segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Amor Apocalipse – Cinema de Humor, Transtorno & Ecoansiedade.

                                                     Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças”. Sêneca                     

           

         O filme Amor Apocalipse (2025) acompanha Adam (Patrick Hivon), um dono de canil tão bondoso e preocupado com o mundo contemporâneo que desenvolveu ecoansiedade, também reconhecida como “ansiedade climática”. Como uma forma de combater uma das maiores agonias de sua vida, ele resolve comprar uma lâmpada solar terapêutica, sem ao menos saber que essa seria uma das decisões mais importantes de sua vida. A “terapia com luz”, também chamada de fototerapia ou “terapia com luz intensa”, consiste na exposição direta à luz solar ou artificial em comprimentos de onda controlados para tratar e compreender a nomemclatura de uma variedade de distúrbios médicos, incluindo “transtorno afetivo sazonal”, “distúrbios do ritmo circadiano do sono-vigília”, cânceres, icterícia neonatal e infecções de feridas na pele. Quase deprimido, Tina (Piper Perabo), a assistente técnica de suporte do fornecedor, transforma a vida de Adam com a voz calma e aveludada. Feliz por ter encontrado alguém para conversar e se acalmar, o sentimento nunca foi muito diferente pelo lado da mulher, e em pouco tempo os dois se encontram após uma triste tragédia climática. É um subgrupo de “transtornos de humor” em que pessoas que normalmente têm saúde mental normal durante a maior parte do ano apresentam sintomas depressivos na mesma época todos os anos. É comumente, mas nem sempre, associado às reduções ou aumentos no total de horas diárias de luz solar que ocorrem durante o inverno ou verão. Os sintomas comuns incluem dormir demais, ter pouca ou nenhuma energia e comer em excesso. A condição no verão pode incluir ansiedade exacerbada. 

     No entanto, existem diferenças significativas na duração, gravidade e sintomas da experiência de cada indivíduo. Por exemplo, é fato que em um quinto dos pacientes o transtorno se resolve completamente em cinco a onze anos, enquanto para 33-44% dos pacientes, ele progride para depressão maior não sazonal. Seu status como condição independente foi alterado: não é mais classificada como um “transtorno de humor único”, mas é um especificador chamado de “com padrão sazonal” para transtorno depressivo maior recorrente que ocorre em uma época específica do ano e entra em remissão completa em outras épocas. No entanto, a validade do TAS foi questionada por uma análise de 2016 dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, que não encontrou nenhuma ligação entre depressão, sazonalidade ou exposição à luz solar. Nos EUA, a percentagem da população afetada pelo TAS varia de 1,4% da população na Flórida a 9,9% no Alasca. A ecoansiedade tem como representação uma emoção desagradável, embora possa ser adaptativa, motivando comportamentos úteis como coleta de informações relevantes. Também se pode manifestar como evitação de conflitos ou até mesmo ser “paralisante”. Algumas pessoas relataram sentir tanta ansiedade e medo sobre o futuro com as alterações climáticas que optaram significativamente por não ter filhos. A atenção dada à ecoansiedade cresceu rapidamente após 2017, e especialmente desde o final de 2018, com Greta Thunberg propondo discutir publicamente a sua ecoansiedade. É uma ativista ambiental sueca. É reconhecida por ter protestado fora do prédio do parlamento sueco, e por constituir a liderança do movimento Greve das Escolas Pelo Clima. Em 2018, a Associação Americana de Psicologia (APA) publicou um relatório sobre o impacto das alterações climáticas na saúde mental. Afirmou que “alterações graduais e de longo prazo no clima também podem trazer à tona uma série de emoções diferentes, incluindo medo, raiva, sentimento de impotência ou exaustão”. 

E provavelmente terá o maior impacto sobre os jovens. O stress relacionado com o clima que agora afeta adolescentes e pessoas na faixa dos 20 anos foi comparado aos medos da chamada Guerra Fria que dominaram os jovens baby boomers que atingiram a maioridade sob a ameaça de aniquilação nuclear. A cultura da Grécia Antiga, mutatis mutandis, é a base sobre a qual se eleva a cultura da civilização ocidental. Como sabemos, exerceu poderosa influência sobre os romanos, que se encarregaram de repassá-la a diversas partes da Europa. A civilização grega antiga teve influência na linguagem, na política, no sistema educacional, na filosofia, na ciência, na tecnologia, na arte e na arquitetura moderna, particularmente durante a Renascença da Europa ocidental e de resto durante os diversos reviverem neoclássicos dos séculos XVIII e XIX. Conceitos sociológicos como cidadania e democracia são gregos, ou pelo menos de pleno desenvolvimento nos manuscritos dos gregos. Os historiadores e escritores políticos cujos trabalhos sobreviveram ao tempo eram, em sua maioria, atenienses ou pró-atenienses e todos conservadores. Por isso se conhece melhor a história de Atenas do que a história das outras cidades. Esses homens concentraram seus trabalhos em aspectos políticos, militares e diplomáticos, ignorando o que veio a se conhecer modernamente por áreas de conhecimento em história econômica e social. O homem é criação propiciada pelo processo real de transformação da realidade e por uma formação ideal exagerada da imaginação que faz a essência do homem criadora.  Não há distinção entre a importância artística da tragédia vista como drama ou da comédia.                      

Em defesa do gênero, o crítico de artes e cinema Rubens Ewald Filho lembra o ditado: - “Morrer é fácil, difícil é fazer comédia”. Entre os artistas, reconhece-se que para fazer rir é necessário um ritmo, reconhecido como timing, especial que não é dominado por todos os humoristas. Uma característica reconhecida da comédia é que ela é uma representação social da diversão intensamente coletiva, mas pessoal. Para rir de um fato social ou político é necessário reconhecer: revendo, como na leitura, tornando a conhecer, como no trabalho incessante do aprendizado da escrita, tomando os fatos culturais subjetivamente como parte de determinado valor humano - os homens comuns - a tal ponto que ele deixa de ser mitológico, ameaçador e passa a ser banal, corriqueiro, usual e pode-se, portanto, rir intensivamente dele. As pessoas com frequência não acham as mesmas coisas engraçadas, mas quando fazem isso pode ajudar a criar laços poderosos de afeto.   Exemplos dados por Émile Durkheim (1858-1917) de fatos sociais incluem instituições sociais tais como parentesco, casamento, moeda, língua, religião, organização política e todas as instituições da sociedade que devem representar nas interações cotidianas com outros membros das não sociedades. Desviando-se das normas dessas instituições torna o indivíduo inaceitável ou em desajuste com o grupo. Entre os mais notáveis trabalhos de Durkheim está a descoberta do “fato social” das taxas de suicídio. Examinando cuidadosamente as estatísticas de suicídio concedidas pela polícia em diferentes distritos, Durkheim demonstrou que a taxa de suicídio das comunidades católicas é menor do que a taxa das comunidades protestantes. Para este fenômeno ele atribuiu uma causa social, ao contrário de uma causa individual, como era de costume se imaginar na época). Isto foi considerado inovador e este estudo é muito influente na área de suicídio e doenças psicossomáticas. 

A possibilidade real, a ocasião apriorística desse modo de comportamento que chamamos amor, fará surgir, se for o caso, e levará à consciência, como um sentimento obscuro e geral, inicial de sua própria realidade, antes mesmo que a ele se some a incitação por um objeto determinado para levá-lo a seu efeito acabado.  A existência desse impulso sem objeto, por assim dizer incessantemente fechado em si, acento premonitório do amor, puro produto do interior e, no entanto, já acento de amor, é a prova mais decisiva em favor da essência central puramente interior do fenômeno amor, muitas vezes dissimulado sob um modo de representação pouco claro, segundo o qual o amor seria uma espécie de surpresa ou de violência vindas do exterior, tendo su símbolo mais pertinente no “filtro do amor”, em vez de uma maneira de ser, de uma modalidade e de uma orientação que a vida como tal toma por si mesma – como se o amor viesse de seu objeto, quando, na realidade, vai em direção a ele. De fato, o amor é o sentimento que, exatamente fora dos sentimentos religiosos, se liga mais estreita e mais incondicionalmente a seu objeto. À acuidade com a qual ele brota do sujeito corresponde a acuidade igual com que ele se dirige para o objeto. É que nenhuma instância vem se interpor. Se venero alguém. É pela qualidade de venerabilidade que, em sua realidade, permanece ligada à imagem pelo tempo quanto eu o venerar, passível de adoração, contemplação e respeito.

Em Filosofia em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si mesmo, nem o saber poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia bastar porque deixa à margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta dualidade o que reconhecia Schelling quando opunha no Bruno o saber fenomênico e o saber Absoluto, mas não demonstrava os laços afetivos entre um e outro. Uma vez colocado a questão do saber Absoluto não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber fenomênico por sua parte fica igualmente cortado (separado) do Saber Absoluto. Hegel volta ao saber fenomênico, isto é, precisamente ao saber da consciência comum, e pretende demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que ele mesmo é um saber Absoluto que, todavia, não se deve saber como tal. O termo “idealismo alemão” é amplamente difundido, mas não há acordo sobre o que significa. Hegel, que considera Kant um idealista, inventou a noção de tradição idealista alemã, presente no primeiro texto filosófico, Differenzschrift ele indica formas nos escritos da tradição do pensamento de Kant, Fichte e Schelling.

