quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O Último Duelo – Cinema, Combate & Testemunho da História.

                                           Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte”. William Shakespeare

                                    

Jodie Marie Comer nasceu em Liverpool, em 11 de março de 1993. É uma atriz britânica reconhecida principalmente por seu papel como Villanelle em Killing Eve (2018), pelo qual ganhou o Emmy do Primetime de Melhor Atriz em Série Dramática e o prêmio de melhor atriz do British Academy of Film and Television Arts. Outros papéis notáveis da queen foram Chloe Gemell na série de comédia dramática My Mad Fat Diary, Ivy Moxam na minissérie da BBC Three, Thirteen, Kate Parks em Doctor Foster (2015) e como Elizabeth of York na minissérie The White Princess (2017). No cinema, é reconhecida pelos seus papéis de Millie Rusk/Molotov Girl em Free Guy e Marguerite de Carrouges em O Último Duelo (2021). Jodie frequentou aulas de teatro uma vez por semana e participou em peças de teatro na St. Julie`s Catholic High School em Woolton, Liverpool. Após ser expulsa do grupo da escola por ter faltado aos ensaios de dança para o espetáculo de talentos, ela decidiu participar na instituição solo, apresentando um monólogo. Este episódio chamou atenção da professora de teatro, que a enviou para audição para uma peça na BBC Radio 4. Este acabou por ser o seu primeiro trabalho profissional. Outros dentre os atores que participaram neste trabalho encorajaram Jodie Comer a seguir uma carreira na representação e aconselharam-na a arranjar um agente.

Em abril de 2018, estreou Killing Eve, uma série de suspense e espionagem da BBC America, criada por Phoebe Waller-Bridge. Na série, Jodie interpreta uma assassina psicopata, Villanelle, que desenvolve um fascínio mútuo uma agente do MI5 que a persegue (Sandra Oh). A série tinha sido renovada para uma segunda temporada antes da sua estreia. Jia Tolentino escreveu no The New Yorker que, no contexto das “constantes inversões de tom e ritmo”, a “ambiguidade (e impossibilidade) da personagem de Villanelle, funcionou (na primeira temporada) graças ao carismático e inexpugnável carisma de Comer”. A segunda temporada da série estreou em abril de 2019 e a terceira em 2020. Jodie Comer ficou na 94º posição da lista “Radio Times TV 100” de 2018, uma lista das estrelas de TV mais poderosas do ano, elaborada por executivos de televisão e veteranos de radiodifusão. Em novembro de 2018, o The Hollywood Reporter incluiu-a na lista “Next Gen Talent 2018: Estrelas em ascensão de Hollywood”. Em dezembro, a revista Vogue do Reino Unido incluiu-a na sua lista de “Mulheres Mais Influentes de 2018”, e em fevereiro de 2019 a Forbes incluiu Jodie na sua lista anual “Forbes 30 Under 30” por estar entre as 30 pessoas mais influentes na Europa com menos de 30 anos.

Em abril de 2019, Jodie revelou no podcast Happy Sad Confused que tinha sido forçada a desistir da adaptação de Kenneth Branagh de Death on on the Nile devido a conflitos de agenda. Nesse ano, teve uma pequena participação no filme Star Wars: The Rise of Skywalker (2019) no papel de mãe da personagem Rey em flashbacks. Em junho de 2020, Jodie interpretou o papel de Lesley no reboot do BBC iPlayer de Talking Heads, no episódio “Her Big Chance”. Em dezembro de 2018, foi anunciado que Jodie iria participar no filme de ação e comédia, Free Guy, que começou a ser filmado em maio de 2019. Jodie interpreta o papel da protagonista feminina, ao lado de Ryan Reynolds. Ela interpreta dois papéis: Millie, uma desenvolvedora de jogos, e Molotov Girl, o avatar de Millie no jogo. O filme estreou em agosto de 2021. Ainda neste ano, Jodie juntou-se a Jack Thorne e Stephen Graham como protagonista do telefilme Help, um drama transmitido pelo Channel 4 onde interpreta o papel de uma prestadora de cuidados com dificuldades nos primeiros dias da pandemia. Jodie foi uma das produtoras executivas. No mesmo ano, estreou The Last Duel realizado por Ridley Scott. No filme, Jodie interpreta Marguerite de Carrouges, a mulher de um cavaleiro que acusa o amigo deste de a ter violado sexualmente. A acusação leva Jean de Carrouges a desafiar o seu amigo para um “julgamento por combate”. Para além de Jodie, o filme conta com Matt Damon, Ben Affleck e Adam Driver.

                                  


O Último Duelo tem como representação social um filme épico de drama histórico de 2021 dirigido por Ridley Scott, com roteiro de Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon, baseado no livro The Last Duel: A True Story of Crime, Scandal, and Trial by Combat in Medieval France (2004), de Eric Jager. Ambientado na França medieval, o filme é estrelado por Damon como Jean de Carrouges, um cavaleiro que desafia seu antigo amigo, o escudeiro Jacques le Gris (Adam Driver), para um duelo judicial depois que a esposa de Jean, Marguerite (Jodie Comer), acusa Jacques de estupro. Os eventos que levam ao duelo são divididos em três capítulos distintos, refletindo as perspectivas contraditórias dos três personagens principais. Affleck também estrela em um papel coadjuvante como o Conde Pierre d`Alençon. A adaptação do livro de Jager foi anunciada pela primeira vez em 2015, embora só tenha recebido sinal verde oficialmente em julho de 2019. Affleck e Damon foram confirmados como protagonistas e corroteiristas com Comer e Driver se juntando ao elenco naquele ano. As filmagens ocorreram na França e na Irlanda de fevereiro a outubro de 2020. O filme “The Last Duel” estreou no 78º Festival Internacional de Cinema de Veneza em 10 de setembro de 2021 e foi lançado nos cinemas dos Estados Unidos em 15 de outubro de 2021 pela 20th Century Studios. O filme recebeu críticas positivas e foi selecionado pelo National Board of Review como um dos dez melhores filmes de 2021. Embora o filme tenha tido um desempenho fraco nas bilheterias mundiais, posteriormente obteve “sucesso financeiro nos mercados pós-exibição”.

