem para menos. Além disso, há um terceiro tipo de processo social, no curso do qual é mudada a estrutura da sociedade, ou de alguns de seus aspectos particulares, mas sem haver tendência de aumento ou diminuição no nível de diferenciação e integração. Por último, são incontáveis as mudanças na sociedade que não implicam mudança em sua estrutura. A demonstração de uma mudança em emoções e estrutura de controles humanas que ocorre ao longo de gerações, e na mesma direção ou, em curtas palavras o aumento do reforço e diferenciação dos controles – gera outra questão: é possível relacionar essa mudança social a longo prazo nas estruturas da personalidade com mudanças a longo praz na sociedade como um todo, que de igual maneira tendem a uma direção particular, a um nível mais alto de diferenciação e integração social? No tocante a essas mudanças estruturais a longo prazo da sociedade, falta também a prova empírica. A formação dos Estados nacionais constitui um tipo de mudança estrutural. As relações sociais comerciais franco-vietnamitas começaram logo no Século XVII com a missão do padre jesuíta Alexandre de Rhodes, S. J. (1591-1660).

Em um esforço provisório de uma teoria da civilização, elabora-se um modelo, a fim de demonstrar possíveis ligações entre a mudança a longo prazo nas estruturas da personalidade no rumo da consolidação e de diferenciação dos controles emocionais, e a mudança a longo prazo na estrutura social a um nível de diferenciação e integração, visando a uma diferenciação e prolongamento das cadeias de interdependência e à consolidação dos “controles estatais”.  Neste momento, o Vietnã estava apenas começando a ocupar o Delta do Mekong, antigo território do indianizado Reino de Champa, que ele havia derrotado em 1471. O envolvimento europeu no Vietname se limitava ao comércio durante o Século XVIII. Em 1858, o breve período de unificação sob o Império do Vietname terminou com um ataque bem-sucedido em Da Nang pelo almirante francês Charles Rigault de Genouilly (1807-1873), sob as ordens de Napoleão III. Com a missão diplomática de Charles de Montigny tendo falhado, a missão Genouilly foi enviada para interromper as tentativas de expulsar os missionários católicos. Suas ordens eram para interromper a perseguição de missionários e garantir a propagação desimpedida da fé. Em setembro, 14 navios franceses, 3 000 homens e 300 soldados filipinos fornecidos pelos espanhóis atacaram o porto de Tourane, atual Da Nang, causando danos significativos, e ocupando a cidade. Após alguns meses, Rigault teve de deixar a cidade devido a questões de suprimentos e doenças. Em 1787, Pigneau de Behaine, um sacerdote católico francês, solicitou e organizou voluntários militares franceses para auxiliar Gia Long na retomada das terras da família perdidas para a Dinastia Tay Son. Pigneau morreu no Vietnã, e suas tropas lutaram até 1802 na assistência francesa a Gia Long. 

A França esteve fortemente envolvida no Vietnã no Século XIX, protegendo o trabalho da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris. O Império do Vietnã via os missionários católicos cada vez mais como expressão de uma ameaça política; as cortesãs, uma facção influente no sistema imperial, temiam por seu status libertário em uma sociedade influenciada por insistência na monogamia. A Fome do Vietnã ocorrida em 1944-45 representou um momento do final da Segunda Guerra Mundial que foi diretamente dada pela invasão japonesa em terras vietnamitas, vividas em meio ao caos político e econômico que ali havia se instalado. A relação entre japoneses e franceses mudaram rapidamente depois que o exército alemão começou a recuar rapidamente do território francês. O que fez com que o Japão perdesse substancialmente a confiança no poder político da França e, portanto, nas autoridades francesas localizadas no Vietnã. Em 9 de março de 1945 o Japão então detém o território vietnamita e, portanto, o breve Império do Vietnã. Com esta estratégia o Japão constrangeu a Indochina Francesa a fornecer grãos e arroz para os invasores japoneses. Em regiões onde a fome era estabelecida de forma concreta e substancial, como ocorrera quase que simultaneamente tanto no Vietnã, quanto no Reino do Cambodja e na República Socialista do Laos, haviam em torno de 10 milhões de habitantes, sendo que desgraçadamente 2 milhões dentre esses habitantes morreram por conta da fome. Em paralelo, a Viet Minh toma frente da situação e em março de 1945, a população faminta de Indochineses Franceses resolve atacar os armazéns junto da Liga de Independência do Vietnã. Além dos conflitos sociais com relação à fome, os povos daquela Indochina Francesa tiveram vários outros conflitos que se estenderam até 1975 com o fim da Guerra do Vietnã, que sucedeu a Primeira Guerra da Indochina.  

Bibliografia geral consultada.

