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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

El Negro Matapacos - Animais, Vigília & Instinto Revolucionário.


“Matapacos é o cão símbolo do afã revolucionário deste Chile”. Victor Farinelli


            Chile, oficialmente República do Chile ocupa uma longa e estreita faixa costeira encravada entre a cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. Faz fronteira ao Norte com o Peru, a Nordeste com a Bolívia, a Leste com a Argentina e a Passagem de Drake, a ponta mais meridional do país. A passagem de Drake, chamada por algumas referências mais antigas de estreito de Drake, é a parte do oceano Antártico situada entre a extremidade Sul da América do  Sul e a Antártica. É uma das zonas que conhecem as piores condições meteorológicas marítimas do mundo. A passagem deve seu nome ao explorador britânico do século XVI, Francis Drake, apesar de ele, ironicamente, jamais ter passado por essa rota, optando pelas águas menos turbulentas do estreito de Magalhães. A primeira menção da passagem de um navio pela Passagem de Drake foi a do navio Eendracht do capitão Willem Schouten, em 1616. A passagem, cuja largura é de cerca de 650 km, constitui a distância mais curta entre a Antártica e as outras terras do mundo. Considera-se às vezes que este local, situado no oceano Atlântico e a alguns km da fronteira com o Pacífico, seja a distância marítima mais curta entre o cabo Horn e Snow Island a 260 km ao norte da parte continental da Antártica. Antigamente, a fronteira era situada sobre o meridiano que passa no cabo Horn. As duas fronteiras situam-se inteiramente na passagem de Drake. A passagem de Drake comporta somente as pequenas ilhas Diego Ramirez como terra, situadas a cerca de 50 km ao sul do cabo Horn. 
         Não existem outras terras na mesma latitude que a da passagem de Drake, o que permite à corrente que dá a volta na Antártica circular livremente seu fluxo é estatisticamente de cerca de 600 vezes compoarativamente a do rio Amazonas.  A fauna da passagem de Drake é constituída principalmente de baleias, golfinhos e de numerosas aves marinhas. O Pacífico forma toda a fronteira oeste do país, com um litoral que se estende por 6 435 quilômetros. Com quase 20 milhões de habitantes, compreende alguns territórios ultramarinos, como o Arquipélago Juan Fernández, as Ilhas Desventuradas, a ilha Sala y Gómez e a ilha de Páscoa, sendo que as duas últimas estão localizadas na Polinésia. O Chile reclama a soberania de 1 250 000 km² de território na Antártida. É um dos dois únicos países da América do Sul que não têm uma fronteira com o Brasil, junto com o Equador. O Chile possui um território incomum, com 4 300 quilômetros de comprimento e, em média, 175 quilômetros de largura, o que dá ao país um clima muito variado, indo do deserto mais seco do mundo, o Atacama, no norte do país, a um clima mediterrâneo no centro, até um clima alpino propenso à neve ao Sul, com geleiras, fiordes e lagos. O deserto do Norte chileno contém uma grande riqueza mineral, principalmente de cobre. Uma área relativamente pequena no centro chileno domina o país em termos de população e de recursos agrícolas.
          É o centro cultural, político e financeiro do Chile que se expandiu no final do século XIX, quando integrou as regiões norte e sul em uma só nação. A cordilheira dos Andes está localizada por toda a fronteira oriental chilena. A palavra emoção data de 1650 quando foram descritas como respostas a eventos internos ou externos que têm um significado particular para o organismo. Além disso, que são breves e consistem em um conjunto coordenado de respostas, que podem incluir seus mecanismos fisiológicos, comportamentais e neurais. Do ponto de vista funcionalista é feita distinção entre emoções básicas e complexas. Seis emoções são classificadas como básicas através da raiva, o desgosto, o medo, a felicidade, a tristeza e a surpresa. As emoções complexas que podem ser incluídas na reflexão sociológica são os ciúmes, o desprezo e a simpatia. De qualquer forma, essa distinção é aparentemente difícil de ser utilizada em relação aos animais, pela própria distinção entre seres humanos, pois se acredita que eles expressam emoções mais complexas. O argumento de que os animais possam experimentar emoções por vezes é rejeitado, já que não acreditam na existência de uma consciência animal. Argumentam que o antropomorfismo influência na perspectiva do individuo, pois delibera e tenta justificar atitudes animais e explica-los de acordo com seus próprios conhecimentos.
            


