sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Os Indocumentados – Deportação & Teorias da Ideologia Americana.

                         A hora certa de consertar o telhado é quando faz sol”. John F. Kennedy

          A história social da escravidão (ou escravatura) nos Estados Unidos da América inicia-se no século XVII, quando práticas escravistas similares aos utilizados pelos espanhóis e portugueses em colônias na América Latina, e termina em 1863, com a Proclamação de Emancipação de Abraham Lincoln, realizada durante a Guerra Civil Americana. Na origem da guerra tem-se, grosso modo, a escravidão e dois modelos econômicos opostos. O norte em expansão econômica graças à industrialização, à proteção ao mercado interno e à mão-de-obra livre e assalariada, e o Sul numa economia baseada na plantação e no escravismo. As diferenças culturais e políticas entre os estados do Norte e do Sul, ao contrário da dicotomização de estudiosos, não são tão acentuadas, como é analisado por Lewis Cecil Gray (1881-1952) no ensaio: “History of Agriculture in the Southern United States to 1860. Contributions to American Economic History” (1933).  Durante a maioria do século XVII e parte do século XVIII, escravos do sexo masculino eram em maior número que escravas do sexo feminino, fazendo com que os dois grupos tivessem experiências distintas nas colônias. Vivendo e trabalhando em uma ampla variedade de circunstâncias e regiões, homens e mulheres afro-americanos tiveram variadas experiências de escravidão. Com o aumento de africanas sequestradas, bem como os escravos nascidos nas colônias, estupros cresceram entre 1730 e 1750. 

         - “A singularidade da situação das mulheres afro-americanas é que ela se situa no cruzamento de duas das mais bem desenvolvidos ideologias na América, sobre as mulheres e sobre o Negro”. Possuindo identidades femininas e identidades negras, mulheres africanas escravizadas enfrentaram na esfera política o racismo e sexismoDesde 1700 e 1740, um número estimado de 43.000 escravos foi levado para a Virgínia e, à exceção de 4.000 escravos, que foram sequestrados diretamente da África. No período histórico da Revolução Americana (1775-1783), o status de escravo havia sido institucionalizado “como uma casta racial”, na parte mais baixa da hierarquia social, formada quase que exclusivamente por negros de ascendência africana, amparada por provisões legais dentro Constituição do país. Em 1789, o número de pessoas de cor livres que eram cidadãos e podiam votar era quase nulo. Porém, pouco tempo depois da guerra de independência, as primeiras Leis Abolicionistas foram passadas nos Estados do norte e o movimento para abolir a escravidão cresceu na primeira metade do século XIX. Os Estados nortistas dependiam de mão de obra livre e a maioria tinha abolido a escravidão por volta de 1805, embora nem todos os escravos tenham sido libertados de fato, imediatamente. A expansão da indústria do algodão no extremo Sul após a invenção da máquina de tecer, fez com que a demanda por trabalho escravo no Sul dos Estados Unidos aumentasse. Os escravagistas tentaram expandi-la para os Estados novos formados nos territórios do Oeste para que pudessem manter sua influência política pela nação. Os políticos sulistas queriam anexar Cuba como um território escravagista.

            Pesquisas recentes sugerem que o número de mulheres e homens transportados neste período foi semelhante, incluindo um elevado número de filhos. Como a maioria dos escravos provinham da África Ocidental, suas culturas eram centrais de meados ao fim do século XVIII da escravidão na Virgínia. Valores africanos foram predominantes e as culturas das mulheres da África Ocidental tinham fortes representações. Algumas representações culturais predominantes formavam os poderosos laços entre mãe e filho e entre as mulheres na comunidade feminina. Entre o grupo étnico Ibo da atualmente Nigéria, em particular, que incluía entre um terço e metade dos escravos no início do século XVIII, a autoridade feminina (a omu) “administrava sobre uma ampla variedade de questões importantes para as mulheres, em particular, e para a comunidade como um todo”. O grupo étnico lbo representava pessoas trazidas para a Chesapeake, que pode se referir a várias localidades nos Estados Unidos, porém, em geral, os africanos vieram traficados de uma variada gama de culturas. Todos vieram de comunidades onde as mulheres eram fortes, e foram introduzidas sociedade patriarcal, violentamente racista e exploradora; homens brancos caracterizavam mulheres negras como uma erotização sexual, visando justificar seu abuso sexual e miscigenação. O caráter capitalista da “plantation” escravista do Sul, analogamente aos estados do Norte, era uma contradição, mas devemos lembrar, “em última instância”, de oposição assimétrica no sentido  marxista interno ao sistema econômico.

Contudo, em sua complementaridade uma economia escravista tende a inibir o desenvolvimento econômico de uma sociedade capitalista, tal como é demonstrado, neste caso, pelo sociólogo Max Weber em seu livro: The Theory of Social and Economic Organization (1997). Além disso, o retorno dos lucros de volta à produção, no caso de Marx, presente no Norte industrializado, não ocorria da mesma forma nos estados do Sul, que tinha uma acentuada tendência a um consumo intenso, daí o binômio: produção-consumo. Assim, Norte e Sul diferem-se na medida em que o primeiro possui um progresso econômico qualitativo com o retorno dos lucros à produção, e o Sul, por sua vez, ao dirigir seus lucros em escravos e terras, possui um progresso econômico quantitativo, levando em consideração a só aparente baixa produtividade da mão-de-obra escrava. Esse fato per se histórico e ideológico (cf. Bailyn, 2003) se deve à “mentalidade escravista” do proprietário sulista, que investia na compra de escravos como “fator de produção”, pois “dava prestígio e segurança econômica e social numa sociedade dominada pelos plantadores”. Os consequentes saltos qualitativos na produção nortista levaram os proprietários sulistas a uma aguda disputa com os proprietários do norte. Se for aceita a condição capitalista para os estados do Sul (segundo Karl Marx), assim como para os estados do Norte (para Max Weber), tem-se então uma sociedade capitalista que impediu o desenvolvimento do próprio capitalismo, fato que historicamente tende a revoltas, guerras e revoluções, ainda mais considerando que o Sul apresentava na economia problemas de produção de produtos para o consumo interno. 

Relatos do escravo Frederick Douglass demonstram que algumas plantações não forçavam seus escravos a trabalharem no período festivo do Natal. O motivo não era altruísta, essa folga era concedida para liberar tensão psicológica entre os trabalhadores, como ocorre comparativamente no período de “carnaval” para que eles continuassem sendo explorados mais um ano. Não era uma prática comum a todos os donos de escravos, mas pelos relatos, não era algo tão raro também. Apesar do tráfico de escravos ser proibido em 1815, o contrabando continuou até o ano de 1860, enquanto que no Norte crescia a campanha pela abolição. O Compromisso do Missouri de 1820, autoriza a escravidão apenas abaixo do paralelo 36º. O apoio que ainda poderia existir no Norte a favor da escravidão esvaiu-se com o extraordinário livro A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Elizabeth Stowe, uma ardente abolicionista que o publicou em 1852. No final de 1860, o Estado da Carolina do Sul já havia se declarado fora da União, fato este que culminou na formação dos Estados Confederados da América. Poucos meses após a eleição de Abraham Lincoln (1809-1865), um republicano contrário à escravidão, a confederação, de cunho separatista, já aglomerava 11 Estados: Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Geórgia, Flórida, Alabama, Mississippi, Louisiana, Arkansas, Texas e Tennessee. Assim, a guerra civil se deflagra e deixa um saldo de centenas de milhares de mortos e uma legião de negros marginalizados. Nenhum programa governamental é previsto para sua integração profissional e econômica. O Sul permanece militarmente, mas isso até 1877, favorecendo novas religiões como uma que se chama: Os cavaleiros da Camélia Branca, essa perseguia os negros violentamente e defendia a segregação racial. 

 Os Cavaleiros da Camélia Branca, nome aparentemente devido à camélia, um tipo de flor que foram fundados pelo Coronel do Exército dos Estados Confederados, Alcibíades De Blanc, em 22 de maio de 1867, em Franklin, Louisiana. O autor Christopher Long declarou: “Seus membros se comprometeram a apoiar a supremacia da raça branca, a se opor à miscigenação das raças, a resistir à invasão social e política dos chamados carpetbaggers e a restaurar o controle branco do governo”. O historiador Nicholas Lemann os chama de a principal organização terrorista da Louisiana. Suas táticas que incluíam “perseguição, açoites e, às vezes, assassinatos”, também “produziram um reinado de terror entre a população negra do estado durante o verão e o outono de 1868”. O número estimado de mortos em sua campanha de terror pode ter chegado a 1.800, com um número ainda maior de feridos. O duplo assassinato do juiz pró-republicano Valentine Chase (1869-1937) e do xerife Henry Horatio Pope (1838-1868) da Paróquia de St. Mary pode ter sido cometido por eles. Os capítulos existiam na parte Sul do Deep South. George C. Rable observou que, “embora os republicanos vissem evidências de uma conspiração maciça nesses ultrajes, na Louisiana e em outros lugares, os terroristas brancos não estavam organizados além do nível local” (cf. Rable, 2015). Do ponto de vista da divisão do trabalho social um objetivo adicional do grupo era impedir que a mão de obra agrícola dos libertos deixasse as plantações.

Ao contrário da Ku Klux Klan, que tinha grande parte de seus membros entre os sulistas de classe baixa, principalmente veteranos confederados, a White Camelia era formada principalmente por sulistas de classe alta, incluindo médicos, proprietários de terras, Editores de jornais e oficiais. Em geral, eles também eram veteranos confederados, a parte superior da sociedade antebellum. Ela começou a declinar, apesar de uma convenção em 1869. As pessoas mais agressivas se juntaram à White League ou a organizações paramilitares semelhantes que se organizaram em meados da década de 1870 os Cavaleiros da Camélia Branca originais haviam praticamente deixado de existir. Entre seus membros estava o juiz da Louisiana Taylor Beattie (1837-1920), que liderou o Massacre de Thibodaux em 1887. O Massacre de Thibodaux foi um episódio de violência da supremacia branca que ocorreu em Thibodaux, Louisiana, em 23 de novembro de 1887. Ele ocorreu após uma greve de três semanas durante a crítica temporada de colheita, na qual cerca de 10.000 trabalhadores protestaram contra as condições de vida e trabalho insalubre existentes nas plantações de cana-de-açúcar em quatro paróquias: Lafourche, Terrebonne, St. Mary e Assumption. A greve foi a maior greve da história da indústria e também foi a primeira greve a ser conduzida e coordenada pela organização trabalhista formal, os Knights of Labor. A pedido dos mandatários racistas plantadores, o estado enviou a milícia para proteger os reacionários fura-greves de ataques de emboscada por grevistas, e o trabalho foi retomado em tais plantações. Trabalhadores negros e suas famílias foram despejados das plantações nas paróquias de Lafourche e Terrebonne e recuaram para Thibodaux.

As tensões explodiram em violência em 21 de novembro de 1887, quando um homem branco desconhecido entrou em um bar de propriedade de negros e matou um trabalhador negro e feriu outro. A violência continuou em 23 de novembro de 1887, quando cinco guardas da cidade foram emboscados e dois feridos e as forças paramilitares brancas locais responderam atacando trabalhadores negros e suas famílias. Embora o número total de vítimas seja desconhecido, o consenso é que pelo menos 35 negros foram mortos durante os três dias seguintes (alguns historiadores estimam que 50 negros foram mortos) e o total de mortos, feridos e desaparecidos foi estimado em centenas, o que a torna uma das disputas trabalhistas mais violentas da história dos Estados Unidos da América. As vítimas incluíam idosos, mulheres e crianças. Todas as pessoas que foram mortas eram afro-americanas. Quer dizer, o massacre sangrento e a aprovação de legislação estadual discriminatória pelos democratas brancos, incluindo a privação de direitos humanos, e portanto, aquestão dos direitos civis da maioria dos negros, acabaram com a organização dos trabalhadores do açúcar por décadas, até a década de 1940. De acordo com o historiador John C. Rodrigues, “os trabalhadores do açúcar derrotados retornaram às plantações nos termos de seus empregadores”.

A colheita e o processamento da cana-de-açúcar compreendiam uma série complexa de etapas que precisavam ser coordenadas de perto por uma grande força de trabalho que era forçada a trabalhar até o ponto de exaustão física. As plantações de açúcar eram chamadas de “fábricas no campo” e seus trabalhadores morriam em alta taxa durante a era da escravidão. As condições melhoraram pouco após a Reconstrução. Uma questão importante surgiu no início da década de 1880, quando os proprietários das plantações começaram a cortar salários e a forçar os trabalhadores da cana a aceitarem vale-transporte como pagamento devido ao declínio do mercado internacional de açúcar. Esses “tíquetes de papelão” eram resgatáveis ​​apenas nas lojas da empresa, que operavam com altas margens de lucro. À medida que a plantação mantinha os livros, os trabalhadores frequentemente analfabetos ficavam cada vez mais presos a dívidas e incapazes de se libertar. Exigidos por lei a pagar a dívida, os trabalhadores ficaram essencialmente presos à plantação em um estado semelhante à escravidão. A maioria dos trabalhadores da cana de açúcar era negra, mas também havia um determinado número de trabalhadores brancos. Os Cavaleiros do Trabalho usaram a emissão de vales-transportes para organizar os trabalhadores, e milhares se juntaram ao grupo.

