“Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso”. Melanie Klein
Não só na sociologia, mas no
conjunto das ciências socais, encontram-se as mais diversas explicações sobre
como e por que se dá a mudança, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a
modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução.
Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo, o sociólogo,
antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros têm
buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim
por diante. Ao analisar as condições de formação, funcionamento, reprodução,
generalização, mudança e crise do capitalismo globalizado, os cientistas sociais
têm proposto explicações que nem sempre se excluem. Em umas implicam outras, ou
as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante,
desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o
progresso econômico é o resultado da “criatividade empresarial”. Toda mudança,
inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de
criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos,
capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos.
Essa interpretação tem os seus principais enunciados nos escritos de
economistas clássicos, seus discípulos e continuadores no século XIX e XX. Os
valores relacionados aos self-made man ao tycoon, que representam
jogos que se concentram no gerenciamento de processos econômicos, geralmente na
forma de uma empresa ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre
propriedade privada, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a
criatividade é a base do progresso capitalista.
A segunda interpretação, reconhecida
como “teoria das elites”, está relacionada com a anterior. Recebeu
contribuições de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. E tem sido retomada, em
diferentes linguagens, por outros cientistas sociais e escritores, como James
Burnham, Samuel P. Huntington, Clark Keer, David E. Apter, John Kenneth
Galbraith e outros. É uma corrente de pensamento que propõe o funcionamento da
sociedade e a mudança social em termos de elites empresariais, gerenciais,
militares, intelectuais e outras. Desde o término da 2ª guerra mundial (1939-1945),
essa teoria tem sido a base de programas organizados pelo imperialismo
norte-americano, no treinamento de quadros de intelectuais, tecnocratas,
militares, gerenciais, empresariais e outros, para soluções golpistas ou não em
países dependentes e coloniais. Em terceiro lugar, há a intepretação que
atribui importância especial à divisão social do trabalho. Toma-se o meio de
trabalho como o processo social, de âmbito estrutural, que comanda o
funcionamento, as combinações e as transformações das elações sociais e instituições,
em níveis econômico, político e outros. Adam Smith e Émile Durkheim, guardadas
as proporções, são autores importantes nessa corrente de pensamento. Boa parte
do pensamento liberal apoia-se nessa ideia. A divisão internacional do trabalho
foi apresentada durante o século XIX e até a década de 1930, como a base da
prosperidade econômica e social das pessoas, de grupos sociais e das nações. As
teorias sobre a democracia liberal, o pluralismo democrático e a cidadania apoiam-se
implicitamente na ideia de que a divisão social do trabalho, em sentido amplo,
é o processo estrutural, mas que historicamente é o que fundamenta e dinamiza a
melhor expressão e articulação de pessoas e grupamentos sociais, atividades e
instituições políticas e econômicas de setores produtivos e países.
A quarta intepretação social considera que o fundamento último da mudança, progresso ou desenvolvimento econômico e social é a “tecnologia”. O progresso técnico comandaria as possibilidades de articulação e dinamização dos fatores produtivos principalmente capital e força de trabalho. As possibilidades de poupança e investimento, bem como desenvolvimento e diferenciação dos sistemas econômico e social estriam na dependência das inovações e aplicações da tecnologia, inovações essas originadas das ciências da natureza e da sociedade. Essa interpretação tem várias formulações. No entanto, apoiam-se na ideia de que ciência, tecnologia e desenvolvimento, ou pesquisa e desenvolvimento em geral relacionam-se positivamente. A quinta interpretação confere papel especial ao Estado. Depois da crise liberal do poder político-econômico e da história, generalizou-se cada vez mais a intepretação que vê na ação estatal a base da organização e mudanças de relações e organizações econômicas e sociais. É claro que esta ideia já está presente, implícita ou explícita, no pensamento científico e filosófico dos séculos XVIII e XIX. Ela aparece em escritos de Hegel, Marx, Engels e Lenin, além de Keynes, Myrdal, Baran e ouros. Depois da criação do regime socialista, por um lado, e da crise econômica mundial iniciada em outubro de 1929, por outro, os governos capitalistas, dominantes e dependentes, passaram a intervir de forma cada vez mais ampla e profunda na economia.