           Estudos atuais, segundo Carvalho e Waizbort (2008) demonstram que o cão (canis familiaris) foi o primeiro animal a ser domesticado, e essa espécie têm sido desde há muitos séculos objeto de observações e considerações filosóficas e científicas sobre o comportamento animal. Inteligente, cordial, fiel, feroz, dissimulado, triste, o número de atributos mentais reconhecidos nos cães pode se multiplicar quase como os do homem. Mas, nesse contexto, a comparação do comportamento humano com o comportamento canino adquiriu marcas próprias com o advento do programa de pesquisa darwinista, nascido em meados do século XIX, e  considerado por muitos pensadores um dos mais revolucionários sistemas conceituais da ciência, pelo impacto que causou no universo de valores epistemológicos, científicos e socioculturais vigentes em seu tempo, e que ainda repercute. Para efetuar tal investigação, os autores utilizam o método espécime-tipo, descritos por David Hull, elegendo como unidade de análise o “cão de Darwin”, isto é, o cão como percebido e descrito no discurso de Darwin, no papel de protótipo do animal darwiniano. Darwin serviu-se dessa espécie para estabelecer sua tese da continuidade mental entre animais e homem – estratégia decisiva para afirmar de maneira definitiva a teoria da origem comum no domínio da mente.
      Contudo, como experiência revolucionária, o cão de Pavlov sintetizou como funciona o condicionamento clássico. Realizado por um médico Russo nos anos 1920 com diversos cachorros, os estimulando a ficarem com água na boca sem que se houvesse comida por perto. Essa experiência consistia em que toda vez que os animais eram alimentados o médico tocava uma sineta, com o passar do tempo os mesmo começaram a associar as badaladas com a comida e começavam a babar apenas de ouvir o sino, mesmo que o prato estivesse vazio, comprovando assim que os chamados seres vivos nascem com certos reflexos sintomáticos repetitivos, que em sua natureza podem ser programados para determinadas reações em resposta a um determinado estimulo. Nos últimos anos, a comunidade científica tornou-se cada vez mais favorável à ideia de emoção em animais. A pesquisa científica forneceu informações sobre as semelhanças das mudanças fisiológicas entre humanos e animais quando experimentam emoção. O ramo da ciência mais próximo de ser responsável pelo estudo das emoções em animais é a etologia, que analisa o comportamento animal. Porém o mesmo só busca explicações causais para o comportamento dos animais, e não emocionais, recorrendo quase sempre aos instintos como mera justificativa, já que se acredita ser mais recomendável estudar o comportamento do que tentar chegar a alguma compreensão da emoção subentendida. O dualismo cartesiano tem influenciado o pensamento filosófico e a pesquisa científica.
        Nas perspectivas de alguns etnólogos evolucionistas as emoções ocidentais não poderiam ser equiparadas, ou possivelmente de se existir nas culturas consideradas “inferiores”. Parecia então não ser necessário se compreender a respeito das emoções em certas tribos montanhesas, quando se quer catalogar os sentimentos em animais. Donald Olding Hebb (1904-1985) está ligado às pesquisas psicológicas que determinaram os efeitos do uso de privação sensorial. Além disso, outros métodos que mais tarde vieram a fazer parte das técnicas de tortura desenvolvidas pela Central Intelligence Agency (CIA). Ele constatou que os tratadores de animais que atribuem termos psicológicos para descrever comportamentos animais, eram mais eficientes em prognosticar suas condutas reais do que os cientistas que se valiam de terminologias sobre práticas objetivas, mais descritivas e menos antropomórficas. Em contrapartida, os primeiros trabalhos de Jane Goodall receberam inúmeras críticas analíticas por adotar termos humanos e associar em sua apresentação de dados sobre os chimpanzés de Gombe.  Em janeiro de 1974, um chimpanzé chamado Godi alimentava-se sozinho, nos galhos de uma árvore no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia. 
Mas Godi não reparou que, enquanto comia, oito macacos o rodearam. – “Ele pulou da árvore e correu, mas eles o agarraram”, disse o primatologista Richard Wrangham ao documentário The Demonic Ape: A Critique of the BBC 2 Documentary  (2005). À mesma conjuntura, Desmond Morris demonstrou os riscos da humanização do comportamento, que teria sido provocado pela grande proximidade evolutiva desses grandes primatas com os humanos. O episódio é reconhecido na literatura especializada, como o início do que a primatologista Jane Goodall chamou de “A Guerra dos 4 Anos”, a representação do conflito que dividiu uma comunidade de chimpanzés em Gombe e desatou uma onda de assassinatos e violência que, desde então, nunca mais foi registrada pela etnologia. Entre os anos de 1974-78, Jane pode constatar o crescimento da violência entre os grupos que habitavam o parque. Tudo teve início quando um novo líder assumiu o poder, e dois outros pretendentes mais jovens quiseram tomar seu lugar. O que resultou em estratégias e táricas de ataques, armadilhas, sequestros e muitos assassinatos originados nos confrontos de rua. O conflito social foi reconhecido como a Guerra dos Quatro Anos de Gombe. Do ponto de vista sociológico e comunicativo, vale lembrar  que é a única guerra entre chimpanzés totalmente documentada.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que só no Brasil existam mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Em cidades urbanizadas de grande porte, para cada cinco habitantes há um cachorro. Destes, 10% estão abandonados. No interior, em cidades menores, comparativamente, a situação não é muito diferente. Em muitos casos o numero chega a 1/4 da população humana. O poder público de modo geral carece ações para resolver o problema. Os abrigos de médio porte, que conseguem abrigar de 101 a 500 animais e que são 48% das entidades mapeadas, se destacam por tutelar mais de 89 mil bichos. Por isso, eles são responsáveis por mais de 52% da população de pets disponíveis para adoção. Apenas 19% das instituições conseguem abrigar mais de 500 animais, e 33% são de pequeno porte, abrigando entre 1 e 100 cães e gatos. O Pet Brasil fez uma estimativa do número de animais em condição de vulnerabilidade. Melhor dizendo, aqueles que vivem sob tutela de famílias classificadas abaixo da linha de pobreza ou que vivem nas ruas, mas recebem cuidados de forma espontânea de pessoas. São 3,9 milhões, ou 5% da população total de pets no Brasil, que é de cerca de 140 milhões. O Senado aprovou um projeto de Lei que proíbe que animais sejam juridicamente tratados como coisas.
            De acordo com a pesquisa etnográfica de Segata (2012) no Brasil estudos antropológicos sobre animais de estimação ainda são incomuns e isolados em um ou outro departamento de pesquisa social. De modo geral, quando até pouco tempo, e especialmente até um momento anterior às produções de Tim Ingold, Eduardo Viveiros de Castro, Philippe Descola, a relação social comparada entre humanos e animais nos debates antropológicos lembra aquela de protagonista/coadjuvante, ou ator/cenário, onde o animal não participava da composição de âmbito social, mas tão apenas servia de apoio ou contexto psico-afetivo, para a discussão de relações entre os humanos (cf. Waizbort, 2008; Segata, 2012; Froehlich, 2016). Em grande medida também se estende aos demais entes que compõem o mundo das relações entre coisas e incluindo o sobrenatural. Assim, um dos desafios do trabalho de pesquisa foi o de pensar alguma coisa diferente daquela ideia trivial de que os animais de estimação poderiam falar dos nossos problemas. Algumas antropologias anteriores aos anos de 1980 tinham interesses nesses seres, e do modo como estes constituíam o social. 
O instinto animal corresponde às ações que os animais têm ao sentirem que precisam preservar sua vida. A relação social do ambiente e comportamento e como eles  progridem durante o processo de evolução, criando todos os ecossistemas e a cadeia alimentar, que esse instinto reproduz para sua manutenção. A territorialidade dos animais é um resquício do instinto primitivo. Ela serve como meio de sobrevivência, reprodução e disputa de área quando os ancestrais desses animais estavam na natureza. Vários estudos já foram realizados sobre a relação entre animal e dono, inclusive em se tratando do reconhecimento e dos efeitos da relação psicológica entre ambos. É possível compreender várias histórias que tratam de cães que sentiram que alguma catástrofe iria acontecer, ou que reagiram quando o dono estava em perigo, mesmo não estando ao lado deles. Os pesquisadores ainda divergem sobre essa previsibilidade do animal, mas a explicação sociotécnica que pareceu mais plausível é de que eles carregam uma sensibilidade a alterações no ambiente e de nível sensorial que nós humanos perdemos.  
As pressões a que fomos expostos durante milênios deixaram um legado mental e emocional. Alguns ainda afirmam que ele está presente em nós de alguma forma, o que explicaria momentos de sensações que acabaram se confirmando. A questão é que esse instinto animal mais sensorial dos animais domésticos provavelmente também está ligado ao instinto de sobrevivência primitivo, onde esse tipo de mecanismo era usado para alertar de algum perigo iminente. Os animais ainda são muito ligados ao seu instinto primitivo e natural, que é algo geral e inato ao ser vivo, representando um tipo de inteligência no seu grau mais primitivo. Ele guia o homem e os animais que possuem um grau mais elevado em sua trajetória pela vida, nas suas ações, visando justamente a preservação do ser, que acaba acarretando em comportamentos especiais, como andar em bando ou sozinho, e na alimentação e convivência com seu habitat. E nos animais domésticos, o instinto animal é um rastro que a evolução existente ainda não apagou.
O descobrimento da primitiva gens do direito materno, como etapa anterior à gens de direito paterno dos povos civilizados, tem, para a história primitiva, a mesma importância que a teoria da evolução de Charles Darwin para a biologia e a teoria da mais-valia, enunciada por Karl Marx, para a economia política. Essa descoberta permitiu a Lewis Morgan esboçar, pela primeira vez, uma história da família, onde pelo menos as fases clássicas da sua evolução são provisoriamente estabelecidas, tanto quanto permitem o resgate dos dados estatísticos. Em torno da gens de direito materno, por exemplo, gravita, toda essa reveladora concepção de ciência. Desde seu descobrimento, sabe-se em que a direção encaminhar as pesquisas e o que precisamente estudar. Como e de que modo devem ser classificados os seus principais resultados. Fazem-se nesse terreno, progressos rápidos anteriores ao ensaio clássico de Lewis Morgan, “Ancient Society”. Reconstituindo retrospectivamente a história da família, chega, de acordo com a maioria de seus colegas, à conclusão de que existiu uma época primitiva em que imperava, no seio da tribo, o comércio sexual promíscuo, de modo que cada mulher pertencia igualmente a todos os homens e cada homem a todas as mulheres.
         No século XIX havia feito menção a esse estado, evolutivo primitivo, mas apenas de modo geral; Johann Jakob Bachofen foi o primeiro - este é um dos seus maiores méritos – que o levou a sério e procurou seus vestígios nas tradições históricas e religiosas. Por ser fruto de misturas e raças diversas, o cão vira-lata não tem evidentemente uma origem definida – sendo que a descendência de cada um dos animais considerados no grupo sem raça definida (SRD) varia de acordo com a sua própria história, pois é muito difícil, ou mesmo impossível utilizar-se destas características para estabelecer um comportamento padrão. No entanto, os termos usados para descrever estes animais têm se modificado ao longo das últimas décadas, deixando um pouco de lado a ideia de que o nome vira-lata é sinônimo de algo comumente usado de forma pejorativa. Historicamente, o vira-lata era considerado um “cachorro de rua” – que tinha esse nome para explicar que, virando latas pelos lugares mais estranhos e em meio ao lixo, esse animal buscava seus alimentos – os cachorros considerados “mestiços” eram chamados pela sigla de SRD. Essas duas siglas já podem ser consideradas como sinônimos; deixando de lado a ideia de que os vira-latas são cães menos especiais que quaisquer outros, e demonstrando que o uso desse termo para se referir a um animal ou qualquer outra noção ou pessoa de forma negativa.

