sábado, 17 de dezembro de 2022

Édith Piaf – Carisma, Canto Estridente & Dramático de Canção.

                                                 Minhas mágoas, meus prazeres, não preciso mais deles!”. Édith Piaf

         Édith Giovanna Gassion nasceu em 19 de dezembro de 1915, em Paris, filha de um acrobata normando e de uma cantora de café descendente de italianos. Sua infância pobre e difícil ocorreu ao lado da avó, que dirigia um bordel em Bernay, na Normandia. O nome Édith é homenagem a enfermeira britânica da 1ª grande guerra que foi executada por ajudar soldados franceses a escapar dos alemães. Piaf, um nome coloquial francês para um tipo de pardal, foi um apelido dado a ela 20 anos depois. A sua mãe, Annetta Giovanna Maillard (1895-1945), era pied-noir de ascendência franco-italiana por parte de pai e cabila-berbere por parte de mãe. Ela trabalhava com o pseudônimo de Line Marsa, tendo sido obrigada a deixar a profissão contra sua vontade após o casamento. Louis-Alphonse Gassion (1881-1944), o pai de Édith, era normando e acrobata de rua com um passado no teatro. Devido a dificuldades financeiras após a separação conturbada que tiveram em 1916, a mãe passou a sustentar a menina cantando em restaurantes, porém a abandonou em janeiro de 1918 com o ex-marido, quando Édith havia completado dois anos, pois decidiu ir embora de Paris para tentar seguir carreira artística como cantora. 

       Louis Gassion nasceu em uma família bastante pobre. Sua mãe, Louise Léontine Deschamps, foi artista de circo, antes de se tornar a patrona de um bordel em Bernay, na Normandia, apelidado de “os sete grandes”, e seu pai, Victor Alphonse Gassion, nascido em Falaise, em 18 de dezembro de 1850, filho de um barbeiro, figura “o primeiro acrobata de uma família de agricultores, da vila de Castillon, na região de Bayeux, e que se estabeleceu em Falaise no século XVIII. Annetta Giovanna Gassion (1895-1945) reconhecida como a mãe da cantora,  compositora e atriz de renome internacional Édith Piaf, considerada “a cantora nacional da França”. Annetta Gassion, foi anunciada profissionalmente sob o nome artístico de Line Marsa; foi cantora de cabaré e artista de circo, como artista equestre e corda bamba. Nascida Annetta Giovanna Maillard em 4 de agosto de 1895 em Livorno, Itália, filha de pais franceses que estavam em turnê como parte de uma trupe de circo itinerante. Seu pai, Auguste Eugène Maillard, veio da região do Loire, na França. Sua mãe, Emma, ​​era filha de Saïd ben Mohamed, de origem cabila, nascida em Mogador, Marrocos e Margherita (ou Marguerite) Bracco, que nasceu em Murazzano, Piemonte, Itália.  Marsa era cantora, artista de circo e equestre.  Seu nome artístico, Line Marsa, foi inspirado em La Marsa, porto da Tunísia, segundo seu filho Herbert. 

         Comparativamente mbora dissesse ter uma voz semelhante à de Édith Piaf, ela não obteve sucesso como cantora popularmente falando. Em 4 de setembro de 1914, ela se casou com Louis Alphonse Gassion, um cantor e contorcionista. No ano seguinte, em 19 de dezembro, ela deu à luz sua primeira filha, Édith Giovanna, que se tornaria Édith Piaf. Em 31 de agosto de 1918, ela deu à luz seu segundo filho, Herbert. Édith foi criada pela mãe de Annetta, Emma,​​de 1915 a 1918, quando foi enviada para a mãe de Louis Gassion devido à negligência de Annetta e Emma. Annetta e Louis se divorciaram em 4 de junho de 1929, supostamente por causa de seu abuso de substâncias. Ela nunca se casou novamente. Line Marsa morreu de overdose de drogas em Paris em 6 de fevereiro de 1945. Ela não foi enterrada no Père Lachaise, ao contrário de Louis-Alphonse Gassion. Marsa foi retratada por Clotilde Courau na cinebiografia de Piaf de Olivier Dahan em 2007, La vie en rose. Em 2021, o Comitato Unesco Jazz Day Livorno (em português: Comitê do Dia do Jazz da Unesco da cidade de Livorno), uma organização voluntária sem fins lucrativos fundada em 2012 pelo músico Andrea Pellegrini, declarou 4 de agosto Giornata degli Artisti di Strada (em português: Dia dos Artistas de Rua) para lembrar Line Marsa. O grafiteiro livorense Mart fez uma pintura na parede do parque público Villa Fabbricotti e uma placa de pedra: “Linha Marsa/(Anita Maillard)/ nacque a Livorno/4 agosto 1805”.

                                        

Édith Piaf com seus pais, Louis Alphonse Gassion e Line Marsa. Manuais de instruções existem, sim, na trama simbólica que constitui a cultura, que nos designa lugares, posições, deveres, traços identificatórios. Isto é, a representação de “identidade feminina” e “identidade masculina” são composições significantes que procuram se manter distintas, nas quais se supõe que se alistem os sujeitos, de forma mais ou menos rígida, dependendo da maior ou da menor rigidez da trama simbólica característica de uma sociedade determinada. Mas tal trama é sempre furada. Por um lado, a partir da própria condição de “universo-menos-um” que constitui o simbólico. Por outro, por conta do furo que a inserção de cada sujeito faz nela. O manual de instruções não dá conta, repito, do destino das pulsões – ao menos em se tratando do sujeito moderno, que é o próprio sujeito da psicanálise. Não dá conta da tarefa de tornar-se homem ou mulher, tornar-se sujeito do próprio desejo em oposição à alienação inicial a um discurso de autoridade que deve, ao longo de uma análise, ser destituído da posição de verdade. Assim, “qualquer enunciado de autoridade não tem nele outra garantia senão sua própria enunciação, pois lhe é inútil procurar por esta em outro significante”. Esse é o sentido do enunciado básico característico a sobre o desamparo humano – “não há Outro do Outro”.

Neste aspecto, segundo Kehl (2008), na falta de um Outro que tome a forma imaginária de um ser de amor para responder ao “che vuoi?” (o que queres?), o sujeito está condenado a inventar os sentidos de sua existência. Invenção que não pode ignorar, entretanto, os modos de inscrição de cada sujeito no discurso do Outro (agora tomado na dimensão simbólica), que é o discurso da cultura a que pertence. A primeira dessas inscrições, que nos é dada assim que nascemos, é a marca da diferenciação sexual. A primeira definição de uma criança, dada mesmo antes que o feto complete sua evolução, graças aos métodos atuais de ultrassonografia, é que seja “menino” ou “menina”. Significantes que indicam não apenas uma diferença anatômica, mas o pertencimento a um de dois grupos identitários carregados de significações imaginárias. É assim que, entre outras coisas, foi tatuado em cada um de nós que somos “homem” ou “mulher” sem que nossa passagem pelo mundo seja acompanhada de nenhum manual de instruções que dê conta do ajuste entre este “ser homem” ou “ser mulher” e a ínfima singularidade de nosso desejo. Maria Rita Kehl, nascida em Campinas, é uma psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária. Em 2010, venceu o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Educação, Psicologia e Psicanálise” com o livro: O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões e recebeu o Prêmio Direitos Humanos do governo federal na categoria “Mídia e Direitos Humanos”. 

Neta do escritor eugenista Renato Kehl (cf. Góes, 2015), formou-se em Psicologia pela Universidade de São Paulo, começou a escrever para o Jornal do Bairro enquanto ainda cursava a graduação. Fez parte do periódico por dois anos, na época dirigido por Raduan Nassar. Foi editora do noticioso Movimento, um dos mais importantes nomes do jornalismo alternativo durante o regime militar no Brasil, ao lado do Opinião e d’O Pasquim. Maria Rita também teve participação na fundação do jornal Em Tempo e já escreveu como jornalista freelancer para veículos de comunicação como Veja, Isto É e Folha de S. Paulo. Em 1979, cursou mestrado em Psicologia Social e elaborou a dissertação, intitulada: O Papel da Rede Globo e das Novelas da Globo em Domesticar o Brasil Durante a Ditadura Militar, de repercussão na área da comunicação. Em 1981, começou a atender pacientes diretamente e, desde então, não parou. Em 1997, concluiu o doutorado em Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,  com uma pesquisa que resultou no livro Deslocamentos do Feminino - A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (Imago Editora, 1998). Possui nove livros publicados. É psicanalista de membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  Em 2012, foi convidada a integrar a Comissão Nacional da Verdade, em 16 de maio daquele ano, para apurar as violações aos direitos civis ocorridas no período entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

O vetor da pulsão, segundo Kehl (2008), representa psicologicamente o objeto do desejo, os ideais, as identificações que vão fazer de cada um de nós não “homem” ou “mulher”, mas este homem ou esta mulher, podem estar disponíveis no nível simbólico, mas não estão organizados para cada um de nós. Essa concepção de sujeito, embora fundada em Ferdinand de Saussure e Jacques Lacan, questiona o modelo rigorosamente estruturalista do psiquismo: a possibilidade de cada analisando constituir, em final de análise, uma “estilística da existência” implica necessariamente a criação de novas perspectivas narrativas. Em Freud, todo neurótico é um narrador de sua “novela familiar” eternamente repetida, cheia de certezas imaginárias que justificam e dão sentido ao sintoma. Mas, nas narrativas neuróticas, o sujeito antes é falado – pelo Outro, pelos pais, pela estrutura em que se encontra – do que fala. Tais narrativas devem dar lugar, ao longo de uma análise, a outro enredo: este, o analisando vai escrever sozinho, tendo como primeiro interlocutor (leitor?) seu analista. A direção de uma cura, na expressão de Lacan, passa não por uma modificação da estrutura da linguagem que o sujeito habita, mas por uma modificação de suas práticas falantes. Dominar (relativamente) nossas práticas linguageiras, em vez de sermos  alienados a elas, eis uma possibilidade de cura vislumbrada pela psicanálise.

