“Não existe antídoto mais poderoso contra a baixa sensualidade do que a adoração da beleza”. Denis Diderot
Museu em Paris abre visitação para naturistas.
Denis
Diderot nasceu na Champanha (1713-1784) e começou sua educação formal no Colégio Jesuíta de
Langres, na França. Seus pais eram Didier Diderot (1685–1759), um cuteleiro, e sua esposa
Angélique Vigneron (1677–1748). Três dos cinco irmãos de Diderot chegaram à
idade adulta, Denise Diderot (1715–1797), Pierre-Didier Diderot (1722–1787) e
Angélique Diderot (1720–1749). Ingressou no colégio jesuíta de Langres em 1723
(data mais provável). O ensino fornecido pelos jesuítas, que detinham o
monopólio da educação secundária na França de então, enfatizava o ensino das
línguas clássicas (grego e latim) e uma atenção rigorosa às orações católicas,
o que visava a atenuar a influência humanista e secular. Diderot foi um aluno
muito perspicaz e recebeu até mesmo algumas menções honrosas e premiações em
virtude de seu excelente desempenho escolar. Em 1726, o bispo de Langres
concede, a Diderot, a “tonsura”, uma cerimônia religiosa em que o bispo dá um
corte no cabelo do ordinando ao conferir-lhe o primeiro grau de Ordem no clero,
chamado também de prima tonsura. Tudo indicava que o jovem Denis seguiria uma
carreira eclesiástica. A família de Diderot esperava que ele herdasse a
prebenda de seu tio, o cônego Didier Vigneron. Contudo, por uma série de
infortúnios (o testamento em que o tio legava a prebenda ao sobrinho se tornou
inválido porque só chegou a Roma após a morte de seu autor), Diderot não
recebeu o benefício esperado, embora recebesse a alcunha de abade (abbé)
por parte de seus concidadãos.
Por
motivos ainda não inteiramente esclarecidos, em 1728, aos dezesseis anos,
Diderot parte para Paris e passa a frequentar o colégio de Harcourt (Liceu
Saint-Louis). Em 1732, recebe o grau de mestre em artes na Universidade de
Paris. Pouco se sabe sobre os primeiros anos de Diderot em Paris. Sabe-se que
considerou a possibilidade de estudar direito, que sua conduta foi motivo de
preocupação para seu pai e que passou por dificuldades financeiras. Diderot
iniciou sua carreira como tradutor. Em 1743, ele traduz a Grecian History,
de Temple Stanyan. É, contudo, a tradução de An Inquiry Concerning Virtue or
Merit, de Ashley-Cooper, 3º Conde de Shaftesbury, sob o título Essai sur
le Mérit et la Vertu, publicado em 1745, que Diderot se torna um pouco mais
conhecido. A primeira peça relevante da sua carreira literária é Lettres sur
les aveugles a l`usage de ceux qui voient, em que sintetiza a evolução do seu
pensamento desde o deísmo até ao ceticismo e o materialismo ateu, e tal obra
culminou em sua prisão. Sua obra-prima é a edição da Encyclopédie (1750-1772)
ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, onde
buscou reportar todo o conhecimento que a humanidade havia produzido até sua
época. Demorou 21 anos para ser editada, e é composta por 28 volumes. Mesmo
que, na época, o número de pessoas que sabia ler fosse pouco, ela foi vendida
com sucesso. Denis conseguiu uma fortuna. Deu continuidade com empenho e
entusiasmo apesar de alguma oposição da Igreja Católica e dos poderes
estabelecidos. Escreveu também algumas outras peças teatrais de pouco êxito.
Destacou-se particularmente nos romances, nos quais segue as normas dos
humoristas ingleses, em especial de Sterne: A Religiosa, O Sobrinho
de Rameau, Jacques, o fatalista e seu mestre. Escreveu vários
artigos de crítica de arte. Foi um dos primeiros autores que fizeram da
literatura um ofício, mas sem esquecer jamais que era um filósofo.
O corpo, notoriamente, percorre a história da ciência e da filosofia. De Platão a Bergson, passando por Descartes, Espinosa, Merleau-Ponty, Freud, Marx, Nietzsche, Weber e Foucault, a definição de corpo demonstra um puzzle. Quase todos reconhecem a profusão da visão dualista de Descartes, que define o corpo como uma substância extensa em oposição à substância pensante. Podemos perceber que seguindo este modo de compreensão, sobretudo com o advento da modernidade, o corpo foi facilmente associado a uma maquina. O corpo foi pensado como um mecanismo elaborado por determinados princípios que alimentam as engrenagens desta máquina promovendo o seu bom funcionamento. Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e domínio que constituem a ascese necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – da verdade do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo.
Neste
aspecto Michel Foucault nos adverte sobre a questão abstrata da analítica
do poder que se constitui o marco histórico e pontual de “docilidade dos corpos”.
Para ele o soldado é, antes de tudo,
alguém que se reconhece de longe; que leva os sinais naturais de seu vigor e
coragem, as marcas também de seu orgulho: seu corpo é o brasão de sua força e
de sua valentia: e se é verdade que deve aprender aos poucos o ofício das armas
– essencialmente lutando – as manobras como a marcha, as atitudes como o porte
da cabeça se originam, em boa parte, de uma retórica corporal de honra. Eis
como ainda no início do século XVIII se descrevia a figura ideal do soldado.
Mas na segunda metade deste século, o soldado se tornou algo que se fabrica; de
uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa;
corrigiram-se aos poucos as posturas: lentamente uma coação calculada percorrer
cada parte do corpo, assenhoreia-se dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente
disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo,
foi “expulso o camponês” e lhe foi dada a “fisionomia de soldado”. Ipso facto,
houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo de
poder. Encontraríamos sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo
que se manipula, modela-se, treina-se, que obedece, responde, torna-se hábil ou
cujas forças se multiplicam descrito como “homem-máquina”.
O
grande livro do homem-máquina foi descrito simultaneamente em dois registros:
no anátomo-metafísico, cujas primeiras páginas haviam sido escritas por
Descartes e que os médicos, os filósofos continuaram; o outro,
técnico-político, constituído por um conjunto de regulamentos militares, escolares,
hospitalares e por processo empíricos e refletidos para controlar ou corrigir
as operações do corpo. Dois registros bem distintos, pois se tratava ora de
submissão e utilização, ora de funcionamento e de explicação: corpo útil,
corpo inteligível. E, entretanto, de um ao outro, pontos de cruzamento. “O
homem-máquina” de Julien Offray La Metrie (1709-1751) é ao mesmo tempo uma redução
materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos
quais reina a noção de “docilidade” que une ao corpo analisável o corpo
manipulável. Em sua significação específica é dócil um corpo que pode ser
submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado.
Contudo, os famosos autômatos, por seu lado, não eram apenas uma maneira de ilustrar
o organismo; eram também, na falta de melhor expressão, bonecos políticos, modelos reduzidos de poder: obsessão
de Frederico II (1712-1786), rei minucioso das pequenas máquinas, dos
regimentos bem treinados e dos longos exercícios.
Para
Michel Foucault metodologicamente a questão a responder é a seguinte: Nesses
esquemas de docilidade, em que o século XVIII teve tanto interesse, o
que há de tão novo? Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de
investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está
preso no interior de poderes mito apertados, que lhe impõem limitações,
proibições ou obrigações. Muitas coisas, entretanto, são novas nessas técnicas.
A escala, em primeiro lugar, do controle; não se trata de cuidar do corpo,
massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalha-lo
detalhadamente; de exercer sobre el uma coerção sem folga, de mantê-lo ao mesmo
nível prático da mecânica – movimentos, gestos, atitudes, rapidez: poder
infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou
mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas
a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz
mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que realmente
importa é a do exercício. A
modalidade, enfim, implica uma coerção ininterrupta, constante, que vela sobre
os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo
com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos.