A teoria genética que aborda o chamado “vigor híbrido” sugere como um grupo existente composto de ancestralidade variada que serão mais saudáveis do que seus ancestrais de pedigree. Em animais de raça definida, o cruzamento de cães com aparência muito similar através de várias gerações produzem animais que podem carregar os mesmos alelos, alguns dos quais são indesejáveis. Isto é ainda mais verdadeiro quando se consideram animais de parentesco próximo. Este cruzamento próximo tem exposto muitos problemas de saúde de natureza genética não tão aparentes em populações menos uniformes. Espécimes sem raça definida são mais diversificados geneticamente devido à natureza casual do encontro entre os pais. A descendência desses encontros tende a expressar menos algumas deficiências genéticas, do que em virtude da diferença genética natural entre os pais. Algumas doenças recessivas ocorrem entre muitas raças não relacionadas, e deste modo meramente a mistura de raças não é garantia de saúde genética.
        Ipso facto a definição de híbrido em biologia pode referir-se à genética ou à taxonomia. No contexto da genética, o termo híbrido tem vários significados, todos referentes à descendência geracional por reprodução sexual Em geral, o híbrido é sinônimo de heterozigoto, constituindo o indivíduo no qual os alelos de um ou mais genes são diferentes qualquer prole resultante do cruzamento de dois indivíduos homozigotos, indivíduo no qual os alelos de um ou mais genes são idênticos diferentes.  Já na taxonomia, híbrido refere-se à descendência resultante do cruzamento de dois animais ou plantas de espécies diferentes. Existem quatro categorias de híbridos definidos pelo contexto taxonômico, porém apenas três reconhecidas e identificadas. A hibridação de animais é um acontecimento de certa forma raro. Devido à existência de grandes empecilhos, a formação de híbridos, considerando que estes são inférteis, já é uma enorme dificuldade, aumentando muito a criação de híbridos férteis na natureza.  
            A hibridação representa a junção de patrimônios genéticos diferentes a partir do cruzamento de indivíduos de populações diferentes. Esse fato pode ocorrer devido à existência de uma zona híbrida, através da migração ou dispersão de indivíduos ou pela inserção de espécies exóticas. A zona híbrida indica na natureza uma sobreposição de populações diferentes com uma ou mais características herdáveis diferentes que possuem capacidade de produzir proles viáveis e pelo menos parcialmente férteis. Este contato social reprodutivo proporciona aproximação genética entres as espécies como causa da diminuição do isolamento. E devido à heterose explicada anteriormente muito desses contatos podem resultar em uma criação de indivíduos superiores em muitas características. Porém isso só ocorre quando existe uma certa proximidade evolutiva entre os indivíduos, pois, quando há uma diferença genética muito grande, pode ocorrer a esterilidade ou inviabilidade da prole podendo até prejudicar as populações.
                           Vira-lata é a denominação atribuída “aos cães ou gatos sem raça definida”. Em algumas regiões do Brasil também são reconhecidos como pé-duro, guaipeca, bajariva e cusco. O termo vira-lata deriva do fato social de que muitos desses animais, se abandonados, serem comumente vistos “andando famintos pelas ruas revirando latas de resíduos em procura de algum tipo de alimento”. Pedigree é um certificado de registro de animais de raça pura. Os pedigrees revelam informação detalhada sobre a linha ancestral do animal, identificando entre três a cinco gerações do animal. Para obter um pedigree, o animal tem que ter igualmente o mesmo certificado da raça. Entidades certificadoras exigem verificação clínica de ninhada e mais recentemente a aplicação de microchips por veterinários. O animal pode ter a aparência de um cão de raça. Mas só o DNA, atesta, pois contêm as instruções genéticas e funcionamento dos seres vivos que transmitem as características hereditárias. Através do exame há possibilidade de se definir, cientificamente, se um cão segue o padrão evolutivo de uma determinada raça verificada em experiências comprovadamente científicas de laboratório.
           Um dos aspectos mais interessantes do típico vira-lata é a sua variedade. Ainda existem algumas características, como o fato de que costumam ser muito inteligentes e afetuosos, variando de acordo com as características herdadas. Em termos de aparência, como estes animais se cruzam livremente, a prole resultante tende a ser variada em termo de tamanho, forma e marca, tendo-se cães de portes diversificados, aptos a viver em residência, como animais de sítio ou vigilância. Embora o cruzamento não obedeça a uma ordem, necessariamente, observa-se que após várias gerações os cães mestiços exibam características grosseiramente similares. Eles tendem a ser cor caramelo ou preto, e pesar em torno de 18 kg, tipicamente tendo de 38 a 57 cm de altura. Acredita-se que a aparência de um cão mestiço seja muito parecida com a de seus ancestrais Canis lupus familiaris, no Brasil  chamado de cachorro, é um mamífero carnívoro da família dos canídeos, de onde as raças puras foram selecionadas pelo processo de evolução da espécie. As origens do cão doméstico baseiam-se em suposições, cujos crescentes estudos mudam em ambiente social e datação dos fósseis.
       O termo híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintos, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Joseph Gottlieb Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, comparativamente tanto em plantas como em animais. Algumas dessas novas espécies ainda são produzidas até hoje através do cruzamento entre espécies, essencialmente para serem usadas como atrações de apresentações e locais turísticos. Cientistas estão tentando recriar o mamute através do ADN destes animais que foram encontrados congelados em região da Sibéria. Esses cientistas usarão técnicas de clonagem para fertilizar óvulos de fêmeas de elefante compreendidos como seus parentes modernos. Se conseguirem, este animal será um híbrido de elefante com mamute, e provavelmente também será estéril, de acordo com a nomenclatura como ocorre na maioria dos indivíduos híbridos.
          Em 2009, foi adotado por Maria Campos, na vida em que procura o bairro universitário. Como o documentário dos Matapacos de 2013, realizado por estudiosos da Universidade Santo Tomás de Aquino, mostra-o entre o Bairro República, a Universidade Central, a Metropolitana Tecnológica (UTEM) e a Universidad de Santiago de Chile (Usach). É uma das mais antigas universidades públicas do Chile. A instituição nasceu como Escuela de Artes y Oficios em 1849, sob o governo de Manuel Bulnes. Tornou-se a Universidade Técnica do Estado em 1947, com vários campi em todo o país.  Enfim, na manifestação da última sexta-feira (15/11/2019), em Santiago, um dos momentos de maior êxtase ocorreu quando um grupo trouxe um inflável gigante de um cachorro negro com um lenço vermelho amarrado no pescoço. “Matapacos! Matapacos! Matapacos!”, grita a multidão, em verdadeira adoração a este ícone moderno da rebeldia chilena. Matapacos é o cão símbolo do afã revolucionário deste Chile de 2019, mas hoje ele é só uma lenda. Uma lenda com uma interessante história real por trás, que começa no ano de 2011 quando o presidente, Miguel Juan Sebastián Piñera, estava em seu primeiro mandato, e sentia pela primeira vez a sensação de perder o controle político do país. Quando os estudantes universitários lotaram as ruas pedindo o fim do lucro e do controle empresarial na educação comparativamente entre 1989 e 2015, se manteve vigente no Chile uma legislação que considerava a educação um negócio; eram raríssimas as escolas gratuitas, mesmo as públicas, cuja maioria era concessionada aos interesses de grupos privados de hegemonia.