Francesco Rosario Capra, mais reconhecido
como Frank Capra nascido em Bisacquino, em 18 de maio de 1897 e falecido em La
Quinta, em 3 de setembro de 1991, foi um diretor de cinema italiano
naturalizado norte-americano. Foi o mais popular e reverenciado cineasta de sua
época, sendo o vencedor 3 Oscars de Melhor Diretor em 1934, 1936 e 1938, 2
Oscars de Melhor Filme em 1934 (coprodutor) e 1938 (produtor único), e 1 Oscar
de Melhor Documentário em 1943. Também ganhou o Globo de Ouro de Melhor diretor
em 1946. Foi presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de
1935 a 1939. Nascido na Sicília, Frank era o sexto filho de um camponês que
cultivava limões e laranjas, Salvatore Capra, que teve sete filhos. Em 1898, o
irmão mais velho, Ben, foi embora de casa, aos 16 anos, sem avisar e, após
cinco anos, a família, que era toda analfabeta, recebeu uma carta de Los
Angeles, assinada por Morris Orsatti. A carta precisou ser lida pelo padre do
local, e informava que Ben estava em Los Angeles e não iria voltar. Ben
embarcara num cargueiro grego, num porto a 48 quilômetros de Bisaquino, e após
ter passado por várias aventuras, trabalhando inclusive como escravo, acabou
chegando em Los Angeles, onde conheceu Morris Orsatti, que escreveu aos pais de
Ben, pois ele era analfabeto. Em abril de 1903, os pais e quatro dos irmãos de
Ben chegavam a Los Angeles, entre eles Frank, de seis anos, que passou a
estudar e vender jornais na rua e, mesmo contrariando a vontade dos pais,
ingressou na Escola Superior de Trabalhos Manuais. Durante os estudos, Frank
trabalhou como bedel em sua escola, como tocador de guitarra em um bistrô, e
como encartador no Los Angeles Times. Capra naturalizou-se cidadão dos
Estados Unidos em 1920.
Posteriormente, Frank
formou-se em engenharia química, em 1918, no Troop Polytechnic Institute,
mas, devido ao período de entreguerra, não conseguiu emprego. Sobreviveu então
vendendo livros, fotografias e quinquilharias, até que soube que o Ginásio
Israelita do Golden Gate Park, em San Francisco, seria transformado em um
estúdio cinematográfico. Após alguns dias, Frank já estava dirigindo seu
primeiro filme, A pensão de Fultah Fisher (Fultah Fisher’s Boarding House),
lançado pela Pathé em 1922. Após seu primeiro filme, em 1922, Capra trabalhou
em um laboratório de San Francisco, e um ano depois partiu para Hollywood, onde
trabalhou como “prop man”, montando situações para comédias, e depois como
escritor das comédias, para a série Os Batutinhas, também conhecidos
como Os Peraltas (Our Gang). Mack Sennett contratou-o como
criador de situações cômicas, em função de um comediante que então despontava:
Harry Langdon. Posteriormente, Capra acompanhou Langdon – que fundara sua
própria companhia – trabalhando com o diretor Harry Edwards na comédia O Andarilho
(Tramp, Tramp, Tramp), de 1926, na First National, com Joan Crawford em
início de carreira. Dirigiu depois O Homem Forte (The Strong Man, 1926),
O Pinto Calçudo (Long Pants, 1927) e Filhos da Fortuna (For
the Love of Mike, 1927), todos da First National. Se divorciando de Helen
Howell, com quem se casara alguns anos antes, e mediante o insucesso, ficou
desempregado. Harry Cohn, um dos donos da então desconhecida Columbia Pictures,
escolheu o nome de Capra em uma lista de diretores desempregados apenas por
intuição, sendo esse o ponto inicial de sua carreira. Em 1932 casou-se com
Lucille Reyburn, num casamento que durou até 1° de julho de 1984, quando ela
faleceu. Tiveram quatro filhos: Frank Jr., John (que faleceu aos três anos de
idade), Lulu e Tom.