Em outubro de 1877, Duncan F. Kenner (1813-1887), um milionário plantador, fundou a Associação de Produtores de Açúcar da Louisiana (LSPA), composta por 200 dos maiores plantadores do Estado, e atuou como presidente. A poderosa LSPA pressionou o governo federal por tarifas de açúcar, financiamento para apoiar diques para proteger suas terras e pesquisas para aumentar a produtividade das colheitas. Na década seguinte, esses membros também trabalharam para obter controle sobre seu trabalho. Eles adotaram uma escala de pagamento uniforme e retiveram 80 por cento dos salários até o final da temporada de colheita, a fim de manter os trabalhadores nas plantações até o final da temporada. Eles acabaram com o sistema de “empregos”. Os maiores plantadores, que mantinham lojas, exigiam que os trabalhadores “aceitassem pagamento em vales, resgatáveis ​​apenas em suas lojas”. Os trabalhadores resistiram, organizando algumas ações anuais contestando alguma parte do programa da LSPA. O governo estadual apoiou os poderosos plantadores, enviando milícias estaduais quando os plantadores usaram mão de obra de condenados arrendados de prisões para colher e processar a cana.  Em 1887, os Knights of Labor organizaram uma grande greve de açúcar de três semanas guerra de movimento e guerra de posição contra as plantações de cana nas paróquias de Lafourche, Terrebonne, St. Mary e Assumption. 

A maioria das plantações estava ociosa. A greve foi organizada pela organização nacional Knights of Labor, que havia estabelecido a Assembleia Local 8404 em Schriever no ano anterior. Em outubro, os representantes dos trabalhadores apresentaram reivindicações à LSPA que incluíam um aumento dos salários para 1,25 dólares por dia, pagamentos quinzenais e pagamento em moeda em vez dos “bilhetes de cartão”, ou vales, resgatáveis ​​apenas nas lojas da empresa. Como a LSPA ignorou as demandas, os Knights of Labor convocaram a greve para 1º de novembro, programada para coincidir com o crítico “período de rolamento” da safra, quando ela tinha que ser colhida e processada. A paralisação do trabalho ameaçou toda a colheita de cana-de-açúcar do ano. A greve de 1887 foi a maior ação trabalhista do setor, envolvendo cerca de 10.000 trabalhadores, um décimo dos quais eram brancos. Foi a primeira vez que uma organização trabalhista formal liderou uma greve nesta região. Os plantadores apelaram ao governador da Louisiana, Samuel Douglas McEnery, que também era plantador. McEnery, declarando: “Deus Todo-Poderoso traçou ele mesmo a linha de cor”, convocou dez companhias de infantaria e uma companhia de artilharia da milícia estadual, enviando esta última para Thibodaux, a sede da paróquia e “coração da greve”. Eles deveriam proteger os fura-greves e reprimir os grevistas; eles despejaram os trabalhadores das moradias das plantações. A milícia reprimiu os grevistas na Paróquia de St. Mary, resultando em “até vinte pessoas” mortas ou feridas em 5 de novembro na vila negra de Pattersonville.  A milícia protegeu cerca de 800 trabalhadores contratados trazidos para Terrebonne Parish e ajudou a capturar e prender 50 grevistas, a maioria por atividades sindicais.

A greve fracassou ali, e os trabalhadores retornaram às plantações.  Muitos dos trabalhadores negros em Lafourche Parish recuaram após o despejo para a seção residencial negra lotada de Thibodaux, e a milícia estadual se retirou. Eles deixaram para as autoridades locais administrarem a partir daí. Em 1939, a Time informou que o antissemita George E. Deatherage, da Virgínia Ocidental, estava se descrevendo como o “comandante nacional dos Cavaleiros da Camélia Branca”. Na década de 1990, um grupo da Ku Klux Klan, com sede no leste do Texas, adotou o nome. Segundo o livro Soldiers of God, a Camélia Branca da nova era tem uma forte influência em Vidor, Texas. Desde o retorno do nome White Camelia, os chamados grupos da Klan “White Camelia” (às vezes grafados como “Kamelia”) também surgiram na Louisiana e na Flórida. Na linguagem teórica, as palavras e expressões, ipso facto, funcionam como conceitos teóricos. Mas em sua periodização histórica, teórica e ideológica as palavras e expressões funcionam sempre de forma distinta, porque se referem a concepção de uma determinada teoria da história. A dificuldade própria da terminologia teórica consiste, pois, em que, por detrás do significado usual da palavra, é preciso sempre discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente do significado usual corrente nas fontes, nas atas, nos documentos oficiais, no âmbito da formação discursiva. Na sua significação mais geral deve nos permitir a compreensão que tem por efeito o conhecimento de um objeto: a narrativa da história. É assim que, sem temor a erro, podemos afirmar, que a história abstrata ou em geral não existem, no sentido exato do termo, de objetos concretos e singulares que enformam a experiência da vida cotidiana da humanidade.   

A tradição metodológica funcionalista marxista concebe o Estado como um “aparelho repressivo”, uma “máquina de repressão”, ou, “comitê executivo da classe dominante” que permite às classes dominantes assegurar a sua dominação sobre a classe operária, extorquindo desta última a mais-valia. O Estado é, antes de tudo, o “Aparelho de Estado”, termo que compreende não somente o “aparelho especializado”, mas também o exército que intervém como força repressiva de apoio em última instância, o Chefe de Estado, o Governo e a Administração, definindo o Estado como força de execução e de intervenção repressiva a serviço das frações da classe dominante. A rejeição hegeliana parte da própria negação de “estruturas hegelianas” em Marx, onde a totalidade expressiva de Hegel cede lugar, na análise crítica da filosofia de Louis Althusser, ao todo-estruturado. É um todo sobredeterminado (“uberdeterminierung”) com níveis de análise e instâncias (instare) relativamente autônomas. Na configuração das ações há, diferente da lógica dialética, “todos parciais”, sem prioridade de um “centro”. Em nível econômico opera-se a rejeição da “unicausalidade econômica” da história e das lutas atribuindo-se a instâncias, então determinadas do discurso político e ideológico, o “peso” de instâncias decisivas, dominantes em ser determinantes.

Enfim, a guerra civil se deflagra e deixa um saldo de centenas de milhares de mortos e uma legião de negros marginalizados. Nenhum programa governamental é previsto para sua integração profissional e econômica. O Sul permanece militarmente, mas isso acontece até 1877, favorecendo o surgimento de outras novas religiões como uma que se chama ao nível ideológico os Cavaleiros da Camélia Branca, essa perseguia os negros violentamente e defendia a segregação racial. Todas essas diferenças elencadas, não só nos aspectos produtivos, mas também em diferenças de mentalidades, tal como observadas por Alexis Tocqueville (1805-1859), estão diretamente ligadas à questão da escravidão. O orgulho pela plantation sulista, a posse de escravos, os problemas produtivos — tudo remete à escravidão, fator que pretendeu-se colocar como força matriz da Guerra Civil. A “Era dos Linchamentos” politicamenente teve seu epicentro no Sul dos Estados Unidos da América. Se iniciou depois do fim da Guerra Civil americana e da declaração formal de fim da escravidão, em 1863. Para os pesquisadores, não se trata de coincidência. - “Depois da Guerra Civil, cerca de 4 milhões de escravos negros se tornaram livres e passaram a competir com os brancos (por empregos) nas economias dos estados do Sul”, explica Charles de Tolnay (1899-1981). - “Os negros foram ameaçados até que ficaram completamente privados de direitos de participação política, por volta do ano 1900, e o Sul ficou governado pelo sistema de castas raciais, no qual havia uma clara linha de separação entre a raça branca superior e a raça negra subordinada”.       

          Apesar de ser importante na história dos Estados Unidos, a “era dos linchamentos” é pouco reconhecida. Para mudar isso, em 26 de abril, foi inaugurado o Monumento Nacional pela Paz e Justiça em Montgomery, no Estado americano do Alabama. - “Diga o nome de um afro-americano linchado entre 1877 e 1950? A maior parte das pessoas não conhece nenhum. Milhares de pessoas morreram, mas não se pode nomear uma sequer? Por quê? Porque não temos falado sobre isso”, comentou Bryan Stevenson, advogado, ativista, e professor de direito na New York University School of Law fundador da Equal Justice Initiative (EJI), uma organização não-governamental que atua politicamente na defesa de direitos humanos nos Estados Unidos, sobre o motivo por trás da criação do Monumento. Basta dizer que ele espera apresentar para o público o contexto do terror racial nos Estados Unidos, com o uso de recursos artísticos. Foram criados mais de 800 memoriais de aço de cerca de 2 metros de altura, um para cada condado dos Estados Unidos onde afro-americanos foram linchados. Neles, estará grafado sempre o nome das vítimas. Cada um desses monumentos tem uma réplica, que a EJI espera entregar para as regiões correspondentes. A ideia é que as esculturas sejam expostas nos recordando violentas histórias racistas de linchamento.      

           No cinema o “pesadelo de Northup”, interpretado pelo ator Chiwetel Ejiofor, teve início em 1841, antes da guerra civil que oficializaria o fim da escravidão nos EUA. Ele vivia em Saratoga, no estado de Nova York, com a mulher e os três filhos, e trabalhava como carpinteiro e músico, animando festas na região. Dois homens convidaram Northup para se apresentar em um circo em Washington. Constituíam-se em chefe de mercenários, bandidos, guerrilheiros como ocorrera historicamente na Itália medieval e renascentista. Neste caso, analogamente eram criminosos a serviço de fazendeiros do sul escravocrata que patrocinavam o sequestro de negros livres ao norte e, com aval de autoridades, falsificavam documentos de posse. Northup foi vendido a diferentes senhores até cruzar com o mais cruel deles, Edwin Epps (Michael Fassbender). Na fazenda de Epps, onde passou a maior parte de seu tempo de cativeiro, ele testemunhou horrores como os vividos pela jovem escrava Patsey (Lupita Nyong`o), alvo do furor sexual de seu dono e dos mais sádicos castigos. Filmes “Django Livre”, de Tarantino, e “Lincoln”, de Spielberg, reacenderam o tema no cinema, mas nenhum deles atinge a força histórica, humanista e política representada em “12 Anos de Escravidão”.

        Indicado ao Oscar de direção, McQueen pode se tornar o primeiro cineasta negro a conquistar o prêmio. 12 Years a Slave estreou no Festival de Telluride em 30 de agosto de 2013 e tem sido amplamente elogiado pela crítica. Depois de estar em desenvolvimento há algum tempo, o filme foi anunciado oficialmente em agosto de 2011 com McQueen dirigindo e Chiwetel Ejiofor estrelando como Solomon Northup, um negro livre que foi sequestrado e vendido como escravo na Deep South. McQueen comparou a conduta de Ejiofor “de classe e dignidade” à de Sidney Poitier e Harry Belafonte. Em outubro de 2011, Michael Fassbender que atuou em filmes anteriores Hunger e Shame de McQueen se juntaram ao elenco. Chiwetel Umeadi Ejiofor, nascido em Londres, em 10 de julho de 1977 é um ator britânico, filho de pais nigerianos, cujos antepassados eram igbos. um dos maiores grupos étnicos africanos. Habitam o leste, sul e sudeste da Nigéria, além de Camarões e da Guiné Equatorial e falam a língua igbo é uma língua falada na Nigéria por cerca de 20-25 milhões de pessoas, os igbos, especialmente na região Sudeste, anteriormente reconhecida como Biafra e em partes da região Sul-sudeste da Nigéria. É escrita em alfabeto latino. O igbo é uma língua tonal, como o ioruba ou o chinês.

