sábado, 23 de setembro de 2017

Charles Chaplin - Ritual de Reversão & Carnavalização da Sociedade.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos”. Charles Chaplin

                      

Sir Charles Spencer Chaplin, reconhecido como Charlie Chaplin (1889-1977), foi um ator, diretor, produtor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. Chaplin foi um dos atores mais famosos da chamada Era do Cinema Mudo”, notabilizado pelo uso de mímica e da “comédia pastelão”. Atuou, dirigiu, escreveu, produziu e financiou seus próprios filmes, sendo fortemente influenciado por um antecessor, o comediante francês Max Linder (1883-1925), a quem ele dedicou um de seus filmes. Sua carreira no ramo do entretenimento durou mais de 75 anos, desde suas primeiras atuações quando ainda era criança nos teatros do Reino Unido durante a Era Vitoriana quase até sua morte aos 88 anos de idade. Sua vida pública e privada abrangia adulação e controvérsia. Juntamente com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith, Chaplin fora co-fundador da United Artists, uma companhia  de cinema fundada em 5 de fevereiro de 1919. Seu principal e mais famoso personagem foi The Tramp, reconhecido internacionalmente como Charlot, na Europa, e igualmente reconhecido como Carlitos, ou “O Vagabundo”, entre nós, em análise comparada no caso do brasileiro. Consiste em um andarilho pobretão que possui todas as maneiras refinadas e a dignidade de um gentleman, usando “um fraque preto esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu-coco ou cartola, uma bengala de bambu e – sua marca pessoal – um pequeno bigode-de-broxa”.

Foi também um talentoso jogador de xadrez e chegou a enfrentar o campeão estadunidense Samuel Reshevsky. Em 2008, em uma resenha do livro Chaplin: A Life, Martin Sieff escreve: - “Chaplin não foi apenas ´grande`, ele foi gigantesco”. Em 1915, ele “estourou” um mundo dilacerado pela guerra trazendo o dom da comédia, risos e alívio enquanto ele próprio estava se dividindo ao meio pela Primeira grande Guerra. Durante os próximos 25 anos, através da Grande Depressão e da infeliz ascensão do carrasco nazista A. Hitler, ele permaneceu no emprego. Ele foi maior do que qualquer um. É duvidoso que algum outro indivíduo tenha dado mais entretenimento, prazer e alívio para tantos seres humanos quando eles mais precisavam. O termo Sétima Arte, é usado para designar o cinema; foi estabelecido por Ricciotto Canudo no “Manifesto das Sete Artes”, em 1911, embora tenha sido publicado apenas em 1923. Por sua inigualável contribuição ao desenvolvimento da Sétima Arte, Chaplin é o mais homenageado cineasta de todos os tempos, sendo ainda em vida condecorado pelo governo britânico: “Cavaleiro do Império Britânico”, pelo governo francês: “Légion d`Honneur”, pela Universidade de Oxford: Doutor Honoris Causa e pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América com o Óscar especial “pelo conjunto da obra”, em 1972.

Além de atuar, Chaplin dirigiu, escreveu, produziu e eventualmente compôs a trilha sonora de seus próprios filmes, tornando-se uma das personalidades mais criativas e influentes em sua progênie da era do “cinema mudo”. Chaplin foi fortemente influenciado por um antecessor, como vimos o comediante francês Max Linder, a quem ele dedicou um de seus filmes. Era canhoto, nasceu no dia 16 de abril de 1889, na East Street, Walworth, Londres, Inglaterra. Seus pais eram artistas de music-hall. Seu pai, Charles Spencer Chaplin, era vocalista e ator, e sua mãe, Hannah Chaplin, era cantora e atriz. Chaplin aprendeu a cantar com seus pais, os quais se separaram antes dele completar três anos de idade. Após a separação, Chaplin foi deixado aos cuidados de sua mãe, que estava cada vez mais instável emocionalmente. O censo de 1891 demonstra que sua mãe morava com Charlie e seu “meio-irmão” mais velho Sydney na Barlow Street, Walworth. Um problema de laringe acabou com a carreira de cantora da mãe de Chaplin. A primeira crise de Hannah ocorreu em 1894 quando ela estava cantando no “The Canteen”, um teatro em Aldershot, geralmente frequentado por manifestantes e soldados. Além de “ser vaiada, Hannah foi gravemente ferida pelos objetos atirados pela plateia”. Nos bastidores, ela chorava e argumentava com o seu gerente. Enquanto isso, com apenas cinco anos de idade, o pequeno Chaplin subiu sozinho ao palco e cantou uma música popular da época, “Jack Jones” (cf. Chaplin, 1981). Seu pai, Charles Chaplin, era alcoólatra e tinha pouco contato com seu filho, apesar de Chaplin e seu meio-irmão morarem durante um curto período de tempo com seu pai e sua amante, Louise, na 287 Kennington Road, onde há uma placa em homenagem ao fato histórico e social. 

                             

Os “meios-irmãos” viviam ali, enquanto sua mãe, mentalmente doente, residia no Asilo Cane Hill em Coulsdon. A amante do pai de Chaplin enviou o menino para a Archbishop Temples Boys School. Seu pai morreu de cirrose no fígado quando Chaplin tinha doze anos, em 1901. De acordo com o censo de 1901, Chaplin residia na Streets 94 Ferndale Road, Lambeth. Após a mãe de Chaplin ter sido novamente admitida no Asilo Cane Hill, seu filho foi deixado em uma “casa de trabalho” em Lambeth, no sul de Londres, mudando-se após várias semanas para a Central London District School, “uma escola para pobres em Hanwell”. Os jovens irmãos Chaplin começaram um íntimo relacionamento, a fim de sobreviverem. Ainda jovens, foram atraídos para o music hall, e ambos provaram ter grande talento. A mãe de Chaplin morreu em 1928, em Hollywood, sete anos após ter sido levada de Londres para os Estados Unidos por seus filhos. Chaplin começou a trabalhar junto com Normand, que “dirigiu e escreveu vários de seus primeiros filmes”. Contudo, Chaplin não gostou de ser dirigido por uma mulher, e os dois discutiam frequentemente. Ele acreditava que Sennett pretendia demiti-lo caso houvesse um desentendimento com Normand. No entanto, seus filmes fizeram tanto sucesso que ele se tornou uma das maiores estrelas da Keystone. Kid Auto Races at Venice (1914), foi o segundo filme de Chaplin e a primeira aparição d`O Vagabundo. Foi no estúdio Keystone desenvolveu seu principal personagem: O Vagabundo, reconhecido como Charlot na França e no mundo francófono, na Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Romênia e Turquia, Carlitos no Brasil e na Argentina, e Der Vagabund na Alemanha. 

Etnograficamente falando temos n`O Vagabundo a “representação social”, no sentido que empregam Berger & Luckmann (1985) e artística de um andarilho pobretão que possui todas as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro; aparece sempre vestindo um paletó apertado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, e um chapéu-coco; carrega uma bengala de bambu; e possui um pequeno bigode-de-broxa, como vimos. O público viu o personagem pela primeira vez no segundo filme de Chaplin, Kid Auto Races at Venice, lançado em 7 de fevereiro de 1914. No entanto, ele já havia criado o visual do personagem para o filme: Mabel`s Strange Predicament, produzido alguns dias antes, porém lançado mais tarde, em 9 de fevereiro de 1914. Os primeiros filmes de Chaplin no estúdio Keystone usavam a fórmula padrão de Mack Sennett, “que consistia em extrema comédia pastelão e gestos exagerados”. Do ponto de vista técnico-metodológico a pantomima de Chaplin foi mais sutil, sendo mais adequada para comédias românticas e “farsas domésticas”. As piadas visuais, no entanto, seguiam exatamente o padrão de comédia da Keystone. Em seus filmes, O Vagabundo atacava agressivamente seus inimigos com chutes e tijolos. O público da época amou este novo comediante, apesar dos críticos alertarem que as travessuras beiravam a vulgaridade.

Logo depois, Chaplin se ofereceu para dirigir e Editar seus próprios filmes. Durante seu primeiro ano no ramo do cinema, ele fez mal, comprando aos Laboratórios das universidades contemporâneas, “34 curtas-metragens para Sennett, assim como o longa-metragem Tillie! s Punctured Romance”. Assim, diz o irreprochável Chaplin quando da criação de seu “Vagabundo”: - “não tinha a menor ideia de como poderia me vestir. Não me gostava o disfarce de jornalista. Não obstante, enquanto me dirigia ao vestuário, me ocorreu por calças (pantalonas), um par de sapatos grandes, uma bengala e um chapéu (sombrero) longo. Queria que tudo parecesse uma contradição: as calças (pantalonas), abolsados (em forma de bolsa); a jaqueta, ajustada: os sapatos, grandes, e o chapéu, pequeno…” (cf. Chaplin, 1981: 233). Para Octavio Ianni (1989), é uma das mais extremas e cruéis sátiras sobre o Mundo Moderno. A Sociologia e a Modernidade surgem na mesma época, na mesma idade. Talvez se possa dizer que a revolução popular de 1848 despertou o Mundo para algo novo, que não havia sido ainda plenamente percebido. A multidão aparecia no primeiro plano, no horizonte da história. E aparecia como multidão, massa, povo e classe. A revolução de 1848 em Paris repercutiu em toda a França, na Europa e em muitas partes do mundo. Via-se que a multidão se tornava classe revolucionária em conjunturas críticas. A metamorfose pode ser brusca, inesperada, assustadora, fascinante. Em Paris de 48 viviam, trabalhavam, produziam e lutavam Tocqueville, Proudhon, Comte, Marx, Blanqui e Baudelaire. Na capital do século XIX, quando se revelam os sinais de que a sociedade burguesa também é histórica, transitória, nesse momento nascem a Sociologia e a Modernidade. É daí que nasce o herói solitário e triste de Chaplin

