quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Nanotecnologia – Brick, Mistério Neo-noir & Cinema da Modernidade.

                       A coisa mais incompreensível sobre o universo é que ele é compreensível”. Albert Einstein

            

            A nanotecnologia tem como representação uma ciência que se dedica ao estudo da manipulação da matéria numa escala atómica e molecular lidando com estruturas entre 1 e 100 nanômetros. Pode ser utilizada em diferentes áreas interdisciplinares tais como, a medicina, eletrônica, ciência da computação, física, química, biologia, engenharia dos materiais e engenharia da computação. O princípio básico da nanotecnologia tem como representção a construção de estruturas e novos materiais a partir dos átomos. É uma área promissora, mas em seus primeiros passos, mostrando, contudo, resultados surpreendentes na produção de semicondutores, Nanocompósitos, Biomateriais, Chips, entre outros. Criada no Japão, a nanotecnologia busca inovar invenções, aprimorando-as e proporcionando uma melhor vida ao Homem. Um dos instrumentos utilizados para exploração de materiais nessa escala tecnológica é o Microscópio eletrônico de varredura e o Microscópio de varredura por Tunelamento, que permite a observação de átomos e moléculas ao nível atômico. O objetivo não é chegar a um controle preciso e individual dos átomos, mas elaborar estruturas estáveis com eles. Existe muito debate nas implicações futuras da nanotecnologia, pois os desafios são semelhantes aos de desenvolvimentos de tecnologias, incluindo questões adversas sobre a toxicidade e impactos ambientais dos nanomateriais, os efeitos na economia global, a especulação socialmente ideológica sobre cenários apocalípticos (doomsday scenarios). Essas questões per se levam ao debate indivíduos e governos sobre regulação social da nanotecnologia. Do ponto de vista teórico, histórico e pontual Richard Feynman (1918-1988) foi o precursor do conceito de nanotecnologia, embora não tenha utilizado este termo em sua palestra para a Sociedade Americana de Física, em 29 de dezembro de 1959, onde apresentou pela primeira vez suas ideias acerca do assunto. 

       Foi um dos pioneiros da eletrodinâmica quântica e ficou reconhecido pelos seus trabalhos no ramo da formulação integral da mecânica quântica. Pelas suas contribuições para o desenvolvimento da eletrodinâmica quântica, Feynman recebeu o Nobel de Física em 1965 junto ao Julian Schwinger (1918-1994) e Shin`ichiro Tomonaga (1906-1979). É irmão mais velho da astrofísica Joan Feynman (1927-2020). Nasceu em Nova Iorque, Estados Unidos da América e cresceu em Far Rockaway, um bairro na parte oriental da península de Rockaway, no bairro de Queens, em Nova York. Desde criança demonstrava facilidade com a interpretação sociológica das ciências e a matemática. Cursou física no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) onde, graças a imagem de John Clarke Slater, Julius Adams Stratton (1901-1904) e Philip McCord Morse (1903-1985), pioneiro na pesquisa operacional, além de outros professores devidamente conceituados. A palavra “Nanotecnologia” foi utilizada pela primeira vez pelo professor Norio Taniguchi (1912-1999) em 1974 para “descrever as tecnologias que permitam a construção de materiais a uma escala de 1 nanômetro”. Para se perceber o que isto significa, considere uma praia de 1 000 km de extensão e um grão de areia de 1 mm, “este grão está para esta praia como um nanômetro está para o metro”. Em alguns casos, elementos da escala periódica da química mudam seu estado, isto é, criando condições e possibilidades, ficando até explosivos em escala nanométrica. A nanotecnologia é a capacidade potencial de criar coisas a partir do menor elemento, usando as técnicas e ferramentas que estão a ser desenvolvidas hoje para colocar cada átomo e cada molécula no lugar desejado. Se conseguirmos este sistema de engenharia molecular, o resultado será uma nova revolução industrial. 

           Além disso, teria também importantes consequências econômicas, sociais, ambientais e militares. Fulerenos, é um membro representante das estruturas de carbono reconhecido como fulerenos. Os membros da família fulereno são um tema importante da investigação técnica e social que recaem sob a égide especificamente da nanotecnologia. Embora a nanotecnologia seja um desenvolvimento recente na pesquisa científica, o desenvolvimento de seus conceitos centrais vem acontecendo através de um extraordinário longo período histórico. A emergência da nanotecnologia na década de 1980 ocorreu-se devido a convergência de avanços tecnológicos experimentais como a invenção do “microscópio de varredura de tunelamento” em 1981 e na descoberta dos fulerenos em 1985, com o esclarecimento e popularização de um modelo de trabalho para os objetivos da nanotecnologia iniciando com a publicação em 1986 do livro Motores da Criação. O microscópio de varredura de tunelamento, é um instrumento para visualização de superfícies no nível atômico, foi desenvolvido em 1981 por Gerd Binnig e Heinrich Rohrer no IBM Zurich Research Laboratory, pelo qual eles receberam o prêmio Nobel em física em 1986. Fulerenos foram descobertos em 1985 por Harry Kroto (1939), Richard Smalley (1943-2005), e Robert Curl (1933-2022), que juntos receberam o Prêmio Nobel em química em 1996. Assim na década dos anos 1980, o conceito de Nanotecnologia foi popularizado por Eric Drexler por meio do livro Engines of Creation (Motores da Criação). Este livro com algumas especulações próximas da ficção científica baseou-se no trabalho minudente, sério desenvolvido por Drexler enquanto cientista. Drexler foi o primeiro cientista a doutorar-se em nanotecnologia pelo MIT.                                                  

O extraordinário sociólogo Norbert Elias (1897-1990) em seu ensaio: A Sociedade dos Indivíduos (1994) distingue os seres humanos como indivíduos e  como sociedade, entendendo com isso, que quando uma pessoa diz “sociedade” e a outra escuta, elas se entendem sem dificuldade. Mas será que realmente nos entendemos? A sociedade, como sabemos, somos todos nós; é um grande número de pessoas reunidas. Mas um bom número de pessoas reunidas consequentemtne na Índia e na China forma um tipo de sociedade diferente da encontrada na América do Norte, ou na Grã-Bretanha; a sociedade composta por muitos indivíduos na Europa do século XII era diferente historicamente da sociedade encontrada comparativamente nos séculos XVI ou XX. E, embora todas essas sociedades certamente tenham consistido e consistam em nada além de muitos indivíduos, é claro que a mudança social de uma forma de convívio para outra não foi planejada por nenhum deles. Pelo menos, é impossível constatar que qualquer pessoa dos séculos XII, ou mesmo XVI, tenha trabalhado deliberadamente pelas sociedades, que assumem a forma de Estados nacionais altamente industrializados. Que tipo de formação é esse, que só existe diante de um grande número de pessoas, só continua a funcionar quando pessoas, tomadas isoladamente, querem e fazem certas coisas, mas cuja estrutura e transformações históricas independem das intenções de qualquer pessoa em particular? Quando alguém examina as respostas dadas a essas e outras questões sociológicas similares, vê-se confrontado, em termos gerais, com dois amplos campos opostos de indagação. Parte das pessoas aborda como se estas tivessem sido concebidas, planejadas e criadas, tal como agora se apresentam ao observador retrospectivo, por diversos indivíduos ou organismos governamentais.

Embora com frequência alguns indivíduos dentro desse campo geral possam ter algum nível de consciência de que seu tipo de explicação não é realmente satisfatório, por mais que distorçam suas ideias de modo a fazê-las corresponderem aos fatos, o modelo conceitual a que estão presos continua a ser o da criação racional e deliberada de uma obra – como um prédio ou uma máquina – por pessoas individuais. Quando têm diante de si instituições sociais específicas, como os parlamentos, a polícia, os bancos, os impostos, os livros etc., eles procuram para explicá-las, as pessoas que originalmente tiveram a ideia dessas instituições ou que primeiro a puseram em prática. Quer dizer, ao lidarem com um gênero literário, buscam o escritor que serviu de modelo para os outros. Ao depararem com formações em que esse tipo de explicação é difícil, como a linguagem ou o Estado, por exemplo, ao menos procedem como se essas formações sociais pudessem ser explicadas da mesma forma que as outras, as que seriam deliberadamente produzidas por pessoas isoladas para fins específicos. Podem, por exemplo, acreditar que a existência da linguagem é explicada ao se assinalar sua função coletivamente de meio de comunicação entre as pessoas, ou que a dos Estados se explica ao se argumentar que sua finalidade  tenha como representação a manutenção da ordem, como se, no curso da história da humanidade, a linguagem ou a organização das pessoas sob a forma de Estados tivesse sido criada para essa finalidade específica,  por indivíduos isolados, como resultado do pensamento racional.

As origens de Brick foram as obsessões de Rian Johnson com os romances de Dashiell Hammett, reconhecido por romances policiais pesados, e Johnson queria fazer uma história de detetive norte-americana direta. Ele descobriu o trabalho de Hammett através de uma entrevista com os irmãos Coen sobre seu filme de gângster de 1990, Miller`s Crossing. Ele leu Red Harvest (1929) e depois passou para The Maltese Falcon (1930) e The Glass Key (1931), este último dos quais foi a principal influência para o filme dos Coen. Johnson cresceu assistindo a filmes de detetive e filmes noir. Ler os romances de Hammett o inspirou a fazer sua própria contribuição. Ele percebeu que isso resultaria em uma mera imitação e ambientou sua peça no ensino médio para manter as coisas frescas. Sobre o processo inicial de escrita, ele comentou: foi realmente incrível como todos os arquétipos daquele mundo policial deslizaram perfeitamente sobre os tipos do ensino médio. Ele também queria romper com as tradições visuais que vinham do gênero. Quando começou a fazer Brick, ele achou que era “muito sobre a experiência de ser um adolescente para mim”. Johnson afirmou que o filme não era autobiográfico. Johnson escreveu o rascunho em 1997 após se formar na Escola de Artes Cinematográficas da School of Cinematic Arts anteriormente. Ele passou os sete anos lançando seu roteiro, mas ninguém estava interessado, porque o material era incomum demais para ser feito por um diretor estreante. 

Johnson estimou a quantia mínima de dinheiro pela qual poderia fazer o filme e pediu apoio a amigos e familiares. Sua família trabalhava na indústria da construção e contribuiu o suficiente para encorajar outros a contribuírem. Depois que Johnson adquiriu cerca de US$ 450.000 para o orçamento do filme, Brick começou a produção em 2003. Embora o filme tenha sido rodado em 20 dias, Johnson passou bastante tempo refinando o roteiro e três meses ensaiando com o elenco. Ele viu Joseph Gordon-Levitt em Manic (2001), se encontrou com ele e sabia que queria escalar o jovem ator. Ele encorajou o elenco a ler Hammett, mas não a assistir a nenhum filme noir, porque não queria que eles influenciassem suas performances. Em vez disso, ele os fez assistir a comédias de Billy Wilder como The Apartment (1960) e His Girl Friday (1940). Ele estava inicialmente nervoso trabalhando com um elenco e equipe profissionais pela primeira vez, mas assim que começou a filmar, esse sentimento foi embora e ele teve uma boa experiência. Johnson filmou o filme em sua cidade natal, San Clemente, Califórnia, em filme de 35 mm. Grande parte do filme se passa na San Clemente High School, que ele estudou. Ele convocou alunos atuais para trabalhar no filme, filmando nos fins de semana. O diretor de fotografia era Steve Yedlin, um amigo da escola de cinema que estava envolvido no projeto desde que o roteiro foi escrito. Para as cenas da cabine telefônica, Johnson e sua equipe filmaram no subúrbio de San Clemente. A mesma placa para o cruzamento das ruas Sarmentoso e Camino del Rio ainda está de pé. No entanto, a cabine telefônica em si era apenas um acessório. 

O túnel de drenagem do filme fica localizado na mesma rua do campo de futebol da San Clemente High School e passa por baixo da rodovia, na saída do Pico. Johnson teve dificuldade em encontrar uma casa em ruínas para a base de operações do Pin. A produção encontrou uma casa adequada, mas teve apenas uma semana até que ela fosse demolida para ser reconstruída em seu terreno. O porão era um cenário que eles construíram, mas a cozinha e a sala de estar do Pin ainda existem na pousada Blarney Castle. Johnson também teve dificuldade em encontrar uma mansão para a cena da festa até que, faltando um dia para encontrar o local, um ex-executivo de telecomunicações e milionário excêntrico permitiu que filmassem em sua casa, que ainda estava em construção. A grande mansão estava lotada do chão ao teto com telefones públicos que datavam da década de 1950. Johnson citou os Spaghetti Westerns de Sergio Leone e Cowboy Bebop (1998) de Shinichiro Watanabe como influências em sua visualização do filme. 