         Foram um dos povos mais atingidos pelos traficantes no comércio transatlântico de escravos. Também existem populações significativas nos Estados Unidos e em Trinidad e Tobago. Em 2006 recebeu duas indicações ao prêmio Golden Globe por Melhor performance.  Em 2013, interpretou Solomon Northup em 12 Anos de Escravidão, pelo qual recebeu indicações ao Óscar, Globo de Ouro e Screen Actors Guild, juntamente com o BAFTA Award de Melhor Ator. No início de 2012, o resto dos papéis foi lançado, e as filmagens estavam programadas para começar no final de junho de 2012. Para captar a linguagem e dialetos da época e regiões o professor de dialeto Michael Buster foi trazido para ajudar o elenco na alteração de seu discurso, cuja presença alterou o modo como os personagens se portam e falam no decorrer do filme. Para recriar o sotaque dos escravos, não documentado, ele fez uma aposta ousada: misturou o sotaque dos idosos da Louisiana com o modo de falar da colega queniana, cujo inglês é ainda carregado com os modos de falar africanos. A linguagem tem uma qualidade literária relacionada com a escrita do dia e da influência da Bíblia do Rei Jaime. O estudioso de cultura e história afro-americano Henry Louis Gates Jr. foi consultor no filme.

A deportação representa o processo de remoção de um estrangeiro do território de um Estado para o território de outro Estado. A definição em concreto muda dependendo do lugar e contexto, mutando também ao longo do tempo. Este artigo considera a deportação como o afastamento de uma pessoa em estatuto ilegal do território de um Estado, como definido pelo Conselho da Europa, distinguindo-se assim da expulsão ou afastamento de um estrangeiro ou apátrida em situação regular. Apesar da perseguição de certos grupos étnicos, o movimento de pessoas entre estados até à época moderna era relativamente livre. É apenas em finais do século XIX que os Estados Unidos da América começam a designar imigrantes “desejados” e “indesejados”, levando ao nascimento da imigração ilegal e à subsequente deportação de imigrantes quando encontrados em situação irregular. No século XX, o controle da imigração começou a tornar-se uma prática comum noutras partes do globo. Em 1901, a Austrália aprovou a Lei de Restrição à Imigração, ao abrigo da qual os imigrantes podiam ser convidados a fazer um teste de ditado. Para passarem no teste, tinham de escrever 50 palavras numa língua europeia à escolha do funcionário da imigração, resultando que na prática fosse simples chumbar um candidato “indesejado”, levando à sua deportação. Em 1905, o poderoso Reino Unido colonialista aprova a sua própria lei de controle de imigrantes e possível deportação e mais se seguiram. 

O controle de imigrantes foi completamente globalizado depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com o surgimento do passaporte, promovido pela Liga das Nações. Desde aí, só o governo dos Estados Unidos já deportou mais de 55 milhões de imigrantes, a maioria dos quais provenientes da América Latina, e a União Europeia deporta centenas de milhares todos os anos. Entretanto, uma das primeiras referências aos passaportes foi realizada por volta de 450 a.C. Neemias, um oficial, servidor do rei Artaxerxes I da Pérsia antiga, pediu permissão para ir a Judá. O rei concordou e lhe deu uma carta destinada aos governantes da província do outro lado do rio requisitando para ele segurança, enquanto estivesse em terras estrangeiras. A origem do termo passaporte, contudo, é controversa. Segundo algumas fontes ele surgiu na França durante o reinado de Luís XIV, onde o soberano fornecia a seus favorecidos cartas requerendo a passagem dos portadores pelos portos, tais missivas eram intituladas Passe Port que literalmente significa passar por um porto no idioma francês, no qual, a palavra para passaporte é “passeport”; outros afirmam ser o termo oriundo da Idade Média quando documentos emitidos por autoridades locais pediam autorização para seus protegidos poderem passar pelos portões (porte) dos muros das cidades. Tais documentos continham uma lista de cidades que seu portador poderia adentrar. Independente da origem do termo passaporte, este, manteve o formato rudimentar de carta por um longo período e na ausência de fotografias, para a identificação, alguns continham descrições físicas do portador. Os primeiros passaportes a apresentarem foto surgiram apenas no início do século XX.

Depois das duas guerras mundiais, primeiramente a Liga das Nações em sua conferência internacional sobre passaportes, formalidades alfandegárias e vistos, em 1920, e posteriormente a Organização das Nações Unidas (ONU) juntamente com a OACI, ou Organização de Aviação Civil Internacional, uma agência especializada da ONU. A sua função é definir os padrões mínimos de segurança para a aviação civil internacional.  A OACI foi criada em 1944, com a assinatura da Convenção de Chicago, nos Estados Unidos. A sua sede fica em Montreal, no Canadá. organismo internacional regulador da aviação civil, emitiram um guia para padronizar o formato e características inerentes aos passaportes. Estes guias foram, em grande parte, os responsáveis pelo formato atual dos passaportes. Recentemente está havendo um movimento para introduzir, nos passaportes, informações biométricas, com a intenção de melhorar a segurança de identificação. Esses novos elementos sociais e políticos ainda são questionados quanto à possibilidade de serem implantados atualmente, pois a tecnologia existente ainda não satisfaz os requerimentos relacionados a seu uso comum. Os Estados Unidos, por exemplo, por duas vezes adiaram a introdução da biometria, nos documentos de viagem, devido a resultados técnico-metodológicos insatisfatórios em testes realizados. Começaram a emitir, em 2007, passaportes com os chips biométricos. Seus principais objetivos são o desenvolvimento dos princípios e técnicas de navegação aérea internacional e a organização e o progresso dos transportes aéreos, de modo a favorecer a segurança, a eficiência, a economia e o approach dos serviços aéreos.

Desenvolve também um trabalho importante no campo da assistência técnica, procurando organizar e dar maior eficiência aos serviços de infraestrutura aeronáutica nos países em desenvolvimento. Essa assistência é prestada por meio de equipes de especialistas, enviados aos diversos países para organizar e orientar a operação dos serviços técnicos indispensáveis à aviação civil, e de bolsas de estudo para cursos de especialização. Americanismo é um conjunto de valores patrióticos dos Estados Unidos que visam criar uma identidade “estadunidense coletiva” e pode ser definido como “uma articulação do legítimo lugar da nação no mundo, um conjunto de tradições, uma linguagem política, e um estilo cultural imbuído de significado político”. De acordo com a American Légion, uma organização de veteranos dos Estados Unidos da América, o americanismo é uma ideologia ou crença na devoção, lealdade ou fidelidade aos Estados Unidos da América, ou à sua própria bandeira, tradições, costumes, cultura, símbolos, instituições ou forma do governo. Nas palavras de Theodore Roosevelt (1858-1919), “o americanismo é uma questão de espírito, convicção e propósito, não de credo ou local de nascimento”. Americanismo tem dois significados diferentes. Pode referir-se às características que definem os Estados Unidos e pode também significar lealdade aos Estados Unidos e uma defesa dos ideais políticos estadunidenses. Esses ideais incluem, mas não estão limitados a autogoverno, igualdade de condições no tribunal, liberdade de expressão e crença no progresso. Esta coleção de ideais, para lembramos de Walter Benjamin, que por certo forma a ideologia moderna do americanismo tem um apelo historicamente duradouro para pessoas de quase todo o mundo contemporâneo.

 

Em um ensaio sociológico dedicado ao americanismo, a escritora Agnes Repplier (1858-1950) enfatizou que, “de todos os países do mundo, nós e apenas nós temos a necessidade de criar artificialmente o patriotismo que é o direito de nascimento de outras nações”. Desde as alterações demográficas raciais e étnicas da população americana causadas pela Lei Hart-Celler de 1965, o americanismo tem se enraizado menos em experiências culturais compartilhadas e mais em ideais políticos compartilhados. O conceito de americanismo existe desde que os primeiros colonos europeus se mudaram para a América do Norte, aspirados por uma visão de um “farol de esperança” para o mundo. John Adams (1735-1826) foi o segundo presidente dos Estados Unidos (1797–1801) e, anteriormente, primeiro vice-presidente dos Estados Unidos. “Pai” da Nação estadunidense, Adams foi estadista, diplomata e um advogado importante no período da independência americana da Grã-Bretanha. De boa educação, Adams era um teórico político do Iluminismo que divulgou o republicanismo, tal como o conceito de um governo central, e escreveu várias obras sobre as suas ideias, tanto em trabalhos publicados como em cartas para a sua esposa e conselheira Abigail Adams (1744-1818), e, também, a outros Pais da Nação.

Ele escreveu que os novos assentamentos na América foram “a abertura de uma grande cena e projeto em Providence para a iluminação dos ignorantes, e a emancipação da parte servil da humanidade em toda a terra”. Essa compreensão do americanismo era um pensamento comum em todo o chamado Novo Mundo após a Guerra de Independência dos Estados Unidos com expectativas de que a nação recém-independente se tornaria mais do que o que Thomas Paine (1737-1809) chamou de “um asilo para a humanidade”. Durante o período pré-guerra, ao longo das décadas de 1830, 1840 e 1850, o americanismo adquiriu um significado político restritivo devido ao pânico moral nativista depois que o aumento da imigração irlandesa e alemã levou ao crescimento do catolicismo americano. Os anos desde o fim da Guerra de Secessão até o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxeram um novo significado ao termo “americanismo” para milhões de imigrantes vindos da Europa e da Ásia. Aqueles foram tempos de grande crescimento econômico e de industrialização, e assim surgiu a cena americana que consiste na “democracia industrial” e no pensamento de que o povo é o governo na América. Desde então, o sucesso da nação americana trouxe um tremendo poder à noção de americanismo. De acordo com Wendy L. Wall em Inventing the “American Way”, o americanismo foi apresentado por uma campanha de propaganda nacional para contrastar com o comunismo e o fascismo, durante a extensa Guerra Fria, um conflito político e ideológico entre os EUA e a URSS que durou de 1947 a 1991.

   

O termo “Guerra Fria” foi usado pela primeira vez na França na década de 1930. Os benefícios do americanismo foram promovidos por meio dos ideais de liberdade e democracia. Algumas organizações abraçaram o americanismo, mas levaram seus ideais mais longe, ou seja, a Ku Klux Klan acredita que o americanismo inclui aspectos de raça, em torno da pureza do americano branco e do protestantismo americano. É o nome de três movimentos distintos, passados e atuais, que defendem correntes reacionárias e extremistas, tais como a supremacia branca, o nacionalismo branco, a anti-imigração e, especialmente em iterações posteriores, o nordicismo, o anticatolicismo e o antissemitismo, historicamente expressos através do terrorismo voltado a grupos ou indivíduos aos quais eles se opõem. Iteração é o processo chamado na programação de repetição de uma ou mais ações. É importante salientar que cada iteração se refere a apenas uma instância da ação, ou seja, cada repetição possui uma ou mais iterações. Todos os três movimentos têm clamado pela “purificação” da sociedade estadunidense e todos são considerados na esfera política organizações de extrema-direita. Adams começou a destacar-se nos primeiros tempos da Revolução Americana, que historicamente teve um papel socialmente importante em convencer em termos de princípios liberais radicais o Congresso a declarar a Independência. Ajudou Thomas Jefferson (1743-1826) a elaborar a Declaração da Independência em 1776, e foi um dos seus principais artífices e por assim dizer, defensores junto do Congresso.

A Revolução Americana representou uma revolução político-ideológica que ocorreu na América Britânica entre 1765 e 1791 Teve suas raízes na assinatura do Tratado de Paris, que, em 1763, finalizou a Guerra dos Sete Anos. Ao final do conflito, o território do Canadá foi incorporado pela Grã-Bretanha. Neste contexto, as treze colônias representadas por Massachusetts, Rhode Island, Connecticut, Nova Hampshire, Nova Jersey, Nova Iorque, Pensilvânia, Delaware, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia começaram a ter seguidos e crescentes conflitos com a metrópole britânica, pois, devido aos enormes gastos com a guerra, a metrópole aumentou a exploração sobre essas áreas. Constituiu-se em batalhas desfechadas contra o domínio britânico. Movimento de ampla base popular teve como principal motor a burguesia colonial e levou à proclamação, no dia 4 de julho de 1776, da independência das Treze Colônias — os Estados Unidos da América, primeiro país dotado de uma Constituição política escrita codificada e ainda plenamente com sua eficácia em uso. As ações militares entre ingleses e os colonos americanos começam em março de 1775. No decorrer do conflito (Lexington, Concord e batalha de Bunker Hill), os representantes das colônias reuniram-se no segundo Congresso de Filadélfia (1775) e Thomas Jefferson, democrata de ideias aparentemente avançadas, redigiu a Declaração da Independência dos Estados Unidos, promulgada em 4 de julho de 1776, dando um passo irreversível. Procede-se também à constituição de um exército, cujo comando é confiado ao fazendeiro George Washington.