Numa das mais avançadas expressões artísticas da Modernidade que é o cinema, surge o lumpen olhando espantado para os outros, as coisas, o mundo. Carlitos é um herói trágico. Solitário e triste, vaga perdido no meio da cidade, um deserto povoado pela multidão. Farrapo coberto de farrapos. Fragmento de um todo no qual não se encontra; desencontra-se. Caminha perdido e só, no meio da estrada sem-fim. Parece ele e outros, outros e muitos, todos os que formam e conformam a multidão gerada pela sociedade moderna. Um momento excepcional da épica da Modernidade. Carlitos revela a poética da vida e do mundo a partir da visão paródica do lúmpen que “olha a vida e o mundo a partir dos farrapos da extrema carência, de baixo-para-cima, de ponta-cabeça”. - “É aí que se instaur o sentido trágico também presente na Modernidade. Agora o homem tudo sabe, sobre este e o outro mundo. Tem tanta razão que desvenda os fetiches que ele próprio recria e recria, no cotidiano do dia-a-dia. Mas se reconhece aquém e além dessa razão. Descobre que o seu entendimento não o emancipa de si, do que é como fabulação. Com o fetichismo das suas relações sociais, entroniza visões e fantasmas, nos quais se conhece e desconhece, que alegram e o assustam” (cf. Ianni, 1989). Há ainda a análise de Modern Times (1936) realizada por Matos-Cruz quando afirma que ele, mantendo uma modernidade inegável, é por ele próprio sintetizado como a história do indivíduo, da indústria e da humanidade em busca da felicidade.

Charlot procura várias vezes integrar-se numa existência em comunidade, banal, mas é rejeitado; principalmente, porque combate as arbitrariedades, recusa perder-se enquanto indivíduo ou consentir na alienação. Sendo seu filme mais empenhado e significativo, converte-se num intrigante testemunho. Ou seja, “num campo, um rebanho de carneiros. Em paralelo, na cidade, as pessoas comprimem-se à saída do metropolitano; os operários dirigirem-se em massa para as fábricas (…). O atrito individual para marcar o relógio de ponto; entre eles Charlot, que aperta roscas num circuito de montagem em série, armado com duas chaves inglesas. Trabalho automatizado, que a sua fuga ao sistema perturba. Insultado pelo contramestre, a cadeia é suspensa; retomada cedo demais, é tragado pela máquina (…). A engrenagem tritura o operário! O patrão, que nada faz e vigia o trabalho por um circuito de televisão interna, decide experimentar um aparelho que serve o almoço aos operários, sem interromper a produção. Charlot que continua automaticamente a repetir os gestos condicionados ao vazio, é escolhido para testar o invento; só que a máquina se desarranja! O patrão manda então, acelerar o ritmo de trabalho, e Charlot provoca a confusão (…). Despedido dedica-se a um bailado delirante, dentro e fora da fábrica; aperta o nariz do contramestre e os botões do vestido de uma mulher, como se fossem roscas, semeia o caos ao investir contra a mecanização, a quem subverte (…). Após tratamento num hospital psiquiátrico, durante meses, regressa, mas a fábrica está em greve” (cf. Matos-Cruz, 1981: 201). 

Enfim, este contexto político projeta ainda, numa perspectiva analítica comparativa dos processos históricos específicos, duas singularidades: a) que nos últimos 100 anos os principais elementos que caracterizaram as condições de “valorização do capital”, segundo Marx, relacionaram-se com as condições de produção e reprodução de um mercado de trabalho dual, e, b) com o fato de que uma ideia produzida em sociedades imperialistas, quando assimilada é, ao mesmo tempo, imprópria (visto tratar-se de produção ideológica com contrapartida em outra realidade) e própria, já que esta sofre mecanismos de ajuste a essa realidade, na medida em que expressa interesses específicos de uma classe ou grupo social aí existente (cf. Coutinho, 1979; 1984). Em 1915, Chaplin assinou um contrato muito mais favorável com a Essanay Studios, e desenvolveu suas habilidades cinematográficas, adicionando novos níveis de sentimentalismo e pathos em seus filmes. A maioria dos filmes produzidos na Essanay foram mais ambiciosos, com uma duração duas vezes maior do que os curtas da Keystone. Chaplin também desenvolveu o seu próprio elenco, no qual estava incluídos a heroína Edna Purviance e os vilões cômicos Leo White e Bud Jamison. Visto que grupos de imigrantes chegavam constantemente na América, os filmes mudos foram capazes de atravessar quase todas as barreiras de linguagem, sendo compreendidos por todos os níveis da Torre de Babel americana, simplesmente devido ao fato de serem mudos. Nesse contexto, Chaplin foi emergindo e tornando-se o exponente máximo do cinema mudo.

Em 1916, a Mutual Film Corporation pagou a Chaplin US$ 670.000,00 para “produzir uma dúzia de comédias com duração de duas bobinas”. Por essa razão, de acordo com Marx, “também se diz da maquinaria que ela economiza trabalho; todavia, a simples economia do trabalho não é, como Lauderlale observou corretamente, o realmente caraterístico; porque, com a ajuda da maquinaria, o trabalho humano faz e cria coisas que absolutamente não poderia criar sem ela. O último aspecto se refere ao valor de uso da maquinaria”. Melhor dizendo, “o último aspecto refere-se ao valor de uso da maquinaria. A economia do trabalho necessário e a criação do trabalho excedente são o característico. A maior produtividade do trabalho se expressa no fato de que o capital tem de comprar menos trabalho necessário para criar o mesmo valor e maiores quanta de valores de uso, ou de que um trabalho necessário menor cria o mesmo valor de troca, valoriza mais material e uma massa maior de valores de uso. O crescimento da força produtiva supõe, se o valor total do capital permanece o mesmo, que a sua parte constante (consistindo de material e máquinas) cresce em relação à variável, i. e., e relação à parte do capital que se troca com o trabalho vivo, e que forma o fundo do salário” (Marx, 2011: 313).

Foi dada a Chaplin o controle artístico quase total, produzindo doze filmes durante um período de dezoito meses, notando que estes estão entre os filmes de comédia mais influentes da história mundial do cinema. Praticamente todos os filmes de Chaplin produzidos na Mutual são clássicos: Easy Street, One A.M., The Pawnshop e The Adventurer são provavelmente os mais reconhecidos. Edna Purviance continuou sendo a protagonista, e Chaplin adicionou Eric Campbell, Henry Bergman e Albert Austin ao seu elenco de “primeira linha”; Campbell, um veterano nas óperas de Gilbert e Sullivan, interpretou vilões soberbos, e os atores coadjuvantes Bergman e Austin permaneceram no elenco de Chaplin durante décadas. Chaplin considera o período em que esteve na Mutual como o mais feliz de sua carreira. Após a entrada dos Estados Unidos na 1ª grande guerra (1914-1918), Chaplin tornou-se um garoto-propaganda para a venda de “bônus da liberdade” junto com Mary Pickford e seu grande amigo Douglas Fairbanks. Enfim, mais do que isso, o fato social de que o Charles Chaplin antecipa o realismo mágico que  está presente na literatura e na realidade, na arte, na história e no cinema, como vimos, sugere a possibilidade de que corresponda a um “modo e olhar”, a um estilo de pensamento, e não somente a um estilo de criação artística, ainda que importante. 

Portanto, não se trata de indagar apenas sobre os nexos entre literatura e realidade, literatura e cinema a propósito da aura mágica que emana da escritura e da cultura. Cabe indagar se essa aura não só emana como também constitui o todo da cultura. É como se um fato insólito de repente desvendasse dimensões recônditas e significados incríveis da cultura, da vida social, biografia, história, mundo moderno. A divisão técnica (Marx) e social (Durkheim) na qual se realiza de maneira específica a “unidade do mundo capitalista”, em um mundo de cálculo, da manipulação, da dominação, da ciência exata, da quantificação, do domínio da natureza, da utilidade, em uma palavra em mundo da objetividade, de um lado, e em mundo da subjetividade, de outro lado, constitui a base objetiva de que se originam periodicamente os esforços para realizar uma pretensa ou efetiva unificação ou integração da unilateralidade: a “lógica do coração”, de Blaise Pascal, ao dizer que “o coração tem suas razões, que a razão não conhece” (Pascal: 1979). A “consciência trágica” faz de Pascal um filósofo do paradoxo, tal como ocorrera em Soren Kierkegaard, que põe em evidência a superação da ética e sua insuficiência, posto que “o homem não teria condições de ser autônomo, sua edificação exige a força de um terceiro”, e, posteriormente em Nietzsche, que não hesita, ao concluir em identificar o mundo como “vontade de poder” com o mundo “inteligível” da tradição metafísica de Platão a Kant, pois reconhece tudo o que havia de precioso e de definitivo no novo conhecimento científico e, simultaneamente, recusa-se radicalmente a considerar este mundo como a única perspectiva para o homem. 

O individualismo marca o filósofo Pascal como distinguiu outros racionalistas um século depois, só que para estes o indivíduo constituía uma fortaleza racional, enquanto para Pascal ele seria “um abismo de miséria e de fraqueza”. Ipso facto, ele não está afirmando que os sentimentos e a inteligência se opõem, mas que há duas maneiras de conhecer, como integração do método discursivo de Descartes, a veritas aesthetica como integração da veritas lógica, o transcendentalismo como superação do fisicalismo. Esta perplexidade da consciência é analisada na notável e atualíssima obra de Edmund Husserl, Die Krisis der europäischen Wissenschaften, ou, na edição The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology (1970), escrita pouco antes da 2ª Guerra Mundial. Em certo sentido pode-se considerá-la “como o despertar da consciência democrática diante da ameaça do fascismo”. Isto é importante. Em um período posterior, Husserl começou a se debater com as complicadas questões da intersubjetividade, especificamente, como a comunicação sobre um objeto pode ser suposta como se referindo à mesma entidade ideal, e experimenta novos métodos para fazer entender aos seus leitores a importância da Fenomenologia para a investigação científica (especificamente para a Psicologia) e o que significa “pôr entre parênteses” a atitude natural. A Crise das Ciências Europeias é o trabalho inacabado de Husserl que lida mais diretamente com estas questões. Nele, Husserl pela primeira vez busca um panorama histórico do desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência, enfatizando os desafios apresentados pela sua crescente (unilateral) orientação empírica e naturalis.