MURRAY, Martin John, The Development of Capitalism in Colonial Indochina (1870-1940). Berkeley: University of Califórnia Press, 1980; MESQUITA, Luciano Pires, A “Guerra do Pós-Guerra”: O Cinema Norte-Americano e a Guerra do Vietnã. Dissertação de Mestrado em História. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2004; TRINQUIER, Roger, La Guerre Moderne. Préface de François Géré. Paris: Edition Economia, 2008; VISACRO, Alessandro, Guerra Irregular: Terrorismo, Guerrilha e Movimentos de Resistência ao Longo da História. 1ª edição. São Paulo: Editora Contexto, 2009; JACOBS, Jane, Morte e Vida de Grandes Cidades. Trad. Carlos S. Mendes Rosa. 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora ‏WMF Martins Fontes, 2011; ELIAS, Norbert, “Apêndice: Introdução à Edição de 1968”. In: O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Volume 1. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2011; pp. 207-241; BENJAMIN, Walter, Passagens. 1ª reimpressão. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas Gerais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007; Idem,  Rua de Mão Única. Obras Escolhidas. Volume II. São Paulo: Editora Brasiliense, 2011; SCHVARSBERG, Gabriel, Rua de Contramão: O Movimento como Desvio na Cidade e no Urbanismo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Faculdade de Arquitetura. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2011; LI, Ye, Os Clássicos Chineses da Tradução: Um Estudo da Evolução da Teorias da Tradução na China. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos de Tradução. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2014; MELLO, Natália Nóbrega, Os Intelectuais Saem da Guerra: A Intervenção do Vietnã, a “Foreign Police Magazine” e a Construção Político-intelectual de Novos Paradigmas e Estratégias. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Ciência Política. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; FRIEDMAN, Marcela Fischer, O Perfil de Força dos Estados Unidos: O Estudo de Conjunturas Críticas e o Período entre a Guerra do Vietnã e a Guerra do Iraque. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais. Faculdade de Ciências Econômicas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019;  MAIA, Eduardo, “Conheça a Linha de Trem no Vietnã que Virou Febre nas Redes”. Disponível em: https://turismo.ig.com.br/2022/10/03/; entre outros. 

sábado, 16 de setembro de 2023

Lhama – História, Vivência & Integração dos Povos Andinos.

                         “Os andinos não eram simplesmente cuidadores de lhamas”. Emily Wakild (2021)    

A lhama, do quíchua llama (cf. Arguedas, 1976), representa um mamífero ruminante da América do Sul, da família dos camelídeos, gênero Lama. É um animal de pelagem longa e lanosa, domesticado para a utilidade de uso no transporte de carga e na produção de lã, carne e couro. O lhama tem pelagem longa, a coloração varia bastante indo desde o branco, marrom e chegando a tons mais escuros, alimenta-se de capim e mato. Estes animais medem de 1,40 metros a 2,40 metros contando com a cauda de 25 centímetros e chegam a pesar 150 Kg. A gestação dura 11 meses e nasce normalmente 1 filhote chegando a pesar 11 kg. Os adultos chegam a viver até 24 anos. É relacionada com o guanaco, a vicunha e a alpaca. Foram domesticadas pelo povo inca, tendo sido importantes para seu desenvolvimento. O uso têxtil das fibras retiradas desses animais é cultural e acredita-se iniciado há 2.500 anos. As lhamas vivem na cordilheira dos Andes em temperaturas são baixas. A Bolívia é o país de concentração de lhamas, com mais de 2 milhões de indivíduos. As pelagens servem para protegê-las do frio, além de arranhões e ferimentos.

Não por acaso, alguns leitores podem argumentar que os animais evocam fantasias, se não a heresia, naqueles que lhes atribuem significado moral. Ainda assim, segundo Scully (2018: 18 e ss.), em geral temos que o mais violento entre nós é aquele que vive na fantasia, numa ilusão de que as coisas da natureza não significam nada e de que tudo é permitido. Entretanto, o sentimentalismo em relação aos animais pode ser excessivo, assim como o realismo cruel, que vê apenas o que quer nos seres vivos, sem ver os seres em si.  Apenas pelo fato de nos inspirarem humildade e deslumbramento, essas criaturas já nos são de grande significado. Nenhum pardal cai sem que Deus o perceba, mas nós não damos a isso a devida importância para o que temos. Talvez seja esse o motivo de muitas crianças serem tão ligadas a animais; elas veem tudo com frescor, sem serem refratários às imagens milagrosas que surgem deles, esses seres animados que correm, latem, arfam ou trinam. Animais também dividem com as crianças o laço da extrema vulnerabilidade. Os dois são os primeiros a sentir o âmago da aspereza humana. Minhas memórias mais antigas são as de perseguir o rastro deixado por um coelho na neve do quintal nos fundos de minha casa. 