           A Casa Branca foi construída depois da criação do Distrito de Columbia por um Acto do Congresso em dezembro de 1790. O presidente George Washington, de 1789 a 1797, ajudou a escolher o local, junto com o planejador urbano Pierre Charles L`Enfant (1754-1825). O arquiteto foi escolhido numa competição que recebeu nove propostas. A honra foi concedida a James Hoban (1758-1831), um irlandês, e a construção começou com a colocação da pedra angular em 13 de outubro de 1792. A construção foi completada em 1° de novembro de 1800. Foram gastos 232 371,83 dólares ao longo de um período de oito anos de construção. O que na atualidade, com os efeitos da inflação, equivaleria a cerca de 2,4 milhões. A nova capital da jovem república ficou situada em terras cedidas por dois estados - Virginia e Maryland - tendo ambos transferido à posse dos terrenos para o governo federal em resposta a um compromisso com o Presidente George Washington. Os comissários do Distrito de Columbia foram encarregados, pelo Congresso, de construir a nova cidade sob a direção do Presidente. O arquiteto da Casa Branca foi escolhido num concurso que recebeu nove propostas, incluindo uma submetida de forma anônima por Thomas Jefferson. O presidente Washington viajou para o local da nova cidade federal, no dia 16 de julho de 1792, para fazer o seu juramento. A sua análise ficou registada como breve, tendo selecionado rapidamente a proposta de James Hoban, um irlandês que residia em Charleston, Carolina do Sul. A brevidade da escolha de Washington pode ter-se devido historicamente ao fato social de a maior parte dos planos serem deselegantes e simplistas. Na realidade sabemos Washington não ficou totalmente satisfeito com a proposta inicial de Hoban.

Achou-a demasiado pequena, desprovida de ornamentos e pouco digna para o presidente da nação. Seguindo as recomendações de Washington o edifício foi ampliado em cerca de trinta por cento, tendo sido acrescentada uma galeria de recepção, a Sala Este. Esta foi provavelmente inspirada na grande sala de recepção de Mount Vernon. O edifício foi claramente influenciado pelos primeiro e segundo andares de Leinster House, um palácio ducal de Dublin, República da Irlanda, o qual é, atualmente, o lugar das duas câmaras do Oireachtas, o Parlamento irlandês. Vários outros palácios rurais irlandeses da era Georgiana foram sugeridos como fontes de inspiração para todo o andar térreo, detalhes exteriores, como o peristilo da fachada Sul, e interiores, como os antigos nichos da atual Sala Azul. Estas influências, apesar de não estarem documentadas, são citadas no guia oficial da Casa Branca e nas publicações da Associação Histórica da Casa Branca. O primeiro guia oficial, publicado em 1962, sugeria uma ligação entre o Pórtico Sul, desenhado por Hoban, e o Château de Rastignac, um palácio rural neoclássico, localizado em La Bachellerie, na região francesa de Dordogne, desenhado por Mathurin Salat (1755–1822). O palácio francês foi construído entre 1812 e 1817, baseado num desenho anterior. A ligação foi criticada, uma vez que Hoban nunca visitou a França. Os defensores da ligação argumentam que Thomas Jefferson, enquanto visitava a Ecole Spéciale d`Architecture, em 1789, terá visto os desenhos de Salat e, no seu regresso aos Estados Unidos da América, terá partilhado a influência com Washington, Hoban, Monroe, e Benjamin Henry Latrobe. Tanto Hoban como Latrobe fizeram elevações para o Pórtico Sul, sendo o pórtico, construído em 1829, quer dizer, quase idêntico à aquarela da elevação de Hoban.

Os britânicos, lutando a 5 500 km de casa, enfrentaram problemas de carência de provisões, comando desunido, comunicação lenta, população hostil e falta de experiência em combater táticas de guerrilha. A Aliança Francesa (1778) mudou a natureza da guerra, apesar de ter dado uma ajuda apenas modesta; a Inglaterra, a partir de então, passou a se concentrar nas disputas por territórios na Europa e nas Índias Ocidentais e Orientais. Por outro lado, os colonos tinham força de vontade, mas interesses divergentes e falta de organização. Das colônias do Sul, só a Virgínia agia com decisão. Os britânicos do Canadá permaneceram fiéis ao Reino da Grã-Bretanha. Os voluntários do exército, alistados por um ano, volta e meia abandonavam a luta para cuidar de seus afazeres. Os oficiais, geralmente estrangeiros, não estavam envolvidos no conflito. O curso da guerra pode ser dividido em duas fases a partir de 1778. A primeira fase, ao norte, assistiu à captura de Nova York pelos ingleses (1776), além da campanha no vale do rio Hudson para isolar a Nova Inglaterra, que culminou na derrota em Saratoga (1777), e a captura de Filadélfia (1777), depois da vitória na batalha de Brandywine. A segunda fase desviou as atenções britânicas para o Sul, onde grande número de legalistas podia ser recrutado.

Filadélfia foi abandonada (1778) e Washington acampou em West Point e ameaçar os quartéis-generais britânicos em Nova York. Após a captura de Charleston (1780) por Clinton, Cornwallis perseguiu em vão o exército do sul, sob a liderança do general Greene, antes de seu próprio exército, exaurido, render-se em Yorktown, Virgínia (outubro de 1781), terminando efetivamente com as hostilidades. A paz e a Independência do novo país com as treze colônias da costa atlântica foram reconhecidas pelo Tratado de Paris de 1783. Apesar das frequentes vitórias, os britânicos não destruíram os exércitos de Washington ou de Green e não conseguiram quebrar a resistência norte-americana. Em 1812 e 1815, ocorreu uma nova guerra entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Essa guerra consolidou a Independência norte-americana. A Guerra dos sete anos, terminada com vitória da Inglaterra sobre a França (cf. Tratado de Paris, 1763), deixou a nação vencedora na posse de ricos territórios no continente americano, já colonizados, sendo reconhecido o seu direito de expandir o seu domínio em direção ao interior do continente. Esta condição e possibilidade agradou aos colonos, que prontamente se prepararam para explorar e aproveitar novas terras, mas, para sua grande surpresa, o governo de Londres, por recear desencadear guerras com as nações índias, determinou que nenhuma nova exploração ou colonização de territórios pudesse ser feita sem a assinatura de tratados com os índios historicamente primus inter pares. Foi esta a primeira fonte de conflito entre os colonos e a Coroa britânica.

Os colonos também acusavam os britânicos de manter exércitos permanentes em território americano e manter um judiciário forjado com julgamentos simulados, o uso de mercenários para ocupar o território americano. Mas, pouco depois, surgiram novos atritos. Procurando restaurar o equilíbrio financeiro, a metrópole apertava as malhas do pacto colonial com vários atos. Em 1750 fora proibida a fundição de ferro nas colônias; em 1754 proibiram-se a fabricação de tecido e o contrabando. Apesar de vencer a Guerra dos Sete Anos, a Grã-Bretanha impôs novas medidas restritivas às treze colônias. Em 1765 foi aprovado um decreto regulamentando a obrigação de abrigar e sustentar tropas britânicas em solo americano, melhor dizendo, uma prática liberal que pesava muito sobre as finanças coloniais. Foram ainda criadas a Lei do Selo que acrescentou um imposto de selo sobre jornais, documentos legais e oficiais etc., e os Atos de Townshend, que procuravam limitar e mesmo impedir que os americanos continuassem suas relações comerciais com outras regiões que não a Inglaterra. Em 1773, o Parlamento britânico concedeu o monopólio do comércio do chá à propalada Companhia das Índias Orientais, da qual muitas personalidades britânicas possuíam ações no mercado in statu nascendi globalizado. Os comerciantes rebeldes norte-americanos que se sentiram prejudicados disfarçaram-se de “índios peles-vermelhas”, assaltaram os navios da Companhia que estavam no porto de Boston e lançaram o carregamento de chá no mar, isto é, Festa do Chá de Boston. A Grã-Bretanha reagiu de imediato com um conjunto de leis que os americanos chamaram de “Leis Intoleráveis” (1774): fechamento do porto de Boston; indenização à companhia prejudicada e o julgamento dos envolvidos, na metrópole.

As reações dos colonos foram, de início, exaltadas, mas pacíficas: exigiram o direito de eleger representantes para o Parlamento de Londres para poderem discutir e votar as leis que lhes diziam respeito, passando depois a atos de boicote às mercadorias britânicas. Esta guerra econômica desencadearia motins e forçou o governo a alguns recuos, que, contudo, não satisfizeram os colonos. O conflito agravou-se com a presença de tropas enviadas para conter os protestos. Como resposta, em 1774 os representantes das colônias americanas, exceto Geórgia, enviaram seus delegados a Filadélfia, num primeiro Congresso Continental que, a partir daí, embora com divergências no seu seio, foi a voz política dos colonos. Em 1774, houve o 1º Congresso Continental de Filadélfia, onde se resolveu acabar com o comércio com a Grã-Bretanha enquanto não se restabelecessem os direitos anteriores a 1763. O mesmo Congresso também redigiu e divulgou uma Declaração de Direitos. Houve logo depois, um 2º Congresso em que foi reunido em Filadélfia onde se decidiu a criação de um exército que seria comandado por George Washington, fazendeiro e chefe da milícia da Virgínia. Nesse Congresso, apesar de se manterem leais ao rei, os colonos pediram a suspensão das “Leis Intoleráveis” e firmaram uma Declaração dos Direitos dos Colonos, no qual pediram a supressão das limitações ao comércio e à indústria, bem como dos impostos abusivos. O rei reagiu, pedindo aos colonos que se submetessem; estes, porém, não se curvaram diante da coroa britânica. O extremar das posições levou à criação de milícias, à constituição de depósitos de munições e a um aumento contínuo de tensão que iria irromper em guerra.

Pela primeira vez na história da expansão europeia, uma colônia tornava-se independente dos países por meio de um ato político revolucionário. E fazia-o não só proclamando ao mundo, no documento histórico aprovado no dia 4 de Julho, o direito à independência e à livre escolha de cada povo e de cada pessoa: “o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade” são definidos como inalienáveis e de origem divina, mas ainda construindo uma federação de Estados nacionais dotados de uma grande autonomia e aprovando uma Constituição política, a primeira da história mundial, onde se consignavam os direitos individuais dos cidadãos, se definiam os limites dos poderes dos diversos estados e do governo federal, e se estabelecia um sistema de equilíbrio entre os poderes legislativo, judiciário e executivo de modo a impedir a supremacia de qualquer deles, além de outras disposições inovadoras. O sucesso norte-americano foi descrito como tendo influenciado a Revolução Francesa (1789) e as subsequentes revoluções na Europa e América do Sul.

Ao final do começo do conflito, o território do Canadá foi incorporado pela Grã-Bretanha. Neste contexto, as treze colônias representadas por Massachusetts, Rhode Island, Connecticut, New Hampshire, Nova Jersey, Nova York, Pensilvânia, Delaware, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia começaram a ter seguidos e crescentes conflitos com a metrópole, pois devido aos enormes gastos com a guerra, a Metrópole inicia uma maior exploração sobre essas áreas. As colônias finalmente desencadeariam o desejo e a declaração de independência, em 4 de julho de 1776, e a Guerra de independência dos Estados Unidos. A guerra teria fim em 1783, quando a independência dos Estados Unidos foi reconhecida pelo Reino Unido no Tratado de Paris de 1783. Apesar da estrutura social ter permanecido inalterada, o Norte continuou capitalista e no Sul a escravidão foi mantida, a Guerra da Independência dos Estados Unidos é chamada de revolução por ter instituído, na Constituição de 1787, vigente, uma República federal, a soberania da nação, e divisão tripartida dos poderes. Além disso, influenciou as revoluções liberais que aconteceriam na Europa, como a Revolução Francesa. E como diplomata na Europa, ajudou a negociar o provável Tratado de Paz com a Grã-Bretanha, e foi responsável por obter importantes empréstimos governamentais dos banqueiros de Amsterdam. Teórico político e historiador, Adams redigiu grande parte da Constituição de Massachusetts em 1780, a qual, juntamente com o seu Thoughts on Government (1776) influenciou decisivamente o pensamento político americano.

Um dos seus grandes papéis foi como analista de caracteres: em 1775, nomeou George Washington para comandante-em-chefe; 25 anos mais tarde, designou John Marshall para Chefe de Justiça dos Estados Unidos.  A natureza revolucionária de Adams assegurara duas presenças como vice-presidente de George Washington, e a sua própria eleição em 1796 como segundo presidente do país. Durante seu único mandato, foi confrontado com ataques dos democratas-republicanos de Jefferson, tal como da facção dominante do seu Partido Federalista liderado pelo seu declarado adversário Alexander Hamilton. Adams assinou o controverso Alien and Sedition Acts (1798) e organizou o exército e a marinha em particular para fazer face a uma “guerra não declarada”, designada por “Quase-guerra” com a França (1798–1800). A principal conquista da sua presidência foi a resolução pacífica do conflito face à oposição de Hamilton. Em 1800, Adams foi derrotado nas eleições presidenciais por Thomas Jefferson (1743-1826) e retirou-se para Massachusetts. Mais tarde reataria a sua amizade com Jefferson. Adams e a sua esposa tiveram vários filhos que seguiram as áreas da política, diplomacia e história, e que ficariam designados por família política de Adams. Do ponto de vista genético Adams foi o pai de John Quincy Adams, o sexto Presidente dos Estados Unidos. As suas conquistas foram reconhecidas, apesar dos seus contributos não tivessem sido celebrados como os dos outros Pais da Nação. Adams foi o primeiro presidente a residir na mansão que ficaria conhecida como Casa Branca.

