sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Cristalografia – Domínio, Paisagem & Pesquisas de Recursos Naturais.

        Na ciência temos de nos interessar pelas coisas e não pelas pessoas”. Marie Curie

A indivisibilidade de controle humano e consentimento tornam necessário que se percebam as organizações formais como sistemas cooperativos, ampliando a estrutura de referência dos relacionados com a manipulação de recursos da organização. No ponto de ação da decisão executiva, o aspecto econômico da organização proporciona instrumentos inadequados de controle da estrutura concreta. Esta ideia poderá ser prontamente percebida se se voltar a atenção para o papel do indivíduo na economia da organização. Do ponto de vista da organização social como sistema formal, os homens são encarados funcionalmente, quanto ao seu papel, como participantes de segmentos determinados do sistema cooperativo. Na realidade, porém, os indivíduos se mostram propensos à despersonalização, a exceder os limites de seu papel segmentário, para participar como integrais. Os sistemas formais não podem abranger as modificações assim introduzidas e, consequentemente, falham como instrumento de controle, quando se confia apenas neles. O indivíduo integralmente cria novos problemas para a organização. Em parte por causa das necessidades de sua própria personalidade, parcialmente porque traz consigo um conjunto de hábitos arraigados, talvez, como obrigações com determinados grupos especiais fora da organização. Na adequação de sistemas formais de coordenação, pesquisa & desenvolvimento, as necessidades individuais não permitem a devida atenção às metas enunciadas do sistema, na medida que se incluem na ordem planetária. O perigo inerente à delegação surge essencialmente daí. A delegação é um ato social em que dispomos de organização, relacionado com designações formais de funções e poderes. Em tese, sociologicamente, estas designações se referem a reprodução social de papéis ou funções oficiais, e não ao indivíduo, como tal, que nem sempre coincide com as metas do sistema formal.

Há muito historicamente é lugar comum compreender que o discurso filosófico correlacionou racionalmente verdade e ser. Se verdade se encontra, justificadamente, num nexo originário com a constituição do ser, então o fenômeno da verdade remete ao âmbito da problemática ontológica fundamental. Três teses caracterizam a apreensão tradicional da essência da verdade e a opinião gerada em torno de sua primeira definição: 1. O “lugar” da verdade é o enunciado (o juízo). 2. A essência da verdade reside na “concordância” entre o juízo e seu objeto. 3. Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como “concordância”. A famosa questão, com a qual se supunha colocar os lógicos em apuros, é: O que é a verdade? Se ela consiste na concordância do conhecimento com o seu objeto deve distinguir-se dos demais. Um conhecimento é falso quando não concorda com o objeto a que é submetido, mesmo que tenha algo que possa valer para outros objetos. O que significa “concordância”? A concordância de algo com algo tem o caráter formal da relação de algo com algo. Toda concordância e, assim também, toda “verdade” é nada mais do que a memória social de uma relação. Mas nem toda relação é uma concordância. Quer dizer, um sinal só assinala para o assinalado.

Ipso fato, a importância social da ênfase abstrata do sistema cooperativo como tal origina-se da introspecção, que permite verificar determinadas ações e consequências que são determinadas independentemente da personalidade das pessoas no caso envolvidas. Assim, ao aludir ao paradoxo da organização - a tensão criada pelas consequências inibitórias de determinados tipos de estruturas não-convencionais nas organizações, não significa que as próprias pessoas estejam em dúvida ou enfrentando dilemas. É a natureza das consequências da interação de interesses divergentes que cria a condição, resultado este que poderá surgir independentemente a percepção consciente ou das qualidades dos participantes individuais. Portanto, os sistemas de ação racional (cf. Habermas, 1987) são característicos tanto de indivíduos como na constituição de organizações. Reconhecer a relevância sociológica das estruturas formais da ciência, nada tem a ver com a importância deliberadamente, ao longo deste caminho, com a natureza da autoridade nas organizações, encarecendo os fatores sociais de coesão e persuasão como fontes legais ou coercitivas. Tal redefinição é, a mesma com que se introduziu o conceito de Eu, que se origina na filosofia da história de Friedrich Hegel, como histórico e social, e só depois no âmbito da sociologia. Da mesma forma, a definição de autoridade, por exemplo, é condicionada por fatores sociológicos de sentimento e coesão social ou, mais generalizada, a definição de organizações formais como sistemas cooperativos apenas marca os limites iniciais de elaboração de um procedimento na organização mediada pelo método de análise e processo de trabalho.  

 Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito concreto através de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que da supressão da exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, dialeticamente, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é per se razão.

O homem, a criança, o culto e o inculto, são razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Queremos dizer com isso, que todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que, filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença cultural se descobre toda a diferença na história do mundo. Isto é, os homens são todos racionais.

O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade. O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe o que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também falar da mudança, mas esta deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.

Para Friedrich Hegel a evolução não somente faz aparecer o interior originário, exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito abstrato assim adquire o poder concreto da realização. O concreto é em si diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e, contudo, simples. É em si mesmo contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão, deste este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste em que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia evoluir. Na alma, enquanto determinada como indivíduo, as diferenças estão enquanto mudanças que se dão no indivíduo, que é o sujeito uno que nelas persiste e, assim, enquanto momentos do seu desenvolvimento.

Por serem elas diferenças, à uma forma, físicas e espirituais, seria preciso, para determinação ou descrição mais concreta, antecipar a noção do espírito cultivado. As diferenças são: 1) curso natural das idades da vida, desde a criança, desde a criança, o espírito envolvido em si mesmo – passando pela oposição desenvolvida, a tensão de uma universalidade ela mesma ainda subjetiva em contraste com a singularidade imediata, isto é, como o mundo presente, não conforme a tais ideais, e a situação que se encontra, em seu ser-aí para esse mundo, o indivíduo que, de outro lado, está ainda não-autônomo e em si mesmo não está pronto, o jovem, para chegar à relação verdadeira, ao reconhecimento da necessidade e racionalidade objetivas do mundo já presente, acabado; em sua obra, e leva a cabo por si e para si, o indivíduo retira, por sua atividade, uma confirmação e uma parte, mediante a qual ele é algo, tem uma presença efetiva e um valor objetivo (homem); até a plena realização da unidade com essa objetividade do conhecer: unidade que, enquanto real, vem dar sentido na inatividade da rotina que tira o interesse (cf. Habermas, 1987) enquanto ideal se liberta dos interesses mesquinhos é das complicações do presente exterior (o ancião). 

O espírito manifesta aqui sua independência da própria corporalidade, em poder desenvolver-se antes que nela torne. Com frequência, crianças têm demonstrado um desenvolvimento espiritual que vai muito mais rápido que sua formação corporal. Esse foi o caso histórico, sobretudo em talentos artísticos indiscutíveis, em particular nos gênios da música. Também em relação ao fácil apreender de variados conhecimentos, especialmente na disciplina matemática; e tal precocidade tem-se mostrado não raramente também em relação a um raciocínio de entendimento, e mesmo sobre objetos éticos e religiosos. O processo de desenvolvimento do indivíduo humano natural decompõe-se então em uma série de processos, cuja diversidade se baseia sobre a relação do indivíduo para com o gênero, e funda a diferença da criança, do homem e do ancião. Essas diferenças são as apresentações das diferenças do conceito. A idade da infância é o tempo da harmonia naturalmente da paz do sujeito consigo mesmo e com o mundo. Um começo tão sem-oposição quanto a velhice é um fim sem-oposição. As oposições que surgem ficam sem interesse mais profundo. A criança vive na inocência, sem sofrimento durável; no amor aos pais, e no sentimento de ser amado por eles.

Na Roma antiga, o gênio representava o espírito ou guia de uma pessoa, ou mesmo de uma gens inteira. Um termo relacionado é genius loci, o espírito de um local específico. Por contraste a força interior que move todas as criaturas viventes é o animus. Um espírito específico (ou daimon) pode habitar uma imagem ou ícone, dando-lhe poderes sobrenaturais. Gênios são dotados sociologicamente de excepcional brilhantismo, mas frequentemente também são insensíveis às limitações da mediocridade bem como são emocionalmente muito sensíveis, algumas vezes ambas as coisas. O termo prodígio indica simplesmente a presença de talento ou “gênio excepcional” na primeira infância. Os termos prodígio e criança prodígio são sinônimos, sendo o último um pleonasmo. Deve-se ter em consideração que é perigoso tomar como referência as pontuações em testes aplicados de QI quando se deseja fazer um diagnóstico razoavelmente correto de genialidade. Há que se levar em consideração que em todos as pontuações, e em todas as medidas, existe uma incerteza inerente, bem como os resultados obtidos nos testes representam a performance alcançada por uma pessoa em determinadas condições, não refletindo necessariamente toda a capacidade da pessoa em condições ideais. A contribuição memorial permanentemente histórica e cultural dos filósofos pré-socráticos à matemática, enquanto invenção da ciência, não são discutíveis e em grande parte fruto de tradição bem documentada.

Os levantamentos de solos dos Estados do Nordeste apresentam escalas variando de 1:400.000 a 1:1.000.000. Portanto, alerta-se aos usuários que, devido ao nível generalizado dos mapeamentos, é de se esperar obterem dos mesmos apenas uma visão global generalizante dos diversos solos existentes no Estado, elemento básico essencial para planejamentos regionais, escolha de áreas prioritárias que justifiquem levantamentos de solos mais detalhados e seleção de áreas para experimentação agrícola. Não se prestam, deste modo, para solucionar problemas de glebas específicas (pequenas propriedades). No estado do Ceará o estudo da Geografia Física destaca-se através de amplo predomínio espacialmente das superfícies aplainadas da depressão sertaneja, posicionada em cotas modestas, resultante de uma prolongada atuação dos processos erosivos e denudacionais que promoveu o arrasamento do relevo sustentado pelo embasamento ígneo-metamórfico pré-cambriano.  A despeito da existência de registros neotectônicos no estado do Ceará, sua influência parece ser analogamente pequena na configuração do atualmente cenário geomorfológico. O predomínio de vastas superfícies aplainadas denota um longo período de notável estabilidade tectônica, sem grandes variações de nível de base. Estas condições devem ter prevalecido ao longo do Cenozoico, como devem ter vigorado paleoclimas quentes e semiáridos, provavelmente com poucas variações em relação ao clima. Todavia, estas superfícies aplainadas encontram-se pontilhadas de montes “rochosos isolados” (inselbergs) que se configuram em mediações de relevos residuais elaborados em rochas mais resistentes ao intemperismo e erosão, e que, portanto, resistiram aos processos de aplainamento generalizado, gerando solos rasos e pouco profundos e pedregosos, porém de boa fertilidade natural devido à grande influência presente do material originário, que caracterizam grande parte do cenário geomorfológico extraordinário do Estado. 

Os eventos geológicos, que configuram-se na evolução geomorfológica do estado do Ceará, está fortemente associada ao processo de abertura do Atlântico Equatorial durante o Cretáceo sendo datado do período Aptiano, entre 125 e 110 milhões de anos, num sistema de falhamentos transcorrentes e instalação de bacias sedimentares em pequenos ou grandes rifts abortados (pull-apart basins), tais como as bacias do Araripe, Potiguar, Iguatu e Icó, implantados sobre o Escudo Pré-Cambriano das Faixas de Dobramento Nordestinas. Este embasamento ígneo-metamórfico destas Faixas de Dobramento Nordestinas corresponde a um conjunto de orógenos amalgamados que exibe, ao longo do percurso da Depressão Sertaneja, núcleos metamórficos mais antigos do embasamento, de idade arqueano-paleoproterozoica; e largas faixas remobilizadas que sofreram a orogênese Brasiliana, de idade neoproterozoica. Nestes orógenos brasilianos, verifica-se um conjunto de rochas metamórficas intrudidas por vastos plútons e batólitos graníticos de antigos arcos magmáticos do período neoproterozoico. Este complexo e diversificado conjunto de litologias do escudo Pré-Cambriano foi denominado de “Província Borborema” e reflete-se na paisagem atual, através do grande número de relevos residuais isolados (maciços montanhosos e inselbergs) originados a partir da resistência diferencial ao intemperismo e à erosão, apresentada por esse vasto conjunto de litologias, além de um complexo arranjo tectono-estruturalmente, no qual se salientam extensas zonas de cisalhamento que cortam presentemente o estado do Ceará.