Eu devia ter uns 3 anos e nunca tinha visto um coelho, mas ainda lembro bem o sentimento de completa fascinação com o rastro: alguém estivera lá.  E deixara aquelas marcas, estava vivo, morava ali perto e talvez até me olhando naquele exato momento de pura simbiose. - Quarenta anos depois, ninguém precisa me lembrar que coelhos são uma dor de cabeça para fazendeiros e jardineiros. Mas ao se olhar um coelho e ver apenas uma peste, um animal daninho ou um alimento, mercadoria ou objeto de laboratório, não se está mais vendo um coelho, mas apenas a si mesmo, as estruturas e os desejos que o ser humano traz ao mundo. Ao enxergar desse modo, pense nisso, você tem a perspectiva de um animal, e não a de um ser moral, com visão moral – a mesma perspectiva de um ser daninho, entre bilhões deles que se agitam, pula, ou escavam buracos pelo planeta. Coelhos são capturados por seus inimigos, como a raposa e o lobo, num bote sangrento. E é isso. São criados em gaiolas aos milhões para servirem de comida e para a pesquisa médica, por pessoas com questões maiores e mais urgentes na cabeça do que o lugar desses animais na criação. Nada demais, se visto de cima. E ainda assim, dizem-nos que Deus tudo sabe e tudo vê – e eu acredito nisso. Em seu O Macaco Nu: Um Estudo do Animal Humano, de 1967, Desmond Morris descreve sete estágios de nossa visão dos animais, cada uma a refletir uma fase de nosso desenvolvimento psicológico.

Uma delas, por exemplo, representa a infância, “quando somos completamente dependentes de nossos pais e reagirmos fortemente a animais muitos grandes, usando-os como símbolos de país”. Em seguida vem a fase infantil-parental, quando percebemos animais menores como substitutos simbólicos de crianças, mecanismo similar ao de uma das últimas fases, o estágio pós-parental. Há ainda a fase senil, quando se tem uma grande preocupação com animais em extinção. A popularidade da proteção entre os jovens surgiu, ele teoriza, do crescimento do medo da explosão nuclear, “de modo que agora temos necessidade emocional de animais que sirvam como símbolos de raridade”. Há, sem dúvida, alguma verdade na visão puramente evolutiva e psicanalítica de Morris de que animais são símbolos para nós – e eu odeio pensar em qual seria sua opinião sobre minha história co coelho. Os animais têm aparecido na nossa arte e literatura ao longo do tempo, representando de tudo, de tentação a virilidade, temor e inocência injustiçada. Acredito se poderia colocar, como fonte de interesse sobre “símbolos de raridade”, no lugar de ameaça iminente de aniquilação (como proposta por Morris), uma sensação bem difundida de alienação, para o jovem Marx, e desligamento ao mundo natural. Falta à visão do “macaco nu” o ser humano ser consciente, o símio que pode em vários momentos captar algo além das próprias necessidades físicas e fisiológicas. 

Morris encontra apenas razões científicas ou estéticas para proteger qualquer criatura ou espécie, como o “corte controlado” de animais ou outros meios semelhantes – em qualquer caso a proteção é para nós mesmos. Em minha opinião, afirma Scully, ele dá pouca atenção a uma das fases: o estágio da empatia, quando se começa a perceber até o mais comum dos animais em seus próprios termos, criaturas do mesmo tipo que nós, com suas próprias necessidades e dificuldades, e que estão lado a lado conosco diante do mistério da vida e da morte – e, por maiores que sejam nossos dotes, essas criaturas não são menos esclarecidas que o mais sábio dos macacos nus no que diz respeito ao significado da existência. Essa afinidade é, razão suficiente, para começar a demonstrar o máximo de cortesia possível, evitando qualquer mal desnecessário. Todos os animais já parecem correr bastante perigo. Quando os homens, com seus nobres dons e grandiosas ocupações, forem capazes de parar de pensar apenas no próprio bem-estar, simplesmente permitindo que esses animais vivam, não será necessário um reconhecimento de “direitos”. Trata-se de uma graça, um ato de clemência pelo qual teremos ainda mais crédito, uma vez que os animais não podem pedir por ele ou nos censurar caso não os atendamos, não podem sequer retribuir a gentileza. Um dia, precisaremos dessa bondade. E não se pode esperar por compaixão se esteja disposto a tê-la por outros em sociedade.                

Da família dos Camelidae artiodactyl, é um mamífero criado pelos povos andinos nativos com seleção artificial de guanaco selvagem que foram domesticados, o qual, por conseguinte, o derivou do nome existente hoje. Estudos recentes de ácido desoxirribonucleico (DNA), confirmam que isso aconteceu, em princípio, de forma independente no tempo e no espaço, em áreas do Sul do Peru, Norte do Chile, Norte da Argentina e da Bolívia ocidental. Além disso, foi maximizada originalmente pelo império Inca que foi usado como um animal para o sacrifício, carne e lã, e foi aproveitado como um animal de carga antes da colonização dos espanhóis na América, quando na verdade os animais utilizados eram os cães inuit. A lhama pela taxonomia também é reconhecida como uma subespécie do guanaco. No mesmo sentido, é um híbrido entre uma lhama e um camelo, demonstrando a proximidade genética entre as duas tribos na subfamília dos camelinae. A importância econômica da lhama é vista desde os tempos das ruínas de Quilmes, em Tucumán. Antes da presença espanhola, as lhamas estavam representadas na cerâmica moche. Ademais, foram os únicos animais domésticos com cascos do Império Inca. Eles foram apreciados não apenas como animais de carga, mas também para a carne e lã. Até a invasão dos espanhóis no âmbito do processo civilizatório, as lhamas foram usadas ​​no lugar do cavalo, boi, cabra e ovelha, com origem no chamado Velho Mundo, mas a pouca eficiência fez tornar mais rapidamente deslocada para o fundo para não comprá-lo.