Victor Gassion torna-se um jovem cavalariço com a tropa equestre Louis Dianta em Sevilha; aos 11 anos, foi escudeiro do circo Napoléon Rancy, onde se juntou às quadrilhas com o nome de Gassion de Falaise, depois ao circo Ciotti com o qual viajou para a França e Suíça, para garantir compromissos de trabalho em circos mais famosos como Plège ou Rancy, incidentalmente fazendo o halterofilista, “o auguste ou o ato de equilíbrio”. Seu pai Louis Gassion tornou-se comerciante de vinhos e fabricante de limonada em Vaugueux, Caen, na esquina das ruas Portes au berger e Chanoine Ruel. A família montou um bazar denominado “La Grande Charbonnerie du Calvados”, depois com o Cirque de l`Impératrice. Originalmente com o nome Cirque d`Été (Summer Circus), representava um teatro equestre parisiense e  uma espécie de hipódromo coberto construído em 1841, com projetos do arquiteto Jacques Hittorff.  Era a casa de veraneio do Théâtre Franconi, trupe equestre do Cirque Olympique, cuja licença é vendida em 1836 a Louis Dejean por Adolphe Franconi, neto do fundador, Antonio Franconi (1738-1836) um habilidoso cavaleiro italiano. Ele começou como malabarista, profissionalmente, médico, mas também organizando touradas em cidades prósperas como Lyon e Bordeaux.

Em 1783, ele se associou ao cavaleiro inglês Philip Astley, que abriu uma escola de equitação em Paris e fundou um teatro equestre chamado Cirque Olympique, que adquiriu uma reputação impressionante. Seus filhos e netos continuaram a atrair o público com o talento de seus escudeiros e a perfeição de seu carisma em suas fantasias e peças militares. O último escudeiro famoso com este nome foi Laurent Franconi, que morreu em 1849. Certa vez, Napoleão comentou acidamente com seu marechal Joachim Murat, que estava alegremente vestido com um extravagante uniforme polonês após a Batalha de Heilsberg em 1807, que ele se parecia com Franconi – “Vous avez l`air de Franconi”.  Mais tarde, o circo também foi usado para outros fins, incluindo grandes concertos regidos por Hector Berlioz. O novo teatro localizava-se no lado Nordeste do Rond-Point da Champs-Élysées. Inicialmente chamado de Cirque National, também ficou reconhecido como Cirque des Champs-Élysées e Cirque Olympique des Champs-Élysées. Em 1853 foi renomeado para Cirque de l`Impératrice, em homenagem à nova Imperatriz Eugénie, um nome que manteve até a queda do império em 1870. A guerra, que teve início em julho de 1870, gerando derrotas francesas. Em agosto, Napoleão III já havia sido capturado pelas tropas prussianas. Louis Jules Trochu (1815-1896) foi um general e político francês. 

Ocupou o cargo de primeiro-ministro da França, entre 4 de setembro de 1870 a 18 de fevereiro de 1871. Além disso, Louis Trochu tentou comandar um “front” aparentemente de resistência política de um governo provisório, mas Paris foi cercada brutalmente pelos prussianos em 19 de setembro. Louis Alphonse teria sete irmãs, duas das quais morreram na infância. Filho do baile, iniciou sua carreira como contorcionista no circo Ciotti, circo equestre de origem italiana onde seu pai trabalhava, primeiro com a família e depois como solista. É um homem baixinho de corpo esguio que legará à filha Edith: pesa quarenta e quatro quilos por um metro e cinquenta ou cinquenta e quatro, o que aliado à sua flexibilidade o deixa pronto para a contorção acrobática. Depois do circo Ciotti, passou a fazer turnês com os circos Rancy e Beautour. Em toda parte, ele é apresentado como o antípoda, o homem que anda de cabeça para baixo, por um lado. No dia 4 de setembro de 1914, em Sens Yonne, ele teria se beneficiado de uma licença de três dias para se casar com Annetta Maillard, cantora conhecida pelo nome de Line Marsa. Esta união é selada na direção da Prefeitura, e o ato de casamento preservada nos arquivos municipais indica que a cerimónia teve lugar em 10 horas e 30 minutos, em 4 de setembro, enquanto a luta da 1ª grande guerra grassa no leste da França e os alemães ameaçam Paris. 

O escrivão de plantão naquele dia era Alphonse Dupêchez, deputado do senador-prefeito de Sens, uma comuna francesa administrativa de Borgonha-Franco-Condado, Lucien Cornet, e filho de Sylvain Dupêchez, ilustre prefeito da cidade, de 1872 a 1879.  A presença de Louis Gassion e Annetta Maillard em Sens é explicada pela incorporação de Louis, o 11 de agosto de 1914 no 89º Regimento de Infantaria. Nesse período, ele estava lotado no quartel de Gémeau, local posteriormente ocupado pela Academia Nacional de Polícia. Em seu livro Piaf, a verdade (2008), o biógrafo Emmanuel Bonini confirma que a mobilização da “segunda classe” Gassion é o único vínculo do casal com Sens: - “Eles se casaram lá durante uma licença de três dias, então estavam domiciliados em Paris, rue du Château des Pensioners no XIIIº distrito. Diz que “as quatro testemunhas do casamento - um tipógrafo de Vendôme, um gravador parisiense, um fazendeiro da comuna de Wissous e um vendedor de Savigny-sur-Orge, foram  mobilizadas em Sens, antes de se juntarem à frente”. Com a esposa, ele tem uma filha, nascida em 19 de dezembro de 1915, Édith, a futura Edith Piaf, que confiou por volta dos dois anos à sua mãe Louise Léontine em Bernay na Normandia, Titine, que mal amava o filho, porque a sua mulher não tinha fibra materna e tem dificuldade em cuidar do filho. Eles também têm um filho: Herbert Gassion nascido em 31 de agosto de 1918 em Marselha e falecido em 22 de janeiro de 1997 em Clichy. 

Em 1922, Louis Gassion, que acabava de conseguir uma nomeação no circo Caroli, levou consigo a menina de 9 anos, para viver em seu trailer a vida de artistas de pequenos circos itinerantes. Com mão ágil e pouca ternura pela filha, ele coleciona amantes. Então Louis sai do circo, começa para eles a vida de artista de rua independente: é na frente de “espectadores de segunda mão” que Edith, ao lado do pai, canta pela primeira vez em público. Pai e filha hospedados várias vezes na pequena cidade de Garrison de Mourmelon-le-Grand uma comuna francesa na região administrativa do Grande Leste, no departamento de Marne, onde ficava o music hall “Alcazar”. O 4 de junho de 1929, ele se divorcia da mãe de Edith e, no ano seguinte, a garota de 15 anos deixa o pai para cantar um dueto na rua com a amiga Simone Berteaut, reconhecida como Momone. Em 1932, ele se casou novamente com Jeanne L`Hôte, com quem teve uma filha, Denise, nascida em 8 de março de 1931, meia-irmã de Édith Piaf. Louis Gassion morreu em Paris de câncer no pulmão em 1944. Sua filha Édith o enterrou no cofre da família de Père-Lachaise, onde já repousa sua filha Marcelle, falecida em 1935. 

Gassion nasceu em 10 de maio de 1881 em Falaise, departamento de Calvados, França, localizado na região da Normandia, filho de Victor Alphonse Gassion, era um cavaleiro do circo, e Louise Léontine (nascido Deschamps), a dona de um bordel em Bernay, na Normandia. Ele tinha sete irmãs, duas das quais morreram jovens. Iniciou a carreira com o circo Ciotti, tornando-se contorcionista-antipodista. Artista que tem um domínio grande sobre o seu corpo e é muito flexível. A princípio, ele se apresentava em família, depois, sozinho. Em 4 de setembro de 1914, se casou com Annetta Giovanna Maillard, cantora de café nascida na Itália reconhecida pelo nome artístico de Line Marsa. Em 19 de dezembro de 1915, ela deu à luz sua primeira filha, Édith Giovanna, que se tornaria Édith Piaf. Ele deixou Édith aos cuidados de sua mãe quando ela tinha dois anos, depois que Annetta e sua mãe Emma negligenciaram cuidados. Eles tiveram um segundo filho, Herbert (1918-1997). Em 1922, Louis iria se envolver no circo Caroli, mas decidiu se tornar ator independente, viajando com vários circos itinerantes. Louis fazia Édith cantar para a multidão depois que se apresentava. Foi quando ela percebeu seu talento para cantar. Em 4 de junho de 1929, Louis se divorciou de Annetta, “devido ao abuso de substâncias dela”. Em 1932, quando Édith partiu com o namorado Louis Dupont e a amiga Simone Bertaut, casou-se com Jeanne Georgette L`Hôte, com quem teve uma terceira filha, Dénise, nascida em 1931. Gassion morreu de câncer em 3 de março de 1944 em Paris, aos 62 anos.

