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sexta-feira, 18 de março de 2022

Soldadinho-do-Araripe – Compreender & Ignorância Bioantropológica.

                                      A alegria que se tem em pensar e aprender faz-nos pensar e aprender ainda mais”. Aristóteles

                         

          O desenvolvimento do tema da justiça na concepção de teoria de Aristóteles, discípulo de Platão, tem sede no campo ético, ou seja, no campo de um saber que vem definido em sua teoria como saber prático. É da reunião das opiniões dos sábios, dentro de uma visão de todo o problema que surgiu uma concepção propriamente aristotélica. O mestre do Liceu tratou também a justiça a entendendo como virtude, assemelhada a todas as demais tratadas no curso. A justiça, assim definida como virtude, torna-se o escopo das atenções de um ramo do conhecimento humano que se dedica ao estudo próprio do comportamento humano; à ciência prática, intitulada ética, cumpre investigar e definir o que é o justo e o injusto, o que é ser temperante e o que é ser corajoso, o que é ser jactante, etc. Somente a educação ética (hábito em grego), a criação do hábito do comportamento ético, o que se faz com a prática à conduta diuturna do que é deliberado pela reta razão à esfera das ações humanas, pode construir um comportamento virtuoso, ou seja, um comportamento justo. A justiça, em meio das demais virtudes, que se opõem a dois extremos, caracteriza-se por uma peculiaridade: trata-se de uma virtude à qual não se opõe dois vícios diferentes, mas um único vício, que é a injustiça.

Teoria da ação é um nível abstrato da filosofia que se dedica à análise de processos que causam os movimentos voluntários de um tipo mais ou menos complexo. Este nível de análise tem sido regra dos filósofos, principalmente desde a obra de Aristóteles, Ética a Nicômaco, a principal interpretação de Aristóteles sobre Ética. Nela se expõe sua concepção teleológica e eudaimonista de racionalidade prática, sua concepção da virtude como mediania e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência. Em Aristóteles, toda racionalidade prática é teleológica, quer dizer, orientada para um fim, ou um bem, como está no texto. À Ética cabe determinar a “finalidade suprema” (o summum bonum), que preside e justifica todas as demais, e qual a maneira de alcançá-la. Essa finalidade suprema é a felicidade (eudaimonia), que não consiste, comparativamente, nem nos prazeres, nem nas riquezas, nem nas honras, mas numa vida virtuosa. A virtude, por sua vez, se encontra no justo meio de trabalho entre os extremos, da divisão do trabalho intelectual e, será encontrada por aquele “dotado de prudência” (phronesis) e educado pelo hábito no seu exercício. Vale destacar ipso facto que a ideia de virtude, na Grécia Antiga, não é idêntica ao conceito influenciado pelo cristianismo.

Virtude tinha o sentido da “excelência de cada ação”, ou seja, de fazer bem feito, na justa medida, cada pequeno ato. Os valores sociais da conjuntura em que ele escreveu eram bem diferentes dos leitores atualmente; a palavra bem ou mal, por exemplo, apresenta significados totalmente opostos. Desta forma, metodologicamente, o que é injusto ocupa na teoria dois polos diversos, ou seja, é ora injustiça por excesso, ora é injustiça por defeito. Desse modo, como o homem sem lei é injusto e o cumpridor da lei é justo, evidentemente todos os atos conforme à lei são atos justos em certo sentido, pois os atos prescritos pela arte do legislador são conforme a lei, e dizemos que cada um dele é justo. Aristóteles desenvolveu uma concepção de justiça muito eficiente sobre a qual vários países do mundo ocidental elaboraram medidas pragmáticas de punições para pessoas que cometerem crimes graves na sociedade, baseadas nos processos e métodos de trabalho na justiça democraticamente criados por ele. A palavra equidade carregada de sentido, tem origem no latim “aequitas” e quer dizer característica de algo ou alguém que “revela senso de justiça, imparcialidade, isenção e neutralidade: duvidou da equidade das eleições”. Correção no modo de agir ou de opinar; lisura; honestidade; igualdade: tratou-a com equidade.                 

Disposição elementar para reconhecer a imparcialidade do direito de cada indivíduo. Assim, Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco, Livro V, aborda a questão da originalmente em torno da equidade enquanto princípio norteador indispensável para a efetivação da justiça. Para o referido filósofo, o maior pensador da Antiguidade, a singularidade é que “o equitativo é justo, porém não o legalmente justo, e sim uma correção da justiça legal. A razão disto é que toda lei é universal, mas não é possível fazer uma afirmação universal que seja correta”. É possível constatar que a lei não é totalmente plena, no sentido de abranger todas as situações e problemas jurídicos e sociais aos quais a sociedade possa estar sujeita, ou seja, existe uma determinada lei, entretanto, podem existir situações que não foram pensadas pelo legislador e consequentemente não estão abrangidas por esta lei, mas que também necessitam de amparo legal. Desse modo, não seria justo que tal situação ou caso fosse ignorado por uma “falha” do legislador, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para permitir que aquele caso seja conhecido e apreciado quanto ao seu mérito de maneira justa, levando-se em consideração as peculiaridades do caso concreto. Aristóteles menciona ainda que “essa é a natureza do equitativo: uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade”, sendo que é justamente essa correção que torna justa a resolução do caso concreto.

É possível depreender por meio de um raciocínio lógico que toda lei é justa, mas nem tudo que é justo é abarcado pela lei, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para que aquela situação que não foi abrangida pela lei tenha seu mérito analisado de maneira justa. E é justamente por ter esse caráter corretivo e, diga-se também, complementarmente, que para Aristóteles, o equitativo é uma espécie superior de justiça: por se amoldar as mais diversas situações existentes no mundo fático, afinal, é claro e notório que a sociedade tem uma mutação/mudança social muito mais acelerada do que a legislação posta para a regular, até mesmo porque são as próprias mudanças que vão embasar alterações na legislação. Da perspectiva da teoria da ação social, é só de maneira insatisfatória que as atividades do espírito humano podem ser restritas à confrontação cognitivo-instrumental, segundo a concepção filosófica de Habermas (2012) com a natureza exterior; ações sociais orientam-se por valores culturais. A cultura, que caracteriza as sociedades humanas, é organizada/organizadora via o veículo cognitivo da linguagem, a partir, segundo Morin, do “capital cognitivo coletivo” dos conhecimentos adquiridos, das competências aprendidas, das experiências vividas, da memória histórica, das crenças míticas de uma sociedade. E, dispondo de seu capital cognitivo, a cultura institui as regras/normas que organizam a sociedade e governam os comportamentos individuais. Estas regras geram processos sociais e regenera globalmente a complexidade social adquirida por essa mesma cultura. 

Assim, a cultura não deve ser compreendida pelas metáforas estruturais, que são termos impróprios em uma organização recursiva onde o que é produzido e gerado torna-se produtor e gerador daquilo que o produz ou gera. Isso facto, cultura e sociedade estão em relação geradora mútua; nessa relação, não podemos esquecer as interações entre indivíduos, eles próprios portadores ou transmissores de cultura, que regeneram a sociedade, a qual regenera a cultura. Daí a tese sociológica/filosófica moriniana segundo a qual, “se a cultura contém um saber coletivo acumulado em uma memória social, se é portadora de princípios, modelos, esquemas de conhecimento, se gera uma visão de mundo, se a linguagem e o mito são partes constitutivas da cultura, então a cultura não comporta somente uma dimensão cognitiva: é uma máquina cognitiva cuja práxis é cognitiva”.É neste sentido próprio de saber cognitivo que uma cultura abre e fecha as potencialidades bioantropológicas do conhecimento. Ela as abre e atualiza fornecendo aos indivíduos o seu saber acumulado, a sua linguagem, os seus paradigmas, a sua lógica, os seus esquemas, os seus métodos de aprendizagem, métodos de investigação, de verificação, etc., mas, ao mesmo tempo, ela as fecha e inibe com as suas normas, regras, proibições, tabus, o seu etnocentrismo, a sua autossacralização, a sua ignorância de ignorância. Ainda aqui, o que abre o conhecimento é o que fecha o conhecimento. Desde o seu nascimento, o ser humano conhece não só por si, para si, em função de si, mas, também pela sua família, pela sua tribo, pela sua cultura, pela sua sociedade, para elas, em função delas. Assim, o conhecimento de um indivíduo alimenta-se de memória biológica e de memória cultural, associadas na própria memória, que obedece a várias entidades de referência, diversamente presentes nela. Tudo o que é linguagem, lógica, consciência, tudo o que é espírito e pensamento, constitui-se na encruzilhada dialógica entre dois princípios de tradução, um contínuo, o outro descontínuo (binário).

As aptidões individuais organizadoras do cérebro humano necessitam de condições socioculturais para se atualizarem, as quais necessitam das aptidões do espírito humano para se organizarem individual e socialmente. A cultura está nos espíritos, vive nos espíritos, os quais estão na cultura, vivem na cultura. Meu espírito conhece através da minha cultura, vivem na cultura. Meu espírito conhece através da minha cultura, mas, em certo sentido, a minha cultura conhece através do meu espírito. Assim, portanto, as instâncias produtoras do conhecimento se coproduzem umas às outras; há uma unidade recursiva complexa estabelecida entre produtores e produtos do conhecimento, ao mesmo tempo em que há relação hologramática entre cada uma das instâncias, cada uma contendo as outras e, nesse sentido, cada uma contendo o todo enquanto todo. Falar em complexidade é falar em relação de interação simultaneamente complementar, concorrente, antagônica, recursiva e hologramática entre essas instâncias cogeradoras do reconhecimento humano. Mas não é apenas essa complexidade que permite compreender a possível autonomia relativa do espírito (faculdades intelectuais) e no sentido técnico do cérebro individual. Mas é assim mesmo que o espírito individual pode autonomizar-se em relação à sua determinação biológica. Recorrendo às suas fontes e recursos socioculturais. Em relação à determinação cultural utilizando sua aptidão bioantropológicas para organizar o conhecimento. O espírito individual pode alcançar a sua autonomia jogando com a dupla dependência que, ao mesmo tempo, o constrange, limita e alimenta.

Pode jogar pois na cultura há margem entre hiatos, aberturas, defasagens. Entre o bioantropológico e o sociocultural, o ser individual e a sociedade. Assim, a possibilidade de autonomia do espírito individual está inscrita no princípio de seu conhecimento. E isso em nível de seu conhecimento cotidiano, quanto em nível de pensamento filosófico ou científico. A cultura fornece ao pensamento as suas condições sociais e materiais de formação, de concepção, de conceptualização. Impregna, modela e eventualmente governa os conhecimentos individuais. A cultura e, pela via da cultura, a sociedade está no interior do conhecimento. O conhecimento está na cultura e a cultura está na representação do conhecimento. Um ato cognitivo per se é,  um elemento do complexo cultural coletivo da humanidade que se atualiza em um ato cognitivo individual. As nossas percepções ou mesmo concepções estão sob um controle, não apenas de constantes fisiológicas e também psicológicas, mas níveis de variáveis culturais e históricas. A percepção não devemos socialmente nos enganar/sublimar é submetida a categorizações, conceptualizações, taxinomias, que influenciarão o reconhecimento e a identificação das cores, das formas, dos objetos da natureza. O conhecimento intelectual organiza-se em função de paradigmas que selecionam, hierarquizam, rejeitam as ideias sociais e as informações técnicas, bem como significações mitológicas e de projeções imaginárias. 