Allincapac é uma montanha nos Andes do Peru. É o pico mais alto da cordilheira de Carabaya, chegando a 5.805 metros. Allincapac está localizado na região de Puno, Província de Carabaya, distrito de Macusani, ao Sul de Huaynaccapac, a Nordeste de Chichicapac e ao Norte do Lago Chaupicocha. A província de Carabaya é uma das treze que conformam o Departamento de Puno no Sul do Peru. Limita pelo Norte com o Departamento de Madre de Dios; por Leste com a província de Sandia; pelo Sul com a província de Azángaro e a província de Melgar; e, pelo Oeste com o Departamento de Cusco. Desde o ponto de vista hierárquico da Igreja católica forma parte da prelatura de Ayaviri, que é poder pessoal e parte da Igreja Católica, composta por determinados fiéis e está estruturada de modo hierárquico, de sufrágio da Arquidiocese de Arequipa. Dada sua localização, durante o período do Vice-Reino do Peru o território foi alvo de várias expedições destinadas a localizar a lendária cidade perdida de Paititi, as mesmas que deixaram a sua marca na instalação de cidades e postos de missionários.  Reconhecidas são as expedições de Pedro de Candia, Anzúrez, Ñuflo de Chávez, Álvarez Maldonado, Recio de León e Diego de Zecenarro, as mesmas que lançaram as bases para incorporar esses territórios ao Peru, durante as questões do conflito social e político de fronteira com a Bolívia nos primeiros anos do século XX. Este território de origem pré-inca está atribuída à jurisdição do Puno na sua criação (1776), embora nunca deixasse de pertencer ao domínio histórico do bispado de Cuzco. O filme foi rodado e ambientado em cinco semanas, na neve de Allincapac, nas pegadas do Puno, no Peru.     

A lhama, do quíchua llama, é um mamífero ruminante da América do Sul, da família dos camelídeos, gênero Lama. É um animal de pelagem longa e lanosa, domesticado para a utilização no transporte de carga e na produção de lã, carne e couro. A lhama é relacionada com o guanaco, a vicunha e a alpaca. Foram domesticadas pelo povo inca, tendo sido muito importantes para o desenvolvimento desse povo. As lhamas vivem na cordilheira dos Andes, onde as temperaturas são baixas. Assim, as pelagens servem para protegê-las do frio, além de arranhões e outros ferimentos. A Bolívia é o país em que se concentra o maior número de lhamas, com mais de 2 milhões de indivíduos. Estes animais conseguem sobreviver em locais onde não são encontrados outros animais. Muitas vezes os lhamas são associados a ovelhas e com elas são colocados para pastar em locais onde não é possível haver agricultura. Além disso, os lhamas são usados para transporte de mercadorias, e também são utilizadas a sua carne, o couro, as fibras e o estrume para cozinhar alimentos e como fertilizante natural.  O uso têxtil das fibras retiradas desses animais é cultural e acredita-se que se iniciou há 2.500 anos. Os produtos deste mamífero doméstico constituem o principal meio de apoio para produtores e com a escassez de recursos nos países centrais da América do Sul incluindo Equador, Peru, Bolívia, Argentina e Chile, tornou-se uma fonte de sobrevivência. O uso de fibras produzidas pelos espécimes selvagens ainda é naturalmente limitado, mas é potencial e importante para a sobrevivência de algumas populações. Estima-se que a produção de lhamas beneficia 37.000-50.000 famílias de produtores em locais escassos de recursos. No entanto, esta produção ainda não representa uma forma direta de reduzir a pobreza e marginalização dos seus produtores. O lhama tem pelagem longa e lanosa, a coloração varia bastante indo desde o branco, marrom e chegando a tons mais escuros, alimenta-se de capim e mato. Estes animais medem de 1,40 m a 2,40 m contando com a cauda de 25 cm e chegam a 150 Kg. A gestação dura 11 meses e nasce normalmente 1 filhote chegando a 11 kg. Os adultos chegam a viver até 24 anos de idade.