            Sem recursos financeiros e sozinho com a filha, Louis-Alphonse, o pai de Édith a deixou aos cuidados de sua avó materna, Emma Aïcha Saïd ben Mohammed (1876-1930), que era negligente com Édith, “batendo na menina, deixando-a sozinha em uma saleta com fome, e também não cuidava da sua higiene”. Ela ficou dezoito meses com a avó, mas quando o seu pai soube desta situação, decidiu levar a filha consigo, mas não pôde ficar com ela, pois precisou se alistar na armada francesa, para lutar na guerra mundial. Seu pai, mesmo relutando, levou-a para que ficasse com a avó paterna de Édith. Sua avó e as demais prostitutas cuidaram da pequena Édith, em especial a meretriz Titine, que a criou por três anos como sendo sua própria filha. Dos cinco aos seis anos, Édith ficou parcialmente cega, devido a uma queratite. De acordo com uma de suas biografias, ela curou-se depois de sua avó tê-la levado em uma viagem “até a cidade de Lisieux, para que Édith pudesse orar no túmulo de Santa Teresa de Lisieux”. O túmulo é um local popular de peregrinação francês, onde oram para agradecer ou pedir alguma bênção. Uma semana após esse episódio voltou a enxergar. Esse episódio a fez tornar-se uma católica fervorosa lendo a Bíblia, orando de joelhos com seu terço, e usando seu crucifixo. Por toda a vida, Édith Piaf conservou grande devoção à Santa Teresinha, a quem atribuía todas as suas conquistas na vida cotidiana. Teresa de Lisieux nascida de nome Marie-Françoise-Thérèse Martin (1873-1897), reconhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, foi uma freira carmelita descalça francesa, e um dos mais influentes modelos de santidade para católicos e religiosos em geral, por seu “jeito prático e simples de abordar a vida espiritual”.

            Juntamente com São Francisco de Assis, é uma das santas mais populares da história da Igreja. São Pio X chamou-a de “a maior entre os santos modernos”. Teresa recebeu cedo seu chamado para a vida religiosa e, depois de superar inúmeros obstáculos, conseguiu, em 1888, com apenas quinze anos, tornar-se freira para juntar-se às suas duas irmãs mais velhas na comunidade carmelita enclausurada em Lisieux, na Normandia. Depois de nove anos, tendo ocupado funções como sacristã e assistente da mestra das noviças, Teresa passou seus últimos dezoito meses numa “noite de fé” e morreu de tuberculose com apenas vinte e quatro anos de idade. O impacto de sua “A História de uma Alma”, uma coleção de seus manuscritos autobiográficos publicados e distribuídos um ano depois de sua morte foi tremendo e ela rapidamente tornou-se um dos santos mais populares do século XX. Pio XI fez dela a “estrela de seu pontificado”, beatificando-a em 1923 e canonizando-a dois anos depois. Teresa foi também declarada co-padroeira das missões com São Francisco Xavier em 1927 e nomeada co-padroeira da França com Santa Joana d`Arc) em 1944. Em 19 de outubro de 1997, João Paulo II proclamou Teresa a trigésima-terceira Doutora da Igreja, a pessoa mais jovem e a terceira mulher a ter recebido o título. Além de sua autobiografia, Teresa deixou também cartas, poemas, peças religiosas e orações. Suas últimas conversas foram também preservadas por suas irmãs. Pinturas e fotografias, a maioria de sua irmã Céline, ajudaram na popularidade por todo o mundo.

         O papa Pio X assinou o decreto autorizando a abertura do processo de canonização de Teresa em 10 de junho de 1914. Bento XV, para acelerá-lo sine ira et studio “dispensou os costumeiros cinquenta anos requeridos entre a morte e a beatificação”. Em 14 de agosto de 1921, ele próprio promulgou o decreto das virtudes heroicas de Teresa e discursou sobre o “caminho de confiança e amor” de Teresa, recomendando-o a toda a cristandade. Teresa foi beatificada em 29 de abril de 1923 e canonizada em 17 de maio de 1925 por Pio XI, apenas 27 anos depois de sua morte. Sua festa foi incluída no Calendário Geral Romano em 1927 na data de 3 de outubro. Em 1969, o papa Paulo VI moveu a festa para 1º de outubro, o dia de seu “nascimento celeste” (dies natalis). Ela é padroeira dos aviadores, floristas, dos doentes e das missões. É considerada também padroeira da Rússia pelos católicos, mas a Igreja Ortodoxa Russa não reconhece nem sua santidade e nem o padroado. Em 1927, Pio XI nomeou Teresa padroeira das missões e, em 1944, Pio XII proclamou-a co-padroeira da França com sua heroína de infância, Santa Joana d`Arc. Através da carta apostólica Divini Amoris Scientia (“A Ciência do Amor Divino”), de 19 de outubro de 1997, João Paulo II (1920-2005) proclamou Teresa uma Doutora da Igreja, melhor dizendo, mais uma das quatro mulheres a terem recebido a honra até então. As outras eram Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Siena e Santa Hildegarda de Bingen. Em algumas biografias de Édith Piaf, em 1922, a cantora, uma criança desconhecida de sete anos - foi curada de uma cegueira depois peregrinar aoo túmulo de Santa Teresinha ainda não havia sido canonizada.

Em 1922, quando tinha sete anos seu pai conseguiu reunir condições financeiras para tirá-la da companhia da avó, contra a vontade de Édith, que sofreu ao separa-se de Titine, a que mais lhe dava afeto onde convivia. Seu pai levou-a para viverem juntos no circo itinerante em que ele trabalhava. A companhia circense viajava por toda a França. No circo, Édith apaixonou-se pelo mundo artístico e decidiu que queria ser artista como o pai. Porém, ele saiu do circo três anos depois devido a constantes desentendimentos com o patrão. Em 1925, ele voltou para Paris com a filha, e a matriculou numa escola pública pela manhã, já que Édith não pôde estudar no período que morou no circo, sempre em trânsito em uma cidade diferente. Seu pai passou a trabalhar por conta própria fazendo acrobacias nas ruas parisienses. Ao término das aulas, Édith acompanhava o pai nas suas apresentações, recolhendo o dinheiro, mas o público sempre questionava qual número circense a menina fazia. Édith ficava calada, pois não sabia qual era seu talento. Um dia, a menina de dez anos, que, tentando improvisar alguma apresentação, decidiu cantar o hino nacional francês, A Marselhesa, sendo muito aplaudida pelo pequeno público que se aglomerava. Vendo o talento da filha, ambos mantiveram esse trabalho nas ruas de Paris: Seu pai fazia performances acrobáticas e Édith cantava.

Aos 15 anos, ela e o pai iniciaram diversas brigas. Ele temia que a jovem tivesse o mesmo destino da mãe, não aceitando a vocação artística da filha, não querendo que ela tentasse ter uma carreira profissional como cantora e se frustrasse, queria lhe arrumar um casamento. Sem o pai saber, Édith já escrevia as suas primeiras canções, e quando não estava se apresentando nas ruas, fazia pequenas apresentações em estabelecimentos locais e ganhava um pouco de dinheiro. Desesperada, e querendo lutar por seus sonhos, Édith fugiu de casa, deixando uma carta de despedida para seu pai, indo viver em um quarto alugado, no Grand Hôtel de Clermont, na rua Veron, 18, em Paris. Nesta época começou a se apresentar publicamente em restaurantes e bares nos bairros nobres de Quartier Pigalle e Ménilmontant, e bairros pobres do subúrbio de Paris. Juntou-se à atriz iniciante, que frequentava suas apresentações, Simone Berteaut (1916-1975), apelidada de Mômone e as duas tornaram-se amigas inseparáveis, tendo ido morar juntas em um pequeno quarto no subúrbio parisiense, para dividir o aluguel. Após um ano que Édith havia saído de casa, e seu pai tentava convencê-la a voltar, o que ela não queria. Estava com 16 anos quando se apaixonou pela primeira vez, por Louis Dupont (1915-1965), um rapaz três anos mais velho, e entregador de pães, o seu primeiro namorado.         

Após três meses de namoro, ela deixou o quarto que vivia com sua amiga e foi morar no quarto alugado que Louis Dupont vivia sozinho. Inicialmente, ela o ajudava com as despesas cotidianas, pois ele não se opôs a sua profissão de cantora, embora Édith Piaf fosse alvo de preconceito por ser, contraditoriamente, na sociedade classista, uma mulher financeiramente independente. Aos 17 anos, em 11 de fevereiro de 1933, em Paris, Édith deu à luz de parto normal no mesmo hospital em que nasceu, a sua única filha, Marcelle Léontine Gassion Dupont. A partir daí, o seu casamento entrou em crise, pois o marido passou a humilhá-la e agredi-la, impedindo que ela voltasse a cantar. Quando sua filha fez um ano de vida, ela decidiu sair de casa. Não queria deixar a menina, mas sabia que a noite não era um lugar saudável para uma criança frequentar. Assim, com as economias que tinha, voltou a morar sozinha, embora mais distante, se escondendo de seu ex-marido. A filha adoeceu após a sua partida. Estabelecida, mesmo ainda com pouco dinheiro, Édith voltou seis meses depois para buscá-la, mas seu ex-marido não a deixou vê-la, e a justiça nada fez para ajudar a jovem artista a recuperar a menina, pois a forte censura conservadora, sendo contra os artistas, era a favor da falsa moralidade dos bons costumes. Impedida de ver sua filha e sofrendo muito, não pôde mais voltar a procurá-la.