Ele usou sapatos como um elemento de design para seus personagens e os viu como um instantâneo da essência dos personagens. Ele também afirmou que muitas das dicas visuais do filme foram tiradas do neo-noir Chinatown (1974) com seus espaços planos abertos. A maioria dos chamados efeitos especiais do filme foram produzidos de forma barata e eficiente usando efeitos práticos e na câmera. No início do filme, por exemplo, de Ravin caminha em direção à câmera saindo de um túnel enquanto um saco de lixo flutua rio abaixo e engole a câmera, fazendo a transição para Joseph Gordon-Levitt de volta ao quarto de seu personagem. Para conseguir isso, o efeito desejado foi filmado na ordem inversa. O saco de lixo começou sobre a câmera e foi puxado para longe durante a filmagem, enquanto de Ravin caminhava de costas para o túnel. Essa filmagem foi então cortada em uma cena em que um saco de lixo foi simplesmente puxado sobre a cabeça de Gordon-Levitt. Filmar um carro dirigindo lentamente em marcha ré e, em seguida, reproduzir a filmagem para trás em uma velocidade mais alta dá a ilusão de um carro se aproximando rapidamente enquanto a câmera dispara na frente dele com estilo.  Fades inteligentes dão a impressão de mudanças de tempo, enquanto cortes bruscos adicionam tensão a uma cena em que o protagonista acorda após desmaiar. Certas edições também foram introduzidas no filme para cronometrar a filmagem em diálogos diferentes, adicionando certas informações e deixando outras de fora. Essas edições são perceptíveis, eficazmente, pois as bocas dos atores em cena nem sempre se movem em sincronia com seus diálogos. Uma cena em particular, na qual o personagem de Ravin flutuou em direção à câmera, usou uma tela verde, mas foi editada fora do filme antes de sua conclusão a película. O corte original do filme durou mais de duas horas, embora tenha sido editado para 117 minutos para o Festival de Cinema de Sundance. 

Outros 7 minutos foram cortados antes do lançamento nos cinemas, incluindo uma cena das costas nuas de Zehetner enquanto ela colocava a blusa de volta depois que ela e o personagem de Gordon-Levitt fizeram sexo. De acordo com uma postagem de Johnson em seus próprios fóruns, ele sentiu que a própria nudez parecia errada no contexto do filme e que preferia deixar o grau de intimidade ambíguo, embora ocasionalmente se pegasse questionando essa decisão. A trilha sonora de Brick foi composta pelo primo de Johnson, Nathan Johnson, com apoio adicional e música do The Cinematic Underground. A trilha sonora remonta ao estilo, sensação e textura geral dos filmes noir. Ela apresenta instrumentos tradicionais como piano, trompete e violino, e também contém instrumentos únicos e inventados como o wine-o-phone, metalofone, pianos de pregos, armários de arquivo e utensílios de cozinha, todos gravados com um microfone em um Apple PowerBook. Como Nathan Johnson estava na Inglaterra durante a maior parte do processo de produção, a trilha sonora foi composta quase inteiramente no Apple iChat, com Rian tocando clipes do filme para Nathan, que então os compunha. Os dois se encontraram na cidade de Nova York para mixar a trilha sonora. O compact disk (CD) da trilha sonora do filme foi lançado mundialmente em 12 de março de 2006 pela Lakeshore Records. Além da trilha sonora de Johnson contém canções de The Velvet Undergrounduma banda de rock americana formada em Nova Iorque em 1964, considerada por muitos a primeira banda de rock alternativo. Anton Karas e Kay Armen, bem como a versão big band de Frankie and Johnny interpretada por Bunny Berigan e uma performance completa e não editada de The sun whose rays are all ablaze por Nora Zehetner. Johnson confirmou que vários elementos do filme foram influenciados pelo criador de Twin Peaks, David Lynch. 

O lançamento em DVD da Região 1 de Brick ocorreu em 8 de agosto de 2006, como parte da série Focus Features Spotlight. Os recursos especiais incluem: seleção de cenas deletadas e estendidas com introduções de Johnson; cenas de audição com Nora Zehetner e Noah Segan; e comentários em áudio com Rian Johnson, Nora Zehetner, Noah Segan, o produtor Ram Bergman, a designer de produção Jodie Tillen e a figurinista Michele Posch. O Blu-ray de Brick foi lançado em 7 de janeiro de 2020, pela Kino Lorber , que foi supervisionada por Johnson e Yedlin. O lançamento estava previsto para 7 de maio de 2019. Brick estreou nos Estados Unidos em 7 de abril de 2006, em dois cinemas. Estreou para o público do Reino Unido em 12 de maio de 2006, em um número limitado de telas. De acordo com os comentários do DVD, o filme custou US$ 450.000. O filme arrecadou US$ 2,07 milhões na América do Norte e um total de US$ 3,9 milhões em todo o mundo. Brick tem uma taxa de aprovação de 80% no Rotten Tomatoes com base em 143 avaliações e uma pontuação média de 7,10/10. O consenso afirma: “Esta divertida homenagem ao passado noir foi habilmente e convincentemente atualizada para um cenário de Ensino Médio contemporâneo”, e, portanto, classificado em 35º lugar na lista da Entertainment Weekly dos “50 Melhores Filmes de Ensino Médio”. Com base estatisticamente em 34 avaliações críticas, o Metacritic deu-lhe uma pontuação média de 72 de 100, indicando avaliações “geralmente favoráveis”. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, deu ao filme três de quatro estrelas, afirmando: “[Funciona] no sentido em que os clássicos noirs de Hollywood funcionaram: a história nunca é clara enquanto se desenrola, mas fornece uma rica fonte de diálogos, comportamentos e incidentes”. A única falha séria do filme, pensou Ebert, era que os personagens não eram totalmente críveis e, portanto, era difícil se importar com o resultado dos eventos para os personagens. Peter Travers, da Rolling Stone, também deu ao filme uma crítica positiva, explicando: “Uma paródia teria sido fácil. Em vez disso, Johnson mergulha fundo, arriscando o ridículo ao moldar este fascinante com coragem e seriedade”. 

Stephen Holden, do The New York Times, comentou: “O Sr. Haas e o Sr. Gordon-Levitt pelo menos conseguem evocar os contornos de seus personagens. Mas a dependência desajeitada do filme em termos de época não só desgasta, como também mantém os personagens, tais como são, a uma distância fria”. Brick está na 489ª posição na lista de 2008 da revista Empire dos 500 maiores filmes de todos os tempos. E, com frequência, ao serem confrontados com fenômenos sociais que obviamente não podem ser explicados por esse modelo, e caso da evolução dos estilos artísticos ou do processo civilizador, seu pensamento estanca, sem fazer perguntas. Opostamente é amiúde tratada com desdém.  A Guerra do Golfo Pérsico representou geopoliticamente uma das maiores campanhas militares da história da tecnologia, com uma enorme mobilização de recursos humanos e materiais em um curto espaço de tempo, introduzindo no campo de batalha diversos novos meios bélicos e tecnologias sofisticadas de ponta, para a época. Novos vocábulos foram adicionados ao léxico global, como aviões Stealth (1991) e bombas inteligentes. Este conflito também foi um dos primeiros a ser demonstrado ao vivo das linhas de frente, com transmissão via satélite, catapultando à notoriedade a rede de televisão CNN e o formato de “jornalismo 24 horas”. É uma guerra de cinco semanas de intenso bombardeio aéreo por parte da Coalizão de 17 de janeiro até 24 de fevereiro, seguido por menos de 100 horas de campanha terrestre que resultou na rápida expulsão das forças iraquianas do Kuwait. No final das contas, os aliados da Coalizão conseguiram uma avassaladora vitória, libertando o Kuwait, enquanto infligiam pesadas baixas nos iraquianos, embora suas próprias perdas tenham sido mínimas. Em 28 de fevereiro, a Coalizão internacional declarou que seus objetivos foram completados com a libertação do território kuwaitiano e a retirada das tropas de Saddam, firmando um cessar-fogo e encerrando as hostilidades.        

No decorrer da guerra, os combates se restringiram a apenas o Iraque, Kuwait e a regiões de fronteira saudita. A Cable News Network foi inaugurada às 5:00 da tarde Hora do Leste em 1° de junho de 1980. Após uma introdução de Ted Turner, a equipe de marido e mulher de David Walker e Lois Hart ancorou o primeiro noticiário do canal. Burt Reinhardt, vice-presidente executivo da CNN em lançamento, contratou a os 200 primeiros funcionários do canal, incluindo o primeiro âncora da rede, Bernard Shaw. Desde o seu lançamento, a CNN expandiu seu alcance para vários fornecedores de televisão a cabo e por satélite, vários sites e canais especializados de circuito fechado como o CNN Airport. A empresa possui 42 agências com 11 nacionais, 31 internacionais, mais de 900 estações locais afiliadas que também recebem conteúdo e recursos por meio do serviço de notícias em vídeo CNN Newsource, e várias redes regionais e de idiomas estrangeiros em todo o mundo. O sucesso do canal transformou o fundador Ted Turner em um legítimo magnata, e preparou o terreno para a eventual aquisição pelo conglomerado Time Warner do Turner Broadcasting System em 1996.

A primeira Guerra do Golfo Pérsico em 1991 foi um divisor de águas para a CNN que catapultou o canal pelas três grandes redes norte-americanas pela primeira vez em sua história social e de tecnologia, em grande parte devido a uma informação histórica e sem precedentes: a CNN era a única fonte de notícias com a capacidade de se comunicar de dentro do Iraque durante as primeiras horas da campanha de bombardeio da Coalizão, com reportagens ao vivo do hotel al-Rashid em Bagdá pelos repórteres Bernard Shaw, John Holliman e Peter Arnett. O momento em que o bombardeio começou foi anunciado na CNN, a segunda rede de televisão a noticiar o caso atrás, por segundos, da rede TV Globo, por Shaw em 16 de janeiro de 1991, como segue: - Este é Bernie Shaw. Algo está acontecendo lá fora. Peter Arnett, junte-se a mim aqui. Vamos descrever aos nossos espectadores o que estamos vendo. Os céus de Bagdá foram extraordinariamente iluminados. Estamos vendo flashes brilhantes disparando por todo infinito firmamento. Incapaz de transmitir cenas ao vivo de Bagdá, a cobertura das horas iniciais da Guerra do Golfo da CNN tinha a sensação dramática de uma transmissão de rádio - e foi comparada aos lendários e emocionantes relatos de Edward R. Murrow, âncora da CBS, em rádio ao vivo do bombardeio nazista de Londres durante a 2ª guerra mundial (1939-1945). Apesar da falta de imagens ao vivo, a cobertura foi transmitida por estações de televisão e redes em todo o mundo, resultando na CNN sendo assistida por mais de um bilhão de telespectadores em todo o mundo. 

A experiência da Guerra do Golfo trouxe à CNN certa legitimidade e transformou nomes familiares de repórteres anteriormente obscuros. Shaw, conhecido por sua reportagem ao vivo de Bagdá durante a Guerra do Golfo, tornou-se o principal âncora da CNN até sua aposentadoria em 2001. A cobertura inicialmente da Primeira Guerra do Golfo e de outras crises do início dos anos 1990, particularmente a infame Batalha de Mogadíscio levou as autoridades do Pentágono a cunhar ideologicamente o termo “efeito CNN” para descrever o impacto social e político percebido da cobertura de notícias em tempo real nos processos de tomada de decisão do governo estadunidense. A CNN foi o primeiro canal de notícias a cabo a divulgar os ataques de 11 de setembro de 2001. A âncora Carol Lin estava no ar para entregar o primeiro relato público do evento. Ela entrou às 8:49 da manhã, horário da costa leste, e disse: - Acabou de acontecer. Você está vendo obviamente uma cena ao vivo muito perturbadora. Esse é o World Trade Center e temos relatos não confirmados nesta manhã de que um avião colidiu com uma das torres do World Trade CenterO CNN Center está apenas começando a trabalhar cinematograficamente nesta história, chamando nossas fontes e tentando descobrir exatamente o que aconteceu, mas claramente algo relativamente devastador está acontecendo nesta manhã no extremo sul da ilha de Manhattan. 

Mais uma vez, uma cena de uma das torres do World Trade Center. Sean Murtagh, vice-presidente de finanças e administração da CNN, foi o primeiro funcionário da “rede no ar”. Ele ligou para o CNN Center de seu escritório no escritório da CNN em Nova York e informou que um jato comercial atingiu o Trade Center. Daryn Kagan e Leon Harris estavam no ar pouco depois das 9:00, quando o segundo avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center (WWW) e, por meio de uma entrevista com o correspondente da CNN, David Ensor, informou a notícia de que autoridades estadunidenses determinaram “que este é um ato terrorista”. Mais tarde, Aaron Brown e Judy Woodruff “ancoraram” dia e noite enquanto os ataques se desenrolavam, ganhando o prêmio Edward R. Murrow pela rede. Antes da eleição presidencial de 2008 nos Estados Unidos da América, a CNN dedicou grande parte de sua cobertura à política, incluindo a realização de debates de candidatos durante as temporadas primárias democrata e republicana. Em 3 e 5 de junho de 2007, a CNN se uniu ao Saint Anselm College para patrocinar os debates republicanos e democratas de New Hampshire. Mais tarde durante aquele ano, o canal sediou os primeiros debates presidenciais da CNN no YouTube, um formato “não tradicional em que os espectadores eram convidados a enviar previamente perguntas”. Em 2008, a CNN fez uma parceria com o Los Angeles Times para sediar dois debates políticos principais que antecederam a cobertura da chamada Super Terça-FeiraNos Estados Unidos, “Super Terça” (Super Tuesday) refere-se ao dia que costuma ser em fevereiro ou março, em anos de eleições presidenciais. 