           Aquelas marchas politizadas do começo da década foram fortemente reprimidas. As juventudes dos estudantes os faziam reagir com o mesmo vigor, mas em meio a esses confrontos surgiu, segundo Farinelli (2019) “um herói inesperado”. Um cachorro de rua todo negro que quando a polícia chegava se colocava na primeira fila da batalha, driblando os escudos e mordendo os policiais formados dos batalhões de choque. Não demorou muito para a juventude adotar aquele vira-lata aguerrido como símbolo da luta pelo direito à educação. Passaram a vesti-lo com um lenço vermelho que era trocado a cada manifestação, ganhava comida e alguns até o levavam a tomar banho, e depois o devolviam às ruas, onde ele vivia. São muitas as formas de atar um lenço, mas o lenço vermelho tem como representação processos de luta revolucionária. A valentia do cão nas batalhas contra os policiais nas representações  do aparelho de Estado o fez ganhar o nome que tem como marca: El Negro Matapacos – “paco” é o termo com que os estudantes lembram a música da inesquecível Violeta Parra, composta em 1962, demonstra que no Chile não mudou a repressão, para se referirem pejorativamente aos militares. Mas a história também tem o seu final triste.  
O cão faleceu em agosto de 2017, vítima de uma doença da qual padeceu durante o último ano de sua vida. Também se pode dizer que morreu de velhice, apesar de que ninguém nunca soube exatamente quantos anos tinha. Após a sua morte, passaram a ser comuns as homenagens à sua memória, especialmente nas federações estudantis, onde ele é considerado quase como um santo protetor dos estudantes que se manifestam. Durante aqueles dias de rebelião diária no país, sua figura voltou a ser reivindicada, e não só nesta última marcha. Nas paredes, murais, estatuetas, cartazes, bandeiras, camisetas e até mesmo em uma história em quadrinhos, a figura do Negro Matapacos está presente, seja com sua imagem mais amigável, que ele reservava aos estudantes, ou os latidos e as mordidas, que eram dedicados à polícia. Definitivamente, o Negro Matapacos colocou em prática a máxima revolucionária de que há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais, e por isso os chilenos, pós-Pinochet, o eternizaram como símbolo de luta contra a opressão de um Estado de exceção,  tendo em vista uma situação oposta ao Estado democrático de direito, decretada pelas autoridades em situações de emergência nacional, como agressão efetiva por forças estrangeiras, grave ameaça à ordem constitucional democrática ou calamidade pública.
Bibliografia geral consultada.

DARWIN, Charles, La Expresión de las Emociones en los Animales y en el Hombre. Madrid: Editorial Alianza, 1984; COSTA, Edilson da, A Impossibilidade de uma Ética Ambiental: O Antropocentrismo Moral como Obstáculo ao Desenvolvimento de um Vínculo Ético entre o Ser Humano e Natureza. Tese Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Curitiba:  Universidade Federal do Paraná, 2007; CARVALHO, André Luís de Lima; WAIZBORT, Ricardo, “O Cão aos Olhos (da Mente) de Darwin: A Mente Animal na Inglaterra Vitoriana e no Discurso Darwiniano”. In: Revista Brasileira de História da Ciência. Rio de Janeiro. Volume 1, n° 1, pp. 36-56, jan./jun., 2008; CUNHA, Luciano Carlos, O Consequencialismo e a Deontologia na Ética Animal: Uma Análise Crítica Comparativa das Perspectivas de Peter Singer, Steve Sapontzis, Tom Regan e Gary Francioni. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2010; VELOSO, Maria Cristina Brugnara, A Condição Animal: Uma Aporia Moderna. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Direito. Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2011; SEGATA, Jean, Nós e Os Outros Humanos, Os Animais de Estimação. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2012; FAUTH, Juliana de Andrade, Sujeitos de Direitos não Personalizados e o Status Jurídico Civil dos Animais não Humanos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2016; HAMMERSCHMIDT, Janaina, Diagnóstico de Maus-tratos contra Animais e Estudo dos Fatores Relacionados. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias. Setor de Ciências Agrárias. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2017; VILELA, Diego Breno Leal, Transformações das Sensibilidades na Relação Humanos-animais: Proteção Animal, Mediação e Institucionalização na Cidade do Recife-PE.  Tese de Doutorado em Antropologia Social. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2019; BEGNAMI, João Batista, Formação por Alternância na Licenciatura em Educação do Campo: Possibilidades e Limites do Diálogo com a Pedagogia da Alternância. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2019; entre outros. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Violeta Parra – Memória, Folclore & Protestos Sociais no Chile.


                                                                                     Ubiracy de Souza Braga*

“O amor é um turbilhão de pureza original”. Violeta Parra  
                             

Violeta del Carmen Parra Sandoval nasceu em San Carlos, 4 de outubro de 1917 e faleceu em Santiago do Chile, 5 de fevereiro de 1967. Foi uma compositora, cantora, artista plástica e ceramista chilena, considerada a mais importante folclorista daquele país e fundadora da música popular chilena. Violeta Parra pode ser considerada “a mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados”, tendo sido autora de páginas inapagáveis, como a canção “Volver a los 17” (que resgata a questão dialética da existência: “volver a ser de repente tan frágil como um segundo/volver a sentir profundo como un niño frente a Dios”), que mereceu uma antológica gravação de Milton Nascimento e Mercedes Sosa. Outra de suas canções, “La Carta”, cantada em momentos de enorme comoção revolucionária, nas barricadas e nas ocupações, tem entre os seus versos o que diz: - “Os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia”. Mas suas canções não apenas são marcadas por versos demolidores contra toda a injustiça social. O lirismo dos versos de canções como “Gracias a la vida”, gravada também por Elis Regina embalou o ânimo de gerações de revolucionários latino-americanos em momentos em que a vida era questionada nos seus limites mais básicos, assim como a letra comovedora de “Rin de Angelito”, quando descreve a morte de um bebê pobre: - “En su cunita de tierra lo arrullará, una campana mientras la lluvia le limpia, su carita en la mañana”.    
       Vale lembrar que nenhum dos povos de nuestra América Latina constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro etnia diferenciada da nacional, historicamente reivindicante do direito de ser ela própria, ao menos como modo diferenciado de participação na sociedade nacional. Os chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos, na impressionante, rica e maravilhosa descrição etnográfica na pena antropocêntrica de Darcy Ribeiro (1968), “pela ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation”, que tiveram papel tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos venezuelanos. Ambos conformam, juntamente com a matriz étnica original dos rio-platenses, uma variante dos Povos-Novos,  dentre os quais se inclui o Brasil, originaram-se da conjunção de matrizes étnicas diferenciadas como o colonizador ibérico, indígenas de nível tribal e escravos do tráfico entre tribos africanas, imposta por empreendimentos coloniais-escravistas, seguida da deculturação destas matrizes, do caldeamento racial de seus contingentes e de sua aculturação no corpo e na formação de novas etnias.
        Gabriela Eliana Pizarro Soto (1932-1999), foi uma das três mais importantes investigadoras e intérpretes do folclore musical chileno que, em 1958, fundou o Millaray, um dos mais importantes grupos musicais chilenos de representação folclórica. Quando criança teve contato com tradições populares chilenas. Dentre as pessoas que a influenciaram na infância, destacaram-se: sua mãe, Blanca Hortensia Soto, originária de Lebu, que estudou no Conservatório Nacional e participava do coral da Igreja, da orquestra de professores, de grupos de teatro, zarzuela e opereta; e sua avó, Elba González, originária de Cañete e cantora de chinganas. Em 1939, se mudou com sua família para Santiago. Participou do grupo musical da escola e teve aulas de violão com Isabel Soro. Em 1954, teve o primeiro contato com Margot Loyola em dos cursos temporários de cultura musical ministrados por Margot na Universidade do Chile. Nesses cursos teve contato com Silvia Urbina, Jaime Rojas, Rolando Alarcón, Victor Jara, integrantes do Cuncumén, entre outros. Em 1955, fundou o grupo Gualpén, com Jaime Rojas, futuro integrante do Cuncumén. Entre 1955 e 1961, integrou o coral da Universidade do Chile, entre  acadêmicos como: Manuel Dannemann, Alfonso Letelier e Raquel Barros. Em 1956, visitou Lebu, onde manteve contato com as cantoras Noemi Chamorro, de Quiapo, e Olga Niño, entre outras. Com elas aprendeu cuecas, mazurcas, tonadas, canciones religiosas e danças como o chapecao e chincolito. Em 1957 substituiu Violeta Parra no programa de radio “Imágenes camperas”.