Hegel que parte da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a própria história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída a caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel “existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento”, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são “instrumentos de sua manifestação”. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito Absoluto. Para compreender o sistema hegeliano é necessário começar por uma representação, que não sendo exata permite, a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato para alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. A Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que unidade abstrata, e não o que é, a noção que, “por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva”.  A determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas até a sua própria vida. Chama-se idealidade, idealização, precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até culminar esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, isto é, como seu princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta plenamente. Hegel, afirma, portanto, que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta natureza, e em identidade, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua realidade.

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito “consciente de si”. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: “trazer à existência, isto é, à consciência”. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: “produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é”. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, são a razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. Entretanto, a razão não ajuda em quase nada a criança, o inculto.

É uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no que é o ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, toda atividade, não possui nenhum outro interesse além do que “é em si”, no seu interior, manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem. O europeu sabe de si, dizia Hegel, pois é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens “falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem”.

Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre “somente se sabe que o é”. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer a representação evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução podemos também na dúvida falar da mudança. Mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja exteriormente negado. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia evoluir. Esta unidade do existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e, no entanto, uma. É um conceito da razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema.

Essa representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo representa a existência, aquilo que resulta. Assim, o terceiro é a ideia/figuração de identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da própria evolução, o resultado de todo este movimento. Em anatomia humana, o nervo ulnar é um nervo que tem como unidade articulatória percorrer as proximidades do osso ulna. Por mais insuficiente, por mais preso a um estreito simbolismo humano que esteja o conceito de objetivo e de meios de comunicação em presença da misteriosa realização da vida, devemos qualificar essa emoção sexual de meio de que a vida se serve para a manutenção da espécie, confiando aqui a consecução desse objetivo não mais a um mecanismo (no sentido lato) mas a mediações psíquicas. Enfim, a pulsão, dirigida a princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao outro sexo enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à medida que seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, sabemos que a pulsão não se torna amor pelo simples fato de sua individualização; esta última pode ser refinadamente hedonista, ou instinto vital-teleológico para o parceiro apto a procriar os melhores filhos.  Mas, indubitavelmente, ela cria uma disposição formativa e, por assim dizer, um marco para essa exclusividade que constitui a essência do amor, mesmo quando seu sujeito se volta para uma pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto que no seio do que se chama “atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum, ou, se quiserem, a prefiguração do amor. A vida historicamente se metamorfoseia nessa produção social, traz sua corrente à altura dessa onda cuja crista vital, de desenvolvimento, sobressai acima dela.

Se considerarmos o processo da vida como um dispositivo de meios a serviço desse objetivo e se levarmos em conta seu significado efetivo para a propagação da espécie, então este também é um dos meios que a vida se dá para si e a partir de si. Do mesmo modo, no homem que temo, o caráter terrível e o motivo que o provocou estão intimamente ligados; mesmo o homem que odeio não é, na maioria dos casos separado em minha representação da causa desse ódio – é esta uma das diferenças entre amor e ódio que desmente a assimilação que comumente se faz deles. Mas o específico do amor é excluir do amor existente a qualidade mediadora de seu objeto, sempre relativamente geral, que provocou o amor por ele. Ele permanece como intenção direta e centralmente dirigida para esse objeto, e revela a sua natureza verdadeira e incomparável nos casos em que sobrevive ao desaparecimento indubitável do que foi sua razão de nascer. Essa constelação, que engloba inúmeros graus, desde a frivolidade até a mais alta intensidade, é vivida segundo o mesmo modelo, seja em relação a uma mulher ou a um objeto, a uma ideia ou a um amigo, à pátria ou a uma divindade. Isso deve ser solidamente estabelecido em primeiro lugar, se quisermos elucidar em sua estrutura seu significado mais restrito, o que se eleva no terreno da sexualidade. A ligeireza com que a opinião corrente alia instinto sexual a amor lança talvez uma das pontes mais enganadoras na paisagem psicológica exageradamente rica em construções desse gênero. Quando, ademais, ela penetra no domínio da psicologia que se dá por científica, temos com demasiada frequência a impressão de que esta última caiu nas mãos de açougueiros. O que é óbvio, não podemos afastar pura e simplesmente essa relação.

Para que a espécie humana pudesse sobreviver, a psique precisou ser socializada e dar sentido a um mundo aparentemente sem-sentido natural-biológico. Ao criar as significações, institui-se a sociedade que é a origem de si mesma. Não se poderia pensar a humanidade fora do mundo de significações, ou a subjetividade, a partir do termo “para si”, das representações das instituições sociais. O “para si” é inferido a partir das instancias, interdependentes, em que todas existem, mas nenhuma se mantém sem a outra, numa completa relação de atividade e reciprocidade representando a totalidade do sujeito. Enfim, Cornelius Castoriadis (1922-1997) admite que é impossível fazer filosofia sem uma ontologia, segundo o aristotelismo, parte da filosofia que tem por objeto o estudo das propriedades mais gerais do ser apartada da infinidade de determinações que, ao qualificá-lo particularmente, ocultam sua natureza plena e integral. Sem uma interrogação sobre o ser, mas, ao contrário do que possa pensar aquele para quem ontologia soa como “palavra proibida”, sua reflexão é inteiramente articulada à questão política. Não sendo, pois, uma idealização, mas um pensamento radical sobre a condição e possibilidade de uma sociedade na qual os homens tenham consciência de seu poder vital. Por sua vez, o imaginário individual e coletivamente radical enquanto (sonho) e coletivo (mitos, ritos, símbolos) aparece como corrente do coletivo anônimo, traduzindo-se na sociedade e no que para o social-histórico é posição, criação e fazer ser. Duas dimensões não incomunicáveis nem estáticas, embora a dimensão psíquica, tenha participação oculta na formação do que é próprio na criação.      

Cornelius Castoriadis veio de uma família grega de Constantinopla (Istambul), a capital do Império Otomano. Em 1922, como dezenas de milhares de gregos otomanos, a família Castoriadis teve que fugir da Turquia durante a Grande Catástrofe da Ásia Menor e se estabeleceu em Atenas. Lá, ele completou o ensino secundário e depois estudou direito e ciências políticas e econômicas. Em 1937, enquanto a Grécia estava sob o regime de Metaxas, ele se juntou à Juventude Comunista. Em 1941, tornou-se membro do Partido Comunista (KKE), saiu em 1943 e juntou-se ao grupo trotskista de Spyros Priphtes reconhecido como “Agis Stinas”, que foi alvo de hostilidade tanto do ocupante alemão como dos comunistas ortodoxos. A Frente de Libertação Nacional Grega, ou EAM, foi o principal movimento da resistência grega durante a ocupação da Grécia pelas forças do Eixo na 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Fundada pelo Partido Comunista da Grécia (KKE), a Frente de Libertação Nacional incluía, no entanto, membros de toda a esquerda grega, bem como republicanos. 

O Exército Popular de Libertação Nacional Grego (ELAS) formava seu braço armado; os dois movimentos juntos eram conhecidos como EAM-ELAS. Entre o final de 1943 e a Libertação, o conflito entre os combatentes da resistência da EAM e grupos rivais de resistência escalou para uma quase guerra civil, que só terminou com a queda do último primeiro-ministro do governo colaboracionista, Ioannis Rallis (1878–1946) foi o terceiro e último primeiro-ministro colaboracionista do governo grego durante a ocupação da Grécia pelas forças do Eixo na 2ª guerra mundial. Seu governo durou de 7 de abril de 1943 a 12 de outubro de 1944, sucedendo a Konstantinos Logothetopoulos (1878-1961) no governo fantoche controlado em Atenas. Ele foi condenado à prisão perpétua pelo Tribunal Especial e morreu na prisão em 26 de outubro de 1946. Ele é filho de Dimitrios Rallis, que foi primeiro-ministro diversas vezes, e pai de Georges Rallis. Membro do Partido Popular Monarquista, Ioannis Rallis foi ministro quatro vezes entre 1920 e 1933. No final da guerra, a Frente de Libertação Nacional tornou-se o primeiro movimento social verdadeiramente significativo da história grega e chegou a estabelecer seu próprio governo, o Comitê Político de Libertação Nacional em 10 de março de 1944 controlando a maior parte do território grego através de seu braço armado, o ELAS, a Frente de Libertação Nacional concordou, no entanto, em se juntar ao governo no exílio após o fracasso da revolta do Exército Grego Livre em 1948.Abril de 1944e o estabelecimento da Conferência do Líbano em maio de 1944. Após a Libertação, a Frente de Libertação Nacional emergiu bastante enfraquecida pelos eventos de dezembro de 1944, que a colocaram em conflito com as forças aliadas e constituíram a primeira fase da Guerra Civil Grega ocorreu entre 1941 e 1944. Perseguidos pelo governo que consolidava gradualmente o seu poder, os seus membros apoiaram de forma esmagadora o KKE e a “República Comunista de Konitsa”.