Do ponto de vista antropológico, o carnaval é um ritual de reversão, no qual os papéis sociais são invertidos e as normas sociais de comportamento são suspensas. Na Antiguidade, os povos consideravam o inverno como um reino de espíritos que precisavam ser expulsos para que o verão voltasse. O Carnaval pode assim ser considerado como um rito de passagem da escuridão para a luz, do inverno ao verão: uma celebração de fertilidade, a primeira festa de primavera do Ano Novo. Carnaval é um festival do cristianismo ocidental que ocorre antes da estação litúrgica da Quaresma. As pessoas usam trajes durante muitas dessas celebrações, permitindo-lhes perder a sua individualidade cotidiana e experimentar um sentido elevado de unidade social. O Carnaval feito de desfiles e fantasias é produto da sociedade vitoriana do século XX. As etimologias populares afirmam que a palavra vem da expressão do latim tardio “carne vale” (“adeus à carne”), significando ipso facto o período de jejum que se aproxima. No entanto, esta interpretação não é apoiada por provas filológicas. E deveria? Historicamente a expressão “carne levare” do italiano é uma possível representação histórica e sociológica de origem, que significa “remover a carne”, uma vez que a carne é proibida durante a representação social da Quaresma. 
Entre os antigos egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos antigos, as bacanais; na Roma Antiga, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes regozijos. Pelo seu lado, os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno a que é marcada pelo “adeus à carne” que a partir dela se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome em latim “carnis levale” o indica. Outros estudiosos defendem a origem do nome romano para a festa do Navigium Isidis, onde a imagem de Ísis era levada à praia para abençoar o início da temporada de velejamento. O festival consistia em um desfile de máscaras que seguia um barco de madeira decorado, possivelmente a origem dos carros alegóricos dos carnavais modernos. O carnaval brasileiro é um resquício da tradição católica, de cunho moralista, que permitia aos fieis, antes dos 40 dias de jejum de carne, uma semana de festejos e consumo do cobiçado alimento: daí o nome “carnis'”, acrescido da palavra “valles'”, que quer dizer “prazer'”. O carnaval é a festa da carne e do prazer. Dos excessos; uma forma da Igreja liberar os impulsos reprimidos dos súditos de Cristo, a fim de lhes permitir suportar os rigores das penitências quaresmais.

Ipsos ou Instituto Ipsos é a terceira maior empresa de pesquisa e de inteligência de mercado do mundo ocidental. Fundada na França em 1975, a Ipsos conta com 16.000 funcionários e está presente em 87 países, incluindo o Brasil. Segundo pesquisas do Ipsos, em 1º de fevereiro de 2016, 60% dos brasileiros apoiam o processo de impeachment de Dilma Rousseff. A pesquisa também constatou curiosamente que a gestão da presidente eleita Dilma Rousseff é considerada ruim ou péssima por 79% dos entrevistados. Entretanto, a pesquisa indica o percentual de 15% a classificaram como regular e apenas 5% como ótima ou boa. De acordo com Ipsos, 1º de fevereiro de 2016 apontou que cerca de 8 em cada 10 brasileiros são favoráveis a continuidade da Operação Lava Jato até o fim das investigações, mesmo que isso gere instabilidade política no país. A pesquisa ouviu 1.200 pessoas durante o ano de 2015. Para o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Luís Antônio Boudens, essa percepção dos entrevistados em relação à Lava Jato mostra o quanto a população precisa de uma solução para a corrupção. - “A atuação dos agentes federais no combate à corrupção atraiu a atenção da sociedade e isso se reflete na confiança e credibilidade que recebe da população”.

Uma pesquisa nacional do Instituto Ipsos em parceria com a Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), demonstra o crescimento de hábitos culturais nos brasileiros nos últimos oito anos. Foram ouvidos 1.200 consumidores em 72 municípios de todo o país entre os dias 2 e 14 de dezembro de 2015. O número de pessoas que disseram ter ido ao cinema e ao teatro cresceu 100%, passando de 17%, em 2007, para 35%, em 2015, e de 6% para 12%, na mesma comparação, mostra a pesquisa. Em uma outra pesquisa, desta vez realizada pelo Ipsos MORI, o Brasil foi eleito o 3º (terceiro) país “mais ignorante do mundo”, ficando atrás apenas do México e da Índia, primeiro e segundo lugar, respectivamente. No estudo denominado Perils of Perception (“Perigos da Percepção”), realizado com 33 países, foram feitas 12 perguntas, tais como “Qual a porcentagem de imigrantes no seu país?” e “Qual a porcentagem de brasileiros com acesso à internet”, e depois comparou-se as respostas com os “dados reais”. A pesquisa foi feita entre os dias 1 e 16 de outubro, e participaram dela cerca de 1000 brasileiros. Por outro lado, o país com a população mais consciente sobre a realidade do seu país foram a Coréia do Sul, seguida pela Irlanda e pela Polônia, respectivamente.