                                    
                                        
             Neste ano criou um novo conjunto folclórico, com o apoio da Casa de Cultura de Ñuñoa e atuou no programa radiofônico chamado: Un pueblo canta, organizado pelo escritor Julio Alegria e vinculado ao Departamento do Pequeno Direito de Autor da Universidade do Chile, onde interpretou músicas de autores chilenos como Petronila Orellana e Críspulo Gándara. Esse programa radiofônico, reuniu as pessoas que fundariam o conjunto musical Millaray, nome significa “flor de ouro”.  Entre 1958 e 1960, o grupo Millaray se apresentou no Teatro Municipal de Santiago difundindo o resultado das investigações sobre a cultura da Ilha de Chiloé, por meio da compilação de danças como “el pavo”, “el cielito”, “la trastasera”, “la pericona”, entre outras. O grupo Millaray, que juntamente com Cuncumén, é considerado um dos maiores conjuntos de música folclórica chilena, gravou 5 discos da coleção O Folclore do Chile, pela Odeon, mas teve suas atividades interrompidas com o golpe político-militar de 1973, que resultou na perseguição de muitos de seus artistas e músicos integrantes, incluindo Gabriela. Em 1959, conheceu o folclorista Héctor Pavez, integrante do Millaray, com quem se casaria em 1960 e teria cinco filhos. Foi professora em cursos nas casas de cultura municipais de San Miguel, em 1963; de Santiago, em 1969; e de La Granja, em 1973. Entre 1965 e 1973, deu aulas de folclore chileno na Faculdade de Ciências e Artes Musicais e Cênicas da Universidade do Chile.

        Violeta Parra nasceu em San Carlos, província de Ñuble. Realizou seus estudos escolares até o segundo ano do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos, desenvolvendo uma importante carreira musical, como autodidata, a partir dos 9 anos. Em 1938, casou-se pela primeira vez e dessa união, teve dois filhos, Isabel e Ángel, que também viriam a se tornar compositores e intérpretes importantes. Viveu em Valparaíso entre 1943 e 1945, e voltou a Santiago, para cantar junto com seus filhos. É uma comuna da província de Valparaíso, localizada na Região de Valparaíso, Chile. Em 1949 voltou a se casar e teve duas filhas dessa nova união. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Em 1954, quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. A área histórica de Valparaíso declarada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 2003. 
           Foi uma importante pesquisadora de ritmos, danças e canções populares chilenas, chegando a catalogar cerca de 3 mil canções tradicionais, importante logro para resgate e valorização cultural chilena. Algumas dessas canções foram publicadas em livro: “Cantos folclóricos chilenos” e em disco “Cantos campesinos”, editado originalmente em Paris. Durante sua infância, viveu em distintas localidades da zona de Chillán, uma comuna da província de Diguillín, localizada numa região vulcânica da Região de Ñuble, Chile onde, possivelmente, teve suas primeiras experiências artísticas. Em 1929, compôs suas primeiras canções para violão. Estudou até o segundo ano do secundário, porém em 1934 interrompeu seus estudos para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos. Autodidata, cantora e tocadora de violão desde os nove anos, ingressou definitivamente na carreira musical aos 15 anos, após a morte do pai, quando deixou a casa da mãe, no interior do Chile, e foi morar em Santiago com o irmão Nicanor, que estudava na capital. Entre 1943 e 1945, viveu em Valparaíso e voltou a Santiago, para cantar junto com seus filhos. Juntamente com sua irmã Hilda criaram a dupla “Las Hermanas Parra”, que cantava músicas folclóricas. Nessa atividade, conheceu o ferroviário Luis Cereceda, com quem se casou em 1938 e teve dois filhos, Isabel e Ángel, que viriam a se tornar compositores e intérpretes importantes.
            Em 1948, se separaram. Em 1949, gravou, em parceria com sua irmã Hilda, seu primeiro disco, voltou a se casar, com Luis Arce, e teve duas filhas deste novo relacionamento: Luísa Carmen e Rosita Clara, que faleceu antes de completar um ano de idade. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Também em 1953, foi contratada pela Rádio Chilena para produzir programas radiofônicos de música folclórica, o que impulsionou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares; além disso, gravou pela Odeon, duas de suas canções mais conhecidas: “Qué pena siente el alma” e “Casamiento de negros”. Durante o ano de 1955 recebeu o Prêmio Caupolicán e visitou a União Soviética, Polônia, Londres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. Realizou gravações para a BBC e para a Odeon e “Chant du Monde”. Nesse período também recebeu a notícia da morte, por pneumonia, de sua filha Rosita Clara.Em 1956, após seu retorno ao Chile, começou a coordenar a produção de uma série de discos intitulada “El Folklore de Chile”, gravados pela Odeon. Na época, comandava o programa radiofônico “Canta Violeta Parra”. Em 1957, radicou-se em Concepción onde ajudou a divulgar um museu de arte popular na Universidade, voltando a Santiago no ano seguinte onde começou sua produção como artista plástica.