Bibliografia Geral Consultada.

HOBSBAWM, Eric, Storia del Marxismo: I – Il Marxismo al Tempi di Marx. Roma: Giulio Einaudi Editor, 1975; HALL, Stuart, “et al”, Da Ideologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980; GENOVESE, Eugene, A Terra Prometida: O Mundo que os Escravos Criaram. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988; PRICE, Richard, O Nascimento da   Cultura   Afro-Americana:  Uma Perspectiva Antropológica. Rio de Janeiro: Editora Pallas; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2003; BAILYN, Bernard, As Origens Ideológicas da Revolução Americana. Bauru: Editora da Universidade Sagrado Coração, 2003; MÉSZÁROS, Istvan, O Poder da Ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, especificamente cap. 3 - Política e Ideologia, pp. 143-239; LACLAU, Ernesto, Política e Ideología en la Teoría Marxista: Capitalismo, Fascismo, Populismo. México: Siglo Veintiuno Editores, 1978; Idem, La Razón Populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2005; KAZIN, Michael; McCARTIN, Joseph Anthony, Americanismo: novas perspectivas sobre a história de um Chapel Hill ideal. North Carolina: University of North Carolina Press, 2006; DORSEY, Leroy, Somos Todos Americanos, Puros e Simples: Theodore Roosevelt e o Mito do Americanismo. Alabama: University of Alabama Press, 2007; GELERNTER, David, Americanismo: A Quarta Religião do Grande Oeste. Nova York: Editor Doubleday, 2007; PINTO, Ivonete Medianeira, Close-up. A Invenção do Real em Abbas Kiarostami. Tese de Doutorado. Estudos dos Meios e da Produção Mediática. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007; MOÇO, Aline Campos Paiva, Em Defesa do Americanismo: O Nascimento de uma Nação de Griffith. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em História. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010; SOLOMON, Andrew, O Demônio do Meio-dia: Uma Anatomia da Depressão. 2ª edição. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2014; RABLE, George, Damn Yankees!: Demonization & Defiance in the Confederate South. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 2015; LEPORE, Jill, Estas Verdades: A História da Formação dos Estados Unidos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2020;  Artigo: “EUA prendem 538 imigrantes e fazem primeiras deportações após decretos de Trump, diz Casa Branca”. In: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/01/24/; entre outros. 

domingo, 19 de janeiro de 2025

Sergipe – Festival do Caranguejo & Paraíso Quase Esquecido.

                         Não podes ensinar o caranguejo a caminhar para a frente”. Aristófanes

           A palavra “caranguejo” provém do termo castelhano “cangrejo”, que por sua vez vem do diminutivo latino cancriculus (“pequeno cancro”), tendo quase a mesma origem da palavra “câncer” (do grego καρκίνος). Na literatura brachyura é uma infraordem de crustáceos que representa os “caranguejos verdadeiros”, ou braquiúros, sendo composta por caranguejos e siris. Essa infraordem pertence à subordem dos pleocyemata que agrupa caranguejos, lagostas e alguns camarões. São chamados de “caranguejos verdadeiros” pois existem diversas espécies de crustáceos que possuem forma semelhante à sua e são reconhecidas como “caranguejos”, mas que fazem parte de outro táxon, como por exemplo os crustáceos da infraordem Anomura, ou seja, caranguejos ermitões, piolho-caranguejo entre outros. A infraordem possui mais de 7 mil espécies vivas incluídas em 98 famílias, e mais de 3 mil espécies que existem somente em registro fóssil, compondo o maior grupo dentro da grande ordem dos decapoda: crustáceos que possuem até 10 patas ambulatoriais. Podem ser encontrados em todos os oceano e a diversas profundidades, em ambientes de água doce e terrestres. Isto é, no mar alto da paixão, segundo Djavan, o oceano Pacífico, Oceano Atlântico, Oceano Índico, Oceano Ártico, Oceano Antártico.  Os oceanos são grandes massas de água salgada que cobrem mais de 97% da superfície do planeta. Eles são essenciais para o equilíbrio entre a vida na Terra e na água. Sua grande diversidade em número de espécies e sucesso evolutivo são atribuídos à forma corporal diferenciada: por sua carapaça achatada e por um abdômen reduzido em comparação com outros crustáceos e localizado abaixo do cefalotórax (amplo), que sendo genérico possui o abdômen distendido após o cefalotórax

           Possuem cinco patas, na nomemclatura em zoologia, chamadas de pereópodes na região do cefalotórax, a primeira delas modificada em quela (garra) e as outras quatro especializadas em locomoção (reptação), terminadas em pontas duras. Na família dos portunídeos (Portunidae) o último par de pereópodes é modificado para natação, terminadas em forma de remo. Brachyura contém mais de 3 mil fósseis, sendo que os mais antigos datam do período Jurássico, representantes de Dromiacea, e confirmam hipóteses de filogenia molecular e relógios moleculares para o táxon. Outras hipóteses que sugerem que já no Carbonífero havia separação entre Anomura e Brachyura que em conjunto compõe o táxon Meiura. Durante o Cretáceo, período no qual há uma explosão de diversificação de caranguejos, os ancestrais dos caranguejos possuíam uma considerável versatilidade de formas. Recentemente uma nova espécie fóssil muito bem preservada de Brachyura do médio Cretáceo foi encontrada na Colômbia e nos Estados Unidos da América. Chamada de Callichimaera perplexa, apresenta olhos compostos grandes e desprotegidos, um pequeno corpo fusiforme, o cefalotórax - carapaça - varia de 4 à 10 mm e apêndices em forma de remo. Algumas de suas características biológicas/genética, comparativamente, como seus olhos proeminentes, sugerem uma manutenção, provavelmente por heterocronia, de características do estágio de larva megalopa nos indivíduos adultos. Como os fósseis de Callichimera perplexa possuem, de forma muito bem preservada, estruturas que raramente se conservam em fósseis de caranguejos, como as primeiras e segundas antenas, os olhos compostos, as peças bucais pediformes e os pleópodes com dimorfismo sexual, e por pertencerem a uma nova e única linhagem, com características únicas, fonte de informação a respeito da história evolutiva e social da diversidade Brachyura.

Sergipe emancipou-se politicamente da Bahia em 8 de julho de 1820. A então capitania de Sergipe del-Rey viria a ser elevada à categoria de província quatro anos depois, e, finalmente, a estado após a proclamação da República brasileira em 1889. A atividade agrícola é um fator da economia sergipana. Em destaque nesse ramo, encontra-se o cultivo da cana-de-açúcar. A laranja e o coco também são produzidos pelo estado. O extrativismo mineral é outra atividade do setor primário. Petróleo, gás natural, calcário e potássio são os principais. O nome do estado vem da antiga língua tupi e significa “no rio dos siris”, referindo-se ao Rio Sergipe, por meio da junção das palavras siri (siri), îy (rio) e -pe (em) que na linguagem dos colonizadores portugueses, espanhóis tornou-se Sergipe. Há diversas hipóteses para a ocorrência da posposição “pe” no nome de topônimos no Brasil. Não há uma explicação conclusiva a respeito. Entretanto, o filólogo, linguista e lexicógrafo Eduardo de Almeida Navarro defende sociologicamente que esses topônimos foram criados pelos próprios nativos, e estão entre os mais antigos do Brasil, podendo ser inclusive de origem pré-histórica, isto é, anteriormente ao “descobrimento” do Brasil pelos europeus. Todavia, não sabemos o porquê de os indígenas colocarem o morfema -pe ao final dos nomes. Trata-se de fenômeno gramatical que não conhecemos, pois essa função da posposição -pe não foi descrita por nenhum gramático do tupi.  Os primeiros indícios da ocupação humana do território que hoje corresponde ao estado de Sergipe são de 9000 a.C. 

A geografia é a ciência que estuda a relação entre a Terra e seus habitantes. Os geógrafos querem saber onde e como vivem os homens, as plantas e os animais; onde se localizam os rios, os lagos, as montanhas e as cidades. A palavra geografia vem do grego geographía (γεογραπηία), que significa “descrição da Terra”. A geografia depende do compartilhamento de outras áreas do conhecimento técnico-científico. Utiliza os dados da química, da geologia, da matemática, da história social, da física, da astronomia, da antropologia e da biologia e principalmente da ecologia, pois tanto a Ecologia como a Geografia são estudos e pesquisas com objetos abstratos interrelacionados, porque estão interessados com as análises biológicas, com as análises de fatores geológicos e dos ciclos biogeoquímicos dos ecossistemas, da relação entre os seres vivos e a utilidade de uso do ambiente como sobrevivência. Os geógrafos utilizam inúmeras técnicas, como viagens, leituras e estudo de estatísticas. Os mapas são seu instrumento etnográfico e meio de expressão mais importante. Além de estudar mapas atualizam como pesquisas especializadas, aumentando o campo de reconhecimento geográfico.  O homem precisou e se utilizou do conhecimento geográfico. Os povos pré-históricos tinham de encontrar cavernas para habitar e reservas regulares de água para a manutenção da existência na vida cotidiana. Tinham também de morar perto de um lugar onde pudessem caçar. Caverna tem como repersentação socialmente toda cavidade natural rochosa com dimensões que permitam acesso aos seres humanos. 

Os termos relativos a caverna geralmente utilizam a raiz espeleo -, derivada do latim spelaeum, do grego σπήλαιον, “caverna”, da mesma raiz da palavra espelunca. As cavernas são também estudadas pela espeleologia, uma ciência multidisciplinar que envolve análises simultâneas e comparativamente através da geologia, hidrologia, biologia, paleontologia e arqueologia. Sabiam localizar “os rastros dos animais e as trilhas dos inimigos”. Usavam carvão ou argila colorida para desenhar mapas primitivos de sua região nas paredes das cavernas ou nas peles secas dos animais.  O homem aprendeu a lavrar a terra e a domesticar os animais. As leis de evolução geográfica da sociedade são menos fáceis de se perceber no desenvolvimento da família e da sociedade que no desenvolvimento do Estado; e o são porque aquelas estão mais enraizadas ao solo e mudam menos facilmente do que este. É mesmo um dos fatos mais consideráveis da história a força com a qual a sociedade permanece fixada ao solo, mesmo quando o Estado romano morre, o povo romano lhe sobrevive sob a forma de grupos sociais de todo tipo e é pelo intermédio desses grupos que se transmitiram à posteridade uma multiplicidade de propriedades que o povo havia adquirido no Estado e pelo Estado. Quer seja o homem considerado isoladamente ou em grupo, isto é através da família, tribo ou Estado, se encontrará algum pedaço de terra que pertence ou à sua pessoa ou ao grupo de que ele faz pare. 

No que diz respeito ao Estado a geografia política após longo tempo se habituou a levar em consideração a dimensão do território ao lado da cifra da população. Mesmo os grupos, como a tribo, a família, a comuna, que não são unidades políticas autônomas, somente são possíveis sobre um solo, e seu desenvolvimento não pode ser compreendido senão com respeito a esse solo; assim como o progresso do Estado é inteligível se não estiver relacionado com o progresso do domínio político. Estamos na presença de organismos que entram em intercâmbio mais ou menos durável com a terra, no curso que se troca entre eles e a terra gêneros de ações e reações. E quem venha a supor que num povo em vias de crescimento, a importância do solo não seja tão evidente, que observe no momento da decadência e da dissolução. Não se pode entender nada real a respeito do que então ocorre se não for considerado o solo. Um povo regride quando perde território. Ele pode contar com menos cidadãos e conservar ainda muito solidamente o território onde se encontram as fontes de sua vida. Mas se seu território se reduz, é, de uma maneira geral, o começo do fim. Quer dizer, sob variações diversas, a relação social da sociedade com o solo permanece sempre condicionada por uma dupla necessidade, a saber, da habitação e a da alimentaçãoA necessidade social e historicamente que tem por objeto a habitação é de tal modo simples que dela resultou, entre o homem e o solo, uma relação que permaneceu quase invariável no tempo.