Atualmente, a Frente de Libertação Nacional e membros, juntamente com outros movimentos de resistência gregos, são vistos como heróis por grande parte da população grega, que os considera os principais libertadores da Grécia. Tendo concluído os seus estudos na Universidade de Atenas, veio completá-los em Paris em 1946, graças a uma bolsa do Instituto Francês de Atenas, então dirigido por Octave Merlier. Fez a viagem (via Pireu, Taranto e Marselha) a bordo do Mataroa num grupo de estudantes que incluía, entre outros, Kostas Axelos e Kostas Papaioannou.  Na França, ele é membro do Partido Comunista Internacionalista (PCI), que pertence à Quarta Internacional (trotskista). Em agosto de 1946 sob o pseudônimo de Chaulieu, ele criou, com Claude Lefort (conhecido como Montal), uma tendência minoritária, a tendência “Chaulieu-Montal”, que mais tarde se separou do PCI para formar o grupo independente Socialisme ou Barbarie, mais próximo do comunismo de conselhos. Foi criado um jornal com o mesmo nome, cujo primeiro número foi publicado em março de 1949. Em novembro de 1956 após os acontecimentos na Hungria, ele participou, juntamente com alguns membros do Socialisme ou Barbarie, incluindo Claude Lefort, de um círculo internacional de intelectuais revolucionários, onde estavam presentes, entre outros, Georges Bataille, André Breton, Michel Leiris, Edgar Morin e Maurice Nadeau. Em 1958, o grupo Socialisme ou Barbarie sofreu uma cisão sobre a questão da formação de uma organização revolucionária. Claude Lefort e Henri Simon deixaram o grupo para criar a OLI, que se tornou Information et Correspondances Ouvrières (ICO. Castoriadis estava entre os que permaneceram no Socialisme ou Barbarie. Outra cisão ocorreu em 1963. Em 13 de março de 1964 uma palestra sobre “Marxismo e Teoria Revolucionária”, e 15 de maio sobre a questão: “O que significa ser revolucionário hoje?”. A partir de 1964, tornou-se membro da École Freudienne de Paris, fundada por Jacques Lacan (1901-1981), a quem se oporia a partir de 1967. Mas neste ano, o grupo Socialisme ou Barbarie dissolveu-se oficialmente e publicou um texto de autodissolução.

Greta Thunberg nascida em Estocolmo, em 3 de janeiro de 2003 é uma ativista ambiental sueca. É reconhecida por ter protestado fora do prédio do parlamento sueco, e por ser a líder do movimento Greve das Escolas Pelo Clima. Seu ativismo começou depois de convencer seus pais a adotar várias opções de estilo de vida para reduzir sua própria pegada de carbono. Em agosto de 2018, Thunberg ausentava-se das aulas para protestar, próxima ao parlamento sueco, exigindo mais ações para mitigar as mudanças climáticas por parte dos políticos de seu país. Eventualmente, estudantes de outras comunidades se organizaram para protestos semelhantes ao seu. Juntos, Thunberg e os milhares de estudantes que começaram a segui-la fizeram manifestações conscientes pela questão climática em diversos países, chamado de Sextas para o Futuro. Depois que Thunberg discursou na Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre Mudança Climática de 2018, paralisações estudantis aconteceram todas as semanas em algum lugar do mundo. Para evitar voar e emitir carbono, Thunberg atravessou o Oceano Atlântico via veleiro para chegar aos Estados Unidos, onde participou da Cúpula das Nações Unidas sobre Ação Climática de 2019. Seu discurso lá, no qual ela exclamou “How Dare You” (“como você se atreve”), foi amplamente retomado pela imprensa e incorporado à música. Como adulta, seus protestos incluíram tanto manifestações pacíficas quanto atos de desobediência civil, como desafiar ordens legais para se dispersar, o que levou a prisões, condenações e uma absolvição. 

Seu ativismo evoluiu para incluir outras causas, apoiando a Ucrânia, a Palestina e a Armênia em seus respectivos conflitos especificamente com a Rússia, Israel e Azerbaijão. Pesquisas recentes descobriram que embora existam experiências emocionais intensificadas ligadas ao reconhecimento e antecipação das alterações climáticas e seu impacto na sociedade, elas são inerentemente adaptativas. Além disso, o envolvimento consciente com essas experiências emocionais leva ao aumento da resiliência, agência, funcionamento reflexivo e ação coletiva. Os indivíduos são encorajados a encontrar formas coletivas de processar as suas experiências emocionais relacionadas ao clima, a fim de apoiar a saúde mental e o bem-estar. As Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, ou Conferência das Partes, são eventos anuais da Organização das Nações Unidas realizados no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Eles servem como reunião formal dos membros integrantes para avaliar o progresso no enfrentamento das mudanças climáticas. Desde meados da década de 1990, ocorrem para negociar o Protocolo de Quioto, estabelecendo obrigações juridicamente vinculativas para os países desenvolvidos reduzirem suas emissões de gases do chamado efeito estufa . A partir de 2005, as conferências serviram ainda como a “Conferência das Partes Atuando como Reunião das Partes do Protocolo de Quioto” (CMP). Além disso, elas são eventos de propagação de discussões e temáticas pois os integrantes da convenção que não são signatários do protocolo podem participar de reuniões relacionadas como observadores. 

De 2011 a 2015, as reuniões foram usadas para negociar o Acordo de Paris como parte da plataforma de Durban, que criou um direcionamento para a ações relacionadas ao clima. Qualquer texto final de uma COP deve ser acordado por consenso. A primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas foi realizada em 1995 em Berlim. A primeira Conferência das Partes da UNFCCC ocorreu de 28 de março a 7 de abril de 1995 em Berlim, na Alemanha, que teve como escopo principal “o consenso de todos os países em se tomar ações mais enérgicas quanto à mitigação do efeito estufa”. Uma revisão sistemática de 2021 revelou que a ecoansiedade foi definida de várias formas diferentes; uma característica comum das diferentes definições é que descrevem respostas emocionais desafiantes às alterações climáticas e a outras questões também radicalmente de foro ambientais.  É afirmado que o termo “ecoansiedade” foi descrito por Glenn Albrecht, que o definiu como “um medo crônico da catástrofe ambiental”. Outra definição citada é que “a sensação generalizada de que os fundamentos ecológicos da existência estão em processo de colapso”. Estudiosos usam o termo ansiedade ecológica como sinônimo propenso de “ansiedade climática”, enquanto outros preferem tratar os termos separadamente. A American Psychology Association definiu a ecoansiedade como “o medo crônico do cataclismo ambiental que surge da observação do impacto aparentemente irrevogável das alterações climáticas e da preocupação associada com o futuro de alguém e das próximas gerações”. Os graus de preocupação sobre os efeitos pragmáticos das alterações climáticas variam de acordo com a imersão no processo de filiação política. A verde: “Preocupo-me muito com as alterações climáticas”. A azul: “Democratas”. A cinza: “Independentes”. A vermelho: “Republicanos”. Quase seis em cada dez relataram um efeito grave das alterações climáticas no local onde vivem, com 38% a preverem ser deslocados das suas casas nos próximos 25 anos devido às alterações climáticas.

A ecoansiedade pode manifestar-se de formas que causam sintomas físicos e podem exacerbar condições de saúde mental preexistentes. Os sintomas incluem irritabilidade, insónia, incapacidade de relaxar, perda de apetite, falta de concentração, crises de fraqueza, ataques de pânico, tensão muscular e espasmos. Esses sintomas são semelhantes aos sintomas que alguém com diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada pode apresentar. Estes sintomas são comuns em pessoas que sofrem de ansiedade ecológica. Um estudo de 2022 encomendado pela Academia Americana de Medicina do Sono relatou que “as ansiedades em torno das alterações climáticas e das questões ambientais” causaram insônia em 70% dos norte-americanos. Sintomas mentais ou emocionais os sentimentos de desesperança e impotência, distanciar-se ou evitar o problema e sentir-se oprimido ou sufocado. No campo da ecopsicologia, existem outros impactos psicológicos específicos do clima que são menos estudados do que a ecoansiedade. Eles incluem, mas não estão limitados a: eco-luto (ou eco-depressão), eco-raiva, eco-culpa e solastalgia. A “raiva ecológica” representa a frustração com as alterações climáticas e as mudanças ambientais por elas causadas. Pode ser frustração para com certos grupos, empresas ou países que contribuem para as alterações climáticas. Um estudo que separou os efeitos da ecoansiedade, da eco-depressão e da eco-raiva, descobriu que a “eco-raiva é o melhor para o bem-estar de uma pessoa”.                       

Este estudo também descobriu que a “raiva ecológica” é boa para motivar a participação em ações sociais que combatem as alterações climáticas. Um relatório separado de 2021 descobriu que a “raiva ecológica” era significativamente mais comum entre os jovens. Foi um dos sentimentos de dor mais fortes com que alguma vez me deparei. O contraste entre a frieza cruel do espaço e o calor da Terra lá em baixo encheu-me de uma tristeza avassaladora. Todos os dias, somos confrontados com o conhecimento de mais destruição da Terra às nossas mãos: a extinção de espécies animais, da flora e da fauna... coisas que levaram cinco mil milhões de anos a evoluir e que, de repente, nunca mais as veremos por causa da interferência da humanidade. - Isso encheu-me de pavor. A minha viagem ao espaço era suposta ser uma celebração; em vez disso, parecia um funeral - William Shatner na sua autobiografia Boldly Go (2022). O luto ecológico (ou eco-luto) é “o luto sentido em relação às perdas ecológicas experienciadas ou previstas, incluindo a perda de espécies, ecossistemas e paisagens significativas devido a mudanças ambientais agudas ou crônicas”. A culpa ecológica tem como representação “a culpa que surge quando as pessoas pensam em ocasiões em que não cumpriram os padrões pessoais ou sociais de comportamento ambiental”. Essa culpa pode assumir a autocrítica, autoculpa, autoexame e/ou autotortura. Solastalgia tem como representação social “o sofrimento causado pela transformação e degradação do ambiente doméstico de uma pessoa”. Um estudo de 2019 descobriu que o número de pessoas que sofrem de solastalgia aumentará à medida que o ritmo de alterações climáticas também aumentar. Isto deve-se ao facto de que mais pessoas verão os efeitos das alterações climáticas nos seus ambientes domésticos à medida que as alterações climáticas continuam.