        Percorreu todo o país, recompilando e difundindo informações sobre o folclore. Em 1958, fundou o Museu Nacional de Arte Folclórica Chilena. Em 1959, adoeceu e ficou acamada durante vários meses, situação que a desenvolver seu talento como arpillerista. Uma arpillera , que significa serapilheira em espanhol, é uma imagem de retalhos de cores vivas feita predominantemente por grupos de mulheres também reconhecidas como arpilleristas. A construção de arpilleras tornou-se popular no Chile durante a ditadura militar (1973-1990) de Augusto Pinochet. As arpilleras foram feitas em oficinas organizadas por um comitê da Igreja Católica chilena e depois distribuídas secretamente no exterior por meio do grupo de direitos humanos da Igreja, o Vicariato de Solidariedade. A produção de arpilleras forneceu uma fonte vital de renda para os arpilleristas, muitos dos quais ficaram em um estado de insegurança financeira devido ao desemprego generalizado e desaparecimentos forçados de seus maridos e filhos, que ficaram conhecidos como desaparecidos. As arpilleras são normalmente construídas com materiais simples, como estopa e pedaços de tecido. Arpilleras geralmente retratava temas expressamente políticos por meio de cenas de demonstração de condições de vida empobrecidas e repressão do governo. Essas cenas serviram para denunciar as violações dos direitos humanos do regime de Pinochet. Em resposta, o governo buscou punir aqueles que criaram arpilleras e aqueles que apoiaram a criação de arpilleras. 
            La ciudad de San Carlos de Itihue fue fundada el 3 de julio de 1800 por Joaquín del Pino del Rozas y Negrete, y su nombre sería en honor al rey Carlos IV de España. El 24 de noviembre de 1801 se realiza el primer trazado de la ciudad, como documento más antiguo de la entonces Villa de San Carlos, se conserva en el Archivo Nacional un Croquis cuya autoría es de don Juan de Ojeda, en el que se puede observar la conformación urbana original compuesta por 120 sitios o solares distribuidos en 36 manzanas. Cerca de esta ciudad se libró el llamado combate de San Carlos en el marco de la guerra de Independencia, el 15 de mayo de 1813, dónde se enfrentaron Realistas y Patriotas, con 1.000 hombres los primeros y 4.000 los segundos, (cifras estimadas). Los Patriotas eran comandados por el prócer General José Miguel Carrera, obteniéndose cómo resultado una victoria parcial para ambos bandos. Los dos sables de caballería cruzados, ubicados en el blasón rojo superior del escudo de armas de la comuna, hacen referencia a dicho combate. En 1817 las tropas patriotas comandadas por el general Ramón Freire ocupan la ciudad en su campaña hacia el sur. El año 1854 la ciudad se convierte en la capital de la Municipalidad de San Carlos abracando un vasto territorio con varias localidades. En 1856 adquiere el título de ciudad con 5.456 habitantes, y en 1891 en la capital de la comuna de San Carlos.
       Arpilleras são atualmente reconhecidas como um exemplo de arte feminina subversiva em um contexto político autoritário. No entanto, as arpilleras contemporâneas refletem temas menos políticos, como a vida rural idealizada. Em 1960, expôs pela primeira vez suas pinturas a óleo na Feira de Artes Plásticas do Parque Florestal em Santiago e conheceu e começou a namorar com o musicólogo e antropólogo suíço Gilbert Favré. As dificuldades em sua relação com Gilbert, inspirariam canções como: “Corazón maldito”, “¿Qué he sacado con quererte?”, “Run Run se fue pa’l norte” e “Maldigo del alto cielo”. Em 1961, mudou-se para a Argentina, onde fez grande sucesso com suas apresentações. Voltou a Paris e ali permaneceu por três anos, percorrendo várias cidades da Europa, destacando-se suas visitas a Genebra. Nesse período: compôs algumas de suas músicas combativas, como: “¿Qué dirá el Santo Padre?”, “Arauco tiene una pena” e “Miren cómo sonríen”, que podem ser consideradas como o início da Nueva Canción Chilena; e, escreveu o livro: Poesía popular de Los Andes. Entre 18 de abril e 11 de maio de 1964, foi realizada no Museu do Louvre uma exposição de suas pinturas, óleos, arpilleras e esculturas em arame, tendo sido a primeira artista latino-americana a ter uma exposição individual nesse espaço. 
       Em 1965, após o término de seu terceiro casamento, voltou ao Chile, onde se apresentou na “La Peña de los Parra”, onde o público podia escutar boa música e tomar vinhos e onde teve início a carreira musical de seus dois filhos: Ángel e Isabel. Depois instalou uma grande tenda com capacidade para cerca de mil pessoas na comuna de La Reina, local também se apresentaram: Patricio Manns, Rolando Alarcón, Víctor Jara.  Em 1966, viajou para a Bolívia, fez apresentações com Gilbert Favré e gravou seu último disco: “Ultimas composiciones”, considerado como o seu melhor disco, que contém canções como: “Maldigo del alto cielo”, “Gracias a la vida”, “El albertío”, “Run Run se fue pa’l norte” e “Volver a los 17”. Cometeu suicídio em 5 de fevereiro de 1967, na tenda de La Reina, e os selos fonográficos Odeon e “Chant du Monde”. Em 1955 Violeta Parra visitou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Londres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. 

  Historicamente os Povos-Novos surgem hierarquizados, como os Povos-Testemunho, pela distância social que separa a sua camada senhorial de fazendeiros, mineradores, comerciantes, funcionários coloniais e clérigos da massa escrava engajada na produção. Constituíam-se de rudes empresários, senhores de suas terras e de seus escravos, forçados a conviver com negócio e a dirigi-lo pessoalmente com a ajuda de uma pequena camada intermédia, de técnicos, capatazes e sacerdotes. Onde a empresa prosperou muito, como nas zonas açucareiras e mineradoras do Brasil e das Antilhas, puderam dar-se ao luxo de residências senhoriais e tiveram de alargar a camada intermédia, tanto dos engenhos como das vilas costeiras, incumbidas do comércio exterior. Vale lembrar que nenhum dos povos deste bloco constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro-etnia diferenciada da nacional, reivindicante do direito de ser ela própria, como modo diferenciado de participação na sociedade nacional. Realizou gravações para a BBC uma corporação pública de rádio e televisão do Reino Unido fudada em 1922. 
        Possui uma boa reputação nacional e internacional, embora seja vista por alguns críticos como parcial e tendenciosa para o liberalismo e seja assumidamente pró-Londres. Por vezes, é chamada afetiva pelos britânicos como Beeb, The Corporation ou Auntir (Titia). Durante muitos anos, foi o único fornecedor de rádio e, depois, de televisão, do Reino Unido. O seu lema é: Nation Shall Speak Peace Unto Nation. Antes, era chaamda de British Broadcasting Company Ltd., nome que permaneceu até 1927. Em 1957 radicou-se na cidade de Concepción, voltando a Santiago no ano seguinte para começar sua produção em Artes Plásticas. Percorreu todo o país, recompilando e difundindo informações sobre o folclore. Em 1961, mudou-se para a Argentina, onde fez grande sucesso com suas apresentações. Voltou a Paris e ali permaneceu por três anos, percorrendo várias cidades da Europa, destacando-se suas visitas a Genebra. Em 1965 voltou ao Chile, viajou para a Bolívia e, ao regressar a seu país, “instalou uma grande tenda na comuna de La Reina”, com o objetivo de convertê-la em um centro de referência para a cultura folclórica do Chile, juntamente com os filhos, Ángel e Isabel, e os folcloristas Patricio Manns, Rolando Alarcón e Víctor Jara, como é retratado no livro e filme: “Violeta se fue a los cielos” (2013). 
          A iniciativa não logrou pleno sucesso. Emocionalmente abatida pelo fracasso do empreendimento, acrescido pelo dramático fim do relacionamento amoroso, Violeta Parra suicidou-se em 5 de fevereiro de 1967, na tenda de La Reina. Os chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos pela ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation, que tiveram papel tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos venezuelanos. Ambos conformam juntamente com a matriz étnica original dos rio-platenses, uma variante dos Povos-Novos. A composição predominantemente “índio-espanhola” dos Povos-Testemunho se diferencia dessa variante porque suas populações indígenas originais não haviam alcançado um nível de desenvolvimento cultural equiparável ao dos mexicanos ou dos Incas. É o resultado da seleção de qualidades raciais e culturais das matrizes formadoras, que melhor se ajustaram às condições que lhes foram impostas. O papel decisivo em sua formação foi representado pela escravidão que, operando como força distribalizadora, desgarrava as novas criaturas das tradições ancestrais. São produto tanto da deculturação redutora de seus patrimônios tribais indígenas e africanos, quanto da aculturação seletiva desses patrimônios e da própria criatividade face ao novo meio de reprodução da vida. Do ponto de vista político Violeta Parra, como vimos, pode ser considerada com razão “a mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados”. 