O parlamento inglês teve origem após a província romana da Britânia. Em 1066, Guilherme I de Inglaterra trouxe para a Inglaterra um sistema feudal no qual era necessário um conselho para avaliar as leis que seriam instituídas. Em 1215, o Conselho já demonstrava o seu poder obrigando o Rei João a assinar a Magna Carta, limitando assim o poder dos monarcas. O atual parlamento teve origem em 1200 durante o reinado de Eduardo I de Inglaterra, neto de João, que convocou o parlamento várias vezes junto aos religiosos e burgueses com o objetivo de delimitar as respectivas leis. Os dois elementos chave na política do Reino Unido são a Coroa do Reino Unido e o próprio parlamento. Os membros do parlamento, composto por duas câmaras, não podem fazer parte das duas casas ou trocar de câmara arbitrariamente. Como cargo histórico, a Coroa ainda é muito poderosa e exerce poder sobre todas as outras câmaras e partidos podendo até dissolver as câmaras, criar novos tratados, declarar guerras ou nomear os presidentes das câmaras. O monarca também escolhe o primeiro-ministro, que em seguida terá poder sobre as câmaras. Os Lordes Espirituais eram os clérigos que representavam a Igreja da Inglaterra, mas foram dissolvidos durante o reino de Henrique VIII de Inglaterra. Todos os bispos diocesanos continuaram com lugar no parlamento, mas um novo tratado determinou que apenas 26 bispos ocupariam lugar no parlamento, estes são o Arcebispo da Cantuária, o Arcebispo de York, o Bispo de Londres, o Bispo de Durham e o Bispo de Winchester. Os outros 21 Lordes Espirituais são os mais altos bispos diocesanos, classificados por ordem de consagração. Os Lordes Temporais são todos membros da nobreza hereditários. Os direitos de lugares hereditários no parlamento têm origem em 1707. Dos cargos hereditários apenas 92 mantém seus lugares. Todas as leis que fazem parte da Constituição do Reino Unido devem ser aprovadas pelo parlamento.

O último duelo judicial é um parti pris permitido pelo parlamento francês envolveu três personagens: Jean de Carrouges, sua esposa Marguerite, e Jacques Le Gris. A história narra que, por anos, Carrouges e Le Gris foram muito amigos, mas a disputa pelo poder de terras os colocou em situação de grande rivalidade corporal. Julgamento por combate, também reconhecido como aposta de batalha, julgamento por batalha ou duelo judicial era um método do direito germânico para resolver acusações na ausência de testemunhas ou de uma confissão, em que duas partes em disputa lutavam em combate único. O vencedor da luta foi proclamado possuidor da verdade. Em essência, foi um duelo sancionado judicialmente. Permaneceu em utilidade de uso durante toda a Idade Média europeia, desaparecendo gradualmente no decorrer do século XVI. Ao contrário do julgamento por Ordália em geral, que é conhecido por muitas culturas no mundo, o “julgamento por combate” é reconhecido principalmente pelos costumes dos povos germânicos. Ordálio ou Ordália, também conhecida como juízo de Deus (judicium Dei), é um tipo de testemunho de prova judiciária antiga, usada para determinar a culpa ou a inocência do acusado por meio da participação de elementos da natureza e cujo resultado é interpretado como um juízo divino. O acusado submetia-se a torturas ou provas físicas que provariam a sua inocência, caso não lhe causassem dano. A origem da palavra ordália é no latim ordalium ou, de acordo com Verstegan, do saxão, ordal e ordel, que, segundo Hicks, vem de Dael, julgamento, com o sentido de grande julgamento.  Outros derivam do franco ou teutão Urdela, que significa julgar. Eduard Lye (1694–1767) foi estudioso do século XVIII de filologia inglesa antiga e germânica. 

No seu dicionário de Anglo-Saxão, deriva a palavra desta língua, significando um tipo de julgamento onde não existe interferência das pessoas, sendo feita uma justiça absoluta, religiosamente uma prerrogativa de Deus. De uso relativamente amplo provavelmene em todo o mundo antigo, na Europa teve o seu uso consideravelmente diminuído, sobretudo por influência de alguns advogados, teólogos e de figuras pródigas da Igreja. Pedro Cantor assinalou como a exigência da ordália equivalia a procurar um milagre, e assim violava a injunção bíblica: “não tentarás o Senhor, teu Deus”. Foi um teólogo francês. Educado em Reims, mudou-se depois para Paris, onde, em 1183, tornou-se cantor (daí o seu nome) em Notre-Dame. Em 1196, foi eleito deão em Reims, mas morreu, no ano seguinte, na Abadia de Longpont em algum momento depois de 29 de janeiro. Em suas obras, de viés escolástico, Pedro comentou sobre o Antigo e o Novo Testamento. Além disso, escreveu uma obra sobre o sacramento da penitência. O extraordinário medievalista Jacques Le Goff citou Cantor quando tentava determinar o “nascimento do purgatório” no século XII, citando que ele utilizou o termo purgatorium como substantivo em 1170. Seu Dictionarium Saxonico et Gothico-Latinum, publicado em 1772, foi um marco no desenvolvimento histórico da lexicografia do inglês antigo, superado pelo Dictionary of the Anglo-Saxon Language de Joseph Bosworth (1838), ao qual contribuiu per se na sociedade inglesa. Os mais antigos relatos da aplicação da ordália encontram-se no Código de Ur-Nammu (2100-2050 a. C.) no Código de Hamurábi (1750 a. C.), e no judaico Livro dos Números.