Estudos sobre evolução geomorfológica do Nordeste brasileiro, como os desenvolvidos, propõem, em linhas gerais, um prolongado evento epirogenético que se estende pelo Cretáceo e Cenozoico, destacando-se, neste contexto geomorfológico, o Planalto da Borborema, com consequente geração de dois a quatro níveis de aplainamento escalonados, tendo sido avaliados com base em datações relativas.  Os estudos especializados neste âmbito sugerem a geração de, pelo menos, duas superfícies de aplainamento para o estado do Ceará, isto é, uma superfície de idade paleógena, que corresponderia aos topos das chapadas da Ibiapaba e Araripe, em cotas variáveis entre 750 metros e 900 metros, o que corresponde à superfície sul-americana; e outra superfície de idade neógena, uma superfície interplanáltica que corresponderia ao piso da Depressão Sertaneja, embutidas em cotas inferiores a uma extensão medida de 500 metros, o que corresponderia geomorfologicamente à superfície Velhas. A despeito dos sólidos argumentos científicos apresentados pelos especialistas e considerando a tese segundo a qual a Depressão Sertaneja (ou muito provavelmente boa parte dela) tenha sido originada no Cretáceo Médio ou Superior, não se pode desconsiderar que, durante todo o período Cenozoico, os processos geológicos de erosão e aplainamento tenham sido constantes e promoveram ou acentuaram uma notável planura da Depressão Sertaneja, interrompida por esparsos inselbergs e portanto, dentre os maciços residuais.

A “paisagem física”, na falta de melhor expressão atualmente, denuncia uma incipiente dissecação quaternária das superfícies aplainadas, marcadas pela ligeira incisão fluvial e pela topografia muito suavemente ondulada das vastas áreas pediplanadas, comparativamente bem como o pequeno desenvolvimento pedogenético dos solos, sendo dominantemente rasos a pouco profundos, comprovada pela elevada relação silte/argila e sílica (SiO2) /alumina (Al2O3). Entretanto, o entendimento do funcionamento e dinâmica deste conjunto de “paisagens sertanejas” envolve, forçosamente, a compreensão de sua dinâmica climática e sua importância para caracterizar um conjunto de terrenos, o qual se convencionou denominar de Sertão. O estado do Ceará incluindo sua zona costeira está inserido no denominado “polígono das secas” com regime climático quente e semiárido, com temperaturas sempre elevadas, típico de uma zona subequatorial, onde a maior parte de seu território registra uma precipitação média anual inferior a 700 mm/ano, sendo que essas chuvas estão concentradas em dois ou mais meses do ano. O trimestre chuvoso restringe-se aos meses de fevereiro a abril. Nas áreas mais úmidas do estado (faixa costeira e os “brejos de altitude”) o período úmido se estende de janeiro a julho. Nas áreas mais áridas, dominadas por “caatingas hiperxerófilas”, prevalece o clima tipo BSh de Köeppen, com predomínio de precipitações pluviométricas médias anuais entre 400 e 450 mm/ano. As taxas de evaporação são altas, a insolação é forte e a umidade relativa é baixa. Neste sentido, deve-se levar em consideração que o regime hídrico de semiaridez do Sertão Nordestino está diretamente associado ao fato de que todos os sistemas produtores de chuvas que atingem a região atuam por poucos meses promovendo, portanto, estiagens muito prolongadas que podem variar de sete a dez meses, condição hídrica característica do Bioma da Caatinga.

Destacam-se, no estado do Ceará, dois sistemas produtores de chuvas que atingem, marginalmente, o chamado território semiárido: 1) A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que promove intensa pluviosidade no Amapá e no Norte do Pará e Maranhão, e atinge o sertão do Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte apenas durante o máximo de sua oscilação no hemisfério Sul entre os meses de fevereiro a abril. Os outros meses do ano tendem a ser secos. 2) A Massa Equatorial Atlântica (mEa), portadora dos ventos alísios úmidos (ventos do quadrante leste), promove intensa precipitação no litoral oriental do Nordeste durante o inverno, porém, poucas chuvas nas áreas a sotavento do Planalto da Borborema. Portanto, o semiárido do Rio Grande do Norte e Ceará tende também a apresentar longas estiagens com curtos períodos chuvosos durante o inverno. A situação sinótica exposta (cf. Brandão, 2014) explica o regime climático de semiaridez que graça sobre a região, porém a característica climática mais penosa para a população sertaneja é a sua irregularidade pluviométrica. Neste caso, existe uma diferença fundamental entre estiagem e o histórico fenômeno da seca. A prolongada estiagem de 7 a 10 meses é um fato climático já esperado pelo sertanejo. Todavia, nos anos em que a ZCIT atua de forma atenuada no hemisfério Sul, não ocorrem chuvas no Ceará durante seu período úmido (fevereiro-abril). Isto implica em mais de ano sem chuvas ou chuvas inexpressivas. Assim, se caracteriza o fenômeno da “seca” que tanto aplica-se a população sertaneja. Os anos atípicos de 2009 e 2010 ilustram, de forma exemplar, esta situação: em 2009, quando o Nordeste Setentrional estava submetido à influência do fenômeno El Niño, a  Zona de Convergência Intertropical oscilou de forma acentuada no hemisfério Sul e promoveu chuvas torrenciais, “acima” da normalidade estatisticamente de chuvas mensais no Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, entre os meses de fevereiro e junho.

Tal evento climático acarretou inundações, perdas de colheita, danos em obras de infraestrutura como construções, pontes, açudes, estradas etc. Em contraposição, no ano de 2010, quando o Nordeste Setentrional estava submetido à influência do fenômeno El Niño, a ZCIT oscilou de forma muito atenuada no hemisfério Sul e verificou-se o fenômeno da “seca” com precipitações muito abaixo das normais de chuvas mensais no período úmido nos mesmos estados referidos. Tal evento acarretou do modo semelhante perdas de colheita com severa quebra da safra agrícola e morte de animais. Do ponto de vista geomorfológico, as chuvas concentradas e torrenciais, como as registradas no período úmido de 2009 que ocorrem em curtos períodos de tempo geram, inclusive, fluxos de enxurradas com alto potencial erosivo foi caracterizado por intensos fluxos laminares de escoamento superficial. Após o período da seca, ainda com a caatinga desfolhada, essas chuvas intensas praticamente não encontram nenhuma barreira ao chegar ao solo. As folhas ou restos vegetais estão destruídos pela insolação e altas temperaturas. Isso se intensifica à medida que os terrenos são degradados historicamente pelo desmatamento climático da caatinga, gerando um cenário de solos intensamente castigados pari passu por erosão laminar e linear acelerada, onde os materiais finos são transportados pela erosão aflorando e mais intensos os aspectos de pedregosidade e rochosidade, numa pré-condição à implantação de processos de desertificação.

Pedologia representa o estudo dos solos no seu ambiente natural. Geografia física ou fisiografia é o estudo das características naturais existentes na superfície terrestre, ou seja, o estudo das condições da natureza ou paisagem natural da Terra. A superfície da Terra é irregular e varia de um lugar para outro em função da inter-relação dinâmica entre os fatores entre si e geográfica em conjunto com outros fatores. A manifestação local deste produto dinâmica é reconhecida como paisagem (cf. Strahler, 1984; Mcknight, 2005) que é em Geografia um fenômeno de interesse particular, mesmo considerado por muitos ser o objeto de estudo da geografia: Otto Schlüter, Siegfried Passarge, Leo Waibel, Jean Brunes, Carl Sauer, entre outros. Uma das teorias clássicas para explicação da evolução da paisagem como produto da dinâmica da superfície terrestre, é denominada teoria do ciclo geográfico. Este ciclo começa com o soerguimento do relevo, de proporções continentais, através de processos geológicos tais como epirogênese, também de “movimento epirogenético” ou epirogenia, sendo que a epirogênese é um tipo de “movimento tectônico” que consiste no deslocamento vertical da crosta terrestre e acontece em ambos os sentidos: para cima ou para baixo, um fenômeno geológico natural determinado pelas atividades vulcânicas. 

Isto se daria em função da compensação isostática, sendo as formas de relevo resultantes da interação entre os tipos de rocha e os climas atuantes. Esses processos permitem o trânsito alívio por diferentes fases. Os fatores de estos (movimentos, ruídos) processos podem ser classificados em quatro grupos: fatores geográficos: a paisagem é afetada tanto pela fatores bióticos e abióticos, que são considerados geográficos só fatores abióticos de origem exógena, tais como relevo, solo, clima e corpos d`água. O clima, com elementos como pressão, temperatura, ventos. Água de superfície com a ação do escoamento, o rio e a ação do mar. O gelo glacial com modelagem, entre outros. Esses são fatores que ajudam a modelo favorecendo processos de erosão. Fatores bióticos: o efeito de fatores bióticos no alívio geral, se opõem ao processo de modelagem, especialmente considerando a vegetação, no entanto, existem poucos animais que não trabalham com o processo erosivo, como cabras. Fatores geológicos: como placas tectônicas, o diastrofismo, a orogenia e vulcanismo são processos construtivos e de origem endógena que se opõem e interromper a modelagem do ciclo geográfico. Fatores humanos: As atividades humanas sobre o relevo são muito variáveis, dependendo da atividade desenvolvida neste contexto e como muitas vezes acontece com os homens é muito difícil generalizar e podem influenciar a favor ou contra a erosão. Embora os vários fatores que influenciam a superfície da Terra estão incluídos na dinâmica do chamado “ciclo geográfico”, fatores geográficos só contribuem para o “ciclo de desenvolvimento” e seu objetivo finalmente, o peneplano. Enquanto o resto incrustado ao redor dos fatores biológicos, geológicos e sociais puder interromper ou perturbar o ciclo de desenvolvimento normal.

Embora as mudanças climáticas façam parte da história do planeta desde os primórdios, seus efeitos foram acelerados nos últimos anos pela atividade humana. É o que alerta José Antonio Marengo, climatologista peruano, coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, órgão brasileiro que estuda o tema. O especialista explica que algumas das consequências dessas mudanças já podem ser percebidas; apesar disso, no entanto, ainda é possível implementar medidas que ajudem a reduzir o impacto que as alterações climáticas geram. Mas o que é exatamente a mudança climática? E quais são as causas e consequências desse fenômeno? De acordo com a Organização das Nações Unidas, a mudança climática refere-se a mudanças de longo prazo nas temperaturas e padrões climáticos.  Portanto, diz respeito a todas as alterações que o clima sofreu em diferentes escalas de tempo, diz o climatologista peruano, confirma o climatologista peruano. A ONU explica que estas alterações podem ser naturais (tais como as variações no ciclo solar, por exemplo, mas que “desde o século 19, as atividades humanas têm sido o principal motor da mudança climática”. O que causa a mudança climática? O especialista do Cemaden considera que existem causas naturais e humanas para a mudança climática. Entre as primeiras, ele menciona a distância entre o Sol e a Terra, que é um processo astronômico natural, e as erupções vulcânicas, que liberam aerossóis capazes de bloquear a energia solar. Entre os fatores antropogênicos envolvidos na mudança climática, Marengo lista a queima de combustíveis fósseis por veículos ou indústria; o metano liberado por aterros sanitários, pela agricultura e pela pecuária; e a queima de vegetação ou biomassa como os principais. A Organização das Nações Unidas (ONU), por sua vez, deixa claro que a geração de energia a partir de combustíveis fósseis é um motivo de grande preocupação. – “A maior parte da eletricidade ainda é gerada pela queima de carvão ou gás, que produz dióxido de carbono e óxido nitroso, potentes gases de efeito estufa que cobrem o planeta e retêm o calor do Sol”, informa ciosa a entidade. A organização também adverte sobre as emissões da indústria e das fábricas, principalmente da queima de combustíveis fósseis para gerar energia para produzir cimento, componentes eletrônicos ou roupas, por exemplo, todas ações que colaboram com a mudança climática.

Assinalar é uma relação ente o sinal e o assinalado, mas não uma concordância. Decerto, nem toda concordância significa uma espécie de convenientia, tal como se fixou na definição de verdade. A ela pertence estruturalmente uma espécie de “perspectiva”. O que é isso em cuja perspectiva concorda aquilo que, na adaequatio, se relaciona? Ao esclarecer a relação de verdade, deve-se também considerar a especificidade dos membros da relação. Em que perspectiva intellectus e res concorda? Será que, em seu modo de ser e em seu conteúdo essencial, eles proporcionam algo em cuja perspectiva pode concordar? Caso seja impossível uma igualdade entre eles, por não pertencerem à mesma espécie, não será, segundo então possível que ambos (intellectus e res) sejam semelhantes? A partir dessas questões evidencia-se que, para se esclarecer a estrutura da verdade, não basta simplesmente pressupor esse todo relacional, mas é preciso reconduzir o questionamento a seu contexto ontológico que sustenta esse todo como tal. Mas será necessário para isso arrolar toda a problemática epistemológica referente à relação sujeito-objeto? Ou será que a análise pode restringir-se à interpretação da “consciência (Bewusstsein) imanente da verdade”, permanecendo-se, portanto, “na esfera” do sujeito? Segundo a opinião geralmente calcada na longevidade da história da filosofia, só o conhecimento humano é o que diz respeito ao verdadeiro.