É definitivamente parte da atual Região de Puno desde 1912. Antes, a Bolívia disputava parte de Carabaya com base no uti possidetis da Audiência de Charcas em 1810; e o Peru finalmente afirmou o direito de filiação clerical ao bispado de Cuzco e integração de fato com 70% das comunicações anteriores ao século XX eram com Sicuani; 20% com Azángaro e 10% com Larecaja (Bolívia), relatado sobre Manuel Pando, na viagem para Carabaya (1902). As diferenças de critérios são esclarecidas com a arbitragem argentina, primeiro em 1902, e dez anos depois é reconfirmada com a aceitação do protocolo binacional pelos congressos das Repúblicas. Isso acabaria com parte da precária condição de delimitação de territórios trinacionais do Brasil, Bolívia e Peru, com a qual as três Repúblicas haviam se formado no início do glorioso século XIX. Os primeiros autores latino-americanos designam esta antiga cidade-território como a cidade dos grupos Callahuayas, Carwayas, Calabayas, Carabayas,  Kallawayas, todos topônimos do mesmo espaço e lugar, para diferenciá-lo dos igualmente antigos Canchis, Chunchos, Canas, Omasuyos, Collas, Muxus, ou outras cidades que existiram  e cujos vestígios arqueológicos ainda sobrevivem entre Cuzco, Madre de Dios, Larecaja, La Paz, Beni, Pando e a atual Puno Por ser uma província, este território dá provas de ter sido  habitado por uma população que se desenvolveu longe e diferente da influência dos Canchis de Sicuani (hoje), dos Canas ou dos Chunchos de Madre de Dios e Larecaja (Bolívia), e quase  sem contato com as remotas Collas de Puno e Omasuyos. As lhamas eram e ainda são comumente usadas nos Andes peruanos “para carregar produtos e prover carne e lã”. O lago Marcaccocha se localiza próximo a uma rota de comércio, e lhamas que transportavam bens de consumo entre a selva e as montanhas.

 À medida que os incas adotaram o milho em sua alimentação, sua sociedade se desenvolveu na região de Cuzco. Cerca de 1,8 mil anos desde o início da transição para a agricultura, uma onda prolongada de clima cálido permitiu que os incas realmente prosperassem e construíssem grandes assentamentos de pedra, como Machu Picchu e Ollaytaytambo. Faz tempo que a civilização acabou, destruída por conquistadores espanhóis nos anos 1500. Mas seus descendentes, os quéchuas, ainda usam os dejetos de lhama como fertilizantes e como combustível para aquecimento. - “O vale está repleto de indígenas que seguem esse estilo de vida de 2 mil anos”, relata Chepstow-Lusty. Quando os convidados chegarem a Machu Picchu para celebrar o que explorador Hiram Bingham (1875-1956) mostrou ao mundo o local, talvez possam agradecer à humilde lhama ao vislumbrar as construções. Ele tornou pública a existência da cidadela Inca de Machu Picchu em 1911, com a orientação de criadores indígenas locais, entretanto, não era um arqueólogo treinado. No entanto, foi durante o tempo trabalhando como conferencista e professor de história da América do Sul em Yale que ele redescobriu a cidade inca amplamente esquecida de Machu Picchu.

Durante os séculos que se seguiram, sua existência era considerada um segredo conhecido apenas pelos camponeses que viviam naquela zona. Tudo mudou no verão de 1911, quando o explorador lá chegou acompanhado de uma pequena equipe em busca das cidades perdidas dos incas. Caminhando a pé e no lombo de mulas, Bingham e seu grupo abriram caminho em direção a Cuzco através do Vale de Urubamba, onde um fazendeiro do lugar contou-lhes a respeito de ruínas localizadas no topo de uma montanha próxima. Em 24 de julho de 1911, Melchor Arteaga levou Bingham a Machu Picchu, mas os exploradores de Cuzco Enrique Palma, Gabino Sanchez e Agustín Lizarraga teriam chegado ao local em 1901. Bingham retornou ao Peru em 1912, 1914 e 1915 com o apoio de Yale e da National Geographic Society. Em A Cidade Perdida dos Incas (1948), Bingham relatou como Machu Picchu abrigava um grande santuário religioso e servia como centro de treinamento para líderes religiosos. Um elemento chave do legado das expedições são as coleções de animais, antiguidades e restos de esqueletos humanos. Esses objetos expuseram a nova visão do antigo Peru e permitiram que os analistas do século XX interpretassem Machu Picchu como uma “cidade perdida” que Bingham combinou sua confiança na prospecção de huaqueros locais.

Além disso, com a noção de que a ciência tinha uma reivindicação soberana sobre os artefatos que pudessem contribuir para o acúmulo de conhecimento. A Universidade de Yale em 2012 começou a devolver ao Peru milhares de objetos que Bingham levou para Yale, de Macchu Picchu, com a permissão de um decreto do governo peruano. Mas o Peru argumentou que os objetos não foram dados, apenas emprestados a Yale. O Caribe e a América Latina trazem marcado em fogo e em sua carne, como animais, os muitos vendavais colonizadores que, passando como tempestades, deixaram cicatrizes em sua identidade cultural, étnica e linguística. A presença de população negra na América Latina configura um fato histórico e social: o homem é a propriedade e a história da humanidade é a história dos regimes de propriedade. A transferência forçada de milhões de africanos para a América, sob o regime de trabalho escravo, impôs às formações sociais, em diversas áreas o caráter colonial-escravista. Os índios também conheceram o trabalho forçado e a escravidão, mas não da maneira como as sociedades inteiras no Caribe, no Sul dos Estados Unidos e no Brasil, que estiveram organizados a partir da escravidão africana e em vista de sua manutenção e de sua reprodução como sociedades escravistas.