Bibliografia Geral Consultada.

ARON, Raymond, “La Définition Libérale de la Liberté”. In: Archives Européennes de Sociologie. Quadrimestre, II, 2, 1961, pp. 199-218; BALZAC, Honoré de, Lost Illusions. Londres: Penguin Books, 1971; BECKER, Howard, Los Extraños. Buenos Aires: Editorial Tiempo Contemporâneo, 1971; GOFFMAN, Erving, Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975; ENZENSBERGER, Hans Magnus, Com Raiva e Paciência: Ensaios sobre Literatura, Política e Colonialismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1985; LA BOÉTIE, Étienne, Discours de la Servitude Volontaire. Paris: Éditions Mille et Une Nuits, 1997; HARTLE, Ann, Michel de Montaigne, Accidental Philosopher. Cambridge: Cambridge University Press, 2003; MEZAN, Renato, Freud, Pensador da Cultura. 7ª edição. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2006; PERROT, Michele, Minha História das Mulheres. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Contexto, 2007; BUTLER, Judith, El Gênero en Disputa. El Feminismo y la Subversión de la Indentidad. Barcelona: Editor Paidós, 2008; JAEGER, Werner, Paidéia: A Formação do Homem Grego. 5ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010; HARVEY, Fiona; VIDAL, John, “Global Climate Change Treaty in Sight After Durban Breakthrough”. In: The Guardian. London, 11 de dezembro de 2011; PETITFILS, Jean-Christian, O Assassinato de Henrique IV. Paris: Éditeur ‎ Tempus Perrin, 2012; ŽIŽEK, Slavoj, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism. Estados Unidos: Editora Verso, 2013; VICTOR, David, “How Bad Will Trump Be for Climate Policy?”. In: MIT Technology Review, 14 de Novembre de 2016; MARTUCCELLI, Danilo, La Condition Sociale Moderne. L`Avenir d`une Inquiétude. Paris: Éditeur Gallimard, 2017; McGraw-Hill TALLIS, Frank, Românticos Incuráveis. Quando o Amor é uma Armadilha. 1ª edição. ‏São Paulo: Faro Editorial, 2019; WEISE, Elizabeth, “How Dare You?”. Read Greta Thunberg`s emotional climate change speech to UN and world leaders”. In: USA Today, 9 (24), 2019; MEDEIROS, Maria Carolina El-Huhaik, Essa Fez Social: Narrativas de Etiqueta, Socialização Feminina e Aperfeiçoamento Social da Mulher. Tese de Doutorado. Departamento de Comunicação Social. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2022; SUZUKI, Shin, “O que é Ecoansiedade, Angústia pelo Planeta que Atinge Mais Crianças e Adolescentes”. In: https://www.bbc.com/portuguese/23/04/2023; PEREIRA, Rafael Henrique Santos, Análise do Discurso de Renato Cariani sobre o Corpo, Estética e Influência no Tempo Livre: Um Estudo no Contexto do Fisiculturismo. Dissertação de Mestrado. Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2025; entre outros.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Resgate – Mercenário & Certeza Sensível de Operações Secretas.

                          O que realmente desejo desenvolver é uma ciência da singularidade”. Michel de Certeau

           Resgate tem como representação social um filme de ação e suspense norte-americano de 2020, dirigido por Sam Hargrave, um coordenador de dublês, dublê, ator e diretor americano. No filme, um mercenário australiano de operações secretas assume a missão de salvar o filho “sequestrado de um traficante indiano em Dhâka, Bangladesh, mas a missão dá errado quando ele é traído”. O desenvolvimento do filme começou em 2018. Os irmãos Russo, que fizeram parte da equipe de roteiristas de Ciudad, sempre tiveram a intenção de adaptar o romance para o cinema. A Netflix lançou Resgate em 24 de abril de 2020. Recebeu críticas mistas e se tornou extraordinariamente “o filme original mais assistido da história da Netflix, com um [handicap] de 99 milhões de espectadores nas primeiras quatro semanas”. Reconhecido por suas colaborações com os irmãos Russo, Anthony e Joe Russo, cineastas famosos por dirigirem quatro filmes do Universo Cinematográfico da Marvel: Capitão América: O Soldado Invernal (2014), Capitão América: Guerra Civil (2016), Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019). Eles também atuam pari passu como produtores, roteiristas e, ocasionalmente, como atores, sendo reconhecidos por seu trabalho em filmes e séries de televisão com grandes produções e narrativas complexas, incluindo ser o coordenador de dublês de vários filmes do Universo Cinematográfico Marvel. A dupla também escreveu e produziu a estreia de Hargrave na direção de Extraction (2020). Hargrave também atuou como Diretor de Segunda Unidade na segunda temporada de The Mandalorian (2019), escrito por Joe Russo, baseado na graphic novel Ciudad, de 2014.  

O filme Resgate é estrelado por Chris Hemsworth, ganhou destaque internacional por interpretar Thor Odinson no Universo Cinematográfico Marvel, na sequência que desempenha desde Thor (2011) até Thor: Love and Thunder (2022). Sua atuação na franquia o consolidou como um dos atores mais populares e bem pagos do mundo, além de lhe render diversas indicações e prêmios; Rudhraksh Jaiswal, iniciou sua carreira em 2013, quando desempenhou o papel de Sahadeva na série de TV Mahabharat. Aluno da Billabong International School, em Mumbai, classificada entre as dez melhores escolas internacionais diurnas em 2016. A instituição faz parte da rede educacional adquirida pela Lighthouse Learning em 2007, ganhado vários prêmios, Rudhraksh fez parte de vários shows conduzidos na Academia de Dança Shiamak Davar. Em filmes, iniciou-se no longa-metragem Noor (2017) e seu recente trabalho foi em Resgate (2020) com Chris Hemsworth e David Harbour, Randeep Hooda, é reconhecido por sua versatilidade e transformações físicas para seus papéis. Ele fez sua estreia no cinema hindi com Monsoon Wedding (2001). Ele teve uma virada em sua carreira com o filme de gangster Once Upon a Time in Mumbaai (2010), e continuou a ganhar atenção com papéis coadjuvantes em filmes como Saheb, Biwi Aur Gangster (2011), Jannat 2 (2012), Jism 2 (2012), Cocktail (2012), Heroine (2012) e outros, David Harbour, é um ator norte-americano.

Ovi Mahajan Jr., filho do traficante indiano Ovi Mahajan Sr., que está preso, foge de casa para visitar uma boate com um amigo. Na festa, eles vão à garagem para fumar um cigarro, onde encontram policiais corruptos que trabalham para o traficante rival de Bangladesh, Amir Asif. Eles atiram e matam o amigo de Ovi Jr. e o sequestram. Após descobrir isso, Saju Rav, ex-tenente-coronel das Forças Especiais do Exército Indiano e protetor de Ovi Jr. visita Ovi Sr. na prisão. Recusando-se a pagar o resgate ou entregar seus territórios a Amir, pois isso prejudicaria seu prestígio, Ovi Sr. ordena que Saju resgate seu filho, ameaçando matá-lo caso ele não queira. Tyler Rake, um ex- operador SASR do Exército Australiano que se tornou mercenário, é recrutado por seu parceiro e colega mercenário, Nik Khan, para salvar Ovi Jr. de Dhaka , Bangladesh. A equipe de Tyler e Nik se prepara para resgatar Ovi Jr., com os homens de Ovi Sr. dispostos a pagar-lhes assim que Ovi Jr. for recuperado. Tyler salva Ovi Jr., mata seus captores e o leva ao ponto de extração. Ao saber da fuga de Ovi Jr., Asif ordena ao chefe da polícia, Coronel Rashid, que inicie um bloqueio imediato em Dhaka, protegendo todas as pontes e pontos de passagem fora da cidade. Os homens de Ovi Sr. não transferem os fundos, pois é revelado que as autoridades congelaram sua conta de Ovi Sr., então como pagar os mercenários? Saju mata os companheiros de equipe de Tyler e tenta matar Tyler para salvar Ovi Jr. e roubar o pagamento dos mercenários.  Nik manda um helicóptero resgatar Tyler para fora da cidade e diz a ele para abandonar Ovi Jr., já que o contrato foi anulado. Tyler se recusa a deixar Ovi Jr. para trás, assombrado pelas lembranças do próprio filho, a quem abandonou depois de não aguentar mais vê-lo sofrer de linfoma.

                                        


Após escapar de Saju e das unidades táticas corruptas da Polícia Metropolitana de Dhaka a serviço de Asif, Tyler luta contra uma gangue de garotos liderada por Farhad, um jovem criminoso ansioso para impressionar Asif. Tyler liga para seu amigo Gaspar, um companheiro de esquadrão americano aposentado que mora em Dhaka, e ele e Ovi Jr. se escondem na casa de Gaspar durante a noite. Gaspar revela que Asif ofereceu uma recompensa de US$ 10 milhões por Ovi Jr., que ele se oferece para dividir se Tyler permitir que ele mate o garoto. Ele se recusa e luta contra Gaspar, que leva a melhor, mas é baleado e morto por Ovi com a arma do próprio Gaspar. Decidindo que só se importa em salvar o garoto, Tyler liga para Saju e pede sua ajuda, e eles se unem para escapar de Dhaka. Tyler desvia a atenção de Saju e Ovi Jr. disfarçados enquanto os dois atravessam um posto de controle da ponte antes de segui-los para encobrir a fuga. Nik e seus mercenários restantes se aproximam do lado oposto da ponte, enquanto Asif observa de longe com binóculos. No tiroteio que se segue, Saju é baleada e morta por Rashid, que por sua vez é baleado e morto por Nik. Ferido, Tyler instrui Ovi Jr. a correr para o helicóptero de Nik. Enquanto Tyler, gravemente ferido, segue, ele é baleado no pescoço por Farhad e, vendo que Ovi Jr. está seguro, cai no rio. Ovi Jr., Nik e a equipe de resgate escapam para Mumbai em busca de segurança. Oito meses depois, Nik embosca Asif em um banheiro e logo mata a tiros. 