Antigo estudante da École Normale Supérieure, Jacques Le Goff estudou na Universidade Carolina em 1947-48, professor de história em 1950 e membro da École Française de Rome, foi nomeado assistente da Faculté de Lille (1954-59) antes de ser nomeado pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica), em 1960. Em seguida, mestre-assistente da VI seção da École Pratique des Hautes Études (1962), sucedeu a Fernand Braudel no comando da École des Hautes Études en Sciences Sociales, onde ele foi diretor dos estudos. Cedeu seu lugar a François Furet em 1967. Na qualidade de diretor de estudo na École des Hautes Études en Sciences Sociales, publicou estudos que renovaram a pesquisa histórica, sobre mentalidade e sobre antropologia da Idade Média. Seus seminários exploraram os caminhos então novos da antropologia histórica. Ele publicou os artigos sobre as universidades medievais, o trabalho, o tempo, as maneiras, as imagens, as lendas, as transformações intelectuais da Idade Média. Codiretor da Escola dos Annales, dirigiu os estudos ligados à Nova História, como a coletânea Faire de l’Histoire em 1977 e o volumoso Dictionnaire de la Nouvelle Histoire publicado no ano seguinte, levando à revolução dos Annales. Nos anos 1980 ele trabalhou em uma biografia de São Luís, publicada em 1996. Tudo em recordações das etapas essenciais do reinado de Luís IX (1214-1270), ele renovou o gênero biográfico pelos seus métodos e suas reflexões sobre a possibilidade de conhecer realmente um personagem da Idade Média. Le Goff atuou pragmaticamente no sentido de levar a História para além do mundo acadêmico, apresentando um programa na rádio estatal francesa France Culture, sendo consultor de produções para a TV e cinema, incluindo o filme O Nome da Rosa, adaptação do livro de Umberto Eco, estrelado por Sean Connery. Era poliglota, sendo fluente nos idiomas inglês, italiano, polonês e alemão. Morreu em 1° de abril de 2014, em Paris.

Assim, o Código de Hamurabi estipulava que: “Se um homem lançou um feitiço sobre outro homem e este ainda não foi justificado, aquele sobre quem o feitiço foi lançado deverá ir ao rio sagrado; ele deverá mergulhar no rio sagrado. Se o rio sagrado o vencer e ele se afogar, o homem que lançou o feitiço tomará posse de sua casa. Se o rio sagrado o declarar inocente e ele permanecer ileso, o homem que lançou o feitiço será condenado à morte. Aquele que mergulhou no rio tomará posse da casa de quem lançou o feitiço sobre ele”. De acordo com Adam Clarke, a ordália, que foi praticada em diversas partes do mundo, tinha como origem possivelmente “as águas da amargura”. A qual consta na Bíblia, no livro de Números, onde se prescreve que a mulher, suspeita de adultério, deverá beber uma água possivelmente contaminada, e, se for adúltera, morrerá, porém, se for fiel, sobreviverá e terá filhos. A prática era “quase universal na Europa”, segundo o medievalista Eric Jager, nascido em 27 de abril de 1957 é um crítico literário norte-americano e especialista em literatura medieval. Ele é professor do departamento de inglês da Universidade da Califórnia, Los Angeles, recebeu seu bacharelado do Calvin College em 1979 e seu doutorado da Universidade de Michigan em 1987.

Ele também lecionou na Universidade Columbia como professor Associado.  Estava em uso entre os antigos borgonheses, francos ripuários, alamanos, lombardos e suíones. Era desconhecido na lei anglo-saxônica e no direito romano e não figura nas tradições da Antiguidade do Oriente Médio, como o código de Hamurabi ou a Torá. No entanto, está registrado nas Leis Brehon irlandesas medievais, como Din Techtugad. A prática é regulamentada em vários códigos legais germânicos. Estando enraizadas na lei tribal germânica, as diversas leis regionais do Império Franco e do Sacro Império Romano-Germânico prescreviam diferentes particularidades, como equipamentos e regras de combate. A Lex Alamannorum, isto é, recensão Lantfridana 81, datada de 712–730 d.C. prescreve um julgamento por combate no caso de duas famílias disputarem a fronteira entre suas terras. Um punhado de terra retirado do terreno em disputa é colocado entre os competidores e eles são obrigados a tocá-lo com suas espadas, cada um jurando que sua reivindicação é legal. A parte vencida, além de perder o direito ao terreno, deverá pagar uma multa. Os códigos legais que regem seu uso aparecem a partir do ano 803. Luís I, o Piedoso, prescreveu o combate entre testemunhas de cada lado, e não entre o acusador e o acusado, e permitiu brevemente a Ordália em casos envolvendo clérigos.

Na Escandinávia medieval, a prática sobreviveu durante a Era Viking na forma do holmgang. Uma variante incomum, o duelo conjugal, envolvia o combate entre marido e mulher, sendo o primeiro deficiente físico de alguma forma. O perdedor era morto. O primeiro relato de ordália na Europa está associado ao Rei Ina, um rei anglo-saxão que governou entre 688 e 726 e é conhecido por seu código legal e foi composto por volta do ano 700, denominado decisão por ferro incandescente e água. Agobardo, bispo de Lião, escreveu contra a ordália sessenta anos antes. A ordália foi mencionada no Concílio de Trevers, em 895. A ordália não era praticada na Normandia até sua conquista, e foi provavelmente introduzida na Inglaterra durante o tempo de Ina, sendo introduzida no código de leis de Athelstan e Ethelred. A ordália por fogo era para os homens e mulheres nobres, e a ordália por água para os servos.  Segundo a lenda, Cunegunda de Luxemburgo, após ter sido acusada de adultério, provou a sua inocência caminhando “sem danos sobre arados aquecidos ao rubro”. Em 1157, a prova do ferro quente foi ordenada pelo Concílio de Reims para todos os suspeitos de heresia. Em 1210, treze anos após a morte de Pedro Cantor, o bispo Henrique de Estrasburgo ordenou esse “tratamento” para cerca de 100 hereges. Henrique III proibiu a ordália no terceiro ano do seu reinado, em 1219. Houve vário papas que emitiram bulas papais contra as ordálias. Foram papéis desempenhados por Estêvão VI, em 887/888; Alexandre II, em 1063; e, mais demarcadamente, por Inocêncio III, que no IV Concílio de Latrão em 1215 que proibiu o clero de compactuar com julgamentos “por fogo e por água”, substituindo-os pela compurgação, de juramento e testemunho; ou, dando-lhe outra tradução, julgamento por juramento.