E para compreender e interpretar o curso da história colonial, é preciso acentuar que a produção de gêneros tropicais fez parte desse movimento em que se generalizavam as relações de troca. A grande propriedade colonial sintetizou dois princípios reguladores da vida social: produção direta dos meios de vida e produção do lucro, que são essencialmente contraditórios. O desenvolvimento de ambos e o crescimento dos mercados, na Europa e na colônia, formaram uma rede unitária de condicionamentos sociais. Também entrelaçado nesta rede está o destino do homem livre e pobre, com uma existência quase dispensável, mas que por longo tempo o colocou a salvo de transformar-se num assalariado. O trabalho livre na Europa e na colônia se negam e se condicionam através da escravidão, mas com o latifúndio e a escravaria se instala um modo de produção presidido pelo capital, vale dizer, um sistema particular de dominação social. Claro está que não pode mais ser considerada a persistência de uma América ameríndia como a Bolívia aimará, o Peru quéchua ou quíchua ou a Guatemala borbulhante de renascimento indígena. 

E, no entanto, estão ali os nomes a lembrar, com força o passado como “Caribe” dos povos “Karib” ou então os velhos nomes das ilhas, como “Borinquen” para Porto Rico. Finalmente Porto Rico converte-se em “Puelto” e o R de Rico é pronunciado de maneira branda. Nos países de colonização francesa, a língua de Racine falada por uma minúscula elite dirigente ante uma massa de escravos negros no Haiti, na Martinica, em Guadalupe, foi recebida, triturada, adaptada para ressurgir um novo idioma, mais mavioso e adocicado, o “creole”, o único falado pela massa da população de todas as origens. Ipso facto, o Caribe não pode ser mais considerado América Latina, pelas vastas porções decolonização inglesa, pelas áreas de ocupação norte-americana, compradas aos dinamarqueses em 1971, e de colonização holandesa. Em Curaçao as sucessivas colonizações, espanhola, inglesa, francesa, holandesa, produziram uma língua singular, o papeamento: mistura de inglês, espanhol e português, síntese viva do difícil processo de comunicação em áreas que cruzaram tradições indígenas com tradições africanas, tradições latinas com tradições saxônicas e germânicas. São traços comuns entre Caribe e América Latina: o prolongamento do colonialismo, que não se interrompeu com as lutas de independência entre 1810-1824, maciça escravidão negra, pesado neocolonialismo, mosaico de religiões e culturas.      

A lhama é reconhecida pelo seu “estilo calmo”, andando devagar, porém pode se irritar facilmente: por este motivo, foi considerada o oitavo animal mais irritável do mundo segundo o canal de televisão por assinatura Animal Planet, com sede nos Estados Unidos da América e transmitido também para a América latina. Estabelecido pela primeira vez em 1° de outubro de 1996, a rede é dedicada principalmente as séries e documentários sobre “animais selvagens e animais domésticos”. Quando irritada ou para chamar a atenção, espirra seu muco no objeto da irritação. Médicos e pesquisadores determinaram que os lhamas possuem anticorpos que seriam adequados para o tratamento de certas doenças. Estes animais conseguem sobreviver em locais de regiões onde não são encontrados animais. Os lhamas são associados a ovelhas e com elas são colocados para pastar em locais onde não é possível haver agricultura. Além disso, os lhamas são usados para transporte de mercadorias, e também são utilizadas a sua carne, o couro, as fibras e o estrume para cozinhar alimentos e como fertilizante natural. As lhamas têm milhares de anos de história entrelaçada com os povos com que compartilham as culturas da América do Sul.

Os produtos deste mamífero doméstico constituem o principal meio de apoio para produtores e com a escassez de recursos nos países centrais da América do Sul incluindo Equador, Peru, Bolívia, Argentina e Chile, tornou-se uma fonte de sobrevivência. O uso de fibras produzidas pelos espécimes selvagens ainda é limitado, mas é potencialmente importante para a sobrevivência de algumas populações. Estima-se que a produção de lhamas beneficia de 37.000 a 50.000 famílias de produtores em locais escassos de recursos. No entanto, do ponto de vista econômico esta produção “ainda não representa uma forma direta de reduzir a pobreza e marginalização dos seus produtores”. As lhamas estabelecem grupos de 20 indivíduos, constituídos por várias fêmeas, suas crias, jovens e um macho dominante que estabelece a hierarquia do grupo. E, também são habituadas a se aproximarem de pessoas, pois são animais domesticados que estão acostumadas a conviver com humanos. As lhamas são animais, comparativamente ao homem contemporâneo, que se relacionam bem com as pessoas, mas elas cospem para dissuadir ou advertir, por isso que realmente não são perigosas. Na verdade, em alguns centros de saúde são usadas como animais de companhia para pessoas com patologias de ansiedade, depressão porque geram uma sensação de bem-estar, o que indica que são bons animais para estar com os seres humanos e não o contrário.