Conhecer, porém, é julgar. Em todo julgamento, deve distinguir a ação de julgar enquanto processo psíquico real e o conteúdo julgado enquanto conteúdo ideal. Deste último, diz-se que é “verdadeiro”. Em contrapartida, o processo psíquico real é simplesmente dado ou não. O conteúdo ideal do juízo é, pois, o que se acha numa relação de concordância. E esta diz respeito a um nexo entre o conteúdo ideal do juízo e a coisa real sobre a qual se julga. Em seu modo de ser, a concordância é real, ideal ou nenhuma destas? Como se deve apreender ontologicamente a relação entre o ente ideal e o real simplesmente dado? Essa relação subsiste e consiste em juízos fáticos não somente entre o conteúdo do juízo e o objeto real, mas também entre o conteúdo ideal e a ação real de julgar; e aqui a relação não será manifestamente mais “intrínseca”? Enfim, a questão é: quando é que o fenômeno da verdade se torna expresso no próprio conhecimento? Sem dúvida, quando o conhecimento se demonstra como verdadeiro. É, portanto, a própria verificação de si mesmo que lhe assegura a sua verdade. No contexto fenomenal dessa verificação, é que a relação de concordância deve tornar-se visível. O sociólogo não observa a realidade e sim práticas. O sociólogo, assim como deve ser um homem que sente, não deve ser jamais um homem que acredita. Questionar a unidade de um sistema de representações, ou ideologia, a relação imaginária do homem com as suas condições reais de existência, conduz à necessidade de questionar uma hegemonia e um poder organizacional e, mais concretamente, um poder de Estado.

O sociólogo só muito raramente é o ideólogo (cf. Eagleton, 1997) da classe dirigente, como ocorre hic et nunc no Ceará. O Estado não satisfaz, no entanto, completamente este atípico sociólogo, mesmo o mais complacente. Ele o desconcerta também, pois manipula a guerra e a diplomacia, vivência do acontecimento e, em sentido inverso, não assegura jamais completamente a unidade de sua prática pedagógica e invariavelmente de seu discurso. Essa unidade vamos encontra-las nas igrejas católicas, pois, o estado do Ceará tem 24.556 igrejas e templos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística, criado em 1934 e instalado em 1936 com o nome de Instituto Nacional de Estatística. A Arquidiocese de Fortaleza circunscrição eclesiástica da Igreja Católica no Ceará, possui 140 paróquias e 6 áreas pastorais. O Ceará é um estado estatisticamente com 78,8% de católicos e nas organizações encarregadas de transmitir a ordem social e cultural estabelecida e, mais frequentemente nas escolas do Ensino Médio. Além do mais, quem não está próximo, na maioria dos casos, nem da dominação econômica nem do poder político, pode sentir-se quando exerce sua atividade profissionalmente em organizações com fins específicos independentes do dinheiro e do poder e que desempenham um papel de integração social que não se encontra diretamente a serviço de interesses particulares. A bem da verdade, o aparelho de reprodução social” em seu ersatz se confunde com o Aparelho de Estado, que produz efeitos de poder político ou com o aparelho de gestão

           A cidade de Fortaleza possui mais igrejas e templos do que hospitais e instituições de ensino, conforme novos dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). O número de igrejas e templos em Fortaleza é mais que o dobro de estabelecimentos voltados para saúde, como hospitais, UBS, UPAs e clínicas. Segundo o instituto, a capital cearense possui: 2337 estabelecimentos com fins educativos; 1573 estabelecimentos voltados para saúde; 4081 igrejas e templos. O resultado de Fortaleza é semelhante que o cenário nacional. De acordo com o levantamento do IBGE, o Brasil possui mais igrejas e templos que hospitais e escolas somados. Os novos dados apresentados pelo instituto trazem, pela primeira vez, todas as coordenadas geográficas e os tipos de edificações que compõem os 111 milhões de endereços cadastrados com a realização da pesquisa. A grande maioria dos endereços é formada por domicílios particulares, ou seja, casas e apartamentos. Em segundo lugar estão os estabelecimentos comerciais com “outras finalidades”, como comércio, prédios culturais ou públicos. No Ceará, foram mapeados 4,7 milhões de endereços. A maior parte, 3,8 milhões, eram residências particulares, correspondendo a 80% dos endereços mapeados pelo IBGE. Cerca de 565 mil endereços no território cearense são destinados a outras finalidades, entre elas, uso comercial. O terceiro maior grupo de coordenadas geográficas do estado são as igrejas e templos: no Ceará são 24.556. Segundo o IBGE, a maior precisão do levantamento pode ser uma ferramenta importante para o planejamento urbano e para a criação de políticas públicas específicas. É possível mapear domicílios impactados for fenômenos ambientais como enchentes, deslizamentos, queimadas e secas. Ou fazer a contabilização de serviços oferecidos de acordo com a densidade demográfica.

As maiores revelações científicas nos últimos 500 anos de história social da ciência gira em torno de cientistas que criaram novas teorias e objetos de conhecimento. As descobertas de cientistas e sua paixão exagerada pelo conhecimento permitiram o desenvolvimento e evolução da ciência. Albert Einstein (1879-1955) é sinônimo de genialidade sendo considerado um dos maiores cientistas do mundo. Com 26 anos ide idade publicou uma de suas maiores descobertas, a Teoria da Relatividade. A revolução no mundo da ciência foi tão grande que o ano ficou conhecido como “O Ano Miraculoso” (1925). Marie Curie, figura como uma das únicas mulheres que conseguiu driblar a mistagogia e chegou a receber duas vezes o Prêmio Nobel, sendo a primeira pessoa a conquistar tal feito. Marie assumiu a escrita francesa do nome quando se mudou para Paris, depois de formada em medicina em uma universidade polonesa clandestina que aceitava mulheres para estudar na Sorbonne.  Quando tinha 28 anos conheceu Pierre Curie, que trabalhava em pesquisas elétricas e magnéticas e com ele ganhou seu primeiro prêmio Nobel, pela descoberta dos elementos químicos polônio e o rádio. Depois da morte de Pierre Curie morto lamentavelmente em um atropelamento conseguiu a atenção da comunidade científica. Em 1911, com 42 anos, ganhou o segundo Nobel pelos estudos à radioatividade, quando não haviam usado O termo. Foi diretora do Instituto de Rádio de Paris e fundou o Instituto Curie. Não por acaso primeira mulher a lecionar na Sorbonne.

             Talvez o primeiro aspecto a ser discutido, antes enveredarmos pelas questões de dialogismo e de instanciação propriamente ditas, diga respeito à utilização dos termos relacionados ao sistema de avaliatividade e sua aplicação em língua portuguesa. O fato de se utilizar aqui “avaliatividade”, segundo Vian Jr. (2012), em vez de apreciação ou valoração, ou simplesmente avaliação deve-se primeiramente ao fato essencial de se evitar inadequados posicionamentos teóricos, além da confusão terminológica, devida, em parte, à rapidez com que os conceitos foram recebidos no Brasil e, como diversos estudos proliferam em centros de pesquisa pelo país, algumas traduções optaram por apreciação, outras por valoração. É mais do que corriqueiro quando se iniciam aplicações da teoria produzida em língua estrangeira que é transladada para o idioma português. O mesmo ocorreu, no final da década de 1990, “com o uso da variável de registro Tenor, em inglês, e sua tradutibilidade linguística para o português, pelo fato da variável tratar não só dos participantes do discurso, mas das relações entre estes e os papéis sendo desempenhados por eles como produtores dos textos”. Parece ter se firmado o termo relações, constante, inclusive, da lista de termos sistêmico-funcionais em português. Como se vê, à medida que a teoria vem sendo utilizado nos termos também vem sendo depurados conforme circulam na “comunidade discursiva”, até que se chegue ao senso comum e a um item que abarque todo o potencial de significado e de aplicação no idioma. Nos casos dos termos apreciação ou valoração, há vários motivos para recusá-los. No caso de “apreciação”, por ser o melhor correspondente a “appreciation”, um dos três subsistemas de atitude. Quanto à valoração, tem, primariamente, o sentido de “atribuir valor a algo”, o que reduz significativamente o escopo envolvido na avaliação, uma vez que, juntamente ao valor, agregam-se crenças, emoções, afeto, relações sociais e tantos outros aspectos sociais e certamente políticos; e ainda pelo fato de, no subsistema de apreciação, haver o termo inglês “valuation”, que, em determinados casos, também poderia ser traduzido por valoração.

            Senso comum ou “conhecimento vulgar” é a compreensão do mundo resultante da herança fecunda baseada nas experiências acumuladas por um grupo social. O senso comum descreve as crenças e proposições que aparecem como normais, sem depender de uma investigação sociológica detalhada para se alcançar verdades mais profundas, como as científicas. O senso comum é a forma de conhecimento mais presente no dia a dia das pessoas que não se preocupam prioritariamente com questões científicas. É uma forma de pensamento superficial, ou seja, não está preocupado com causas e fundamentos primeiro de algo, apenas faz afirmações, irrefletidas, imediatas. Isso não quer dizer que não haja conhecimento científico entre essas pessoas ou que não haja senso comum no âmbito científico. Bastante atrelado à cultura, o senso comum é cultivado de geração em geração. Um tipo de conhecimento que se acumula no nosso cotidiano e é chamado de senso comum é o baseado na tentativa. Outro tipo de senso comum é a tradição, que, quando instalada, passa de geração para geração. No senso comum, não há análise profunda e sim uma espontaneidade de ações; o senso comum é o que as pessoas comuns usam no seu cotidiano, o que é natural. Segundo Ander-Egg (1985), o conhecimento popular tem cinco características principais. Ele seria superficial, por contentar-se com as aparências; sensitivo, por estar intimamente ligado à percepção; subjetivo, por se tratar pragmaticamente de vivências e experiências organizadas psicologicamente pelo próprio sujeito; assistemático, por não buscar uma sistematização ou compilação de ideias; e acrítico, por se referir a um conhecimento provisório que nem sempre busca uma devida reflexão sobre suas ações sociais.

Além disso, o senso comum pode apresentar semelhanças com o saber científico, se for levado em consideração que ambos são verificáveis, por haver a possibilidade do experimento para a comprovação de determinada hipótese, e, por serem verificáveis, são considerados falíveis, tendo em vista que a hipótese pode não ser considerada adequada e, portanto, não exatos. Existem pessoas que confundem senso comum com crença, embora sejam coisas bem diferentes. Senso comum é aquilo que aprendemos em nosso dia a dia e que não precisamos aprofundar para obter resultados, como por exemplo: uma pessoa vai atravessar uma pista; ela olha para os dois lados, mas não precisa calcular a velocidade média, a distância, ou o atrito estridente que o automóvel exerce sobre o solo. Ela simplesmente olha e decide se dá para atravessar ou se deve esperar. O senso comum não é a atitude tomada em si, mas sim a concepção e a perspectiva criada pela pessoa sem a real intervenção do indivíduo. Logo, o senso comum é um ato de interagir, sentir e pensar que tem sua dinãmica própria em raízes culturais e sociais. Também fazem parte do senso comum os conselhos e ditos populares que são tidos como verdades e absolutas e, como tal, seguidos pelos costumes arraigados do povo. Por exemplo: “deve-se cortar os cabelos na Lua crescente para que cresçam mais rápido”.

Marie Skłodowska-Curie, nascida Maria Salomea Skłodowska em Varsóvia, em 7 de novembro de 1867 e falecida em Passy, em 4 de julho de 1934, foi uma física e química polonesa naturalizada francesa, que conduziu pesquisas pioneiras sobre radioatividade. Foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel, sendo também a primeira pessoa e a única mulher a ganhá-lo duas vezes, além de ser a única pessoa a ganhar o Prêmio Nobel em dois campos científicos. Teve papel fundamental no legado da família Curie, de cinco prêmios Nobel. Também foi a primeira mulher a se tornar professora na Universidade de Paris e, em 1995, se tornou a primeira mulher a ser sepultada por seus próprios méritos no Panteão de Paris. Nascida em Varsóvia, no Reino da Polônia, parte do Império Russo, ela estudou na clandestina Universidade Volante de Varsóvia e iniciou seu treinamento científico nesta cidade. Em 1891, aos 24 anos, seguiu sua irmã mais velha, Bronisława, para estudar em Paris, onde obteve seus diplomas superiores e conduziu seus trabalhos subsequentes. Ela compartilhou o Prêmio Nobel de Física de 1903 com seu marido, Pierre Curie (1859-1906), e com o físico Henri Becquerel (1852-1908). Ela também ganhou o Prêmio Nobel de Química de 1911. Suas realizações incluem o desenvolvimento da teoria da radioatividade, técnicas para isolar isótopos radioativos e a descoberta dos elementos polônio e rádio. Sob sua direção, foram conduzidos os primeiros estudos para o tratamento de neoplasias usando isótopos radioativos.