Enquanto isso, Ovi Jr., que retornou a Mumbai, pula na piscina da escola para praticar prender a respiração, imitando a cena em que Tyler é apresentado cronologicamente no filme. Ele emerge provavelmente com a visão turva de um homem parecido com Tyler o observando. Ganhou reconhecimento por seu papel como Jim Hopper na série de drama e ficção científica Stranger Things (2016–presente), pelo qual ele recebeu um Prêmio Critics` Choice em 2018. Por este papel ele também recebeu indicações ao Emmy do Primetime e Globo de Ouro. Harbour teve papéis de coadjuvante em Brokeback Mountain (2005), Quantum of Solace (2008), The Green Hornet (2011), End of Watch (2012), The Equalizer (2014), Black Mass (2015), Suicide Squad (2016) e o personagem Guardião Vermelho em Thunderbolts (2025). Ele interpretou o personagem-título no filme Hellboy (2019), Golshifteh Farahani, nome artístico de Rahavard Farahani, é uma atriz, cantora e ativista iraniana reconhecida curiosamente por atuar em filmes americanos, franceses e árabes.  Em 2008 foi banida de seu país por haver posado nua para a Madame Figaro. Seu pai era ator e diretor de teatro, e a mãe pintora. Farahani começou seus estudos de música clássica (voz e piano) aos cinco anos de idade e aos doze foi reconhecida no Conservatório de Viena. Logo foi descoberta pelo executivo cinematográfico iraniano Dariush Mehrjui, e tornou-se protagonista de um de seus filmes, iniciando sua carreira que logo a levou a novos papéis. 

A atriz veio a obter o reconhecimento no país natal, vencendo o prêmio Crystal-Simorgh do Fajr International Film Festival.  Isto lhe valeu a participação no filme Rede de Mentiras, ao lado de Leonardo di Caprio (2008), Pankaj Tripathi, é um ator indiano que trabalha predominantemente em filmes e séries hindi. Ele recebeu dois National Film Awards e um Filmfare Award. Depois de estudar atuação na National School of Drama, Tripathi teve papéis menores em filmes como Omkara (2006) e Agneepath (2012), e um papel coadjuvante na série de televisão Powder (2010). Tripathi ganhou reconhecimento por seu papel no drama policial Gangs of Wasseypur (2012), de Anurag Kashyap, após o qual teve vários papéis coadjuvantes notáveis. Estes incluem Fukrey (2013), Masaan (2015), Nil Battey Sannata (2016), Bareilly Ki Barfi, Fukrey Returns (ambos de 2017), Stree (2018), Ludo, Gunjan Saxena: The Kargil Girl (ambos de 2020) e 83 (2021). Tripathi teve papéis principais em várias séries de streaming, incluindo Mirzapur (2018-presente) e Criminal Justice (2019-2022), e no filme de streaming Kaagaz (2021). Ele também apareceu no filme tâmil Kaala (2018) e no filme inglês Extraction (2020) e David Harbour.

Um estado unitário é um estado soberano governado como uma entidade única na qual o governo central é a autoridade suprema de um país. O governo central pode criar (ou abolir) divisões administrativas (unidades subnacionais). Essas unidades exercem apenas os poderes que o governo central autorizar delegar. Embora o poder político possa ser delegado aos governos regionais ou locais por lei, o governo central pode revogar os atos dos governos devolvidos ou reduzir (ou expandir) seus poderes. No sistema federativo, ao contrário, as assembleias desses estados, que compõem a Federação, têm uma existência constitucional e suas atribuições são determinadas por ela e não podem ser unilateralmente modificadas pelo governo central. Em alguns casos, tais como nos Estados Unidos, é somente o governo federal que tem poderes exclusivos para delegá-lo. A maioria dos Estados federativos também possui níveis inferiores de governo. Assim, enquanto os Estados Unidos são uma federação, a maioria (se não todos) os seus estados são entes unitários, com condados e outros municípios tendo a sua autoridade devolvida pelas constituições e leis estaduais. A maioria dos países do mundo é formada por Estados unitários, principalmente porque muitos deles não possuem uma vasta extensão territorial que justifique uma separação de poderes nas suas divisões internas. O Reino Unido é um Estado unitário onde o poder central foi parcialmente devolvido às assembleias e parlamentos criados através as medições complexas da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, todos criados entre 1998 e 1999. A República da Irlanda é um Estado unitário sem governos subnacionais.

Diferentemente do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte, a Inglaterra não tem ministro de governo ou ministério exclusivamente responsável por sua administração central. Mas, há vários ministérios do governo, cujas responsabilidades, em alguns casos, também cobrem aspectos de assuntos no País de Gales e na Escócia. Uma rede de dez Departamentos do Government Offices for the Regions é responsável pela implementação de programas governamentais nas regiões inglesas. A China é principalmente um Estado unitário formado com o governo central tendo autoridade direta sobre as províncias e delegando autoridade aos governos provinciais. Contudo, a situação de Hong Kong Região Administrativa Especial (RAE) está aberta ao debate, dependendo da interpretação dada à Lei Fundamental de Hong Kong. A maioria dos estudiosos em leis chinesas argumenta que a Lei Fundamental é puramente uma lei doméstica derivando sua autoridade da Constituição da República Popular da China, neste caso a RAE é um governo devolvido consistente com a visão da China como um Estado unitário. Outros argumentam que a Lei Fundamental deriva sua autoridade da Declaração conjunta sino-britânica, e neste caso é possível considerá-la como uma constituição, implicando em um relacionamento federativo entre a China e Hong Kong e colocando a China na categoria política de sistema híbrido. Considerações similares dizem respeito à RAE de Macau. A Índia é essencialmente um Estado federativo, mas o controvertido Artigo 356 de sua Constituição admite que um governador possa dissolver um governo estadual.

Um “Estado devolvido” representa uma forma bastante comum de Estado unitário que delega às regiões amplos poderes, mas o governo central reserva-se o direito de retirar esses poderes quando este quiser. Os poderes das regiões são, portanto, mantidos inteiramente a prazer do governo central. No modelo de Estado devolvido, as entidades regionais têm seus governos próprios e podem ter suas próprias leis, e tipicamente praticam um alto grau de decisões autônomas. Desta maneira, eles aproximam-se muito do modelo federativo. Contudo, o Estado ainda é unitário e as entidades subnacionais (diferentemente de uma federação) não possuem qualquer direito constitucional para desafiar a legislação nacional ou preservar seus poderes. Dependendo da exata condição legal dos poderes devolvidos, as leis das entidades subnacionais podem ser anuladas, ou terem restringido seus poderes de legislar, por uma lei ordinária do governo nacional, ou por uma simples decisão do líder do governo. O Reino Unido é um bom exemplo disso: a Escócia tem um alto grau de autonomia na criação de leis, porém, a Escócia não tem nenhum direito para desafiar a constitucionalidade da legislação nacional do Reino Unido e as leis escocesas podem ser anuladas, e os poderes do parlamento escocês revogado ou reduzido, por um ato do parlamento nacional ou uma decisão do Primeiro-ministro. No caso da Irlanda do Norte, os poderes devolvidos da região foram suspensos por uma simples decisão do governo em diversas ocasiões. Apesar disso, o Reino Unido ainda é um Estado unitário, mesmo tendo na prática uma superficial aparência de Estado federativo. A devolução, assim como ocorre na Federação, pode ser simétrica, pois, todas as regiões têm os mesmos poderes e importância, ou assimétrica, pois, as regiões têm variações em seus poderes e importância. A devolução no Reino Unido é assimétrica.

Soldados contratados em outros povos para lutar na defesa dos interesses alheios são instituto antigo. Na China a existência de mercenários esteve ligada ao processo de formação do Estado unitário, durante os séculos IV e III a.C.; tropas mercenárias foram oriundas das disputas entre os grandes feudos, formando o núcleo e a história da mentalidade dos exércitos que se formaram em seguida, na dinastia Han. No Egito Antigo eram contratados “mercenários líbios para a guarda das fronteiras”. A Grécia os possuía, nas tropas das cidades e “mesmo sendo soldados gregos eram contratados pelos persas". Em Cartago, as revoltas das tropas mercenárias levaram à derrota da importante colônia fenícia, durante o governo Amílcar Barca (241). A história foi romanceada por Gustave Flaubert, na obra Salammbô (1862). As forças mercenárias ganham força na Alta Idade Média, formando tropas que, a serviço dos príncipes, únicos com direito de guerrear, participam dos muitos conflitos europeus. Nos tempos de paz, entretanto, estes guerreiros tornavam-se bandidos, à margem da lei por não terem outra ocupação e constituindo-se em problema social que os governantes enfrentavam enviando-os para combates em frentes distantes, como Constantinopla. Entre 1300 e 1375 ondas desses bandos invadem a Itália, sendo a formada pelos húngaros comparada tão numerosa e bem-estruturada que se assemelhava a uma cidade-estado móvel. As depredações e os saques eram uma praga.