Assim se opera a “construção social da realidade”, ou antes, a “co-construção social da realidade”, visto que a realidade se constrói também a partir de dispositivos cerebrais, em que o real (imagem) se consubstancializa e se dissocia do irreal (ficção), que constitui a visão de mundo, que se concretiza em verdade, em erro, na mentira. Para conceber a sociologia do conhecimento, é necessário, segundo Edgar Morin, conceber não só o enraizamento do conhecimento na sociedade e a interação social do conhecimento/na sociedade. Mas no anel recursivo no qual o conhecimento é produto/produtor sociocultural que comporta uma dimensão própria cognitiva. Os homens de uma cultura, pelo seu modo de conhecimento, produzem a cultura que produz seu reconhecimento. A cultura gera os conhecimentos que regeneram a cultura. Ao considerar-se a que ponto o conhecimento é produzido por uma cultura, dependente de uma cultura, integrado a uma cultura, pode-se ter a impressão de que nada seria capaz de libertá-lo. Mas isso seria, sobretudo, ignorar as potencialidades de autonomia relativa, no interior de todas aquelas culturas, dos espíritos individuais. Os indivíduos não são todos, e nem sempre, mesmo nas condições culturais mais fechadas, máquinas triviais obedecendo impecavelmente à ordem social e às injunções culturais. Isso seria ignorar que toda cultura está vitalmente aberta ao mundo exterior, de onde tiram conhecimentos objetivos e que conhecimentos e ideias migram entre as culturas. Seria ignorar que aquisição de uma informação, a descoberta de um saber, a invenção de uma ideia, podem modificar e transformar uma sociedade, mudar o curso da história.

Assim, o conhecimento está ligado, por todos os lados, à estrutura da cultura, à organização social, à práxis histórica. Sempre por toda parte, o conhecimento científico transita pelos espíritos individuais, que dispõem de autonomia potencial, a qual pode em certas condições sociais e políticas atualizarem-se e tornar-se um pensamento pessoal crítico.  Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo. Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir. E também que conjunto prodigioso de terminações sociais, culturais e históricas é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento. É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento, que são, segundo Morin, muito mais implacáveis. Em primeiro lugar, princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem uma visão de mundo e das coisas que governam/e controlam de modo imperativo e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias. Ao organizar os paradigmas e modelos explicativos associa-se o determinismo organizado dos sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu. As doutrinas e ideologias dominantes dispõem também da força imperativa e coercitiva que leva a evidência aos convictos e o temor inibitório aos desalmados.

Estes últimos, porém, não contam do ponto de vista da ciência com um referencial de verdade. Assim, coloca-se a seguinte alternativa: ou negamos aos componentes “não cognitivos” da tradição cultural o status assumido pelas entidades do terceiro mundo graças à alojação delas em uma esfera de nexos de validade, e então nivelamos esses mesmos componentes de maneira empirista, como formas enunciativas do espírito subjetivo; ou procuramos equivalentes para o referencial de verdade que está ausente. Essa segunda via, como veremos, é escolhida por Max Weber. Ele distingue diversas esferas culturais de valor – ciência e técnica, direito e moral, bem como arte e crítica. E também as esferas de valor não cognitivas constituem esferas de validade. Noções jurídicas e morais podem ser criticadas e analisadas sob o ponto de vista da correção normativa; obras de arte, sob o ponto de vista da autenticidade (ou beleza). Pode-se trabalhá-las como campo autônomos de problemas. A tradição cultural no todo como uma provisão de saber, a partir da qual se podem formar “esferas especiais de valor” e “sistemas especiais de validade distintas”. Por isso ele atribuiria ao terceiro mundo tanto os componentes culturais avaliativos e expressivos quanto os cognitivos-instrumentais.

Quando se escolhe essa alternativa, é preciso esclarecer o que podem significar “validade” e “saber” em face dos componentes “não cognitivos” da cultura. Este aspecto é importante na análise. Estes últimos, diversamente de teorias e enunciados, não podem ser ordenados a entidades do primeiro mundo. Valores culturais não cumprem uma função representativa. Segundo Habermas, desde Aristóteles, o conceito de agir teleológico está no centro da teoria filosófica da ação. O ator realiza um propósito ou ocasiona o início de um estado almejado, à medida que escolhe em dada situação meios auspiciosos, para então empregá-los de modo adequado. O conceito central é o da decisão entre diversas alternativas, voltada à realização de um propósito, derivada de máximas e apoiada em uma interpretação da situação. O modelo teleológico do agir é ampliado a modelo estratégico quando pelo menos um ator que atua orientado a determinados fins revela-se capaz de integrar ao cálculo do êxito a expectativa de decisões. Esse modelo de ação é frequentemente interpretado de maneira utilitarista; aí se supõe que o ator escolhe e calcula os meios e fins, provavelmente no trabalho, segundo aspectos da maximização do proveito ou das expectativas de proveito. Esse modelo de ação, em economia, sociologia e psicologia social, está subjacente às abordagens vinculadas à decisão ou à teoria lúdica. 

O conceito de agir regulado por normas não se refere especificamente ao comportamento de um ator, que encontra outros no entorno, mas a membros de um grupo social, que orientam seu agir segundo valores em comum.  O ator individual segue uma norma (ou colide com ela), tão logo as condições se apresentem em uma dada situação na qual se possa emprega-las. Existem mais de 1900 espécies de aves no Brasil, e de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) existem 240 espécies e subespécies de aves brasileiras consideradas ameaçadas de extinção, 6 extintas e 2 extintas na natureza, utilizando os mesmos critérios e categorias adotadas pela L`Union Internationale pour la Conservation de la Nature (IUCN). Das 33 ordens de aves que ocorrem no Brasil, 22 possuem espécies ameaçadas de extinção. Os Passeriformes são a ordem com maior número de espécies no Brasil e também a com maior número de espécies ameaçadas, seguida pela ordem dos Psitaciformes. O Nordeste brasileiro, notadamente nos biomas da Mata Atlântica e da Caatinga, é onde reside a maior parte das espécies de aves ameaçadas, sendo que duas delas: o mutum-do-nordeste, Pauxi mitu, e a ararinha-azul, Cyanopsitta spiix estão extintas na natureza. O Centro Pernambuco de endemismo é o que possui aves com situação mais crítica, dado a intensa fragmentação da Mata Atlântica da região. Algumas espécies podem ter sido extintas apenas do Brasil, como é o caso da arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus) e do maçarico-esquimó (Numenius borealis).

A última lista de espécies ameaçadas foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), pela Portaria n° 444, de 17 de dezembro de 2014. Apesar de algumas espécies terem sido retiradas da lista como é o caso específico de representação da arara-azul-grande, Anodorhynchus hyacinthinus), o número aumentou significativamente comparado com a última lista do Ministério do Meio Ambiente de 2003 que possuía 160 espécies e subespécies. A ignorância de uma mente infinita frente a uma finitude não representa a indiferença. O reconhecimento da ignorância é uma ignorância instruída, douta. Contudo, a natureza intelectiva se sente atraída por conhecer o incompreensível. É o retorno, nos atrai uma pregustação natural, que nos impulsa a seguir buscando. Tem uma aspiração até a sabedoria, até Deus, ainda reconhecendo que o sábio é agora quem descobre que não pode alcançar a Deus, a plenitude do reconhecer. Deus é esquivo, inalcançável. A douta ignorância não é transcendente, a sabedoria não vem de fora infundida, mas é dentro de si mesma. Isto cria uma dissenção com a modernidade, como na Bíblia. O conhecimento surge de si mesmo na aporia de Friedrich Hegel. A mente se adequa e cresce, mesmo sabendo que nunca alcançará o Absoluto, mas vai avançando. A douta ignorância tem a relação em si que a razão avança e aproxima-se do conhecimento.

O conhecimento se fundamenta no sensível, na experiência, na assimilação, mas isso não é o verdadeiro conhecimento. O verdadeiro conhecimento é o que se desprende da experiência. A razão é a que deve determinar as coisas, o distinguir não é o Absoluto, mas há coisas não distinguíveis que confundimos. Para poder encontrar o verdadeiro conhecimento, tem que se separar das características das coisas e encontrar a essência das próprias coisas.  E tem-se que buscar o que faz a coisa ser o que é, desprendendo-se de tudo o que não o faz único, para encontrar a qualidade ou categoria essencial. O que permite encontrar a qualidade no pequeno limite. O filósofo é quem busca, com humildade, o conhecimento e a sabedoria. Deste ponto de vista, filosofia significa amor à sabedoria. O filósofo é o amigo, o amante para o conhecimento, aquele que demanda a verdade, não aquele que acha que a possui. Mas o que interroga, não é aquele que se fecha em certezas supostamente definitivas. O filósofo tem uma qualidade que entendemos ser a “douta ignorância”. Ela equivale a uma disposição do espírito, a uma abertura da mente em relação à procura da verdade. Ao reconhecer a sua própria ignorância, o filósofo sabe que a consciência de que nada sabe é um princípio para superar as ilusões do falso saber, do reino das aparências, ou de um saber que, apesar de limitado, se considera ilimitado.         

Quando devidamente praticado, o lema socrático “só sei que nada sei” (Το μόνο που ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα), se é verdade, permite que nos libertemos da tirania do hábito a que está submetido quem julga possuir a verdade como um Direito. A ignorância como inibição, repetimos, não por acaso pode aparecer em casos limitados e ligados a situações pontuais. A “não aprendizagem” pode corresponder a uma retração intelectual do “eu” (moi). Entendo, com isso, uma retração do inconsciente lógico que dá a imagem de um “eu” (moi) ignorante. Essa retração pode aparecer, segundo Freud, em três ocasiões: a primeira, quando os órgãos intervenientes na ação de aprender sexualizam-se; a segunda, quando o sujeito evita o sucesso, apresentando, no momento preciso de obtê-lo, um comportamento de fracasso de si mesmo. É preciso levar em conta que o saber está sempre submetido ao interdito; e a terceira, quando o “eu” (moi) requer toda a energia disponível, por exemplo, durante o período de luto. A dificuldade de aprender parece estar ligada aí à falta de resignação das aprendizagens que representam a situação perdida. É necessário acreditar, então, que a ignorância, no sujeito que aprende, representa seu modo de viver a relação com o “outro do conhecimento”, um jeito de resolver a alternativa dramática, posta já a Adão e Eva, na mitologia cristã entre o saber e a ignorância. Para o sujeito superar sua perturbação, é preciso restituir ao ser à atividade cognitiva da alegria que foi pervertida sob a forma de ignorância. No século passado, na Áustria, o jovem estudante Törless, tímido e inteligente observava o comportamento sádico de seus amigos da escola, e não toma nenhuma providência, quando estes escolhem como vítima uma colega da sala de aula, até que a tortura vai longe demais.

Adaptação do aclamado livro, o filme: Der Young Törless (1996) de Robert Musil, esta obra prima, deu internacionalidade ao movimento do chamado Cinema Novo Alemão, e ganhou em 1996 no Festival de Cannes, o Prêmio da Crítica Internacional para o já bastante premiado diretor, Volker Schlondorff. Chama-se etologia a ciência dedicada ao estudo do comportamento dos animais. No estudo de caso das aves a observação do comportamento se torna muito interessante e prazerosa devido à diversidade, à curiosidade e, muitas vezes, à complexidade e beleza. As andorinhas representam um grupo de aves pertencentes à família Hirundinidae. São graciosas e ágeis. Voam, realizando longas migrações. Estatisticamente existem no mundo cerca de 80 espécies de andorinhas. Exceto na Antártida, pois esta ave não vive em lugares de baixa temperatura. A andorinha, em geral, é de cor azul, com o peito acinzentado claro. Elas são aves de pequeno porte, com asas longas e pontiagudas, com a cauda geralmente bifurcada, bico e patas curtas. É monogâmica, possuindo um parceiro durante toda a sua existência. Por essa razão está associada ao amor e à fidelidade. Esta ave remete à partida e ao regresso, pois, parte no inverno e regressa na primavera, por vezes, ao mesmo lugar que havia deixado. Devido à essa característica, a andorinha simboliza os movimentos cíclicos da existência que oscilam entre o Yin (inverno) e Yang (primavera), e a tudo relacionado a esses aspectos: a renovação, mudanças e ao renascimento. Sua alimentação consiste de insetos que capturam com o bico aberto, durante o deslocamento no voo.