Ela fundou o Instituto Curie em Paris e sua contraparte em Varsóvia, que continuam sendo grandes centros de pesquisa médica. Durante a 1ª guerra mundial (1914-1918), ela desenvolveu “unidades de radiografia móvel” para fornecer serviços de raio-X a hospitais de campanha. Apesar de ter-se tornado cidadã francesa, Marie Skłodowska-Curie, que usava os dois sobrenomes, nunca perdeu o senso de identidade polonesa. Ela ensinou às filhas a língua polonesa e as levava em visitas à Polônia. Ela nomeou o primeiro elemento químico que descobriu, polônio, em homenagem ao seu país natal. Marie Curie morreu em 1934, aos 66 anos, em um sanatório em Sancellemoz (Alta Saboia), na França, de anemia aplástica, causada por exposição à radiação durante sua pesquisa científica e seu trabalho radiológico em hospitais de campanha durante a 1ª guerra mundial. Tanto no lado paterno quanto no materno de direitos civis, a família perdeu suas propriedades e fortúnio devido a envolvimentos patrióticos em levantes nacionais que buscavam restaurar a Independência da Polônia, sendo o mais recente a Revolta de Janeiro, de 1863 a 1865. A política condenou a geração subsequente, incluindo Marie e irmãos mais velhos, a difícil luta para progredir na vida socialmente.

A cristalografia é uma ciência relativamente recente. Foi René Just Haüy (1743-1822), que viveu nos finais do século XVIII, princípios do século XIX, quem conseguiu que a cristalografia se tornasse uma ciência matemática exata, a partir da classificação de cristais de determinadas formas. Christian Westfeld (1746-1823) definiu o conceito de “célula unitária”. Christian Weiss (1780-1856) classificou os cristais nos diferentes sistemas cristalográficos que são utilizados, e em 1848, Auguste Bravais (1811-1863) demonstrou que existem apenas 14 maneiras diferentes de preencher todo o espaço com unidades que se repetem e que não deixem vazios ou sobreposições, essas unidades são reconhecidas como redes de Bravais. É a denominação dada às configurações básicas que resultam da combinação dos sistemas de cristalização com a disposição das partículas em cada uma das células unitárias de uma estrutura cristalina, sendo estas células entendidas como os paralelepípedos que constituem a menor subdivisão de uma rede cristalina que conserva as características de todo o retículo, permitindo que por simples replicação da mesma se possa reconstruir o sólido cristalino completo. Para além da sua utilização prática em cristalografia, suas redes de Bravais constituem uma importante técnica de análise tridimensional em geometria euclidiana. A cristalografia tem por objetivo essencialmente o conhecimento da estrutura dos materiais a nível atômico, independentemente do seu estado físico e de sua origem, e das relações entre essa estrutura e suas propriedades.

Esta definição foi se estabelecendo a partir de 1911, quando a primeira experiência de difração de raios-X foi realizada no laboratório de Max von Laue tendo como resultado duas descobertas fundamentais: a natureza eletromagnética dos raios-X e a natureza descontínua da matéria. Estabeleceu-se, desta forma, o fato de todos os materiais serem constituídos por átomos e/ou moléculas que, nos cristais, apresentam distribuição periódica tridimensional definindo uma rede tridimensional de difração para raios-X de comprimento de onda da ordem de 1Å, o retículo cristalino. Entretanto, materiais que apresentam ordem apenas bi ou monodimensional apresentam padrões de difração típicos e podem ser analisados por técnicas difratométricas. Finalmente, partículas de dimensões adequadas, dispersas em um meio de densidade eletrônica diferente, apresentam efeitos de espalhamento que podem ser observados utilizando-se a técnica de espalhamento de raios-X a baixo ângulo, usualmente conhecida por sua sigla SAXS. Nêutrons ou elétrons, com comprimento de onda associado adequado, também são utilizados com a finalidade de caracterização estruturalmente de materiais. Para marcar o centenário de debates globalizados da cristalografia moderna, foi celebrado em 2014 o Ano Internacional da Cristalografia por decisão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em reconhecimento da cristalografia para a compreensão da natureza e ao impacto dessa ciência no mundo contemporâneo global.

O primeiro uso registrado da categoria social e técnico-científica Revolução Industrial parece ter sido utilizado em uma carta de 6 de julho de 1799 escrita pelo francês Louis-Guillaume Otto (1754-1817), anunciando que a França havia entrado na corrida para industrializar. Em seu livro Keywords: A Vocabulary of Culture and Society, de 1976, Raymond Williams afirma na entrada para indústria: “A ideia de uma nova ordem social baseada em grandes mudanças industriais era clara em Southey e Owen, entre 1811 e 1818, e estava implícita já em Blake no início da década de 1790 e Wordsworth na virada do século XIX”. O termo Revolução Industrial aplicado à mudança tecnológica estava se tornando mais comum no final da década de 1830, como na descrição de Jérôme-Adolphe Blanqui em 1837 de “la Révolution Industrielles”. Friedrich Engels em sua obra A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, de 1844-45 descreveu “uma revolução industrial, uma revolução que ao mesmo tempo mudou toda a sociedade civil”. No entanto, embora Engels tenha escrito seu livro na década de 1840, ele não foi traduzido para o inglês até 1800, e sua expressão não entrou na linguagem cotidiana. O crédito por popularizar o termo, comunicativamente pode ser a Arnold Toynbee (1889-1975), cujas palestras de 1881 deram um relato etnográfico detalhado do termo.

Revolução Industrial, também chamada de Primeira Revolução Industrial, foi a transição para novos processos de produção, na Grã-Bretanha, na Europa continental e nos Estados Unidos da América, a partir de 1760 até algum desprendimento entre 1820 e 1840. Essa transição incluiu a passagem de métodos de produção manual para a produção mecânica, novos processos de fabricação de produtos químicos e metalúrgicos, o uso de energia a vapor e hidráulica, o desenvolvimento de máquinas-ferramentas e a ascensão do sistema fabril mecanizado. Além do aumento da produção, houve também, nesse período, um crescimento populacional sem precedentes. A indústria têxtil foi dominante da Revolução Industrial, em termos de geração de emprego, valor da produção e volume de capital, além de também ter sido a primeira a usar os novos métodos e técnicas. Historicamente começou na Grã-Bretanha, onde também foram introduzidas as mais significativas inovações tecnológicas e arquitetônicas. Em meados do século XVIII, o Reino Unido, formado por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, é uma nação insular situada no Noroeste da Europa e a principal nação do mundo, controlando um império comercial global com colônias na América do Norte e no Caribe, além de hegemonia militar na Índia; particular com o proto-industrializado Mughal Bengal, através das atividades da Companhia das Índias Orientais.

O desenvolvimento do comércio e a ascensão dos negócios estavam entre as principais causas da Revolução Industrial, que marcou uma grande virada na história econômica. Comparável apenas à adoção da agricultura pela humanidade no que diz respeito ao avanço material, a Revolução Industrial influenciou quase todos os aspectos políticos da vida cotidiana. Em particular, a renda média e a dimensão extraordinária de aumento da população rural e urbana começaram a apresentar um crescimento sustentado sem precedentes. Alguns economistas disseram que o efeito de poder de compra mais importante da Revolução Industrial foi que o padrão de vida da população em geral no mundo ocidental começou a aumentar consistentemente pela primeira vez na história, embora outros tenham dito que não começou a melhorar significativamente até finais dos séculos XIX e XX. O Produto Interno Bruto per capita era amplamente estável antes do surgimento da economia capitalista moderna, sendo que a Revolução Industrial iniciou uma nova Era de crescimento econômico analogamente per capita nas economias capitalistas. Os historiadores concordam que o início da Revolução Industrial é o evento claro na história da humanidade desde a domesticação de animais e plantas.

A domesticação representa um processo coevolutivo, mutualístico, biocultural e multigeracional, tecnologicamente “no qual humanos assumem significativos níveis de controle sobre a reprodução e cuidado de plantas e/ou animais com objetivo de assegurar suprimentos mais previsíveis de recursos de interesse e pelo qual plantas e animais são capazes de aumentar seu sucesso reprodutivo sobre indivíduos que não participam dessa relação, portanto, aumentando o fitness de ambos: humanos e domesticados”. Contudo, autores, como David Rindos (1947-1996), sugerem que esse tipo de emprego de relação ecológica pode ser travadas entre outras espécies além da humana. Graduou-se em Sociologia pela Universidade Cornell em 1969. Trabalhou nas organizações Volunteers in Service to America e New York Public Interest Research Group. Em 1976, atuou na área da paleoetnobotânica no Projeto Alambra no Chipre, e em 1977 trabalhou no Projeto Arqueológico de Sula Valley em Honduras. Depois voltou a Cornell e tornou-se Mestre em Botânica em 1980 e Doutor em Antropologia e Biologia Evolutiva em 1981.

O processo de domesticação de plantas e animais é um fenômeno mais antigo do que a Revolução Neolítica, sendo a domesticação de lobos em cães o primeiro exemplo reconhecido, sua data, no entanto, é discutível: alguns autores datam em cerca de 12 mil AP, outros em cerca de 33 mil AP e outros ainda em cerca de 135 mil AP. Os gatos podem ter sido domesticados no intervalo entre 12 mil e 9 mil AP. Antes do presente (AP) é uma marcação de tempo utilizada na arqueologia, paleontologia e geologia, que tem como base de referência o ano base de 1950 d.C. Outros exemplos de animais domésticos são respectivamente o cavalo, vaca, porco, cabra, coelho, ovelha, alguns roedores como o hamster e o porquinho-da-índia e várias aves como a galinha. Muitos deles são utilizados na pecuária. A domesticação acompanha a História da civilização, sendo benéfica na história da humanidade para seu desenvolvimento, porém é extremamente prejudicial à natureza e à ecologia, já que, biologicamente em contraste com a seleção natural, a domesticação provoca seleção artificial de alguns seres vivos em detrimento de outros que o ser procura eliminar por considerar hostis à sua sobrevivência. A domesticação, desse modo é fator de redução da biodiversidade. A agricultura vista como praga biológica acarreta uma devastação extraordinariamente violenta de florestas naturais e em seu lugar são instaladas monoculturas. O habitat e os alimentos de animais selvagens são dessa forma exemplarmente destruídos.

O início e o fim precisos da Revolução Industrial ainda são debatidos entre os historiadores, assim como o ritmo das mudanças econômicas e sociais. O historiador marxista Eric Hobsbawm infere que a Revolução Industrial começou na Grã-Bretanha na década de 1780 e não foi totalmente sentida até a década de 1830 ou 1840, enquanto T. S. Ashton sustentou a hipótese que ocorreu aproximadamente entre 1760 e 1830. A rápida industrialização começou na Grã-Bretanha, começando com a fiação mecanizada na década de 1780, com altas taxas de crescimento na energia a vapor e na produção de ferro após 1800. A produção têxtil mecanizada se espalhou da Grã-Bretanha para a Europa continental e os Estados Unidos no início do século XIX, com importantes centros de têxteis, de ferro e de carvão surgindo na Bélgica e nos Estados Unidos e, posteriormente, na França. Uma recessão econômica ocorreu do final da década de 1830 ao início da década de 1840, quando a adoção das primeiras inovações da Revolução Industrial, como fiação e tecelagem mecanizada, desaceleraram e seus mercados amadureceram. Inovações desenvolvidas no final do período, como a crescente adoção de locomotivas, navios a vapor e fundição de ferro a quente. Novas tecnologias, como o telégrafo elétrico, amplamente introduzidas nas décadas de 1840 e 1850, não eram poderosas o suficiente para impulsionar altas taxas de crescimento econômico, que começaram a ocorrer apenas a partir de 1870, decorrente de um novo conjunto de inovações no que se convencionou chamar, na história da economia mundial, de Segunda Revolução Industrial. Essas inovações incluíram novos processos de fabricação de aço, produção em massa, linhas de montagem, sistemas de rede elétrica, fabricação em larga escala de máquinas-ferramentas e o uso de máquinas cada vez mais avançadas em fábricas movidas a vapor.

Historiadores econômicos e autores, como Mendels e Kenneth Pomeranz (2001), argumentam que a “protoindustrialização” em partes da Europa, mundo islâmico, Império Mogol e China criaram as condições sociais e econômicas que levaram à Revolução Industrial, causando assim a Grande Divergência. Alguns historiadores, como John Clapham (1873-1946) e Nicholas Crafts (1949-2023), economista britânico reconhecido por suas contribuições à história econômica, em particular à Revolução Industrial, argumentaram que as mudanças econômicas e sociais ocorreram gradualmente e que o termo revolução é equívoco. Este ainda é um assunto de debate entre alguns historiadores. Até a década de 1980, os historiadores acadêmicos acreditavam universalmente que a inovação tecnológica era o coração da Revolução Industrial e que a principal tecnologia capacitadora era a invenção e o aprimoramento da máquina a vapor. O professor Ronald Fullerton sugeriu que técnicas de marketing, práticas de negócios e concorrência também influenciaram as mudanças na indústria manufatureira. Lewis Mumford (1895-1990) propôs que a Revolução Industrial teve suas origens no início da Idade Média, muito antes da maioria das estimativas na historiografia. Ele explica que o modelo para a produção em massa padronizada era a imprensa tipográfica e que “o modelo arquetípico da era industrial era o relógio”. 