       

Carlos V pagou milhares de Escudos para proteger o pretendente ao trono de Castela, Henrique de Trastâmara, contra Pedro, o Cruel, aliado dos ingleses. Em 1444, o Rei Luís XI de França contratou mercenários sem ocupação para combater mercenários suíços, lorenos e alsacianos. O papa Urbano V, sentindo-se ameaçado pelos mercenários, se propôs a reuni-los para uma nova Cruzada à Terra Santa. Foi do rei Carlos VII de França que veio a primeira sugestão prática para resolver o problema dos mercenários: reuniu os estados gerais em Orléans (1439) e sugeriu a criação de um exército permanente. A partir daí, o rei detinha poder sobre as tropas, seria o único a nomear oficiais e decretar impostos para mantê-los. Os capitães seriam responsáveis pela conduta de seus homens. O problema das forças militares de aluguel preocupou Maquiavel, dedicando em sua obra O Príncipe, à análise dessas tropas a serviço do governante. Para ele, o príncipe deve procurar constituir tropas próprias, sendo um risco mesmo em caso de vitória. Niccolò di Bernardo dei Machiavelli (1469-1527) viveu a juventude sob o esplendor político da República Florentina durante o governo de Lourenço de Médici entre 1469 e 1492. A têmpera é a mistura usada em pintura, constituída de gema e clara de ovo, água e pigmentos em pó. Também é obtida misturando-se ingredientes oleosos com uma solução de água e cola. O artista pinta sobre um painel revestido de cola e gesso.

Quando a têmpera é “corretamente aplicada” (fortuna), distribuída em finas camadas, “não fica transparente, nem completamente opaca” (virtù). A têmpera foi aperfeiçoada na Idade Média e utilizada na maioria dos quadros de cavalete, do século XIII até o século XV. Como sinônimo de têmpera tem-se: austeridade, o caráter, a consistência, o feitio, a índole, a rijeza e o temperamento, o que reitera “a Itália nos tempos de Maquiavel” (cf. Larivaille, 1979).  Após uma adequada educação humanista, ingressou na burocracia do governo republicano de 1498, sendo principalmente empregada como secretário dos Dez de Guerra, uma comissão responsável pela condução dos negócios militares e diplomáticos. Instalado em 1310 para investigar a conspiração de Baiamonte Tiepolo, falecido após 1329, foi um nobre veneziano, bisneto do Doge Jacopo Tiepolo, neto do Doge Lorenzo Tiepolo, filho de Giacomo Tiepolo. A esposa de Bajamonte era a Princesa de Rascia. Marco Querini, um conspirador, era seu sogro. Ipso facto, tornou-se talvez o mais famoso de todos os órgãos de Estado do Renascimento. Nunca foi literalmente um “Conselho de dez”. Era-lhe obrigatoriamente adicionada uma Zonta de 20 membros não-votantes. Os conselheiros eram nomeados por um ano, com desqualificação de um ano antes de ser permitida a sua recondução. A responsabilidade do Conselho consistia em proteger o Estado de traição, interna ou externa; além de receberem relatórios regulares sobre os indivíduos, remetidos por reitores e outros funcionários nos territórios venezianos, empregava espiões e, ocasionalmente assassinos etc. Finalmente, até 1582, quando suas funções foram transferidas para o Senado, fiscalizava a produção e uso de artilharia, balas e pólvora. Neste cargo, etnograficamente, Maquiavel “observou o comportamento de grandes nomes da época e a partir dessa experiência retirou alguns postulados para sua obra”. O defeito básico, por assim dizer, dos governantes e estadistas que Maquiavel reconheceu na prática política, consistia na fatídica inflexibilidade diante da mudança das circunstâncias políticas.

César Borgia demonstrava-se em todos os momentos da vida cotidiana arrogante em sua autoconfiança. Maximiliano, sempre cauteloso e excessivamente hesitante. Julio II, impetuoso e por demais agitado. Não souberam acomodar sua personalidade às exigências dos tempos. Ao invés disso, tentaram remodelar os tempos segundo sua personalidade. Este julgamento de Maquiavel constitui o cerne da análise da liderança política em Il Principe (1513). Depois de servir em Florença durante catorze anos foi afastado do cargo e escreveu suas principais obras. Como renascentista Maquiavel se utilizou de autores e conceitos da Antiguidade clássica de maneira nova. Um dos principais autores foi Tito Lívio (50 a. C.-17 d. C.), além de outros lidos através de traduções latinas, e entre os conceitos apropriados por ele, encontram-se o de virtù, entendido como um traço de caráter que distinguia o homem enérgico, probo, corajoso, até arrojado (mas não imprudente), da sua contraparte convencionalmente virtuosa, tornando-o menos vulnerável às cavilações da “fortuna”. A fortuna é o imprevisível, o acaso, a sorte. A virtù é o saber como a necessidade do momento, é a “vontade-força”, qualidade fundamental do Príncipe. Tal como Maquiavel encerrava O Príncipe, com a “vontade-força” de que surgisse na Itália dilacerada do seu tempo uma figura magnífica, despida de preconceitos, que lançasse mão de quaisquer recursos, mesmo que inescrupulosos, para unificar o país ameaçado pelos bárbaros, Nietzsche-Zaratustra esperava o mesmo na emergência de um “super-homem” (Übermensch). Em Maquiavel quando virtù e “fortuna” caminham juntas, o resultado é a vitória - como podemos observar nos exemplos históricos - em caso contrário, a derrota na política. 

Exumada pelo interesse humanista na mitologia clássica, essa personificação das forças que desafiam e frustram os esforços humanos foi utilizada, muitas vezes, como um subterfúgio convencional para evitar “a invocação da vontade de Deus” na explicação dos fenômenos que pareciam racionalmente inexplicáveis, quer se tratasse de “um revés no amor ou no campo de batalha”. A ideia de “fortuna” no pragmatismo de Maquiavel vem da “deusa romana da sorte” e representa as coisas inevitáveis que acontecem aos seres humanos. Não se pode saber a quem ela vai fazer bens ou males e ela pode tanto levar alguém ao poder como tirá-lo de lá, embora não se manifeste apenas na política. Como sua vontade é desconhecida, não se pode afirmar que ela nunca lhe favorecerá. Ela, pois tanto o substantivo “fortuna” quanto a personificação, “Fortuna”, eram femininos, refletindo a opinião dos homens e da lei de que as mulheres deviam ser identificadas com a irracionalidade, era invocada mais comumente num contexto político durante a incapacidade da Itália para fazer frente às sucessivas ondas de invasão estrangeira depois de 1494. Em Florença ocorreu um fato estranho. O frade, de nome Savonarola, que comandava a cidade, previu-lhe “uma invasão estrangeira em punição pelo seu gosto pelo luxo e lassidão”. 

Carlos VIII não avançou sobre o lugar e tomou o caminho de Roma, aonde chegou a 31 de dezembro de 1494. Ali ele conseguiu prender o Príncipe Djem, filho do sultão turco Bajazet. Em seguida, a 22 de fevereiro de 1495, tomou posse de Nápoles, e passou a viver em um ambiente festivo em função de seus sucessos. O I Protocolo adicional de 8 de junho de 1977 da 4ª Convenção de Genebra de 12 de agosto de 1949, no Artigo 47, não reconhece ao mercenário os direitos dos prisioneiros de guerra. Mercenários: 1. Um mercenário não possui direito ao estatuto de combatente ou de prisioneiro de guerra; 2. Pelo termo “mercenário” se entende qualquer pessoa: a) que seja propositalmente recrutada, localmente ou no estrangeiro, para combater em conflito armado; b) que de fato tome parte direta nas hostilidades; c) que tome parte nas hostilidades civis motivado pelo desejo de adquirir lucro pessoal, e para o qual recebeu promessa, por uma das partes em conflito ou em seu nome, de remuneração material claramente superior àquela prometida ou correspondente em grau e funções econômicas similares nas forças armadas desta mesma parte; d) que não seja cidadão de uma parte em conflito, nem residente de um território controlado por uma parte em conflito; e) que não seja membro das forças armadas de uma parte em conflito; e f) que não tenha sido enviado por um Estado não-parte em conflito, em missão oficial como membro das forças armadas deste mesmo Estado. 

Ao contrário dos soldados regulares, que ficam ao abrigo do estatuto de prisioneiro de guerra, inversamente, os mercenários são considerados presos de delito comum. Outrora tradicionalmente reconhecidos como mercenários, e identificados como tais então, até pela vestimenta, como tropa à parte, em geral a serviço de algum Estado; atualmente a maioria presta serviço às empresas militares privadas sem que seja possível na maioria dos casos distingui-los, pelos trajes, documentação ou armamento, dos combatentes junto aos quais são alocados por seus empregadores contratantes. Sejam estes combatentes, junto aos quais trabalharão, membros de um exército regular, de uma força rebelde/guerrilheira, de um grupo político (milicianos ou não) de situação, oposição, ou de uma organização terrorista.  Fazem parte das modernas equipes dessas empresas de mercenários, incluindo sua dimensão de “terceirizadas”, não apenas especialistas nos ofícios militar e policial, mas também gerentes dos mais diversos setores particulares, traficantes de armas e lavadores de dinheiro experientes, engenheiros especializados em armamentos, diversos especialistas nas áreas em torno de marketing, mídia, relações públicas e computação, além de tradutores, pilotos, motoristas, técnicos que reconheçam profundamente logística ou transmissão via satélite, entre vários outros tipos de profissionais. Tal modelo de negócios, teve impulso em especialmente a partir da década de 1990, após o fim da chamada Guerra Fria. Atualmente em conflitos como a Guerra Civil Síria, somente no ano de 2013 entraram no país cerca de 11 mil mercenários, o maior fluxo desde a Guerra Civil do Afeganistão nos anos 1980.