Marcelle faleceu de meningite, com dois anos de idade, em 7 de julho de 1935, e foi enterrada no Cemitério do Père-Lachaise, onde posteriormente Édith também foi enterrada, ao lado de sua filha. A relação familiar conturbada de Édith com seu pai, que a artista voltou a procurar para uma reconciliação, porém sem êxito. As brigas com sua mãe, que reapareceu, mas só queria o dinheiro da cantora, aliado ao adoecimento e falecimento de sua única filha, causaram danos psicológicos profundos em Édith, que se culpava no momento, desenvolvendo uma profunda depressão, com diversas tentativas de suicídio. A cantora levou a dor imensurável da perda de sua filha até o fim de sua vida. O que levou a dedicar-se de corpo e alma a sua carreira, optando por nunca mais querer ter filhos. Após reencontrar sua amiga Mômone e voltarem a morar juntas, Édith começou a cantar em praças, boates, bares e também bordéis. Lá conheceu seu segundo namorado, um cafetão chamado Albert. A relação tornou-se abusiva com o tempo, onde ele passou a ameaçá-la: Em troca de não a forçar a se prostituir, “cobrava comissões sobre o dinheiro que ela ganhava cantando”. Ele passou a prendê-la no bordel, e impedir que ela cantasse em outros locais. Sua amiga tentou ajudar, mas a polícia sem formação, tratava cantoras como prostitutas. Após agressões, humilhações e abusos sexuais, conseguiu terminar definitivamente o relacionamento, quando fugiu do bordel, após descobrir que ele também era um assassino, e que uma colega que contavam na noite, chamada Nádia, cometeu suicídio, para não querer se tornar prostituta. Alguns autores sugerem que Hipócrates possa ter tido conhecimento da existência de meningite.

Alguns médicos pré-renascentistas, como Avicena, aparentam ter tido conhecimento do meningismo. A descrição da meningite tuberculosa, então denominada “hidropisia cerebral”, é geralmente atribuída ao médico escocês Sir Robert Whytt (1714-1766), tendo sido publicada num relatório póstumo revelado em 1768. No entanto, a associação da tuberculose com o seu patógeno só seria estabelecida no século seguinte. A meningite epidêmica aparenta ser um fenômeno relativamente recente na história da humanidade. A primeira grande epidemia documentada ocorreu em 1805 na cidade de Genebra. Nos anos seguintes foram descritas diversas epidemias na Europa e nos Estados Unidos. O primeiro relato de uma epidemia em África data de 1840. As epidemias no continente africano formam-se tornando muito mais comuns ao longo do século XX. Entre 1905 e 1908 ocorreu uma grande epidemia que varreu a Nigéria e o Gana. A primeira descrição da infeção bacteriana como causa subjacente da meningite foi feita pelo bacteriologista austríaco Anton Weichselbaum (1845-1920), que em 1887 descreveu o meningococo. Os primeiros relatórios da doença indicam que a mortalidade era muito elevada, com cerca de 90% dos pacientes a evoluir para morte. Em 1906, o cientista norte-americano Simon Flexner desenvolveu um antissoro produzido em cavalos que proporcionou uma diminuição acentuada da mortalidade da doença meningocócica. Em 1944 constatou-se que a penicilina era um fármaco eficaz no tratamento da meningite. Em finais do século XX, a introdução da vacina contra o Haemophilus influenzae do tipo B resultou numa queda acentuada nos casos de meningite associada a este patógeno.

Édith Piaf teve uma vida marcada por sofrimentos e tragédias, o que lhe rendeu uma série de biografias, criando diversas controvérsias e dúvidas acerca de alguns fatos reais de sua história. Devido a problemas de saúde, Piaf ficou cega com 3 anos de idade, recuperando a visão alguns anos mais tarde. No início da adolescência, Piaf passou a acompanhar o pai em algumas apresentações circenses. Aos 15 anos já cantava nas ruas de Paris, em cafés, feiras e praças. Neste período, apaixonou-se por um soldado da Legião Estrangeira, com quem teve uma filha, Marcelle, que morreu antes de completar dois anos de idade. Após tentar inutilmente mostrar seu trabalho a algumas gravadoras e editoras, foi descoberta por Louis Leplée, dono de um cabaré famoso. Foi ele quem a iniciou na vida artística e a batizou “Piaf” - passarinho. La vie en rose é uma canção francesa, que se tornou conhecida mundialmente na voz de Édith Piaf, considerada por muitos a maior cantora francesa de todos os tempos. Virou a canção-assinatura de Piaf após ter sido lançada em 1946 e fazer um estrondoso sucesso em todo o mundo. A letra foi escrita por Piaf em 1945 e a melodia por seu parceiro Louis Guglielmi. A sua versão single em discos, lançada em 1947, já vendeu milhões de cópias por todo o mundo, sendo sempre relançada em diversos discos da artista, como a favorita do público de Piaf. Reconhecida internacionalmente, Edith Piaf (1915-1963) se tornou um símbolo da canção francesa. Durante a 2ª guerra mundial (1939-1945), Edith Piaf era a cantora mais importante na França e apresentava-se para as tropas da França ocupada, muitas vezes acusada de traição pelos seus compatriotas. Além disso, ao que parece ela trabalhava como uma infiltrada da resistência francesa. Sua consagração aconteceu depois guerra, quando se tornou a musa de poetas e intelectuais da Paris existencialista e ganhou a admiração incondicional do público. Piaf voltou aos grandes cenários da França, da Europa e da América do Norte. 

Ficou amiga de Marlene Dietrich e se tornou a grande dama da canção francesa, ajudando talentos emergentes como Charles Aznavour, Georges Moustaki, Yves Montand e relacionando-se com intelectuais como Jean Cocteau. Em 1946, Piaf gravou a marcante canção La Vie en Rose, uma das músicas mais conhecidas do mundo. Após a morte do seu novo amor, Marcel Cerdán, devido a um acidente de avião, a cantora escreveu Hymne à l’Amour. Nos anos 1950, a dona de uma voz marcante conquistou uma projeção internacional e, enquanto tentava se livrar do vício na morfina, a cantora casou-se com o cantor Jacques Pills (1910-1970) e manteve relações amorosas com Charles Aznavour, um cantor francês de origem armênia, também letrista e ator, além de ser um dos mais populares e longevos cantores da França, ele foi também um dos cantores franceses mais reconhecidos no exterior e George Moustaki, nascido no Egito, de pais judeus gregos de Corfu, uma ilha grega do mar Jônico situada na costa da Albânia, de que é separada por estreitos variando em comprimento de 3 a 23 km, incluindo um perto de Butrint e outro perto de Tesprócia. A ilha é uma unidade regional da Grécia, pertencente a região das Ilhas Jônicas. Sua capital é a cidade de Corfu, a principal cidade da ilha, onde está a Universidade Jónica, ipso facto onde cresceu em um ambiente entre judeus, gregos, italianos, árabes, franceses e cedo se apaixonou pela literatura e pela canção francesas, particularmente por Édith Piaf. Transfere-se para Paris em 1951, onde trabalha como jornalista e depois barman em um piano-bar, o que o leva a personalidades, como Georges Brassens, que terá grande influência sobre sua carreira e de quem adota o nome. Em 1958, encontrará Édith Piaf. Para ela escreverá Milord e terá um rápido e intenso romance. Em 1974, em homenagem à Revolução dos Cravos, gravou a canção Portugal, versão do Fado Tropical de Chico Buarque e Ruy Guerra, composta dois anos antes para a peça Calabar.

Com o fim da segunda guerra, ela se tornou famosa no mundo todo e viajou a través da Europa, dos Estados Unidos e inclusive para a América do Sul. Na década do 1950 ficou ainda mais popular depois da sua aparição em programas de televisão como o show de Ed Sullivan, onde se apresentou por oito vezes e teve um impacto nunca antes visto no público da América. Dona de uma voz inconfundível, ficou famosa pelo modo quase teatral de interpretar suas músicas, como as clássicas La Vie en Rose (1946), de sua autoria e Non Je ne Regrette Rien (1956). Tornada clássica, La vie en rose já foi gravada por dezenas de cantores, inclusive uma versão do gênero fado em 1960, pela cantora portuguesa Amália Rodrigues, pop em 1977, na voz da cantora e atriz jamaicana Grace Jones, e depois usado na trilha sonora do filme Prêt-à-Porter, de 1994, que se passa durante a temporada das coleções de moda em Paris, mesclando o enredo com cenas reais dos desfiles e de seus bastidores. O filme, que tem a participação de dezenas de atores e atrizes em pequenos papéis, também conta com a presença de diversas celebridades do mundo da moda, como modelos e designers famosos em imagens reais. Robert Altman faz uma radiografia crítica e satírica do hedonismo, egocentrismo e futilidade existente no universo da moda. Aparece também no filme O Senhor das Armas em 2005, com Nicolas Cage no elenco. Em 1998, a canção deu título ao documentário feito sobre a vida de Édith Piaf e entrou para o Hall da Fama do Prêmio Grammy. Em novembro de 2003, foi gravada pela cantora Cyndi Lauper, em seu álbum de regravações clássicas At Last. No Filme Wall-E, 2008, é interpretada na voz de Louis Armstrong com a versão da música em inglês, que tinha sido escrita em 1950 por ele. Na série How I Met Your Mother, a personagem Tracy McConnell canta a versão realizada pelo extraordinário Louis Armstrong (1901-1971). No Filme A Star Is Born (2018), a personagem Ally interpretada pela fascinante Lady Gaga, canta a canção num bar drag queens no momento em que o seu personagem reconhece o par romântico.

Bibliografia geral consultada.