É o dia em que um grande número de estados tem eleições primárias, e o dia em que se elege o maior número de delegados; portanto, é um dia em que realizam eleições muito decisivas nas escolhas dos candidatos de um ou dos dois partidos. Em alguns estados fazem-se eleições primárias, votando-se diretamente em algum delegado; em outros realizam-se cáucus. No primeiro caso podem votar eleitores independentes, os quais só podem participar na votação de um partido; no segundo caso, só participam os militantes. Historicamente a denominação de “super terça” é usada pelo menos desde 1984 quando Walter Mondale foi eleito pelos democratas para enfrentar o presidente Ronald Reagan. Em 1988, Michael Dukakis impôs-se ao reverendo Jesse Jackson e ao jovem senador pelo Tennessee Al Gore. Em 1992, depois do fiasco de Dukakis nas presidenciais, surgiu o governador do Arkansas Bill Clinton, que derrotou o antigo senador pelo Massachussets Paul Tsongas. Em 1996 foi o campo republicano que teve que eleger candidato, e foi o senador pelo Kansas Bob Dole, que teve como maior rival o populista Pat Buchanan. Em 2000, com ambos os partidos à procura de candidatos à Casa Branca, George Walker Bush venceu o senador pelo Arizona John McCain, e o vice-presidente Gore não teve problemas, apesar de no início o desfecho ser indeciso, para derrotar o ex-jogador dos New York Knicks, Bill Bradley. Em 2004 o candidato democrata foi John Kerry, que teve que derrotar John Edwards, governador do Vermont Howard Dean e o general reformado Wesley Clark. 

Em 2008 John McCain vence Mitt Romney e Mike Huckabee no campo republicano e o campo democrata teve uma acirrada disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama. Em 2012 Mitt Romney vence 6 estados, Rick Santorum 3, Newt Gingrich 1 e Ron Paul nenhum. Houve um total de 410 delegados (17,9% do total), com escolha nos estados da Geórgia (76), Idaho (32), Massachusetts (41), North Dakota (28), Ohio (66), Oklahoma (43), Tennessee (58), Vermont (17) e Virgínia (49), bem com os caucus do Alasca entre 6 e 24 de março. Em 2016 Donald Trump vence em 7 estados, Ted Cruz 3, Marco Rubio 1, Ben Carson nenhum e John Kasich nenhum também. O debate da CNN e a cobertura da noite das eleições levaram às suas audiências mais altas do ano, com uma média 1,1 milhão de espectadores consumidores em janeiro de 2008, um aumento de 41% em relação ao ano anterior. O início do ataque, que incluiu um intenso bombardeio de alvos em Bagdá, forças norte-americanas rapidamente entraram no Sul do Iraque, cruzando a fronteira com o Kuwait, e seguiram em direção à capital. Os britânicos usaram a mesma rota de entrada, mas permaneceram no Sul do país, onde assumiriam o controle da cidade portuária de Basra, mais importante do Iraque. Sem a participação de uma coalizão ampla, a invasão contou também com pequenos contingentes da Austrália e da Polônia. Outros países que apoiaram a guerra, como Espanha, Itália e Ucrânia, enviariam tropas depois de iniciada a ocupação. 

Menos de um mês depois do início da guerra, os americanos tomaram Bagdá, declarando ter controle da capital em 14 de abril. Outras cidades importantes, como Tikrit, Falluja e Ramadi, na região central, e Kirkut, no Curdistão (Norte), foram tomadas pelas forças de ocupação. Saddam Hussein, no entanto, não foi encontrado. Em 1º de maio de 2003, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, o presidente George W. Bush fez um discurso em que declarou que, “na batalha do Iraque, os Estados Unidos e nossos aliados prevaleceram”. Atrás dele, uma faixa dizia “Missão Cumprida”. Até então, a guerra já impusera um enorme custo humano ao Iraque. Levantamento do instituto americano Project on Defence Alternatives, divulgado em outubro de 2003, estimou que entre 10.800 e 15.100 iraquianos foram mortos nas semanas da invasão, entre 3.200 e 4.300 eram civis. Com a queda do regime, começou a ocupação. Em 12 de maio, aterrissava em Bagdá o novo “administrador do Iraque”, o norte-americano Paul Bremer. No dia da chegada ao país, a BBC News noticiou: - Vários bairros de Bagdá ainda estão sem eletricidade e água corrente, lixo se acumula nas ruas, e muitos comerciantes têm medo de reabrir seus negócios por causa de saqueadores”. A administração do país era conduzida a partir de uma área, no centro da capital, protegida e isolada do resto da cidade. Era reconhecida como Zona Verde. O Iraque tentou atrair Israel para a guerra ao lançar mísseis Scud contra o seu território, com objetivo tentar causar uma cisão entre as potências ocidentais e seus aliados árabes.  

A decisão de Saddam Hussein (1937-2006) de invadir o Kuwait foi essencialmente uma tentativa de lidar com “a contínua vulnerabilidade da sua economia e o seu consequente impacto nas finanças públicas”. Ao fim da Guerra Irã-Iraque, em agosto de 1988, a economia iraquiana estava de fato à beira do colapso e também internamente havia tensões sectárias pelo país. Os maiores credores da dívida da nação eram a Arábia Saudita e o Kuwait. O governo do Iraque tentou fazer com que estes países perdoassem parte do débito, mas eles se recusaram. Além da questão econômica, o conflito entre o Iraque e Kuwait também acontecia por disputas territoriais. O Kuwait era parte da província de Baçorá na época da dominação do Império Otomano, que passou a ser reivindicado como território iraquiano. A família real kuwaitiana havia concluído um acordo de protetorado com o Reino Unido em 1899, deixando assim a responsabilidade aos britânicos de cuidar da política externa do país. A fronteira entre as duas nações foi desenhada então pelos ingleses em 1922. Do ponto de vista geopolítico a criação de um Kuwait independente tirou a única saída para o mar que o Iraque detinha. Os kuwaitianos rejeitaram tentativas dos iraquianos de tentar manter provisões no país. O governo de Saddam Hussein (1979-2003), logo após o conflito bélico com o Irã, começou a acusar o Kuwait de extrapolar as cotas de controle de mercado da OPEP de exportação de petróleo. O cartel na época queria manter o preço da commodity a US$ 18 dólares por barril e disciplina era necessária. Os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait estavam produzindo acima do esperado. 

O resultado do excesso de produção foi uma redução no preço do barril para apenas US$ 10, o que representava uma perda de US$ 7 bilhões anuais ao Iraque, que era quase o exato valor do pagamento para balancear o déficit em 1989. Os gastos públicos e os planos para reconstruir a infraestrutura interna do país acabaram se saindo debilitados, o que fez com que a economia iraquiana entrasse em forte recessão. A Jordânia e o Iraque tentavam manter a disciplina nos preços, mas com pouco sucesso merceológico. O governo iraquiano acusou os kuwaitianos de fazer “guerra econômica”. O Kuwait também foi acusado de fazer perfurações subterrâneas próximas a fronteira com o Iraque, em amplos territórios sob disputa. A guerra do Iraque também teve grande impacto político no Reino Unido. Parceiro de George W. Bush na invasão e ocupação do Iraque, o premiê Tony Blair foi acusado por muitos de ter mentido sobre as verdadeiras razões para a guerra. Em julho de 2003, uma polêmica reportagem de rádio da BBC sugeria que um Relatório de Inteligência sobre as supostas “armas de destruição em massa” iraquianas havia sido produzido sob influência política-ideológica do governo, que negava a acusação. 

Após ser exposto pela imprensa como a fonte da reportagem, o cientista David Kelly, especialista em guerra biológica a serviço do ministério de Defesa britânico, se suicidou. Apesar da queda de popularidade que o episódio e a guerra lhe causaram, em maio de 2005 Tony Blair foi reeleito para um terceiro mandato como primeiro-ministro. A Guerra do Iraque, entretanto, continuaria a assombrar os britânicos. Em julho de 2005, quatro britânicos muçulmanos provocaram quatro explosões suicidas na capital, Londres - três delas em trens do metrô e uma em um ônibus. Além dos quatro suicidas, 52 pessoas foram mortas, e cerca de 800 ficaram feridas. Duas semanas depois, houve uma tentativa frustrada de novos ataques, em que bombas colocadas no metrô não explodiram. Com o país em estado de alerta máximo, o brasileiro Jean Charles de Menezes foi confundido com um suspeito pela polícia londrina e morto a tiros por policiais dentro de um vagão do metrô. A rede Al-Qaeda indicou ter ligação com os ataques, e um dos suicidas gravara um vídeo dizendo que eles eram vingança contra bombardeios de países muçulmanos. Mas o premiê Tony Blair negava que a invasão do Iraque tivesse levado aos atentados.

Em junho de 2007, após dez anos como primeiro-ministro, Blair renunciou ao cargo, entregue a seu colega de partido e ministro da Economia, Gordon Brown. Na avaliação, se não fosse pela perda de popularidade causada pela Guerra do Iraque, Blair poderia ter ficado ainda mais tempo no poder. Saddam Hussein foi detido pelas forças de ocupação em dezembro de 2003, num esconderijo subterrâneo próximo a Tikrit, sua região natal. Ele foi entregue às autoridades locais para ser julgado por inúmeros crimes que cometeu contra a população iraquiana enquanto estava no poder, processo iniciado no segundo semestre de 2004. No julgamento político, cujas sessões eram transmitidas ao vivo pela televisão à população, o ex-ditador do país questionou o processo. Ao lado de outros integrantes do regime, disse que seu julgamento era ilegítimo e que os juízes iraquianos estavam sendo manipulados pelas forças de ocupação. Após ser declarado culpado, ele foi condenado à morte. Em 30 de dezembro de 2006, Saddam foi executado por enforcamento, numa cena gravada em vídeo e exibida no mundo todo. Sua morte, no entanto, assim como sua captura três anos antes, não resultou em avanços na situação de segurança. No início de 2007, o conflito sectário bélico no Iraque vivia seus piores momentos da guerra de guerrilha, com uma série de atentados a bomba - muitos suicidas, vários usando carros-bomba -, geralmente matando dezenas de civis, especialmente em Bagdá. Mercados da comunidade xiita foram alvos de ataques, organizados pelo grupo Al-Qaeda no Iraque.

Milícias xiitas, por sua vez, realizavam sequestros e assassinatos de membros da população sunita. Em Washington, Robert Gates assumiu o lugar de Rumsfeld como secretário de Defesa. O resultado das eleições de novembro de 2006 significava que os norte-americanos pediam o fim da guerra, mas o governo concluiu que precisava, primeiro, reduzir os níveis de violência. Como? O caminho escolhido pelo governo Bush foi o envio de 30 mil soldados adicionais, a maioria para Bagdá e região, o que ganhou o nome de “surge”, mas em português, “escalada”. Com o reforço, o tamanho do efetivo norte-americano voltou aos níveis da invasão de 2003, cerca de 150 mil soldados - e 2007 foi “um dos mais sangrentos períodos da guerra”. Segundo o Brookings Institute, foi o ano com o maior número de soldados americanos mortos durante a ocupação: 904. O de britânicos mortos atingiu 47, próximo dos 53 de 2003. O número de civis iraquianos que perderam a vida, 26.112, só ficou abaixo dos 29.526 de 2006. Até o número de jornalistas mortos no Iraque foi o mais alto em 2007, um total de 32 vítimas, igualando o recorde do ano anterior. Em 2008 a violência começou a diminuir significativamente, com menos da metade de soldados americanos e civis iraquianos mortos. Também em 2008, nos Estados Unidos da América, os eleitores foram às urnas, dessa vez para escolher o sucessor de George W. Bush. Desgastado pelos anos de guerra no Iraque, o Partido Republicano foi tirado do poder. O senador Barack Obama, oportunista, tornou-se o primeiro negro em Washington a ocupar a presidência na Casa Branca. Aparentemente crítico da Guerra prometera que colocaria fim no conflito. A primeira medida foi a manutenção de Robert Gates no cargo.