Com as frequentes transferências das atividades-meio a terceiros, ficou aparentemente difícil à Administração controlar a execução dos serviços pelos trabalhadores particulares contratados, de modo que, “sem disciplina e fiscalização, perdeu-se muito em termos de eficiência na execução dos serviços terceirizados”. Somente uma sociedade organizada criteriosamente e constituída com bases nas leis sociais desfruta de supremacia moral e material que é indispensável para impor a lei aos indivíduos, pois a única personalidade moral que está acima das personalidades particulares é a formada pela coletividade. Além disso, apenas ela tem a continuidade e, mesmo, a perenidade necessária para manter a regra além das relações efêmeras que a encarnam cotidianamente. E mais: seu papel não se limita simplesmente a erigir em preceitos imperativo os resultados mais gerais dos contratos particulares, ela intervém de maneira ativa e positiva na formação de todas as regras. Ela é o árbitro designado para resolver os interesses em conflito e atribuir os limites que convêm. 

Em seguida, ela é a primeira interessada em que a ordem e a paz reinem; se a “anomia” sociologicamente é um mal, segundo Durkheim (2010), é antes de mais nada porque a sociedade sofre desse mal, não podendo dispensar, para viver, a coesão e a regularidade social. Uma regulamentação moral e jurídica exprime, pois, essencialmente, necessidades sociais que só a sociedade pode conhecer cotidianamente. Isto quer dizer que ela repousa num estado de opinião, e toda opinião é coisa coletiva, produto de uma elaboração coletiva. Nem a sociedade política em seu conjunto, nem o Estado, podem, evidentemente, incumbir-se dessa função; a vida econômica, por ser muito especial e por se especializar cada dia mais, escapa à sua competência e à sua ação. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma indústria reunidos e organizados num mesmo corpo. É o que se chama durkheimianamente de corporação ou grupo profissional. Na ordem econômica, o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Desde que, não sem razão, vem se suprimindo as antigas corporações, não se fizeram mais que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases políticas. Os indivíduos que se consagram a um mesmo ofício estão em relações mútuas por causa de suas ocupações similares. A própria concorrência entre eles os põe em relação.

Mas essas relações nada têm de regular; elas dependem do acaso dos encontros e, na maioria das vezes, têm um caráter totalmente individual. É este industrial que se acha em contato com aquele, não é o corpo industrial de determinada especialidade que se reúne para agir em comum. Excepcionalmente, vemos todos os membros de uma mesma profissão reunirem-se em congresso para tratar de alguma questão de interesse geral; mas esses congressos têm sempre duração limitada, não sobrevivem às circunstâncias particulares que os suscitam e, depois, a vida coletiva de que foram ocasião se extingue mais ou menos completamente com eles. Os únicos agrupamentos dotados de certa permanência são os que se chama sindicatos, seja de patrões, seja de operários. Por certo, temos aí um começo de organização profissional, mas ainda bastante informe e rudimentar. Isso porque, em primeiro lugar, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovida, por conseguinte, de qualquer poder regulamentador. O número deles é teoricamente limitado, é “um artista anacrônico”, mesmo no interesse social de uma categoria industrial; e, como cada um é independente dos outros, se não se constituem em federação e se unificam, não há nada que exprima a unidade profissional em seu conjunto diante das atividades laborais. Enfim, não só os sindicatos de patrões e os sindicatos de empregados são distintos uns dos outros, o que é legítimo e necessário, como não há entre les contratos regulares. Não existe organização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em comum uma regulamentação que, estabelecendo suas relações mútuas, imponha-se a ambas as partes com a mesma autoridade; por conseguinte, é sempre a lei do mais forte que resolve os conflitos, e o estado de guerra subsiste por inteiro.

  

Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera moral comum, patrões e operários estão, uns em relação aos outros, na mesma situação de dois Estados autônomos, mas de força desigual. Eles podem, como fazem os povos por intermédio de seus governos, firmar entre si contratos, mas esses contratos exprimem apenas o respectivo estado de forças econômicas em presença, do mesmo modo que os tratados que dois beligerantes firmam exprimem tão-somente o respectivo estado de suas forças militares. Eles consagram um estado de fato e não poderiam fazer deste um estado de direito. Para que uma moral e um direito profissionais possam se estabelecer nas diferentes profissões econômicas, é necessário, pois, que a corporação, em vez de permanecer um agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, volte a ser, um grupo definido, organizado, numa palavra, uma instituição pública. Mas todo projeto desse gênero vem se chocar contra certo número de preconceitos que se cumpre prevenir ou dissipar. Em primeiro lugar, a corporação tem contra si seu passado histórico. De fato, ela é tida como intimamente solidária de nosso antigo regime político e, por conseguinte, como incapaz de sobreviver a ele. Reclamar para a indústria e para o comércio uma organização corporativa é querer seguir ao revés o curso da história; ora, tais regressões são justamente tidas ou como impossíveis, ou como anormais. O argumento caberia se propusesse ressuscitar a velha corporação. O que permite considerar as corporações uma organização temporária, para uma época e civilização determinada, é, ao mesmo tempo, suas relíquias e como se desenvolveram na história. 

Mas se nem toda organização corporativa é necessariamente um anacronismo histórico, termos base para crer que ela seria chamada a desempenhar, em nossas sociedades contemporâneas, o papel considerável que lhes atribuímos, guardadas as proporções de tempo e espaço. Porque, se a julgamos indispensável, é por causa não de seus serviços econômicos que ele poderia prestar, mas da influência moral que poderia ter. O que vemos antes de mais nada no grupo profissional é um poder moral capaz de conter os egoísmos individuais, de manter no coração dos trabalhadores um sentimento mais vivo de sua solidariedade comum, de impedir que a lei do mais forte se aplique de maneira tão brutal nas relações industriais e comerciais. É preciso evitar estender a todo o regime corporativo o que pode ter sido válido para certas corporações e durante um curto lapso de tempo de seu processo de desenvolvimento. Longe de ser atingido por uma sorte de enfermidade moral devida à sua própria constituição, foi sobretudo um papel moral que ele representou na maior parte da sua história do ponto de vista social e econômico. Metodologicamente os aspectos sociológicos do segredo foram estudados pela primeira vez por Georg Simmel (1858-1918) no início do século XX. Simmel descreve o segredo como a capacidade ou hábito de guardar segredos. Ele define o segredo como a forma para a regulação do fluxo e da distribuição de informações. Simmel (2001) expressou-o melhor ao dizer: “se a interação humana é condicionada pela capacidade de falar, ela é moldada pela capacidade de ficar em silêncio”. Também pode controlar a própria essência das relações  por meio de manipulações da proporção entre “conhecimento”, por um lado, e “ignorância”, por outro lado. 

Simmel define a “sociedade secreta” como uma unidade interacional caracterizada em sua totalidade pelo fato de que as relações recíprocas entre seus membros são regidas pela função protetora do segredo. Essa característica central se estabelece em uma dupla contingência: Os membros da unidade interacional estão preocupados com a proteção de ideias, objetos, atividades e/ou sentimentos aos quais atribuem valor positivo, melhor dizendo, que os recompensam. Os membros buscam essa proteção controlando a distribuição de informações sobre os elementos valiosos, isto é, criando e mantendo condições relevantes de ignorância no ambiente. Dependendo da extensão do sigilo, a organização assume uma de duas formas: aquelas em que o segredo incorpora informações sobre todos os aspectos da unidade interacional, incluindo sua própria existência; e aquelas em que apenas alguns aspectos, como associação, regulamentos ou objetivos, permanecem em segredo. Último dos sete filhos de Eduard Maria Simmel (1810-1874) e Flora Bodstein (1818-1897), Georg tinha ascendência judia tanto pelo lado do paterno como da materno. Apesar disso, a mãe tinha sido batizada luterana, assim como Georg. Em 1874 Edward Simmel, dono de uma fábrica de chocolate, morre, deixando uma grande fortuna como herança. Julius Friedländer, amigo da família e também dono de respeitável fortuna adquirida no ramo da música, torna-se tutor de Georg, tendo-lhe, mais tarde, deixado uma herança expressiva a qual lhe permitiu seguir a vida acadêmica. Diplomou-se na Universidade de Berlim passando pelos cursos de filosofia. Sua tese de doutorado, também em filosofia, levou o título de A Natureza da Matéria segundo a Monadologia Física de Kant e rendeu-lhe o título no ano de 1881. Em 1885 foi designado como Privatdozent na mesma Universidade de Berlim e ganhava “apenas o que vinha das taxas pagas pelos estudantes que se inscreviam em seus cursos”. 

Em 1901, tornou-se “professor extraordinário”, mas jamais foi incorporado de modo formal e definitivo na academia berlinense. Em 1890 casou-se com Gertrud Kinel (1864-1938), diplomada também em Berlim, de família católica. Os dois tiveram um filho, Hans Simmel (1891-1943). Em 1914, ele foi nomeado professor em Estrasburgo, uma cidade que pertencia ao Império Germânico. No entanto, o autor morreu em 1918, aos 60 anos de idade. Do ponto de vista da análise cinematográfico essa diferença da essência e o exemplo, entre a imediatez e a mediação, quem faz não somos nós apenas, mas a encontramos na própria certeza sensível; e deve ser tomada na forma em que nela se encontra, e não como nós acabamos de determina-la. Na certeza sensível, um momento é oposto como o essente simples e imediato, ou como a essência: o objeto na sua humanidade. O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, mas por meio do Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto faz que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido - enquanto o saber não é, se o objeto não souber que pode ser, assim da singularidade de apreensão do objeto. 