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que
realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade, são o que podemos chamar disciplinas. Muitos
processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos,
nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos
XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Diferentes da escravidão, pois não
se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da
disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de
utilidade pelo menos igualmente grandes. Mas também ocorre que são diferentes
também da domesticidade, que é uma relação social de dominação constante,
global, maciça, não analítica, ilimitada e estabelecida sob a forma de vontade de
poder singular do patrão, sendo quase seu “capricho”. Diferentes da vassalidade
que é uma relação de submissão altamente codificada, mas longínqua e que se
realiza menos sobre as operações do corpo que sobre os produtos do trabalho e
as marcas rituais de obediência. Diferentes do ascetismo e das “disciplinas” de
tipo monástico, que têm por função realizar renúncias mais do que aumentos de utilidade
e obediência, têm como fim um aumento do
domínio de cada um sobre seu próprio corpo.
O
momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo
humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco
aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o
torna tanto uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma
manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus
comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o
esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também
igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter
o domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se
quer, mas ara que operem como se quer, com as técnicas segundo a rapidez e a
eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados,
corpos dóceis. A disciplina aumenta as
forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas
forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela associa o poder
do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura
aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar
disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica
separa a força e o produto do trabalho, a coerção disciplinar
estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma
dominação acentuada.
Entendida como consumo cultural, a prática do culto ao corpo situa-se como preocupação geral de mobilidade social, que perpassa as estratificação de classes sociais e faixas etárias, apoiada num discurso clínico difuso que se refere tanto a questão estética, quanto a preocupação alimentar com a saúde. Nas sociedades contemporâneas há uma crescente apropriação do corpo, com a dieta alimentar e o consumo excessivo de cosméticos, impulsionados pelo processo de massificação da propaganda/consumo a desde o desenvolvimento econômico dos anos 1980, onde o corpo ganha mais espaço, principalmente nos meios midiáticos. Nesse sentido, as fábricas de imagens estéticas do vencedor como o cinema, televisão, publicidade, revistas etc., têm contribuído para isso. Ipso facto, nos leva a pensar que a imagem da eterna fonte de juventude, associada ao corpo perfeito e ideal, ao sucesso na educação, no trabalho e na vida amorosa atravessa as etnias e classes sociais, compondo de maneiras diferentes diversos estilos de vida.
Mas essa soberania amplia-se numa experiência onde a relação assume a forma, não somente de uma dominação, mas de “um gozo sem desejo e sem perturbação”. É possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Mas uma espécie de idade de ouro na chamada “cultura de si”, sendo subentendido com isso, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais. Ou seja, aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar. Ademais, é reconhecida a amplitude ética tomada historicamente em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio. Para ele é para consagrar-se a esta ética que é preciso renunciar às outras ocupações: poder-se-ia desse modo tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de um vocabulário para designar as formas que o “cuidado de si” deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. Apressa-te, para o objetivo: - “dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível”.
Caio Musônio Rufo, célebre filósofo estoico do primeiro século e professor de Epiteto, recomendava vivamente as formas naturais que lhes permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida social transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde admitimos que os desejos ficam apaziguados, para consagrar-se sendo Sêneca, no trabalho filosófico ou, como referia Spurrima, na calma de uma existência agradável e feliz, “à posse de si próprio”. Esse tempo não é vazio, mas povoado por exercícios, tarefas práticas, atividades diversas em seu dia a dia.
Ocupar-se de si não é sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os quais devemos tratar sem os excessos da chamada técnica de perfeição da corpolatria, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades físicas. Existem as meditações, as leituras, as anotações ou conversações, e que mais tarde serão certamente relidas. A rememoração das verdades religiosas ou científicas que já se sabe, mas de que convém reapropriar-se ainda melhor cotidianamente com a escrita e o treinamento da memória. Marco Aurélio exemplifica a anacorese expressa em si próprio, de reativação de princípios e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar na coletividade com os outros, outrossim, com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Trata-se de um longo trabalho disciplinar de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros, com as picuinhas e nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si. Ela não constitui um exercício da solidão.O exercício da leitura, da reflexão e da escrita já se tratava de uma verdadeira prática social, isto é, consumindo a unidade teoria e prática, em vários e múltiplos sentidos, da forma vitalista, biopsíquica.
Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino técnico e dos profissionais da direção da alma. Ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do “cuidado de si”, faz-se apelo ao outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito através do hábito, da cultura, da formação. E é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda ao outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode lhe dar. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais ele dá uma nova “coloração” e um calor maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então como uma intensificação das relações sociais. Sêneca dedica um consolo à sua mãe, no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de serviço da alma que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas, de interpretação e de camaradagem, de conflito e sociabilidade.
No oceano da linguagem progressivamente disseminado, mundo sem margens e sem âncoras, cada discurso particular atesta a ausência do lugar que, no passado, era atribuído pela organização de um cosmos e, portanto, a necessidade de cortar para si um lugar por uma maneira própria de tratar um departamento por língua. Noutros termos, pelo fato de perder seu lugar, o indivíduo nasce como sujeito. O lugar que lhe era outrora fixado por uma língua cosmológica, ouvida como uma vocação e colocação numa ordem do mundo torna-se agora um nada, uma espécie de vácuo, que obriga o sujeito a apoderar-se de um espaço, colocar-se a si mesmo, segundo Michel de Certeau, “como um produtor da escritura”. A ideologia dominante se muda em técnica, tendo por programa essencial fazer uma linguagem e não mais lê-la. A própria linguagem deve ser fabricada: “escrita”. Não há direito que não se escreva sobre corpos. Ele domina o corpo. A própria ideia de indivíduo isolável do grupo se instaurou com a necessidade, sentida pela justiça penal, de corpos que devem ser marcados por um castigo e, pelo direito matrimonial, de corpos que se devem marcar com um preço nas transações entre coletividades. Do nascimento ao luto, o direito se apodera dos corpos para fazê-los seu texto. Seja como for, sempre é verdade que a lei se inscreve sobre os corpos.
Daí importância social e afetiva de se compreender no campo da imagem, de sua reprodução, recepção, influência, de sua relação com o sonho, o devaneio, a criação e a ficção, a substituição das mediações pelos meios de comunicação, posto que contenha em si uma possibilidade de violência, a partir da constituição do novo regime de ficção que hoje afeta, contamina e penetra a vida social. Ipso facto é que temos a sensação de sermos colonizados, mas sem saber precisamente por quem: pelas práticas autoritárias do Estado, a política, futebol, arte, música, drogas, ecologia, raça, etnia, poder, consumo, trabalho, rede mundial de comunicação - “Internet, nacionalidade, cultura, sexualidade, honra, prestígio, etc. O inimigo não é facilmente identificável e, a partir daí é normal questionar-se sobre o papel da cultura ou da ideia que fazemos dela nestes últimos 150 anos. Decisivamente, é a mídia que forma e conforma, ou influencia as nações e nacionalidades. E não há dúvida de que as situações culturais e sociais em que se inserem os indivíduos e as coletividades são fundamentais no processo de elaboração ou desenvolvimento da consciência.
Embora os princípios da ética naturista sejam praticamente universais existem diferenças, de nível social de cada país nas regras de conduta definidas pelas Federações nacionais. O código de ética naturista aprovado pela Federação Brasileira de Naturismo especifica e reforça práticas sociais que garantem o bem-estar comum. Os naturistas cristãos são os cristãos que praticam o naturismo ou o nudismo, representando uma parte do movimento naturista/nudista. Compreendem e creem que o corpo humano foi a maior criação de Deus, portanto não pode ser vergonhoso nem precisa ser escondido. Naturistas cristãos podem ser vistos em quase todas as denominações da cristandade, “sem nenhum conflito com os ensinos da Bíblia, vivendo as suas vidas e adorando a Deus sem nenhuma roupa”. Entretanto a maioria tem vários desacordos com a filosofia da “Nova Era” e o humanismo que é comum entre os outros naturistas. Isto inclui a rejeição absoluta de todas as formas de adoração à natureza.