Com a continuidade da mesma equipe no Departamento de Defesa, os Estados Unidos, juntamente com o governo iraquiano, conseguiram deixar o país menos instável. As mortes, tanto de civis como de combatentes, caíram significativamente, especialmente a partir de 2009. Em abril daquele ano, os últimos soldados britânicos saíram do Iraque. Em 2010, os Estados Unidos encerraram sua participação em operações de combate, deixando apenas cerca de 50 mil soldados no país. No dia 18 de dezembro de 2011, veio o esperado momento. Quase nove anos depois da invasão liderada pelos Estados Unidos da América, a agência Reuters noticiava: - “Últimas tropas dos EUA deixam o Iraque, terminando a guerra”. Apenas cerca de 150 soldados americanos ficaram no país, em funções de treinamento das forças locais. Com um saldo de 120 mil civis iraquianos, 4.431 americanos, 179 britânicos mortos e um país parcialmente destruído, chegava ao fim o conflito cujo maior motivo não existia - e que a Reuters chamou de “a guerra mais impopular desde o Vietnã”. O total de vidas perdidas foi estimado em pelo menos 200 mil, e o custo para os cofres norte-americanos em pelo menos US$ 800 bilhões. Para o Iraque, o processo de pacificação - tanto de suas cidades como da política - seria lento e de resultado incerto. As lideranças xiitas haviam consolidado seu poder, mas parte dessa autoridade precisava ser compartilhada com curdos e sunitas, segundo a Constituição - convivência rara tranquila. Militantes sunitas islamistas continuavam em operação e, voltariam a ameaçar o país sob a bandeira do Estado Islâmico, mas o Iraque culturalmente continuaria per se em guerra.      

Brick tem como representação social um filme de suspense e mistério norte-americano de 2005, escrito, editado e dirigido por Rian Johnson em sua estreia na direção, estrelado por Joseph Gordon-Levitt. Brick foi distribuído pela Focus Features em Nova York e Los Angeles em 7 de abril de 2006. A narrativa do filme centra-se em uma história policial hardboiled ambientada em um subúrbio da Califórnia. A maioria dos personagens principais são estudantes do Ensino Médio. O filme se baseia extraordinariamente em enredo, caracterização social e diálogo de clássicos hardboiled, especialmente aqueles de Dashiell Hammett (1894-1961), considerado o pai do romance policial americano, um dos precursores da literatura noir. O título se refere a um bloco de heroína, comprimido ao tamanho e formato de um tijolo comum. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri de Originalidade de Visão no Festival de Cinema de Sundance de 2005, e recebeu críticas positivas da cinematografia. Ele passou a ser considerado um clássico cult. Os clássicos do literário hardboiled incluem obras como O Falcão Maltês de Dashiell Hammett, A Grande Soneca e Adeus, Minha Amada de Raymond Chandler, e O Carteiro Sempre Toca Duas Vezes de James M. Cain. 

O gênero originou-se nos anos 1920, popularizando-se na década de 1930 e 1950, apresentando detetives mais falhos e emocionalmente envolvidos em tramas sombrias e urbanas, com uma interpretação mais realista e cínica. Dashiell Hammett nasceu no Condado de Saint Mary`s, Maryland, em 27 de maio de 1894. Frequentou a escola de Baltimore para onde a família se tinha mudado, mas aos 14 anos teve de começar a trabalhar para ajudar a sustentar a família. Cresceu na Filadélfia e Baltimore. Abandonou a escola com quatorze anos e passou a trabalhar como mensageiro, entregador de jornal, escriturário, apontador de mão-de-obra e estivador, entre outros empregos. Aos 20 anos, foi trabalhar na Agência Pinkerton de detetives. Em 1918, alistou-se tout court no Corpo de Ambulâncias do Exército. Depois da guerra, com tuberculose, vagou de sanatório em sanatório e voltou à agência Pinkerton, demitindo-se em seguida para se dedicar à literatura. Bebia muito. Suas histórias começaram a ser publicadas em revistas baratas e populares como Black Mask e Smart Set. Imediatamente suas histórias sociais chamaram a atenção do público e da crítica, e ele foi reconhecido como “um grande escritor, responsável por uma renovação historiográfica no gênero policial”.  Autor de livros de sucesso, como: Seara Vermelha (1929), O falcão maltês (1930) – sucesso também no cinema, dirigido por John Huston –, A chave de vidro (1930); Mulher no escuro (1933) e Continental OP (1945), e de uma infinidade de contos, trabalhou regularmente para o cinema em Hollywood. Na década de 1930, conheceu a escritora Lillian Hellman (1905-1984), a quem esteve ligado até a morte.

Durante a II Guerra (1939-1945), serviu novamente como sargento do exército. Homem de esquerda simpatizante do Communist Party USA, foi vítima da “caça às bruxas” promovida pelo senador fascista Joseph McCarthy (1908-1957) no início da década de 1950. Recusando-se a colaborar com a comissão que investigava atividades supostamente “subversivas na indústria cinematográfica”, foi preso e incluído na lista negra, na falta de melhor expressão, que impedia os artistas de trabalharem na indústria cinematográfica. Amargurado e doente morreu a 10 de janeiro de 1961, em Nova York. Samuel Dashiell Hammett começou a escrever no fim da década de 1920. Macarthismo é um termo ideológico que se refere à prática de acusar alguém de subversão ou de traição. O termo tem suas origens no período da História dos Estados Unidos reconhecido como “segunda ameaça vermelha”, que durou de 1950 a 1957 e foi caracterizado por uma acentuada repressão política aos comunistas, assim como por uma campanha de medo à influência deles nas instituições estadunidenses e à espionagem por agentes da União Soviética. Foi utilizado para descrever a patrulha anticomunista promovida pelo Senador republicano Joseph McCarthy, do Wisconsin, um estado no centro-oeste dos Estados Unidos América com costas banhadas por 2 dos Grandes Lagos e um interior de florestas e fazendas.  

Milwaukee, a maior cidade, é reconhecida pelo Milwaukee Public Museum, com vários vilarejos internacionais recriados, e pelo Harley-Davidson Museum, que exibe motocicletas clássicas. O termo logo adquiriu um significado per se mais extenso, sendo utilizado hoje para descrever o excesso de iniciativas similares. Também é utilizado para descrever acusações imprudentes e logicamente pouco fundamentadas, assim como ataques demagógicos ao caráter ou ao senso de patriotismo de adversários políticos. Durante o macarthismo, milhares de norte-americanos foram acusados de serem comunistas ou simpatizantes e tornaram-se objetos de agressivas investigações policiais e de inquéritos abertos pelo governo ou por indústrias privadas. O principal alvo das suspeitas foram funcionários públicos, trabalhadores da indústria do entretenimento, educadores e sindicalistas. As suspeitas eram frequentemente dadas como certas mesmas se fossem baseadas em evidências inconclusivas e questionáveis e se o nível de ameaça representado pela real ou suposta afiliação do indivíduo a ideias ou associações de esquerda fosse exagerado. A maioria das punições foram baseadas em julgamentos que mais tarde foram anulados, leis que foram declaradas inconstitucionais, demissões por justa causa que foram declaradas ilegais ou contestáveis e procedimentos extrajudiciais que entrariam em descrédito geral na dinâmica histórica do próprio futuro.

Os exemplos mais notáveis do macarthismo incluem a produção dos discursos, as investigações e os inquéritos do próprio Senador McCarthy; a Lista Negra de Hollywood, com as investigações conduzidas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC); e as diversas atividades anticomunistas do FBI sob a direção de J. Edgar Hoover. O macarthismo foi um amplo fenômeno sociocultural que afetou a sociedade dos Estados Unidos da América em todos os níveis e gerou uma grande quantidade de debate e conflito interno naquele país. Muitos filmes foram produzidos sobre este período, retratando McCarthy e seguidores como figuras desprezíveis e a história como uma crise que foi superada. Dentre estes destaca-se Boa Noite e Boa Sorte dirigido por George Clooney e estrelado por David Strathairn, no papel do jornalista Edward R. Murrow. O filme narra os embates entre o jornalista e o Senador McCarthy, durante os anos 1950, que contribuíram na decadência do senador. Um herói de ação imagética ou heroína de ação tem como representação social o protagonista de um filme de ação ou outra forma de entretenimento que retrata pontualmente a ação, aventura e, muitas vezes, violência simbólica. Outras mídias em que tais heróis aparecem incluem tradicionalmente filmes consagrados de capa & espada, de faroeste, rádio antigo, romances de aventura, romances baratos, revistas populares e folclore. A origem do herói de ação está no imperialismo com histórias escritas principalmente para meninos, para se imaginarem como homens em viagens e vivenciando uma ação emocionante.    

A palavra imperialismo surge a partir da palavra imperium em latim, e significa poder supremo. Seu significado atual surge no Reino Unido na década de 1870 e foi usado com uma conotação negativa. Na Grã-Bretanha, a palavra tinha sido usada para se referir à política de Napoleão III (1808-1873) de obtenção de opinião pública favorável na França, comparativamente, através de intervenções militares fora do país. Shawn Shimpach escreveu: “Os jovens homens brancos que eram (ou se tornaram) os sujeitos engrandecidos dessas histórias motivaram as narrativas por meio de sua propensão à ação e resolveram conflitos por meio da violência informada por coragem, inteligência e habilidade inata, garantindo, em cada história, o futuro do mundo pelo qual eles eram responsáveis e no processo de confirmação de sua identidade masculina”. No início do século XX, essa narrativa foi comercializada e as histórias foram “prontamente adaptadas” para o cinema. Um dos primeiros atores dos heróis de ação foi Douglas Fairbanks. No Chicago Tribune, Donald Liebenson escreveu: “Douglas Fairbanks foi o primeiro grande herói de ação de Hollywood, mais reconhecido pelas fantasias épicas que o estabeleceram como o espadachim mais arrojado da tela”. Um dos personagens do heroísmo de ação definidores interpretado por Fairbanks foi Zorro, que Michael Sragow chamou de “a figura de ação mais influente da história do cinema e o guerreiro do cinema mais feliz de todos os tempos”. 

Fairbanks foi seguido por Errol Flynn (1909-1959), o qual alcançou a fama e espetacularidade como Robin Hood no filme de 1938, As Aventuras de Robin Hood. Em meados do século XX, “o gênero de ação era previsivelmente povoado por heróis galantes e atraentes vivendo aventuras emocionantes e exóticas, sem impedimentos (se claramente alinhados a) fronteiras nacionais, culturais ou estaduais”. Quando a televisão se tornou comum, programas que apresentavam “heróis de ação” incluíam Adventures of Superman (1952–1958), The Avengers (1961–1969), The Saint (1962–1969), The Man from UNCLE (1964–1968), Batman (1966–1969) e Mission Impossível (1966–1973). Shawn Shimpach disse que “ofereceram homens brancos extraordinários (embora nem sempre completamente sérios) que resolveriam conflitos por meio de ação direta e violência, enquanto exibiam seu domínio sem esforço dos espaços urbanos, novas tecnologias, moda e seus próprios corpos”. O sucesso dos Commandos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial levou o presidente Franklin D. Roosevelt (1882-1945), a autorizar a criação de um serviço de inteligência modelado após o Secret Intelligence Service (MI6), e Special Operations Executive. O que levou à criação do Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), estabelecido por uma ordem militar emitida pelo presidente Roosevelt em 13 de junho de 1942. Em 20 de setembro de 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, Harry S. Truman assinou uma ordem executiva dissolvendo o OSS e, em outubro de 1945, suas funções foram divididas entre os Departamentos de Estado e de Guerra. A divisão durou apenas alguns meses. Os fármacos de liberação controlada ou nanofármacos são macromoléculas nanométricas, capazes de armazenar em seu interior princípios ativos ou outras moléculas capazes de desenvolver uma resposta farmacológica, que funcionam como vetores capazes de efetuar o transporte pelo organismo e controlar a taxa de liberação e até mesmo fazer com que o fármaco seja liberado no ambiente fisiológico adequado, para que a liberação do composto específico possa ocorrer de maneira correta. 