É importante salientar que, neste período histórico, desenrolava-se a chamada Guerra dos Cem Anos uma série de conflitos travados entre os reinos da Inglaterra e da França durante o final da Idade Média. Originou-se de reivindicações inglesas ao trono francês entre a Casa Real Inglesa de Plantageneta e a Casa Real Francesa de Valois. Com o tempo, a guerra se transformou em uma luta de poder mais ampla envolvendo facções de toda a Europa Ocidental, alimentada pelo nacionalismo emergente de ambos os lados. Na Inglaterra tudo que era identificado como francês era visto como inimigo e nessa visão se incluiu a Igreja, pois havia transferido sua sede de Roma para Avinhão, na França. A elite inglesa formada pela realeza, parlamento e nobreza, reagia à ideia de enviar dinheiro aos papas, pois era uma atitude vista como ajuda ao sustento do próprio inimigo. Neste ambiente hostil beligerante à França e à Igreja, um teólogo como John Wycliffe desfrutou quase imediatamente de grande apoio, não apenas político, como de popularidade, despertando historicamente o nacionalismo inglês. Em 22 de maio de 1377, o Papa Gregório XI (1331-1378), que em janeiro havia abandonado Avinhão para retornar à sede da Igreja a Roma, expediu uma bula contra Wycliffe, declarando que suas 18 teses eram errôneas e perigosas para a Igreja em sua relação com o Estado. O apoio de que Wycliffe desfrutava na corte e no parlamento “tornaram a bula sem efeito prático, pois era geral a opinião de que a Igreja estava exaurindo os cofres ingleses”.

Embora o procedimento inquisitorial como um meio para combater a heresia fosse uma prática antiga da Igreja Católica, a prática foi apoiada oficialmente pela Santa Sé a partir de 1184, com a publicação da bula Ad abolendam, do Papa Lúcio III, em resposta ao crescimento da heresia cátara no sul da França e nas cidades do norte italiano. É chamada de episcopal porque era administrada por bispos, que em latim é episcopus. Foi o embrião do qual surgiria o Tribunal da Inquisição e do Santo Oficio. O castigo físico dos hereges foi designado para os leigos. Por esta bula, os bispos foram historicamente obrigados a intervir ativamente para erradicar a heresia e foi dado “o poder de julgar e condenar os hereges em sua diocese”. Todas as inquisições medievais importantes foram descentralizadas. As autoridades descansaram com as autoridades locais com base em orientações da Santa Sé, mas não havia nenhuma autoridade central executando as inquisições, como seria o caso das inquisições pós-medievais. Há tipos diferentes de inquisições, dependendo da localização espacial e métodos; historiadores têm geralmente classificadas de Inquisição Episcopal e Inquisição papal.

Os papas, durante algum tempo, tiveram que frear o impulso crescente dos heréticos. Porém finalmente no Terceiro Concílo de Latrão (1179) incitaram os príncipes a aplicar as sanções penais contra os hereges. De início, tentou liquidar o problema militarmente, quando em 1208, o papa Inocêncio III apelou à Cruzada albigense, convocando os príncipes cristãos e garantindo aos que dela participassem os mesmos benefícios espirituais e temporais ligados à Cruzada de libertação da Terra Santa. Terminou pela vitória dos cruzados, que logo se apoderaram dos territórios dos albigenses e dos senhores feudais que os protegiam. Mas o resultado não foi o esperado pelo papa, pois a heresia continuou a progredir. Como resultado, “o papa recorreu à pressão judicial, estabelecendo a Inquisição”. Essa instituição apareceu primeiro em 1203, quando Inocêncio III mandou juízes papais especiais “inquirirem” casos de heresia em certos locais em que os tribunais dos bispos pareciam incapazes de colocar-se à altura de sua rápida difusão. Essas novas cortes mostraram-se muito mais eficazes do que os tribunais episcopais efetivos e, em consequência, em 1229, foram transformadas em instituição permanente para o fim específico de lidar com a heresia.

O Quarto Concílio de Latrão (1225) codificou as leis existentes e urgiu a eficácia simbólica do seu cumprimento. Em 1230, o Papa Gregório IX, respondeu às falhas da inquisição episcopal com uma série de bulas papais que se transformaram na Inquisição papal, que foi composta por profissionais especificamente preparados para essa tarefa. Os indivíduos foram escolhidos de diferentes ordens e do clero secular, mas principalmente vieram da Ordem Dominicana. Os dominicanos foram favorecidos pela sua história de anti-heresia. Como mendicantes, eles estavam acostumados a viajar. Ao contrário dos métodos do acaso episcopal, a Inquisição papal foi aprofundada, sistemática, mantendo registros detalhados. Alguns documentos da Idade Média, envolvendo discurso na primeira pessoa por camponeses vêm registros da inquisição papal. O papa Gregório IX em 1231 aceitou para toda a Igreja a constituição de Frederico II (1224) pela que se impunha a pena de morte aos hereges e formou o tribunal da Inquisição do qual foi encarregada a ordem dos dominicanos. Em 1252, o Papa Inocêncio IV bula Ad extirpanda autorizou a utilidade de uso de tortura para extrair as possíveis confissões de prisioneiros. Recomenda-se que os torturadores não excedam a mutilar o acusado ou denunciado. As penas eram variadas. Aqueles que se recusavam a abjurar, hereges relapsos foram entregues ao braço secular para a execução da pena de morte. Na Espanha só existiu no reino de Aragão.

Mas destacou-se como obra de Nicolas Eymerich (1320-1399), como Directorium inquisitorum, manual da Inquisição medieval. O Malleus Maleficarum, que foi publicado em 1486, mais tarde do que foi a Era da Inquisição dos tempos dos cátaros e albigenses. No norte da Europa a Inquisição foi um pouco mais suave: nos países escandinavos que tinham praticamente nenhum impacto até que a Inquisição Espanhola, quando os reis espanhóis utilizavam para matar muitos que não concordam com a coroa espanhola. Existiu no reino de Aragão, durante este período, mas não no resto da Península Ibérica. A Inquisição nunca foi instituída na Inglaterra, mas Cristóvão Colombo (1451-1506) levou-a consigo para o Novo Mundo. A disseminação dos movimentos heréticos do século XII, pode ser vista, pelo menos em parte, como uma reação à crescente “corrupção moral do clero, que inclui subornos para casamentos ilegais e posse de riqueza extrema”. Na Idade Média, o escopo principal da Inquisição era erradicar essas novas seitas. Assim, seu raio de ação foi definido predominantemente na Itália e na França, onde as seitas, como se tinha estabelecido. Os dois principais movimentos heréticos eram reconhecidos como os cátaros e os valdenses. Os primeiros foram na maior parte no Sul da França, em cidades como Toulouse. Parecem ter sido originalmente fundadas por alguns soldados da Segunda Cruzada, que, no seu caminho de volta, foram convertidos por uma seita búlgara, o Bogomilos. A principal heresia dos cátaros, entretanto, era sua crença no dualismo: “o Deus do mal criou o mundo materialista e o Deus bom criou o mundo espiritual”.