A palavra naturismo provém do francês naturisme, que é a doutrina filosófica que se baseia num modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o autorrespeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o ambiente. Difundido a partir do período de entre-guerras do século XX que se estende do fim da 1ª grande guerra, em 11 de novembro de 1918, até o início da guerra mundial, em 1° de setembro de 1939, em alguns países da Europa, especialmente Alemanha, França e Países Baixos, o naturismo chegou ao mundo ocidental e se notabilizou pela sua prática mais marcante: o nudismo. Em vários países foram oficializadas algumas praias para a prática do nudismo. Existindo assim parques de campismo, piscinas e outros locais de acesso condicionado onde se pratica a nudez social. A prática ocorre de forma livre em praias de forma mais ou menos generalizada, e aceite, em particular em zonas mais afastadas dos restantes banhistas.
O naturismo gospel é assim chamado, por que seus praticantes e defensores da doutrina afirmam que é uma forma de representação para se aproximar da natureza e consequentemente de Deus. Para estes adeptos cristãos é uma relação social normal praticar o naturismo, que é visto como uma forma de religação coma comunhão com Deus. Os defensores desta prática argumentam que o nudismo é de Deus e que é algo imanente da natureza.Encaram como se fosse à última revelação dada pelo altíssimo desde os tempos que o evangelista João esteve na ilha de Patmos. Uma igreja no Estado norte-americano da Virginia o pastor e os congregados celebram os cultos nus. Contudo, a prática do nudismo não ficará em locais próprios para isso, como praias, por exemplo, o ato já está chegando a algumas igrejas do Brasil e essa novidade não vem agradando algumas pessoas. De acordo com dados de sites gospel muitos evangélicos estão praticando nudismo dentro das congregações, influenciados pelos denominados “Naturistas cristãos” da Pensilvânia (EUA) que estão ganhando seguidores no Brasil.
William Penn garantiu o direito de liberdade de expressão religiosa dentro de sua colônia. Penn planejou pessoalmente o primeiro assentamento inglês permanente, nomeando-o de Filadélfia. A cidade foi fundada em 1685. Penn posteriormente explorou o interior da colônia, e pagando aos nativos indígenas pelas terras que o Rei Charles II lhe dera. Além disso, Penn instituiu as nações indígenas tratamento igualitário com relação a um branco em julgamentos. Isto fez com que os indígenas e os colonos europeus tivessem boas relações até meados do século XIX — mais do que em qualquer outra colônia do nordeste dos Estados Unidos. Graças à noção de liberdade de expressão religiosa, muitos escoceses, irlandeses e alemães instalaram-se no estado. A Pensilvânia é um dos estados mais industrializados e urbanizados norte-americano, tendo sido um dos berços da industrialização que se iniciou em meados do século XIX.
A Pensilvânia é uma grande produtora de produtos alimentícios e de produtos químicos e eletrônicos em geral. A Pensilvânia é famosa pela região de Pennsylvania Dutch, localizado no sul do estado. A região é famosa pela sua cultura, especialmente culinária e arquitetura alemã, e pela sua grande população de origem alemã. Em inglês, Pennsylvania Dutch significa “Pensilvânia holandesa”, fazendo com que muitos anglófilos pensem que a região tenha sido habitada por imigrantes de origem neerlandesa. De fato, o nome “Dutch” foi uma derivação da palavra alemã “deutsch”, que significa alemão na língua alemã e é também a origem do nome Neerlandês em inglês. A região de Pennsylvania Dutch é famosa nos Estados Unidos e no Canadá, sendo uma região de cunho turístico, histórico e preservação cultural da Pensilvânia. A população da Pensilvânia é majoritariamente branca em áreas como o norte do estado e em torno de Pittsburgh. Já a região metropolitana de Filadélfia e os condados que a cercam possuem grandes números de afro-americanos, hispânicos, asiáticos e árabes.
A prática social que já tem se consolidado em países como os Estados Unidos da América e Austrália, também chegou ao Brasil. Porém de forma naturalmente aindatímida. Do pastor às crianças, da avó à irmã mais jovem, quase ninguém se esquiva dessa forma pouco formal de louvor. E não são poucos os adeptos desta prática. Eles se chamam “naturistas cristãos”. Os fiéis da igreja White Tail, em Southampton, ficam nus durante o culto, e acompanham atentamente o sermão do pastor Allen Parker. - “Todos os frequentadores de nossa igreja são apenas seres humanos. Sem riqueza pessoal ou aparência glamorosa, todas as pessoas são iguais”, justifica o pastor Parker. No Brasil prática do nudismo tem crescido entre evangélicos, mas não apenas nos locais destinados aos encontros sociais sem roupa, como praias, por exemplo, mas também em templos durante a celebração dos cultos e em reuniões de leitura da Bíblia e oração.
Após este período o naturismo começou a se difundir, não só na Europa, mas também nos Estados Unidos da América. Hoje muitos países contam com adeptos do movimento, embora a aceitação da prática seja desigual, consoante suas culturas dos vários países. Em 1974 a Federação Internacional de Naturismo definiu os princípios naturistas, que é a definição atual de naturismo adotada por todas as entidades naturistas do mundo: - “Um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o autorrespeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o ambiente”.A relação entre nudez coletiva e desenvolvimento do indivíduo está no conceito de “aceitação do corpo”, na descoberta de que o corpo é um todo não havendo divisão entre honra e o indecoroso. Ao conviverem com a nudez do próximo não são chocados nem agredidos pelo corpo e sentem que o respeito é possível sem artifícios. Em contato com a própria essência e deixando para trás o que é acessório. - “somos todos iguais, apesar das diferenças”.
A
Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), como meio de garantir um padrão ético
de comportamento entre suas áreas filiadas, edita as seguintes Normas Éticas
aprovadas em Assembleia Geral Extraordinária, no dia 07 de dezembro de
1996 no Sitio Ibatiporã, em Porto Feliz - São Paulo: 1 – Falta Grave - As
condutas abaixo relacionadas, com grau de intensidades examinado pelos
Conselhos Deliberativos dos Clubes, em primeira instância, e pelo Conselho
Maior da FBrN, em segunda e última instância, são motivos para expulsão de seus
agentes dos quadros sociais e das áreas naturistas regidas pelas entidades
filiadas à FBrN. Ter comportamento sexualmente ostensivo e/ou praticar atos de
caráter sexual ou obscenos nas áreas públicas; Praticar violência física como
meio de agressão a outrem; Utilizar meios fraudulentos para obter vantagens
para si ou para terceiros; Portar ou utilizar drogas tóxicas ilegais; Causar danos
à imagem pública do Naturismo ou das áreas naturistas.
2 – Comportamento
Inadequado - As
condutas relacionadas, com grau de intensidade e reincidência examinadas
pelos Conselhos na forma referida no Item 1, constituem motivos para
advertências, suspensão e expulsão dos seus agentes dos quadros sociais e das
áreas regidas pelas entidades filiadas à FBrN. Concorrer para a discórdia por
intermédio de propostas inconvenientes com conotação sexual; Fotografar, gravar
ou filmar outros naturistas, sem a permissão dos mesmos; Utilizar aparelhos
sonoros em volume que possa interferir na tranquilidade alheia, e/ou
desrespeito aos honorários de silêncio regulamentados; Causar constrangimento
pela prática de atitudes inadequadas; Portar-se de forma desrespeitosa ou
discriminatória permanente e, relação a outros naturistas ou visitantes; Deixar
lixo em locais inadequados; Provocar danos à flora e à fauna, ou à imagem do
Naturismo; Satisfazer necessidades fisiológicas em áreas impróprias, ou
exceder-se na ingestão de bebidas alcoólicas, causando constrangimento a outros
naturistas; Utilizar assentos de uso comum sem a devida proteção higiênica; Apresentar-se
vestido em locais e horários exclusivos de nudismo, sendo tolerado às mulheres
o top less, durante o período menstrual. As presentes Normas Éticas
do Naturismo Brasileiro (NENB) – devem ser fixadas em locais públicos e
visíveis, além de distribuídas e divulgadas entre naturistas e visitantes das
áreas de prática naturista filiadas à FBrN.