Estas macromoléculas também podem ter sua parte exterior preparada para que sua dissolução, fator que permitirá a liberação do fármaco, ocorra apenas em tecidos-alvo específicos, minimizando os efeitos colaterais da droga utilizada. Por fim, as dimensões nanométricas das moléculas-gaiola podem levar inclusive à preparação de medicamentos capazes de vencer a barreira hematoencefálica, levando ao desenvolvimento de uma nova geração de fármacos específicos para o tratamento de patologias que causam danos cerebrais, seja causando alterações bioquímicas ou teciduais. Devido a isto este tipo de tecnologia possui um potencial enorme para a liberação de fármacos neoplásicos, pois a mesma é capaz de gerar a liberação de fármacos apenas em tecidos específicos diminuindo o dano sofrido pelos tecidos saudáveis do corpo. Um dos tipos de nanotecnologia utilizada na indústria farmacêutica são as nanopartículas poliméricas, que é um termo que quando aplicado à liberação de fármacos se refere a dois tipos de estruturas diferentes: as nanoesferas e as nanocápsulas. As nanocápsulas, por serem constituídas por um invólucro polimérico disposto ao redor de um núcleo oleoso, permitem que o fármaco esteja dissolvido neste núcleo e/ou adsorvido à parede polimérica. No entanto, as nanoesferas, por não apresentarem óleo em sua composição, são formadas por uma matriz polimérica em que o fármaco pode ficar retido ou adsorvido. Nanopartículas podem ser obtidas através de diversos métodos, que podem ser classificados em: polimerização interfacial de monômeros dispersos ou dispersos de polímeros pré-formados, no entanto, as nanocápsulas podem ser obtidas através do método da emulsificação de fusão, que foi destacada por Schaffazick como sendo uma das áreas mais promissoras na utilização das nanopartículas, pois a vetorização de fármacos anticancerígenos e de antibióticos, principalmente através de administração parenteral, permite uma distribuição mais seletiva dos mesmos e, assim, é capaz de gerar  um aumento do índice terapêutico.

Bibliografia Geral Consultada.

ELIAS, Norbert, A Sociedade dos Indivíduos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1994; FACION, José Raimundo, Transtornos do Desenvolvimento e do Comportamento. 3ª edição. Rev. Atual. Curitiba: Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, 2007; CAMPOS, Haroldo de, Deus e o Diabo no Fausto de Goethe. São Paulo: Editora Perspectiva, 2008; BERMAN, Marshall, Tutto ciò che è solido svanisce nell'aria. L`esperienza della modernità. Traduttore V. Lalli. Bologna: Editore Il Mulino, 2012; ABREU, Cleto Junior Pinto de, A Sociologia da Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman: Ciência Pós-Moderna e Divulgação Científica. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; CARVALHO, Leno Veras de, Cápsulas do Tempo - Memória e Amnésia: Iconologia Imagética em Espaço Mnemotécnico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Faculdade de Comunicação. Brasília: Universidade de Brasília, 2014; NASCIMENTO, Marcio Lima do, Do Mal-estar em Freud ao Mal-estar em Bauman. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2014; VIEIRA, Patrícia Elias, O Consumidor no Ciberespaço Transnacional: O Devir da “Sociedade Líquido-Moderna” e do Estado Contemporâneo na Construção da Ciberdemocracia. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciência Jurídica. Itajaí: Universidade do Vale do Itajaí, 2016; EATON, Sarah Elaine, “Ethical Considerations for Research Conducted with Human Participants in Languages Other Than English”. In: British Educational Research Journal, 46 (4): 848–858; 2020; BERNARDES, Guilherme, Uma Camisa de Força para Houdini: Paul Muldoon, Forma Fixa e Tradução. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Setor de Ciências Humanas. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2020; NASCIMENTO, Rodrigo Trindade, Uma Discussão da Filosofia do Empirismo Lógico em seu Contexto Histórico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2022; Artigo: “O Filme Mais Instigante do Ano Mistura Nanotecnologia e Dilemas Éticos”. In: https://revistaoeste.com/oestegeral/2025/07/22/; entre outros.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Moulin Rouge: Amor em Vermelho, Criação & Estilos de Expressão.

 Sou uma cortesã, sou paga para fazer os homens acreditarem naquilo em que querem acreditar”. Moulin Rouge                               

            Durante o período da Baixa Idade Média o advento do Renascimento Comercial e Urbano, surge na Europa uma tendência de enfraquecimento do poder dos nobres e fortalecimento do poder dos reis, que durante o período medieval tinham autoridade quase nula. Em alguns países, os soberanos contaram com o importante apoio da burguesia nascente, que tinha forte interesse na centralização política, pois a padronização de pesos, medidas e moedas e a unificação da justiça e da tributação favoreciam o desenvolvimento do comércio. A nobreza, sem forças para se impor, acabou por aceitar a dominação real (em alguns casos, após sangrentos conflitos). Parte dela foi cooptada por meio da formação das cortes, constituídas por nobres luxuosamente sustentados pelo Estado. Os reis puderam assim obter para si todo o controle político, econômico e militar dos países. No auge da centralização, estabeleceu-se o Absolutismo. Talleyrand demonstrou admirável capacidade de sobrevivência política ao ocupar altos cargos no governo revolucionário francês, sob Napoleão Bonaparte, durante a restauração da monarquia da Casa de Bourbon e sob o rei Luís Filipe. Embora de ascendência aristocrática, ele não pôde seguir a carreira militar por causa de um defeito físico (Pé torto). Opcionalmente, foi preparado para a carreira religiosa e, como seminarista, estudou teologia e leu a obra dos filósofos progressistas contemporâneos. Expulso do seminário (1775) por não seguir a regra metodológica do celibato, mesmo assim recebeu as ordens menores e o rei o nomeou abade de Saint-Denis, em Reims (1776). Ordenado em 1779, foi nomeado vigário-geral pelo tio Alexandre, arcebispo de Reims, e depois tornou-se agente geral do clero junto ao governo da França. 

          Defensor dos privilégios eclesiásticos, suas atividades puseram-no em contato social direto e frequente com os ministros da coroa, o que lhe permitiu adquirir experiência política no manejo do ideário parlamentar e ser consagrado (1788) como bispo de Autun.  O Antigo Regime (Ancien Régime) no âmbito das ideias políticas e sociais permitiu que duas mulheres tivessem se tornado artistas proeminentes da corte francesa. Ainda que compreendidas sob o signo da excepcionalidade, havia uma possibilidade de que participassem da produção artística e, mesmo, da principal instituição de consagração dos artistas: a academia. O Salão de 1783 foi o marco de exaltação das artistas e, também, o momento a partir do qual as reações do campo iniciam a conformar um nicho próprio que pudesse interpretar, rotular e, ao final, diferenciar a produção feminina. O preço que cada uma das artistas pagou pelas transformações radicais impostas pela revolução clássica francesa foi determinado em grande parte pelas relações que estabeleceram com a corte. Mas o salão de 1785 era um palco também de outro marco: ali estreava, com muito sucesso, o jovem Jacques-Louis David (1748-1825), pintor que significativamente se tornaria o símbolo provavelmente de uma nova Era. Com o chamado “Juramento dos horácios”, uma nova estética neoclássica, severa, racional - e com temática da virtude patriótica ancorada no heroísmo masculino -, começou a se impor. O Antigo Regime refere-se ao sistema social e político aristocrático que foi estabelecido na França. Trata-se de um regime centralizado e absolutista, em que o poder era concentrado nas mãos do rei. Também se atribui o termo ao modo de viver característico das populações europeias durante os séculos XV-XVIII, desde as descobertas marítimas até chamadas às revoluções liberais europeias.

Coincidiu politicamente com as monarquias absolutas, economicamente com o capitalismo social, e socialmente com o parti pris da sociedade de ordens. As estruturas sociais e administrativas do Antigo Regime foram resultado de anos de construção estatal, atos legislativos, conflitos e guerras internas, mas, tais circunstâncias permaneceram como uma mistura confusa de privilégios locais e disparidades históricas, até que a Revolução Francesa (1789-1799) põe fim ao regime. Embora a sua utilização seja contemporânea à Revolução Francesa, o maior responsável pela fixação da expressão Ancien Régime na literatura foi Alexis de Tocqueville (1805-1859), autor do ensaio: O Antigo Regime e a RevoluçãoTornou-se célebre por suas análises da Revolução Francesa, da Democracia Americana e da evolução das democracias ocidentais em geral. Esse texto indica precisamente a conjuntura política em que a Revolução Francesa batizou aquilo que aboliu (“la Révolution française a baptisé ce qu`elle a aboli”). Desde o ponto de vista dos inimigos da revolução, o termo Antigo Regime carregava uma certa nostalgia, de paraíso perdido. Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838) foi um político e diplomata francês. Ele ocupou em quatro ocasiões o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros e  primeiro Primeiro-Ministro da França entre julho e setembro de 1815 sob Luís XVIII depois da restauração francesa. Talleyrand chegou a dizer que “os que não conheceram o Antigo Regime nunca poderão saber o que era a doçura de viver” (ceux qui n`ont pas connu l`Ancien Régime ne pourront jamais savoir ce qu`était la douceur de vivre).                            

Durante o período pré-revolucionário, foi membro do Clube dos Trinta. Apoiou depois a nacionalização dos bens da igreja e conseguiu a adoção da constituição civil do clero que, sem o apoio papal, permitiu a reorganização completa da Igreja francesa ao serviço do Estado. Excomungado pelo papa e eleito administrador do departamento de Paris (1791), abandonou a Igreja Católica. Foi enviado pela Assembleia Geral à Grã-Bretanha (1792), para tentar convencer os ingleses a não se aliarem com a Áustria e a Prússia contra a França. O fracasso das negociações e a execução de Luís XVI obrigaram-no a fugir para os Estados Unidos da América (1794). Após a queda de Robespierre e o fim do Terror (1796), regressou à França e no ano seguinte tornou-se ministro das Relações Exteriores. Acusado de corrupção (1799), foi demitido, mas recuperou o cargo após o golpe de estado de Napoleão e o estabelecimento do Consulado. Com o objetivo da pacificação da Europa, esforçou-se por articular políticas de alianças com as principais potências europeias e promoveu a reconciliação de Napoleão com o resto da Europa. No entanto, por discordar do projeto de conquistas do imperador, demitiu-se (1807). Apoiado pelo czar Alexandre I da Rússia, organizou oposição a Napoleão e preparou a restauração dos Bourbons. Com a entrada da liga antinapoleônica em Paris (1814), persuadiu o senado a estabelecer um governo provisório e a declarar Napoleão deposto. O novo governo imediatamente convocou Luís XVIII, que o nomeou ministro das Relações Exteriores.

No Congresso de Viena (1814-1815), representou a França na esfera política e expôs suas habilidades diplomáticas, mas prejudicou a França em termos territoriais, pois aceitou ceder à Prússia territórios da margem direita do rio Reno. Após os cem dias napoleônicos, assumiu o cargo de presidente do Conselho de Estado, porém seu passado revolucionário levou-o a ser demitido em setembro do mesmo ano. Aliado aos liberais, participou de forma ativa na ascensão ao trono de Luís Filipe de Orleans (1830). Embaixador em Londres (1830-1834), teve participação fundamental nas negociações entre França e Reino Unido, como na criação do reino da Bélgica e na assinatura da aliança entre França, Reino Unido, Espanha e Portugal - a Quádrupla Aliança (1834). Acusado em vida de cínico e imoral, alegava servir à França, e não aos regimes políticos. Foi, ao lado de Joseph Fouché (1759-1829), uma das figuras mais polêmicas da França. Fouché, 1º Duque de Otranto, foi um político e ministro durante a Revolução Francesa e a chamada Era napoleônica, notabilizado pela sua extrema falta de caráter, individualismo e por haver trafegado incólume, e com sucesso, pelos mais conturbados períodos da história de França. Ele morreu em 17 de maio 1838, pouco após se reconciliar com a Igreja católica, e foi enterrado na Capela de Notre-Dame.  Durante o século XVII, o Antigo Regime entrou em declínio devido, principalmente, ao Iluminismo. Essa corrente de pensamento defendia ideais do liberalismo, como a instituição de um gestor subordinado a Carta Magna; fim do intervencionismo político e econômico, voto universal democracia; valores per se antagônicos ao Absolutismo. 

Moulin Rouge! Tem como representação social um filme de drama romântico musical jukebox de 2001, dirigido, produzido e coescrito por Baz Luhrmann, nascido em 17 de setembro de 1962, é um diretor de cinema, produtor, escritor e ator australiano cujos vários projetos in statu nascendi se estendem e permutam-se do cinema e da televisão à ópera, teatro, música e a consolidação das chamadas indústrias culturais na sociedade globalizada. Ele é considerado como um notável exemplo contemporâneo de autor, por seu estilo e profundo envolvimento na escrita, direção, design e componentes musicais de corpo do seu trabalho. Ele é o diretor australiano de maior sucesso comercial, com quatro de seus filmes entre os dez filmes australianos de maior bilheteria mundial de todos os tempos. Na telona, ele é mais reconhecido por sua Trilogia Red Curtain, composta por sua comédia romântica Strictly Ballroom (1992) e sobretudo, as tragédias românticas Romeu + Julieta (1996) e Moulin Rouge! (2001), de William Shakespeare. Após a trilogia, os projetos incluíram Austrália (2008), O Grande Gatsby (2013), Elvis (2022) e seu drama de época para a televisão The Get Down (2016) para a Netflix. Projetos adicionais incluem produções teatrais de La Bohème, de Giacomo Puccini, para a Opera Australia e a Broadway, e Strictly Ballroom the Musical (2014). Em setembro de 2025, seu primeiro documentário, EPiC: Elvis Presley in Concert. Luhrmann é reconhecido por suas trilhas sonoras indicadas ao Grammy para Moulin Rouge! e O Grande Gatsby, e por sua gravadora House of Iona, uma parceria com a RCA Records.  Austrália, oficialmente a Comunidade da Austrália, é um país que compreende o continente australiano, a ilha da Tasmânia e inúmeras ilhas menores. 