O outro momento, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, na démarche da consciência (cf. Hegel, 2007), mas por meio de Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido - enquanto o saber não é, se o objeto não é. O objeto, portanto, deve ser examinado, para vermos se é de fato, na certeza sensível mesma, aquela essência que ela lhe atribui; e se esse seu conceito - de ser uma essência - corresponde ao modo imediato como se encontra na certeza sensível. Quer dizer, não temos de refletir sobre o objeto, nem indagar o que possa ser em verdade; mas apenas através da ideia de formação em “considerá-lo como a certeza sensível o tem nela”. O tempo, como a unidade negativa do ser-fora-de-si, é igualmente um, sem mais nem menos, abstrato, ideal. O tempo é como o espaço uma pura forma de sensibilidade ou do intuir, é o sensível, mas, assim como a este espaço, também ao tempo não diz respeito a diferença de objetividade e de uma consciência subjetiva contra ela. Quando se aplicam estas determinações de espaço e tempo, então seria aquele a objetividade abstrata, do tempo, porém a subjetividade abstrata. O tempo é o mesmo princípio que o Eu=Eu da autoconsciência pura; mas é o mesmo princípio ou o simples conceito ainda em sua total exterioridade e abstração – como o mero vir-a-ser intuído, o puro ser-em-si como simplesmente um vir-fora-de-si. O tempo é contínuo como o espaço, pois ele é a negatividade abstrata e nela ainda não há nenhuma diferença real.

No tempo, diz-se, tudo surge e tudo passa e perece, se se abstrai de tudo, do recheio do tempo e do recheio do espaço, fica de resto o tempo vazio comparativamente como o espaço vazio – isto é, são então postas e representadas estas abstrações de exterioridade, como se elas fossem existentes por si. Mas não é o que no tempo surja e pereça tudo, porém o próprio tempo é este vir-a-ser, surgir e perecer, o abstrair essente.  É bem diverso do tempo, mas também essencialmente idêntico a ele. O real é limitado, e o outro para esta negação está fora dele, a determinidade é assim nele exterior a si, e daí a contradição de seu ser; a abstração opera nessa exterioridade de sua contradição e a inquietação da mesma é o próprio tempo. O finito é transitório e temporário, porque ele não é, como ocorre no conceito nele mesmo, a negatividade total, mas em si, como essência universal, entretanto, diferentemente da mesma essência, é unilateral, e se relaciona à mesma essência como à sua potência. Mas tais conceitos na sua identidade conseguem livremente existente para si, Eu=Eu, é “em si” e “para si” a absoluta negatividade e liberdade. Por isso o tempo não é potência dele, nem ele está no tempo nem é algo temporal. Mas ele é muito mais a potência do tempo, como sendo este apenas esta negatividade como exterioridade. Só o natural, é, enquanto é finito, sujeito ao tempo; na constituição da ideia, o espírito que é eterno. A eternidade não será, nem foi, mas ela é hegeliana.

A duração é também diferente da eternidade nisto, que ela é apenas um relativo suprassumir do tempo; mas a eternidade é duração infinita, isto é, não relativa, porém em si refletida. O que não está no tempo é o sem-processo; o péssimo e o mais perfeito não estão no tempo, mas duram. O péssimo, o da pior qualidade, porque ele é uma universalidade abstrata, assim espaço, assim tempo mesmo, o Sol, os elementos concretos, rochas, montanhas, a natureza inorgânica em geral, também obras dos homens, pirâmides; sua duração não é vantagem. O duradouro é mais altamente cotado do que o breve transitório; mas toda florescência, toda bela vitalidade tem morte cedo. Mas também o mais perfeito dura, não só o universal sem-vida, inorgânico, mas também o outro universal, o concreto em si, o gênero, a lei, a ideia, o espírito. Pois devemos decidir se algo tem como representação o processo total ou apenas um momento de apropriação do processo. O universal como lei é processo em sim mesmo e como processo; mas não é parte do processo, nem está no processo, mas contêm seus dois lados e é ele próprio sem-processo. Pelo fenômeno a lei entra no tempo enquanto os momentos do conceito têm a aparência da independência; mas as diferenças portam-se como reconciliadas e retomadas à paz. A noção de desenvolvimento passa a ser central dessa concepção e, para o bem ou para o mal contemporaneamente.

Mesmo a ideia de progresso, que implicava que o depois pudesse ser explicado em função do antes, encalhou, de certo modo nos recifes do século XX, ao sair das esperanças ou das ilusões que acompanharam a travessia do mar aberto pelo fabuloso séc. XIX. Esse questionamento refere-se a várias ocorrências distintas entre si que não atestam um progresso moral da humanidade, e sim, uma dúvida sobre a história como portadora de sentido, dúvida renovada, essencialmente no que se refere ao seu método, objeto e fundamentalmente nas grandes dificuldades não só em fazer do tempo um princípio de inteligibilidade, como ainda em inserir aí um princípio de identidade. A história, essencialmente, isto é, compreensão da série de relações sobre acontecimentos reconhecidos como acontecimentos por muitos. Acontecimentos que podemos pensar que importarão sempre aos olhos dos “historiadores de amanhã”. E por mais consciente tal problematização, de nada pode nesse caso vincular a algumas circunstâncias. Algumas imagens, como se fosse menos verdadeiro, dizem que os homens fazem a história, mas não sabem, talvez sob condições sociais determinadas.

Desde Hegel sabemos que a diferença dos sexos passou a fundamentar a diferença de gêneros masculino e feminino que, de fato, historicamente a antecedera. O sexo autonomizou-se e ganhou o estatuto de fato social originário. Revolucionários, burgueses, filósofos, moralistas, socialistas, sufragistas e feministas, todos estavam de acordo em especificar as qualidades morais, intelectuais e sociais dos humanos, partindo-se da diferença de gênero entre homens e mulheres. A ideia, ou o espírito está “acima do tempo”, tal é o próprio conceito do tempo; é eterno, em e para si, não é rompível no tempo porque ele não perde o lado reconhecendo um lado do processo. No indivíduo, como tal, é de outro modo, neste sentido que está de um lado o gênero; a vida mais bela é a que une perfeitamente o universal e sua individualidade em uma figura: Gestalt. Mas também então o indivíduo está separado do universal, e assim é um lado do processo, a alterabilidade; após este momento mortal ele cai no tempo. É neste sentido que a interpretação hegeliana compreende que “o [que é] medíocre dura e, afinal, governa o mundo; mas também pensamentos tem esta mediocridade, com eles a doutrina o mundo existente, apaga a vitalidade espiritual, transforma-o em hábito, e assim dura. A duração consiste em que ela permanece na falsidade, não consegue seu direito, não dá a sua honra ao conceito, não se representa como processo a verdade”.

Bibliografia Geral Consultada.  

LEFORT, Claude, Le Travail de l’Oeuvre Machiavel. Paris: Editeur Gallimard, 1986; LARIVAILLE, Paul, Itália no Tempo de Maquiavel. Rio de Janeiro: Editora Companhia das Letras, 1988; BATH, Sérgio, Maquiavelismo: A Prática Política Segundo Nicolau Maquiavel. São Paulo: Editora Ática, 1992; DE GRAZIA, Sebastian, Maquiavel no Inferno. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1993; NEDEL, José, Maquiavel: Concepção Antropológica e Ética. Porto Alegre: Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1996; PORTANTIERO, Juan Carlos, Fortuna y Virtud en la República Democrática. Estudios sobre Maquiavelo. Buenos Aires: Consejo Latino-americano de Ciências Sociales, 2000; SIMMEL, Georg, El Individuo y la Libertad: Ensayos de Crítica de la Cultura. Barcelona: Ediciones Península, 2001; NIVALDO, José, Maquiavel, o Poder. São Paulo: Editor Martin Claret, 2004; WHITE, Michael, Maquiavel: Um Homem Incompreendido. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007; HEGEL, Friedrich, Fenomenologia do Espírito. 4ª edição. Petrópolis (RJ); Editoras Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007; ABRAHÃO, Miguel Martins, O Strip do Diabo. São Paulo: Editor Agbook, 2009; KING, Ross, Maquiavel: Filósofo do Poder. São Paulo: Objetiva, 2010; DUKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; BAGNO, Sandra, “O Brasil na hora de ler Maquiavel: Notas sobre a primeira edição brasileira d`O Príncipe, traduzida por Elias Davidovich”. In: Revista Tempo. Rio de Janeiro, vol. 20, pp. 1-21; 2014; LEONARDI, Evandro Marcos, Conflito Civil e Liberdade no Pensamento Republicano de Maquiavel. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2015; MAGALHÃES, Leonardo Vello de, Conflito e Liberdade em Maquiavel. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2015; BIONDO, Valéria, Franklin e seus Aforismos Educativos: Um Modo de Existência e de Conduta Moral e da Racionalização da Sexualidade. Tese de Doutorado em Educação Escolar.  Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2023; RAMOS, Paula Pope, O coração que não sabe encolher: a figuração da mulher vingativa na poética gótica do século XIX. Tese de Doutorado. Instituto de Letras. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2025; entre outros.