Ele também cita a ênfase disciplinar monástica na ordem e na cronometragem, bem como o fato de as cidades medievais terem igreja com sinos tocando em intervalos regulares como sendo precursores de uma maior sincronização necessária para manifestações posteriores, mais físicas, como como a máquina a vapor. Foi historiador das técnicas e da cultura, sociólogo e analista do urbanismo contemporâneo. A sua obra multifacetada abrange mais de seis décadas, e a sua vida repartiu-se pelo estudo do pensamento utopista com a História das Utopias (1922), da evolução paranoica da sociedade industrial com o livro The Myth of the Machine (1967-70), das etapas essenciais da transformação humana: In the Name of Sanity (1954), e As Transformações do Homem (1956) e das cidades em The Culture of Cities (1938) e The City in History (1961). Entre os anos 1930 e 1960, colaborou, como crítico e publicista, com a New Republic, uma revista estadunidense de comentários sobre política, cultura contemporânea e artes. Fundado em 1914 por vários líderes do movimento progressista, tentou encontrar um equilíbrio entre um progressismo humanitário e um cientificismo intelectual e, por fim, descartou este último.  Durante as décadas de 1980 e 1990, a revista incorporou elementos da chamada Terceira Via e do conservadorismo, e a New Yorker, uma revista norte-americana que publica críticas, ensaios, reportagens investigativas e também ficção. Anteriormente de periodicidade semanal, a revista é atualmente publicada 47 vezes por ano, sendo que cinco dessas edições são quinzenais.

 Ainda que basicamente dedicada à cobertura da vida cultural da cidade de Nova Iorque, o que não é pouco, do ponto de vista comunicativo, a revista tem ampla audiência fora da cidade em razão da qualidade de seu jornalismo. Sua característica urbana e cosmopolita é exemplificada pela seção: Talk of the Town, que oferece interessantes comentários sobre a vida da cidade, cultura popular e o “humor inteligente e perspicaz” de suas histórias curtas e das famosas charges. Em meados do século XX, popularizou a crônica como gênero literário nos Estados Unidos. No meio jornalístico, The New Yorker desfruta da reputação de possuir uma das melhores equipes de apuração de fatos e de edição na indústria editorial. Leccionou na Universidade de Stanford, afirmando-se como “teorizador generalista” num meio de trabalho primus inter pares de domínio das especializações acadêmicas. Autor comprometido e visionário num tempo em que a civilização perdera o rumo, defendia uma renovação do Homem, em nome do vital e do genuíno, e o recentramento do ser deslumbrado pela evolução tecnológica. A presença de um mercado econômico europeu de produtos domésticos também deve ser considerada um importante impulsionador da Revolução Industrial, explicando particularmente por que ela ocorreu na Grã-Bretanha.

Em outras nações, como a França, mutatis mutandis, os mercados eram divididos por regiões locais, que muitas vezes impunham pedágios e tarifas sobre mercadorias comercializadas entre elas. A concessão dos governos de monopólios limitados aos inventores sob um sistema de patentes em desenvolvimento, o Estatuto dos Monopólios em 1623 é considerado um fator econômico influente. Os efeitos das patentes sobre as invenções, bons e ruins, no desenvolvimento da industrialização são claramente ilustrados na história da máquina a vapor, a principal tecnologia facilitadora. Em troca de revelar publicamente o funcionamento de uma invenção, o sistema de patentes recompensava inventores como James Watt (1736-1819), permitindo-lhes monopolizar a produção e desempenho industrial das primeiras máquinas a vapor, recompensando assim os inventores e aumentando o ritmo do desenvolvimento per se tecnológico. No entanto, os monopólios trazem consigo suas próprias ineficiências que podem contrabalançar, ou mesmo desequilibrar, os efeitos benéficos de divulgar a engenhosidade e recompensar os inventores. O monopólio de Watt impediu que outros inventores, comparativamente, como Richard Trevithick (1771-1833), William Murdoch (1873-1912) ou Jonathan Hornblower (1753-1815), a quem Boulton e Watt processaram, introduzissem motores a vapor aprimorados, retardando assim a disseminação da produção da energia a vapor.

A industrialização moderna começou na Inglaterra e na Escócia no século XVIII, onde havia níveis relativamente altos de processos de alfabetização entre os agricultores, especialmente na Escócia. Isso permitiu o recrutamento de artesãos alfabetizados, trabalhadores qualificados, capatazes e gerentes que supervisionavam as fábricas têxteis e a utilização de minas emergentes de carvão. Grande parte do trabalho ainda não era qualificado e, especialmente nas fábricas têxteis, crianças de até oito anos “se mostravam úteis para lidar com as tarefas domésticas e aumentar a renda familiar”. De fato, as crianças foram retiradas da escola para trabalhar ao lado de seus pais nas fábricas. No entanto, em meados do século XIX, forças de trabalho não qualificadas eram comuns na Europa Ocidental e a indústria britânica cresceu, precisando de muito mais engenheiros e trabalhadores qualificados que pudessem lidar com instruções técnicas e, portanto, lidar com situações complexas nas relações de tecnologia. A alfabetização era essencial para ser contratado. A invenção tecnológica da máquina de papel e a subsequente aplicação da energia a vapor aos processos técnicos industriais de impressão apoiaram uma expansão maciça europeia da publicação de jornais e panfletos, o que contribuiu para aumentar a alfabetização e as demandas de comunicação por participação política em massa.

Bibliografia Geral Consultada.

DELVIGNE, Jean, Pédogenèse en Zone Tropicale: La Formation des Minéraux Secondaires en Milieu Ferrallitique. Paris: Editor Dunod, 1965; REID,  Robert, Marie Curie. New York: Editor New American Library, 1978; TURNER, Victor, La Selva de los Símbolos. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1980; STRAHLER, Arthur, Geografia Fisica. (Edizione italiana a cura di Giovan Battista Pellegrini, Ugo Sauro, Giorgio Zanon). Padova: Piccin, 1984; ANDER-EGG, Ezequiel, ¿Qué es el Trabajo Social? Buenos Aires: Editorial Humanitas, 1985; HABERMAS, Jürgen, Conhecimento e Interesse. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987; EAGLETON, Terry, Ideologia. Uma Introdução. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Boitempo Editorial, 1997; GADAMER, Hans-Georg, La Dialéctica de Hegel. Cinco Ensayos Hermenéuticos. 5ª edición. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000; MCKNIGHT, Tom Lee.; HESS, Darrel, Geografia Fisica. Comprendere il Paesaggio. (Edizione italiana a cura di Francesco Dramis). Padova: Piccin, 2005; GIAROLA, Neyde Fabíola Balarezo, et al, “Mineralogia e Cristalografia da Fração Argila de Horizontes Coesos de Solos nos Tabuleiros Costeiros”. In: Rev. Bras. Ciênc. Solo 33 (1) • fev. 2009; BRANDÃO, Ricardo de Lima; FREITAS, Luís Carlos Bastos (Org.), Geodiversidade do Estado do Ceará. Fortaleza: Editor Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, 2014; ARAÚJO, Isabel Cristina da Silva, Perda de Solo e Aporte de Nutrientes e Metais em Reservatório do Semiárido Brasileiro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo. Centro de Ciências Agrarias. Departamento de Ciências do Solo. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2017; BARROS, Renato de Assis, Evolução Geológica e Contextualização Tectônica do Bloco Cristalândia do Piauí, Faixa Rio Preto, Piauí/Bahia. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Geologia. Instituto de Geociências. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2019; AMARAL PENHA, Diego, Faces do Horror em Freud: Palavras, Gestos e Imagens. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica. Instituto de Psicologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; WOOLF, Virginia, Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas. Porto Alegre: Coleção L&PM Pocket, 2023; UVULA, Eduardo Ernesto, Caracterização Isotópica e Cristalográfica das Grafitas da Faixa Orós, Nordeste do Brasil. Dissertação de Mestrado.  Programa de Pós-Graduação em Geologia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2023; Artigo: “Fortaleza tem mais igrejas que hospitais e escolas, aponta IBGE”. Disponível em: https://g1.globo.com/ce/ceara/2024/02/02/; entre outros. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Joy – Fertilização in Vitro - Vita Activa & Drama Bioético Britânico.

            Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Louis Pasteur  

       A fertilização in vitro é uma técnica de reprodução medicamente assistida que consiste na união do espermatozoide com o ovócito em ambiente laboratorial (in vitro). Pode ser realizada pela deposição de um número significativo de espermatozoides, 50 a 100 mil, ao redor dos ovócitos; ou pela inserção de um único espermatozoide no interior do ovócito, procurando obter embriões de boa qualidade que poderão ser congelados ou transferidos para a cavidade uterina. A técnica de fertilização in vitro iniciou uma nova Era da Medicina reprodutiva quando, em 1978, resultou no nascimento do primeiro “bebê de proveta”, no Reino Unido, realizada pelos médicos ingleses Patrick Steptoe e Robert Edwards. Desde então, o desenvolvimento tecnológico tem proporcionado taxas de sucesso progressivamente maiores, garantindo o sucesso na realização de muitos casais. Inicialmente restrita às mulheres com obstruções das trompas, hoje é utilizada como opção terapêutica para casais com fatores masculino, imunológico, ovariano e com endometriose, entre outras causas. A fertilização in vitro (FIV) é um dos tratamentos que compõem o grupo de tecnologias de reprodução assistida. Ela consiste em fecundar o óvulo fora do corpo, para somente depois que o embrião começar a se formar inseri-lo no útero, a fim de implantar-se e acontecer a gravidez. 

         Trata-se do tratamento completo em reprodução assistida, e com boas chances de sucesso, sendo em média estatística de 45%. Porém, esse número varia de acordo com a idade da mulher. É um método bastante difundido porque possui um bom custo-efetividade para quem deseja constituir família ou ter mais um filho, e não consegue por vias naturais. Isso em comparação com outros métodos de reprodução assistida. Para os tratamentos de reprodução assistida, antes de fazer a indicação de um deles o casal é instruído a tentar outras alternativas para conseguir a gravidez por vias naturais. O acompanhamento de um ou mais profissionais pode ajudar nessa tentativa. São realizados exames tanto na mulher como no homem, também indicados medicamentos, mudanças de hábitos e mesmo cirurgias quando preciso. E ainda é recomendado profissionalmente tentar o coito programado e a inseminação artificialmente. Se em nenhum desses casos aplicados ao casal conseguir a gravidez, a FIV é o tratamento mais provavelmente indicado. Também é preciso entender que um casal é considerado com problemas de fertilidade quando durante um ano não consegue a gravidez naturalmente, se a mulher tiver menos do que 35 anos ou 6 meses se tiver mais de 35. Louis Pasteur (1822-1895)  iniciou seus estudos no Colégio Royal em Besançon, transferindo-se para a École Normale Supérieure de Paris em 1843, estudando química, física e cristalografia

Foi na cristalogia que Louis fez suas primeiras descobertas. Descobriu em 1848 o dimorfismo do ácido tartárico, ao observar no microscópio que o ácido racêmico apresentava dois tipos de cristais, com simetria especular. Foi, portanto, o descobridor das formas dextrógiras e levógiras, comprovando que desviavam “o plano de polarização da luz no mesmo ângulo, porém em sentido contrário”. Esta descoberta científica valeu ao jovem químico, na época com 26 anos de idade, a concessão da Légion d`Honneur Francesa. Após licenciar-se e assistir às aulas do grande químico francês Jean-Baptiste Dumas (1800-1884), começou a se interessar pela química. Exerceu o cargo de professor de química em Dijon e depois em Estrasburgo. Casou-se com Marienne Laurent, filha do reitor da Academia. Em 1854 foi nomeado decano da Faculdade de Ciências na Universidade de Lille, é uma instituição pública multidisciplinar situada em Lille, Altos da França e arredores. A pedido dos vinicultores e cervejeiros da região, começou a investigar a razão pela qual azedavam os vinhos e a cerveja. Utilizando o microscópio, conseguiu identificar a bactéria responsável. Propôs eliminar o problema abstrato aquecendo a bebida até alcançar 48° C, matando, deste modo, as bactérias, e encerrando o líquido posteriormente em cubas hermeticamente seladas para evitar uma nova contaminação. O microscópio é um instrumento óptico com capacidade de ampliar imagens de objetos pequenos devido seu poder óptico de resolução técnica. Ele pode ser composto ou simples: o microscópio composto tem duas ou mais lentes associadas; o microscópio simples é constituído por apenas uma lente.