           Tem uma área total de 7.688.287 km², tornando-se o sexto maior país do mundo e o maior da Oceania. A Austrália é o continente habitado mais plano e seco do mundo. É um país megadiverso, e seu tamanho lhe dá uma grande variedade de paisagens e climas, incluindo desertos no interior e florestas tropicais ao longo da costa. Os ancestrais dos aborígenes australianos começaram a chegar do Sudeste Asiático há 50 mil a 65 mil anos, durante o último período glacial. Na história da colonização britânica, os aborígenes australianos falavam 250 línguas distintas e tinham uma das culturas vivas mais antigas do mundo. A história escrita da Austrália começou com a exploração holandesa da maior parte do litoral no século XVII. A colonização britânica começou em 1788 com o estabelecimento da colônia penal de Nova Gales do Sul. Em meados do século XIX, a maior parte do continente havia sido explorada por colonos europeus e cinco colônias britânicas autônomas adicionais foram estabelecidas, cada uma ganhando um governo responsável em 1890. As colônias se federaram em 1901, formando a Comunidade da Austrália. Isto deu continuidade a um processo de crescente autonomia em relação ao Reino Unido, destacado pelo Estatuto de Westminster, Lei de Adopção de 1942, e que culminou nos Atos da Austrália de 1986. A Austrália tem como representação uma democracia parlamentar federal e uma monarquia constitucional que compreende seis estados e dez territórios. Sua população de quase 28 milhões é altamente urbanizada e fortemente concentrada na costa Leste. Camberra é a capital do país, enquanto suas cidades mais populosas superorganizadas são Sydney e Melbourne, ambas com uma população de mais de cinco milhões. A cultura da Austrália  o país tem uma das maiores populações estrangeiras do mundo, economia altamente desenvolvida e das maiores rendas per capita do mundo.   Seus abundantes recursos naturais e relações comerciais internacionais bem desenvolvidas são cruciais para a economia do país. Ele tem uma classificação elevada em qualidade de vida, saúde, educação, liberdade econômica, liberdades civis e direitos políticos.  A Austrália é uma potência média e tem o 13º maior gasto militar do mundo. A cultura aborígene australiana é uma das mais antigas culturas contínuas da Terra. Na história social do primeiro contato europeu, os aborígenes australianos pertenciam a uma ampla gama de sociedades, com economias diversas espalhadas por pelo menos 250 grupos linguísticos diferentes. 

 As estimativas da população aborígene antes da colonização britânica variam de 300 mil a 3 milhões. As culturas aborígenes australianas eram e permanecem profundamente conectadas com a terra e o meio ambiente, com histórias de The Dreaming mantidas por meio de um conjunto de práticas e sabres da tradição oral, canções, danças e pinturas. Certos grupos se dedicavam à agricultura com gravetos, à piscicultura e abrigos semipermanentes. Estas práticas têm sido caracterizadas de várias formas: “caça-recoletora”, “agrícola”, “cultivo natural” e “intensificação”. Os povos das Ilhas do Estreito de Torres se estabeleceram em suas ilhas há pelo menos 2.500 anos. Cultural e linguisticamente distintos dos povos aborígenes do continente, eles eram marinheiros e obtinham seu sustento da horticultura sazonal e recursos de seus recifes e mares. A agricultura também se desenvolveu em algumas ilhas e vilas que surgiram por volta de 1300. Em meados do século XVIII, no Norte da Austrália, o comércio e o engajamento intercultural foram estabelecidos entre grupos aborígenes locais e trepangers de Macassan, visitantes da atualmente Indonésia.

Desnecessário dizer que Baz Luhrmann vem atuando como produtor em todas as suas trilhas sonoras musicais, também detém créditos de composição em muitas das faixas individuais. Seu álbum Something for Everybody apresenta músicas de muitos de seus filmes e também inclui seu hit “Everybody's Free (To Wear Sunscreen)”. Em Moulin Rouge! ele segue um poeta inglês, Christian, que se apaixona pela estrela do Moulin Rouge, atriz de cabaré e cortesã Satine. O filme usa o cenário musical do bairro de Montmartre, em Paris, e é a parte final da Trilogia da Cortina Vermelha de Luhrmann, seguindo Strictly Ballroom (1992) e Romeu + Julieta (1996). Uma coprodução da Austrália e dos Estados Unidos, apresenta um elenco estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor, com Jim Broadbent, Richard Roxburgh, John Leguizamo, Jacek Koman e Caroline O`Connor em papéis coadjuvantes. Moulin Rouge! estreou no Festival de Cinema de Cannes de 2001, onde competiu pela Palma de Ouro e foi lançado nos cinemas em 25 de maio de 2001 na Austrália e em 1° de junho de 2001 na América do Norte. Montmartre é um bairro charmoso, boêmio e artístico no 18º arrondissement de Paris, reconhecido pela sua história social ligada ao movimento impressionista e por abrigar a famosa Basílica de Sacré-Cœur. A Basílica do Sagrado Coração de Jesus de Montmatre, ou simplesmente Basílica do Sagrado Coração é um templo da Igreja Católica Apostólica Romana em Paris dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, sendo, também, o símbolo do bairro de Monte Martre. 

Suas ruas estreitas e empinadas levam a locais icônicos como a Place du Tertre, onde “artistas de rua expõem e vendem suas obras, e a um miradouro com vista panorâmica da cidade”. O bairro é um destino turístico popular, com uma atmosfera cultural vibrante, repleta de cabarés, cafés frequentados por artistas renomados, museus e o emblemático Moulin Rouge. O filme foi elogiado pela direção de Luhrmann, as performances do elenco, sua trilha sonora, figurino e valores de produção. Também foi um sucesso comercial, arrecadando US$ 179,2 milhões com um orçamento de US$ 50 milhões. No 74º Oscar, o filme recebeu oito indicações, incluindo Melhor Filme, e ganhou duas (Melhor Design de Produção e Melhor Figurino). A recepção crítica posterior para Moulin Rouge! permaneceu positiva e foi considerado, historicamente, por muitos analistas críticos de cinema como um dos melhores filmes de todos os tempos, com a classificação 53, pontual, na pesquisa da British Broadcasting Corporation (BBC) de 2016, a renomada corporação pública de radiodifusão do Reino Unido, dos 100 maiores filmes do século XXI. Uma adaptação musical para o palco estreou em 2018.

famosa frase: - “No futuro, todos terão seus quinze minutos de fama”, como profetizou certa vez o cineasta e pintor norte-americano Andy Warhol, reconhecido pelos coloridos retratos da glamorosa Marilyn Monroe e Elvis Presley tornou-se sua marca na modernidade. Mais do que isso, sua fama parece ter se tornada eterna, como tem ocorrido no tempo e espaço quando é cada vez mais celebrada. É o que garante o jornal norte-americano The New York Times. No primeiro semestre de 2015, por exemplo, foram programadas pelo menos três mostras com criações de Andy Warhol nos Estados Unidos da América. Em uma extensa reportagem sobre o legado de um dos criadores e principal representante da Pop Art, o jornal divulgou que nada menos que 40 exposições com obras do artista, muitas delas até então inéditas para o público, “inundarão museus e instituições de arte nos próximos cinco anos”. Isso porque a fundação que leva o nome de Andy Warhol está na terceira fase de um projeto que visa popularizar cada vez mais o trabalho do artista, morto em 1987. É neste sentido que a fundação doou mais de 14 mil obras, sobretudo fotografias e gravuras, “com a condição de que os museus as exibam no prazo de cinco anos”. Ipso facto, já foram distribuídas, desde 1999, 52.786 obras do artista para 322 instituições diversas, sobretudo nos Estados Unidos da América.

Neste sentido, marca é a representação simbólica de uma entidade, qualquer que seja ela, objeto/símbolo que permite identificá-la de um modo imediato como, por exemplo, um sinal de presença, uma simples pegada. Na teoria da comunicação, pode ser um signo, um símbolo ou um ícone. Uma simples palavra pode referir uma marca. O termo é frequentemente usado hoje em dia como referência a uma determinada empresa: um nome, uma marca verbal, imagens ou conceitos que distinguem o produto, serviço ou a própria empresa. Quando se fala em marca, é comum estar se referindo, na maioria das vezes, a uma representação gráfica no âmbito e competência do designer, onde a marca pode ser representada graficamente por uma composição de símbolo ou logotipo, tanto individualmente quanto combinados. No entanto, o conceito de marca é bem mais abrangente obviamente que a sua representação gráfica. Marca não é um conceito fácil de definir. A marca em essência representa produção-consumo com uma série específica de atributos, benefícios e serviços uniformes aos compradores. A garantia de qualidade surge entre marcas, mas a marca é um símbolo mais complexo, pois em princípio, a relação social entre complexo e símbolo, coincide em muitos aspectos do desejo, comparativamente, pois ambos se enraízam num núcleo de significado arquetípico.

Temos o que fica reservado como lugar de representação do conhecimento, posto que bem entendido o nível ao qual se aplica a pesquisa antropológica, ela tem por objeto interpretar a interpretação que os outros fazem da categoria do outro, nos diferentes níveis que situam o lugar dele e impõem sua necessidade. Melhor dizendo, tendo como representação social etnia, tribo, aldeia, linhagem ou outro modo de agrupamento até o átomo elementar de parentesco, do qual se sabe que submete a identidade da filiação à necessidade da aliança, o individualismo, enfim; que todos os sistemas rituais definem como compósito e pleno de alteridade, figura literalmente impensável, como o são, em modalidades opostas, a do rei e a do feiticeiro. O fato social é que deste ângulo de análise há um princípio abrangente e primordial, porque norteador, pois “toda antropologia é antropologia da antropologia dos outros, além disso, que neste âmbito, o lugar antropológico, é simultaneamente princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem o observa”. Essa inteligibilidade, ao que nos parece, fornece e propõe no âmbito de apropriação dos saberes que as condições de uma antropologia da contemporaneidade devem ser deslocadas do método para o objeto.

E além disso, que se deve estar atento às mudanças que afetaram as grandes categorias por meio das quais os homens pensam sua identidade e suas relações recíprocas em termos espaciais. Assim, se um lugar de análise pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um na etnologia da solidão de Marc Augé, o que ele denominou analiticamente de “não-lugar”. A hipótese adjudicada na teoria, e, portanto, no pensamento, é o que o autor chama de surmodernité conquanto produtora de não-lugares, de espaços que não são em si lugares (tradicionais) antropológicos. Isto é importante. Estas características comuns podem ser aplicadas a dispositivos institucionais diferentes e que constituem, de certo modo, as formas elementares de compreensão do espaço social. Trata-se de aspectos gerais e que se identificam enquanto itinerários ou eixos ou caminhos que, do ponto de vista etnológico conduzem de um lugar a outro. Mas também em cruzamentos e praças, que satisfazem por assim dizer esferas de ação social, que nos mercados definem necessidades do intercâmbio econômico e, nesta progressão, centros mais ou menos monumentais. Sejam eles religiosos ou políticos construídos por certos homens e mulheres e que definem como outros, em relação a outros centros e outros espaços sociais. Analogamente se referem sociologicamente enquanto um conjunto de práticas e saberes sociais a unidades de geração que desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo mercado de consumo editorial. 

O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo nível social. A unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. Mas a forma como grupos sociais da mesma conexão geracional lida com os fatos históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto da sociedade. O sociólogo Karl Mannheim não esconde sua preferência pela abordagem histórico-romântica alemã. E destaca que este é um exemplo bastante claro de como a forma in statu nascendi de se colocar uma questão pode variar analogamente de país para país, assim como de uma época para outra. Ipso facto, sociologicamente falando, a relação social entendida por globalização representa um dos processos de aprofundamento da divisão internacional do trabalho, da integração econômica, social e política, em seus extremos que teria sido impulsionado pela redução dos meios sociais de comunicação dos países no final do século XX e início do século XXI. Embora vários estudiosos situem desde Marx a origem da globalização em tempos modernos, Marx analisou a sua história social e econômica na gênese do industrial capitalista relacionado com os chamados descobrimentos do Novo Mundo pelos europeus.   