          Tendo sido autora de páginas inapagáveis, como a canção: “Volver a los 17”, que mereceu uma antológica gravação de Milton Nascimento e Mercedes Sosa. Outra de suas canções, “La Carta”, cantada em momentos de enorme comoção revolucionária, nas barricadas e nas ocupações, tem entre os seus versos o que diz: - “Os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia”. Mas suas canções não apenas são marcadas por versos demolidores contra toda a injustiça social. O lirismo dos versos de canções como: “Gracias a la vida”, também gravada por Elis Regina, embalou o ânimo de gerações de revolucionários latino-americanos em momentos em que a vida era questionada nos seus limites mais básicos, assim como a letra comovedora de “Rin de Angelito”, quando descreve a morte de um bebê pobre: - “No seu bercinho de terra um sino vai te embalar, enquanto a chuva te limpará a carinha na manhã”. Quanto ao filme: “Violeta se fue a los cielos” (foto), objeto de nossa reflexão,
“es una película del director Andrés Wood estrenada el 11 de agosto de 2011. Filmada en Chile, Francia y Argentina, la película narra la vida de la cantora chilena Violeta Parra. El guion estuvo a cargo de Andrés Wood, Eliseo Altunaga, Guillermo Calderón y Rodrigo Bazaes, con la colaboración de Ángel Parra, hijo de Violeta Parra y también músico de la llamada Nueva Canción Chilena. El estreno contó con la presencia de seis mil espectadores, siendo presentada en 21 salas a lo largo del país. Fue escogida por el Consejo Nacional de la Cultura y las Artes como representante nacional para las nominaciones a Mejor Película Extranjera de los premios Óscar de Estados Unidos, Ariel de México y Goya de España 2012. El martes 10 de enero del 2012 fue anunciada como una de las 4 nominadas en la categoría de Mejor Película Iberoamericana en los Premios Goya. Además fue ganadora del Gran Premio Internacional del Jurado en el Festival de Sundance 2012”.
            O filme, que é baseado na biografia escrita por Angel Parra (2013), não segue um cronograma objetivo, e apresenta vários momentos da vida de Violeta Parra. Ele mostra Violeta ainda pequena em algum lugar na província de Nuble, em viagens feitas em campo chileno em busca de canções folclóricas para evitar perder-se, uma viagem a um campo de mineração do sul do Chile com uma companhia de circo, onde cantou com sua irmã Hilda, e uma viagem de Violeta à Polônia comunista (cf. Braga, 2015), sua estada na França e na exposição de suas obras visuais no Louvre, seu retorno ao Chile e a construção da tenda da Rainha que se entrelaçam ao longo dos fragmentos de filmes com uma entrevista na televisão que Violeta realizada na Argentina em 1962. A vida amorosa da artista é também um tema-chave ao longo da história, mas, neste caso está focado, sobretudo no romance que manteve com o suíço Gilbert Favre. Ipso facto referindo-se a seus outros casais para um papel secundário. No que diz respeito aos seus filhos, no primeiro período do filme, Angel, tem um papel importante a ser tomado com cuidado e depois por sua filha Carmen Luísa.     
Francisca Gavilán interpretou todas as canções que são originalmente cantadas por Violeta Parra. O filme também mostra Violeta Parra interpretando canções em conjunto com sua irmã Hilda, e sua filha, Carmen Luísa. Também está incluído um tema articulado por um fazendeiro. Antes do lançamento do filme, em 28 de julho de 2011, a trilha sonora completa foi publicada no Sound Cloud. Algumas canções que apareceram no filme não foram incluídas na trilha sonora, assim como os sucessos músicais “O Cardeal”, “Graças a Vida” e “A jardineira”. O filme foi lançado no Chile em 11 de agosto de 2011, em 21 teatros. Em seu primeiro dia de estreia ele contou com cerca de seis mil espectadores. No total o filme foi visto por 391 465 espectadores em 2011, tornando-se o filme mais popular de Chile. O filme não teve a total cobertura dos expositores para sua estreia, que só puderam reservar 17 salas para exposição, e, sobretudo, não cobrem as principais cidades. O sucesso do filme forçou-os a aumentar o número de cópias e salas, fato que foi destacado pela imprensa.
“La película, que está basado en la biografía escrita por Ángel Parra, no sigue una línea cronológica directa, y se sitúa en distintos escenarios de la época de Violeta Parra. Se muestra a la niñez de Violeta en alguna parte de la provincia de Ñuble, los viajes que Violeta realizó al interior del campo chileno, en busca de canciones populares chilenas para evitar que se perdieran, un viaje a un campo minero del sur Chile con una compañía circense, donde cantaba junto a su hermana Hilda, el viaje de Violeta a la Polonia comunista, su estadía en Francia y la exposición de sus trabajos visuales en el Museo del Louvre, su regreso a Chile y la construcción de la carpa de la Reina, y toda la película entrelazada por fragmentos de una entrevista televisada que Violeta realizó en Argentina en el año 1962. La vida amorosa de la artista también es un tema fundamental a lo largo de la historia, pero sólo está enfocada al  romance que mantuvo con el suizo Gilbert Favre, remitiendo a sus otras parejas a un rol secundario. En lo referente a sus hijos, en el primer lapso de la película su hijo Ángel tiene un rol marcado, para después la atención ser tomada por su hija Carmen Luisa”.        
            Enfim, primeira atriz latino-americana de nacionalidade chilena a expor no Museu do Louvre, em Paris, responsável pelo resgate da cultura chilena e com composições gravadas no mundo todo, Violeta Parra é tema do filme que pode ser considerado uma ode à alegria e poesia crítica latino-americana. Mas a vida real não foi tão generosa com a artista chilena, de triste passagem individual pelo mundo ocidental, embora repleta de realizações artísticas e estéticas para a posteridade. “Violeta foi para o Céu”, de Andrés Wood, o mesmo diretor de “Machuca” (2004), narra sem falsificações literárias a história da mais célebre cantora chilena. Tal como o cérebro “atormentado” da personagem principal, a heroína chilena, o longa-metragem  segue uma “rua de mão única”, mesclando poesia e realidade, nostalgia e profecia (cf. Benjamin, 1987). Da infância complexa com o pai alcoólatra e de destino errante, Violeta Parra passa à fase adulta como artista itinerante, cantando de povoado em povoado e viajando em boleia de caminhão, como se refere Milton Nascimento em sua canção.  Das caminhadas pelo interior do Chile sob o sol escaldante, vai à Paris da década de 1960, viver romances conturbados, inusitados, mas felizes, e uma vida artística guiada pela miséria econômica de um continente violentado pela colonização hispânica.