Os valdenses foram principalmente na Alemanha e na Itália do Norte. Em contraste com os cátaros e em sintonia com a Igreja, eles acreditavam em um só Deus, mas não reconheciam o sacerdócio, nem a veneração que para eles não é sinônimo de culto de santos e mártires, que faziam parte da ortodoxia da Igreja. As queixas das duas principais ordens do período, articulada em torno dos dominicanos e dos franciscanos, contra a corrupção moral da Igreja, em certa medida, ecoaram dos movimentos heréticos, mas eram doutrinariamente convencionais, e foram convocados pelo Papa Inocêncio III (1161-1216) contra as heresias. Como resultado, muitos franciscanos e dominicanos foram inquisidores. Robert le Bougre (1173-1239), o “Martelo dos Hereges” (Malleus haereticorum), considerado “premier Inquisiteur général en France”, foi frade dominicano que se tornou um inquisidor reconhecido por sua crueldade e violência. Outro exemplo veio da província de Veneza, que foi entregue aos inquisidores franciscanos, que rapidamente se tornou famosa por suas fraudes contra a Igreja, “enriquecendo-se com os bens confiscados dos hereges e a venda de absolvições”. Por causa de sua corrupção, eles foram forçados pelo papa para suspender as suas atividades religiosas em 1302. A Guerra dos Cem Anos, por outro lado, representou um dos conflitos mais significativos da Idade Média. Durante 116 anos, interrompidos por várias tréguas, cinco gerações de reis de duas dinastias rivais lutaram pelo trono do maior reino da Europa Ocidental. O efeito político da guerra na história europeia foi duradouro. Ambos os lados produziram inovações em tecnologia e táticas militares, incluindo exércitos permanentes profissionais e artilharia, que mudaram permanentemente a guerra na Europa. Mas a cavalaria, que atingiu seu auge durante o conflito, posteriormente declinou. 

Identidades nacionais mais fortes criaram raízes em ambos países, que se tornaram mais centralizados e gradualmente ascenderam como potências globais. Para fins de definição geográfica, de censo, econômico, de soberania e muitos outros, torna-se necessário nomear as extensões territoriais e urbanas; desde muito cedo a Humanidade se dedicou a fazer isso. Província equivale também aos estados em alguns outros países. Vem do Latim provincia, “território sob o domínio romano”, dado como resultante de pro-, “à frente”, mais vincere, “vencer”. E isto era coisa que eles gostavam de fazer, embora nem sempre conseguissem. País, do Latim pagus, “distrito rural”, originalmente “área demarcada”, relacionada com pangere, “apertar, colocar no lugar”, que veio do Indo-Europeu pag-, “colocar no lugar, unir, tornar firme”. Reino, do Latim regnum, “reinado”, a estrutura de poder dirigida por um rei, do Latim rex.  E esta, por sua vez, é derivada do Indo-Europeu reg-, “mover-se em linha reta”, daí “dirigir, guiar, comandar, reger”. O termo “Guerra dos Cem Anos” foi adotado por historiadores como periodização historiográfica para abranger conflitos relacionados, construindo o conflito militar considerado o mais longo da história europeia. A guerra é comumente dividida abstratamente em três fases separadas por tréguas: a Guerra Eduardiana (1337-1360), Guerra Carolina (1369-1389) e Guerra Lancastriana (1415-1453). Cada lado atraiu muitos aliados para o conflito, com as forças inglesas inicialmente prevalecendo; a Casa de Valois finalmente manteve o controle sobre a França, com as monarquias tanto francesas e inglesas anteriormente entrelaçadas permanecendo separadas. As causas profundas do conflito podem ser atribuídas à crise da Europa do século XIV. 

O cerco de Calais no período de 4 de setembro de 1346 a 3 de agosto de 1347, ocorreu na conclusão da campanha de Crécy, quando um exército inglês sob o comando do rei Eduardo III da Inglaterra sitiou com sucesso a cidade francesa de Calais durante a fase eduardiana dos Cem Anos Guerra. O exército inglês em torno de 10.000 homens havia desembarcado no Norte da Normandia em 12 de julho de 1346. O chevauchée de Lancaster de 1346 foi uma sequência de ataques comandados por Henrique, conde de Lancaster, no sudoeste da França no decorrer do outono de 1346, como parte da Guerra dos Cem Anos. O ano havia iniciado com um grande] exército francês sob o comando de João, duque da Normandia, filho e herdeiro do rei Filipe VI, sitiando a cidade estrategicamente importante de Aiguillon, na Gasconha. Lancaster recusou a batalha e assediou as linhas de suprimentos francesas, evitando que Aiguillon fosse bloqueado. Após um sitio de cinco meses, os franceses receberam ordens para enfrentar o principal exército inglês, que em 12 de julho desembarcou na Normandia sob Eduardo III da Inglaterra e iniciou a campanha de Crécy. Eles embarcaram em um ataque em grande escala, ou chevauchée, devastando partes do Norte da França. Em 26 de agosto de 1346, lutando no terreno de sua própria escolha, os ingleses infligiram uma pesada derrota a um grande exército francês liderado por seu rei Filipe VI na Batalha de Crécy. Uma semana depois, eles investiram no porto bem fortificado de Calais, que tinha uma forte guarnição de soldados sob o comando de Jean de Vienne (1341-1396). As principais consequências políticas da Guerra dos Cem Anos foram principalmente o desenvolvimento extraordinário e peculiar de um sentimento de identidade nacional profundo, dos dois lados, que contribuiu para a formação da Inglaterra e da França como passamos a reconhecê-las.