 Os representantes da mais alta civilização que já existiu dispõem, para suas habitações, de menor lugar que os habitantes, miseráveis de um Kraal hotentote. As habitações ente as quais há mais diferença são, de um lado, aqueles dos pastores nômades, com a extrema mobilidade necessária às migrações contínuas da vida pastoril, e, de outro, os apartamentos amontoados nos enormes edifícios de nossas grandes cidades. E, todavia, os próprios nômades estão ligados ao solo, ainda que os laços que os ligam e ele sejam mais fracos, que aqueles da sociedade de vida sedentária. Eles têm a necessidade de mais espaço para se mover, mas voltam a ocupar os mesmos locais. Portanto, não existe apoio para se opor os nômades a todos os outros povos sedentários, tomados em bloco, pela única razão de que após uma estada de alguns meses no local, o nômade levanta sua tenda e a transmita, no dorso de seu camelo, para algum outro negar, de pastagem. Essa diferença nada tem de essencial, não em, mesmo, a importância daquela resultante de sua grande mobilidade, de sua necessidade de espaço, consequência da vida pastoril. De resto, não é entre os pastores que a ligação com o solo está em seu mínimo, com efeito eles retornam sempre às mesmas pastagens. Ela é muito mais fraca entre os agricultores da África tropical e das Américas que, a cada dois anos aproximadamente, deixam seus campos de milho de mandioca para a eles nunca mais retornar. E ela é menos ainda entre aqueles que, por medo dos povos que ameaçam sua existência, não ousam se ligar muito fortemente à terra. Entretanto, uma classificação superficial não inclui tais sociedades, entre os nômades. Se se classificar os povos segundo a força com que aderem ao solo, é preciso colocar decididamente no nível mais baixo os pequenos caçadores da África central e da Ásia do Sudoeste, assim como aqueles grupos antropologicamente que se encontram errante em toda espécie de sociedade, sem que um solo determinado lhes seja destinado em particular, os boêmios da Europa, os Fetths do Japão. 

Os australianos, os habitantes da Terra do Fogo, os esquimós que para suas caçadas, para suas coletas de raízes, procuram sempre certas localidades, o que delimitam seus territórios de caça, estão a um nível mais elevado. Mais acima, se encontram os agricultores nômades dos países tropicais, depois, os povos pastores que, nas diferentes regiões da Ásia, há séculos se mantém sobre o mesmo solo. E é, então que vêm os agricultores sedentários, estabelecidos em algumas aldeias fixas, e os povos civilizados, igualmente sedentários, dos quais a cidade é como que o símbolo. Uma multiplicidade de fenômenos sociais que têm sua causa na necessidade, primitiva e premente, da alimentação. E para se explicar esse fato, não é necessário, se recorrer à teoria da “urgência” de que fala Lacombo, segundo a qual as instituições mais primitivas o mais fundamentais seriam aqueles que respondem às necessidades mais urgentes. Quanto mais se utiliza o solo apenas de uma maneira passageira, a fixação a ele se dá apenas de uma maneira também passageira. Quanto mais as necessidades da habitação e da alimentação ligam-se estreitamente a sociedade à terra, tanto mais, é precisamente a necessidade de nela se manter. É dessa maneira que o Estado tira suas melhores forças. A tarefa do Estado, no que concerne ao solo, permanece sempre a mesma em princípio: o Estado protege o território contra ataques externos que tendem a diminuí-lo. No mais alto grau de evolução política, essencialmente, a defesa das fronteiras não é a única a servir esse objetivo; o comércio, o desenvolvimento de todos os recursos que contém o solo, tudo aquilo que pode aumentar o poder do Estado a isso concorre igualmente. A defesa do território (pays) é o fim último que se persegue por todos esses meios.

Essa mesma necessidade de defesa e também o resultado do mais notável desenvolvimento que apresente a história das relações do Estado com o solo, isto é, ao crescimento, porque ele tende finalmente a fortalecer o Estado e a fazer recuar os Estados vizinhos. Uma sociedade grande ou pequena, antes de tudo, busca manter integralmente o solo sobre o qual vive e do qual vive. Logo venha a se assegurar dessa tarefa imediata ela se transforma em Estado. A Passarela do Caranguejo, é uma calçada e corredor gastronômico, localizada na Orla da Atalaia, em Aracaju, no estado de Sergipe, Brasil. É considerada um ponto turístico, e polo gastronômico. O caranguejo é uma das comidas típicas de Sergipe. O prato é tão apreciado, que deu nome à “Passarela do Caranguejo”.  A área conta com bares e restaurantes que oferecem cardápios bem variados aos clientes. É considerada o principal ponto de encontro no Réveillon, quando os bares e restaurantes realizam programações especiais para a virada do ano. Os Arcos da Orla de Atalaia são um dos cartões postais mais famosos da cidade de Aracaju e do Estado de Sergipe. Símbolo maior do local, ficam na calçada da praia de mesmo nome e são um ponto turístico importante do município. O cenário é perfeito para fotografias, pois, logo à frente, há uma instalação tanto merceológica quanto turística de um letreiro com a extraordinária frase humana: “Eu amo Aracaju”. As letras são da altura de um homem adulto e permitem que, com criatividade, sejam realizados ótimos cliques afetivamente.  O termo gastronomia, de origem etimológica em grego, é utilizado para designar um conjunto de conhecimentos e práticas vinculados com a cozinha. 

Melhor dizendo, com a “arte de preparar determinadas iguarias”. Também está relacionada com o estudo das relações que existem entre a comida e a cultura de uma determinada região, ou ainda de uma pessoa em particular. Essa característica de ser muito especifica de uma região é própria da gastronomia. Às vezes os mesmos pratos são preparados de formas totalmente diferentes em países diferentes. Outras vezes as diferenças existem dentro do mesmo país no caso comparativo do Brasil. A gastronomia do Nordeste, por exemplo, é bem diferente da gastronomia do Sul do país. Desse modo, vemos que a gastronomia se relaciona também com o espaço físico onde ela é desenvolvida. O prazer proporcionado pela comida é um dos fatores culturais mais importantes da vida depois da alimentação de sobrevivência. A gastronomia nasceu desse prazer e constituiu-se como a arte de cozinhar e associar os alimentos para deles retirar o máximo benefício. Cultura muito antiga, a gastronomia esteve na origem de grandes transformações sociais e políticas. A alimentação passou por etapas históricas e sociais ao longo do desenvolvimento humano, evoluindo no âmbito do processo civilizador do nômade caçador, ao homem sedentário, quando este descobriu a importância da agricultura e da domesticação dos animais. A fixação à terra através das lutas e conquistas com abundância de comida, o que provocou um aumento demográfico que levou ao esgotamento dos recursos e à consequente migração a exploração.    

É interpretada como a capital com menor desigualdade social do Nordeste brasileiro, como a cidade com os hábitos de vida mais saudáveis do país, exemplo nacional na consideração de ciclovias nos projetos de deslocamento urbano e é considerada a segunda capital do país com menor índice de fumantes. Está entre as capitais com os custos de vida mais reduzidos do país, tendo focado mais recentemente suas ações turísticas na criação de alojamentos coletivos, tais como os mundialmente reconhecidos hostels. As terras onde se encontra Aracaju originaram-se de sesmarias doadas a Pero Gonçalves por volta do ano de 1602. As terras de Aracaju originaram-se das sesmarias, doadas a Pero Gonçalves por volta de 1602. Compreendiam 160 km de costa, que iam da barra do Rio Real à barra do Rio São Francisco, onde em toda as margens do estuário não existia uma vila sequer. Apenas eram encontrados arraiais de pescadores. No ano de 1699, tem-se notícia de um povoado surgido às margens do Rio Sergipe, próximo à região onde este deságua no mar, com o nome de Santo Antônio de Aracaju. Em 1757, Santo Antônio de Aracaju vivia sem maiores crescimentos e já era incluída como sítio da freguesia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Tomar do Cotinguiba. No dia 2 de março de 1855, a Assembleia Legislativa da Província abriu sessão em uma das poucas casas existentes na Praia de Atalaia. Nesta sessão, tendo previamente analisado a situação em que se encontrava a província, Inácio Joaquim Barbosa (1821-1855), presidente da Província de Sergipe Del Rey, decidiu transferir a capital de Sergipe, sediada que era São Cristóvão, para a cidade portuária que seria erguida ali. A decisão foi recebida com grande surpresa pelos presentes.

São Cristóvão foi a primeira capital de Sergipe. Foi fundada por Cristóvão de Barros a 1° de janeiro de 1590, no contexto da Dinastia Filipina em Portugal, durante a União Ibérica. Durante o domínio das chamadas “capitanias hereditárias”, foi a primeira capital da nomeada Capitania de Sergipe. Essa titularidade estendeu-se até a transferência da capital para Aracaju em 17 de março de 1855. A intenção dos espanhóis com sua fundação era a de construir a primeira via terrestre que ligasse o Nordeste Oriental e seus núcleos mores às reconhecidas como urbes de Filipeia e vila de Olinda e a urbe de São Salvador da Baía de Todos os Santos. Surgida para fechar a brecha e vácuo geopolítico que havia entre Olinda e São Vicente, o surgimento da urbe de São Cristóvão ameaçou seriamente os normandos e bretões na continuidade da experiência oeste-ibérica no sudoeste atlântico. Isso pode ser comprovado pelos choques entre ibéricos e franceses nos vácuos geopolíticos entre São Vicente e Salvador e posteriormente na zona ao norte de Olinda, localizados entre o extremo Leste e a costa Norte da mainland, particularmente ilustrado nos conflitos pela Filipeia e França Equinocial. Tratou de ser a ocupação espanhola no vácuo aparentemente deixado pelos portugueses os quais nunca ou pouco se interessaram na interiorização no período antes de Filipe II neste lado da América Meridional. Pesquisas históricas e arqueológicas indicam que a cidade é a terceira localização. Antes erguida próximo ao litoral, nas proximidades da foz do rio Vaza-Barris até firmar-se no local em que atualmente se encontra à margem do rio Paramopama, afluente do rio Vaza-Barris. Os dois sítios urbanos anteriores foram invadidos e incendiados por corsários. Em 1634 foi invadida pelos neerlandeses, ficando praticamente destruída. 

As tropas luso-espanholas, sob o comando do conde de Bagnoli, tentando evitar o abastecimento dos inimigos, incendiaram as lavouras, dispersaram o gado e conclamaram a população a desertar. Os neerlandeses, que encontraram a cidade semideserta, completaram a obra da destruição. Em 1645, os neerlandeses foram expulsos da capitania de Sergipe, deixando a cidade em ruínas. No final do século XVII, Sergipe foi anexado à Bahia e São Cristóvão passa a sede de Ouvidoria. Em 1710 foi invadida pelos habitantes de Vila Nova, região norte de Sergipe, revoltados com a cobrança de impostos por Portugal. Nos meados do século XVIII, a cidade foi totalmente reconstruída. Em 1763 sofreu a invasão dos negros dos mocambos e índios perseguidos. No dia 8 de julho de 1820, através de decreto de Dom João VI, Sergipe foi emancipado da Bahia sendo elevada à categoria de Província do Império do Brasil. São Cristóvão torna-se, então, a capital. No final da primeira metade do século XIX, os senhores de engenho lideram um movimento com o objetivo de transferir a capital para outra região, onde houvesse um porto capaz de receber embarcações de maior porte para facilitar o escoamento da produção açucareira, principal fonte da economia. Em 17 de março de 1855, o presidente da Província, Inácio Joaquim Barbosa (1821-1855), transferiu a capital para Aracaju. A partir desse momento, a cidade passa por um processo de despovoamento e crise, que só é resolvido no início do século XX com o advento das fábricas de tecido e estabelecimento da via férrea. Outra perda para São Cristóvão foi de status consagrado da área litorânea urbana para Aracaju. 

Com a Proclamação da República, em 1889, Sergipe passou a ser um Estado da Federação. Em 1892, foi promulgada a primeira Constituição estadual. Em 1924 e 1926, inspirados no tenentismo, alguns oficiais militares de média patente, liderados por Augusto Maynard Gomes (1886-1957), tentaram depor o então governador Maurício Graccho Cardoso, que governou de 1922 a 1926. Com a chamada Revolução de 1930, o estado passou a ser governado por interventores e governadores ligados a Getúlio Vargas. Nessa época, em 1938, Lampião e seu bando foram mortos em Poço Redondo, no sertão do estado, marcando a decadência do Cangaço. A costa sergipana foi palco de três naufrágios entre 15 e 16 de agosto de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, quando os navios Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo foram torpedeados pelo submarino alemão U-507, comandado por Harro Schacht, causando quase 600 mortes. Os ataques foram em resposta ao rompimento das relações entre o Brasil e os países do Eixo.  As comunidades alemãs e italianas foram perseguidas, sendo notório o caso Nicola Mandarino (1883-1968), que foi acusado de espião pela população e teve sua casa incendiada em Aracaju. Protestos seguiram-se no estado e no país, e em 22 de agosto do mesmo ano, o Presidente Getúlio Vargas declarou guerra à Alemanha e Itália.