Cada andorinha consome cerca de 10 mil insetos por dia, pois necessita de consumo de calorias notável para poder desenvolver-se plenamente. Os ninhos são comumente feitos com lama, restos vegetais e a saliva. Ocorrem em barrancos, árvores, estábulos, barracões, garagens, pontes, túneis, barragens, entre outros. O ninho é usado durante anos seguidos, pois com a mudança das estações as andorinhas, migram para outro lugar, mas depois que passa esta estação, elas retornam para o mesmo ninho que haviam deixado antes de migrarem. Viajam longas distâncias, migrando em busca de alimentos e, para isso, se direcionam às regiões quentes. As andorinhas migram de um lugar que esteja no inverno, para ir para outro local com o clima mais ameno ou quente. A andorinha mede entre 16 e 20 centímetros de comprimento, mas quando abre suas asas, pode alcançar 35 centímetros. Seu peso não é muito maior do que esses números. Fica entre 15 e 25 gramas. A plumagem da andorinha recebe vários tons de cores e chega a brilhar no período noturno. Suas penas recebem coloração de azul metálico que quase alcança a tonalidade preta. O queixo do pássaro recebe tom avermelhado e sua cabeça, tom azul. Combinações de cores que sem dúvida geram efeito comunicacional muito apreciável. As asas são pontiagudas, as patas, pequenas, o mesmo quanto ocorre ao bico.

 A cauda é visivelmente bifurcada. Pouca diferença há comparativamente entre as andorinhas machos e fêmeas.  As cores são idênticas e distribuídas nas mesmas partes. A andorinha fêmea tem penas mais curtas e recebe no abdômen uma sombra mais pálida. A andorinha mais comum no Brasil é a Progne chalybea, reconhecida como andorinha-grande. Essa espécie tem penas castanho-cinzentas no peito e penas azuis nas laterais. Etnograficamente é uma ave primaveril, que anuncia a primavera quando os dias estão mais longos para viver. O campo começa a encher-se de flores e o ar de grande variedade de sons e música. Estamos no início da primavera. As aves vivem com alvoroço a nova estação, disparando pelo céu em busca de um par para iniciar mais um ciclo de vida. Deve-se salientar que o número de taxa de aves aumentou substancialmente nos últimos anos, com mais de 50 espécies tendo sido descritas no Brasil durante a segunda metade do século XX. Outro ponto importante é que apesar da lista do ICMBio ter usado os mesmos critérios e categorias da IUCN, frequentemente a avaliação tem conclusões diferentes: muitas espécies não consideradas em extinção pela IUCN foram incluídas na lista do ICMBio, enquanto outras foram consideradas com grau de ameaça mais baixo.

 Isso se deve às avaliações terem sido feitas por grupos de pesquisas diferentes em momentos diferentes. A pesquisa arqueológica no Brasil surgiu mediante a inevitável curiosidade humana e os estudos dos exploradores, naturalistas, viajantes, botânicos, geólogos, e paleontólogos europeus. Nesse sentido, os registros etnográficos científicos dessas diversas áreas confundem-se e complementam-se. De maneira geral, as numerosas informações arqueológicas existentes na bibliografia sobre o Nordeste, até a década de 1960, eram produtos de achados casuais e/ou de apressadas coletas de superfície. Os estudos arqueológicos começaram sistematicamente no século XX, a partir da década de 1960. A partir do avanço em torno do desenvolvimento das pesquisas acerca da temática arqueológica nordestina em conjunto com a introdução e desenvolvimento de novas tecnologias de datação, como o carbono-14, pode-se ter noção do período das primeiras ocupações estabelecidas na região, particularmente e de resto no Brasil. Numerosos sítios no Nordeste são registrados sob a denominação de Arte Rupestre. Gabriela Martín e André Prous apontam para a referência a uma gravura rupestre, no Brasil, realizada por Feliciano Coelho de Carvalho, na Paraíba, em 1598. Foi mais um interessado administrador engajado na perspectiva colonialista, quarto governador da capitania da Paraíba, a qual governou de 1595 a 1599. Capitão-mor, encontrou a capitania em grande aperto em virtude dos ataques praticados pelos potiguaras em defesa de suas roças e arredores. Para a Bahia, encontramos um documento do século XVIII, no Arquivo Histórico Ultramarino, em locais com pinturas rupestres, com figuras humanas e de animais, encontradas durante uma viagem pelo interior do estado à procura de salitre.

   

 O território do Nordeste possui um enorme acervo de pinturas e gravuras realizadas sobre um suporte fixo pétreo, seja em abrigos, em paredões tipo cânion ou em afloramentos rochosos. Os grafismos foram localizados até o momento em quase todos os estados nordestinos colonizados. Os trabalhos sistemáticos de muitos arqueólogos que trabalham no Nordeste, nesse campo da Arqueologia, permitem hoje reconhecer unidades estilísticas que foram denominadas de tradições. Existem variações localizadas, feitas sobre a estrutura temática das tradições que os arqueólogos chamam de subtradições. A distribuição de sítios dessas tradições varia de estado para estado, havendo maior frequência de uma ou outra. Devemos considerar que ainda não foram esgotadas as possibilidades de “achados” e que alguns territórios poderão apresentar um patrimônio insuspeitado.

Na época da invasão e colonização dos europeus ao Brasil, o litoral nordestino era habitado por povos falantes de línguas tupis, embora existissem algumas áreas litorâneas habitadas por indígenas não-tupis, enquanto o interior do Nordeste era habitado por povos falantes de línguas macro-jê, reconhecidos pelos portugueses e tupis como “tapuias”. Foi na costa nordestina que os europeus desembarcaram pela primeira vez. Em dia 26 de janeiro de 1500, o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón (1462-1514) desembarcou em localidade do litoral nordestino controversa: alguns fazem referência ao que ocorreu em Cabo de Santo Agostinho (Pernambuco); outros afirmam que ocorreu no litoral do Ceará, na Ponta do Mucuripe (Fortaleza) ou Praia de Ponta Grossa (Icapuí). Numerosos sítios no Nordeste são registrados sob a convencional denominação de Arte Rupestre. Gabriela Martín e André Prous apontam para a mais antiga referência a uma gravura rupestre, no Brasil, feita por Feliciano Coelho de Carvalho, na Paraíba, em 1598. Para a Bahia, encontramos um documento do século XVIII, no Arquivo Histórico Ultramarino, que faz menção a locais com pinturas rupestres, com figuras humanas e de animais, encontradas durante uma viagem pelo interior do estado à procura de salitre. O território do Nordeste possui um enorme acervo de pinturas e gravuras realizadas sobre um suporte fixo pétreo, seja em abrigos, em paredões tipo cânion ou em afloramentos rochosos. Os grafismos foram localizados até o momento em quase todos os estados nordestinos. Os trabalhos sistemáticos de muitos arqueólogos que trabalham no Nordeste, nesse campo da Arqueologia, permitem hoje reconhecer unidades estilísticas que foram denominadas de tradições. Existem algumas variações localizadas, feitas sobre a estrutura temática das tradições que os arqueólogos chamam de subtradições.

 A distribuição de sítios dessas tradições varia de estado para estado, havendo em alguns, maior frequência de uma ou de outra. Por outro lado, devemos considerar que ainda não foram esgotadas as possibilidades de achados e que alguns territórios poderão apresentar um patrimônio insuspeitado. Na época da chegada dos europeus ao Brasil, o litoral nordestino era habitado por povos falantes de línguas tupis, embora existissem algumas áreas litorâneas habitadas por indígenas não-tupis, enquanto o interior do Nordeste era habitado por povos falantes de línguas macro-jê, conhecidos pelos portugueses e tupis como “tapuias”. O “descobrimento” oficial do Brasil ocorreu em 22 de abril de 1500.  A expedição portuguesa liderada por Pedro Álvares Cabral (1467-1520) desembarcou na região do atual município de Porto Seguro, no litoral do estado da Bahia. Foi no litoral nordestino que se deu início a primeira atividade econômica do país, a extração do pau-brasil. Essa árvore era extraída pelos indígenas, que, em troca, recebiam itens considerados novos por eles das mãos dos portugueses. Nessa época, não houve uma colonização do Brasil, apenas feitorias em que o pau-brasil era armazenado para ser enviado para a Europa. Países como a França, que não concordavam com o Tratado de Tordesilhas (1494-1750), realizavam constantes ataques ao litoral nordestino com o objetivo de contrabandear a madeira para a Europa. A população indígena na região da Zona da Mata foi dizimada pelos colonizadores portugueses, pelos métodos de escravização, guerras ou doenças introduzidas pelos europeus. Com a precariedade ululante do sistema das capitanias hereditárias, estabelecido pelo rei português João III em 1534, em 1548 a Coroa Portuguesa estabeleceu um governo geral no Brasil e, no ano seguinte, o fidalgo Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, fundou Salvador para ser a sede da colônia. 

A partir de meados do século XVI, o cultivo da cana-de-açúcar, presente desde o tempo das capitanias hereditárias, se tornou a base econômica da região da Zona da Mata, por causa dos solos férteis e condições climáticas favoráveis. A Coroa Portuguesa cedeu sesmarias para a criação de engenhos. A revolta dos indígenas à escravização e a dizimação dos povos originários levaram os portugueses a importar uma grande quantidade de africanos escravizados para trabalhar nas lavouras açucareiras, sendo o tráfico transatlântico de escravos uma atividade comercial que dava grandes lucros para a Coroa Portuguesa. A criação de gado foi introduzida no Brasil junto com a cana-de-açúcar e era atividade complementar às lavouras canavieiras. No entanto, ao longo das décadas seguintes, com o aumento do número de cabeças de gado, o rebanho bovino foi pressionado para a região da Caatinga. A pecuária foi a responsável pela ocupação do Sertão Nordestino é uma atividade econômica crucial nessa sub-região nordestina. Em 1612, os franceses invadem a costa Norte do Maranhão para criar uma colônia, denominada França Equinocial, mas os portugueses souberam disso e reuniram tropas a partir da Capitania de Pernambuco, sob o comando de Alexandre de Moura, fidalgo, cavaleiro de São Bento, militar português, político. Líder do exército português que colaborou com a destruição da França Equinocial no atual estado do Maranhão, durante o período colonial. Essas operações militares culminaram com a rendição francesa no final de 1615 e o início da colonização do Maranhão pelos portugueses. Durante muito tempo, analogamente, o Maranhão era parte das mesmas organizações administrativas coloniais do que a Amazônia Brasileira.

Bibliografia Geral Consultada.