Os dois sistemas acabaram por ser gradualmente substituídos, a partir dessa mesma época, pelo julgamento por um júri. Contudo, o ordálio pela água continuou a ser usado no período da chamada “caça às bruxas”. A ordália por batalha, crê-se que tenha vindo dos lombardos, os quais, provindos da Escandinávia, varreram a Europa. Este modo foi instituído por Frotha III, rei da Dinamarca na época do nascimento de Cristo, que ordenou que cada controvérsia fosse resolvida pela espada. Esta prática continuou até o reinado de Cristiano III, rei da Dinamarca, em 1535. A partir dos países escandinavos a prática chegou à Inglaterra, e continuava, nos dias de Adam Clarke, nascido em Moybeg Kirley, condado de Derry, 1762 em Londres, e morto em 26 de agosto de 1832 foi um escritor irlandês e estudioso bíblico. Como escritor e estudioso bíblico, ele publicou um influente comentário bíblico entre outras obras, a servir como base para a detestável prática dos duelos, uma relíquia da superstição. Os duelos supostamente tiveram um grande crescimento em 1527, quando houve o rompimento de um tratado entre o imperador Carlos V e Francisco I. Após algumas mensagens insultuosas, eles decidiram resolver a disputa em um duelo, porém não conseguiram chegar a um acordo sobre as condições do duelo. O exemplo de dois personagens ilustres influenciou várias pessoas na Europa a fazerem o mesmo. Adam Clarke conclui a sua exposição da ordália citando Dr. Henry. Este menciona os vários casos medievais onde pessoas foram expostas a ordália, “colocando os braços em água fervente, segurando bolas incandescentes de ferro, caminhando sobre carvão em brasa, sem sofrer nenhuma injúria”, porém ele não atribui estes milagres à providência divina, mas a um conluio político entre o acusado e o padre encarregado de organizar a cerimônia, para enganar a população crédula.

Do século V ao XI foram numerosas as rupturas seguidas de reconciliação entre as igrejas do Ocidente e Oriente. O principal conflito era o método de governo da Igreja, enquanto o Oriente sustentava a Igreja como uma Pentarquia dentro do Império Bizantino, comandada pelos patriarcas das cinco cidades mais importantes: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém; no Ocidente os Papas, invocavam jurisdição sobre todos os assuntos da Igreja e o direito de julgar até mesmo os patriarcas, em cerca de 446 o Papa Leão I (400-461) tinha expressamente reivindicado autoridade sobre toda a Igreja: “O cuidado da Igreja universal, deve convergir para a cadeira de Pedro, e nada deve ser separado de sua cabeça”. Desde a metade do século VIII, as fronteiras do Império Bizantino enfrentavam uma iminente expansão islâmica. Antioquia voltou ao controle bizantino por volta de 1045, mas o ressurgente poder dos sucessores romanos no ocidente passou a postular por seus direitos e sua autoridade nos lugares perdidos na Ásia e África. Então, em 1054 os legados romanos do papa Leão IX, viajaram para Constantinopla para insistir no reconhecimento da primazia papal, o patriarca de Constantinopla se recusou a reconhecer sua autoridade e se excomungaram mutuamente, posteriormente a separação entre Ocidente e Oriente se desenvolveu quando todos os outros patriarcas orientais apoiaram Constantinopla, no reconhecido evento do Grande Cisma. Leão I, reconhecido como São Leão Magno foi o Papa da Igreja Católica de 29 de setembro de 440 até a data de sua morte. 

Nascido em território italiano, de origem aristocrática, destacou-se tanto por sua sabedoria teológica quanto por sua forte liderança pastoral e diplomática, em um período de profundas transformações políticas e doutrinais no Império Romano. Foi o primeiro Papa a receber o título de “Magno” (o Grande), em reconhecimento à sua notável influência sobre a Igreja e o mundo cristão. O pontificado de Leão Magno marcou um dos períodos mais importantes do desenvolvimento da doutrina cristológica. Ele é lembrado especialmente pelo célebre “Tomo de Leão”, carta endereçada ao patriarca Flaviano de Constantinopla, na qual expressou a fé da Igreja sobre a dupla natureza de Cristo, isto é, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, unidas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. Este documento foi de importância decisiva no Concílio de Calcedônia (451), o quarto concílio ecumênico, que reafirmou esta doutrina contra as heresias monofisitas e consolidou a teologia cristã sobre a Encarnação do Verbo. Além de seu legado teológico, Leão Magno ficou famoso também por seu papel político e pastoral: em 452, encontrou-se pessoalmente com Átila, o Huno, nas proximidades de Mântua, e o convenceu a abandonar sua marcha sobre Roma, evitando uma possível devastação da cidade. Três anos depois, enfrentou ainda a invasão dos vândalos de Genserico, buscando proteger os habitantes e os lugares sagrados. São Leão I foi declarado Doutor da Igreja em 1754 pelo Papa Bento XIV, em reconhecimento de seus escritos e sermões, muitos dos quais são considerados exemplos de doutrina e eloquência cristã. Sua memória litúrgica é celebrada em 10 de novembro.

Mudanças posteriores ocorreram com uma redivisão da Europa. Guilherme, o Conquistador, duque da Normandia, invadiu a Inglaterra em 1066. A conquista normanda foi crucial na história inglesa por diversas razões. Essa conquista aproximou a Inglaterra da Europa continental com a introdução da aristocracia normanda e, portanto, diminuindo a influência escandinava. Assim criou-se uma das mais poderosas monarquias europeias em um sofisticado sistema governamental. Depois do Grande Cisma do Oriente, a cristandade ocidental foi adotada nos recém-criados reinos da Europa Central: Polônia, Reino da Hungria e o Reino da Boêmia. A Igreja Católica tornou-se muito poderosa, levando a vários conflitos entre o Papa e o Imperador. Em 1129, a Igreja Católica estabeleceu o uso da Inquisição para conservar a sua ortodoxia doutrinária no Ocidente católico. A Inquisição punia e exortava todos aqueles que praticavam a heresia para se arrependerem e se converterem. Caso não o fizessem, a punição poderia ser a morte. Durante este tempo muitos senhores e nobres se converteram ao cristianismo. Os Monges de Cluny batalharam para instituir a igreja onde nobres não o faziam. O papa Gregório VII continuou o trabalho dos monges com mais dois objetivos alcançados, libertar a igreja do controle de reis e nobres e aumentar o poder do papado. A área de influência da Igreja Católica aumentou enormemente devido às conversões de reis pagãos na Escandinávia, Lituânia, Polônia e Hungria à reconquista da Península Ibérica e às Cruzadas. A maior parte da Europa era católica no século XV.