                                                  

Acredita-se que o microscópio tenha sido inventado no final do século XVI por Hans Janssen e seu filho Zacharias, dois holandeses fabricantes de óculos. Tudo indica, porém, que o primeiro a fazer observações microscópicas de materiais biológicos foi o neerlandês Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723). Serve-se especialmente para os cientistas qualificados, que utilizam este instrumento para estudar e compreender os micro-organismos, ou seja, que não podem ser vistos a olho nu e só são visíveis com o auxílio de um microscópio. São as menores formas de vida existentes e estão presentes em todo o meio ambiente. Estes microscópios eram dotados de uma única lente, pequena e quase esférica. Nesses aparelhos ele identificou e observou detalhadamente diversos tipos de material biológico, como embriões de plantas, os glóbulos vermelhos do sangue e os espermatozoides presentes no sêmen dos animais. Foi também Leeuwenhoek quem descobriu a existência dos micróbios, como eram antigamente chamados os seres microscópicos, hoje conhecidos como micro-organismos. Os microscópios dividem-se basicamente em duas categorias de utilidade de uso técnica e social. Em primeiro lugar,  o microscópio ótico funciona com conjunto de lentes (ocular e objetiva) que ampliam a imagem transpassada por um feixe de luz que pode ser utilizada no microscópio de campo claro; microscópio de campo escuro; microscópio de contraste de fase; microscópio de contraste interferencial. Há os microscópios de varredura de ponta que trabalham com uma larga variedade de efeitos físicos em torno de processos mecânicos, ópticos, magnéticos, elétricos. Um tipo de artefasto tecnológico, com utilidade de uso especialmente de microscópio eletrônico de varredura é por tunelamento, capaz de oferecer aumentos reais de até 100 milhões de vezes, possibilitando a observação da superfície de algumas macromoléculas, como é o caso do ácido desoxirribonucleico.  

A citologia é dependente de equipamentos que permitem toda a visualização das células humanas, pois a maioria delas são tão pequenas que não podem ser observadas sem o auxílio de instrumentos óticos de ampliação. O olho humano tem um limite de resolução de 0,2 mm. Abaixo desse valor, não é possível enxergar os objetos sem o auxílio de instrumentos, como lupas e, principalmente, o microscópio. O crédito da invenção do microscópio é discutível, mas sabe-se que em 1590 os irmãos neerlandeses Franz, Johan e Zacarias Janssen compuseram um artefato rudimentar munido de um sistema de lentes, que permitia a ampliação e a observação de pequenas estruturas e objetos com razoável nitidez. O aparelho foi denominado de microscópio e constituiu a principal janela da ciência para o mundo além da capacidade de resolução do olho humano. Em 1665, o inglês Robert Hooke (1635-1703) usou um microscópio para observar imediatamente de uma grande variedade de pequenos objetos, além de animais e plantas que ele mesmo representava através da intepretação de fiéis ilustrações. Hooke percebeu além que a casca do carvalho era formada por uma grande quantidade de alvéolos vazios, semelhantes visivelmente à estrutura dos favos de uma colmeia. Naquela época, Hooke não tinha noção de que estava observando apenas contornos de células vegetais mortas. Publicou as suas descrições e ilustrações em uma obra denominada Micrographia, em que usa a designação pequenas caixas ou celas (“little boxes or cells”) para denominar os alvéolos observados, originando o termo célula. O termo acabou tornando-se definitivo.

Este processo originou atualmente a técnica de pasteurização dos alimentos. Demonstrou, desta forma, que todo processo de fermentação e decomposição orgânica ocorre devido à ação de organismos vivos. Na Inglaterra, em 1865, o cirurgião Joseph Lister aplicou os conhecimentos de Pasteur para eliminar os micro-organismos vivos em feridas e incisões cirúrgicas. Em 1871, o próprio Pasteur obrigou os médicos dos hospitais militares a ferver o instrumental e as bandagens que seriam utilizados nos procedimentos médicos. Expôs a “teoria germinal das enfermidades infecciosas”, segundo a qual toda enfermidade infecciosa tem sua causa (etiologia) num micróbio com capacidade de propagar-se entre as pessoas. Deve-se buscar o micróbio responsável por cada enfermidade para se determinar um modo de combatê-lo. Pasteur passou a investigar os microscópicos agentes patogênicos, terminando por descobrir vacinas, em especial a antirrábica, que utilizou com sucesso em 1885 para tratar Joseph Meister, “um garoto de 9 anos que fora mordido por um cão infectado pela raiva”, utilizando-se de injeções por 13 dias seguidos, clinicamente com vírus cada vez menos atenuados. 

Meister nunca contraiu a raiva, felizmente, pois Pasteur, por não ser médico, arriscou-se a ser processado, caso o tratamento não tivesse sucesso. Fundou em 1887 o Instituto Pasteur, um dos mais famosos centros de pesquisa da atualidade. Pasteur foi quem derrubou definitivamente a ideia da “geração espontânea” aristotélica, com a utilização de uma vidraria chamada pescoço de cisne. Pasteur colocou um caldo nutritivo em um balão de vidro, de pescoço curvo. Ferveu o caldo existente no balão, o suficiente para matar todos os possíveis microrganismos que poderiam existir nele. Cessado o aquecimento, vapores da água proveniente do caldo condensaram-se no pescoço do balão e se depositaram, sob forma líquida, na sua curvatura inferior. Como os frascos ficavam abertos, não se podia falar da impossibilidade da entrada do “princípio ativo” do ar. Com a curvatura do gargalo, os micro-organismos do ar ficavam retidos na superfície interna úmida e não alcançavam o caldo nutritivo. Quando Pasteur quebrou o pescoço do balão, permitindo o contato do caldo dentro com o ar, constatou analogamente que o caldo se contaminou com os microrganismos provenientes do ar. 

O filme Joy tem como representação social um drama biográfico britânico, estrelado por Bill Nighy, Thomasin McKenzie e James Norton. Dirigido por Ben Taylor (2024), é a história realmente da primeira bebê de fertilização in vitro do mundo contemporâneo, Louise Brown. In vitro (“em vidro”) é uma expressão latina que designa do ponto de vista técnico-metodológico todos os processos biológicos que têm lugar fora dos sistemas vivos, no ambiente controlado e fechado de um laboratório clínico e que são realizados normalmente em recipientes de vidro. Foi popularizada pelas técnicas de reprodução assistida (“fertilização in vitro”). O roteiro de Joy é de Jack Thorne, que desenvolveu a história com sua esposa Rachel Mason e Emma Gordon & Shaun Topp. É produzido pela Wildgaze e Pathé para a Netflix. O ex-executivo da Pathé Len Rowles se junta à Wildgaze Films de Finola Dwyer e Amanda Posey. A produtora do Brooklyn Wildgaze Films nomeou o ex-executivo criativo da Pathé UK Len Rowles para o cargo de chefe de desenvolvimento, cinema e TV. Baseado em eventos ocorridos das décadas de 1960 e 1970, a enfermeira Jean Purdy, o visionário Dr. Robert Edwards e o cirurgião inovador Patrick Steptoe trabalham para desenvolver clinicamente o primeiro “bebê de proveta”. O filme foi lançado mundialmente na Netflix em 22 de novembro de 2024.   

Em 1904 ocorreu biologicamente o primeiro cultivo “in vitro” de crucíferas observando a necessidade de suplementação do meio mineral com sacarose para a germinação dos embriões bem como demonstrando o efeito social das diferentes fontes de nitrogênio sobre sua morfologia. Em 1968, a enfermeira Jean Purdy é contratada em Cambridge para um cargo de gerente de laboratório, pelo cientista Dr. Robert Edwards. Juntos, eles recrutam o obstetra e cirurgião inovador Patrick Steptoe para se juntar a eles na pesquisa de reprodução, em conjunto para combater a infertilidade em mulheres. O primeiro trabalho que relatou sucesso na regeneração de plantas de Eucalyptus através do uso da cultura de células e de tecidos foi em 1969 usando explantes de E. citriodora. Em 1972 observou a produção de massas produzindo gemas e raízes que podiam ser subcultivadas produzindo plantas inteiras. Em 1975 obteve-se a partir de calos provenientes de explamplantes de hipocólito de E.alba. Em 1974 obteve-se clones de E.grandis a partir de explantes nodais. Em 1975 obteve-se clones a partir de expantes nodais de material juvenil e adulto. A cultura in vitro, dentre outras utilidades científicas e sociais, consiste em multiplicar assexuadamente partes de plantas (células, tecidos, órgãos ou propágulos), originando indivíduos geneticamente idênticos à planta mãe. É uma técnica adotada mundialmente por sua maior efetividade em capturar os ganhos genéticos obtidos por programas de melhoramento. Dentre as principais vantagens da pesquisa científica podemos citar a formação de “plantios clonais” de alta produtividade e uniformidade. Dentre as principais desvantagens na realização da pesquisa geralmente podem ser citadas o risco de estreitamento da base genética dos plantios clonais.

Robert espera criar um procedimento que se desenvolva em fertilização in vitro. Patrick os lembra que o governo, a igreja e provavelmente todos se oporão a eles por limitações científicas. Jean e sua mãe são mostradas como frequentadoras regulares da igreja. Elas têm um relacionamento próximo com seu vigário, o reverendo Paulson, e se voluntariam ativamente para ajudar. Como a equipe tem pouco financiamento, Jean e Robert precisam se deslocar para Oldham quatro horas por dia. Ele explica como eles têm trabalhado com pequenos roedores com algum sucesso. Eles fertilizam seu primeiro óvulo humano no ano seguinte. Conforme eles progridem, o The Daily Mirror “logo chama Robert de Dr. Frankenstein”. The Daily Mirror, normalmente reconhecido como simplesmente The Mirror, é um tabloide diário britânico, fundado em 1903. Durante alguns períodos em sua história de 1985 a 1987 e de 1997 a 2002, The Mirror era o nome usado na capa. O tabloide ganhou notoriedade em novembro de 2004 ao publicar uma edição cuja capa estampava o presidente reeleito dos Estados Unidos George W. Bush, com os dizeres: “Como 59,054,087 pessoas podem ser tão idiotas?”). É proprietário do jornal escocês Daily Record, desde 1985. A notícia se espalha, e logo a mãe de Jean a confronta, insistindo que a pesquisa que estão fazendo é brincar de deus. O reverendo Paulson pede para ela não comparecer aos seus serviços. Sua mãe prossegue dizendo para ela não a visitar se continuar seu trabalho. Jean passa um tempo mal-humorada, por ser excluída de comunidade e de sua mãe. A enfermeira-chefe Muriel pode criticá-la por seu tratamento frio com as mulheres que participam do estudo. 

Sendo cristã, Jean desaprova que Steptoe faça abortos. A visão religiosa sobre o aborto varia de acordo com a religião, podendo ser, no caso da Igreja Católica, o aborto um “pecado gravíssimo”, pois, segundo o magistério da Igreja, desde a fecundação já existe uma pessoa humana completa.  O judaísmo defende o aborto como “uma questão de saúde”, permitindo-o e exigindo-o quando a vida da gestante está em risco.  O islamismo condena o aborto, mas muitos aceitam a prática quando há risco para a vida da mãe. Entretanto, taoísmo e confucionismo, consideram o aborto “uma solução de recurso aceitável”, mas escolas taoístas influenciadas pelo budismo adotam visões contrárias. A enfermeira-chefe ressalta que o objetivo delas é dar às mulheres uma escolha segura. Os oponentes de suas pesquisas alegam “um risco maior de anormalidades e também temem a futura criação de humanos artificialmente como cientistas loucos”. Cada um dos pesquisadores sente a mancha em seus relacionamentos pessoais. Quando os participantes apontam seu tratamento impessoal a eles, Jean começa a interagir mais pessoalmente. Na história social e clinicamente após fertilizar um óvulo com sucesso, eles abordam o Medical Research Council no início de 1971 para obter financiamento. Eles fazem o melhor que podem para convencê-los da importância socialmente do seu trabalho científico, mas sua petição é rejeitada.  

Na viagem de trem, todos expressam frustração, mas Jean insiste que eles devem seguir em frente. Conforme Jean conhece os participantes pessoalmente e pelo nome, eles se abrem. Eventualmente, Patrick pergunta a ela sobre seu investimento pessoal na pesquisa, e ela revela que sofre de endometriose grave. Ele se oferece para examiná-la para uma segunda opinião, mas ela recusa. Mais tarde, depois de dançar com o assistente de laboratório Arun, ele a propõe após mencionar ter filhos, mas Jean diz que não pode. No início de 1973, após outra aparição decididamente negativa na televisão, os pesquisadores começam a implantar embriões em algumas mulheres, mas que acabam falhando de várias maneiras. Em setembro, depois que todas as gestações falharam, Robert e Jean testam todo o seu material, descobrindo “parafina contaminada”. Ambos perdem o controle, com Jean desistindo para ir cuidar de sua mãe moribunda. Enquanto estava fora, Robert fecha o Laboratório de pesquisa. Um ano depois, o novo pai Arun esbarra em Jean, dizendo a ela que o laboratório foi fechado. Ela confronta Robert sobre esse aspecto, mas ele fala que ela desistiu primeiro. Pouco depois, sua mãe sucumbe à doença. Patrick e a Matrona Muriel vão ao funeral, e Jean descansada tem uma epifania para retomar sua pesquisa. Seguindo a ideia de Jean de retomar o estudo acompanhando o ciclo de cada mulher, no verão de 1978, eles ao final produzem o primeiro “bebê de proveta”. Anos mais tarde, em 2010, o Dr. Robert Edwards ganhou o Prêmio Nobel, enquanto Jean Purdy faleceu de câncer aos 39 anos e Patrick Steptoe de velhice.