PIAF, Édith, Les Amants de Paris. London: Editor Tony Watts, 2000; Idem, As Cartas de Amor de Édith Piaf. Tradução de Anna Maria Capovilla. 1ª dição. São Paulo: Amarilys Editora, 2012; OLIVA NETO, João Angelo, Falo no Jardim: Priapéia Grega, Priapéia Latina. Campinas: Editora Unicamp, 2006; TOURAINE, Alain, El Mundo de las Mujeres. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007; ANDRÉ, Jacques, Aux Origines Féminines de la Sexualité. Paris: Presses Universitaires de France, 2007; CARNEIRO, Henrique Figueiredo, “Piaf: um Hino ao Amor”. In: Revista Mal Estar e Subjetividade. Volume 7, nº 2, pp. 581-585, 2007; KEHL, Maria Rita, Deslocamentos do Feminino. A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2008; BURKE, Carolyn, Piaf: Uma vida. São Paulo: Editora Leya, 2012; BELLERET, Robert, Piaf, un Mythe Français. Paris: Editeur Fayard, 2013; GONÇALVES, Helena da Conceição, A Francofonia e a Formação de Professores de Francês Língua Estrangeira no Estado do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem. Instituto de Letras. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2014; GÓES, Weber Lopes, Racismo, Eugenia no Pensamento Conservador Brasileiro: A Proposta de Povo em Renato Kehl. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. Faculdade de Filosofia e Ciências. Marília: Universidade Estadual Paulista, 2015; FLÉOTEUR, Claude, Edith Piaf, Dix Minutes de Bonheur par Jour, c`est Déjà pas Mal. Paris: Editeur Le Cherche-Midi, 2015; RICHER, Ginou, Piaf, Mon Amie. Paris: Denoël Editeur, 2015; DIDIER-WEILL, Alain, Os Nomes do Pai. Rio de Janeiro: Editor Contracapa, 2015; FRAISSE, Geneviève, Los Excesos del Género: Concepto, Imagén e Desnudez. Madrid: Ediciones Catedra, 2016; POMMIER, Gérard, Lo Feminino, una Revolución sin Fin. Buenos Aires: Ediciones Paidós, 2018; BARBOSA, Ana Mae; AMARAL, Vitória, Mulheres Não Devem Ficar em Silêncio: Arte, Design e Educação. São Paulo: Editora Cortez, 2019; FRAGOSO, Fedro; VALENTE, Heloísa de Araújo Duarte, “Os Últimos Dias de Édith Piaf: De Persona Vocal a Ícone da Cultura Midiática”. In: Revista Hipótese. Itapetininga (SP), volume 7, pp. 1-20, fevereiro de 2021; Artigo: “Com Letícia Sabatella, Piaf e Brecht - A Vida em Vermelho”. Disponível em: https://acessocultural.com.br/2022/06/02; entre outros.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Comunidade Amish - Memória da Guerra & Destino Social de Grace.

                                    Instead of putting others in their place, put yourself in their place”. Provérbio Amish

            A primeira visita documentada a terras canadenses por navegadores europeus ocorreu em 1497 ou 1498, quando o veneziano ao serviço de Inglaterra Giovanni Caboto, reconhecido em inglês como John Cabot aportou à Terra Nova. Alguns historiadores compreendem que há indícios que a Terra Nova já teria sido rebuscada pelo navegador português João Vaz Corte Real em 1472, ou antes e por Diogo de Teive e o seu piloto Pero Vasques Saavedra em 1452. A colonização europeia começou efetivamente no século XVI, quando os britânicos, e principalmente, os franceses estabeleceram-se pelo Canadá. Os britânicos não tiveram uma forte presença no antigo Canadá, instalando-se originalmente na Terra de Rupert, sendo que a região dos Grandes Lagos e do Rio São Lourenço, bem como a região que atualmente compõe as províncias de Nova Escócia e Novo Brunswick, estava sob domínio territorial dos franceses. A Nova França e a Acádia continuavam a se expandir. Essa expansão territorial não foi bem aceita pelos iroqueses, e, também pelos britânicos e os colonos rearranjados das chamadas Treze Colônias, desencadeando uma série de batalhas que culminou, em 1763, no Tratado de Paris, no qual os franceses cederam seus territórios da Nova França e da Acádia aos britânicos.

            Os iroqueses eram primariamente nômades. Até o século XVII, formavam o que é chamado de nação iroquesa. Esta nação indígena é composta pelos seguintes povos Seneca, Cayuga, Onondaga, Oneida, Mohawk e Tuscarora, formando uma confederação distribuída entre o Canadá e os Estados Unidos, no estado de Nova Iorque e província de Quebec. Os iroqueses foram estudados, no século XVIII, pelo missionário jesuíta J. F. Lafitau (1681-1746), que chegou a conviver com eles. Sua obra, Mœures des Sauvages Américains Comparées aux Mœurs des Premiers Temps, publicada em 1724 (cf. Silva, 2015), descreve os princípios básicos da sociedade iroquesa em relação a sua matriarcalidade e matrilinearidade. Lafitau abordou também os ritos de casamento, os jogos, lazer, doenças, enterros, língua, caça, educação e a divisão de trabalho entre os iroqueses, enfocando seus estudos na religião. Para ele, os iroqueses possuíam a sua religião, diferentemente de pensadores anteriores, que afirmavam que os índios não tinham religião alguma, embora esta não fosse tão organizada quanto a religião católica. Embora possuíssem religião, eram desprovidos de leis e política. Demonstra, também, que a religião dos nativos deturpava a “verdadeira” religião: o Catolicismo. Ao estudar os iroqueses, J. C. Lafitau distinguiu características positivas, como a coragem, e negativas, como vingança e cobiça, inovando ao utilizar o método de análise comparativo, ao comparar os iroqueses aos heróis de Homero, na comunidade científica europeia, se idealizavam os gregos e romanos. 

Lafitau enaltecia os iroqueses, ao dizer que as construções náuticas desses povos eram parecidas, mas também os denegria, afirmando que a brutalidade dos heróis de Homero não se distinguia da ferocidade dos iroqueses, ferocidade esta que ele considerava como sendo inata. Mesmo assim, a importância social e histórica se deu pelo que deixou os nativos mais humanos, diferentemente de pensadores da filosofia moral como Bernard Mandeville (1670-1733) que assemelhavam os nativos a monstros. A Economia dos iroqueses tem como escopo a produção comunal e ao sistema combinado de horticultura e de caçador-recoletor. As tribos da Confederação Iroquesa e outras do Norte do continente americano que compartilhavam idioma (iroquês), como o povo Huron, viviam na região do atual Estado de Nova York e a Região dos Grandes Lagos. A Confederação Iroquesa compunha-se de seis tribos existentes antes da história da colonização europeia da América. Mesmo não sendo iroquês, o povo Huron entrava no mesmo grupo linguístico e compartilhava economia com os iroqueses. Os hurões, huronianos, wyandot ou wendat representam um grupo de indígenas agricultores da América do Norte. Antigamente, viviam em tribos de até mil membros. Em suas aldeias, que eram geralmente fortificadas, eles chegavam a construir casas comunais de até 60 , semelhante aos iroqueses (outro povo indígena norte-americano que habitou o território correspondente ao Canadá). Eles possuíam uma língua comum e sobreviviam do cultivo de feijão, milho e abóbora. A caça e a pesca forneciam alimento adicional aos huronianos que possuem várias reservas em Quebec e nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos, em 1812, invadiram o Canadá Inferior e o Canadá Superior, na tentativa de anexar o resto das colônias britânicas na América do Norte, desencadeando a Guerra de 1812. Os Estados Unidos não tiveram sucesso, recuando ao tomarem conhecimento da chegada de tropas britânicas enviadas para combatê-los, mas, ocuparam temporariamente as cidades de York (atual Toronto) e Quebec, queimando-as ao se retirarem. Como o Reino Unido ainda mantinha o controle das relações exteriores do Canadá, ao abrigo da Lei da Confederação, com a declaração britânica de guerra em 1914, o Canadá foi automaticamente envolvido na 1ª grande guerra. O Canadá declarou guerra à Alemanha de forma independente durante a 2ª guerra mundial sob o governo do primeiro-ministro liberal William Lyon Mackenzie King, três dias após o Reino Unido. As primeiras unidades do Exército canadense chegaram na Grã-Bretanha em dezembro de 1939. Em 1919, o Canadá entrou na Liga das Nações, independentemente do Reino Unido e, em 1931, o Estatuto de Westminster, afirmou a Independência do Canadá. O Domínio de Terra Nova (Terra Nova e Labrador), equivalente do Canadá e da Austrália como um domínio, uniu-se ao Canadá em 1949. O crescimento do Canadá, combinado com as políticas dos sucessivos governos liberais, levou ao aparecimento de uma nova identidade canadense, marcada pela adoção da atual bandeira, em 1965, a aplicação do bilinguismo oficial ocorreu em 1969, e o multiculturalismo oficial em 1971. O Quebec passou por profundas mudanças sociais e econômicas através da “Revolução Tranquila”, dando origem a um movimento separatista radical na província Front de libération du Québec (FLQ), cujas ações culminaram na Crise de Outubro de 1970.

O termo Amish surgiu originalmente do nome do líder religioso Jakob Amman (1644-1712), um suíço anabatista, defensor radical da Reforma Protestante, a Igreja Mennonita, que debateu fervorosamente ideias religiosas para que a Bíblia fosse interpretada de forma literal. Por conta de sua influência, houve uma ruptura entre os radicais, e os seguidores de Amman ficaram reconhecidos como Amish. No contexto da comunidade Amish, além de os anabatistas pertencerem a uma ala radical da Reforma são contra o batismo de bebês. Segundo acreditam, esse ritual só deve ser realizado quando o cristão for capaz de aceitar a sua fé. Assim, geralmente, os Amish se batizam provavelmente entre os 18 e os 22 anos de idade e, só depois disso, eles podem realizar o desejo se casar, e apenas com membros de sua própria igreja, evidentemente. Ao contrário de outros grupos cristãos, que tentam converter pessoas para a sua fé, os Amish não participam de “missões” nem de “trabalhos de evangelização” para aumentar o número de fiéis. Quem quiser se converter primeiro precisa aprender o dialeto falado pelos Amish, derivado do alemão, abandonar os luxos da vida moderna, passar uma temporada na comunidade e ser aceito por meio de uma votação. Os Amish são contra as formas de violência e, ipso facto, os membros da comunidade não ingressam nas Forças Armadas de seus países.