RANDLES, William Graham Lister, Da Terra Plana ao Globo Terrestre. Uma Mutação Epistemológica Rápida (1480-1520). Campinas: Papirus Editora, 1994; SICK, Helmut, Ornitologia Brasileira: Uma Introdução. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário: Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; LINHARES, Karina Vieiralves, Espécies Estratégicas para conservação de Antilophia bokermanni, Ave Ameaçada e Endêmica da Chapada do Araripe, Ceará, Brasil: Riqueza, Uso e Distribuição Temporal de Recursos. Tese de Doutorado em Biologia Vegetal. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2009; RAMOS, Maria das Graças Ouriques, Definição de Ecossistemas. Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2010; DARWIN, Charles, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2009; MENDES, Solange, Efectos de la Contaminación Acústica en Cuatro Espécies de Aves Silvestres. Tese de Doutorado. Espanha: Universidade de Salamanca, 2010; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. 1. Racionalidade da Ação e Racionalização Social. São Paulo: WMF/Editora Martins Fontes, 2012; GOETHE, Johann Wolfgang von, Ifigênia em Táuride. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2016; LIMA, Julianne Alves Cavalcanti de, Analise da Pressão Antrópica sobre as Áreas de Endemia da Antilophia bokermanni (Aves: Pipridae) na Chapada do Araripe no período de 1984 a 2016. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Bioprospecção Molecular. Crato: Universidade Regional do Cariri, 2017; LE BRETON, David, Antropologia das Emoções. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 2019; DETONI, Henrique; FONSECA FILHO, Ricardo Eustáquio, “Potencial do Parque Natural Municipal das Andorinhas, Ouro Preto (MG) para o Geoturismo”. In: Tur. Visão e Ação. Volume 23, nº 2, 350-375, mai./ago.- Balneário Camboriú. Santa Catarina, 2021; CESÁRIO, Luciano, “Ave-símbolo do Cariri, Soldadinho-do-Araripe Completa 25 Anos de Descoberta”. Disponível em: Jornal O Povo. Fortaleza, 15 de dezembro de 2021; DANTAS, Aflaudísio, “Gisele Bündchen Doa R$ 150 mil para Preservar Soldadinho-do-Araripe, Pássaro Exclusivo do Ceará”. Disponível em: https://www.tapisrouge.com.br/22/07/2022; entre outros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

André Leroi-Gourhan - Mãos, Arqueologia & Tecnologia Contemporânea.

                                                                                                                                     
                                                                                                                       Ubiracy de Souza Braga 
 
                  “O melhor arqueólogo é, apesar de tudo, um vândalo que destrói seu documento”. André Leroi-Gourhan
 
                                               

         André Leroi-Gourhan (1911-1986) é uma das figuras centrais das ciências humanas e sociais no século XX. Seu trabalho de pesquisa, incluindo arqueologia, etnologia e história da arte paleolítica, fora de destaque para estas disciplinas, e suas contribuições  representam uma referência global. Mas não é de fácil vulgarização, pela excessiva especialização. Na verdade, por se tratar da pré-história, um campo onde as lacunas são enormes e a necessidade de se buscar informações num amplo leque de disciplinas é uma obrigação, o seu estudo implica interdisciplinaridade, exigindo o contato de várias disciplinas entre si desde a etnologia, passando pela antropologia física, até a biologia e a psicologia evolutivas. Seus estudos recorrem aos mais variados saberes, apresentando como desafio justamente a possibilidade de se vincularem diversos conhecimentos sem cair no ecletismo. Também não se trata de uma interdisciplinaridade que supõe a conexão entre disciplinas estanques e entre cientistas superespecializados. Mas de intersecções entre campos de conhecimento e níveis de análise teórica entre pesquisadores que navegam em torno das e nas fronteiras disciplinares. Em muitos casos, a arqueologia se utiliza de investigações de outras áreas científicas, como a antropologia, história, história da arte, geografia, geologia, linguística, física, as ciências da informação, química, estatística, paleontologia (paleozoologia, paleobotânica e paleoecologia), medicina e literatura.
 A própria figura de Leroi-Gourhan condensa essa gama de interesses que se ramificam em várias áreas científicas. Interesse pela fabricação de utensílios, pelo simbolismo expresso na arte paleolítica, pela origem da escrita, pela anatomia comparada, pelo comportamento animal, pelo esqueleto humano. Durante 40 anos, mais de uma centena de artigos e vários livros foram dedicados a esta ou aquela parte de sua extensa obra. Três colóquios foram dedicados a ele, dois em homenagem após sua morte, em 1986 (SPF), 1987 (Centre National de la Recherche Scientifique) e outro em 1995 (Centre National de la Recherche Scientifique, Université de Technologie de Compiègne e Collège International de Pholosophie), publicado em 2004. Em 2013 decorrera um novo colóquio organizado pela equipe de pré-historiadores fundada por André Leroi-Gourhan, depois chamada “ArScAn-Ethnologie Préhistorique” dedicados a sua concepção etnológica e teoria de campo para avaliar a atualidade dentro da evolução no processo de comunicação das ciências humanas e sociais, inclusive para os arqueólogos que enfatizaram aspectos psicológico-comportamentais e definiram a arqueologia como a reconstrução da vida dos povos antigos.
  André Leroi-Gourhan Etnólogo e Arqueólogo francês nasceu em 1911, em Paris. Recebeu uma formação em línguas orientais, em russo e chinês, antes de se dedicar à integralmente à Etnologia e Arqueologia. Leroi-Gourhan doutorou-se em Arqueologia, na Universidade de Lyon, em 1945, depois de realizar trabalho de campo no Japão entre 1937 e 1939. Foi professor de Etnologia na Universidade de Lyon, e fundador do Centre de Formation à la Recherche Ethnologique, no Musée de l`Homme, de que foi diretor, desde o final da 2ª guerra mundial em 1945 até 1954. Entre 1956 e 1967 foi professor de Etnologia Geral na Universidade de Paris. Em 1968 foi nomeado professor de Pré-história do Collège de France. Autodidata e acadêmico policompetente, para lembramos da categoria sociológica de Edgar Morin, deixou importantes contribuições na coleta de fontes documentais em várias áreas compartilhadas do conhecimento, com destaque para a Antropologia Física, Etnologia e Pré-História, período da história do homem anterior à invenção da escrita e do uso e produção dos metais, estudado  tanto pela pesquisa arqueológica quanto antropológica, tendo em vista que estudam as singularidades e regularidades das culturas e os modos de vida das diferentes sociedades humanas - tanto do passado como do presente - a partir da análise de objetos materiais. Os arqueólogos de nossos tempos contemporâneos veriam o mesmo objeto como um instrumento que lhes serve para compreender o pensamento, os valores e a própria sociedade a que pertenceram.



              O símbolo não sendo já de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos grandes símbolos da imaginação em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, se se parte dos objetos bem definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas “chaves dos sonhos”, segundo as estruturas antropológicas do imaginário, cai-se rapidamente, pela massificação das motivações, numa inextricável confusão. Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos para os devaneios imaginários. De fato, as classificações mais profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso  incluindo arquétipos, atos, trabalhos artísticos, eventos, ou fenómenos naturais, por uma religião ou da imaginação de modo geral literária. A arqueologia do ponto de vista clasificatório é amostral, porque dedica-se ao estudo dos vestígios arqueológicos mas também trabalha com a totalidade da história do local onde usa como motor outras ciências auxiliares como a geologia, história, arquitetura, história de arte, entre outras ciências e áreas de conhecimento.
           
A relação estabelecida com os objetos observados no contexto arqueológico se dá por meio da potência de representação, de ações individuais e modos de vida que esses objetos possuem. Mas essa representação não se dá de forma individualizada nos objetos, mas por categorias de objetos, o que demanda a construção de unidades de comparação, a noção de tipo. Esta linha teórico-metodológica é baseada na noção de tipo, para qual nas representações rupestres as figuras são tidas como resultado de padrões culturais passíveis de mudança, surgindo daí o conceito de sinal ação. Neste ponto, os questionamentos acerca das noções conceituais de espacialidade utilizadas tradicionalmente na arqueologia são necessários, como as elaboradas tanto por Leroi-Gourhan embora esta última apresente uma maior abertura para a inclusão de diversos fenômenos. Essa noção tem sua importância, sendo, pois, relacionada, além da verificação da ocupação de determinado espaço por uma população específica, constituída através da relação espaço-tempo, com a possibilidade de inferência das identidades de grupos pretéritos, documentados historicamente. A relação entre a consciência de etnicidade e seu contexto que direciona as condições de vida e a constituição subjetiva de sua identidade, frente à realidade social, em situações muito específicas e circunstanciadas. Ipso facto, uma investigação arqueológica começa pela investigação bibliográfica como levantamento de área de conhecimento, ou, em alguns casos, pela prospecção, que faz parte igualmente do levantamento arqueológico.        
 Tanto escolhem normas classificativas a uma ordem de motivação cosmológica e astral, na qual são as grandes sequências das estações, dos meteoros e dos astros que servem de indutores à fabulação, tanto são os elementos de uma física primitiva e sumária que, pelas suas qualidades sensoriais, polarizam os campos de força no continuum homogêneo do imaginário; tanto, enfim, se suspeita que são os dados sociológicos do microgrupo ou de grupos étnicos que se estendem aos confins do grupo linguístico que fornecem quadros primordiais para os símbolos. Quer a imaginação estreitamente motivada seja pela particularidade da língua, seja pelas funções sociais normativas, se modele sobre essas matrizes sociológicas e antropológicas, quer pelos seus genes raciais, embora ramos do conhecimento científico como a antropologia, história ou etnologia utilizem-se do conceito de etnia para descreverem a composição de povos e grupos identitários ou culturais.  intervenham bastante misteriosamente para estruturar os conjuntos simbólicos, distribuindo seja as mentalidades imaginárias, do ponto de vista individual e coletivo, sejam os rituais religiosos, querem ainda, com uma matriz antropológica evolucionista, se tente estabelecer a hierarquia das grandes formas simbólicas em seu ersatz, compreendido metodologicamente através da apreensão do universo mental, os modos de sentir, o âmbito mais espontâneo das representações coletivas e, para alguns, o inconsciente coletivo de Carl Jung (1875-1961).
O grande mérito de Lewis Morgan, afirma Engels, é o de ter descoberto e restabelecido em seus traços essenciais esse fundamento pré-histórico da nossa história escrita e o de ter encontrado, nas uniões gentílicas dos índios norte-americanos, a chave para decifrar importantíssimos enigmas, ainda não resolvidos, da história da Grécia, Roma e Alemanha. Sua obra não foi trabalho de um dia. Levou cerca de 40 anos elaborando seus dados. O estudo da história da família começa, de fato, em 1861, com o “Direito Materno”, de Bachofen. Além disso, também Morgan observara e descrevera perfeitamente o mesmo fenômeno, em 1847, em suas cartas sobre os iroqueses, e em 1851 na Liga dos Iroqueses, ao passo que a mentalidade do advogado de Mac Lennan causou confusão ainda maior sobre o assunto do que a causada pela fantasia mística de Bachofen no terreno do direito materno. Outro mérito de Mac Lennan consiste em ter reconhecido como primária a ordem de descendência baseada no direito materno, conquanto, também aqui, conforme reconheceu mais tarde, Bachofen se lhe tenha antecipado. Mas, também neste ponto, ele não vê claro, pois fala, sem cessar, “em parentesco apenas por linha feminina”, empregando continuamente essa expressão, exata apara um período anterior, na análise de fases posteriores de desenvolvimento, em que, se é verdade que a filiação e o direito de herança continuam a contar-se exclusivamente segundo a linha materna, o parentesco por linha paterna está reconhecido culturalmente e expresso na estreiteza de critério do jurisconsulto, que forja um termo jurídico socialmente fixa e continua aplicando-o, sem modifica-lo.
      De forma simplificada, na arqueologia, é considerado que seu objeto de  pensamento refere-se aos artefatos produzidos e utilizados pelo homem em um passado, próximo ou remoto. O arqueólogo, ao se deparar com os restos das atividades humanas no passado, pode inferir como esses grupos se relacionavam entre si e com o ambiente. Essa forma de abordar os objetos arqueológicos tem como background uma postura semiótica da cultura. Em sua dimensão simbólica dos objetos, inclui-se a chamada arte rupestre como um artefato que produz a paisagem. No momento em que as abordagens  do registro arqueológico operam quanto à sua linearidade interpretativa, um dos focos dessas críticas vem do advento da noção de “agenciamento”. Isto é, quando lançam as bases para o entendimento de uma antropologia da arte, onde seu fazimento, produto do fazer e o suporte do fazer estabelecem relações de sentido. Estas relações decorrem de suas ações, estabelecidas em sucessivas redes de relações entre os signos rupestres em si, com o suporte, com seu entorno imediato, que forma uma paisagem, e com o seu observador imediato, em qualquer situação espaço-temporal, em sua materialidade.
Em Étiolles, l`année de la Découverte.
O processo de apropriação e de desenvolvimento das técnicas do corpo não poderia ser considerado em si, desconectado do que lhe dá o seu sentido: a atividade. Sem a inserção ativa dos corpos no sistema das normas técnicas vistas como fonte e recursos da atividade individual e coletiva, nenhuma técnica poderia ter mão no mundo. Desde logo é sob este olhar da modelação corporal originária que qualquer técnica é susceptível de ser interpretada. A partir deste ponto de vista, a obra de Leroi- Gourhan é uma vasta empresa de descrição, de recenseamento e de classificação das técnicas, de que dão conta, em conjunto com os seus numerosos artigos e seus principais livros. São estas diferentes classificações das motivações simbólicas que precisamos analisar antes de estabelecer um método crítico pretensamente firme na ordem das motivações sociais. Os estudos etnológicos de Leroi-Gourhan, também diretamente relacionados com o estudo da evolução processual da tecnologia, do homem e das sociedades, constituem, provavelmente, a sua principal contribuição teórica académica.
         O etnólogo propôs que a principal corrente de tecnologia, ao considerar que as semelhanças detectadas na produção tecnológica de cada período histórico civilizacional resultam do que ele denomina como “tendance”. Esta é a propensão dos grupos humanos para repetirem em suas práticas, as ações técnicas e desenvolverem meios tecnológicos idênticos em dado período, como resultado da ligação profunda entre as relações e os significados. É a dimensão social da inovação tecnológica que conduz a que esta seja sempre limitada. O artigo “Libération de la main” publicado em 1956 no nº 32 da revista Problèmes, da Associação dos estudantes de Medicina da Universidade de Paris é ainda pouco reconhecido. Nesse texto, Leroi-Gourhan demonstra que a mão apanágio do homo faber, instrumento do cérebro mais bem organizado de toda a série zoológica, que no sentido científico é aceito em todas as línguas, e cada nome aplica-se apenas a uma espécie livre dos seus constrangimentos pedestres, tendo em vista que é o símbolo da evolução do homem.
A tecnicidade, o pensamento, a locomoção e a mão aparecem interligadas num movimento ao qual o homem dá seu significado histórico, mas ao qual nenhum membro do mundo animal é completamente estranho. Segue-se uma descrição da evolução das formas de vida, da vida aquática à vida aérea, cuja concisão não retira nada ao rigor do proposto. Sem libertação da mão não há gesto técnico (instrumento) prolongamento da mão - nem instrumento - órgão da máquina - nem objeto fabricado. O objeto técnico está ligado ao contexto gestual que o torna tecnicamente eficaz, desvanecendo-se o seu significado técnico com o desaparecimento da memória do seu uso. A evolução dos homens para a posição em pé, libertando os membros superiores torna-os disponíveis para outras funções e em particular para agarrar e manipular objetos. Depois, progressivamente, diversos utensílios dos quais a paleontologia estuda as formas de vida existentes em períodos geológicos passados, a partir dos seus fósseis guarda vestígios, vão substituir a mão. O progresso técnico é dependente desta evolução anatômica (cf. Ouvriez-Bonnaz, 2010).
Ele precisa historicamente que se deve sublinhar a importância da transição evolutiva no homem para a posição ereta ao libertar as mãos para a atividade manual e o rosto para os gestos e a linguagem humana propiciando o desenvolvimento do córtex cerebral, da tecnologia cada vez mais complexa e da linguagem dos signos linguísticos. O rosto, para o naturalista, deixa de ser o reflexo da alma e o homem deixa de ser o prisioneiro de sua conformação natural. A via de uma antropologia se destaca pouco a pouco, a de uma ciência do homem que estabelece a relação entre o homem físico e o homem moral.  Apresenta uma teorização geral da relação entre a tendência técnica e a dinâmica da sociabilidade humana. Estes grupos relacionam-se com o meio exterior (geografia, clima, animais e vegetação) através dos objetos técnicos (uma pele exterior) como se fossem organismos vivos com um meio interior composto pela memória e cultura. A tendência técnica aparece como um fluxo em que internamente ganha uma ancoragem cada vez maior no meio externo através da representação dos fatos técnicos. Ao movimentar o corpo, independente de qual função exerça, realiza-se uma postura ou movimento, onde diversos músculos, ligamentos e articulações do corpo são acionados. A musculatura fornecer força para a execução da função, precisa estar preparada, como os seus ligamentos, pois possuem uma função no deslocamento do corpo. Chargé d’objets collectés au retour de la mission en Hokkaïdo, été 1938.