A ação, representa a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas existentes ou da matéria, corresponde ipso facto à condição humana da pluralidade, ao fato de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam, o mundo. Isto que dizer o seguinte. Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a esfera política; mas esta pluralidade é especificamente a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida política. Assim, o idioma dos romanos, talvez o povo mais político que conhecemos, empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo na Gênese (“macho e fêmea Ele os criou), se entendemos que esta versão da criação do homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem (adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o resultado da multiplicação. Quer dizer, a ação, segundo Arendt (1993), seria um luxo desnecessário, uma caprichosa interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, dotadas da mesma natureza e a essência de qualquer outra coisa. A pluralidade é a condição da ação humana por sermos todos os mesmos, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir.

            Com a expressão vita activa, Hannah Arendt designa metodologicamente três atividades humanas fundamentais, a saber: labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada a o homem na Terra. O labor é atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo de vida. A condição humana do labor é a própria vida. O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana, existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade. As três atividades e suas condições têm a mínima relação com as condições mais gerais da existência humana. O labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida plena da espécie. O trabalho e seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo social humano.  

A ação, na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a história. O labor e o trabalho, bem como sua ação iniludível, têm também raízes na natalidade, na medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo humano para o constante influxo de recém-chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e leva-los em conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possuía a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir de forma pragmática.  A distinção politicamente que Arendt propõe entre labor e trabalho é inusitada. A evidência fenomenológica a favor dessa distinção é demasiada marcante para que se ignore; e, no entanto, é historicamente verdadeiro que, à parte certas observações esporádicas quase nada existe para corroborá-la na tradição pré-moderna do pensamento político ou no vasto corpo das modernas teorias do trabalho.  Ao contrário do que ocorreu nos tempos modernos, a instituição da escravidão na antiguidade não foi uma forma de obter mão-de-obra barata nem instrumento de exploração para fins de extração do excedente, mas sim a tentativa de excluir o labor das condições de realização e prazer da vida humana. Aristóteles, que sustentou tão explicitamente a sua teoria para depois, no leito de morte, alforriar seus escravos, talvez não fosse tão incoerente admitir como tendem a pensar pensadores modernos quando se afastam do extraordinário pensador dialético.      

Não é surpreendente que a distinção entre labor e trabalho tenha sido ignorada na antiguidade clássica. A diferenciação entre a casa privada e a esfera pública política, entre o doméstico que era um escravo e o chefe da casa que era um cidadão, entre as atividades que deviam ser escondidas na privatividade do lar e aquelas que eram dignas de vir a público apagaram e predeterminaram todas as outras distinções, até estar somente um critério: é na privatividade ou em público que se gasta a maior parte do tempo e do esforço? A ocupação é motivada por “cura privati negotii” ou “cura rei publicae”, para cuidar de negócios privados ou para atender às coisas públicas? Com o advento da teoria política os filósofos aboliram até mesmo estas distinções que, ao menos, haviam estabelecido uma diferença entre as atividades, e opuseram a contemplação a todo e qualquer tipo de atividade. Com eles, até mesmo a ocupação política foi rebaixada à posição de necessidade; e esta, daí por diante, passou a ser o denominador comum de todas as manifestações da vida activa. Nem podemos esperar o auxílio do pensamento político cristão, que aceitou a distinção elaborada pelos filósofos e refinou-a; e, como a religião destina-se à multidão, enquanto a filosofia é somente para alguns poucos, deu-lhe validade geral, obrigatória para todos os homens. À primeira vista, é surpreendente que a Era Moderna, tendo invertido todas as tradições, tanto a posição tradicional da ação como da contemplação como a tradicional hierarquia dentro da própria vita activa, tendo glorificado o trabalho (labor) como fonte de todos os valores, e tendo promovido o animal laborans à posição tradicional ocupada pelo animal rationale – e não tenha produzido uma teoria que distinguisse entre o animal laborans e o homo faber, entre o “labor do nosso corpo e o trabalho de nossas mãos”.     

 Ao invés disso, encontramos primeiro a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo; um pouco mais tarde, a diferenciação entre trabalho qualificado e não-qualificado; e finalmente, sobrepondo-se ambas por ser aparentemente de importância mais fundamental, a divisão de todas as atividades em trabalho manual e intelectual. Das três, porém, somente a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo vai ao fundo da questão; e não foi por acaso, segundo Arendt, qua os dois grandes teoristas do assunto, Adam Smith e Karl Marx, basearam nela toda a estrutura do seu argumento. O próprio motivo da promoção do albor como trabalho na Era Moderna foi a sua produtividade; e a noção aparentemente blasfema de Marx de que o trabalho (e não Deus) criou o homem, ou de que o trabalho (e não a razão) distingue o homem analogamente dos outros animais, era apenas a formulação mais radicalmente e coerente de algo, ao que parece, com que toda a Era Moderna concordava. Parece que foi Hume, e não Marx, o primeiro a insistir em que o trabalho distingue o homem do animal. Como o trabalho não desempenha qualquer papel importante na filosofia do ceticismo de David Hume, este fato não tem interesse apenas histórico; para ele, essa característica não tornava a vida humana mais produtiva, mas somente mais árdua e mais dolorosa que a vida animal. Contudo, é interessante, neste contexto, notar com que cuidado Hume, dois séculos antes, insistia repetidamente que nem o pensamento nem o raciocínio distingue o homem do animal, e que a conduta dos animais demonstra que estes possuem as mesmas dificuldades.  O ceticismo de Hume é a ideia de que o conhecimento dos fatos do mundo não pode ser justificado, pois depende de inferências causais e raciocínios indutivos que não podem ser justificados pela razão ou experiência. O filósofo escocês é reconhecido por levar o ceticismo ao extremo, suspendendo as certezas mesmo diante do que parecia ser simplesmente experimental. Ele considerava que o ceticismo era uma ferramenta para distinguir o que é passível de conhecimento do que deve ser abandonado.   

 Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disso, como a ação é a atividade de constituir a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico. A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem.  Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente, as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homme na Terra e, até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana. É por isto que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as coisas; e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não-mundo, se esses artigos não fossem condicionantes da existência humana.  

Para evitar erros de interpretação: a condição humana não é o mesmo que a natureza humana, e a soma total das atividades e capacidades humanas que correspondem à condição humana. Pois nem como o pensamento e a razão, e nem mesmo a mais meticulosa enumeração de todas as ações, constituem elas características essenciais da existência humana no sentido de que, sem elas, essa existência deixaria de ser humana. A mudança mais radical da condição humana que podemos imaginar seria uma emigração dos homens da Terra para algum outro planeta. Tal evento, já não inteiramente impossível, implicaria em que o homem teria que viver sob condições, feitas por ele mesmo, inteiramente diferentes daquelas que a Terra lhe oferece. O labor, o trabalho, a ação e, na verdade, até mesmo o pensamento como o conhecemos deixariam de ter sentido em tal eventualidade. Não obstante, até mesmo esses hipotéticos viajores terrenos ainda seriam humanos; mas a única afirmativa que poderíamos fazer quanto à sua “natureza” é que são ainda seres condicionados, embora sua condição seja agora, em grande parte, produzida por eles mesmos. O problema da natureza humana, a quaestio mihi factus sum de Agostinho, parece insolúvel, tanto em seu sentido psicológico como em seu sentido filosófico geral. É altamente improvável que nós, que podemos conhecer, determinar e definir a essência natural de todas as coisas que nos rodeiam e que não somos, venhamos a ser capazes de fazer o mesmo a nosso próprio respeito: seria como pular sobre nossa própria sombra. Além disso, não nos autoriza a presumir que o homem tenha uma natureza ou essência no mesmo sentido em que as outras coisas analogamente as têm.  

Em outras palavras, se temos uma natureza ou essência, então certamente, só um deus pode conhece-la e defini-la; e a condição prévia é que ela possa falar de um “quem” como se fosse um “que”. O problema é que as formas de cognição humana aplicáveis as coisas dotadas de qualidades naturais – inclusive nós mesmos, na medida limitada em que somos exemplares da espécie de vida orgânica mais altamente desenvolvida – de nada nos valem quando levantamos a hipótese: e quem somos nós? É por isto que as tentativas de definir a natureza humana levam quase invariavelmente à construção de alguma deidade, isto é, ao deus dos filósofos que, desde Platão, não passa, a uma análise mais profunda, de uma espécie de ideia platônica do homem. Naturalmente, desmascarar tais conceitos filosóficos da divindade como conceitualizações das capacidades e qualidades humanas não chega a ser uma demonstração da não-existência de Deus, e nem mesmo constitui argumento nesse sentido; mas o fato de que as tentativas de definir a natureza do homem levam tão facilmente a uma ideia de que nos parece definitivamente “sobre-humanos” e é, portanto, identificada com a divindade, pode lançar suspeitas sobre o próprio conceito sociológico de “natureza humana”. A moderna ciência natural deve os seus maiores triunfos ao fato de termos olhado e tratado a natureza terena de um ponto de vista verdadeiramente universal, isto é, de um ponto de vista arquimediano escolhido, voluntária e explicitamente fora da Terra. A expressão vita activa é perpassada e sobrecarregada de tradição. É tão velha quanto a nossa tradição de pensamento político, mas não mais velha que ela. E essa tradição, longe de abranger e conceitualizar todas as experiências políticas da humanidade ocidental, é produto de uma constelação histórica específica: o julgamento de Sócrates e o conflito irremediável entre o filósofo e a polis.  

 Quer dizer, depois de haver eliminado muitas das experiências de um passado anterior que eram irrelevantes para suas finalidades políticas, prosseguiu até o fim na obra de Marx, de modo altamente seletivo. A própria expressão que, na filosofia medieval, é a tradução consagrada do bios politikos de Aristóteles, já ocorre em Agostinho onde, como vita negotiosa ou actuosa, reflete anda o seu significado original: uma vida dedicada aos assuntos públicos e políticos. Aristóteles distinguia três modos de vida (bioi) que os homens podiam escolher livremente, isto é, em inteira independência das necessidades da vida e das relações delas decorrentes. Esta condição prévia de liberdade eliminava qualquer modo de vida dedicado basicamente à sobrevivência do indivíduo – não apenas o labor, que era o modo de vida do escravo, coagido pela necessidade de permanecer vivo e pela tirania do senhor, mas também a vida de trabalho dos artesãos livres e a vida aquisitiva do mercador. Excluía todos aqueles que, involuntária ou voluntariamente, permanente ou temporariamente, já não podiam dispor em liberdade dos seus movimentos e ações. Os três modos de vida restantes têm em comum o fato de se ocuparem do “belo”,  de coisas que não eram necessárias e nem meramente úteis: a vida voltada para os prazeres do corpo, na qual o belo é consumido como tal como é dado; a vida dedicada aos assuntos da polis, na qual a excelência produz belos feitos; e a vida do filósofo, dedicada à investigação e à contemplação das coisas eternas, cuja beleza perene não pode ser causada pela interferência produtiva do homem nem alterada através do consumo humano.   

Com o desaparecimento da antiga cidade-estado, Agostinho foi, aparentemente o último a conhecer, pelo menos o que outrora significava ser um cidadão, a expressão vita activa perdeu o seu significado especificamente político e passou a denotar todo tipo de engajamento ativo nas coisas deste mundo. Convém lembrar que isto não queria dizer que o trabalho e o labor houvessem galgado posição mais elevada na hierarquia das atividades humanas e fossem agora tão dignos quanto a vida política. De fato, o posto era verdadeiro: a ação passara a ser vista como uma das necessidades da vida terrena, de sorte que a contemplação (o bios theoretikos), ou vida contemplativa, era o único modo de vida realmente livre. Contudo, a enorme superioridade da contemplação sobre qualquer outro tipo de atividade, inclusive a ação, não é de origem cristã. Encontramo-la na filosofia política de Platão, onde toda a reorganização utópica da vida na polis é não apenas dirigida pelo superior discernimento do filósofo, mas não tem outra finalidade senão tornar possível o modo de vida filosófico. O próprio enunciado aristotélico dos diferentes modos de vida, em cuja ordem a vida de prazer tem papel secundário, inspira-se claramente no ideal da contemplação (theoria). À antiga liberdade em relação às necessidades da vida e à compulsão alheia, os filósofos acrescentaram a liberdade e a cessação de toda atividade política (skole), de sorte que a posterior pretensão dos cristãos – des erem livres de envolvimento em assuntos mundanos, livres de todas as coisas terrenas – foi precedida pela apolita filosófica da última fase s antiguidade, e dela se originou. O que até então havia sido exigido somente por alguns poucos agora era visto como direito de todos.  