Em 1954, o prefeito Lourival Baptista efetuou a permuta da área que corresponde à Coroa do Meio, Atalaia e Aruana por um gerador elétrico para a sede do município. Para alguns pesquisadores o objetivo da troca era essencialmente eleitoral, visto que Lourival Baptista conseguiu uma cadeira de Deputado Estadual no ano seguinte com o apoio maciço dos moradores da velha São Cristóvão. Com esta decisão Aracaju passou a ter costa oceânica, uma vez que se encontrava somente às margens do estuário do rio Sergipe. Em 1980, é erguido às margens do rio Poxim da Universidade Federal de Sergipe, que já promovia desde 1972 o Festival de Artes de São Cristóvão (FASC). Nessa década ocorre um processo de conurbação com Aracaju a partir do crescimento do Jardim Rosa Elze e inauguração do Conjunto Eduardo Gomes. A partir de então, surgem outros conjuntos residenciais e loteamentos na região a exemplo do Luiz Alves, Rosa Maria e Jardim Universitário. Essa área geográfica é a mais populosa e urbanizada da cidade estando a apenas 10 km do Centro de Aracaju, sendo, portanto, uma área de migração pendular. A relação da maioria desses moradores com a sede do município é meramente cartorial. O movimento pendular refere-se ao deslocamento de pessoas entre municípios distintos, para fins de trabalho e/ou estudo e moradia. Para analistas sociais, esse conceito é mais abrangente e deve considerar os meios de transporte, uma vez que esse possibilitou ampliar a variedade de pessoas e para a realização de deslocamentos. O estudo do movimento pendular é um aspecto no processo de urbanização para a compreensão do processo social e político de expansão urbana, metropolização, saturação dos centros urbanos, periferização e desconcentração produtiva.

Os movimentos pendulares podem ser classificados a partir de três processos distintos, que resultam de diferentes tipos de deslocamentos pendulares, são eles: a saturação urbana, a concentração urbana e a desconcentração produtiva. O movimento pendular por saturação urbana está relacionado com a crescente descentralização dos centros urbanos e a grande oferta imobiliária em regiões não-centrais. O principal motivo desse fenômeno é a procura por regiões com menores índices de violência, de poluição, de congestionamentos, dentre outros fatores. Essa tipologia é constituída, predominante, por grupos que possuem alta renda e que buscam melhores condições ambientais, segurança e transporte, ou seja, mais “qualidade de vida”. O movimento pendular caracterizado pela concentração urbana é definido pela diferenciação espacial, que separa as áreas residenciais das áreas não-residenciais em que se desenvolvem atividades produtivas. A concentração urbana é dividida em duas etapas: Concentração produtiva. Com o grande advento do processo de urbanização e industrialização ocorre a intensificação da concentração produtiva que tem como característica a tendência à aglomeração. Essa tipologia é predominante nas classes de baixa renda, na qual, intensificam o processo de periferização e “fortalece” os centros urbanos. Especulação imobiliária. A especulação imobiliária é um dos fatores primordiais para a concentração urbana que contribui à consolidação imobiliária e segregação espacial. Desconcentração produtiva. O “tipo ideal” de deslocamento pendular, vinculado às últimas etapas do processo de desconcentração espacial das atividades produtivas. Nela as empresas reavaliam a localização e nelas buscam as menos centrais das redes urbanas, objetivando incentivos fiscais, vantagens logísticas, restrições pela legislação ambiental, etc.

Em 1963, foi descoberto petróleo em Carmópolis e, nas décadas seguintes, esse produto passou a compor uma parcela importante da economia estadual. Na segunda metade do século XX, fixou-se também em Sergipe a fábrica de cimentos. Os anos 1990 no estado foram marcados pelo impulsionamento da economia, decorrentes da abertura da Usina Hidrelétrica de Xingó, mudanças na legislação tributária estadual para atrair investidores, a inauguração do Porto de Sergipe e a chegada multinacional da indústria cloroquímica. Como Aracaju surgiu com o objetivo de sediar a capital da província de Sergipe del-Rei, que até este momento se localizava na cidade de São Cristóvão, segundo alguns historiadores, o Centro de Aracaju foi idealizado com “planejamento urbano” desde o início, pois as primeiras ruas estão organizadas de forma a lembrar um tabuleiro de xadrez. O responsável pelo desenho da cidade de Aracaju foi o engenheiro Sebastião José Basílio Pirro (1817-1880). A construção da cidade apresentou algumas dificuldades de engenharia, pois a região ecologicamente continha pântanos, lagos e mangues. Apesar de se saber o dia exato de fundação da cidade, não se sabe com certeza qual foi o ponto inicial de desenvolvimento urbano. É provável que tenha sido ocupada a partir da Praça General Valadão, onde se situava o porto. Existe o bairro chamado América, e das ruas dele em grande parte são nomes dos outros países da América.

De acordo com a divisão regional vigente desde 2017, instituída pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística, o município pertence às Regiões Geográficas Intermediária e Imediata de Aracaju. Até então, com a vigência das divisões em microrregiões e mesorregiões, fazia parte da microrregião de Aracaju, que por sua vez estava incluída na mesorregião do Leste Sergipano. O solo da cidade era principalmente composto por areia e em zonas estuarinas como atualmente nos Bairros Salgado Filho, Grageru, São José, Porto Dantas e Coroa do Meio era originalmente uma área de manguezal, constantemente inundada por sua natureza ecológica. Grande parte da área de manguezal está coberta por concreto em diversos pontos da cidade. A vegetação original e o mangue, que ficavam às margens do Rio Sergipe, foram quase completamente soterrados. Na zona norte da cidade estão as áreas mais elevadas, com destaque para o morro do Urubu, que tem altitude máxima aproximada de 100m. Próximo a ele existem diversas colinas que dão uma acidentalidade ao relevo regional, a exemplo dos bairros Cidade Nova e 18 do Forte. Os prédios ainda considerados baixos facilitam a circulação de ar, ajudando a aliviar as temperaturas que afligem a cidade na maior parte do ano. Ao contrário do que acontece nas capitais litorâneas, o adensamento urbano da capital está à margem estuarina do rio Sergipe e aos seus afluentes. Estão os hotéis e casas de veraneio que se situam nos bairros Atalaia, Coroa do Meio e zona de Expansão, mesclando-se com uma crescente urbanização residencial nessas áreas nas últimas duas décadas.

As unidades que compõem o quadro morfológico são os tabuleiros sedimentares e planície fluviomarinha e planície marinha. Relevo dessecado do tipo geográfico colina. Aprofundamento de drenagem muito fraca e extensão de suas formas. Os tabuleiros sedimentares são um conjunto de baixas elevações, com forma de mesa, separadas por vales de fundo chato, onde se desenvolvem amplas várzeas. O relevo plano faz com que seja bastante apropriada a prática do ciclismo, sendo este o meio de transporte incentivado pela Prefeitura. A escolha da bicicleta ajuda a diminuir os congestionamentos e libera o transporte público. Apesar disso, o ciclismo ainda é meio de transporte para as classes mais baixas. Existem algumas grandes ciclovias na cidade. As mais antigas são da avenida Augusto Franco, avenida Beira Mar, e mais recentemente, avenida São Paulo seguindo em direção aos bairros mais periféricos, e da praia de Atalaia. A cidade tem a Leste o Rio Sergipe, onde fica localizada a praia 13 de julho de mesmo nome do bairro. Atualmente o espaço físico dispõe de uma orla com diversificadas atividades relacionadas com o lazer e consumo urbano. Em seu curso à margem da capital sergipana, o rio é considerado salobre. Nas imediações da foz o rio separa a capital da Ilha de Santa Luzia e deságua na praia da Coroa do Meio, onde também é “despejada a maior parte do esgoto doméstico”. O tratamento de esgoto do bairro Coroa do Meio, em Aracaju, Sergipe, é feito pela Companhia de Saneamento de Sergipe. A Deso já realizou obras de implantação de rede de esgoto no bairro, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos moradores e o meio ambiente. O abastecimento de água é feito a partir do rio Poxim, que cruza a cidade pelos bairros Jabutiana, São Conrado e deságua no rio Sergipe, no bairro 13 de Julho, e do Rio São Francisco da rede de adutoras. Na divisa com a cidade de Nossa Senhora do Socorro existe o Rio do Sal, de onde a prefeitura e particulares retiram água para regar os canteiros públicos e outras tarefas onde não há necessidade de se utilizar água potável.

No surgimento do teatro, na Grécia a arte era representada, essencialmente, por duas máscaras: a máscara da tragédia e a máscara da comédia. Aristóteles, em sua Arte Poética, para diferenciar comédia de tragédia diz que enquanto esta última trata essencialmente de homens “superiores” (“heróis”), a comédia fala sobre os homens “inferiores”, pessoas comuns da polis. Isso pode ser comprovado através da divisão do trabalho social dos júris que analisavam os espetáculos durante os antigos festivais de Teatro. Ser escolhido como jurado de tragédia era determinada comprovação de nobreza e de representatividade social. A comissão formada pelo júri da comédia era de cinco membros sorteadas da plateia. A importância da comédia, inicialmente de sentido político, era proporcional à possibilidade democrática do uso de sátira a todo tipo lúdico de ideia. É difícil analisar, sociologicamente, o que faz uma pessoa rir ou o que é engraçado ou não. Uma característica reconhecida da comédia é que ela é uma diversão intensamente pessoal, ou seja, que é próprio e particular culturalmente de cada pessoa. Ocorre por volta de meados do séc. VI quando Pisístrato transferiu o antigo e rústico festival dionisíaco dos frutos, para o coração da cidade de Atenas. Com as Dionísia Urbanas, que tinham no fim de março, o povo recebeu um magnífico festival popular em que podia cimentar seus interesses e exibir as glórias de seu Estado aos negociantes que visitavam a cidade. Elas eram consideradas tão sagradas, que violações menores eram punidas como sacrilégio. O Festival começava suntuosamente com uma procissão que escoltava uma antiga imagem de Dioniso, estudado por Friedrich Nietzsche, o “deus pai” do teatro, ao longo da estrada que conduzia à cidade de Eleutéria e regressava depois a Atenas à luz de tochas.

A imagem era colocada no métier da orquestra do teatro, com seus mitos e rituais de passagem, assentos reservados aos sacerdotes do deus, com extraordinária pompa. Uma das principais características da comédia é a constatação pública sobre o erro, o engano. O cômico está baseado no fato cultural ou político de um ou mais personagens serem enganados ao longo da peça. À medida em que o personagem vai sendo enganado e o equívoco aumentando, o público ri cada vez mais em seu processo de interação social. Em seu surgimento, ninguém, se não fosse constituído da cidadania estava a salvo de ser alvo das críticas populares da comédia: governantes, nobres e nem ao menos os deuses, como pode ser visto no ensaio: As Rãs, de Aristófanes (447 a. C. -385 a. C.). A comédia representa a utilidade social de humor nas artes. Também pode estar presente em um espetáculo, na história da arte, ou em determinado gênero, na modernidade, na sátira de um filme, que recorre intensivamente ao humor. Comédia é o que é engraçado per se, que nos faz rir graciosamente. Entetanto, uma das principais características da comédia é o engano. Frequentemente, o cômico está baseado no fato de um ou mais personagens serem enganados através de trocadilhos e gestos habituais na representação da peça. À medida que o personagem vai sendo enganado e o equívoco vai aumentando, o público envolvido vai gozando cada vez. A estética moderna de Alexander Baumgarten (1714-1762), que introduziu pela primeira vez o termo estética, se construiu como uma tentativa de indagar sobre a especificidade desse “outro saber” e, além disso, de fundamentar sua autonomia e o reconhecimento intelectualmente. Configurando a relação entre eles, como aquela entre duas formas autônomas no interior do mesmo processo gnosiológico, ela deixava, na sombra o problema fundamental como deveria ser interrogado.   A verdadeira percepção da natureza de qualquer fundamento.  

A natureza do conhecimento refere-se a dois aspectos básicos: quando se trata dos fundamentos indispensáveis ao saber, em referência a tais sentidos, quando Immanuel Kant formulou seu procedimento gnosiológico, resguardando por um lado, o espírito do idealismo, por outro, o subjetivismo. A importância de entender tais fundamentos, a essência das coisas materiais ou espirituais, que existem fora independente de nossa consciência, em que o sujeito de algum modo tem necessidade do entendimento. Só podemos conhecer o fenômeno a coisa para nós, a manifestação exterior da coisa em si, tal como ela apresenta a nossa percepção, do modo que chega até ao sujeito, o conhecimento não determina a essencialidade de um fato, não sintoniza a complexidade da referência, a dificuldade epistemológica do saber. O que significa que a matéria do conhecimento vem tão somente do objeto, dada pela experiência, a forma do conhecimento procede também do sujeito   não anterior a experiência pelo menos em parte, a defesa da valorização do campo empírico aplicado a lógica do entendimento, na perspectiva indutiva. Apresentando as formas do conhecimento e suas relações abstratas com a subjetividade e objetividade, o conhecimento por meio da posterioridade, ao que se refere ao campo empírico, sendo que o propósito a priori, as lógicas da convencionalidade servem as deduções construtivas, a finalidade aplicada ao fundamento da formalidade.                                    