A origem da palavra ditador refere-se ao latim dictare, “dizer repetidamente”, de dicere, “dizer, falar, contar”, de uma fonte Indo-Europeia deik - “indicar”.  Para os romanos do período republicano, um ditador tinha como representação necessariamente uma pessoa despótica e autoritária. A ditadura é um regime político onde um indivíduo (o ditador), ou um grupo de indivíduos (um partido, uma assembleia), exerce o poder político de modo absoluto, sem limites constitucionais ou legais. Conforme a tipologia proposta por Aristóteles na Política, a “tirania”, o nome clássico da ditadura era o regime onde um só exercia o poder soberano exclusivamente no seu interesse particular. Analogamente tirania vem do latim tyrannus, “senhor, chefe”, do grego tyrannos, “senhor, chefe, soberano, líder absoluto”, com origem em um idioma da Ásia menor. Vem do grego despotés, “chefe, senhor”, originando-se da palavra que queria dizer “o senhor da casa”, relacionada às palavras domos, “casa”, e posis, “marido”.
Roma Antiga representou uma civilização itálica que surgiu no século VIII a. C. Localizada ao longo do Mar Mediterrâneo e centrada na cidade de Roma, na Península Itálica, expandiu-se para se tornar um dos maiores impérios do mundo antigo, com uma estimativa dentre 50 a 90 milhões de habitantes, cerca de 20% da população global e cobrindo 6,5 milhões de quilômetros quadrados no seu ápice entre os séculos I e II. Em torno de 12 séculos de existência, a civilização romana passou de uma monarquia para a república clássica e, em seguida, para um império cada vez mais autocrático. Através da conquista e da assimilação, ele passou a dominar a Europa Ocidental e Meridional, a Ásia Menor, o Norte da África e partes da Europa Setentrional e Oriental. Roma foi um Estado militarista cuja história e o desenvolvimento social foi muito relacionado às (mal) ditas grandes conquistas militares, durante os seus doze séculos de existência. Então, o tema central a ser falado quando se discute a história militar da Roma Antiga é o sucesso conseguido pelos exércitos romanos em batalhas campais que garantiam sua hegemonia, desde a conquista da península Itálica às batalhas finais contra os bárbaros. 
Roma foi preponderante em toda a região do Mediterrâneo e foi uma das mais poderosas entidades políticas do chamado Mundo Antigo. É muitas vezes agrupada na Antiguidade Clássica, juntamente com a Grécia Antiga e culturas e sociedades semelhantes, que são conhecidas como o mundo greco-romano. A sociedade romana antiga contribuiu para o governo, o direito, a política, a engenharia, as artes, a literatura, a arquitetura, a tecnologia, a guerra, as religiões, as línguas e as sociedades modernas. Como uma civilização altamente desenvolvida, Roma profissionalizou e expandiu suas forças armadas e criou um sistema de governo chamado res publica a inspiração para repúblicas modernas, como os Estados Unidos da América (EUA) e a França. Obtiveram feitos tecnológicos e arquitetônicos como a construção de um sistema de aquedutos e estradas, bem como a construção de grandes monumentos, palácios e instalações públicas. Refere-se, portanto, ao regime político em que um dirigente tem poder absoluto, irrestrito. Ela vem do latim “arbitrium”, “julgamento, escolha”, de arbiter, pessoa chamada a decidir uma questão, “árbitro”, formada por ad, “a”, mais baetere, “vir”.
            Dados da pesquisa Pulso Brasil divulgados apontam a insatisfação do povo brasileiro com o governo golpista de Michel Temer do PMDB. O estudo é realizado mensalmente pela Ipsos Public Affairs, desde 2005. O levantamento mostra que 94% da população desaprova a gestão de Temer e 95% acreditam que o país está no rumo errado. A pesquisa foi realizada entre os dias 1 a 14 de julho e entrevistou 1200 pessoas em 72 municípios brasileiros de todas as regiões do país. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. O governo de Michel Temer aparece como o pior avaliado, desde que essa pesquisa começou a ser feita pela Ipsos, com índice de rejeição de 85% entre os entrevistados. - O levantamento confirma os altos índices de desaprovação do governo federal e do presidente Michel Temer. Identificamos que os efeitos da crise política e da delação premiada de Joesley Batista ainda se mantêm. Esse quadro tende a se manter nos próximos meses com a pauta do aumento de impostos e dos combustíveis, afirmou o Danilo Cersosimo, diretor da Ipsos Public Affairs, responsável pelo Pulso Brasil em entrevista ao portal Uol. Em outra sessão do levantamento, intitulada Barômetro Político, o entrevistador questiona a população sobre atuação de uma determinada personalidade pública ou política. O nome de Michel Temer que apareceu entre 32 pessoas recebeu apenas 3% aprovação total. Já 94% dos entrevistados desaprovam completamente a atuação do político, segundo a pesquisa. Em segundo lugar no índice de reprovação está o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que teve apenas 1% de aprovação contra 93% de reprovação. O terceiro lugar do pódio ficou com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que teve 3% de aprovação contra 90% de reprovação.      
Historicamente foi um título concedido aos imperadores bizantinos. A palavra Absolutista é também de semelhante significado. Ela vem do Latim “absolutus”, particípio passado de “absolvere”, “libertar, separar”, de ab, “para fora” e solvere, “afrouxar, destravar, soltar, destacar”. A tirania é, assim, a forma degenerada da monarquia. Em Montesquieu (1689-1755), a palavra para designar ditadura é “despotismo”. No seu livro mais importante, O Espírito das Leis (1748), o despotismo aparece como o regime onde um só detém o governo. O poder político é uma extensão da vontade pessoal do soberano e ele não obedece nem leis nem regras, isto é, quaisquer limites. O que induz os súditos a obedecer é o medo, e não a honra do monarca ou a virtude dos cidadãos. Foi justamente o medo como o princípio da obediência nas ditaduras/despotismos o que permitiu mais tarde que os conservadores classificassem o regime dos jacobinos na França pós-revolucionária como o “regime do terror”.
Etimologicamente política vem do grego: politéia (πολιτεία), politiké (política em geral) e politikós (relativo aos cidadãos) e estava relacionado à organização das polis, as cidades-estados gregas - uma nova forma de organização política e social que ocorreu na Grécia Antiga. Desde então, a política passou a denominar a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. Os dois primeiros grandes sistematizadores do pensamento político, Platão e Aristóteles, entendiam a política referente ao estudo da polis, suas estruturas, instituições, constituição. É de Aristóteles a ideia de que a política é a ciência mais importante do seu tempo, preocupado com um governo capaz de garantir o bem-estar geral (o bom governo) da sociedade. Contudo, foi só no Renascimento que a política começou a adquirir contornos de uma ciência. A ciência política moderna é uma disciplina nova, da qual alguns autores datam seu surgimento ao menos no que concerne a ciência política moderna no século XVI com Maquiavel. Como se pode observar desde os tempos idos a política tem ocupado intensos e importantes estudos, não sendo só uma forma de se fazer prevalecer esta ou aquela ideia avançando de forma a ser objeto de pensamento da ciência política.       
Balcão de negócios do Congresso Nacional.
Faz-se assim a ligação entre a pessoa e o seu ato de se deslocar para resolver uma pendenga. Uma pessoa assim pode ser prepotente, do Latim praepotens, “muito poderoso”, de prae-, “à frente”, mais potens, “poderoso”, de potere, “poder”. Ou seja, “aquele que coloca o seu poder adiante, que o faz sobressair”. Muitas vezes estes usam de repressão, que nos veio do Latim “reprimere”, com o significado de “empurrar de volta, manter à distância”, de re-, mais primere, “apertar, comprimir”. Quando alguém quer reprimir algo, metaforicamente nos dá a sensação de estar empurrando aquilo para longe de si. Essas são coisas de autocratas, do grego autokratés, “o que governa sozinho”, ou seja, que não delega poderes significativos para outros. Forma-se por auto-, reflexivo, mais kratés, “poder”. Esta palavra, por sua vez, vem do latim oppressio, de opprimere, “puxar contra, esmagar”, de ob-, “contra”, mais premere, “empurrar”. No caso do professor não parece estar agindo como juiz, mas o fato de que diante do poder, age.
O termo também tem sido associado com brutalidade e opressão, já que é comum aos ditadores perseguirem seus oponentes ou dissidentes. Outro traço recorrente é a megalomania, já que muitos ditadores “instituem um culto à personalidade e se autoconcedem títulos grandiloquentes”. Alguns se apresentam publicamente usando fardamento militar, para difundir na memória coletiva que seu poder foi instituído pela força das armas como ocorre em geral com os processos revolucionários marxistas. É comum um ditador assumir políticas públicas ou perpetrar diversas violações dos direitos sociais que constam na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O “ditador benevolente” é uma versão atual do déspota esclarecido, sendo um governante absoluto que exerce o seu poder para o benefício do povo, em vez de seu próprio.  Cincinnatus foi visto na Roma antiga como um “ditador benevolente”, sendo que havia sido chamado para exercer o cargo de ditador e, após ter resolvido a crise na República, regressou à sua vida pastoril. Júlio César, mormente como um ditador benevolente por alguns, findou tendo sido assassinado por aqueles que o viam como um tirano.             
Alguns historiadores descrevem certos ditadores como tendo sido benevolentes, como é o caso de Lee Kuan Yew, que fez com que Singapura deixasse de ser um entreposto colonial para se tornar num dos Tigres Asiáticos. António de Oliveira Salazar, que governou Portugal e durante a primeira metade da Guerra do Ultramar, manteve o país na neutralidade durante a guerra mundial, acabando com o conflito entre o Estado e a Santa Sé, modernizando o país e alcançando altos níveis económicos, como ditador propugnando a censura e uma policia política. Deng Xiaoping que afastou a República Popular da China do igualitarismo do Maoísmo e iniciou a construção do maior Estado proletário que faz hoje da China a maior economia do mundo com a degradação do trabalho humano. Se este termo é subjetivo, ipso facto é abusivamente atribuído aos ditadores pelos seus defensores e benevolentes, enquanto outros isentos, na aparência, são contraditoriamente ao tempo que governavam com punho de ferro.
As ditaduras podem ser civis: cesarismo, bonapartismo, fascismo ou militares. Neste caso, o poder executivo pode ser ocupado todo o tempo por um comandante militar como o Chile de Pinochet ou, comparativamente, no caso brasileiro, exercido em sistema de rodízio entre as altas patentes das forças armadas: o regime dos generais no Brasil entre 1964 e 1985. As ditaduras civis podem ser apoiadas por um movimento popular ou um partido político, em geral o único partido existente nesse sistema político que são casos únicos no Ocidente da Alemanha nazista, ou fascista na Itália. Algumas classificações, mais problemáticas, introduzem critérios apenas quantitativos para definir os regimes ditatoriais. Ditaduras seriam aquelas formas de governo onde a taxa de violência ou uso da repressão política é alta. Isso conduz a algumas dificuldades analíticas já que democracias consolidadas podem, excepcionalmente, lançar mão da força policial contra cidadãos particulares ou movimentos sociais globais. Este foi o caso dos Estados Unidos da América que se imiscuíram na chamada guerra no Vietnã ou Guerra de Resistência contra a América ou simplesmente Guerra Americana, representando um grande conflito armado que aconteceu pari passu no Vietnã, Laos e Camboja de 1° de novembro de 1955 até a queda de Saigon em 30 de abril de 1975. Foi a segunda das Guerras da Indochina e foi oficialmente travada entre o Vietnã do Norte e o governo de coalisão do Vietnã do Sul. O exército norte-vietnamita era apoiado pela União Soviética, China e outros aliados comunistas, enquanto os sul-vietnamitas eram apoiados pelos Estados Unidos da América, Coreia do Sul, Austrália, Tailândia, e outras nações imperialistas e anticomunistas pelo mundo ocidental. Neste cenário, o conflito no Vietnã é descrito “como uma guerra por procuração no auge da Guerra Fria”.
Vários nomes foram aplicados ao conflito. Guerra do Vietnã é o nome mais comumente usado como ideologia de guerra. Também tem sido chamado de Segunda Guerra da Indochina e Conflito do Vietnã. Como houve vários conflitos na Indochina, este conflito particular é reconhecido pelos nomes de seus principais protagonistas para distingui-lo dos outros. Em vietnamita, a guerra é geralmente conhecida como Kháng chiến chống Mỹ (Guerra de resistência contra a América). É também chamado de Chiến tranh Việt Nam (A Guerra do Vietnã). As principais organizações militares envolvidas na guerra foram, de um lado, o Exército da República do Vietnã (ARVN) e as Forças Armadas dos EUA, e, por outro lado, o Exército Popular do Vietnã (PAVN), mais comumente chamado de Exército do Vietnã do Norte, e a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã do Sul (FNL) reconhecido como Viet Cong em fontes da língua inglesa, uma força estratégica de guerra de guerrilha comunista do Vietnã do Sul.
Do ponto de vista institucional, as ditaduras se caracterizam pela supremacia do poder executivo, pela irrelevância do poder legislativo e pela submissão do poder judiciário. Nas ditaduras, os direitos civis, isto é, os direitos individuais, tais como ir e vir, a liberdade de associação, a liberdade de expressão, de opinião e de contestação do governo, a liberdade de informação são severamente controlados pelos detentores do poder estatal; e os direitos políticos, direito à participação, direito de voto, direito a disputar eleições livres veem-se severamente comprometidos. Daí se afirmar que a ditadura é uma forma de governo que não respeita o Estado de Direito. Em algumas classificações a ditadura é um regime de exceção, sendo a regra a democracia liberal. A confusão ocorre de forma proposital onde a política é considerada apenas como partido político e os políticos em sua dura cerviz. Neste ponto cumpre enfatizar a relação que a Ciência Política possui com as mais variadas áreas de conhecimento e uso de poder através das Ciências Sociais, dentre elas a Economia, a História, a Psicologia. A Ciência Política tem como escopo, o poder, um conceito básico que se estabelece através da representação da sociedade política, ou Estado que é uma sociedade como as demais. 
Bibliografia geral consultada.