A questão de gênero tem definido, tradicionalmente, a interpretação brasileira de suas próprias práticas sexuais. Desde o início do período colonial até nossos dias, um sistema de proibições religiosas relativamente formais, se bem que nem sempre inflexível, reforçou as divisões técnicas entre masculino e feminino e ao mesmo tempo, ampliou o significado implícito das próprias relações sexuais, envolvendo-as numa economia simbólica diferente, questionando-as em termos não apenas de seus significados na vida cotidiana normal, mas de suas repercussões na vida eterna. Essa ênfase nas implicações internas dos atos sexuais confirma a ideologia das relações de gênero para a percepção do universo sexual, através de modernização conservadora que têm marcado a vida brasileira para o que poderia parecer à primeira vista uma estrutura conceitual marcadas de ideias científicas e pseudocientíficas sobre a vida sexual, altamente racionalizadas, oriundas grandemente dos progressos na psicologia, sexologia e sociologia e mesmo das ideias protofascistas europeias, mas que não trataremos agora. Acreditamos que, em nenhum espaço e lugar contemporâneo a variação e multiplicidade fundamentais dessa configuração são mais evidentes desde os primórdios da colonização como aquilo que se descreve como o “domínio da experiência erótica”.
Historicamente desde o início do período colonial até nossos dias, um sistema de proibições religiosas relativamente formal, se bem que nem sempre inflexível, reforçou as divisões de gênero e, ao mesmo tempo, amplificou concretamente o significado implícito das próprias relações sexuais, envolvendo-as numa economia simbólica diferente, questionando-as em termos não apenas de seus significados na vida cotidiana normal, mas de suas repercussões na vida eterna. Isto porque, antes como depois, unindo a questão do significado à do poder, e existindo simultaneamente para a grande maioria dos brasileiros contemporâneos, os conceitos de gênero na cultura popular, a renúncia à carne na ideologia cristã e a interrogação de desejos perigosos no moderno pensamento científico e médico delineiam um quadro elaborado de possíveis práticas sexuais, algumas definidas como permitidas, outras como proibidas. Em resumo, o conceito de sacanagem liga noções de agressão e hostilidade, brincadeira e diversão, excitação sexual e prática erótica num único complexo simbólico. Para os brasileiros é no domínio erótico que a transgressão sexual não apenas se torna possível, mas de fato altamente valorizada. Estes avanços são deslocamentos do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) produzidos no embate entre o poder patriarcal e as forças emergentes que visam em última instância emancipar a alteridade como instituição social. É uma prática com características novas como o próprio Brasil e sua inserção no contexto de âmbito global.
Bibliografia geral consultada.
DESCAMPS, Marc-Alain, Le Nu et le Vêtement. Paris: Éditions Universitaires, 1972; BOLOGNE, Jean-Claude, Histoire dela Pudeur. Paris: Olivier Urban Editeur, 1986; SIMMEL, Georg, Filosofia doAmor. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993; URBAIN, Jean-Didier, Sur la Plage: Moeurs et Coutumes Balnéaires. Paris: Payot & Petit Rivages, 1994; COBRA, Geny de Oliveira, Corpo e Identidade: Um Estudo Funcional da Organização Biopsíquica da Identidade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1999; REIS, João Paulo Cordeiro, Da Praia aos Poros: Uma Etnografia do Naturismo na Praia de Abricó (Rio de Janeiro). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2008; AZEREDO, Verônica Pacheco de Oliveira, O Corpo em Nietzsche a partir de uma Leitura da Genealogia da Moral. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Instituto de Filosofia, Artes e Cultura. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2008; AMARAL, Marcela Corrêa Martins, Culto ao Corpo e Estilo de Vida entre as Mulheres. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Instituto de Ciências Sociais. Departamento de Sociologia. Brasília: Universidade de Brasília, 2009; OLIVEIRA, Eduardo Carrascosa de, O Naturismo e os Paradoxos da Identidade na Sociedade Contemporânea. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2012; MORRIS, Nina Jane, Feeling Nature: Naturism, Camping, Environment and the Body in Britain, 1920-1960. Thesis Doctor of Philosophy. Reino Unido: University of Hull, 2013; APROBATO, Valéria Cristiane, Culturas do Corpo e da Juventude nas Redes Sociais Digitais: Uma Cartografia dos Imaginários Midiáticos e do Culto de Celebridades no Instagram. Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2018; VIEIRA, Marina Cavalcante, Figurações Primitivistas: Trânsitos do Exótico entre Museus, Cinema e Zoológicos Humanos. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2019; entre outros.
“Nada capta mais o interesse humano do que uma tragédia humana”. Dan Brown
O
leitor contemporâneo facilmente associará a primeira obra de Musil, O Jovem
Törless, com as investigações freudianas. - “A aguçada consciência que Musil
tem do papel da repressão na história da cultura levaria a imaginar que Musil
teria sentido forte afinidade eletiva por Freud.” – diz J. M. Coetzee na sua
reflexão sobre o autor austríaco. E os contemporâneos de Musil eram da mesma
opinião. Musil foi saudado como “o mais sexual” de quase todos os escritores
vienenses, mas ele mesmo recebeu esse título com sentimentos mitigados. É de
fato uma tentação ler o primeiro romance e as novelas Uniões (Vereinigungen,
1911) de Musil à luz dos conceitos freudianos. Quem tem em mente esse pano de
fundo, verá Törless quase como uma exemplificação da constituição polimórfica e
perversa da sexualidade infantil e adolescente. Cabe mencionar que Musil escreveu
essa história entre 1902 e 1905, antes de ter acesso ao famoso ensaio de Freud,
Três Ensaios sobre a Sexualidade (1999), embora a demora da publicação
do Törless (1906) possa dar a impressão contrária, sugerindo a influência de
Freud sobre Musil.
Segundo Rosenfield (2012) por mais
que Musil tenha se reservado até o fim de sua vida, existem nítidas afinidades
com Freud – embora Freud não tenha tido influência direta sobre Musil antes dos
anos 1907. Nos anos em que redigiu o primeiro romance, Musil não lera nem os Estudos
sobre Histeria, nem a Interpretação dos Sonhos (1900). Mas mesmo se
Musil tivesse conhecimentos psicanalíticos, Törless seria original e interessante
para os psicanalistas da época, pois representa inúmeras estruturas que Freud
analisará somente em obras posteriores. A história dos três adolescentes que exploram
o furto cometido por um colega para torná-lo escravo de seus desejos sádicos pode
ser lido como uma exemplificação da longa série de “pulsões e destinos da pulsão”
que decorrem do conflito de ambivalência – isto é, do bloqueio do desejo (libidinal,
sexual) por dois impulsos contrários que inibem e fragmentam a pulsão, desviando-a
para sucedâneos (insatisfatórios ou não totalmente satisfatórios).
As
humilhações e torturas sociais impostas a Basini prolongam uma série de passatempos
graças aos quais eles tentaram em vão preencher seus vazios e carências. Uma
hesitação imatura e quase infantil os impede de viver plenamente seus desejos
sexuais e os expõe às provocações pouco gentis da prostituta local. Essa
insatisfação que surge de inibições e recalques diversos resulta em tentativas
dúbias de encontrar satisfações substitutivas (Ersatz). Mas tal como
Freud mostrará nos seus escritos posteriores, também os adolescentes de Musil
acirram nessas tentativas sucessivas a veemência da demanda de fundo. Das
experiências com Bozena aos rituais com Basini ocorre uma escalada inquietante
de agressividade e crueldade. Freud mostrará, anos mais tarde, que essa
agressividade se deve aos restos da pulsão sexual que se manifesta a partir do inconsciente.