 Sinais do renascimento da civilização na Europa ocidental começaram a aparecer já no século XI com o início do comércio ainda na península Itálica, levando a um crescimento cultural e econômico de cidades-Estado independentes como a República de Veneza e a República Florentina; no mesmo tempo estados-nação começaram a formar-se como França, Inglaterra, Espanha e Portugal, mas o processo de formação, em geral, demorou séculos. Essas nações criadas começaram a se comunicar com seus idiomas culturais, em vez do tradicional latim. Figuras notáveis do movimento incluem Dante Alighieri e Cristina de Pisano, primeira escritora em italiano, que depois de sua mudança de Veneza para a França, escreveu em francês. Por outro lado, o Sacro Império Romano-Germânico, essencialmente baseado na Alemanha e na península Itálica, esteve fragmentado em um conjunto de principados e pequenas cidades-Estado, cuja subjugação ao imperador era apenas formal. Durante os séculos XIII-XIV, o Império Mongol subiu ao poder. Os exércitos mongóis expandiram-se em direção ao Oeste sob o comando de Batu Cã. Suas conquistas no ocidente incluíram quase toda a Rússia, salvo Novgorod, que se tornou um vassalo, Quipechaques, a Hungria e a Polônia que permaneceu como um Estado autônomo. Documentos mongóis sugerem que Batu Cã estaria planejando a completa conquista dos poderes europeus remanescentes, começando com um ataque no inverno sobre a Áustria, península Itálica e Alemanha, quando foi chamado de volta para a Mongólia devido a morte do grão-cã Oguedai. Muitos historiadores acreditam que sua morte preveniu a conquista completa da Europa. Na Rússia, entretanto, os mongóis da Horda Dourada governaram por quase 250 anos. 

O renascimento foi inspirado pelo crescimento dos estudos de textos latinos e gregos e a admiração da era greco-romana como uma época de ouro. Isso incitou muitos artistas e escritores a tomar emprestados exemplos gregos e romanos para suas obras, mas também existiram muitas inovações nesse período, especialmente através de artistas multifacetados tais quais Leonardo da Vinci e Leon Battista Alberti. Muitos textos gregos e romanos ainda existiam na Idade Média europeia, devido ao trabalho inestimável dos monges católicos, que copiaram e recopiaram os textos antigos e os guardaram por todo um milênio. Muitos outros foram descobertos com a migração de estudiosos gregos, assim como de textos gregos clássicos, para a Itália. Após a queda de Constantinopla, enquanto outros textos gregos e romanos chegaram através de fontes islâmicas, que os herdaram através das conquistas, e até mesmo fazendo tentativas de melhorar alguns deles. Com o orgulho natural de pensadores avançados, os humanistas viram o ressurgimento desse grande passado como uma renascença – o renascimento da própria civilização. Importantes precedentes políticos aconteceram neste período. Nicolau Maquiavel escreveu “O Príncipe” que influenciou o posterior absolutismo e a política pragmática. Também foram importantes os diversos líderes que governaram estados e usaram a arte da Renascença como um sinal de seus poderes. Durante esse período, a corrupção da Igreja Católica levou a uma dura reação, na Reforma Protestante. E ela ganhou muitos seguidores, especialmente entre príncipes e reis buscando um estado forte para acabar com a influência da Igreja Católica. Figuras como Martinho Lutero começaram a surgir, assim também como João Calvino com o seu calvinismo que teve influência em muitos países e o rei Henrique VIII que rompeu com a Igreja Católica e fundou a Igreja Anglicana. Essas divisões religiosas trouxeram uma onda frenética de guerras inspiradas e conduzidas religiosamente por interesses do clero, mas também pela ambição dos monarcas na Europa Ocidental que se tornavam cada vez mais centralizadas e poderosas.

A Reforma Protestante também levou a um forte movimento reformista na Igreja Católica chamado Contrarreforma, que tinha como objetivo reduzir a corrupção, assim como aumentar e fortalecer a doutrina católica. Um importante grupo da Igreja Católica que surgiu nessa época foram os jesuítas, que ajudaram a manter a Europa Oriental na linha católica de pensamento. Mesmo assim, a Igreja Católica foi fortemente enfraquecida pela Reforma protestante e grande parte do continente europeu não estava mais sob sua influência e os reis nos países que continuaram no catolicismo começaram a anexar as terras da igreja para seus próprios domínios. Diferentemente da Europa Ocidental, os países da Europa Central, a Comunidade Polaco-Lituana e a Hungria, foram mais tolerantes. Enquanto se aumentava a predominância do catolicismo, eles ainda permitiam que um grande número de minorias religiosas cultivasse suas crenças. Assim, a Europa Central manteve-se dividida entre católicos, protestantes, ortodoxos e judeus. Outro importante acontecimento desta época foi o crescimento do sentimento de união do povo europeu. Émeric Crucé (1623) formulou a ideia do Conselho Europeu, com a intenção de acabar com as guerras na Europa; visto que a última tentativa de criar paz na Europa não obteve sucesso quando todos os países europeus fizeram um tratado de paz em 1518 no Tratado de Londres

Muitas guerras implodiram de novo em poucos anos. Vale lembrar que a reforma proporcionou a paz impossível na Europa por muitos séculos ainda. As numerosas guerras não impediram que os novos estados explorassem e conquistassem largas porções do mundo, particularmente na Ásia (Sibéria) e a recém-descoberta América. No século XV, Portugal liderou a exploração geográfica, seguido pela Espanha no começo no século XVI. Eles foram os primeiros estados a fundar colônias na América e estações de troca nas costas da África e da Ásia, porém logo foram seguidos pela França, Inglaterra e Países Baixos. Em 1552, o czar russo Ivan, o Terrível conquistou os dois maiores Canatos tártaros, Kazan e Astracã, e a viagem de Yermak em 1580, que levou a anexação da Sibéria pela Rússia. A expansão colonial prosseguiu-se nos anos seguintes, mesmo com alguns empecilhos, como a Revolução Americana e as guerras pela independência em muitas colônias americanas. A Espanha controlou parte da América do Norte e grande parte da América Central e do Sul, o Caribe e Filipinas; Portugal teve em suas mãos o Brasil e vários territórios costeiros em África e na Ásia como por exemplo a Índia, Macau, Timor Português, etc.; os britânicos comandavam a Austrália, Nova Zelândia, maior parte da Índia e grande parte da África e América do Norte; a França comandou partes do Canadá e da Índia, porém quase tudo foi perdido para os britânicos em 1763, a Indochina, grandes terras na África e Caribe; os Países Baixos ficaram com as Índias Orientais (depois Indonésia) e algumas ilhas no Caribe; países como Alemanha, Bélgica, Itália e Rússia conquistaram colônias posteriormente.