Um país com imprensa livre hoje pode ter acesso, algumas vezes por televisão por assinatura ou satélite, a emissoras de difusão de comunicação, desde a Japan Broadcasting  Corporation (NHK) do Japão a Cartoon Network norte-americana. A globalização per se é analisada por sociólogos, historiadores e cientistas políticos como o movimento social sob o qual se constrói o processo de hegemonia econômica, política e cultural ocidental sobre as demais nações. Esta nova dominação é constituída por redes assimétricas, e as relações de poder se dão mais pela via cultural e econômica do que pelo uso coercitivo da utilidade de uso de força. Na trama cinematográfica em 1900, em Paris, Christian, um jovem escritor deprimido e angustiado pela morte recente da mulher que amava, começa a escrever sua história em sua máquina de escrever. Um ano antes, em 1899, ele chega ao bairro de Montmartre, em Paris, para se juntar ao movimento boêmio. De repente, ele conhece Henri de Toulouse-Lautrec e sua trupe de artistas que estão escrevendo uma peça chamada Spectacular Spectacular. Depois que Christian os ajuda a concluir a peça, eles vão ao Moulin Rouge, onde esperam que os talentos de Christian impressionem Satine, a estrela e cortesã, que por sua vez convencerá Harold Zidler, o proprietário do Moulin Rouge, a deixar Christian escrever o espetáculo. No entanto, Zidler planeja uma estratégia de fazer com que o rico, poderoso e inescrupuloso Duque de Monroth durma com Satine em troca de um possível financiamento para converter o clube em um teatro. Naquela noite, Satine confunde Christian com o Duque e tenta seduzi-lo dançando com ele antes de se retirar para seus aposentos com ele para discutir as coisas em particular, mas eventualmente Christian revela sua verdadeira identidade.

Depois que o Duque os interrompe, Satine afirma que os dois e os Bohemians estavam ensaiando Spectacular Spectacular. Ajudados por Zidler, Christian e os Bohemians improvisam uma história para o Duque sobre uma bela cortesã indiana que se apaixona por um pobre tocador de cítara que ela confundiu com um marajá rico, mas malvado. Aprovando a história, o Duque concorda em investir, mas somente se Satine e o Moulin Rouge forem entregues a ele. Mais tarde, Satine afirma não estar apaixonada por Christian, mas ele eventualmente desgasta sua determinação e eles se beijam. Durante a construção do Moulin Rouge, o amor entre Christian e Satine se aprofunda, enquanto o Duque se frustra com todo o tempo que pensa que Satine passa com Christian trabalhando na peça. Para acalmá-lo, Zidler combina com Satine para passar a noite com o Duque e, furioso, pede a ela que termine seu caso com Christian. Ela perde o jantar ao desmaiar, levando um médico a diagnosticar um caso fatal de tuberculose. Ela tenta terminar o relacionamento dizendo a Christian que o relacionamento deles está colocando a produção em risco, mas Christian compõe uma música secreta para incluir no espetáculo, que afirma seu amor eterno e apaixonado. No ensaio final, a dançarina de can-can Nini insinua ao Duque que a peça representa o relacionamento afetivo entre ele, Christian e Satine. Enfurecido, o Duque exige que o espetáculo termine com a cortesã se casando com o marajá, em vez de Christian, onde ela se casa com o tocador de cítara. Satine promete passar a noite com ele, após o que decidirão o final. Ela não consegue seduzi-lo devido aos seus sentimentos por Christian, e Le Chocolat, uma das dançarinas de cabaré, a salva da tentativa do Duque de estuprá-la.

Christian decide que ele e Satine devem abandonar o espetáculo e fugir para ficarem juntos, enquanto o Duque jura matar Christian. Zidler encontra Satine em seu camarim fazendo as malas. Ele lhe diz que sua doença é fatal, que o Duque está planejando assassinar Christian e que, se ela quiser que Christian viva, precisa se separar completamente dele e ficar com o Duque. Reunindo todas as suas habilidades de atuação, ela obedece, deixando Christian arrasado. Na noite de abertura do espetáculo, diante de uma plateia lotada, Christian denuncia Satine e promete entregá-la ao Duque antes de sair do palco, mas Toulouse-Lautrec grita do alto: “A melhor coisa que você aprenderá é amar e ser amado em troca”. Isso leva Satine a cantar a canção secreta, fazendo com que Christian mude de ideia. Depois que Zidler e a companhia frustram várias tentativas do Duque e seu guarda-costas de matar Christian, o espetáculo termina com Christian e Satine declarando seu amor enquanto o Duque sai furioso do cabaré. A plateia explode em aplausos, mas Satine desmaia após o fechamento das cortinas. Antes de morrer em seus braços, ela diz a Christian para escrever a história deles para que ela esteja sempre com ele. Seis meses depois, o Moulin Rouge fechou e está em ruínas; Zidler, o Duque, os Diamond Dogs e os Bohemians se foram; e Christian supera sua dor ao terminar sua história com Satine, declarando que seu amor viverá.

        Moulin Rouge! foi influenciado por uma variedade eclética de fontes musicais cômicas e melodramáticas, incluindo musicais de Hollywood, “vaudeville”, cultura de cabaré, musicais de palco e óperas. Seus elementos musicais também fazem alusão ao filme anterior de Luhrmann, Strictly Ballroom. A ópera La bohème, de Giacomo Puccini, que Luhrmann dirigiu na Ópera de Sydney em 1993, foi uma fonte fundamental do enredo de Moulin Rouge! Outra inspiração estilística veio do encontro de Luhrmann com filmes de Bollywood durante sua visita à Índia enquanto conduzia pesquisas para sua produção de 1993 da ópera Sonho de Uma Noite de Verão, de Benjamin Britten. No comentário em áudio do DVD, Luhrmann revelou que também se inspirou na tragédia grega de Orfeu e Eurídice. Os cineastas projetaram a figura de Orfeu em Christian, caracterizando-o como um gênio musical cujo talento superava o de todos os outros em seu mundo. O uso de canções de meados do final do século XX no filme, no cenário de 1899, faz Christian parecer à frente de seu tempo como músico e escritor. O enredo de Moulin Rouge! é paralelo ao do mito: “McGregor, como um poeta que declama versos imortais..., desce a um submundo infernal de prostituição e entretenimento musical para resgatar Kidman, a cortesã cantora que o ama, mas é escravizada por um duque diabólico. Ele a resgata, mas olha para trás e... toca: The Show Must Go On, do Queen”. Os comentaristas também notaram as semelhanças entre o enredo do filme e os da ópera La Traviata e do romance Nana de Émile Zola. Outros elementos cinematográficos parecem ter sido emprestados dos extraordnários filmes com cenários musicais Cabaret, Folies Bergère de Paris e Meet Me in St. Louis.               

O personagem de Satine foi baseado na dançarina de can-can francesa Jane Avril. O personagem de Harold Zidler compartilha seu sobrenome com Charles Zidler, um dos donos do verdadeiro Moulin Rouge. Satie foi vagamente baseado nos compositores franceses Erik Satie e Maurice Ravel. Môme Fromage, Le Pétomane e Le Chocolat compartilham seus nomes com os artistas do cabaré real. As extraordinárias Marlene Dietrich, Greta Garbo e Rita Hayworth foram citadas como inspirações para o visual do filme. Leonardo DiCaprio, que trabalhou com Luhrmann em Romeu + Julieta, fez o teste sem sucesso para o papel de Christian. Ethan Hawke também fez o teste para o papel. Luhrmann também considerou atores mais jovens para o papel, incluindo Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, antes de Ewan McGregor ganhar o papel. Courtney Love fez o teste para o papel de Satine e deu aprovação para “Smells Like Teen Spirit” ser usado no filme.

A produção começou em 9 de novembro de 1999 e foi concluída em 13 de maio de 2000, com um orçamento de US$ 50 milhões. Foi filmado nos estúdios de som da Fox Studios em Sydney. As filmagens geralmente ocorreram sem problemas, mas Kidman “quebrou as costelas duas vezes quando foi levantada no ar durante as sequências de dança”. Ela também sofreu uma ruptura na cartilagem do joelho resultante de uma queda durante a música de produção “Diamonds Are a Girl`s Best Friend “. Kidman declarou mais tarde em uma entrevista com Graham Norton que quebrou uma costela ao entrar em um espartilho apertando-o o máximo possível para atingir uma cintura de 18 polegadas e que caiu da escada enquanto dançava de salto. A produção ultrapassou o cronograma de filmagens e teve que ficar fora dos estúdios de som para dar lugar a Star Wars: Episódio II - Ataque dos Clones que também estrelou McGregor. Isto exigiu a filmagem de algumas cenas de pick-up em Madrid. Nas notas do encarte do DVD da edição especial do filme, Luhrmann escreve que “[a] premissa estilística inteira foi decodificar o que o Moulin Rouge era para o público de 1899 e expressar a mesma emoção e entusiasmo de uma forma com a qual os espectadores contemporâneos possam se identificar”. Tanto Roger Ebert quanto o The New York Times compararam a edição e a cinematografia do filme às de um videoclipe e notaram sua homenagem visual aos primeiros filmes Technicolor. Marsha Kinder descreve Moulin Rouge! como um pastiche musical e sonoro brilhante, celebrativo e bem-humorado devido ao uso de canções diversas. Moulin Rouge! pega música popular bem conhecida, principalmente retirada da Geração MTV, e a justapõe em um conto ambientado em um cabaré parisiense da virada do século. 

Kinder afirma que manter letras e melodias emprestadas intactas “torna quase impossível para os espectadores perderem a caça furtiva [de canções] (mesmo que não consigam nomear a fonte específica)”. O filme usa tanta música popular que Luhrmann levou dois anos e meio para garantir os direitos de todas as músicas. Algumas das músicas sampleadas incluem “Chamma Chamma”  do filme hindi China Gate , “The Show Must Go On” do Queen, arranjado em formato operístico, a versão de David Bowie de “Nature Boy” de Nat King Cole , “Lady Marmalade” de Labelle (no cover de Christina Aguilera/P!nk/ Mýa/Lil` Kim encomendado para o filme), “Material Girl” e “Like a Virgin” de Madonna, “Your Song” de Elton John , o número titular de The Sound of Music, “Roxanne” de The Police (em formato de tango usando a composição “Tanguera” de Mariano Mores ) e “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana. Luhrmann pretendia incorporar canções dos Rolling Stones e de Cat Stevens ao filme, mas não conseguiu obter os direitos necessários desses artistas. Quando Stevens negou o consentimento para o uso de " Father and Son " devido a objeções religiosas ao conteúdo do filme, “Nature Boy” foi escolhida como sua substituta. Originalmente programado para ser lançado no Natal de 2000, a 20th Century Fox acabou adiando o lançamento de Moulin Rouge! para o verão de 2001 para permitir que Luhrmann tivesse mais tempo na pós-produção. Moulin Rouge! estreou no Festival de Cinema de Cannes de 2001 em 9 de maio de 2001, como título de abertura do festival.

Moulin Rouge! estreou nos Estados Unidos em dois cinemas em Nova York e Los Angeles em 18 de maio de 2001. Arrecadou US$ 167.540 em seu fim de semana de estreia. O filme então se expandiu para um lançamento nacional em 1º de junho de 2001. Gerou US$ 14,2 milhões, ficando em quarto lugar atrás de Pearl Harbor, Shrek e The Animal. No Reino Unido, Moulin Rouge! foi o filme número um do país por duas semanas antes de ser deslocado pela Inteligência Artificial (IA). Durante seu quinto fim de semana, ele recuperou o primeiro lugar. O filme permaneceu assim até ser destronado por American Pie 2 em seu sexto fim de semana. Moulin Rouge! arrecadou US$ 57.386.369 nos Estados Unidos e Canadá e outros US$ 121.813.167 internacionalmente (incluindo US$ 26 milhões no Reino Unido e US$ 3.878.504 na Austrália). Moulin Rouge! recebeu críticas geralmente positivas dos críticos. Roger Ebert avaliou o filme com 3,5 estrelas de 4, observando que “o filme é todo cor e música, som e movimento, energia cinética, traços amplos, excesso operístico”. A Newsweek elogiou as atuações de McGregor e Kidman, afirmando que “ambas as estrelas se lançam no espírito imprudente do filme, sem medo de parecerem tolas, habilmente sintonizadas com as oscilações abruptas de Luhrmann da farsa à tragédia. (E ambas cantam bem.)”. O New York Times escreveu que “o filme é inegavelmente empolgante, mas não há um único momento de excitação orgânica porque o Sr. Luhrmann está muito ocupado juntando pedaços de outros filmes”, mas admitiu que “não há nada igual, e o público jovem, especialmente as meninas, sentirá como se tivesse encontrado um filme que as chamasse pelo nome”. O All Things Considered comentou que “não seria para todos os gostos” e que “ou você se rende a esse tipo de extravagância ou o experimenta como um exagero”.