A crua exposição da violência no romance de Musil não era intencionada como um
manifesto contra a educação ou as relações sociais. Como o pai da Psicanálise,
Musil concebe os males da sociedade e da política como consequências de um
mal-estar muito mais primário. Para Freud, esse mal-estar está ligado à
sexualidade; para Musil, sobretudo, à elaboração imaginária dela (ou, melhor, à
deficiência dessa elaboração). Num primeiro momento, a analogia das teorias de
Freud com o modo como Musil imbrica os motivos edipianos numa história da
deriva desses desejos inconscientes. Com efeito, tudo indica que o bloqueio do
desejo sexual que visava, primeiro, a mãe, e depois, a prostituta,
transforma-se em múltiplas formas de agressividade física e moral.
A pólvora foi descoberta no Século I, na China, durante a Dinastia Han fundada pelo camponês e líder rebelde Liu Bang. A descoberta foi feita por acidente entre alquimistas que procuravam pelo elixir da longa vida, e as primeiras referências à pólvora aparecem como avisos em textos de alquimia para não se misturarem certos materiais uns com os outros. Por volta do século X a pólvora começou a ser usada com propósitos militares na China na forma de foguetes e bombas explosivas lançadas de catapultas. A primeira referência a um canhão surge em 1126 quando foram utilizados tubos feitos de bambu para se lançarem mísseis contra o inimigo. Eventualmente os tubos de bambu foram substituídos por tubos de metal, e o mais antigo canhão na China data de 1290. Da China, o uso militar da pólvora parece ter se espalhado para o Japão e a Europa. Os árabes aperfeiçoaram o invento no século XIII, quando os canhões passaram a ser produzidos de madeira e reforçados com cintas de ferro. A contribuição decisiva ocorreu quando surgiram os primeiros canhões de bronze, mais seguros, abrem caminho para a evolução social tanto do armamento pesado quanto individualizado. As primeiras armas de fogo portáteis aparecem no século XV.
Eis como ainda no início do século XVII se descrevia a figura ideal do soldado. O soldado é, antes de tudo, alguém que se reconhece de longe; que leva os sinais naturais de vigor e sua coragem, as marcas também de seu orgulho: seu corpo é o brasão de sua força e de sua valentia: e se é verdade que deve aprender aos poucos o ofíciodas armas – essencialmente lutando – as manobras como a marcha, as atitudes como o porte da cabeça se originam, em boa parte, de uma retórica corporal de honra. Na segunda metade do século XVIII, o soldado se tornou algo que se fabrica: a massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa. Corrigiram-se aos poucos as posturas: lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, assenhoreia-se dele, torna-o disponível, e se prolonga na constituição do automatismo dos hábitos que representam uma mudança de simbólica em que foi “expulso o camponês” e dada a “fisionomia de soldado”. Em que a guerra e o estado de mobilização total (cf. Junger, 2004) transforma o rosto das pessoas ao ponto de parecerem autômatos-soldados.
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. O momento histórico revelador das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o “esquadrinha, o desarticula e o recompõe”.
Os soldados ganham outra importância e as táticas e estratégias de guerra mudam completamente. A primeira arma individual amplamente usada em batalhas é o mosquete, criado no século XVI. Mas a invenção é lenta e tem péssima pontaria. No século seguinte, com o fuzil de pederneira, a pontaria melhora, mas muitos disparos falham e o soldado ainda precisa abastecer manualmente a arma com a pólvora e o projétil. No século XIX, a criação dos cartuchos e dos mecanismos de carregamento pela culatra tornou as armas mais confiáveis e impulsionou de vez o mercado da tecnologia bélica. O ponto culminante foi a automação, com a invenção da metralhadora em 1884. Para completar, os modelos de submetralhadoras, fuzis de assalto e pistolas automáticas do final do século XX tornaram mais preciso e perigoso o poder de destruição das armas. A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. A multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, se recordam, se repetem, ou se imitam apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se de seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um método geral.
Qual o motivo das mortes por armas de fogo nos EUA? Houve mais de 90 ataques a tiros - homicídios envolvendo quatro ou mais vítimas - nos Estados Unidos desde 1982. Em abril de 1999, Erick David Harris e Dylan Bennet Klebold entraram na Columbine High School onde estudavam e abriram fogo, matando doze estudantes, um professor e ferindo mais de 30 outras pessoas. O desfecho do massacre se deu com o suicídioegoísta dos dois adolescentes. Nos dias seguintes à tragédia foram descobertas bombas espalhadas pela escola, que falharam em detonar. Este massacre era o que mais chocava a sociedade global até que, na véspera do oitavo aniversário da tragédia de Columbine, Cho Seung-Hui, estudante sul-coreano radicado nos Estados Unidos, matou 32 pessoas da Virginia Polytechnic Institute and State University, e se suicidou em seguida. O rapaz enviou à rede NBC vídeos e fotografias, onde convocava os fracos a fazerem o mesmo que ele. Ele também faz referência a Columbine, citando Harris e Klebold como mártires e fazendo uma ligação real entre os dois macabros eventos. São tragédias individualistas peculiares norte-americanas, de ambiente de pânico, incontrolável, como o de um tiroteio interno numa escola, mas casos ideal-típico “school shooting” ocorreram também na Alemanha, na Suécia e no Canadá.
O cineasta Gus Van Sant afirma que baseou seu filme: Elephant no episódioreconhecido como o Massacre de Columbine, em 1999, o ataque complexo e planejado envolveu o uso de bombas para afastar os bombeiros, tanques de propano convertidos em bombas colocados na lanchonete, 99 dispositivos explosivos, e carros-bomba. Os autores do crime, os alunos seniores Eric Harris e Dylan Klebold, mataram 12 alunos e um professor. Nos países de cultura anglo-saxã, entre outras acepções o termo senior pode designar o aluno do último ano do ginásio, colégio ou faculdade. Eles também feriram outras 21 pessoas e outras três que ficaram feridas enquanto tentavam fugir da escola. Depois de trocarem tiros com policiais a dupla cometeu suicídio. O filme de Van Sant, “Elephant”, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O longa-metragem aborda contradições da vida escolar dos adolescentes nos momentos anteriores aos disparos. Van Sant também recebeu o prêmio de melhor diretor. Em 1999, os Estados Unidos da América (EUA) ficaram horrorizados quando dois adolescentes mataram 12 estudantes e um professor e se suicidaram na escola em que estudavam no Colorado. O diretor disse que quis fazer um filme “que tratasse das personalidades que fizeram parte do acontecimento”. O Massacre de Columbine foi um massacre escolar que ocorreu em 20 de abril de 1999, na Columbine High School, em Columbine, nos EUA uma área não incorporada de Jefferson County, no Colorado.
Eric David Harris (1981-1999) e Dylan Bennet Klebold (1981-1999) foram os dois norte-americanos seniores do ensino médio que cometeram o Massacre de Columbine. A dupla matou 13 pessoas e feriu 24 pessoas. Então, os dois se suicidaram na biblioteca, onde mataram 10 de suas vítimas. O ataque levou mais de um ano de planejamento estratégico, aquisição de armas e construção de bombas. O diário de Eric, em particular, mostra preparação metódica durante um longo período de tempo, incluindo vários experimentos com detonação de bombas. Em comparação, o diário de Dylan inicialmente continha poucas referências à violência, embora, a partir de janeiro de 1999, as referências à violência tenham se tornado mais frequente. O tema prevalente no diário de Dylan era seu desespero secreto por sua falta de sucesso com as mulheres, o que ele chamava de “tristeza infinita”. Por questões anteriores de comportamento, o psiquiatra de Eric o tinha prescrito o antidepressivo SSRI Luvox.
Relatórios de toxicologia confirmaram que Eric tinha Luvox em sua corrente sanguínea no momento do massacre. Eric e Dylan eram fãs de vídeo games como “Doom”, “Wolfenstein” 3D e “Duke” Nukem. Eric criou mapas para Doom, que foram amplamente distribuídos pela rede mundial de computadores; estes mapas ainda podem ser encontrados na internet como “Harris levels”. Rumores de que o esboço destes mapas se assemelhava ao da Columbine High School circularam.. Eric passou muito tempo criando outro grande mapa, chamado “Tier”, dizendo que ele era seu “trabalho de vida”. O mapa foi enviado para um computador da Columbine High School e para a America Online (AOL) um portal e um provedor de serviço online situado em Nova Iorque, parte da Oath, uma divisão da Verizon Communications. A America Online foi uma das pioneiras na rede internet em meados da década de 1990, e a marca mais reconhecia na web dos EUA, pouco antes do massacre. Um pesquisador argumentou que é quase certo que o mapa “Tier” incluía um esboço da Columbine High School.