MARX, Carlos, El Capital. Crítica de la Economía Política. Libro primero. Buenos Aires: Editorial Cartago, 1973; TRONTI, Mario, Operários e Capital. Porto: Editora Afrontamento, 1976; PASCAL, Blaise, Pensamentos/Blaise Pascal; Introdução e Notas de Ch.-M. des Granges. 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1979; CHAPLIN, Charles, Mis Primeros Años. Buenos Aires: Emecé Editores, 1981; MATOS-CRUZ, José de, Charles Chaplin, A Vida, o Mito, os Filmes. 2ª edição. Belo Horizonte: Editora Vega, 1982; WOOD, Stephen (ed.), The Degradation of Work? Skill, deskilling and the labour process. Hutchinson. London: Melbourne, 1982; SADER, Eder, Um Rumor de Botas: Ensaios sobre a Militarização do Estado na América Latina. São Paulo: Editora Polis, 1982; IANNI, Octávio, Revolução e Cultura. Rio de Janeiro. Editora Civilização Brasileira, 1983; COUTINHO, Carlos Nelson, “Cultura e Democracia no Brasil”. In: Encontros com a Civilização Brasileira. Vol. 17. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979; Idem, A Democracia como Valor Universal e outros ensaios. Rio de Janeiro: Editora Salamandra, 1984; CANFIELD, Martha, “El Patriarca de García Márquez: Padre, Poeta y Tirano”. In: Revista Iberoamericana, n° 128-129, pp.1017-1056, 1984; BERGER, Peter Luckmann, A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento. 21ª edição. [Por] Peter L. Berger e Thomas Luckmann. Petrópolis (RJ): Vozes, 1985; DAMATTA, Roberto, Carnivals, Rogues, and Heroes: An Interpretation of the Brazilian Dilemma. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1991; LOBASSI, Edmundo Washington, A Morte de Carlitos: O Grande Ditador - Um Marco entre o Cinema Mudo e Falado do Diretor Charles Chaplin. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Comunicação Contemporânea. São Paulo: Universidade Anhembi, 2009; IANSON, Giselle de Melo Carvalho, Os Critérios de Seleção de Notícias: Análise Comparativa entre a Folha de S. Paulo e o Jornal Nacional. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social.  São Paulo: Faculdade Cásper Líbero, 2010; AARÃO REIS, A Vida Política. Modernização, Ditadura e Democracia. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2014; COSTA, Grasielle Aires da, Ritual em Richard Schechner e Victor Turner: Aspectos de um Diálogo Interdisciplinar. Programa de Pós-graduação em Performance Cultural. Escola de Música e Artes Cênicas. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2015; TREVISAN, Ivan Rodrigo, Os Generais Ditadores (1964-1985) como Presidentes de Honra do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Dissertação de Mestrado em História. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2017; entre outros. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cais do Valongo (RJ) - “Lugar Praticado”, Terror & Rastros da Escravidão.

                                                                                        Ubiracy de Souza Braga

Se a meta de um capitão fosse preservar seu barco, ele o conservaria no porto”. São Tomás de Aquino


Um cais, do céltico, através do francês antigo quai, é uma estrutura, geralmente uma plataforma fixa em estacas, ou região à beira da água, na borda de uma abra ou de um porto, onde barcos podem atracar e aportar para carregar e descarregar carga e passageiros. Inclui atracadouros, como local para amarras e pode também incluir píeres, armazéns e outros equipamentos necessários para manipular barcos. É normalmente formado por uma passarela, seja de pedras ou madeiras, que se fixam no fundo do leito do rio, lago ou mar. Um cais pode representar também um nível mais alto ou calçada. Geralmente recoberto de pedras, ao  longo de um rio ou canal, ou a avenida que passa ao longo corredor dessas calçadas. Um cais é uma estrutura ou região construída paralelamente à água, usualmente destinada para embarcações aportarem nela, em uma abra ou porto. Uma avenida construída paralelamente à água, ou próxima de um cais, pode ser reconhecida como um cais. Até meados da década de 1770, os escravos desembarcavam na Praia do Peixe, Praça XV de Novembro, e eram negociados na Rua Direita, no centro do Rio de Janeiro, à vista de todosAté antes do início dos assentamentos no Morro do Castelo, as bases da cidade fundada em termos por Estácio de Sá, era uma aldeia no Morro Cara de Cão, ao lado do Pão de Açucar. 
 Por decisão de Mem de Sá, a então cidade que nasceria de pedra e telha teria como novo local de assentamento o Morro do Castelo, onde um forte seria erguido. O caminho que viria a ser a Rua Direita, era um prolongamento do antigo caminho que viria também a ser a antiga e extinta Rua da Misericórdia, que por sua vez chegava ao Largo da Misericórdia, que ainda existe, no local onde era o sopé do Morro do Castelo. Era do Largo da Misericórdia, o primeiro Largo do Rio de Janeiro, de onde se pegava a subida para o morro, através da Ladeira da Misericordia. Desta ladeira, ainda existe um trecho que foi mantido. Em 1774, uma nova legislação, estabeleceu a transferência desse mercado negreiro para a região do Valongo, por iniciativa do segundo Marquês de Lavradio, dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d Eça e Melo Silva Mascarenhas, vice-rei do Brasil, alarmado com “o terrível costume de tão logo os pretos desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrarem na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus”. O mercado foi transferido, mas ainda não havia o ancoradouro. A alternativa foi desembarcar os escravos na alfândega e imediatamente enviá-los de bote ao Valongo, de onde saltariam diretamente na praia.
Em 1779 o comércio de escravos finalmente se estabeleceu na área do Valongo, onde teve seu auge entre 1808, com desembarque da família real portuguesa fugida de Portugal, e 1831, quando o tráfico negreiro para o Brasil foi proibido pelos ingleses, passando para clandestinidade. Após a invasão da Família Real Portuguesa, junto com a corte, a região do Valongo passou a ser muito frequentada por pessoas que queriam comprar escravos. Isso porque a população do Rio de Janeiro duplicou nesse período de 15 para 30 mil pessoas. Mesmo com a proibição do tráfico negreiro, em 1831, o Cais do Valongo continuou sendo um dos principais pontos desse mercado que era a compra e venda de mão-de-obra escrava trazida à força dos países do continente negro. O sítio arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou durante os anos de 1769 a 1830, é a principal prova material e incontestável, encontrada até hoje, sobre a barbárie ocorrida no período mais intenso do tráfico de cativos africanos para o Brasil. Depois da descoberta fortuita feita pela família Guimarães dos Anjos, em 8 de janeiro de 1996, não há mais como admitir uma visão equivocada e romanceada sobre a escravidão de africanos e seus descendentes diretos no Brasil. Foram depositados neste cemitério os restos mortais de dezenas de milhares de africanos, brutalmente retirados de sua terra natal e trazidos à força para o trabalho escravo. E bruta  a forma como seus corpos foram despedaçados, queimados e espalhados cobertos apenas com algumas pás de terra. Há indícios de descarte no local, moradores daquela época que passavam pela Rua do Cemitério lançavam seu lixo doméstico e fragmentos de louças, cerâmicas e vidros.

   
          Apesar de ser considerado o maior cemitério de escravos deste gênero nas Américas, o terreno destinado aos sepultamentos era muito pequeno para tantos corpos. Os vestígios arqueológicos e históricos deste campo santo são testemunhos da ação violenta e cruel sofrida pelos africanos que não resistiram aos maus tratos da captura e viagem transatlântica. Este relato revelado pela historiografia e trazido à luz pela Arqueologia, repleto de desrespeito e dor, ainda é desconhecido por muitos, pois não é contado em todas as escolas e nem sequer é mencionado nos livros de história que têm a escravidão como tema. Por isto, reafirma-se a importância deste Museu Memorial, no qual o Cemitério dos Pretos Novos se impõe como peça central para este debate.Nessa época, esse tipo de comércio era feito de forma clandestina. - “Aquela região, mais do que o cais, era um complexo de escravos, que incluía o lazareto, para onde os negros que chegavam doentes iam se curar ou morrer, o Cemitério dos Pretos Novos e os armazéns de engorda e venda dos escravos, que se concentravam na Rua do Valongo, atual Rua Camerino”, diz Tânia Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro que supervisionou as obras no Porto Maravilha.
O indivíduo, ator, identidade, grupo social, classe social, etnia, minoria, movimento social, partido político, corrente de opinião pública, poder estatal, todas estas “manifestações de vida” não mais se esgotam no âmbito da sociedade nacional, o que nos faz admitir que a diferenciação em comunidades locais, tribos, clãs, grupos étnicos, nações e até mesmo Estados, perderam ao menos algo do seu significado anterior. Na sociedade global, de outra parte, generalizam-se as relações, os processos e as estruturas de dominação e apropriação, antagonismo e integração. Modificam-se os indivíduos, as coletividades, as instituições, as formas culturais, os significados das coisas, gentes e ideias, vistos em configurações histórico-sociais. Se as ciências sociais nascem e desenvolvem-se como forma de autoconsciência científica da realidade social, pode-se imaginar que elas podem ser seriamente desafiadas quando essa realidade já não é mais a mesma. Nesse sentido é que a formação da sociedade global pode envolver novos problemas epistemológicos, além de ontológicos. 
O Cais do Valongo construído em 1811 foi local de desembarque e comércio de escravos africanos que durante vinte anos de sua operação mercantil desembarcaram até 1831, entre 500 mil e 1 milhão de escravos mesmo com a proibição do tráfico transatlântico. Era o maior porto escravagista da história da humanidade. Um mercado que se intensificou a partir da construção do Cais, porta de entrada de mais de 500 mil africanos, em sua maioria, vindos do Congo e de Angola, Centro-Oeste africano.  O desembarque ocorria no porto, ponto nobre do Rio de Janeiro Imperial. Em 1843, o cais foi reformado para o desembarque da princesa Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, que viria a se casar com o imperador D. Pedro II, alcunhado o Magnânimo, foi o segundo e último Imperador do reinado do Brasil durante 48 anos, de 1840 até sua deposição em 1889. Nascido no Rio de Janeiro foi o filho mais novo do imperador Pedro I do Brasil e da imperatriz Dona Maria Leopoldina de Áustria, foi arquiduquesa da Áustria, a primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte, também brevemente sendo Rainha Consorte do Reino de Portugal e Algarves entre março e maio de 1826.  e, portanto, membro legítimo do ramo brasileiro da Casa de Bragança. A abdicação do pai e sua viagem para a Europa tornaram Pedro imperador com apenas cinco anos, perdendo a maior parte de sua infância e adolescência estudando a arte do poder em preparação para imperar. Suas experiências com as reconhecidas intrigas palacianas e disputas políticas durante este período tiveram grande impacto na formação de seu caráter.