A tese ambiental que Emily Wakild (2021) sustenta no artigo: “Aprendendo com a Lhama” é que ela não pode ser entendida em separado desse contexto, não importa onde uma lhama individualmente viva. Uma lhama não pode ser retirada de contexto, como um unicórnio ou um dragão imaginário, sem que isso cause danos aos animais ou humanos envolvidos. O dano ocorre ao ser negada aos andinos a ação social e a autenticidade na criação do mundo moderno e ao se falsificarem as experiências reais e vividas dos animais. Ao marginalizar, ignorar e apagar as contribuições dos povos andinos e das lhamas, para o tempo presente, negam-se a ambos a capacidade de moldar seus próprios mundos de vivência e o poder de contribuir para as tendências globais compartilhadas. Colocar as lhamas na esfera abstrata da ficção, em vez de as situar no dramático âmbito cotidiano da produção de conhecimento, reduz as possibilidades de desenvolvimento das interações entre multiespécies. Os andinos não eram simplesmente cuidadores de lhamas, tanto quanto você é cuidador(a) da sua mãe; eles são “de” e “para” as lhamas, em um contexto rico e abrangente que expande as compreensões sobre o passado. Uma lhama não existe em isolamento; o que a lhama é presentemente se deve aos processos de domesticação, colonialismo (cf. Oliveira, 1968), libertação e expansão vivenciados pelos povos andinos. A lhama tem como representação uma entre quatro espécies de camelídeos, ou seja: lhama, alpaca, guanaco e vicunha, nativas dos países Equador, Peru, Bolívia, Argentina e Chile. 

A lhama e a alpaca foram domesticados de espécies. Geneticamente, as quatro espécies de camelídeos sul-americanos têm o mesmo pareamento e ordenamento de cromossomos, indicando que não divergiram tanto quanto felinos e caninos, por exemplo. Após décadas de debates, testes de DNA indicaram que a lhama é descendente do guanaco selvagem e a alpaca descende da vicunha selvagem. Mas a hibridização tem sido a regra entre as duas espécies domesticadas, lhama e alpaca; isso nem sempre pode ser identificado ao olhar, e normalmente produzem prole fértil. A natureza profunda molda o panorama humano, porque a ausência ou presença de grandes animais apropriados para a domesticação permite diferentes adaptações e especializações entre os humanos. A questão de Wakild é: o que podemos aprender com as lhamas? Pensar sobre a lhama é interessante porque ela não simboliza fortemente à ubiquidade e o excesso do Antropoceno, como as galinhas, cujos ossos podem formar uma camada geológica, nem é como o pangolim, tão raro e próximo da extinção que seu exotismo é considerado culpado pela tóxica fetichização dos animais, não necessário, mas suficientemente especial para fazer com que os demais ingredientes pareçam harmonizados. A lhama é invariavelmente descrita em tempos como alcançável, acessível, flexível, fácil e até comum. Logo, a lhama parece ser compreendida, mas não é inteiramente compreensível.

Três abordagens analíticas oferecem uma compreensão sobre a utilidade da lhama. Na primeira abordagem, o conceito de biopolítica nos permite situar o animal nos regimes de poder e conhecimento sistemático da vida e, também, em importantes subjetividades. A biopolítica oferece uma alternativa à bioética, que busca questões mais amplas e se move para além de respostas arbitrárias. Parece-nos que um dos fenômenos fundamentais do século XIX foi, é o que se poderia denominar a assunção da vida pelo poder: se vocês preferirem, uma tomada de poder sobre o homem enquanto ser vivo, uma espécie de estatização do biológico ou, pelo menos, uma certa inclinação que conduz ao que se poderia chamar de “estatização do biológico”. Para compreender o que se passou, podemos nos referir ao que a teoria clássica da soberania que, em última análise, serviu-nos de pano de fundo, do quadro paras todas as análises sobre a guerra, as raças etc. Na teoria clássica da soberania, o direito de vida e morte era um de seus atributos fundamentais. Em certo sentido, dizer que o soberano tem direito de vida e de morte, significa no fundo, que el pode fazer morrer e deixar viver; em todo caso, que a vida e a morte desses fenômenos naturais, imediatos, de certo modo originais ou radicais, que se localizariam fora do campo do poder político.

Ao que essa nova técnica de poder não disciplinar se aplica é – diferentemente da disciplina, que se dirige ao corpo – a vida dos homens, ou ainda, ela se dirige não ao homem-corpo, mas ao homem vivo, ao home ser vivo; no limite, se vocês quiserem, ao homem-espécie. A disciplina tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa multiplicidade pode e deve redundar em corpos individuais que devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente punidos. E, depois, a nova tecnologia que se instala se dirige à multiplicidade dos homens, não na medida em que ela forma, ao contrário, uma massa global, afetada por processos de conjunto que são próprios da vida, que são processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença, etc. Logo, depois de uma primeira tomada de poder sobre o corpo que se fez consoante o modo de individualização, temos uma segunda tomada de poder que, por sua vez, não é individualizante, mas que é massificante, que se faz em direção não do homem-corpo, mas do homem espécie. Depois da anatomopolítica do corpo humano, instaurada no decorrer do século XVIII, vemos algo que já não é uma anatomopolítica do corpo humano, mas o que Foucault chamaria de “biopolítica” da espécie humana. De que se trata nessa nova tecnologia do poder, nessa biopolítica, nesse biopoder se instalando?