Eric começou a escrever em um diário em abril de 1998, pouco tempo depois que a dupla foi condenada por arrombar um modelo Van, o qual cada um recebeu dez meses de aconselhamento de intervenção juvenil e serviço comunitário, em janeiro de 1998. Eles começaram a formular planos desde então, como retratado em seus diários.Eric queria se juntar ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, mas seu pedido foi rejeitado pouco antes do massacre, pois ele estava tomando a droga fluvoxamina, um antidepressivo SSRI, que “ele era obrigado a tomar como parte da terapia de controle da raiva ordenada pelo tribunal”. De acordo com o policial de recrutamento, Eric não sabia sobre essa rejeição. Embora alguns amigos tenham dito que ele tinha parado de tomar a droga de antemão, os relatórios da autópsia demonstraram baixos níveis terapêuticos ou normais (não tóxicos ou letais) de Luvox (fluvoxamina) em seu sistema no momento da morte. Após o massacre, oponentes de psiquiatria contemporânea, como Peter Breggin, alegaram que os medicamentos prescritos após sua condenação, ostensiva por transtorno obsessivo-compulsivo, podem ter agravado seu potencial de agressividade.
Em abril de 2009, o professor Aubrey Immelman, Ph. D da College of Saint Benedict and Saint John`s University, publicou o livro: “Columbine: A True Crime Story; A Victim, the Killers and the Nation’s Search for Answers”, que inclui um perfil de personalidade de Eric Harris, com base na naálise dos textos de seu diário e na sua comunicação pessoal. O perfil de Aubrey Immelman acredita que os materiais demonstraram sinais padrões de comportamento consistentes a “narcisismo maligno... transtorno de personalidade narcisista patológico com traços limítrofes e antissociais, além de alguns traços paranoicos e de agressão descontrolada”. O relatório observa que tal perfil não deve ser interpretado como um diagnóstico psiquiátrico direto, mas baseado em entrevistas, testes psicológicos formais e coleta de informações colaterais. Em seu diário, Dylan escreveu sobre sua visão de que ele e Eric eram “semelhantes a Deus” e mais evoluídos do que qualquer outro ser humano, mas seu diário secreto registra auto-aversão e intenções suicidas. Várias páginas estavam cobertas de corações, pois ele estava, secretamente, apaixonado por uma aluna da Columbine High School. Embora os dois tivessem dificuldade para controlar a raiva, no caso de Dylan era mais propenso a problemas do que Eric. Dylan era reconhecido por “fazer juramentos para professores e brigar com seu chefe no Blackjack Pizza”. Alguns vídeos chamados de “The Basement Tapes”, foram retidos do público pela polícia.
Depois de serem presos, o que os dois relataram como a coisa mais traumática pelo que havia passado, Dylan escreveu uma carta para Eric, dizendo que eles teriam muita diversão se vingando e matando policiais, e que sua ira da prisão de janeiro seria “semelhante a Deus”. No dia do massacre, Dylan usou uma camiseta preta com a palavra “IRA” impressa de vermelho. Especulou-se que a vingança por terem sido presos era um motivo possível para o ataque, e que a dupla planejava ter uma batalha de armas maciça com a polícia durante o massacre. Dylan escreveu que a vida não era divertida sem um pouco de morte, e que ele “gostaria de passar os últimos momentos de sua vida em reviravoltas desesperadoras de assassinato e derramamento de sangue”. Ele concluiu dizendo que depois se mataria para deixar o mundo que ele odiava e ir para um lugar melhor. Dylan foi descrito como “cabeça quente, mas depressivo e suicida”. Eric e Dylan supostamente discutiram seus motivos para o massacre nestes vídeos e deram instruções de como fazer uma bomba. A polícia cita o motivo para reter esses vídeos como uma tentativa de evitar que eles se tornem vídeos de “convocação” e de “como fazer”, que poderiam inspirar “assassinos imitadores”.
No momento em que elas se produzem como tragédias parecem que foram inteiramente inventadas por seus autores e, às vezes, estes últimos são condenados pelo desencorajamento que pregam. Na realidade essas morais são mais um efeito do que uma causa. Elas só fazem simbolizar, numa linguagem abstrata e de forma sistemática, o que na sociologia pioneira de Émile Durkheim se denominou “a miséria fisiológica do corpo social”. E como essas correntes são coletivas, elas têm, em consequência dessa origem, uma autoridade que faz com que se imponham ao indivíduo e o empurrem com mais força ainda no sentido para o qual já o inclina o estado de desamparo moral que a desintegração da sociedade suscitou diretamente nele. Assim, no próprio momento em que se liberta excessivamente do meio social, ele ainda sofre sua influência. Por mais individualizado do que seja cada indivíduo, há sempre algo que continua sendo coletivo: a depressão e a melancolia resultantes dessa individuação simplesmente exagerada.
Comungamos na tristeza, quando não temos mais nada para viver em comum. O egoísmo não é apenas um fator auxiliar dele; é sua causa geradora. Se o indivíduo cede ao menor choque das circunstâncias, é porque o estado em que a sociedade se encontra faz dele uma vítima sob a medida para o suicídio. Sabemos que o suicídio é excepcional na criança e que diminui no velho que chega aos últimos limites da vida; é que em ambos, o homem físico tende a tornar-se o homem todo. A sociedade ainda está ausente da criança, que ela não teve tempo de formar à sua imagem; começa a retirar-se do velho ou, o que dá na mesma, ele se retira da sociedade. Facilmente encontra fora um objetivo ao qual possa se apegar. Aonde quer que vá, o primitivo, desde que possa levar consigo seus deuses e sua família, tem tudo o que sua natureza social requer. A presença de pais atuantes e reflexivos no cotidiano comunicativos dos filhos pode contribuir para que modelos de vingança e interpretações distorcidas de atos heroicos violentos sejam questionados e modelos adequados sejam construídos e apresentados aos filhos. O suicídio varia na razão inversa do grau de integração dos grupos sociais de que o indivíduo faz parte, seja a integração religiosa, a integração doméstica ou política.
Mas o número de pessoas mortas assim a cada ano representa apenas uma pequena fração do total. Houve quase duas vezes mais suicídios envolvendo armas de fogo em 2015 do que assassinatos com armas, e essa proporção vem aumentando nos últimos anos. Suicídios por armas de fogo respondem por quase metade de todos os suicídios nos Estados Unidos, de acordo com o “Centro de Controle e Prevenção de Doenças” (CDC). Um estudo de 2016 publicado no periódico científico American Journal of Public Health demonstra análise de dados para uma correlação forte entre os altos níveis de posse de arma em um Estado e maiores taxas de suicídio de homens e mulheres.Foi o pior índice estatístico na história recente dos Estados Unidos - e os três ataques a tiros com maior número de mortos ocorreram nos últimos dez anos. Armas militares de assalto são a razão do grande número de vítimas em ataques como à boate Pulse, em Orlando e à escola Sandy Hook, em Connecticut.
Cerca de 40% dos norte-americanos dizem ter uma arma ou viver em uma casa onde há uma, segundo uma consulta feita do instituto de pesquisa Pew em 2017. O país tem a maior taxa de homicídios com armas de fogo do mundo desenvolvido - houve mais de 11 mil assassinatos desta ordem em 2016. Defensores de restrições usaram o atentado em Las Vegas, que deixou ao menos 58 mortos e mais de 500 feridos, para seus argumentos em prol de regras mais rígidas, enquanto o presidente Donald Trump disse que esse debate “não deve ser travado agora”. Ao mesmo tempo, opositores de medidas do tipo dizem que elas violam a 2ª Emenda da Constituição do país, a qual diz que, “sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido”. Mesmo que seja difícil precisar dados de armas entre civis ao redor do mundo, seja qual for a estimativa, os Estados Unidos lideram com 270 milhões de unidades.