Em 15 de junho de 1945
recebeu das mãos do general George C. Marshall a Medalha por Serviços Notáveis,
devido aos resultados positivos dos documentários que produziu por ocasião da
Segunda Guerra Mundial, consciencializando os soldados da importância de sua
luta. Por recomendação de Winston Churchill, foi agraciado, igualmente, com a
Ordem do Império Britânico. Após a guerra, Capra fundou a Liberty Films,
juntamente com os diretores William Wyler e George Stevens, e o produtor Samuel
Briskin, dirigindo o filme A felicidade não se compra, cuja distribuição foi
confiada à RKO Pictures. Posteriormente a MGM decidiu financiar a Liberty
Films. Em 1950, a Liberty foi vendida para a Paramount. Em 1959 esteve no
Brasil, para promover Os Viúvos também sonham, produzido pela Sincap,
empresa sua em sociedade com Frank Sinatra, para a United Artists. Frank Capra
escreveu sua autobiografia sob o título The Name Above the Title. Morreu
em consequência de ataque cardíaco, enquanto dormia. Foi sepultado no Coachella
Valley Public Cemetery, Coachella, Califórnia no Estados Unidos. Possui uma
estrela na Calçada da Fama, localizada em 6614 Hollywood Boulevard. Victor
Scherle e William Turner Levy escreveram o livro The films of Frank Capra,
comentando sobre seus filmes e incluindo comentários e opiniões de vários
artistas e demais colegas do diretor.
A sexta e última interpretação busca as razões dos movimentos e transformações sociais, político-econômicas e culturais nas relações e contradições de classes. De acordo com essa intepretação, as forças produtivas, a atuação estatal e outros aspectos político-econômicos, sociais e culturais são articulados e desarticulados em conformidade com os movimento e desenvolvimentos das relações e contradições das classes sociais: burguesia, classe média, campesinato, proletariado e suas subdivisões estruturais e de ocasião. Dentre os autores que se situam nessa orientação, ou contribuíram para o seu desenvolvimento, destacam-se Marx, Engels, Lenin, Bukharin, Trotski, Lukács, Gramsci e Mao-Tsé-tung, além de José Carlos Mariátegui, Maurice Dobb, Paul A. Baran, Paul M. Sweezy, Frantz Fannon e alguns outros. Essa interpretação se funda na análise do processo de trabalho produtivo, processo esse que produz a mercadoria, a mais-valia de que o burguês se apropria e a alienação econômica e política do trabalhador. O principal conteúdo e resultado desse processo produtivo, ou dessas relações de produção, é o antagonismo entre o operário e o burguês. O golpe de Estado, a greve e a revolução produzem-se neste contexto. Numa formulação breve, essa interpretação engloba relações, processos e estruturas básicos e intermediários da sociedade. Enfim, cada uma dessas interpretações implica uma forma peculiar de compreender as relações entre biografia e história, conjuntura e estrutura, sincronia e diacronia, ou as ações, as relações, os processos e estruturas sociais, em seus perfis e movimentos.
Outras interpretações
situam-se neste contexto problemático, paradoxal. São interpretações sobre as
condições e possibilidades de produção da história, em forma cômica ou trágica,
dramática ou épica. As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham força na
história, apesar das formidáveis determinações internas e externas globais. O
conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem;
outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a
pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é
potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética,
intelectual, psicológica e afetivamente muito diverso, apto, portanto, a outros
pontos de vista cognitivamente muito variados. São, justamente, essas
diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a
normalização reprime. Do mesmo modo, as condições sociais ou acontecimentos
aptos a enfraquecerem o imprinting, segundo Morin (2008), e a normalização
permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio cognitivo. Essas
condições aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o
debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas
múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é
tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do
passado. O intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e
intolerâncias sociais e religiosas, o que resulta no próprio crescimento.
Comporta a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito, moral
e político, entre ideias, concepções e visões de mundo.