Rumspringa se refere ao rito de passagem (cf. Van Gennep, 1978), compreendendo um período de “liberdade” ao qual os adolescentes têm direito quando atingem os 16 anos de idade. Os mais comuns são os ligados a nascimentos, mortes, casamentos e formaturas. Em nossa sociedade, os ritos ligados a nascimentos, mortes e casamentos são praticamente monopolizados pelas religiões. Durante o Rumspringa, os jovens podem fazer uma série de coisas que eles normalmente seriam proibidos de fazer, como ir ao cinema e aprender a dirigir, por exemplo, embora alguns aproveitem “para provar bebidas alcoólicas e até drogas”. Basicamente, as mulheres das comunidades Amish se limitam apenas serem “donas de casa e se ocupam de cozinhar, costurar, limpar, organizar o lar e ajudar os vizinhos”. Em locais públicos, elas quase sempre são vistas seguindo os maridos. Os homens têm papel dominante nas comunidades, e é possível distinguir os casados dos solteiros por conta da barba. Apenas pela barba, já que “os bigodes são proibidos”. As crianças são alfabetizadas em escolas paroquiais por integrantes da comunidade e, mais tarde, em casa por membros de sua família para realizar atividades relacionadas com a agricultura e carpintaria. Os membros que não andarem na linha podem sofrer duras consequências. Dependendo da infração, os transgressores são isolados pela  comunidade para que envergonhados, assim voltem para a igreja onde seus erros são apontados.

Ritos de passagem são celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no interior de sua comunidade. Os ritos de passagem (cf. Van Gennep, 1978) podem ter caráter social, comunitário ou religioso.  Ritos de passagem são aqueles que marcam momentos importantes na vida das pessoas. Os mais comuns são os ligados a nascimentos, mortes, casamentos e formaturas. Em nossa sociedade, os ritos ligados aos nascimentos, mortes e casamentos são praticamente monopolizados pelas religiões. Já as formaturas não costumam ser, em si, religiosas, mas frequentemente têm importantes momentos religiosos. O termo foi popularizado pelo antropólogo franco-holandês Arnold van Gennep no início do século XX, mas também desenvolvido por Mary Douglas e Victor Turner na década de 1960. Em todas as sociedades chamadas pela antropologia colonialista de “primitivas”, determinados momentos na vida de seus membros eram marcados por cerimônias especiais, reconhecidas como “ritos de iniciação” ou “ritos de passagem”. Essas cerimônias, mais do que representarem uma transição ritual para o indivíduo, representam sua progressiva aceitação e participação tanto na sociedade local e simultaneamente global em que está disponível, sendo a representação social de cunho tanto individual quanto coletivamente.

Geralmente, a primeira dessas cerimônias era praticada dentro do próprio ambiente familiar, logo em seguida ao nascimento. Nesse rito, o recém-nascido era apresentado aos seus antecedentes diretos, e era reconhecido como sendo parte da linhagem ancestral. Seu nome, previamente escolhido, era então pronunciado para ele pela primeira vez, de forma solene. Anos mais tarde, ao atingir a puberdade, o jovem passava por outra cerimônia. Para as mulheres, isso se dava geralmente no momento da primeira menstruação, marcando o fato que, entrando no seu período fértil, estava apta a preparar-se para o casamento. Para os rapazes, essa cerimônia geralmente se dava no momento em que ele fazia a caça e o abate do primeiro animal. Ligadas, portanto, ao derramamento de sangue, essas cerimônias significavam a integração daquela pessoa como membro produtivo da tribo: ao derramar sangue para a preservação da comunidade pela procriação ou pela alimentação, ela estava simbolicamente misturando o seu próprio sangue ao sangue do seu clã. Variadas cerimônias marcavam, ainda, a idade adulta. Entre os nativos norte-americanos, algumas tribos praticavam um rito onde a pele do peito dos jovens guerreiros era trespassada por espetos e repuxada por cordas. A dor e o sangue derramado eram, dessa forma, considerados como uma retribuição à Terra das dádivas que a tribo recebera até ali. Outras cerimônias seguiam-se, ao longo da vida. O casamento era uma delas, e os ritos fúnebres eram considerados como a última transição, aquela que propiciava a entrada no chamado “reino dos mortos” e garantia o retorno futuro ao “mundo dos vivos”.

Nas sociedades contemporâneas muitos desses ritos subsistiram embora muitos deles esvaziados do seu conteúdo de sentido simbólico. Batismo e festas de aniversário de 15 anos, por exemplo, são resquícios desse tipo de cerimônia, que hoje representam muito mais um compromisso social do que a demarcação do início de uma nova fase na vida do indivíduo. No entanto, a troca do símbolo pela ostentação pura e simples, acaba criando a desestruturação do padrão social. Os ritos de passagem estão inseridos em algumas das religiões afro-brasileiras, estando mais presentes no Culto de Ifá, nos rituais   Candomblé e Culto aos Egungun que, seguindo as tradições africanas, fazem o ritual do nascimento, ritual do nome quando uma criança é “apresentada ao Orun e ao Tempo, ritual de iniciação ou feitura de santo, algumas fazem o ritual do casamento, o ritual fúnebre e o ritual do Axexê quando a pessoa iniciada morre”. A Umbanda e Quimbanda não incluem os ritos de passagem, nem feitura de santo propriamente dita, uma vez que não incorporam Orixás, usa-se o termo “fazer a cabeça” onde pode existir a catulagem e pintura, porém a cabeça não é raspada completamente, e não tem imposição do adoxú. A reclusão nesses casos é de 3 a 7 dias, feita a instrução esotérica, aprendizado das rezas e pontos riscados e cantados, e é feita a apresentação pública naquele espaço reservado.

Isto porque na segunda metade do século XIX, os amish se dividiram em vários subgrupos, dentre os quais os amish da antiga ordem incluem aproximadamente um terço da comunidade. A maioria dos subgrupos perderam suas peculiaridades amish, não da ordem antiga, mas assimilaram-se mais ou menos à sociedade majoritária norte-americana. Os subgrupos amish mais ou menos assimilados e que ainda existem são os menonitas amish e os beachy amish. Os primeiros amish começaram a migrar para os Estados Unidos da América no século XVIII, para evitar perseguições e o serviço militar obrigatório. Os primeiros foram para o condado de Berks, Pensilvânia. É um dos 67 do estado norte-americano da Pensilvânia. A sede e maior cidade do condado é Reading. Foi fundado em 11 de março de 1752. O condado possui uma área de 2 242 km², dos quais 24 km² estão cobertos por água, uma população de 411 442 habitantes, e uma densidade de 185,5 habitantes/km² segundo o censo nacional de 2010.

Se a indisciplina for considerada grave como adquirir um computador, ser pego tomando bebidas alcóolicas e não ajoelhar durante o culto, os acusados podem ser banidos e expulsos, e todo e qualquer contato com essas pessoas é completamente cortado. O mais interessante é que, apesar de ser um grupo incrivelmente conservador e com regras pra lá de severas, estima-se que entre 80% e 90% das crianças Amish crescem e permanecem na comunidade. Uma das festividades mais icônicas dos Amish é a construção de celeiros, quando a comunidade se reúne para edificar para um dos membros do grupo, e o gesto serve para simbolizar o ato de desprendimento pessoal e o intuito de ajudar os demais. Amish representa um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos da América e no Canadá. São reconhecidos pelos costumes ultraconservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis. Quando se fala dos amish, quase sempre se refere aos amish da antiga ordem (“Old Order Amish”).

As relações entre Canadá e Estados Unidos abrangem mais de dois séculos. Isto inclui uma herança colonial britânica compartilhada, conflitos entre 1770 e 1812, e o eventual desenvolvimento de um dos relacionamentos de maior sucesso internacional no mundo moderno. Um é o principal parceiro econômico do outro, e o turismo em grande escala e a migração entre as duas nações aumentou as semelhanças. A ruptura mais grave na relação bilateral ocorreu com a Guerra de 1812, que viu uma invasão dos Estados Unidos da então América do Norte Britânica, e contra-invasões de forças britânico-canadenses. A fronteira foi desmilitarizada após a guerra e, além de incursões menores, manteve-se pacífica. Um volume intenso de comércio e migração entre os Estados Unidos e o Canadá tem gerado uma maior aproximação, especialmente após a assinatura do Acordo de Livre Comércio Canadá - Estados Unidos, em 1988. Canadá e os Estados Unidos representam a maior parceria comercial do mundo. Além disto, as duas nações possuem a maior fronteira compartilhada do planeta, com 8.891 km de extensão, e também mantêm significante interoperabilidade na área de defesa e segurança.

As recentes dificuldades nas relações canadiano-americanas devem-se às disputas comerciais, questões sobre o meio ambiente (habitat) e à constante preocupação do governo canadense sobre a exportação petrolífera. Apesar disto, o comércio manteve o crescimento, especialmente após a solidificação da Nafta, bloco econômico formado pelos três países da América do Norte, é marcado pelo protagonismo dos Estados Unidos da América e pelas várias críticas existentes. O Nafta – sigla em inglês para Tratado Norte-Americano de Livre Comércio – é um bloco econômico composto por Estados Unidos, México e Canadá de cooperação em diversas áreas, troca de recursos, serviços e população permanecem fortes com o estabelecimento de agências de inspeção de fronteiras que atuam em ambos os territórios. No florescer da Revolução Americana, os revolucionários esperavam o apoio dos franco-canadianos no Québec e colonialistas na Nova Escócia, sendo que ambos os grupos estavam previamente autorizados a unir forças com o Exército Continental pelos Artigos da Confederação.