Do ponto de vista teórico-metodológico Ginzburg (1992) tem um percurso de pesquisa dos mais originais e criativos, que extravasa o quadro de pensamento dominante da historiografia italiana e mesmo da historiografia europeia. A sua obra, com efeito, introduziu diversas rupturas nas maneiras e formas de pensar, sentir e agir em História mobilizou metodologias e instrumentos de conhecimento oriundos de outras áreas importantes de saber, estabeleceu novas zonas de dialogo com as restantes ciências humanas e sociais, nomeadamente com a antropologia e a filosofia. Enfim, trata-se aqui de uma intervenção ativa, propugnando um método de análise indiciário que procura inverter as relações tradicionais de subordinação da História no que diz respeito à produção dos meios de conhecimento, centrada numa forte preparação filológica, de herança familiar materna, caracterizada pela atenção ao detalhe, ao estudo de caso, à analise do processo significativo de interpretação, com a valorização dos fenômenos marginais, como os ritos de fertilidade, ou dos casos obscuros, protagonizados pelos pequenos e excluídos, cuja verdadeira dimensão cultural e social vem sendo valorizada.
            Apesar do seu valor etnográfico para a história da diáspora africana, e para o turismo em geral no Rio de Janeiro, não há garantia de segurança para as peças encontradas em escavações no local. O material encontrado é extraordinário com cerca de 500 mil itens, muitos da tradição banta, como amuletos em osso, colares, pulseiras em piaçava e jogos de búzios – que está armazenado num galpão no bairro da Gamboa, aos pés do Morro da Providência, no centro do Rio de Janeiro. Os guardas municipais que faziam a vigilância do lugar, que abriga também cerca de outros 700 mil artefatos resgatados no período de obras do Porto, foram expulsos por traficantes, como revelou o jornalista Ancelmo Gois em sua coluna no jornal O Globo. O secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação, Índio da Costa, afirmou que uma empresa já foi contratada para atuar na vigilância. Mas só há um segurança por turno para tomar conta de 3,5 mil metros quadrados. Ele admite que a medida não resolva em definitivo o problema, pois “a gente vive num estado em que o tráfico dominou”. Diante dos perigos para o acervo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) enviou uma equipe para avaliar as condições técnicas de armazenamento das peças.
            Os bantus são provavelmente originários dos Camarões e do sudeste da Nigéria. Por volta de 2000 a. C., começaram a expandir seu território na floresta equatorial da África central. Mais tarde por volta do ano 1000, ocorreu uma segunda fase de expansão mais rápida para o leste, e finalmente uma terceira fase, em direção ao sul do continente, quando os bantos então se miscigenaram. Os bantos se misturaram, portanto aos grupos autóctones e constituíram novas sociedades. Os bantus distribuem-se, no continente africano, no sentido oeste-leste desde os Camarões e o Gabão às ilhas Comores; no sentido norte-sul, do Sudão à África do Sul, cobrindo toda a parte meridional da África, onde somente os bosquímanos e os hotentotes têm línguas de origens diferentes. Enquanto os bosquímanos e hotentotes eram nômades caçador-coletores e pastores, os bantos eram agricultores sedentários e já conheciam o uso do ferro. Esses avanços no processo civilizatório lhes permitiram colonizar um amplo território ao longo de quatro mil anos forçando o recuo dos povos nômades.

Um decreto do vice-rei, marquês do Lavradio, ordenou então a construção de um cais no Valongo para os navios negreiros porque a visão dos negros desembarcados perturbava os moradores racistas. O título nobiliárquico de Marquês de Lavradio, de juro e herdade e com Honras de Parente da Casa Real, foi criado por D. José I, por carta de 18 de Outubro de 1753, em favor de D. António de Almeida Soares Portugal, 1.º Conde de Lavradio e 4.º Conde de Avintes, e bisneto do primeiro conde deste último título. Os Marqueses de Lavradio herdaram a representação dos Duques de Aveiro e Duques de Torres Novas, Marqueses de Torres Novas e Marqueses de Gouveia, Condes de Portalegre e de Santa Cruz e Condes de Torres Vedras, pela morte do 8.º Duque de Aveiro, envolvido na conspiração dos Távoras. As origens e genealogias destes títulos foram descritas, entre outros, por D. António Caetano de Sousa nas referidas Memorias Históricas e Genealógicas dos Grandes de Portugal. Anselmo Braamcamp Freire, no Vol. II da sua obra: Brasões da Sala de Sintra dedica o capítulo XVI aos Almeidas, descrevendo ao longo de centena e meia de páginas a linhagem, que deu origem a várias  casas e títulos, que se serviram da colonização portuguesa nestes séculos.
      Entre os séculos XIV e XV, estados bantus começaram a surgir na região dos Grandes Lagos Africanos, na savana sul da floresta tropical centro-africana. Na África Austral, no rio Zambeze, os reis Monomatapa construíram o famoso complexo do Grande Zimbábue, o maior dos mais de 200 desses sítios na África Austral, como Bumbusi no Zimbábue e Maniqueni em Moçambique. A partir do século XVI em diante, os processos de formação dos estados entre os povos Bantus aumentaram em frequência. Alguns exemplos de tais estados bantus incluem: na África Central e o Reino do Congo, o Império Lunda, o Império Luba de Angola, a República do Congo e a República Democrática do Congo; na Região dos Grandes Lagos Africanos, o Bugand e o Caragué Reino de Uganda e da Tanzânia; e na África do Sul, o Império Monomotapa, Império Rozui, e os Danangombe, Cami e Naletale Reinos de Zimbábue e Moçambique. Em direção dos séculos XVIII e XIX, o fluxo de escravos bantus do Sudeste africano aumentou com o aumento do Omani Sultanato de Zanzibar, com sede em Zanzibar, na Tanzânia. Com a invasão e dominação dos colonizadores europeus, o Sultanato de Zanzibar entrou em conflito direto no comércio e na concorrência com portugueses e outros europeus ao longo da Costa Suaíli, levando eventualmente à queda do sultanato e ao fim da negociação de escravos na costa suaíli em meados do século XX.
             O atracadouro passou então a chamar-se “cais da Imperatriz”. Entre 1850 e 1920, a zona tornou-se espaço público utilizado por ex-escravos de diversas nações, área que Heitor dos Prazeres, um dos fundadores da escola de samba quando mais tarde originou-se Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, chamou de “Pequena África”. Heitor dos Prazeres começou a trabalhar cedo na oficina do pai que era marceneiro. Talentoso, no trabalho e na imaginação musical, dominava o clarinete e o cavaquinho e seus sambas e marchinhas alcançaram projeção nacional. No local surgiu da terra testemunhos surpreendentes da história do Brasil, e particularmente da cidade do Rio de Janeiro: o chamado “Cais da Imperatriz”. Essa decisão implicou no alargamento e na compra de propriedades, no embelezamento e no melhoramento da região, projeto do famoso paisagista Grandjean de Montigny. Este era um cais de triste história, marcada pelo sofrimento e dor chamado de Cais do Valongo, pois constituiu a porta de entrada do tráfico de escravos. O Cais do Valongo foi substituído no âmbito do tráfico pelo Cais da Imperatriz no século XIX, não por acaso, mas porque do ponto de vista político representava uma tentativa consciente de apagar da memória o porto da história nacional.  

Na Baia de Guanabara onde se localiza historicamente o importante porto comercial do Rio de Janeiro, centro de operação de algumas das maiores empresas de navegação existentes, havia um grande número de estaleiros. Para facilitar o encalhe das embarcações, os estaleiros estavam localizados na parte mais protegida dos ventos dominantes de nordeste, e das correntezas da baía, em locais com adequado calado, principalmente nas imediações de ponta de Areia, em Niterói e nas ilhas adjacentes.  O maior contingente de operários navais era formado pelos trabalhadores encarregados dos reparos nos navios da maior empresa brasileira de navegação, a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, de propriedade do Patrimônio Nacional, que mantinha linhas ao de longo curso e de cabotagem.  Cerca de 3 mil operários navais trabalhavam nos dois diques secos e nas oficinas da empresa, na ilha do Mocanguê Pequeno, e mais 420, em outras instalações com oficinas e pequenas carreiras, na ilha da Conceição. Havia também alguns poucos trabalhando na ilha do Mocanguê Grande. Os operários navais do Lloyd tinham uma longa tradição de luta e forma muitos atuantes na luta por seus interesses durante toda a tradição dos Operários Navais. Outro grande contingente de operários navais desenvolvia suas atividades nos dois diques secos e oficinas da Companhia Nacional de Navegação Costeira, na ilha do Viana, contígua à ilha do Mocanguê Pequeno. Antiga propriedade de Henrique Lage, essa empresa pertencia ao patrimônio nacional.