A trivialização do conhecimento, last
but not least, não faz produto do conhecimento apenas um produto
determinado, faz também dele um produto qualquer. Mas as ideias podem tornar-se
ideológicas na medida em que sua estrutura socialmente obedece às estruturas
socioprofissionais, sua produção integra-se entre os outros processos de
produção e a cultura torna-se cognoscível a partir das categorias econômicas do
capital e do mercado. Mas nem a informação, nem a teoria, nem o pensamento
abstrato, nem a cultura são produtos triviais, ainda que mais não seja pelo fato
de serem, ao mesmo tempo, produtos/produtores e, mesmo comportando
hologramaticamente a dimensão socioeconômica, não poderiam ser reduzidas a
isso. A redução trivializante não teme exercer-se como sujeito sobre o
conhecimento científico. Este nível abstrato como qualquer outro é apropriado
pelo pensamento, como a religião e através da ciência, com suas relações de
força e monopólios, suas lutas e suas estratégias, desde Maquiavel a seus
interesses e seus ganhos. Mas, por seu lado, os estudos de etnografias dos
laboratórios, estes que parecem ter dinamismo, demonstram-nos como se
estabelecem essas mediações dos pesquisadores, em função de posições, ou
status, as lutas e a utilização de alguns truques diabólicos pelo
reconhecimento pelo prestígio ou pela glória, com as negociações
necessárias ao estabelecimento de uma prova, os ritos de passagem na pesquisa e
na universidade. A motivação primeira do cientista é a notoriedade.
A vontade de pesquisar ao desejo de prestígio, a sede de conhecimento à sede de poder, em alguns casos terrenos sim. A sociologia não pode ser considerada uma concepção que exclui o indivíduo ou que, no máximo, o tolera. É uma concepção humanista, mas que deve implicá-lo e explicitá-lo. Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo. Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir. E também que conjunto prodigioso de determinações sociais, culturais e históricas é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento. É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento, que são, segundo Edgar Morin, muito mais implacáveis. São princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem uma visão de mundo e das coisas que se governam/e controlam de modo imperativo e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias. Ao organizar os paradigmas e modelos explicativos associa-se o determinismo organizado dos sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu.
As doutrinas e
ideologias dominantes nas sociedades dispõem também da força imperativa e
coercitiva que evidencia aos convictos e o temor inibitório aos desalmados. A
partir deste fundamento, compreendemos que ordem, desordem e organização são
elementos essenciais para o entendimento da questão da complexidade, pois se
desintegram e se desorganizam ao mesmo tempo. Nesse entendimento, constata-se
que o sentido da realidade se dá por meio da relação do todo com as partes e
vice e versa em uma análise integradora em que não é pertinente examinar o
fenômeno a partir de uma única matriz de racionalidade. A desordem torna-se
indispensável para a organização social da vida humana, pois a sociedade é
dependente de acontecimentos/fatos que possam modificar a ordem já estabelecida
para gerar novos meios de organização entre os sujeitos. Há um imprinting
cultural, matriz que estrutura o conformismo, e há uma normalização que o impõe.
O imprinting é um termo que Konrad Lorentz propôs para dar conta da marca
incontornável pelas primeiras experiências do jovem animal, como o passarinho
que, ao sair do ovo, segue como se fosse sua mãe, o primeiro ser vivo ao seu
alcance. Há um imprinting cultural que marcam os humanos, desde o nascimento,
com o selo da cultura, primeiro familiar e depois da escola, prosseguindo na
universidade ou na profissão. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos
intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma
marca de subcultura que afeta principalmente as camadas subalternas da
sociedade. Os subcultivados hic et nunc, dentro e fora da universidade, sofrem
um imprinting e uma normalização atenuados e há mais opiniões pessoais
diante do balcão de café do que num coquetel literário.
Embora contrariados em
contradição com seu desenvolvimento liberal intelectual que permite a expressão
de desvios e de ideias e formas escandalosas, o imprinting e a
normalização crescem paralelamente com a aquisição real da cultura. O
imprinting cultural determina à desatenção seletiva, que nos faz desconsiderar
tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças, e o recalque eliminatório,
que nos faz recusar toda informação inadequada às nossas convicções, ou toda
objeção vinda de fonte técnica considerada ruim. A normalização
manifesta-se de maneira repressiva ou intimidatória. Cala os que teriam a
tentação de duvidar ou de contestar. A normalização, portanto, com seus
subaspectos de conformismo, exerce uma prevenção contra o desvio e
elimina-o, se ele se manifesta. Mantém, impõe a norma do que é importante,
válido, inadmissível, verdadeiro, errôneo, imbecil, perverso. Indica os limites
a não ultrapassar. As palavras que não devem proferir. Os conceitos a
desdenhar, as teorias a desprezar. O imprinting assimila a perpetuação
dos modos de conhecimento e verdades estabelecidas. Obedece a processos de
tribunais: uma cultura produz modos de conhecimento entre os homens dessa
própria cultura. Através do seu modo de conhecimento, reproduzem a legitimidade
que produz esse conhecimento. As crenças que se impõem são fortalecidas pela fé
que as suscitaram. Então, reproduzem não somente os conhecimentos, mas as
estruturas e os modos reguladores que determinam a invariância desses
conhecimentos.