Ao contrário do que por vezes foi dito, vale lembrar que o conceito de evolução de Leroi-Gourhan não reduz pura e simplesmente o domínio dos objetos técnicos ao dos seres vivos, não visa naturalizar as técnicas separando-as do seu significado humano, permite, pelo contrário constituir este domínio das técnicas na esfera da objetividade, a parte, autônoma, irredutível e tornada acessível por um conhecimento especial que é o conhecimento tecnológico. Se o objeto da tecnologia releva efetivamente de um processo de evolução, não é um processo histórico, mas um processo determinado por leis de transformação de natureza operatória e funcional. Um objeto exumado num local de escavação não é em si um objeto de conhecimento. Só o poderemos considerar como objeto de conhecimento resituando-o num processo de evolução que permita por em evidência regularidades de estrutura e leis de transformação dessas estruturas. O objeto da tecnologia não é apenas a origem do utensílio e a sua concepção, mas uma operação que permite em movimento, o gesto eficaz regulado pelos constrangimentos da matéria.
           Na sua vontade de classificação, a arqueologia de Leroi-Gourhan mobiliza então a noção de “tendência”, espécie de determinismo técnico utilizado como conceito classificativo do qual dão conta os vestígios dos processos de trabalho. Uma constatação evidente é que o estudo sobre a técnica centra-se sobre um princípio de causalidade que situa a relação entre o homem e a matéria como um ato de produção. Esse tipo de relação a partir da atividade humana entendida como ato de produção leva a entender a materialização das técnicas como sendo representação de um conjunto de objetos, que nos informariam e seriam informados por características que são, em certa medida, externas à substância material que os compõem. Esse tipo de passagem é geralmente entendido analiticamente como ocorrência entre domínios ontológicos diferentes. Com efeito, os fenômenos causais existentes na natureza são assim separados e considerados distintos dos fenômenos que regem a vida do homem. O estabelecimento da relação homem/natureza nos leva a outro aspecto importante, e ipso facto condicionante nos estudos sobre a técnica. Mas também naqueles sobre o âmbito social e cultural em geral, isto porque, particularmente, a percepção do movimento é um dado de percepção técnica que pode ser descrito, representado e interpretado de diferentes maneiras.
Em obras publicadas na década de 1940, André Leroi-Gourhan apresenta um conjunto de noções elaboradas a partir da intenção de compreender a origem e o significado dos fenômenos técnicos, bem como em que medida opera a sua evolução. Entre essas noções destacam-se as de tendência técnica, ambiente técnico e fato técnico, voltadas à formação de um “paradigma analítico”, que estimula o debate contemporâneo. A tendência técnica seria um conceito abstrato voltado a entender efeitos causais de ação do homem sobre a matéria, em termos de eficácia, melhor dizendo, a capacidade de produzir uma quantidade desejada por intermédio do efeito desejado. Ela teria um caráter inevitável e seria previsível e retilínea. Por exemplo, “impulsionaria uma pedra segurada pela mão a adquirir um cabo”. Nesses termos, a tendência técnica seria relativamente independente de fatos sociais. Além de expressar ontologias distintas, os dois lados da dicotomia enunciam também a ideia de coletividade, de conjuntos e de sistemas correlatos. Nesses termos, a tendência técnica seria relativamente independente de fatos sociais. Além de expressar ontologias distintas, os dois lados da dicotomia enunciam também a ideia de coletividade, de conjuntos e de sistemas correlatos. Nesses termos, a natureza seria composta de elementos relacionados entre si por fatores de ordem ecológica, ao passo que o Homem seria a expressão de uma sociedade, de uma cultura, de um sistema simbólico, de uma representação mental, etc. Ela indicaria como, a partir da aquisição de conhecimentos matemáticos, químicos e físicos adequados, tende-se progressivamente ao aumento da eficácia da ação técnica desejada.
   Contrariamente às características da tendência, existiria em qualquer sociedade uma estrutura única de caráter que seria específica e comum à maioria dos grupos e classes que fizessem parte desta sociedade, o fato técnico é específico e imprevisível. Ele pode ser determinado pelo encontro da tendência com inúmeras coincidências do ambiente técnico. É um compromisso instável que se realiza entre as tendências e o ambiente. A força propulsora da tendência técnica encontra um obstáculo no momento em que há que realizar-se uma série de coincidências para que um progresso possa de fato se efetivar. Por tal razão, a tendência é abstrata na sua definição dinâmica. A oposição homem/natureza é uma particularidade da ciência na tradição ocidental. Podemos considerar a relação social entre elementos e técnicas como tendo as mesmas características oriundas da cultura. Podemos relacionar esses elementos e sua distribuição à organização social relacionada como a organização sociotécnica. A acessibilidade será assim condicionada por fatores de ordem física e química, influências e interações que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Mas também por princípios sociológicos que nos permite entender o grau de articulação de todos os outros que é representado pela compreensão operacional da sua função e pela competência técnica.
       A competência técnica se constitui a partir dos “estoques culturais” e do que poderíamos definir de “estoques técnicos”, resultantes não apenas da experiência entendida como um processo cognoscitivo relegado à esfera intelectual, mas também como um treinamento baseado num saber-fazer prático. Os comportamentos sociais,  transmitidos de uma geração para outra, envolvendo o balanço entre escolhas definidas pelo saber-fazer e por toda uma teia de relações intra e intergrupos, deveriam estar em equilíbrio com as opções oferecidas pelo ambiente Numa observação atenta, a obra de Leroi-Gourhan e dos que com ele definiram a tecnologia como uma ciência humana - referindo aqui mais particularmente Haudricourt (1987) - poderia levar bem mais longe do que se poderia imaginar à partida. Tal experiência oferecerá as coordenadas necessárias para se configurar uma tecnologia, entendida nos termos que desenvolve Tim Ingold, e avaliar sua eventual aplicação, dando vida a um desempenho técnico. Esse tipo de escolha será sempre movido pela busca de uma sempre esperada maior eficácia simbólica e técnica. Constituiria assim, uma tendência técnica, nos termos elaborados por Leroi-Gourhan, mas não limitada apenas a um critério econômico de produção. A eficácia deve levar em medida também por princípios sociais, simbólicos e políticos.
Bibliografia geral consultada. 
HAUDRICOURT, André-Georges, La Technologie Science Humaines. Paris: Editeur Maison des Sciences de L’Homme, 1987; LEROI-GOURHAN, André, Pré-História. São Paulo: Editora Pioneira; Editora da Universidade de São Paulo, 1981; Idem, Le Geste et la Parole I: Technique et Langage. Paris: Editeur Albin Michel, 2004; Idem, Le Geste et la Parole II: La Mémoire et les Rythmes. Paris: Editeur Albin Michel, 2004; BROMBERGER, Christian “et al”, Hommage à André Leroi-Gourhan. Paris: Anthropologie & Sciences Humaines, n° 7, pp. 61-76, 1986; KARSENTI, Bruno, “Techniques du Corps et Normes Sociales: De Mauss à Leroi-Gourhan”. In: Intellectica. Paris, n° 26-27, pp. 227-239, 1998; SOARES, André Luís Ramos, Contribuição à Arqueologia Guarani: Estudo do Sítio Ropke. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Arqueologia. Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005; MESCHONNIC, Henri, Critique du Rythme: Anthropologie Historique du Langage. Paris: Éditions Verdier, 2009; MORTENSEN, Marianne Foss, Museographie Transposition: The Development of an Museum Exhibit on Animal Adaptations to Darkness. In: Éducation et Didactique, 4 (1) 115-138, 2010; GARRABÉ, Laure, Les Rytmes d`une Culture Populaire: Les Politiques du Sensible dans le Maracatu-de-Baque-Solto. Tese de Doutorado em Estética, Ciências e Tecnologia das Artes. Paris: Université de Paris 8, 2010; MURA, Fábio, “De Sujeitos e Objetos: Um Ensaio Crítico de Antropologia da Técnica e da Tecnologia”. In: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre. Ano 17, n° 36, pp. 95-125, jul./dez. 2011; DIMAS, Willian Lopes, Comunicação e Circularidades: Uma Pequena Viagem em Torno do Corpo e seu Movimento. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de são Paulo, 2016; SOUZA, Luana da Silva de, Um Estudo sobre a Memória Técnica de Grupos Humanos do Haloceno, por meio da Variabilidade Técnica da Cultura Material Lítica, dos Sítios Arqueológicos Castração e Usina Localizados em Uruguaiana - RS. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2018; entre outros.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Museu Nacional - Brasil Incendiou 200 Anos de Arqueologia.