Um estudo da Universidade de Michigan demonstrou que mais de três mil crianças e adolescentes morreram baleados nos Estados Unidos da América em 2016. Segundo a pesquisa, divulgada no New England Journal of Medicine, os incidentes com arma de fogo representaram 15,4% das mortes de todos os norte-americanos com idade entre 1 e 19 anos naquele ano e um quarto dos jovens mortos por ferimentos de qualquer natureza. O relatório estabelece as dez principais causas para as 20.360 mortes de crianças e adolescentes no país em 2016. No ano em que estudo foi realizado, 1.865 jovens foram assassinados a tiros, enquanto 1.852 morreram por defeitos congênitos, doenças cardíacas ou respiratórias crônicas. Outros 1.102 jovens tiraram a própria vida com armas, constituindo metade dos jovens que se suicidaram naqueles 12 meses. Os acidentes com armas vitimaram 126 pequenos, o que representou 26% das mortes de pessoas de 1 a 9 anos e 3% entre os que tinham de 10 e 19 anos. Os autores rechaçam o uso do termo acidente porque os pais deveriam interpretar a quantidade de tantas mortes como um fenômeno social passível de prevenção do controle humano.
A polícia identificou que diversas armas do tipo foram encontradas no quarto onde estava o atirador em Las Vegas. Para quem é de países em que a posse de armas de não é tão comum, pode ser surpreendente descobrir que elas são relativamente baratas nos Estados Unidos. Tendo em mente que 23 armas foram achadas no quarto de hotel de Paddock e outras 19 em sua casa, ele pode ter gasto de mais US$ 70 mil (R$ 218,9 mil) com armas e acessórios como tripés, miras, munição e cartuchos. A opinião pública americana sobre o veto a armas mudou drasticamente nos últimos 60 anos. A base de dados demonstra que o apoio se inverteu com o tempo, e hoje uma maioria significativa é contra, segundo o instituto de pesquisa Gallup. A Associação Nacional do Rifle (NRA) faz campanha contra todas as formas de controle de armas nos Estados Unidos e argumenta que “mais armas tornam o país mais seguro”. Esse é um dos grupos de lobby mais poderosos do país, com um orçamento substancial para influenciar seus membros do Congresso sobre sua posição quanto à política nacional de armas. Em geral, um a cada cinco donos de armas americanos são membros da NRA, que tem amplo apoio entre os republicanos que têm armas, afirma o instituto de pesquisa Pew. Em termos de lobby, a NRA gasta oficialmente cerca de US$ 3 milhões (R$ 9,4 milhões) por ano.
Nos Estados Unidos, as leis sobre armas são encontradas em vários estatutos federais, impostos pelo Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos. O direito de manter e portar armas são protegidos pela 2ª Emenda à Constituição, e amaioria das constituições estaduais também garante esse direito. Há alguma variação em todo o país, pois as leis federais e estaduais se aplicam à posse e posse de armas de fogo. Normalmente há proibição de comprar uma arma de fogo se: é condenado por um crime, ou qualquer outro crime pelo qual pode ter sido condenado a mais de um ano de prisão, ou estão sendo acusados; é um fugitivo da justiça; é condenado por um crime de contravenção de violência doméstica; é um usuário ilegal ou viciado em qualquer substância ilegal controlada; é julgado inapto mentalmente; foi dispensado das Forças Armadas sob as condições desonrosas; renunciou a sua cidadania norte-americana.
Como Eric e Dylan eram menores de idade, Robyn Anderson, com quem Dylan foi ao baile de formatura três dias antes do massacre, uma aluna da Columbine High School de 18 anos, e amiga de Dylan, fez uma compra de palha de duas espingardas e uma carabina Hi-Point para a dupla. Em troca de sua cooperação com a investigação que se seguiu ao massacre, nenhuma acusação foi apresentada contra Robyn. Depois de adquirir ilegalmente as armas, Dylan serrou sua espingarda de cano duplo Savage 311D de calibre 12, reduzindo o comprimento total para aproximadamente 23 polegadas (0 58 m), enquanto a espingarda Savage-Springfield de calibre 12 de Eric foi serrada para aproximadamente 26 polegadas (0 66 m).Os atiradores também possuíam uma pistola semiautomática TEC-DC9, vendida para o Zander's Sporting Goods, em Baldwin, no Illinois, em 1994. Mais tarde, a arma foi vendida para o negociante de armas de fogo Larry Russell, em Thornton, no Colorado. Em violação da lei federal, Larry Russell não conseguiu continuar com os registros da venda, mas afirmou que o comprador da arma tinha vinte e um anos de idade ou mais. Ele não conseguiu identificar as fotos de Dylan, Robyn Anderson ou Eric, demonstradas para ele pela polícia após o massacre.
McCartney lembra morte de John Lennon.
As bombas usadas pela dupla variavam e foram cruamente feitas com latas de dióxido de carbono, tubos galvanizados e garrafas metálicas de propano. As bombas foram preparadas com fósforos colocados em uma extremidade. Os dois tinham dicas para atacar debaixo de suas mangas. Quando esfregavam contra a bomba, a cabeça do fósforo acendia o fusível. No fim de semana antes do massacre, Eric e Dylan haviam comprado tanques de propano e outros suprimentos de uma loja de equipamentos por algumas centenas de dólares. Vários moradores da área alegaram terem ouvido barulhos de vidro quebrando e zumbidos vindos da garagem da família Harris, o que foi concluído a indicação factual de que eles estavam construindo bombas caseiras. Os dois garotos compraram mais seis tanques de propano no dia do ataque na Columbine High School. Bombas mais complexas, como a que explodiu na esquina da South Wadsworth Boulevard com a Avenida Ken Caryl, tinham relógios. As duas maiores bombas construídas foram encontradas na lanchonete da escola foram feitas com pequenos tanques de propano. Uma dessas bombas explodiu, parcialmente. Se as bombas colocadas na lanchonete tivesse explodido normalmente, a explosão poderia ter causado danos estruturais extensos à escola e teria causado centenas de perdas.
Desde 2013, foram registrados mais de 200 ataques com uso de arma de fogo. Enquanto países que passaram por experiências traumáticas semelhantes agiram para restringir o acesso da população a armas, os Estados Unidos se dividem entre armar ainda mais as pessoas, para que possam reagir diante de um eventual ataque, ou limitar a venda de armamentos como forma de prevenção. Até o momento, o presidente Donald Trump, vem defendendo o direito de americanos possuírem armas de fogo. A Segunda Emenda da Constituição do país diz que “sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito das pessoas a manter e portar armas não deve ser violado”. Esse artigo constitucional é frequentemente evocado por críticos a propostas de desarmamento. A única ação significativa de Trump até agora em relação ao tema foi assinar uma lei revertendo limitações impostas no governo de Barack Obama à compra de armas por pessoas com transtornos mentais.
Em 2016, a NRA gastou US$ 4 milhões em lobby e contribuições diretas a políticos, assim como mais de US$ 50 milhões em doações políticas, incluindo cerca de US$ 30 milhões para a campanha de Donald Trump. A associação classifica os políticos de acordo com seus votos em projetos de lei e aloca seus recursos e os de seus membros - tanto financeiros quanto organizacionais - para apoiar seus defensores mais ferozes e derrotar adversários. Por outro lado, vozes importantes se juntaram, nos últimos anos, ao coro por regras mais duras para a aquisição de armas. Grupos pró-controle de armas, apoiados por investidores ricos, como o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, se tornaram mais organizados nos últimos anos. No entanto, as tentativas mais recentes de aprovar novas leis federais que regulassem as armas de fogo fracassaram antes mesmo de qualquer votação, bloqueadas na Câmara de Representantes dos EUA - que está nas mãos dos políticos republicanos desde 2011. E se os projetos passassem ainda enfrentariam dificuldades no Senado. Em 2013, após o tiroteio em Sandy Cook, surgiram medidas legislativas para fortalecer as verificações de antecedentes a compradores de armas contavam com um significativo apoio bipartidário no Senado.