É surpreendente que a Era Moderna, tendo invertido as tradições, tanto a posição tradicional da ação como da contemplação como a tradicional hierarquia dentro da própria vita activa, tendo glorificado o trabalho (labor) como fonte de todos os valores, e tendo promovido o animal laborans à posição pelo animal rationale – e não tenha produzido uma teoria que distinguisse entre o animal laborans e o homo faber, entre o “labor do nosso corpo e o trabalho de nossas mãos”. Ao invés disso, encontramos primeiro a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo; um pouco mais tarde, a diferenciação entre trabalho qualificado e não-qualificado; e finalmente, sobrepondo-se ambas por ser aparentemente de importância mais fundamental, a divisão de todas as atividades em trabalho manual e intelectual. Das três, porém, somente a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo vai ao fundo da questão; e não foi por acaso, segundo Arendt, qua os dois grandes teoristas do assunto, Smith e Marx, basearam nela toda a estrutura do seu argumento. O próprio motivo da promoção do albor como trabalho na Era Moderna foi a sua produtividade; e a noção aparentemente blasfema de Marx de que o trabalho (e não Deus) criou o homem, ou de que o trabalho (e não a razão) distingue o homem analogamente dos outros animais, era apenas a formulação mais radicalmente e coerente de algo, ao que parece, com que toda a Era Moderna concordava.
Parece que foi Hume, e não Marx, a insistir em que o trabalho distingue pelo pensamento o homem do animal. Como o trabalho não desempenha papel importante na filosofia do ceticismo de David Hume, este fato não tem interesse apenas histórico; para ele, essa característica não tornava a vida mais produtiva, mas mais árdua e mais dolorosa que a vida animal. Contudo, é interessante, neste contexto, notar com que cuidado David Hume, dois séculos antes, insistia repetidamente que nem o pensamento nem o raciocínio distingue o homem do animal, e que a conduta dos animais demonstra que estes possuem as mesmas dificuldades própria da vida social. O ceticismo de Hume é a ideia de que o conhecimento dos fatos do mundo não pode ser justificado, pois depende de inferências causais e raciocínios indutivos que não podem ser justificados pela razão ou experiência. O filósofo escocês é reconhecido por levar o ceticismo ao extremo da interpretação, suspendendo as certezas mesmo diante do que parecia ser simplesmente experimental. Ele considerava que o ceticismo era uma ferramenta para distinguir o que é passível de conhecimento do que deve ser abandonado. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disso, como a ação é a atividade de constituir a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico. A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada historicamente ao homem no processo de constituição da sociedade.
Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades; mas, constantemente, as coisas que devem sua existência aos homens também condicionam os seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e, até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana. É por isto que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as coisas; e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não-mundo, se esses artigos não fossem condicionantes da existência humana. Para evitar erros magníficos de interpretação do real: a condição humana não é o mesmo que a natureza humana, e a soma total das atividades e capacidades humanas que correspondem à condição humana.