Essa expansão ajudou a acumulação de capital dos países que a fizeram. O comércio prosperou, por causa da menor estabilidade entre os impérios. No final do século XVI, a prata americana era responsável por um quinto de todo o comércio da Espanha. Os países europeus travaram guerras que foram pagas através do dinheiro da exploração das colônias. No entanto, os lucros com o tráfico de escravos e as plantações das Índias Ocidentais, a mais rentável das colônias britânicas naquele momento, representavam apenas 5% de toda a economia do Império Britânico no final do século XVIII, inicial da Revolução Industrial. A partir destas primícias deste período, o capitalismo substituía o mercantilismo como principal forma de organização econômica, ao menos no Oeste da Europa. A expansão das fronteiras coloniais resultou em uma Revolução Comercial. No período o crescimento da ciência moderna e a aplicação de suas descobertas em melhorias tecnológicas, que culminaram com a revolução Industrial. Descobertas ibéricas do Novo Mundo, começaram com a jornada de Cristóvão Colombo ao Oeste com a busca de uma rota fácil para as Índias Orientais em 1492, foram logo adaptadas por explorações inglesas e francesas na América do Norte. Novas formas de comércio e sua expansão fizeram necessária uma mudança no direito internacional. A Reforma Protestante produziu efeitos profundos na unidade europeia. Não apenas dividindo as nações uma das outras pela sua orientação religiosa, mas alguns estados foram afetados internamente por lutas religiosas, fortemente encorajadas por seus inimigos externos. A França viveu essa situação no século XVI com uma série de conflitos, como as guerras religiosas na França, que culminaram no triunfo da Dinastia Bourbon. 

A Inglaterra preveniu-se desse fato com a consolidação sob a Rainha Elizabeth do moderado Anglicanismo. Quase toda parte da atual Alemanha estava dividida em inúmeros estados sob o comando teórico do Sacro Império Romano Germânico, que também estava dividido dentro do próprio governo. A única exceção a isso era a Comunidade Polaco-Lituana, uma aliança criada pela União de Lublin, expressando uma grande tolerância religiosa. Esse embate religioso aconteceu até a Guerra dos Trinta Anos quando o nacionalismo substituiu a religião como principal motor dos conflitos na Europa. A Guerra dos Trinta Anos aconteceu entre 1618 e 1648, principalmente no território da atual Alemanha, e envolveu as principais potências europeias. Começou como um conflito religioso entre protestantes e católicos no Sacro Império Romano Germânico, e gradualmente desenvolveu-se em uma proporção de guerra geral, envolvendo boa parte da Europa, por razões não necessariamente ligadas à religião. O maior impacto da guerra, na qual exércitos de mercenários foram largamente utilizados, foi a devastação de regiões inteiras na busca do exército inimigo. Episódios como a disseminação da fome e das doenças devastaram a população dos estados germânicos e, em menor grau, dos Países Baixos e da península Itálica, onde levaram à falência muito dos poderes regionais envolvidos. Entre um quarto e um terço da população alemã pereceu por causas diretamente ligadas à guerra ou ainda de doenças e miséria causadas pelo conflito armado. A guerra durou trinta anos, mas os conflitos que ela deu início ainda continuaram sem solução por muito tempo. Depois da Paz de Vestfália, que permitiu aos países que eles escolhessem sua orientação religiosa, o absolutismo tornou-se o padrão do continente, a Inglaterra caminhava rumo com a Guerra Civil Inglesa (1642-1651) e a Revolução Gloriosa (1688-1689). 

Os conflitos na Europa não acabaram, mas tiveram menos impacto na vida de seus cidadãos. O Iluminismo deu a base para um novo ponto de vista na sociedade, e a contínua difusão da literatura foi possível com a invenção da prensa, criando novas formas de avanço do pensamento humano. Ainda, nesse segmento, a Comunidade Polaco-Lituana foi uma exceção, com sua quase democrática “liberdade dourada”. A Europa Oriental era uma arena de conflito disputada por Suécia, a Comunidade Polaco-Lituana e o Império Otomano. Nesse período observou-se um gradual declínio destes três poderes que foram eventualmente substituídos pelas novas monarquias absolutistas do Império Russo, do Reino da Prússia e da Monarquia de Habsburgo. Na virada para o século XIX, eles tornaram-se as novas potências, dividindo a Polônia entre si, com Suécia e Império Otomano perdendo territórios substanciais para o Império Russo e Monarquia de Habsburgo, respectivamente. Uma grande parte de judeus poloneses emigrou para a Europa Ocidental, fundando comunidades judaicas em lugares de onde foram expulsos durante a Idade Média. A Revolução Industrial compreendida entre o fim do século XVIII e o começo do século XIX, no qual ocorreram grandes mudanças na agricultura, manufatura e transporte produziu um profundo efeito socioeconômico e cultural na Grã-Bretanha, que se espalhou por toda a Europa, América do Norte, e depois para todo o mundo, em um processo que ainda continua: a industrialização. Na parte final dos anos de 1700, a economia baseada na força de trabalho manual no Reino da Grã-Bretanha começou a ser substituída por outra pela indústria e pelas máquinas. Começou com a mecanização das indústrias têxteis, o desenvolvimento de técnicas avançadas de produção de ferro e o aumento do uso de carvão refinado. A expansão do comércio foi possibilitada com a introdução de canais, rodovias e o desenvolvimento de autoestradas. A introdução das máquinas a vapor abastecidas primeiramente fomentada pelo uso carvão e maquinaria bruta, na manufatura têxtil deram a base para grandes aumentos na capacidade produtiva inglesa. O desenvolvimento de máquinas de ferramentas nas duas primeiras décadas do século XIX facilitou a produção de mais máquinas para serem utilizadas em outras indústrias. Durante o século XIX, a industrialização se alastrou pelo resto da Europa Ocidental e América do Norte, afetando posteriormente grande parte do mundo.

Bibliografia Geral Consultada.

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