                                                                                                   Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

    Os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão hoje mente”. Umberto Eco


Museu Nacional não tinha brigada de incêndio, nem seguro para acervo.
 
Brigada de Incêndio são grupos de pessoas previamente treinadas, organizadas e capacitadas dentro de uma organização, empresa ou estabelecimento para realizar atendimento em situações de emergência. Em geral estão treinadas para atuar na prevenção e combate de incêndios, prestação de primeiros socorros e evacuação de ambientes. A Brigada pode atuar tanto preventivamente evitando situações que causam risco de incêndio, como no combate. Além do combate, os brigadistas também atuam nos processos de evacuação de emergência, prestação de socorro e primeiros socorros. Os brigadistas são funcionários da empresa capacitados em curso específico para exercer a função dentro da empresa. O modo de atuação voluntária lembra muito a dos trabalhadores que participam da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). O cálculo do número mínimo de brigadistas varia de acordo com as características do imóvel, seu uso comercial, residencial ou industrial, a população fixa e a participação social de pessoas em cada setor da edificação. No Estado de São Paulo, o cálculo é feito com base em tabela constante na Instrução Técnica n° 17 do Corpo de bombeiros. O treinamento deve ser anual ou se houver alteração de 50% de membros da Brigada.
O Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), era a mais antiga instituição científica do Brasil até meados de 2018. Localiza-se no interior do parque da Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, estando instalado no Palácio de São Cristóvão que serviu de residência à família real portuguesa de 1808 a 1821, e posteriormente à família imperial brasileira de 1822 a 1889.  Na política sediaram a 1ª Assembleia Constituinte republicana (1889-91), e passou a ser destinado ao uso técnico-científico em 1892.  O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1938. Fundado por Dom João VI em 6 de junho de 1818 sob a denominação de Museu Real, o museu foi inicialmente instalado no Campo de Santana, reunindo o acervo legado da antiga Casa de História Natural, chamada “Casa dos Pássaros”, criada em 1784 pelo Vice-Rei Dom Luís de Vasconcelos e Sousa, além de outras coleções de mineralogia e zoologia. A criação do museu visava a difusão da educação, da cultura e da ciência. Foi incorporado à Universidade Federal do Rio de Janeiro no período de redemocratização, em 1946.  