As determinações das consciências são exatamente duas: a posterior e a priori, significando, portanto, que não existe realidade objetiva. Para Kant existe tão somente o nosso espírito, antes e, independente de qualquer experiência, mas o saber relativamente possível verifica-se apenas na aplicação do método empírico, não por caminhos da metafísica. Assim, existem duas formas principais de representação socialmente do saber epistemológico: da sensibilidade e do entendimento. As formas das sensibilidades, mais do que nunca, correspondem com o espaço (lugar) e tempo (história), que dão ordem nas sensações caóticas numa justaposição no espaço, na sucessão do objeto no tempo, tal perspectiva meramente histórica e sucessiva ao campo das mentalidades. As formas do entendimento denominadas de conceitos puros ou categorias sintetizam formando o entendimento do mundo exterior nas suas sensibilidades, idealizado pela lógica do sujeito enquanto consciência formulada a priori. O princípio do apriorismo kantiano é o da sensibilidade que os objetos são dados. A sensibilidade nos oferece intuições empíricas, mas é em última análise o entendimento humano que se reflete de forma objetiva a respeito dos objetos em operação desse conceito aparecem às formulações teoréticas. Esse padrão é nosso velho conhecido na fenomenologia, visto que a filosofia durante séculos de elaboração abstrata na história da civilização utilizou para reconhecer. Isto fica claro da seguinte maneira; se o saber é igual ao conceito e a essência corresponde o objeto, logo o conceito precisa corresponder ao objeto e vice-versa, basta para nós, portanto, verificar em nosso exame – diz Hegel – se o objeto corresponde ao conceito. Por isso, é necessário manter os dois momentos do exame; o conceito, quer dizer, ser para outro e o objeto consequentemente ser em si mesmo. 

Com isso verificamos que não é necessário um “padrão de medida”, um instrumento que capte o raio, mas, é necessário investigar a partir do que é dado, embora, aquilo que é dado fique no limite da própria consciência do que é verdadeiro é consciência do “seu saber da verdade”, pois o que estabelece a comparação é a própria consciência. No que inferimos desta relação entre limitações do discernimento, da consciência de si e da razão, Hegel se empenhou em apreender e expressar o verdadeiro não como substância, mas também, na mesma medida, como sujeito. Para Marx, o autor da “Fenomenologia do Espírito”, não se deu plenamente conta do quanto era concreta a atividade desse sujeito. “O único trabalho que Hegel conhece e reconhece” – escreve Marx – “é o trabalho espiritual abstrato”. Não enxerga o trabalho em toda a sua contraditória materialidade e por isso o idealiza e o vê de maneira unilateralmente positiva, minimizando a força da sua negatividade: a essência humana equivale para Hegel à consciência de si, em vez de reconhecer na consciência de si a consciência de si do homem, quer dizer, “de um homem real, que vive num mundo real, objetivo, e é condicionado por ele”. Por isso, Hegel, na leitura Marx, caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento, que se encontra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movimenta por si mesmo, enquanto o método dialético que consiste em elevar-se do abstrato ao plano concreto é para o pensamento precisamente a maneira de se apropriar do concreto, de reproduzi-lo como concreto espiritual (cf. Marx, 2011: 248).

 Lembramos que Hegel não é um idealista platônico para quem as Ideias constituem um campo ontológico superior à realidade material: elas formam um campo pré-ontológico das sombras. Esta é a tese defendida com sabedoria no ensaio de Slavoj Žižek: “Less Than Nothing” (2013). Para ele, o espírito tem a natureza como seu pressuposto e é simultaneamente a verdade da natureza e, como tal, o “absolutamente primeiro”; a natureza, portanto, “desvanece” em sua verdade, é “suprassumida” (aufgehoben) na identidade-de-si do espírito: Essa identidade, afirma Hegel na Lógica: “é a negatividade absoluta, porque o conceito tem na natureza sua objetividade externa consumada, porém essa sua extrusão é suprassumida, e o conceito tornou-se nela idêntico a si mesmo. Por isso só é essa identidade enquanto é retomar da natureza”. A estrutura triádica precisa dessa passagem, ao modo hegeliano mais que em sua dialética, todavia exemplar do ponto de vista da irrefutabilidade do conhecimento de apropriação do real: tese, o conceito tem na natureza sua objetividade externa consumada; antítese (“Porém”), essa sua extrusão é suprassumida e, por meio dessa suprassunção, o conceito atinge a identidade-de-si; síntese (“por isso”), ele só é essa identidade enquanto é retomar da natureza.

É nessa maneira que devemos entender a identidade como negatividade absoluta: a identidade-de-si do espírito surge por sua “relação negativa” (suprassunção) com esses pressupostos naturais, e essa negatividade é “absoluta” não no sentido que nega a natureza “absolutamente”, de que a natureza desaparece “absolutamente” (totalmente) nele, mas no sentido de que a negatividade da suprassunção (Aufhebung) é autorrelativa; em outras palavras, o resultado desse trabalho da negatividade é a identidade-de-si positiva do espírito. As palavras principais dessa passagem são: consumada e só. O conceito “tem na natureza sua objetividade externa consumada”: não há “outra” realidade objetiva, tudo o que “realmente existe” enquanto realidade é a natureza, o espírito não é outra coisa que se acrescenta às coisas naturais. É por isso que “só é essa [sua] identidade enquanto é retomar da natureza”: não há um espírito preexistente à natureza que, de alguma maneira, “exterioriza-se” na natureza e depois se reapropria dessa realidade natural “alienada” – a natureza completamente “processual” do espírito (o espírito é seu próprio devir, é resultado de sua própria atividade) significa que o espírito é somente (ou seja, nada mais que) seu “retorno-a-si-mesmo” a partir da natureza. Em outras palavras, o “retorno a” é plenamente performativo, o movimento do retorno cria aquilo para que ele retorne.

 Portanto, ao assumir o conceito hegeliano de dialética, Marx foi levado a modificá-lo, mas a perspectiva de Marx implicava não só uma reavaliação do papel do trabalho material na autocriação e na autotransformação do ser humano, como também exigia uma reavaliação dos trabalhadores como força material de trabalho capaz de dar prosseguimento à autotransformação histórica da humanidade. Porque pode fazer história na prática e revolucionar a estrutura dessa sociedade, em sua transitoriedade assimilando assim as conquistas mais profundas da filosofia. Utilizando o conhecimento para “superar/conservar” a situação particular de classe que lhes é imposta. Em sua concepção dialética da história, a filosofia materialista e dialética, assegura Marx, “não pode se realizar sem a superação do proletariado; e o proletariado não pode se superar sem a realização da filosofia”.  O modo de pensar dialético atento à infinitude do real e a irredutibilidade do real ao saber distingue os planos de análise e de realidade de quem opera. Implica uma interpretação constante da consciência no sentido dela se abrir para o reconhecimento do novo, inédito, no âmbito relacional das “mediações complexas” e das contradições que irrompem no campo visual do sujeito e lhe revelam a existência de problemas que não estava enxergando. Hegel é o primeiro a ter visibilidade na Filosofia relevando a tópica da consciência e da autoconsciência vis-à-vis à consciência comum.

A exigência do reconhecimento das contradições pode entrar em choque e, de fato com frequência entra, com exigências de outro tipo que são exigências ligadas às tarefas revolucionárias urgentes que a política representa, assim, aos homens e mulheres que compreendem ou sabem que a vida vive mudando e a sua consciência participa deste movimento. Em determinadas circunstâncias, o reconhecimento da complexidade e da contraditoriedade que legitima do quadro de ação pode paralisar, ou ao menos “entorpecer”, talvez como na religião, ou, “no mito religioso da leitura” a intervenção eficaz da visão em tais circunstâncias. Os dirigentes políticos das forças pragmaticamente comprometidas com a mudança radical tendem a mobilizá-las através de fórmulas nem sempre dialéticas, com exceção de V. I. Lenin - cujo efeito político específico lhes parece ser mais direto, imediato, objetivo e eficaz para a transformação social. Daí é que parte essa investida exemplar de Hegel, o grande tema hegeliano do caminho para a verdade como arte da verdade – para se chegar à escolha certa, é preciso começar com a escolha errada – reafirma a si mesmo. A questão não é que deveríamos ignorar Hegel, afirma Slavoj Žižek, mas sim que só podemos nos permitir ignorá-lo depois de um longo e árduo estudo de Hegel. A hora é exatamente a de repetir Hegel.

Na modernidade a comédia encontra grande espaço nos teatros como lugar praticado, devido a sua importância social e política enquanto forma de representação e de manifestação coletiva crítica em qualquer esfera: política, social, econômica. Encontra apoio merceológico no processo comunicacional de consumo de massa e é extremamente apreciada por grande parte do público consumidor da chamada indústria cultural ou de entretenimento. Assim, atualmente, não há grande distinção entre a importância artística da tragédia, ideologicamente reconhecida simplesmente como drama ou da comédia. Em defesa do gênero, o crítico de artes e cinema Rubens Ewald Filho lembra o ditado: - “Morrer é fácil, difícil é fazer comédia”. De fato, entre os artistas, reconhece-se que para fazer rir é necessário um ritmo, reconhecido como timing, especial que não é dominado tecnicamente por todos os humoristas. Uma característica reconhecida da comédia é que ela é uma representação social da diversão intensamente coletiva, mas pessoal. Para rir de um fato social ou político é necessário reconhecer: revendo, como na leitura, tornando a conhecer, como no trabalho incessante do aprendizado da escrita, tomando os fatos culturais subjetivamente como parte de determinado valor humano - os homens comuns - a tal ponto que ele deixa de ser mitológico, ameaçador e passa a ser banal, corriqueiro, usual e pode-se rir intensivamente dele. As pessoas com frequência não acham as mesmas coisas engraçadas, mas quando fazem isso pode ajudar a criar laços poderosos de afeto. 

Bibliografia Geral Consultada.

DUARTE, Adriane da Silva, Aristófanes. Duas Comédias: Lisístrata e As Tesmoforiantes. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2005; FRACALOSSI, Ivanilde Aparecida Vieira Cardoso, A Universalidade Subjetiva do Juízo de Gosto em Kant. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2008; SANTOS, Ana Márcia Barbosa dos, Sob a Lente do Discurso: Aspectos do Ensino de Retórica e Poética no Atheneu Sergipense (1874-1891). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Educação. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2010; ANTONIO, Edna Maria Matos, “A Independência do Solo que Habitamos”: Poder, Autonomia e Cultura Política na Construção do Império Brasileiro. Sergipe (1750-1831). Tese de Doutorado em História. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Franca: Universidade Estadual Paulista, 2011; ELIAS, Norbert, O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Volume 1. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2011; ŽIžEK, Slavoj, Menos Que Nada: Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013; LIMA, Elaine Ferreira, Enobrecimento Urbano e Centralidade: O Processo de Revitalização do Centro Histórico de Aracaju. Cidades e Patrimônios Culturais: Investigações para a Iniciação à Pesquisa. 1ª edição. Volume 1. São Cristóvão: Editora Universidade Federal de Sergipe, 2013; MENDES, Luziane Montezoli Damon, Aspectos Bioecológicos dos Caranguejos do Gênero Uca (Crustácea, Decapoda, Ocypodidae) no Manguezal de Itacuruçá/Coroa Grande, Baía de Sepetiba, RJ. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal. Rio de Janeiro: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2014; NAVARRO, Eduardo de Almeida, Curso de Língua Geral (Nheengatu ou Tupi Moderno): A Língua das Origens da Civilização Amazônica. 2ª edição. São Paulo: Editor Centro Angel Rama, 2016; CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre, A Invenção do Cotidiano. 2. Morar, Cozinhar. 12ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2018; BARBOSA, Isabela Maria Pereira, Entre o Ajeum e a Comida Afro-indígena: Mãe Neide Oyá e a Alimentação na Serra da Barriga, Alagoas. Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2018; QUEIROZ, Guilherme Lobão de, Gastronomia em Transe. Itinerário de Crise Estética da Comida Contemporânea. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Faculdade de Comunicação. Brasília: Universidade de Brasília, 2022; Artigo: “Festival do Caranguejo: Aracajuanos e Turistas Celebram a Cultura do Crustáceo”. Disponível em: https://www.aracaju.se.gov.br/28/11/2024; entre outros.