O terceiro grande grupo de operários navais era constituído pelos 800 empregados da Companhia Comércio e Navegação Ltda., que trabalhavam na reparação dos navios da empresa, no dique seco denominado Dique Lahmeyer, nas oficinas e nas demais instalações, localizada na ponta da Areia, e os 200 empregados na carreira, nas oficinas e instalações complementares, na ilha do Caju. Os demais operários navais eram distribuídos entre vários estaleiros, de propriedade privada. Os operários navais empregados pela firma inglesa Wilson & Sons trabalhavam em suas instalações na ilha da Conceição, bem como nas suas outras instalações na ponta da Areia.  Ao largo da Conceição, ficava fundeado o dique flutuante da Eletrovapo, empresa fundada por funcionários da empresa portuguesa de serviços marítimos Cia. Eletrovapo de Serviços Marítimos, em Niterói. As empresas inglesas investiram pesado na aquisição e implantação de serviços públicos como os de luz, transporte: ferrovias, barcos e bondes), água, gás e esgoto. Além dos serviços, os ingleses passaram a implantar plantas fabris no estrangeiro. A Inglaterra não se contentava mais em produzir para o mundo comprar. Ela queria que o mundo também produzisse; mas com capital seu. E com os capitais, muitos trabalhadores ingleses e escoceses se dirigiram aos continentes europeu e americanos do Norte e dos Sul para atuar na consolidação desse propósito. Com sua expertise do ponto de vista técnico e de planejamento eles atuavam na instalação e no reparo de máquinas, organização da produção, estruturação e planejamento de atividades e fluxos.

O indivíduo, ator, identidade, grupo social, classe social, etnia, minoria, movimento social, partido político, corrente de opinião pública, poder estatal, todas estas “manifestações de vida” não mais se esgotam no âmbito da sociedade nacional, o que nos faz admitir que a diferenciação em comunidades locais, tribos, clãs, grupos étnicos, nações e até mesmo Estados, perderam ao menos algo do seu significado anterior. Na sociedade global, de outra parte, generalizam-se as relações, os processos e as estruturas de dominação e apropriação, antagonismo e integração. Modificam-se os indivíduos, as coletividades, as instituições, as formas culturais, os significados das coisas, gentes e ideias, vistos em configurações histórico-sociais. Se as ciências sociais nascem e desenvolvem-se como forma de autoconsciência científica da realidade social, pode-se imaginar que elas podem ser seriamente desafiadas quando essa realidade já não é mais a mesma. Nesse sentido é que a formação da sociedade global pode envolver novos problemas epistemológicos, além de ontológicos.

Na orla marítima, a partir do Centro de Armamento da Marinha, até o porto de Niterói, passando pela Comércio, estavam situados alguns dos estaleiros mais citados pelos antigos operários navais, tai como os Estaleiros Toque-Toque, de M. S. Lino e Cia, Saveiro (antigo Laterais, ou Lightrage dos ingleses), Brazilian Coal, Guanabara (antigo Civilhidro) e Hidráulica. Há referência, também, aos estaleiros Camuirano, Atlântida e Estevar, aos estaleiros das empresas Transmarítima Comercial, Mag Navegação e Comércio, companhia Nacional de Saneamento, Empresa Fluminense de Serviços Marítimos e ao Estaleiro São Domingos, dedicado ao reparo das barcas do serviço de transporte de passageiros entre o Rio de Janeiro e Niterói, da Frota Cantareira. Os Estaleiros Caneco e Netuno situavam-se no Caju, no Rio de Janeiro.  Os trabalhadores desses estaleiros, dique, oficinas e demais instalações de reparo de embarcações eram os operários navais. Os operários que tiveram um papel mais destacado na classe consideram que os operários navais tiveram um papel importante na construção naval do país, recorrendo a vários meios de comunicação, como resoluções de congressos operários e outras manifestações, inclusive uma rememorada concentração em frente ao Ministérios de Viação e Obras Públicas. A implantação da construção naval é atribuída ao período desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, médico, oficial da Polícia Militar mineira, foi o 21º presidente entre 1956 e 1961. JK concluiu o curso de humanidades do Seminário de Diamantina e em 1920 mudou-se para Belo Horizonte. Na esfera política o enfrentamento entre operários navais, patrões e Governo, no Movimento de 1953, se verifica em função de seu trabalho especializado no reparo das embarcações.  

Os reparos abrangiam serviços tais como: remoção de ferrugem e pintura, serviços de carpintaria na tolda (primeira coberta de embarcação) e no colbro (forro de madeira dos porões), serviços de marinharia, obras de metalurgia, como por exemplo, troca de chapas do costado do navio, reparos de máquina de navios etc. Além disso, havia os inúmeros serviços de limpeza entre os quais se destaca, pela porosidade e pelas condições de insalubridade, a limpeza de fundo-duplo. Esse serviço se constituiu no ponto de entrada no estaleiro de grande número de operários navais. O fundo duplo é constituído por uma série de compartimentos no fundo do navio, abaixo da linha d`água, normalmente contendo água salgada, nos quais se acumulam gorduras provenientes das cargas depositadas nos porões dos navios. O trabalho consistia em entrar, por ínfimas aberturas, nesses compartimentos escuros e sem ventilação, de onde exalava um terrível odor de fermentação e gordura, para remover todo este material, deixando a área impecável. O trabalho era realizado, em geral, agachado, com os pés enfiados até os joelhos na massa gordurosa. Segundo Barsted (1982: 36), muitos trabalhadores morreram nesse serviço, não raramente eletrocutados nos fios usados para iluminar a área de trabalho. O trabalhador que demonstrava adequada proficiência e produtividade nesse serviço e aceitasse o regime de trabalho “sem reclamação”, era considerado apto para ingresso nas oficinas dos estaleiros. A limpeza de fundo-duplo foi, para esses trabalhadores, um verdadeiro rito de passagem. Os operários navais também são definidos pela sua atuação política mais visível no conflito social básico da classe operária, no período denominado “Época dos Operários Navais”, especificamente no Movimento de 1953.

Movimento social em que constituíram uma das facções politicamente mais combativas no curso do Movimento dos marítimos, principalmente na Greve de Junho, quando, durante dez dias, cerca de 100 mil marítimos, de todo o Brasil, de empresas autárquicas e privadas, paralisaram o seu trabalho, imobilizando os 300 navios que constituíram toda a Marinha Mercante Nacional, embarcações de transporte de passageiros, embarcações portuárias, diques, estaleiros e oficinas de reparação naval e respectivos escritórios, inclusive das empresas de navegação. No curso desse movimento e da Greve de Junho, os operários navais se diferenciaram dos demais marítimos pela unidade de ação e combatividade, particularmente pela criação de um poder dual que desalojou do seu sindicato os dirigentes sindicais pelegos, conquistou uma série de direitos e contribuiu decisivamente na construção de sua identidade social. A reversão momentânea, ou melhor, a neutralização parcial, da situação de dominação de classe, durante os dez dias da Greve de Junho, e a percepção da unidade de ação de toda a classe dos marítimos, evidenciada pela imobilidade das embarcações e pelo silêncio dos estaleiros, em contraste com a sua vivência cotidiana da diferenciação e do fracionamento dos trabalhadores, deixou uma profunda impressão naqueles que viveram essa extraordinária experiência. Sua singularidade e expressão política se tornava mais visível exatamente pela não-aplicação de sua força física ao processo de trabalho. Os marítimos do Lloyd e de outras empresas do Patrimônio Nacional tinham conseguido, em agosto de 1945, o direito à sindicalização, num momento em que o presidente Getúlio Vargas necessitava do apoio dos trabalhadores para a condução e permanência de sua política.  

Vale lembrar que nessa época, quando não havia ainda a construção naval em empresas, os vários grupos de marítimos trabalhavam, basicamente, para um único tipo de empresa, as empresas de navegação. No entanto, apesar de seus empregadores estarem agrupados num único sindicato, o Sindicato Nacional dos Armadores, tendo se originado da Conferência de Cabotagem, numa época em que a navegação de longo curso brasileira, em caráter regular, era exercida somente pela empresa estatal Lloyd Brasileiro foi uma companhia estatal ou paraestatal, de navegação brasileira. Fundada em 19 de fevereiro de 1894, no ano de vigência da Constituição que se sucedeu a Proclamação da República, após o governo do marechal Deodoro da Fonseca. A partir de 1942 adotou o nome Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima, conservando, porém, o logotipo, símbolo e sigla Syndarma, em âmbito nacional as empresas de navegação marítima. Por mais de seis décadas, movido pelas transformações que incidiram na atividade marítima comercial brasileira, teve seu papel incrementado, ultrapassando largamente o de caráter meramente classista (patronal) para assumir o de representação oficial da navegação marítima comercial do Brasil. Os trabalhadores marítimos, em contrapartida, estavam distribuídos por 17 sindicatos de trabalhadores.

Pela incorporação ou “encampação” de diversas empresas de navegação. Como sendo um dos vencedores da 2ª guerra mundial, o Brasil incorporou navios Alemães a sua frota estatal apreendidos durante o período de Guerra. As empresas estatais produtivas resultaram também de uma determinação política para evitar a desnacionalização de um setor econômico estratégico ou como alternativa para onerosas importações, ambos representando uma dependência indesejável nos fatores externos, que podem transformar-se em um impedimento crítico num país a caminho do desenvolvimento. Portanto, em muitos casos, a intervenção estatal é resultado de escolhas políticas feitas sob regras específicas de decisão que poderiam ser mais ou menos democráticas. Da mesma maneira, o resultado real pode ser também positivo ou negativo, dependendo de como e porque uma intervenção específica foi implementada. A intervenção direta do Estado na economia, mediante a criação de empresas estatais, ou indireta, através da regulação, pautou-se pelo esforço de promover a industrialização e o crescimento econômico. Coube ao Estado complementar as atividades do setor privado, investindo em infraestrutura e em áreas onde o capital necessário era muito grande, o retorno muito baixo, ou o período de maturação muito longo. Tais investimentos, por essas razões, não atraíam o capital privado nacional e/ou estrangeiro. As embarcações foram vendidas pelo governo na década de 1990. A empresa foi extinta em outubro de 1997, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) com o plano nacional de desestatização. O principal objetivo do programa consistia em pôr um fim à expansão “desordenada” do setor público. Propunha, ainda, a implantação de atividades sistemáticas de controle das empresas estatais e a criação das condições necessárias para transferência do controle de empresas para o setor privado. 