Moulin Rouge! tem uma classificação de 66/100 no Metacritic com base em 35 avaliações. No Rotten Tomatoes, o filme tem uma classificação de aprovação “Fresh” de 75% com base em 259 avaliações, com uma pontuação média de 7,1/10. O consenso dos críticos do site diz: “Uma experiência de amor ou ódio, Moulin Rouge é todo estilo, todo vertiginoso, um espetáculo exagerado. Mas também é ousado em sua visão e extremamente original”. Em dezembro de 2001, o filme foi nomeado o melhor filme do ano pelos espectadores do Film 2001. A Entertainment Weekly classificou-o em 6º lugar na sua lista dos dez melhores filmes da década, dizendo: “O pastiche psicodélico da cultura pop de Baz Luhrmann de 2001 foi uma ode esteticamente cativante à poesia, à paixão e a Elton John. Foi tão bom que o perdoaremos pela Austrália”. Em 2008, Moulin Rouge! foi classificado como nº 211 na lista dos 500 Maiores Filmes de Todos os Tempos da Empire. Em 2025, foi um dos filmes votados para a edição Escolha dos Leitores da lista do The New York Times dos “100 Melhores Filmes do Século XXI”, terminando na posição 130. O público pesquisado pela CinemaScore deu ao filme uma nota média de “B+” em uma escala de A+ a F. 

O Home Theater Forum classificou o lançamento em DVD de Moulin Rouge! o melhor DVD de 2001. Luhrmann selecionou cuidadosamente os recursos e as cenas dos bastidores para a edição em DVD de dois discos. Comentaristas acadêmicos interpretaram Moulin Rouge! como um filme pós-moderno exemplar, citando seus métodos de expressão estética, simbolismo e laços com as belas artes e a cultura pop como evidência. A música do filme também contribui para sua estética pós-moderna. Notavelmente, Moulin Rouge! combina melodias e letras de meados do final do século XX com uma narrativa ambientada na França do fin de siècle. As acadêmicas Kathryn Conner Bennett e Marsha Kinder argumentaram que o uso de canções populares famosas em um contexto novo e original exige que o público reinterprete seu significado dentro da estrutura da narrativa e desafie a suposição de que o simbolismo da música é estático. Moulin Rouge! também faz amplo uso de outras técnicas cinematográficas pós-modernas, incluindo fragmentação e justaposição. Como protagonista do filme, Christian é a fonte primária do enredo de Moulin Rouge! e muitas partes da história são contadas do seu ponto de vista. No entanto, a narrativa é fragmentada em várias ocasiões quando o filme se desvia da perspectiva de Christian ou integra um flashback. Moulin Rouge! também justapõe uma peça dentro de um filme (Spectacular Spectacular) com os próprios eventos do filme para traçar paralelos entre o enredo da peça e as vidas dos personagens. Isso culmina na sequência “Come What May”, que revela o desenvolvimento do relacionamento de Christian e Satine da progressão dos ensaios de Spectacular Spectacular. O pós-modernismo também é evidente na homenagem do Moulin Rouge! aos musicais ocidentais, aos filmes masala de Bollywood e aos videoclipes, bem como ao filme Strictly Ballroom de Luhrmann.

Como o centro da compreensão está na vida como um todo estruturado, mas sempre resultando da relação entre individualidades, é possível perceber a conexão entre a ética e a teoria compreensiva. Há uma démarche que atravessa o homem, e nesta noção de sentido está a marca de uma concessão fatal a representação social. Nós tendemos a evitar a repetição, tanto quanto o empirismo dos positivistas. Mas que fique clara a dimensão de ser criador de significados, que não é simplesmente a noção ampla de vida, mas sua unidade constitutiva, a vivência, representada em toda experiência humana. Ipso facto, a história é suscetível de reconhecimento porque é obra humana. Nela o sujeito e objeto do conhecimento formam uma unidade. Nessa direção chega-se à formulação da concepção de Wilhelm Dilthey (1833-1911) em seus elementos per se: vivência, expressão e compreensão. A vivência surge nesse ponto, como algo especificamente social, pela sua dimensão intersubjetiva, e cultural, pela sua dimensão significativa, para além do seu nível psicológico ou mesmo biológica porque guarda na memória. Trata-se de um ato de consciência, que propõe e persegue fins num dado contexto social e intersubjetivo. Historicamente temos o registro da primeira fotografia reconhecida socialmente que remonta ao ano de 1826 e é atribuída ao francês Joseph Nicéphore Nièpce (1765-1833). Contudo, compreende-se que a invenção da fotografia do ponto de vista da sociedade globalizada não é obra de um só autor. Mas um processo técnico de acúmulo de avanços por parte da interpelação social de inúmeras pessoas, trabalhando, juntas ou em paralelo, ao longo de muitos anos. Se por um lado os princípios fundamentais da fotografia se estabeleceram há décadas e, desde a introdução do filme fotográfico colorido, quase não sofreram mudanças, por outro lado, os avanços tecnológicos têm sistematicamente possibilitado melhorias na qualidade das imagens reproduzidas no processo de trabalho e de produção com a redução de custos, popularizando o uso da fotografia. No ano do centenário de seu nascimento, Robert Doisneau ganhou mostra na cidade do Rio de Janeiro.

 Formado em litografia, abraçou na complexa década de 1929 “um novo interesse como fotógrafo autodidata”. A pessoa que tem a capacidade de apreender algo por conta própria, sem o auxílio de professor ou mentor. Alguém que aprende alguma coisa sozinho. Neste sentido, o contato com a arte conceitual, a performance art, a body art e os meios materiais para documentar essas artes do ponto de vista técnico-metodológico compreendidas como performativas, a exemplo da fotografia, o vídeo e o cinema, foram fundamentais para Sherman reorientar o seu trabalho no sentido dos seus autorretratos que se tornaram o centro de sua produção artística. Em 1975, ainda na universidade, Cindy produziu uma série de cinco fotografias, que mostram o seu próprio rosto, alterado por meio de maquilagem e de chapéus, em cinco versões diferentes. Estava nessa precoce experiência o enunciado do seu programa de intenções. A personagem que Cindy Sherman interpreta em cada uma das fotografias é construída em torno de algumas figuras femininas ficcionalizadas e reconhecidas na constituição cinematográfica que, por sua vez, personifica uma mulher, partindo de um imaginário formulado pela cinematografia de um diretor: Hitchcock, Rossellini, Antonioni ou Godard, em paralelo com a imagem das atrizes dos seus filmes, como Anna Magnani (1908-1973), Mônica Vitti (1931-2022), as nonagenárias Sophia Loren e Brigitte Bardot ou Jeanne Moreau (1928-2017).

Na história da arte, são pouco reconhecidos os nomes de artistas do sexo feminino antes das correntes modernistas. Estudos anteriores realizados por historiadores e historiadoras da arte feminista apontam que a principal causa de exclusão das mulheres do sistema acadêmico foi, do século XVII até finais do XIX, “a impossibilidade de cursarem as classes de modelo vivo”.  Considerava-se inapropriado que mulheres observassem os corpos despidos. Tal ressalva moral traduziu-se em uma exclusão institucional: as escolas de artes oficiais foram, por muito tempo, reticentes com relação ao ingresso de alunas entre seus quadros. Algumas artistas conseguiram vencer tais obstáculos, consolidando carreiras. Mas as dificuldades em concretizar esses objetivos apenas começavam no momento de formação. O aparato institucional formalmente excluía as mulheres do acesso aos instrumentos de conhecimento e domínio do cânon. A academia reconhecia a possibilidade de as artistas do sexo feminino pertencerem a seus membros, desde 1770, todavia o processo para que fossem eleitas seguia outros caminhos diversos dos masculinos. Teriam de contar com uma indicação real que atestasse serem excepcionais, e ainda assim só poderiam ser recebidas até o número máximo de quatro. Na prática, decretava-se do ponto de vista do patriarcado que apenas as mulheres “extraordinárias” poderiam fazer parte e pertencer à instituição.

Nos “Untitled Film Stills” não existe uma grande personagem feminina, mas mulheres estereotipadas e também a inexistência da figura masculina. As sessenta e nove heroínas solitárias mapearam uma constelação particular de feminilidade fictícia que tomou conta do pós-guerra nos Estados Unidos da América, período da juventude de Sherman, e esta fase representou o marco zero da mitologia contemporânea. Na série Cindy Sherman produziu curiosamente 69 fotografias nas quais personifica estereótipos de mulheres advindas do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos). A artista utiliza o princípio dos stills cinematográficos, fotografias cujo objetivo é criar interesse para que compreendam a tópica da reprodutibilidade técnica no cinema e na fotografia. De maneira que tais fotografias tornem-se interessantes o suficiente para despertar o desejo merceológico. Ela pretende criar esse sentimento de desejo, deixando ao espectador a função da imaginação e da própria contextualização da fotografia num contexto espaço/tempo. Suas fotografias apresentam cenas e estereótipos de mulher que são reconhecíveis e familiares ao observador, mas que, por outro lado, não reportam a nenhuma cena ou personagem em sua particularidade intrínseca.             

Moulin Rouge! recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz (Nicole Kidman), vencendo em duas categorias de Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Tornou-se o primeiro filme musical a receber uma cobiçada indicação de Melhor Filme desde A Bela e a Fera (1991). Apesar do sucesso esmagador do filme, Baz Luhrmann foi notavelmente excluído da lista de Melhor Diretor; comentando sobre isso durante a cerimônia do Oscar, a apresentadora Whoopi Goldberg comentou: “Acho que Moulin Rouge! se dirigiu sozinho”. Além disso, a única música original do filme, “Come What May”, foi desqualificada da consideração de Melhor Canção Original porque foi originalmente pretendida, embora não utilizada, para o filme anterior de Luhrmann, Romeu + Julieta, e não escrita expressamente para Moulin Rouge! Empatou com O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel por liderar doze indicações no 55º British Academy Film Awards e resultou em três vitórias, incluindo Melhor Ator Coadjuvante Jim Broadbent. O musical também liderou o 59º Globo de Ouro, ao lado do drama Uma Mente Brilhante (2001), cada um recebendo seis indicações; ganhou três, incluindo Melhor Filme - Musical ou Comédia. Outras cerimônias notáveis ​​onde recebeu muito reconhecimento incluíram o American Film Institute Awards, o Australian Film Institute Awards e o Satellite Awards. Vários órgãos de prestígio, como o National Board of Review e o PGA Awards, o nomearam o melhor filme do ano. Foi o último filme musical a ganhar o prêmio de Melhor Filme da NBR até Wicked em 2024.

Bibliografia Geral Consultada.

SOBOUL, Albert, A Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964; FOURIER, Charles, L’orde Subversif Trois Texts Sur la Civilisation. Paris: Editeur Aubier Montaigne, 1972; TRISTAN, Flora, Le Tour de France. Journal Inédits 1843-1844. Paris: Éditions Tête de Feuilles, 1973; CHOMSKY, Noam, USA: Mito, Realidad, Acracia. Barcelona: Editorial Ariel, 1978; FISCHER, Ernest, A Necessidade da Arte. 9ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Einaudi Editore, 1986; DOR, Joël, O Pai e sua Função em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991; LISBOA, João, Superstars: Andy Warhol e os Velvet Underground. Lisboa: Editor Assírio & Alvim, 1992; SANTOS, Maria Irene Ramalho Sousa, Literatura Norte-americana. Lisboa: Universidade Aberta, 1998; DURAND, Gilbert, Mythe, Thèmes et Variations. Paris: Éditions Desclée de Brouwer, 2000; CASTRO, Dana, La Mort Pour de Faux et la Mort Pour de Vrai. Paris: Editeur Albin Michel, 2000; BERGSON, Henri, Ensaios sobre os Dados Imediatos da Consciência. Lisboa: Edições 70, 1988; Idem, Matéria e Memória. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001; CAWTHORNE, Nigel, A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004; BUTLER, Judith, Cuerpos que Importan: Sobre los Limites Materiales y Discursivos del “Sexo”. Buenos Aires: Ediciones Paidós, 2008; BERMAN, Marshall, Tutto ciò che è Solido Svanisce nell`aria. L`Esperienza della Modernità. Bologna: Editore Il Mulino, 2012; GABRIEL, Mary, Amor & Capital: A Saga Familiar de Karl Marx e a História de Uma Revolução. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2013;  AGUIAR, Daniella, Da Literatura para a Dança: A Prosa-poética de Gertrude Stein em Tradução Intersemiótica. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Instituto de Letras. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2013; GILBERY, Ryan, “Baz Luhrmann: Nunca esperei permissão para fazer nada”. In: The Guardian, 24 de abril de 2018; LEE, Janet W. “Como um Filme de Bollywood Inspirou Baz Luhrmann a Levar Moulin Rouge para a Broadway”. In: Yahoo! Entretenimento, 2020; YEE, Hannah-Rose, “Como Moulin Rouge quebrou todas as regras da produção cinematográfica e se tornou um ícone cinematográfico”. In: Vogue, 6 de maio de 2021; WARD, Sarah, “EPiC: Elvis Presley in Concert de Baz Luhrmann e Christy de David Michôd Marcam Estreias Mundiais no TIFF”. In: Variety, 22 de julho de 2025; entre outros.