Pois nem como o
pensamento social e a razão, e nem mesmo a mais meticulosa enumeração de todas
as ações sociais, constituem elas características essenciais da existência
humana no sentido de que, sem elas, essa existência deixaria de ser humana. A
mudança mais radical da condição humana que podemos imaginar seria uma
emigração dos homens da Terra para algum outro planeta. Tal evento, já não
inteiramente impossível, implicaria em que o homem teria que viver sob
condições, feitas por ele mesmo, inteiramente diferentes daquelas que a Terra
lhe oferece. O labor, o trabalho, a ação e, na verdade,
até mesmo o pensamento como o conhecemos deixariam de ter sentido em tal
eventualidade. Não obstante, até mesmo esses hipotéticos viajores terrenos
ainda seriam humanos; mas a única afirmativa que poderíamos fazer quanto à sua
“natureza” é que são ainda seres condicionados, embora sua condição seja agora,
em grande parte, produzida por eles mesmos. O problema da natureza humana, a quaestio
mihi factus sum de Agostinho, parece insolúvel, tanto em seu sentido
psicológico como em seu sentido filosófico geral. É altamente improvável que
nós, que podemos conhecer, determinar e definir a essência natural de todas as
coisas que nos rodeiam e que não somos, venhamos a ser capazes de fazer o mesmo
a nosso próprio respeito: seria como pular sobre nossa própria sombra. Além
disso, não nos autoriza a presumir que o homem tenha uma natureza ou essência
no mesmo sentido em que as outras coisas analogamente as têm.
Em outras palavras, se
temos uma natureza ou essência, então certamente, só um deus pode conhece-la e
defini-la; e a condição prévia é que ela possa falar de um “quem” como se fosse
um “que”. O problema é que as formas de cognição humana aplicáveis as coisas
dotadas de qualidades naturais – inclusive nós mesmos, na medida limitada em
que somos exemplares da espécie de vida orgânica mais altamente desenvolvida –
de nada nos valem quando levantamos a hipótese: e quem somos nós? É por isto
que as tentativas de definir a natureza humana levam quase invariavelmente à
construção de alguma deidade, isto é, ao deus dos filósofos que, desde Platão,
não passa, a uma análise mais profunda, de uma espécie de ideia platônica do
homem. Naturalmente, desmascarar tais conceitos filosóficos da divindade como
conceitualizações das capacidades e qualidades humanas não chega a ser uma
demonstração da não-existência de Deus, e nem mesmo constitui argumento nesse
sentido; mas o fato de que as tentativas de definir a natureza do homem levam
tão facilmente a uma ideia de que nos parece definitivamente “sobre-humanos” e
é, portanto, identificada com a divindade, pode lançar suspeitas sobre o
próprio conceito sociológico de “natureza humana”. A moderna ciência natural
deve os seus maiores triunfos ao fato de termos olhado e tratado a natureza
terena de um ponto de vista verdadeiramente universal, isto é, de um ponto de
vista arquimediano escolhido, voluntária e explicitamente fora da Terra. A
expressão vita activa é perpassada e sobrecarregada de tradição. É tão velha
quanto a nossa tradição de pensamento político, mas não mais velha que ela. E
essa tradição, longe de abranger e conceitualizar todas as experiências
ocidentais, é produto de uma constelação histórica específica: o julgamento de
Sócrates e o conflito irremediável entre o filósofo e a polis.
Foi amigo do célebre escritor francês Gustave Flaubert, a quem se referia como mestre. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, pelo seu senso compreensivo de realidade, pela sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salammbô (1862), mais os seus contos, nomeadamente os Trois Contes (1877). É uma comuna no Departamento de Sena Marítimo, na região da Normandia, no Norte da França, é um país europeu que faz fronteira com Espanha, Andorra, Itália, Suíça, Alemanha, Luxemburgo e Bélgica. Tem como capital a cidade de Paris. Possui cinco territórios ultramarinos, que ficam nas Américas do Sul e Central, na África e no Oceano Índico. O clima francês é do tipo temperado oceânico, enquanto o seu relevo varia das planícies, ao Norte e Noroeste, até as cadeias montanhosas, ao Sul e a Leste. A vegetação é marcada pela floresta temperada e pelas formações mediterrâneas. Conta atualmente com mais de 65 milhões de habitantes, sendo Paris a sua cidade mais populosa. É uma das maiores economias globalizadas do mundo, além de se destacar pela densa rede de infraestrutura, sobretudo de transportes urbanos, que percorre o país. O turismo possui enorme peso na Ecopolítica da economia francesa, uma vez que esse é um dos países mais visitados do mundo ocidental, dispondo de atrativos que vão desde os museus e monumentos históricos até as paisagens naturais mediterrâneas, do litoral Norte e também por extensão as alpinas.
Bibliografia
Geral Consultada.
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