A expressão vita activa, compreendendo todas as atividades humanas e definida do ponto de vista da absoluta quietude da contemplação, corresponde, portanto, mais à askolia grega (“ocupação”, “desassossego”) com a qual Aristóteles designava toda atividade, que ao bios politikos dos gregos. Quer dizer, desde Aristóteles a distinção ente quietude e ocupação, entre uma abstenção quase estática do movimento físico externo e de qualquer tipo de atividade, é mais decisiva que a distinção entre os modos de vida político e teórica, porque pode vir a ocorrer em qualquer um dos três modos de vida. É como a diferença entre a guerra e a paz, também todo tipo de atividade, até mesmo o processo de mero pensamento, deve culminar na absoluta quietude da contemplação. Todo movimento, os movimentos do corpo e da alma, bem como o discurso e o raciocínio devem cessar diante da verdade. Esta, seja a antiga verdade do Ser ou a verdade cristã do Deus vivo, só pode revelar-se em meio a completa quietude. Tradicionalmente, na história, e até o início da chamada Era Moderna, a expressão vida activa jamais perdeu sua conotação negativa de “in-quietude”, nec-otium, a-skolia. Como tal permaneceu ligada à distinção grega, ainda mais fundamental, entre as coisas que são por si o que são e as coisas que devem ao homem a sua existência, entre as coisas que são physei e as coisas que são nomo. Isto é, o primado da contemplação sobre a atividade baseia-se na convicção de que nenhum trabalho de mãos humanas pode igualar-se em beleza e verdade o kosmos físico, que revolve em torno de si mesmo, em imutável eternidade, sem qualquer interferência ou assistência externa, seja humana ou divina. Esta eternidade só se revela a olhos mortais quando todos os movimentos e atividades humanas estão em completo repouso. Comparadas a este aspecto da quietude, todas as diferenças e manifestações no âmbito da vida activa desaparecem. Do ponto de vista da contemplação, filosoficamente falando, não importa o que perturba a necessária quietude; o que importa na vida realmente é que ela seja perturbada.      

          Tradicionalmente a vita activa deriva o seu significado da vida contemplativa; sua mui limitada dignidade deve-se ao fato de que serve `as necessidades e carências da contemplação num corpo vivo. O cristianismo, com sua crença num mundo cujas alegrias se pronunciam nos deleites da contemplação, conferiu a sanção religiosa ao rebaixamento da vita activa à sua posição subalterna e secundária; mas a determinação dessa mesma hierarquia coincidiu com a descoberta da contemplação (theoria) como faculdade humana, acentuadamente diversa do pensamento e do raciocínio, que ocorreu na escola socrática e que, desde então, vem orientando o pensamento metafísico e político de toda a nossa tradição. Obviamente, são mais profundas que o momento histórico que motivou o conflito entre a polis e o filósofo, e com isso levou também, quase por acaso, à descoberta da contemplação como modo de vida do filósofo.  Essas razões devem residir num aspecto inteiramente diferente da condição humana, cuja diversidade não é esgotada pelas várias manifestações da vita activa e, provavelmente, não seria esgotada mesmo que se lhe incluíssemos o pensamento e o movimento do raciocínio.  Se o uso da expressão vita activa, está em manifesto conflito com a tradição, é que Hannah Arendt duvida não da validade da experiência que existe por trás dessa distinção, mas da ordem hierárquica que acompanha desde o início. Ela afirma que o enorme valor da contemplação na hierarquia tradicional obscureceu as diferenças e manifestações cognitivas e intelectuais no âmbito da própria vita activa e que, a despeito das aparências, esta condição não foi essencialmente alterada pelo moderno rompimento com a tradição nem pela eventual inversão na ordem hierárquica em Karl Marx e Friedrich Nietzsche.

        Eric John Ernest Hobsbawm, nascido em Alexandria, em 9 de junho de 1917 e morto em Londres, em 1° de outubro de 2012, foi um extraordinário historiador marxista britânico reconhecido como um importante nome da intelectualidade do século XX. Ao longo de toda a sua vida, Hobsbawm (1995) foi membro do Partido Comunista Britânico. Um aspecto fundamental de seus interesses como homme de seu tempo foi escrever e explicar o desenvolvimento das tradições. Seu trabalho tem como representação histórico-social um estudo da construção dessas tradições no contexto do Estado-nação. Argumentou que muitas vezes as tradições são inventadas por elites nacionais para justificar a existência e importância de suas respectivas nações. Como ele próprio infere, para os historiadores de minha geração e origem o passado é indestrutível, não apenas porque pertencemos à geração em que ruas e logradouros públicos ainda tinham nomes de homens e acontecimentos públicos (a estação Wilson de Praga de antes da guerra, a estação do metrô Stalingrado em paris), em que os tratados de paz ainda eram assinados e portanto tinham de ser identificados (Tratado de Versalhes) e os memoriais de guerra lembravam acontecimentos passados, como também porque os acontecimentos públicos são parte da textura de nossas vidas, tanto privadas como públicas. Mas não apenas o fato socialmente de que um velho historiador tem o passado como parte de seu presente permanentemente.

            Em 28 de junho de1992 o presidente Mitterrand, da França, apareceu de forma súbita, não anunciada e inesperada em Saravejo, que já era o centro de uma guerra balcânica que iria custar cerca de 150 mil vidas no decorrer daquele ano. Seu objetivo era lembrar à opinião pública mundial a gravidade da crise bósnia. E, de fato, foi muito observada e admirada a presença do conhecido estadista – idoso e visivelmente frágil sob o fogo das armas portáteis e da artilharia. Um aspecto da visita de Mitterrand, contudo, embora claramente fundamental, passou despercebido: a data. Por que o presidente da França escolhera aquele dia específico para ir a Saravejo? Porque 28 de junho era o aniversário do assassinato, em Saravejo, em 1914, do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria-Hungria, ato que em poucas semanas levou á eclosão da primeira Guerra Mundial. Para qualquer europeu culto da geração de Mitterrand, saltava aos olhos a ligação entre a data e lugar e a evocação de uma catástrofe histórica precipitada por um erro político e de cálculo. Que melhor maneira de dramatizar as implicações potenciais da crise bósnia que escolhendo uma data assim tão simbólica? Mas quase ninguém captou a alusão, exceto uns poucos historiadores profissionais e cidadãos muito idosos. A memória histórica, observa Hobsbawm, já não estava viva. A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX.     

            Em 1910, todos os físicos e químicos alemães e britânicos juntos chegavam a talvez 8 mil pessoas. Em fins de 1980, o número de cientistas e engenheiros de fato empenhados em pesquisa e desenvolvimento experimental no mundo era estimado em cerca de 5 milhões, dos quais quase 1 milhão se achava nos EUA, principal potência científica, e um número ligeiramente maior nos Estados da Europa. Embora os cientistas continuassem a formar uma minúscula fração técnico-científica da população, mesmo nos países desenvolvidos, o número deles continuou a crescer de maneira impressionante, mais ou menos dobrando nos vinte anos após 1970, mesmo nas economias avançadas. Contudo, em fins da década de 1980 eles formavam a ponta de um iceberg muito maior do que se poderia chamar de mão de obra científica e tecnológica potencial, que refletia essencialmente a revolução educacional da segunda metade do século. Ela representava talvez 2% da população global, e talvez 5% da população norte-americana. Os cientistas de fato eram cada vez mais selecionados por meio de uma “tese doutoral”, que se tornou o bilhete de entrada para a profissão. No final da década de 1980, o país ocidental avançado típico gerava alguma coisa do tipo 130, 140 desses doutorados por ano para cada milhão de seus habitantes. Esses países também gastavam, sobretudo dos fundos públicos – mesmo nos países mais capitalistas – somas bastante astronômicas em tais atividades. Na verdade, as formas mais caras de “grande ciência” estavam fora do alcance de qualquer país individualmente a não ser até a década de 1990 especificamente nos Estados Unidos da América.

         Mas havia uma grande novidade. Apesar de 90% dos trabalhos científicos (cujo número duplicava a cada dez anos) serem publicados em quatro idiomas (inglês, russo, francês e alemão), a ciência eurocêntrica se encerrou no século XX. A Era das Catástrofes, e sobretudo o triunfo temporário do fascismo, transferiu seu centro de gravidade para os EUA, onde permaneceu. Entre 1930 e 1933, só sete Prêmios Nobel de ciência forma dados nos EUA; mas, entre 1933 e 1970, forma 77. Os outros países de colonização europeia também se estabeleceram como centros de pesquisa independentes: Canadá, Austrália, a muitas vezes subestimada Argentina, embora alguns, por questões de tamanho e política, exportassem a maioria de seus cientistas: Nova Zelândia, África do Sul. Ao mesmo tempo, foi impressionante o surgimento de cientistas não europeus, sobretudo do Leste Asiático e do subcontinente indiano. Antes do fim da Segunda Guerra Mundial, só um asiático conquistara um Prêmio Nobel de ciência (C. Raman, em física, 1930); depois de 1946, tais prêmios forma concedidos a mais de dez pesquisadores com nomes obviamente japoneses, indianos e paquistaneses, e isso ainda subestima tão claramente a ascensão das ciências asiáticas quanto o registro pré-1933 subestimava a ascensão da ciência americana. Contudo, no fim do século, ainda havia partes do mundo que geravam visivelmente poucos cientistas em termos absolutos, e ainda mais acentuadamente em termos relativos, como por exemplo a África e a América Latina.  

       Contudo, um fato impressionante é que (pelo menos) um terço dos laureados asiáticos não aparece representando seu país de origem, mas como cientistas americanos. Na verdade, dos laureados americanos, 27 são da primeira geração. Pois, num mundo cada vez mais globalizado, o fato mesmo de as ciências naturais falarem uma única língua universal e operarem sob uma única metodologia ajudou paradoxalmente a concentrá-las nos relativamente poucos centros com recursos adequados para seu desenvolvimento, isto é, nuns poucos Estados ricos altamente desenvolvidos, e acima de tudo nos EUA. Os cérebros do mundo, que na Era das Catástrofes fugiram da Europa por motivos políticos, desde 1945 foram drenados dos países pobres para os ricos por motivos sobretudo econômicos. Isso é natural, pois nas décadas de 1970 e 1980 os países capitalistas desenvolvidos gastaram quase três quartos de todos os orçamentos do mundo da pesquisa   e desenvolvimento, enquanto os pobres (“em desenvolvimento) não gastaram mais de 2% a 3%. Mesmo no mundo desenvolvido, a ciência foi aos poucos perdendo dispersão, em parte por causa da concentração de pessoas e recursos – por razões de eficiência – emm parte porque o enorme aumento na educação superior inevitavelmente criou uma hierarquia entre seus institutos. Nas décadas de 1950 e 1960, metade dos doutorados nos EUA vinha das quinze universidades mais prestigiosas, para as quais, em consequência, acorriam os jovens mais capazes. Num mundo democrático e populista, os cientistas eram uma elite, concentrada nuns relativamente poucos centros subsidiados. Na verdade, à medida que aumentava a especialização, mesmo os cientistas precisavam de cada vez mais publicações para explicar uns aos outros o que se passava fora de seus respectivos campos. O fato de que o século XX dependeu da ciência dificilmente precisa de prova.  

        Em suma, a tecnologia com base na ciência já se achava no âmago do mundo burguês do século XIX, embora as pessoas de espírito prático não soubessem exatamente o que fazer socialmente com os triunfos da teoria científica, a não ser, nos casos adequados, transformá-las em ideologias: como o século XVIII fizera com Isaac Newton e o final do século XIX com Charles Darwin. Apesar disso, vastas áreas da vida social e humana continuaram sendo governadas, em sua maioria, apenas pelo rigor metódico e pela experiência, experimentação, habilidade, bom-senso treinado e, na melhor das hipóteses, difusão sistemática de conhecimento sobre as melhores práticas e técnicas preexistentes. Foi visivelmente o que aconteceu com a agricultura, construção civil e medicina, e na verdade com uma vasta gama de atividades que proporcionavam aos seres humanos suas necessidade e luxos. Num determinado momento, no último terço do século, isso começou a mudar. Na Era dos Impérios, começaram a tornar-se visíveis não apenas os contornos da moderna tecnologia, só é preciso pensar nos automóveis, aviação, rádio e cinema, mas os empreendimentos da moderna teoria científica: relatividade, o quantum, e a genética. Além disso, via-se agora que as mais esotéricas e revolucionárias descobertas da ciência tinham potencialmente tecnológico imediato, da telegrafia sem fio ao uso médico dos raios X, ambos baseados em descobertas da década de 1890. Apesar disso, embora a grande ciência do Breve Século XX já fosse visível e de certa forma concebida em 1914, e embora a alta tecnologia posterior já estivesse implicitamente nela, a grande ciência ainda não era uma coisa sem a qual a vida diária em toda parte do globo seria inconcebível.                              

Bibliografia Geral Consultada.

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