Constituído através de dois séculos por meio de coletas, escavações, permutas, aquisições e doações, o acervo era subdividido em coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia e etnologia. Foi a principal base para as pesquisas realizada pelos Departamentos Acadêmicos do museu que desenvolvia atividades em todas as regiões do país e em outras partes do mundo ocidental, incluindo o continente antártico. Possuía uma das maiores bibliotecas especializadas em ciências naturais do Brasil, com mais de 470.000 volumes e 2.400 obras raras. Abrigava um vasto acervo com mais de 20 milhões de itens, englobando alguns dos mais relevantes registros da memória brasileira no campo das ciências naturais e antropologia, bem como amplos e diversificados conjuntos de itens provenientes de diversas regiões do planeta, ou produzidos por povos e civilizações antigas, incluindo um dos mais antigos fósseis humanos da América Latina: o crânio de 11.500 anos de idade chamado Luzia.       
Na noite de 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções atingiu a sede do Museu Nacional, destruindo quase a totalidade do acervo histórico construído ao longo de duzentos anos, e que abrangia cerca de 20 milhões de itens catalogados. Além do seu rico acervo, também o edifício histórico que abrigava o Museu foi extremamente danificado com rachaduras, desabamento de sua cobertura, além da queda de lajes internas. Com seguidos cortes no orçamento, desde 2014 que o museu não vinha recebendo a verba de R$ 520 mil anuais necessário à sua manutenção. Em 2018, quando o museu completou 200 anos, o valor recebido despencou para R$ 54 mil. A edificação apresentava sinais visíveis de má conservação. O espaço que abrigava a montagem da primeira réplica de um dinossauro de grande porte feita no Brasil - fechou por estar infestada de cupins. Segundo o vice-diretor do Museu, o antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte, o museu lutava, desde 2000, para construir prédios anexos destinados a pesquisas que requeriam a preservação de objetos em álcool e formol. Somente um anexo foi erguido, com parceria de verba pública da Petrobras.  
Em 2 de setembro de 2018, logo após o encerramento do horário de visitação, um incêndio de grandes proporções atingiu todos os três andares do prédio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. Os bombeiros foram acionados às 19h30, chegando rapidamente ao local. Às 21 horas o fogo encontrava-se fora de controle, com grandes labaredas e estrondos ocasionais, sendo combatido por bombeiros de quatro quartéis. Dezenas de pessoas dirigiram-se à Quinta da Boa Vista para ver o incêndio. O acervo de minerais e rochas do Museu Nacional constituía um dos segmentos mais antigos de sua coleção, tendo sido amealhado desde o fim do século XVIII. A coleção era constituída por amostras de quase todas as espécies minerais até então conhecidas e possuía grande valor histórico, por ter sido o primeiro acervo mineralógico moderno classificado. Foi adquirida na Alemanha junto a Carl Eugenius Pabst von Ohain, antigo funcionário da Academia de Minas de Freiberg, pelo Reino de Portugal, provavelmente em 1805. A aquisição, ordenada por Antônio de Araújo Azevedo, então Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, visava a ampliar o acervo do Real Museu de História Natural de Lisboa. Não obstante, a transferência da corte portuguesa para o Rio em 1808, a Coleção Werner foi trazida, passando a compor inicialmente o acervo de Real Academia Militar, até ser incorporada ao Museu Nacional, em 1818.
      Do ponto de vista técnico-metodológico as diversas expedições naturalistas organizadas pelo museu durante a segunda metade do século XIX e do século XX resultaram na adição de várias outras peças, num período histórico não apenas em função dos perigos físicos que corriam durante suas aventuras antropológicas, mas também porque a comunidade científica não era unânime quanto à valorização do trabalho do viajante.  Todavia, destacavam-se o vasto conjunto de exemplares de quartzo, das variedades incolores (cristal de rocha) e coloridas (ametista, quartzo rosa e quartzo hematoide), os minerais do grupo mica (moscovita, biotita e lepidolita), um conjunto de cristais da Califórnia e peças de importância histórica, como um exemplar de equinoide silicificado, identificado como calcedônia, provavelmente oriundo da coleção da Imperatriz Leopoldina, que morreu no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, em 11 de dezembro de 1826, formando precioso elemento de destaque nas primeiras exposições do museu, e uma amostra de quartzo proveniente de Minas Gerais, doada pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas ao museu em 1940.
           A imperatriz Leopoldina já foi retratada como personagem no cinema e na televisão, interpretada por Kate Hansen no filme “Independência ou Morte” (1972), Maria Padilha na novela “Marquesa de Santos” (1984) e Érika Evantini na curiosa minissérie “O Quinto dos Infernos” (2002). A vida de Leopoldina também foi tema do enredo de 1996 da escola de samba Imperatriz Leopoldinense (RJ), cujo próprio nome já deriva indiretamente do seu, tendo em vista que a escola é sediada na zona suburbana da Estrada de Ferro Leopoldina, assim batizada em homenagem à imperatriz. Na ocasião, a carnavalesca Rosa Magalhães recebeu apoio do governo da Áustria para a realização do desfile. Em 2007, a atriz Ester Elias interpretou Leopoldina no musical Império, de Miguel Falabella, que narra parte da história do reinado do Brasil. Em 2017, a atriz Letícia Colin interpreta a imperatriz Leopoldina, na telenovela “Novo Mundo” na  Rede Globo.  Em 2018, tanto Leopoldina como a Imperatriz Leopoldinense foram homenageadas pela escola de samba Tom Maior, no carnaval de São Paulo.  
        O Museu Nacional possuía um dos mais significativos acervos paleontológicos da América Latina, totalizando cerca de 56.000 exemplares e 18.900 registros, divididos em núcleos de paleobotânica, paleoinvertebrados e paleovertebrados. A coleção se destacava pela presença de núcleos de reconhecido valor científico e histórico, coletados em tempos remotos, contemporâneos ao surgimento da própria paleontologia. Os primeiros fósseis encaminhados à instituição foram escavados no Uruguai em 1826, pelo naturalista prussiano Friedrich Sellow. Nas décadas seguintes, a colaboração de naturalistas estrangeiros seria fundamental para a ampliação do acervo paleontológico, destacando-se os envios do italiano Giovanni Michelotti, entre 1836 e 1837, bem como as aquisições efetuadas por Frederico Leopoldo César Burlamaque, então diretor-geral do museu, responsável por reunir conjuntos de fósseis de ictiossauros do Jurássico da Inglaterra e de mamíferos do Nordeste do Brasil. No último terço do século XIX, a coleção foi enormemente expandida graças às expedições realizadas pela Comissão Geológica, lideradas por Charles Frederick Hartt e integradas por Orville Derby. No século XX, já contando com o provimento de profissionais locais e paleontólogos especializados, a instituição pôde ampliar os estudos, investigações e expedições que ajudariam a consolidar a natureza enciclopédica de sua coleção paleontológica.
         O núcleo de paleobotânica possuía mais de 4.000 exemplares catalogados, representativos da flora fóssil do Brasil e de outras partes do mundo e datados de todos os períodos geológicos. Era majoritariamente composto por vegetais da Era Paleozoica, sobretudo seus fósseis de idade Neopaleozoica, oriundos das bacias dos rios Paraná e Parnaíba e da Chapada do Araripe, tais como as folhas, frutos, sementes, caules e troncos. Predominavam os exemplares da flora Glossopteris e, em menor proporção, comparativa, Lepidodendrales, Lycopodiales, Equisetales, Pteridophyta, Ginkgophyta, Cycadophyta, Coniferophyta e Anthophyta. Abundavam no acervo os exemplares notabilizados tanto pela importância histórica, “la longue durée”, nomeada uma amostra do primeiro vegetal fóssil coletado, um tronco da espécie Psaronius brasiliensis, do período Permiano, descrita em Paris pelo botânico Adolphe Brongniart em 1872, quanto pelo valor científico, como os exemplares de folhas de dicotiledôneas, procedentes de sedimentos cenozóicos da Bahia, singularizadas pelo excelente estado de conservação, e o conjunto de fósseis vegetais coletados pela equipe do Museu na Antártida.
O núcleo de paleoinvertebrados era o mais volumoso da coleção paleontológica, somando cerca de 10.000 registros e 46.000 exemplares, provenientes do Brasil e, em menor escala, da América do Norte e Europa. O núcleo de paleovertebrados abrigava cerca de 10.000 espécimes e 7.000 registros, sobressaindo, em termos de volume, os exemplares da fauna fóssil das eras Mesozoica e Cenozoica coletados em bacias sedimentares do Brasil. Notabilizava-se pela presença de itens de grande relevância científica, em especial registros fossilíferos com preservação de partes moles. Abrangia, sobretudo, exemplares fósseis de répteis, peixes, mamíferos e aves. Fósseis de peixes, majoritariamente datados do Cretáceo e proveniente das formações Crato e Romualdo, na Bacia do Araripe, Ceará. Um conjunto de fósseis de tartarugas excepcionalmente preservadas, a maioria das quais datadas do Cretáceo - Araripemys barretoi, a mais antiga tartaruga brasileira conhecida, proveniente da Chapada do Araripe. A coleção de registros fósseis de pterossauros, provenientes em sua maioria da Chapada do Araripe e datados do Cretáceo, abrangendo de fragmentos a esqueletos completos e montados, além de reconstituições baseadas nos fósseis originais. A coleção de fósseis e de reconstituições histórica de esqueletos de dinossauros, composta majoritariamente por exemplares provenientes das regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.
O conjunto de exemplares da megafauna brasileira extinta do Pleistoceno, sobretudo mamíferos, como os esqueletos completos de preguiças gigantes, coletado no Rio Grande do Sul e de um tigre-dente-de-sabre. Fósseis de aves, destacando-se o esqueleto completo de um Paraphysornis brasiliensis, gigantesca ave pré-histórica que viveu no Brasil durante o Plioceno, com altura média de 2,40 metros. Complementava o acervo as reconstituições artísticas de animais pré-históricos em vida, abrangendo pterossauros, um modelo de embrião com ovo de um Tyrannosaurus rex, feito com base em análise comparativa em descobertas na China de ovos atribuídos a dinossauros carnívoros de grandes dimensões e painéis com reproduções de organismos que habitavam o mar no Período Devoniano, compreendido entre 416 milhões e 359 milhões de anos atrás, aproximadamente, representando os afloramentos fósseis e seres vivos, entre outros itens de natureza didática. O acervo de antropologia biológica do Museu Nacional, constituído em meados do século XIX, conservava importantes remanescentes esqueléticos humanos de populações pré-históricas e históricas do Brasil. O acervo também contava com expressivas coleções de caráter histórico, compostas por instrumentos, documentos e materiais iconográficos versando sobre as características etnográficas e a trajetória histórica e teórica da antropologia biológica no Brasil.
O acervo de arqueologia do Museu Nacional, composto por mais de 100.000 objetos, notabilizava-se pela diversidade cultural abarcada, reunindo peças de grande importância provenientes de diversas civilizações que habitaram as Américas, a Europa e a África, desde o Paleolítico até o século XIX. O acervo era subdivido em quatro coleções principais: arqueologia egípcia, arqueologia mediterrânea, arqueologia pré-colombiana e arqueologia brasileira, sendo que essa última se apresentava reunida metodologicamente de forma sistemática desde 1867. Consiste no segmento mais bem representado do acervo, na mais importante coleção existente em sua tipologia, cobrindo de forma enciclopédica o Brasil pré-cabraliano e abrangendo alguns dos mais destacados registros materiais produzidos durante esse período. Somando mais de 700 itens, a coleção de arqueologia egípcia do Museu Nacional era a maior da América Latina e a mais antiga das Américas. A maior parte das peças ingressou no acervo do Museu Nacional em 1826. O comerciante Nicolau Fiengo trouxe de Marselha uma coleção de antiguidades egípcias do famoso explorador italiano Giovanni Battista Belzoni, responsável por escavar a Necrópole de Tebas e o Templo de Karnak.
Dinheiro para lavar carros de deputados patrocinaria Museu. 
Dom Pedro I arrematou a coleção completa doando-a em seguida ao Museu Nacional. Especula-se se o gesto de Dom Pedro teria sido influenciado pelo político José Bonifácio, destacado membro da maçonaria, talvez motivado pelo interesse que tal confraria possui pela iconografia egípcia. A coleção iniciada por Pedro I seria ampliada por seu filho, Dom Pedro II, egiptólogo amador e colecionador de peças de interesse arqueológico e etnográfico. Entre as adições mais importantes referidas à coleção egípcia do museu originada por Pedro II, encontrava-se o sarcófago em madeira policromada da cantora de Ámon, Sha-Amun-en-su, da Época Baixa, ofertado como presente ao imperador durante sua segunda viagem ao Egito, em 1876, pelo quediva Ismail Paxá. O sarcófago nunca foi aberto, conservando ainda a múmia da cantora em seu interior, característica que lhe conferia notória raridade. Posteriormente, a coleção seria enriquecida por meio de compras e doações, tornando-se, já no começo do século XX, um acervo de tal relevância científica e arqueológica que passou a chamar a atenção de pesquisadores internacionais, como Alberto Childe, que ocupou o cargo de conservador de arqueologia do Museu Nacional entre 1912 e 1938, publicando o Guia das Coleções de Arqueologia Clássica do Museu Nacional, em 1919.     
       Destacavam-se na coleção, além da mencionada esquife de Sha-Amun-en-su, outros três sarcófagos datado historicamente do Terceiro Período Intermediário e da Época Baixa, pertencentes aos sacerdotes de Ámon, Hori, Pestjef e Harsiese. O museu conservava ainda seis múmias humanas, quatro de adultos e duas de crianças, além de uma pequena coleção de múmias de animais (gatos, íbis, peixes e filhotes de crocodilo). Dentre os exemplares humanos, destacava-se uma múmia feminina do Período Romano considerada raríssima pela técnica de preparação, da qual são conhecidos apenas oito similares no mundo. Chamada “princesa do Sol” ou “princesa Kherima”, a múmia possuía os membros e dedos dos pés e das mãos enfaixados individualmente e é ricamente adornada, com faixas pintadas. Era um dos itens mais populares do museu, estando relacionada a relatos de experiências parapsicológicas e transes coletivos, em eventos supostamente ocorridos na década de 1960. A princesa Kherima também inspirou o romance “O Segredo da Múmia”, de Everton Ralph, membro da Sociedade Rosa Cruz.
  A coleção de estelas votivas e funerárias somavam dezenas de exemplares que datam, em sua maioria, do Período Intermediário e da Época Baixa. Destacavam-se as estelas de Raia e Haunefer, que apresentam títulos de origem semítica presentes na Bíblia e nos tabletes cuneiformes de Mari, além de uma estela inacabada, atribuída ao imperador Tibério, do período Romano. Também era vasta a coleção de shabtis, estatuetas representando servidores funerários, sendo particularmente relevantes aquelas pertencentes ao faraó Seti I, escavados em sua tumba no Vale dos Reis. Ainda no contexto etnológico das peças raras, merece menção uma estatueta de uma jovem em calcário pintado, datada do Império Novo, portando um cone de unguentos sobre a cabeça, representando uma iconografia que é quase exclusivamente encontrada em pinturas e relevos. Complementando a coleção, havia fragmentos de relevos, máscaras, estatuetas de divindades em bronze, pedra e madeira, incluindo representações de Ptah-Sokar-Osiris, vasos canópicos, tigelas de alabastro, cones funerários, joias, amuletos e peças funcionais de natureza iconográficas de conteúdo simbólico de formas visuais.
A coleção de arqueologia clássica do Museu Nacional era composta por aproximadamente 750 peças, abrangendo majoritariamente as civilizações grega, romana, etrusca e italiota, sendo a maior em seu gênero na América Latina. Grande parte desse acervo correspondia à coleção greco-romana da imperatriz Teresa Cristina, interessada pela arqueologia desde a juventude. Quando desembarcou no Brasil em 1843, logo após seu casamento por procuração com Dom Pedro II, a imperatriz trouxe consigo uma coleção de obras recuperadas de escavações nas antigas cidades de Herculano e Pompéia, destruídas em 79 d. C., por uma erupção do vulcão Vesúvio. Algumas dessas peças eram provenientes da coleção da rainha Carolina Murat, irmã de Napoleão Bonaparte e esposa do rei de Nápoles, Joaquim Murat.  A própria imperatriz também financiou escavações em Veios, um sítio arqueológico etrusco localizado 15 km ao norte de Roma, trazendo grande parte dos objetos encontrados para o Brasil. A maior parte da coleção foi formada entre 1853-59, mas continuou a ser enriquecida pela imperatriz até a queda do império em 1889, quando Teresa Cristina deixou o país.