O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, obteve o título de Patrimônio Mundial da Unesco. O lugar foi o principal porto de entrada de escravos africanos no Brasil e representa a exploração e o sofrimento de homens e mulheres que subjugados, foram trazidos à força ao país até meados do século XIX. O título joga luz sobre um passado de escravidão que deixou como herança uma profunda desigualdade social e política entre brancos e negros e um racismo estrutural nem sempre reconhecido. O Cais do Valongo é um local de reprodução da memória, de importância singular com seus registros etnográficos que remete a um dos mais graves crimes perpetrados contra a humanidade. Por ser o porto de desembarque dos africanos em solo sul-americano, o Cais do Valongo representa simbolicamente a escravidão e evoca memórias dolorosas com as quais muitos brasileiros afrodescendentes podem se relacionar historicamente.
A Polícia Militar afirma que o 5º BPM (Praça da Harmonia) faz patrulhamento com rondas de carro e motocicletas, além de blitz e operações na região. O Comando das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) afirmou que o esquema de policiamento da unidade da Providência passa por mudanças de estratégia para coibir a atuação de criminosos fora do perímetro da comunidade. Já a Guarda Municipal informou que o local é considerado de risco e que, após uma avaliação, concluiu-se que não era possível colocar homens atuando no galpão. A insegurança, no entanto, não é o único problema que cerca as peças encontradas nas escavações do Cais do Valongo. No fim do ano passado, a prefeitura, o Iphan e o Ministério Público Federal (MPF) assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que obriga o município a conservar, gerir e promover a divulgação do material escavado por meio do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU), que deve contar com reserva técnica, área de exposição, laboratórios de pesquisas e auditório. O espaço, que custaria R$ 4 milhões, seria aberto ao público. O projeto da gestão de Eduardo Paes, agora está na gaveta, sem verba para sair do papel: - A prefeitura está em situação fiscal complicada, como o Brasil inteiro - justifica Índio, dizendo que o rombo na sua secretaria chegaria a R$ 1 bilhão. - No momento, a prioridade é saúde e educação.
    Ao ser nomeado patrimônio mundial, o Cais do Valongo foi colocado no mesmo patamar que outros lugares reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - como locais de representação da memória e sofrimento, comparativamente como um Memorial em Hiroshima (Japão), e o Campo de Concentração (“Konzentrationslager”) de Auschwitz (Polônia). A nomeação exige que as autoridades brasileiras assumam determinadas responsabilidades sociais. – “A Unesco recomenda que o Brasil adote ações especificas para a gestão dos vestígios arqueológicos, para a execução de projetos paisagísticos e para que os visitantes possam ter uma visão holística sobre o Cais do Valongo e o que ele representa”, afirma o Itamaraty. - “Tais medidas, que contribuirão para a preservação deste importante patrimônio cultural brasileiro, deverão ser implementadas pelos governos federal, estadual e municipal, em coordenação com a sociedade civil e as comunidades envolvidas”. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, também enfatizou a notícia em seu Instagram: - “Que a história da Diáspora Negra seja sempre lembrada. Que as origens de nosso país, de nossa formação e de nossa cultura possam ficar marcadas. Que a violência dos homens possa ser sempre recordada para que não se repita”.
O Brasil traficou cerca de 4 milhões de escravos nos mais de 3 séculos de duração do regime de trabalho escravagista, o que equivale a 40% de todos os africanos que chegaram vivos nas três Américas entre os séculos XVI e XIX. Destes, aproximadamente 60% entraram pelo Rio de Janeiro, sendo que cerca de 1 milhão deles pelo Cais do Valongo. O título de patrimônio histórico da humanidade tem o objetivo de reconhecer a importância do local dos africanos que lá desembarcavam para a formação cultural, social e econômica do Brasil. E ainda a sua relevância para toda a humanidade como símbolo da violência que a escravidão representa. O Cais do Valongo foi o único sítio inscrito pelo Brasil para concorrer ao título. A candidatura foi apresentada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pela prefeitura do Rio de Janeiro e aceita pelo comitê em 2015. Na oportunidade, foi apresentado dossiê (cf. Sela, 2006) com detalhes da história do tráfico negreiro e o que o trabalho escravo significou para a economia entre os séculos XVI e XIX. O trabalho, coordenado pelo antropólogo Milton Guran (2000), demonstrou que o sítio arqueológico não está ligado apenas aos afrodescendentes, mas a complexidade histórica brasileira. Para o Rio de Janeiro estamos falando de regiões distantes da plantation açucareira de Pernambuco e Bahia dos séculos XVI e XVII. 

Embora sem a força econômica e demográfica do Nordeste, em fins do século XVI e durante o ´seculo XVII, temos considerável número de engenhos fluminenses, especialmente em tonro do recôncavo da Guanabara. Enfim, categorias como modernidade, modernização e escravidão vão estar presentes  no imaginário individual e coletivos na cidade do Rio de Janeiro, e como ironia irá conviver durante grande parte do século XIX gerando uma contradição, pois numa cidade que aparentemente busca o desenvolvimento baseado em ideias capitalistas que começavam a chegar da Europa não abre mão do trabalho escravo. Esta questão ideológica, mas, sobretudo política de contenção, ratifica porque a transferência do mercado de escravos para o Cais do Valongo não retirou do espaço urbano a presença da onda negra e do medo branco no imaginário individual e coletivo das elites brancas escravagistas do século XIX. O Cais do Valongo torna-se o primeiro patrimônio mundial do continente relacionado à escravidão, prática repugnante que o Brasil encampou e que, por meio século fez do Rio de Janeiro a maior cidade africana desta parte do mundo ocidental.
A possibilidade de africanos ocidentais embarcados para o Brasil a partir de Senegâmbia e Cabo Verde e chegando - diretamente ou por intermediação - ao Rio de Janeiro deve ser mais investigada, em função das redes de tráfico, existentes ainda na primeira metade do século XVII. Tais redes abasteciam as regiões açucareiras de Pernambuco e Bahia, as áreas do Prata e poderiam fazer eventuais abastecimentos para as regiões do Sudeste e para a incipiente montagem econômica do recôncavo da Guanabara e subúrbios do Rio de Janeiro seiscentista. Dos 20 mil escravos que chegavam ao país a cada ano, 5 mil eram adquiridos por seus moradores por em média, 100 000 réis (um décimo do preço de uma casa, comparativamente). Jean-Baptiste Debret, em suas pinturas do Brasil colônia, retratou a “casa de engorda”, como eram chamados os entrepostos de africanos situados, sobretudo na Rua do Valongo. A região, hoje central, devido seu desenvolvimento, era afastada da cidade e incluía um cemitério e um abrigo para escravos doentes. No sítio arqueológico cavado em 2011 foram encontrados, além das pedras do cais, 1,2 milhão de artefatos relacionados à vida cotidiana, à religião e à reviravolta de escravos, acomodados em um galpão próximo. Tornou-se patrimônio da humanidade na categoria de “sítio histórico sensível”, idêntica ao campo de concentração de Auschwitz e da cidade de Hiroxima, destruída por uma bomba atômica norte-americana, o Cais do Valongo jamais irá apagar de vez seu passado de tragédia e iniquidade humana. 
Bibliografia geral consultada.
CARAMA, Antonio, Architectura Naval: Construções Navais Indígenas do Brazil. Rio de Janeiro: Typografia de G. Leuzinger & Filhos, 1888; FLORENTINO, Manolo, Em Costas Negras: Uma História do Tráfico Atlântico de Escravos entre a África e o Rio de Janeiro, Séculos XVIII e XIX. São Paulo: Editora Cia das Letras, 1997; HOLLOWAY, Thomas, Polícia no Rio de Janeiro: Repressão e Resistência numa Cidade do Século XIX. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997; CAVALCANTI, Nireu Oliveira, A Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro: As Muralhas, sua Gente, os Construtores (1710-1810). Tese de Doutorado em História. Departamento de História. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1997; GÓES, José Roberto, Escravos da Paciência - Estudo sobre a Obediência Escrava no Rio de Janeiro (1790-1850). Tese de Doutorado em História. Departamento de História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1998; CUNHA, Getulio Nascente da, As Noites do Rio: Prazer e Poder no Rio de Janeiro 1890-1930. Tese de Doutorado. Departamento de História. Brasília: Universidade de Brasília, 2000; ARANTES, Erika Bastos, O Porto Negro: Cultura e Trabalho no Rio de Janeiro dos Primeiros Anos do Século XX. Dissertação de Mestrado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2005; HONORATO, Cláudio de Paula, Valongo: O Mercado de Escravos do Rio de Janeiro, 1758 a 1831. Dissertação de Mestrado em História. Departamento de História. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2008; JORDÃO, Rogério Pacheco, Uma Descoberta Anunciada: Lembranças, Apagamentos e Heranças do Mercado de Escravos do Valongo no Rio de Janeiro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2015; VIANA, Iamara da Silva, Jean-Baptiste Alban Imbert: Discurso Médico e Controle Social sobre Populações Escravas, Rio de Janeiro (1830-1850). Tese de Doutorado em História. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2016; MARINHO, Glaucia Almeida, À Margem do Cais - As Lembranças de Casa e a Luta dos Moradores da Ocupação Quilombo das Guerreiras. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas. Faculdade de Educação da Baixada Fluminense. Duque de Caxias: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017; entre outros.