Quando o Canadá foi invadido, milhares uniram-se à causa americana e formaram regimentos que combateram durante o restante do conflito; contudo a maioria dos canadenses mantiveram neutralidade ou passaram ao lado britânico. A Grã-Bretanha salientou que os direitos dos franco-canadenses já haviam sido assegurados pelo Ato do Québec, o qual foi visto pelas colônias americanas como um dos Atos Intoleráveis. A invasão americana foi um fiasco e os britânicos ampliaram seus domínios aos territórios do norte. Em 1777, uma grande invasão britânica a Nova Iorque desencadeou a rendição de todo o Exército Britânico em Saratoga e culminou na entrada da França no conflito ao lado dos americanos. Após a Guerra da Independência, o Canadá se tornou refúgio de cerca de 75 mil legalistas que desejavam ou foram compelidos a deixar os Estados Unidos. Entre os legalistas, 3.500 eram afro-americanos. A maioria mudou-se para Nova Escócia, em 1792, 1.200 migraram para Serra Leoa. Cerca de 2 mil africanos foram escravizados por colonos legalistas nesta condição até a abolição da escravidão em 1833. Antes de 1860, cerca de 30 mil africanos entraram no Canadá.             

A maioria das comunidades Amish que foram estabelecidas na América do Norte, no final não mantinham sua identidade Amish. A divisão principal que resultou na perda de identidade de muitas congregações amish ocorreu no terceiro quartel do século XIX. Nos anos após 1850, as tensões aumentaram entre os Amish. Entre 1862 e 1878, foram realizadas conferências ministeriais anuais, sobre a questão como os amish deveriam lidar com as tensões causadas pelas pressões da sociedade moderna. Não foi possível chegar a um compromisso entre os amish tradicionalistas e os amish mais progressistas o que levou a isso, que os bispos mais tradicionais concordaram em boicotar as conferências. Os amish progressistas, compreendendo cerca de dois terços, tornaram-se conhecidos pelo nome menonitas amish (Amish Mennonites), eventualmente, a grande maioria unira-se à igreja menonita e outras denominações menonitas no início do século XX. Os grupos tradicionais são conhecidos amish da antiga ordem (Old Order Amish). Como nenhuma divisão ocorreu na Europa, as congregações Amish que lá permaneciam, tomaram o mesmo caminho que os menonitas amish e lentamente se fundiram com os menonitas. Estimativas do início da década de 2000 registravam a existência de 198 mil membros da comunidade Amish no mundo, sendo 47 mil apenas na Pensilvânia. Esses grupos são compostos por descendentes de algumas centenas de alemães e suíços que migraram para os Estados Unidos da América e o Canadá. Os amish preferem viver afastados do restante da sociedade. Eles não prestam serviços militares, não pagam a Segurança Social e não aceitam qualquer forma de assistência do governo. Todos evitam até mesmo fazer seguro de vida. 

        A grande maioria fala um dialeto alemão reconhecido como “Alemão da Pensilvânia”. Eles dividem-se em irmandades (affiliations), que por sua vez se divide em distritos ou congregações. Cada distrito é independente e tem suas próprias regras de convivência. - Homens usando ternos e chapéus pretos e mulheres com a cabeça coberta por um capuz branco e com um vestido preto. Os amish não gostam de ser fotografados. Interpretam com a Bíblia, que um cristão não deve manter sua própria imagem. Eles acreditam também que ser fotografado mostra falta de humildade. O filme A Testemunha, com Harrison Ford, mostra o modo de vida dos amish.  É um filme norte-americano de 1985, do gênero policial, dirigido por Peter Weir e baseado em história social de Pamela Wallace, William Kelley e Earl W. Wallace. A viúva Rachel e seu filho amish Samuel, de oito anos, pretendem viajar para Baltimore, mas na estação de trens da Filadélfia, o menino presencia o assassinato de um policial e reconhece outro policial como o assassino. Para protegê-los, John Book, o policial encarregado do caso, resolve levá-los de volta para a comunidade a que eles pertencem e que recusa os benefícios da vida moderna. Ao ser ferido pelos assassinos, o detetive precisa permanecer na comunidade até que se recupere da enfermidade e encontra dificuldades para se adaptar ao novo estilo de vida. Ao final os suspeitos e John travam uma batalha final. O culto Amish é praticado desde a mesma concepção do Anabatismo da Reforma, consiste quase não de atos rituais, mas principalmente de sermão e canção. Dunkers ou Igreja dos Irmãos (Schwarzenau Brethren) representam grupos de cristãos de doutrina pietista-anabatista organizados na Alemanha no século XVIII. 

Em agosto de 1708, no distrito de Schwarzenau, sob a liderança de Alexander Mack, um grupo de oito pessoas do movimento pietista alemão, foi batizado por trina imersão no Rio Eder, o batismo suevo da epístola De Trina Mersione, escrita por Martinho de Dume. Esse grupo de pietistas sofreu profunda influência anabatista, o que o levou a essa decisão pelo rebatismo. Também reconhecidos como Neu Taufers (“novos batistas”), Tunkers, Dunkers ou Irmãos Batistas Alemães, organizaram-se sem muita hierarquia, proclamando, diferentemente de outros anabatistas, que só tinham como credo o Novo Testamento, chegando a dizer só a Jesus Cristo. Perseguidos no Velho Continente, em 1720 haviam imigrado para a Pensilvânia, povoada por imigrantes quakers tolerantes. Não se considerando evangélicos nem católicos, os Tunkers mantiveram crenças peculiares, como ágape, o batismo por trina imersão e o ósculo santo. Eram, a princípio, universalistas, acreditando na salvação de todos, pacifistas radicais, não escravagistas e apolíticos. Entretanto, durante a pasagem  do fim do século XIX para o século XX, dividiram-se em várias denominações, algumas mais liberais e com o maior número de membros; outras mais conservadoras, como os amish não usam automóveis, apenas carroças e charretes, eletricidade, telefone e se vestem de forma peculiar. Algumas se tornaram evangélicas.

De acordo com Max Weber (2003) historicamente a doutrina da predestinação é também o ponto de partida do movimento ascético conhecido como pietismo. Na medida em que o movimento social permaneceu dentro da Igreja Reformada, é quase impossível traçar a linha entre os calvinistas pietistas e os não-pietistas. Quase todos os principais representantes do puritanismo são às vezes classificados como pietistas. É legítimo considerar-se toda a conexão entre a predestinação e a doutrina da prova, com seu fundamental interesse pela obtenção da certitudo salutis, como um desenvolvimento pietista das doutrinas originais de Calvino. A ocorrência de revivescências ascéticas dentro da Igreja Reformada, em especial na Holanda, foi regularmente acompanhada por uma regeneração da doutrina da predestinação temporariamente esquecida, ou não estritamente conservada. Daí, não ser costumeiro na Inglaterra o uso do termo pietismo. Mesmo o uso do pietismo continental na Igreja Reformada (holandês e do Baixo Reno), pelo menos fundamentalmente, como, por exemplo, as doutrinas de Bailey, nada mais foi que uma simples intensificação do ascetismo reformado. Foi posta tanta ênfase na práxis pietatis que a ortodoxia doutrinal passou para segundo plano, parecendo às vezes, de fato, quase um assunto sem importância. Aqueles predestinados para a graça podiam ocasionalmente estar sujeitos ao erro dogmático assim como a outros pecados, e a experiência mostrou que frequentemente aqueles cristãos que quase não tinham orientação da teologia acadêmica exibiam claramente os frutos da fé, e ficou evidente que o mero conhecimento da teologia não garantia a prova de fé através da conduta.

A eleição não podia ser aprovada pelo conhecimento teológico. O Pietismo, com uma profunda desconfiança na Igreja dos Teólogos da qual oficialmente ainda pertencia, começou a reunir os adeptos da chamada práxis pietatis em conventículos separados na trradição do mundo. Ele desejava tornar, a invisível Igreja dos eleitos, visível nesta terra. Sem chagar a formar uma seita separada, seus membros tentaram viver nesta comunidade uma vida livre das tentações do mundo, e ditada as minúcias pela vontade divina, para, assim, tornarem-se seguros de sua própria redenção, por sinais externos manifestos em sua conduta diária. Deste modo, a eclesiola dos verdadeiros convertidos – isto era comum a todos grupos genuinamente pietistas – desejava, por meio do ascetismo intensificado, gozar a bem-aventurança da comunidade com Deus nesta vida. Esta última tendência tinha algo que se aproximava da unio mystica luterana, e muitas vezes levou a uma ênfase maior no lado emocional da religião, do que aceita pela média dos calvinistas ortodoxos. O que é singular na sociologia clássica, e Max Weber acentua, é que se pode dizer que é esta característica decisiva do Pietismo desenvolvido dentro da Igreja Reformada, pois este elemento de emoção, originalmente, bem estranho ao calvinismo, estava relacionado com certas formas religiosas medievais, levou a religião na prática a empenhar-se muito mais no gozo da salvação do que na luta ascética pela certeza do mundo futuro.

Além disso, a questão da emoção podia ter tanta intensidade que a religião assumiu um caráter positivamente histérico, assim resultando na alternação reconhecida por inúmeros exemplos e neuropatologicamente compreensíveis, de estados semiconscientes, de êxtase religiosa com períodos de exaustão nervosa, que eram sentidos como “abandono” de Deus. O efeito era, exatamente o oposto da disciplina estrita e temperada sob a qual os homens eram colocados pela sistemática vida de santidade no puritanismo. O pietismo da Europa continental e o metodismo dos povos anglo-saxões são considerados movimentos secundários, tanto em seu conteúdo de ideias, como em sua importância histórica. No entanto, encontramos ao lado do calvinismo uma segunda fonte independente do ascetismo protestante no movimento batista e nas seitas que, no decorrer dos séculos XVI e XVII dele se derivaram, quer diretamente, quer por adoção de suas formas de pensamento religioso: os batistas, menonitas, e, principalmente, os quakersCom elas, chegamos a compreender a relação social entre grupos religiosos cuja ética está em uma base que difere, em princípio, da doutrina calvinista. 