Kherima com os membros enfaixados difere à embalsamada.
               A vasta coleção de cerâmicas abrangia dezenas de objetos e é marcada pela diversidade de origens, formas, decorações e finalidades utilitárias. Estão representados os principais estilos e escolas da antiguidade clássica, da cerâmica geométrica coríntia do século VII a. C. às ânforas romanas em terracota do início da Era Cristã. Na coleção de esculturas, destacava-se um conjunto de Tânagras, estatuetas em terracota de origem grega popularizada a partir do século IV a. C., bem como uma série de miniaturas etruscas em bronze representando guerreiros e figuras femininas. A coleção de artefatos militares inclui fragmentos de elmos, pontas de maça, bainhas e lâminas de bronze, broches e faleras. O Museu Nacional conservava um importante conjunto de aproximadamente 1.800 artefatos produzidos pelas civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana, além de múmias andinas. Formado durante o século XIX, esse acervo tinha suas origens nas coleções da família imperial brasileira, sobretudo na coleção Pedro II, tendo sido posteriormente ampliado através de compras, doações, permutas e atividades de campo. Ao término do século XIX, a coleção já gozava de considerável prestígio, a ponto de ser citada, por ocasião da inauguração da Exposição Antropológica de 1889, como um dos maiores acervos antropológicos sul-americanos.  A coleção abarcava, majoritariamente, objetos representativos das produções têxtil, ceramista, metalúrgica, plumária e lítica dos povos andinos das culturas do Peru, Bolívia, Chile e Argentina e, em menor escala, das culturas amazônicas, incluindo uma rara coleção de artefatos venezuelanos e mesoamericanas das culturas do México e da Nicarágua.
A coleção de múmias andinas do Museu Nacional permitia vislumbrar aspectos importantes dos costumes funerários dos povos da região e era composta por exemplares preservados tanto naturalmente, em função de condições geoclimáticas favoráveis, quanto artificialmente, por meio de práticas de cunho religioso e ritualístico. Proveniente de uma sepultura em Chiu-Chiu, no deserto do Atacama, ao norte do Chile, havia uma múmia de um homem com idade estimada entre 4.700 e 3.400 anos, preservada em posição sentada, com a cabeça apoiada nos joelhos e coberta por um gorro de lã. Era dessa forma que os atacamenhos costumavam dormir em função do frio do deserto e também a posição em que costumavam ser sepultados junto com seus pertences. Um segundo exemplar na coleção, uma múmia Aymara de um indivíduo do sexo masculino, encontrada nos arredores do Lago Titicaca, entre o Peru e a Bolívia, encontrava-se preservada nessa mesma posição, envolvido por um grosso fardo funerário. Por fim, o museu conservava uma múmia de um menino doado pelo governo chileno e, ilustrando as técnicas de mumificação artificial dos povos pré-colombianos, exemplar de “cabeça encolhida” do povo Jivaro da Amazônia de seus rituais religiosos.
Manifestantes dão abraço simbólico no Museu Nacional (RJ).
A coleção de arqueologia brasileira reunia um vasto conjunto de artefatos produzidos pelos povos que habitaram o território brasileiro no período pré-colonial, com mais de 90.000 itens, sendo considerado o mais abrangente acervo existente em sua tipologia. Constituída desde o início do século XIX, a coleção passou a ser reunida de modo sistemático a partir de 1867 e era continuamente enriquecida até hoje, por meio de coletas em campo, aquisições e doações. É composta por artefatos provenientes de todas as regiões do Brasil, produzidas ao longo de um arco temporal superior a 10.000 anos, como demonstraram as pesquisa de Antropologia das Civilizações de Darcy Ribeiro. Dos mais antigos habitantes do território brasileiro com a formação de grupos caçadores-coletores e horticultores, o museu conservava diversos artefatos produzidos em pedra como o sílex, quartzo e outros minerais e osso, tais como pontas de projéteis utilizadas na caça, lâminas de machado em pedra polida e outros utensílios feitos para gravar, raspar, talhar, triturar e furar, bem como artefatos de uso cerimonial e adornos. Objetos em madeira, fibras e resinas, embora provavelmente também fossem produzidos por tais grupos, não resistiram à ação do tempo e estavam praticamente ausentes no acervo, à exceção de peças isoladas,  nomeadamente um cesto de palha coberto por resina, apenas parcialmente conservado, encontrado no litoral sul do Brasil.
O acervo de etnologia do Museu Nacional abrigava cerca de 40.000 itens referentes à cultura material de diversos povos do mundo. O núcleo de etnologia indígena brasileira é o mais representativo, abrangendo objetos produzidos por povos nativos de todas as regiões do país, desde o início do período colonial até os dias de hoje. A coleção abrange também significativos conjuntos de artefatos referentes à etnologia africana, à etnologia afro-brasileira e às culturas do Oceano Pacífico. Por fim, o núcleo de linguística conserva um vasto conjunto de registros documentais e sonoros relativos às línguas indígenas brasileiras. O acervo do setor de etnologia serve de subsídio para diversas investigações científicas, destacando-se, nesse contexto, os estudos interdisciplinares feitos pelo Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED). A coleção de etnologia indígena brasileira do Museu Nacional encontra-se entre as maiores existentes em sua tipologia, abrangendo mais de 30.000 objetos, produzidos por mais de 100 grupos indígenas, provenientes de todas as regiões do Brasil. Formado no século XIX, através de coletas em campo, aquisições, legados e doações, documenta suas tradições, organização social, crenças e rituais.
O núcleo de cestaria do museu é composto por aproximadamente 900 artefatos produzidos através do trançado com fibras rígidas. A coleção abarca exemplares de cestos, cestas, balaios, bolsas, adornos, estojos, abanos, peneiras, armas, redes e esteiras, representando mais 70 grupos indígenas, sobretudo das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, tais como os Tenetearas, Tapirapés, Macus, Timbiras, Tarianas, Mamaindês e Tembés, entre outros. Destacam-se, entre as peças raras, o escudo trançado dos Tucanos, proveniente do vale do rio Uaupés, sendo que um dos itens destacados por Gonçalves Dias por ocasião da exposição Amazonas, em 1861; o cesto Baquité dos Nambiquaras, do Mato Grosso, coletado pela Comissão Rondon em 1921; o estojo para miudezas Uarabarru dos Carajás, coletado por Lincolm de Souza, redator do jornal A Noite, e doada ao museu em 1948 pelo coronel Leony de Oliveira Machado, etc.
A coleção de cerâmica indígena é caracterizada pela diversidade de origens, formas, estilos, ornamentações e funções, possibilitando o acompanhamento da trajetória da indústria cerâmica tradicional até a produção atual e exemplificando tópicos como o cotidiano de diferentes grupos e a influência dos temas da cultura de massa na produção indígena contemporânea, entre outros. O acervo abarca um amplo número de recipientes de uso doméstico, tais como panelas, suportes, potes, tigelas, pratos, vasos, vasilhas, bilhas para água e torradores de biju, havendo tipos específicos para fins cerimoniais, além de instrumentos musicais, cachimbos, estatuetas antropomorfas e zoomorfas e brinquedos. Estão representados no acervo, entre outros, os artefatos cerâmicos de grupos como os Aparaí, Uaurás, Assurini, Bororós, Iaualapitis e os povos da Aldeia Uapuí e do vale do rio Uaupés. Destacam-se, no contexto da produção cerâmica figurativa, as chamadas estatuetas Litxokô, produzidas pelos índios Carajás, de estilo moderno e decoração refinada; as panelas antropomorfas e vasos com figuras estilizadas dos Kadiuéu; os recipientes com figuras de animais dos Ticunas, etc.
A coleção de etnologia africana e afro-brasileira do Museu Nacional era constituída por aproximadamente 700 objetos. Abrangia tanto exemplares produzidos por povos de diferentes regiões do continente africano quanto os testemunhos das manifestações culturais dos descendentes dos povos africanos no Brasil. O núcleo de objetos africanos foi majoritariamente constituído no período 1810 e 1940, remetendo sua origem às coleções da família real portuguesa e depois brasileira, posteriormente enriquecidas por assimilação de outros legados, compras e transferências. A coleção afro-brasileira foi formada entre 1880 e 1950 a partir de um núcleo de objetos transferidos dos depósitos policiais locais responsáveis por confiscá-los, quando a prática do candomblé era proibida no Rio de Janeiro, à qual se somou a importante coleção de Heloísa Alberto Torres, constituída por itens adquiridos junto aos mais importantes terreiros de candomblé do Recôncavo baiano ao longo da década de 1940.
 O núcleo de etnologia afro-brasileira documenta hábitos, crenças e técnicas de produção dos descendentes dos povos africanos no Brasil, bem como o histórico de violência da escravidão, a repressão religiosa e as formas de organização social das comunidades negras no período pós-abolição. A religiosidade afro-brasileira é fartamente ilustrada. Grande parte dos objetos religiosos encontrava-se originalmente nos espaços dos zungus ou terreiros de candomblé, locais de culto dos inquices (Bantus), orixás (Iorubás) e vodus (Jeje Mahi). Tais templos eram constantemente invadidos e tinham seus objetos confiscados e levados para os depósitos da polícia, como provas materiais da prática de rituais então proibidos. Por iniciativa do ex-diretor do museu, Ladislau Neto, esses objetos passaram a ser transferidos para a instituição, após o reconhecimento da importância histórica, sociológica e etnológica de tal acervo.


Verba para o estádio de futebol Maracanã patrocinaria o Museu por 1. 170 anos.
O acervo de objetos provenientes dos povos do Oceano Pacífico é uma das coleções estrangeiras mais antigas do Museu Nacional. Sua origem remonta à coleção de Dom Pedro I, legada ao museu e posteriormente ampliada por intermédio de doações e compras. O acervo reúne objetos de uso cotidiano, artefatos religiosos e armas de caça e de guerra da Polinésia, da Nova Zelândia e da Nova Guiné (na Oceania) e das Ilhas Aleutas e Costa do Pacífico na América do Norte. Dentre os artefatos existentes na coleção inicial do museu, encontram-se o manto e colar reais Owhyeen, confeccionados com plumas, presentes ofertados pelo rei Kamehameha II e pela rainha Tamehamalu, do Reino do Havaí (ou Ilhas Sandwich) a Dom Pedro I, em 1824, quando o imperador recepcionou a família real havaiana e sua comitiva quando da sua chegada ao Rio de Janeiro. Destacam-se ainda os seguintes núcleos: Artefatos da Polinésia que são formados por objetos provenientes, em sua maioria e grandeza, das Ilhas Cook.
São artefatos da Nova Zelândia, composto por ferramentas e armas de caça e guerra, incluindo exemplares de machados decorados com motivos antropomorfos, clavas, além de colheres esculpidas em osso, palitos de madeira decorados, recipientes de bambus ornamentados com grafismos, etc. Artefatos da Nova Guiné, constituídos por exemplares de machados de pedra, cigarreiras, brincos e adornos, objetos esculpidos em madeira, lanças, bumerangues e outras armas de arremesso. Artefatos da Costa do Pacífico, neste caso representados por objetos cerimoniais, de uso cotidiano e instrumentos musicais, tais como chocalhos zoomorfos, bandejas, vasos policromados em formato de concha, etc. Destaca-se o bastão totêmico, com três figuras humanas, cada uma representando um antepassado, e uma armadura de madeira e couro, coletada na região de Vancouver, no Canadá. Têm-se ainda artefatos das Ilhas Aleutas, onde destacam-se dois raros exemplares de casacos de esquimós, um feito com intestino de foca e outro com pele de plumas, além de uma bolsa, também de intestino de foca. Até o período anterior ao incêndio o Museu Nacional oferecia os cursos de pós-graduação vinculados à Universidade Federal do Rio de Janeiro nas áreas de Antropologia Social, Arqueologia, Botânica, Geologia, Paleontologia e, finalmente, Zoologia.
Enfim, os 200 Anos do Museu Nacional, não serão mais comemorados em 2018. Deveriam ser festejados com uma série de atividades acadêmicas consentâneas com suas atribuições articuladas no tripé tradicional de casa de ensino, pesquisa e cultura. Portanto, com uma séria repetida e continuada luta pela revalorização do patrimônio da instituição, sempre carente de recursos. O Palácio de São Cristóvão, sede do Museu, o Horto Botânico, e os diversos prédios anexos, padecem de intervenções arquitetônicas e urbanísticas que permitam à instituição a plena capacidade de atendimento a sua vocação. Essas intervenções incluem a construção de alguns prédios anexos na área do Horto, já autorizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico, que permitiriam a retirada das atividades de pesquisa e ensino do Palácio – a ser dedicado inteiramente às exposições e aos serviços de museologia e ensino ampliado. Incluiriam ainda a restauração das instalações e a recomposição do espaço expositivo do Palácio em seus três andares. Tratava-se de um projeto ambicioso, à altura das capacidades e expectativas da Casa – mas, acima de tudo de toda a Nação, que tem no Museu Nacional a primeira e mais importante representação da memória nacional.
Bibliografia geral consultada.
OBERACKER JUNIOR, Carlos, A Imperatriz Leopoldina. Sua Vida e Sua Época. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1973; ANGELI, Margarida Nilda, Museus por Teimosia. Uma Análise da Utilidade dos Museus. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Economia. Campinas: Universidade de Campinas, 1993; KAIZER, Glória, Dona Leopoldina, Uma Habsburg no Trono Brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997; WILSON, David Mackenzie, The British Museum - A History. Londres: The British Museum Press, 2002; LUSTOSA, Isabel, D. Pedro I - Um Herói sem Caráter. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2006; FRERS, Ernesto, El Museo Secreto. El Mensaje Oculto de las Obras de Arte. Barcelona: Editor Robinbook,  2006; DUARTE, Regina Hora, A Biologia Militante: O Museu Nacional, Especialização Científica, Divulgação do Conhecimento e Práticas Políticas no Brasil. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas Gerais, 2010; NEGRISOLO, Walter, Arquitetando a Segurança contra Incêndio. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2011; COSTA, Martha Gabrielly Colleto Costa, Nas Pegadas da Dissimulação: Um Estudo sobre as Novas Formas de Ideologia a partir de Claude Lefort e Pierre Bourdieu. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; RANGEL, Aparecida Marina de Souza, Museu Casa de Rui Barbosa: Entre o Público e o Privado. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Centro de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2015; DEBONI BLAYA, Mariana, Proteção, Prevenção e Combate a Incêndios Aplicados em Museus: Um guia para o Museu Educativo Gama d`Eça e Victor Bersani. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação Profissionalizante em Patrimônio Cultural. Centro de Ciências Sociais e Humanas. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2017; MORENO ROCHA, Saulo, Esboços de uma Biografia de Musealização: O Caso da Jangada Libertadora. Dissertação de Mestrado em Museologia e Patrimônio. Museu de Astronomia e Ciências Afins. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2018; entre outros.