A postura dos Estados Unidos em relação a armas segue na contramão das medidas adotadas por outros países desenvolvidos que passaram por atentados a tiros seguidos de morte. No Reino Unido, na cidade de Dunblane, um atirador matou 16 crianças e um professor numa escola primária, em 1996. O país respondeu, em 1997, com a aprovação de leis que baniram o porte de pistolas para uso particular e aumentou os critérios de checagem do histórico de quem deseja adquirir armas. Na Austrália, 12 dias depois de um atirador matar 36 pessoas em Port Arthur, em 1996, o país baniu a venda de fuzis automáticos e passou a exigir que todos os indivíduos registrassem suas armas.. Na Alemanha, um estudante de 17 anos matou 16 pessoas numa escola em 2009. Três meses depois, o Parlamento alemão instituiu multas para o caso de armas não estarem sendo mantidas em ambiente seguro e afastado; inspeção policial na casa de quem portava armas e idade mínima de 18 anos para uso de fuzis. Na Noruega, um reconhecido extremista de direita matou 69 pessoas num acampamento em Utoeya, e outras oito pessoas com a explosão de um carro-bomba em Oslo, em 2011. A Noruega, naquela conjuntura de ódio, já tinha aprovado leis rígidas de controle de armas. Exigia, por exemplo, a necessidade de uma “razão válida” para uma pessoa adquirir uma licença de porte de arma. O atirador, porém, pragmaticamente conseguiu driblar a regra.
O porte de armas, abertamente ou oculto, é regulado pelos estados, que possuem autonomia para regular sobre o assunto, e essas leis mudaram rapidamente nas últimas décadas. A partir de 2016, a maioria dos estados concede licenças para portar armas curtas em uma base de emissão para candidatos qualificados. Poucos estados deixam a emissão de licenças de transporte a critério das autoridades emissoras, o chamado “may-issue”, enquanto onze estados permitem o porte de armas de fogo de forma oculta sem permissão que é chamado transporte constitucional. Vinte e seis estados permitem o porte aberto de armas de fogo sem permissão, enquanto, e vinte estados exigem uma licença para fazê-lo e quatro estados e o Distrito de Columbia baniram o porte aberto de armas de mão. Ainda assim, houve contestações legais às leis de transporte oculto, com decisões diferentes quanto à sua validade constitucional. Um número crescente de políticos têm proposto leis que, em vez de limitar a venda, visam aumentar o número de armas de fogo nas escolas e em edifícios públicos, além de armar professores e funcionários como meio de defesa contra eventuais ataques.
O senador republicano Steve West apresentou, em janeiro, um projeto de lei para permitir patrulhas de seguranças armados nas escolas do Estado de Kentucky. Em novembro, membros do Senado de Michigan onde os Estados norte-americanos são bicamerais, têm Senado e Câmara, “aprovaram um projeto para permitir que professores nas escolas primárias até o ensino médio mantenham armas em um local sigiloso dentro da sala de aula”. Legislações semelhantes avançaram entre os anos 2017 e 2018, respectivamente nos estados da Flórida, Indiana, Pensilvânia, Mississippi, Carolina do Sul e Virgínia Ocidental. Se esses projetos sociais forem bem-sucedidos, tais Estados se juntariam em nove que já permitem algum tipo de porte de armas em escolas. Cada novo tiroteio reacende um longo e importante debate para a solução em aumentar o controle ou de relaxar as regras de sociabilidade para o porte delas. Após um ataque na escola Sandy Cook, em Connecticut, resultar na morte de 20 crianças e seis adultos, 21 Estados aprovaram novas leis sobre armas, incluindo proibições de armas de combate e alta letalidade nos Estados de Connecticut, Maryland e Nova York.
No Brasil, o Estatuto do Desarmamento é uma lei federal derivada do projeto de lei nº 292, PL 1555/2003, de autoria do então senador Gerson Camata (MDB/ES), que entrou em vigor no dia seguinte à sanção do então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) no dia 23 de dezembro de 2003. Trata-se da Lei 10826 de 23 de dezembro de 2003, regulamentada pelo decreto 5123 de 1º de julho de 2004 e publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte, que “dispõe sobre registro, posse e comercialização de armas de fogo e munição”. O governo promoveu um referendo popular no ano de 2005 para saber se a população concordaria com o artigo 35 do estatuto, que tratava sobre a proibição da venda de arma de fogo e munição em todo o território nacional. O artigo foi rejeitado com 63,94% dos votos indicando “não” contra 36,06% dos votos “sim”. A lei proíbe o porte de armas por civis, com exceção para os casos onde haja necessidade comprovada e sujeita o indivíduo à demonstração de sua necessidade em portá-la, com efetuação de registro e porte junto à Polícia Federal, para armas de uso permitido, ou ao Comando do Exército, para armas de uso restrito. Um exemplo dessas situações referem-se as pessoas que moram em locais isolados, que podem requerer autorização para porte de armas para se defenderem.
Contudo, o presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) realizou categoricamente um gesto de vingança ao Estatuto do Desarmamento desde sua sanção, em 2003, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com um decreto assinado e publicado no Diário Oficialda União destes dias, o capitão reformado do Exército ampliou de forma sem precedentes as categorias sociais que têm direito ao porte de armas e de andar armado. Antes restrito a policiais, agentes de segurança e promotores, agora políticos de todas as esferas de poder que tenham mandato eletivo, jornalistas, agentes de trânsito, motoristas de veículos de carga, proprietários rurais, incluindo conselheiros tutelares terão o direito de andar armados. No total, as alterações feitas por Jair Bolsonaro permitem que 19 milhões de brasileiros possam ter porte ou posse de arma em função da categoria profissional.O Instituto “Sou da Paz” divulgou nota na qual afirma que o governo eleito viola a separação de poderes, ignora evidências científicas e governa apenas em prol dos desejos individuais de uma pequena minoria da população de mais alto poder aquisitivo. A percepção de que os militares ataram seu futuro e prestígio ao governo é viva, e eles vão ter que se perguntar o que fazer daqui para diante.
A posse de arma é uma autorização emitida pela Polícia Federal para que um cidadão possa ter uma arma que não seja de calibre restrito dentro de casa ou no lugar de trabalho, contanto que seja ele o titular ou o responsável legal pelo estabelecimento. A principal mudança do decreto é a definição mais flexível de quem tem “efetiva necessidade” de ter uma arma - a Polícia Federal perdeu o poder de barrar um registro de armamentos. Outra modificação importante é o aumento do prazo de validade da autorização de posse que foi alterado de cinco para dez anos. A posse é atualmente liberada para pessoas que sejam: 1) maiores de 25 anos, 2) tenham ocupação lícita e de residência certa, 3) comprovem capacidade psicológica, 4) comprovem capacidade técnica, 5) não tenham antecedentes criminais e não estejam respondendo a inquérito policial ou a processo criminal, 6) declararem a efetiva necessidade de ter uma arma. O sexto item foi o único a sofrer mudanças. Para provar aptidão psicológica, o comprador de uma arma é avaliado por um psicólogo credenciado pela Polícia Federal. O decreto altera o trecho da lei que diz respeito à exigência de comprovação de necessidade de se ter uma arma na hora de registrá-la. A “flexibilização” do porte de armas favorece a atuação das milícias e multiplica as situações de riscos que podem levar à morte ou mutilação. Antes, o cidadão apresentava seus motivos à Polícia Federal e a instituição julgava se havia de fato a necessidade. A partir desta conjuntura social e política, considera-se que alguns grupos dentro e fora da política detêm, automaticamente, a necessidade de se armar precisamente para matar.
Bibliografia geral consultada.
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