Trata-se de um conjunto de processos como a proporção dos nascimentos e dos  óbitos, a taxa de reprodução, a fecundidade de uma população, etc. São esses processos de natalidade, de mortalidade, de longevidade que, juntamente com uma porção de problemas econômicos e políticos, constituiriam os primeiros objetos de saber e os primeiros alvos de controle dessa biopolítica. É nesse momento, em todo o caso, que se lança mão da medição estatística desses fenômenos como as primeiras demografias. É a observação dos procedimentos, mais ou menos espontâneos, mais ou menos combinados, que eram efetivamente postos em execução na população no tocante à natalidade; em suma, o mapeamento dos fenômenos de controle dos nascimentos tais como eram praticados. Isso foi também o esboço de uma política de natalidade ou, em todo caso, de esquemas de intervenção nesses fenômenos globais da natalidade. Nessa biopolítica, não se trata simplesmente do problema da fecundidade. Trata-se também do problema da morbidade, não mais simplesmente, como justamente fora o caso até então, no nível daquelas famosas epidemias cujo perigo havia atormentado tanto os poderes políticos desde as profundezas da Idade Média. Não é de epidemias que se trata, mas de algo, grosso modo, ou aquilo que se poderia chamar de endemias, ou seja, a forma, a natureza, a extensão, a duração, a intensidade das doenças reinantes nessa população. A civilização Inca surgiu das terras altas do Peru em algum momento no início do século XIII. De 1438 a 1533, os incas usaram uma variedade de métodos, da conquista à assimilação pacífica, para incorporar uma grande porção do Oeste da América do Sul, centrado nas Cordilheira dos Andes, incluindo grandes partes dos países modernos do Equador, Peru, Bolívia, Argentina, Chile e Colômbia em um Estado comparável aos impérios históricos do Velho Mundo.

Bibliografia geral consultada.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de, “Indigenismo ou Colonialismo”. In: Revista Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. Ano IV, n° 19 e 20, maio-agosto de 1968; ARGUEDAS, José María, Señores e Índios. Acerca de la Cultura Quéchua. Buenos Aires: Acalanto Editorial, 1976; BISKY, Lothar, Critica de la Teoria Burguesa de la Comunicación de Masas. Madrid: Ediciones de la Torre, 1982; MAY, Rollo, Amor y Voluntad. Las Fuerzas Humanas que dan Sentido a Nuestra Vida. 1ª edición. Barcelona: Editorial Gedisa, 1985; FRANCH, José Alcina, Mitos e Literatura Quéchua. Madrid: Alianza Editorial, 1989; GARCÍA CANCLINI, Nestor, Culturas Híbridas. Estrategias Para Entrar y Salir de la Modernidad. México: Editorial Grijalbo, 1989; GEERTZ, Clifford, O Saber Local. Novos Ensaios em Antropologia Interpretativa. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2001; PINTO, Hugo Eduardo Meza, A Estratégia de Integração Econômica Regional na América Latina: O Caso da Comunidade Andina. Tese de Doutorado. Programa de Integração da América Latina. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006; TOURAINE, Alain, El Mundo de las Mujeres. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007; ANDRÉ, Jacques, Aux Origines Féminines de la Sexualité. Paris: Presses Universitaires de France, 2007; LARA, Amiel Ernenek Mejía, “Ch’ixinakax Utxiwa. Una Reflexión sobre Prácticas y Discursos Descolonizadores”. In: Revista de Antropologia, 56 (2), 597-604; 2013; ANNING, Caroline, “Sucesso da Civilização Inca se Deve a Dejetos de Lhama”. In: https://www.bbc.com/noticias/2011/05/22; CARVALHO, José Jorge & FLORÉZ, Juliana, “Encuentro de Saberes: Proyecto para Decolonizar el Conocimiento Universitário Eurocêntrico”. In: Nómadas, Vol. 41, 131-147; Outubro de 2014; DE LA CADENA, Marisol, Earth Beings: Ecologies of Practice Across Andean Worlds. Durham: Duke University Press, 2015; COWIE, Helen, Llama. London: Editor Reaktion Books, 2017; WAKILD, Emily, “Aprendendo com a Lhama: Sobre os Amplos Contornos de Contribuições Culturais e Expansão Geográfica”. In: História, Ciências, SaúdeManguinhos. Rio de Janeiro, vol.28, Supl., dez. 2021; GOMES JÚNIOR, Guilherme Simões, “Orientalismos zoológicos, querelas de camelos”. In: Alea 25 (1) • Jan.-Apr 2023; entre outros.