Ao fim e ao cabo, tem-se uma imagem de uma personalidade única, merecedora de respeito, encanto e de sofrimento compreensível. A atriz Francisca Gavilán consegue ir além da impressionante semelhança física, e se destaca no filme cantando as músicas de Violeta Parra. As passagens da vida da artista são permeadas por uma entrevista que vai ajudando a entender melhor a formação do seu caráter. Ao longo dela, Violeta conta da família indígena com orgulho, ignorando o preconceito naturalizado do apresentador, e a primeira passagem pela Europa. Chamada a uma rápida excursão, ela é informada da morte de um filho, e decide passar “mais um tempo” no Velho Continente - dois anos. Em Paris, a artista desafia os preconceitos racistas contra os latino-americanos. E sai vencedora. No Chile, coloca o pouco que tem nas costas e, acompanhada do filho, Angel, decide resgatar as cantigas de folclore. Vai de porta em porta ouvindo histórias que resultarão em discos, e que ajudarão a cunhar seu estilo, famoso por canções como “Gracias a la Vida” e “Volver a los 17”, mais tarde gravadas por dezenas de artistas de outros países, inclusive no Brasil, com destaque para a monumental cantora argentina Mercedes Sosa.
Livre de amarras, Violeta acumula amores ao longo da vida, até uma paixão arrebatadora por um artista francês apresentado pelo filho. A juventude do parceiro não parecia problema, e o casal, sem nós que os atasse a qualquer lugar do mundo, vai passar uma temporada em Paris. De volta ao Chile, porém, a cantora começa a sentir os efeitos sociais da diferença de idade: não tem mais pique para seguir o namorado, Run Run, que quer ganhar mundo, e entra em depressão – daí nasce “Run Run se fue pa`l norte”. No interior chileno, Violeta começa como artista itinerante, e apresenta o que for aceito pelo público. Uma tenda em Santiago parece restituir-lhe seu resplendor como artista: a área, concedida por um político, começa a atrair o grande público e artistas interessados no folclore chileno. No entanto, o tempo passa, Violeta e o público parecem desinteressar-se mutuamente, quando ocorre um último rompimento com o namorado, e a vida chega ao fatídico desfecho. Um conhecido final fatalista que em nada abrevia a tensão do filme.          
Foi dito algumas vezes, e nesta referente ao suicídio, rememora Émile Durkheim, que em virtude da constituição psicológica, o homem não pode viver a não ser que
“se ligue a um objeto que o ultrapasse e que lhe sobreviva, e deu-se como razão disso uma necessidade que teríamos de não perecer inteiramente. A vida, diz-se, só é tolerável quando percebemos nela alguma razão de ser, quando ela tem um objetivo, e que valha a pena. Ora, o indivíduo, por si só, não é um fim suficiente para sua atividade. Ele é muito pouca coisa. Além de ser limitado no espaço, é estreitamente limitado no tempo. Portanto, quando não temos outro objetivo além de nós mesmos, não podemos escapar à ideia de que nossos esforços estão, afinal, destinados a se perder no nada, pois a ele devemos voltar. Mas a anulação nos apavora. Nessas condições, não conseguimos ter coragem para viver, ou seja, para agir e lutar, uma vez que, de todo esse trabalho que temos, nada irá restar. Em suma, o estado de egoísmo estaria em contradição com a natureza humana e, por conseguinte, seria precário demais para ter possibilidade de perdurar” (cf. Durkheim 2014: 260 e ss.). 
Após a exibição do longa-metragem: “Violeta foi para o céu”, de Andrés Wood, na  abertura da 22ª edição do Cine Ceará, com a calma noite irradiante e bela na cidade de Fortaleza, que aconteceu numa noite de sexta-feira, o diretor conversou com a imprensa durante coletiva sobre o filme. A tópica da famosa cantora e folclorista chilena Violeta Parra, preenchida com seu trabalho musical, suas memórias, seus amores e esperanças. O Wood falou naturalmente sobre as dificuldades de lidar com os parentes de Violeta Parra – a neta Tita Parra publicou um texto no site da Fundação Violeta Parra, fazendo críticas ao filme. - “Acho que se fosse um filme sobre a minha mãe ou a minha avó eu pensaria que não corresponde à realidade e entendo perfeitamente que parte da família não esteja de acordo. Mas independente disso há uma parte da família que estava de acordo com o filme”, disse ele, que reconhece a dificuldade de trabalhar com a história de uma personagem que não está mais viva. Para compor a narrativa, o chileno teve o apoio de um dos filhos de Violeta, Ángel Parra, também compositor e intérprete, autor do livro: Violeta se fue a los cielos, em que o longa-metragem se baseia o cineasta, produtor e escritor chileno. Alguns de seus filmes mais populares incluem Machuca, Violeta se fue a los cielos e Historias de Futbol. Ele criou sua própria produtora reconhecida como Wood Producciones em 1993. - “Ele tem uma participação grande na supervisão, no acompanhamento. Ele nos deu muita liberdade”, contou o diretor, ter se apaixonado pela personagem no trabalho de pesquisa e direção. 
Bibliografia geral consultada.
RIBEIRO, Darcy, O Processo Civilizatório. Etapas da Evolução Sociocultural. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968; ALCADE, Alfonso, Toda Violeta Parra. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 1974; ALEGRIA, Fernando, “Violeta Parra”. In: Retratos Contemporâneos. New York: Harcourt, Brace and Jovanich, 1979; pp. 165-168; FERNANDES, Florestan, O Folclore em Questão. 2ª edição. São Paulo: Editor Hucitec, 1989; CÁNEPA-HURTADO, Gina, Violeta Parra y sus Relaciones con la Canción e de Lucha Latinoamericana. Berlín West. Tesis Doctoral, 1981; RODRIGUES-MUSSO, Osvaldo, La Nueva Canción Chilena. Continuidad y Reflexo. La Habana: Ediciones Casa de las Américas, 1988; FARIAS, Maria de Lourdes Souza, Violeta Parra: Identidade Cultural Latinoamericana Moderna. Programa de Pós-Graduação em Educação. Dissertação de Mestrado. Criciúma: Universidade do Extremo Sul Catarinense, 2007; MORALES, Leonidas, Conversaciones con Nicanor Parra. Santiago: Editora Universitária, 2010; PARRA, Violeta, El Gavilán, (1957).Transcripción de Mauricio Valdebenito. Extraída de la grabación de Miguel Letelier, inicios de los años 1960. Santiago de Chile: Facultad de Letras-Universidad de Chile, 2001; PARRA, Violeta, SOUBLETTE, Gastón, Cantos Folclóricos Chilenos. Ed. Ceibo Santiago de Chile, 1979; Idem, Cantos Folclóricos Chilenos. Santiago de Chile: Ceibo, 2013; PARRA, Angel, Violeta se Fue. Madrid: Editorial Catalonia, 2013; SCHMIEDECKE, Natália Ayo, “Tomemos la Historia en Nuestras Manos”. Utopia Revolucionária e Música Popular no Chile (1966-1973). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Franca: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2013; SOUZA, Eneida, Maria de, “¿Cuál Revisión del Modernismo?”. In: Cuaderno de Literatura. Vol. XVIII, nº35. Enero, Junio, Bogotá, 2014; SOUBLETTE, Gastón, Sabiduría Chilena y Tradición Oral. Santiago de Chile: Universidad Católica de Chile, 2015; ESPINOZA, Fernando Venegas, “Violeta Parra y su Conexión con la Cultura Popular de la Frontera del Biobío (1917-1934)”. In: Revista Historia UdeC, n° 21, vol. 1, enero-junio 2014: 105-139; DURKHEIM, Émile,  Il Suicidio. Studi di Sociologia. Rizzoli: Biblioteca Universitaria Rizzoli, 2014; WOZNIAK GIMÉNEZ, Andrea Beatriz, “Ser Mulher-Artista-Engajada: Violeta Parra, Mercedez Sosa e Elis Regina na década de 60”. In: Em Tempo de Histórias, n° 25, 2015; entre outros.  
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).