As ideias mais importantes de todas essas comunidades, que são importantes e cuja influência no desenvolvimento da cultura somente pode ser esclarecida em uma conexão diferente, são algo com que já estamos familiarizados: os crentes da Igreja. Isto significa que a comunidade religiosa – a “Igrejas visível” na linguagem das Igrejas da Reforma – já não era considerada como um tipo de fundação de confiança para fins extraterrenos, como uma instituição que necessariamente incluísse tanto os justos como os injustos, seja para enaltecera glória de Deus (calvinista), seja como um meio de trazer aos homens os meios de salvação (católica e luterana), mas apenas como uma comunidade de pessoas que creem na renovação, e somente estas. Em outras palavras, não uma igreja, mas uma “seita”. Só isto é que deveria simbolizar o princípio, em su puramente externo, de que apenas os adultos que tivessem pessoalmente adquirido sua própria fé deveriam ser batizados. A justificação através desta fé era para os batistas – como eles insistentemente repetiam em todas as discussões religiosas – radicalmente diferente da ideia de “trabalho no mundo” a serviço de Cristo, tal como estabelecia o dogma ortodoxo do velho protestantismo. Ela consistia mais na tomada de posse espiritual de Seu dom da Salvação. Esta ocorria através da revelação individual: pela ação do Divino Espírito no indivíduo, e apenas deste modo. 

Os chamados Brethren batistas alemães são mais conservadores e usam a veste peculiar da tradição Tunker. No fim do século XIX os ramos mais liberais que defendem uma ampla gama de pontos de vista, dependendo da sua compreensão desses princípios, estiveram entre os primeiros cristãos a permitir que mulheres pregassem, e, no princípio do século XX, elas podiam ser ordenadas no ministério. Nos anos de 1980 começou uma discussão, ainda em curso, sobre a plena aceitação de gays e lésbicas e também a sua ordenação. O culto é voltado a Deus e não tem o carácter per se evangelizador, portanto, práticas como “chamada ao altar” ou “aceitar Jesus” não existem. Não constroem igreja, assim reúnem-se em casas privadas ou celeiros. As mulheres sentam-se separadas dos homens e cobrem a cabeça com um véu. O culto inicia com uma invocação de algum dos anciãos, seguem-se hinos, cantado do hinário Ausbund, que é o mesmo texto desde o século XVI e não contém notação musical. Há dois sermões, um mais curto e um mais longo. Entre os sermões há uma oração onde todos se ajoelham silenciosamente até que algum membro masculino ore convicto pela igreja. A leitura e pregação da Bíblia é realizada extemporaneamente, sem sermões preparados e os anciãos (Älteste ou Elders) abrem as Escrituras aleatoriamente. Seguem uma oração do ministro e uma benção final.

A congregação se despede com um ósculo santo, também reconhecido por “beijo da paz”, foi uma forma de cumprimento criada por Jesus Cristo, segundo a religião cristã. O ato consiste em dar um beijo na face de outra pessoa, em sinal de fraternidade. Com os lábios cerrados, o beijo é descrito apenas como um toque sútil em alguma parte do rosto da pessoa. Uma das maiores comunidades Amish no mundo ocidental fica na Pensilvânia. Em outubro de 2006, uma chacina na escola Amish resultou na morte de cinco crianças entre 6 e 13 anos, além do atirador de 32 anos que se suicidou. O atirador era um motorista de caminhão de leite que atendia a comunidade. Fez reféns 10 meninas. No mesmo dia, membros da comunidade visitaram a família de Roberts (o motorista) para dizer que o perdoavam. No enterro das meninas, o avô de uma das vítimas disse às outras crianças: - “não devemos odiar aquele homem”. O fato social inspirou o filme Grace. Os Amish são vezes confundidos com comunidades reservadas, como os Menonitas traditionais, os Dunkers ou os Huteritas. Os costumes como não usar energia elétrica, é o que fazem deles tão diferentes. Eles também não usam aparelhos eletrônicos.

Finalizando, Marshall McLuhan foi um arguto pensador e destacado teórico da comunicação social canadense, reconhecido por vislumbrar a rede mundial de comunicação - internet - quase trinta anos antes dela possa ter sido implementada. Ficou também famoso por sua máxima de interpretação da realidade social segundo a qual “O meio é a mensagem”, e por ter cunhado o termo comunicativo de Aldeia Global. O mais importante não é o conteúdo da mensagem, mas o meio de trabalho através do qual a mensagem é transmitida. Isto porque independente da sua utilidade, afeta a sociedade de algum modo além da finalidade para a qual foi criado. Ele tinha o objetivo de indicar que a utilidade de uso de novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias e o progresso social entre elas tende a reduzir todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia: um mundo em que todos estariam, de certa forma, interligados. Foi pioneiro dos estudos culturais e filosófico das transformações sociais provocadas pela revolução tecnológica do computador e das redes de telecomunicações. Em 1921, Marshall demonstrou sua aptidão para o manejo das comunicações ao construir um receptor para captar transmissões de uma rádio do centro-oeste americano. Em meados da década de 1930, começou a lecionar na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Interessou-se social e tecnologicamente pelo estudo da cultura popular. Após se fixar converteu-se ao catolicismo, decisão favorecida pela leitura da coletânea de ensaios de Gilbert Keith Chesterton “What`s wrong in the world” (2006).   

A sua obra: Understanding Media: The Extensions of Man, de 1964, apresenta-se como aquela onde aflora toda a tessitura integrada nesta emissão comunicativa. No entanto, viria a fazer outra: The Place of Thomas Nashe in the Learning of His Time para a Universidade de Cambridge, em 1942, na qual analisou a história social das artes verbais clássicas, a saber a Gramática, a Retórica, e a Lógica, reconhecidas também, nos tempos medievais, como parte do trivium. É precisamente nessa abordagem histórica que Marshall McLuhan mergulha, referindo-se que o desenvolvimento-chave conducente ao Renascimento foi, precisamente, uma alteração na importância dada à lógica, sendo relegada perante a retórica e a própria linguagem. O ressurgimento da gramática surge, para o canadense, como a principal caraterística da vida contemporânea, naquilo que é o entendimento dos objetos per se. As influências sofridas por McLuhan no seu trabalho incluíram um filósofo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin. Algumas das ideias veiculadas anteciparam o que seria a maturidade do seu pensamento, em especial o desenvolvimento da mente humana até ao estado de noosphere. Este foi um dos conceitos mais rebatidos em The Mechanical Bride, em que a externalização dos sentidos, naquilo que é a feitura do chamado “cérebro tecnológico” para todo o mundo, acaba por ser monitorizada por uma entidade capacitada de regular essa informatização do mundo. A coexistência e a interdependência surgem como valores imprescindíveis perante o medo da parametrização e vigilância.

Em 1944, regressou ao Canadá para lecionar durante dois anos na Assumption University, uma universidade católica em Windsor, Ontário, Canadá, federada com a Universidade de Windsor. Foi fundada em 1857 como Assumption College pela Sociedade de Jesus e incorporada por uma lei do Parlamento do Alto Canadá, recebendo Royal Assent, em 16 de agosto de 1858.  Sua mãe era batista, professora de colégio e atriz. Seu pai era metodista e corretor de imóveis. Em 1915, a família, de origem escócio-irlandesa, mudou-se para Winnipeg, na área leste do Canadá. Em 1951, publicou o ensaio: The Mechanical Bride: Folklore of Industrial Man. Em 1952, tornou-se professor catedrático no St. Michael's College da Universidade de Toronto. Entre 1953 e 1955, dirigiu o Seminário sobre Cultura e Comunicações patrocinado pela Fundação Ford. Com o antropólogo Edmundo Carpenter (1922-2011), reconhecido por seu trabalho em arte tribal e mídia visual, lançou o publicação de revista sob a forma de artigos,  Explorations e editou a antologia Explorations in Comunication (1960). Na década de 1960, já detinha uma sólida reputação como teórico da comunicação social, tendo sido contratado pelo U.S. Office of Education e pela National Association of Educational Broadcasters. Em 1962, publicou a obra máxima: The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man, que lhe proporcionou o Prêmio Governador Geral de 1963.  Recebeu a Ordre du Canada em 1970, uma ordem nacional e a segunda maior honra ao mérito de ordens, condecorações e medalhas. Antecede apenas para a participação na Ordem de Mérito, que é o dom pessoal do monarca do Canadá.

No livro, o acadêmico analisa os efeitos sociais da mídia massiva e da invenção da imprensa na cultura e na consciência europeia. Foi essa obra que popularizou o termo e o conceito da aldeia global, alusão à intensa integração globalizada através dos meios de comunicação em massa. Mas a teoria crítica diferia dessa condição em vários aspectos. Antes de tudo, recusava-se a “fetichizar” o conhecimento como algo separado da ação e superior a ela. Além disso, reconhecia que a pesquisa científica desinteressada era impossível em uma sociedade em que os próprios homens ainda não eram autônomos, o pesquisador era sempre parte do objeto social que tentava estudar. Num comentário em que respondia a Marshall McLuhan, trinta anos antes da recente popularidade deste, Max Horkheimer escreveu: - “Inverta a frase que diz que as ferramentas são extensões dos órgãos dos homens, para que os órgãos também sejam extensões das ferramentas dos homens” – uma injunção endereçada até mesmo ao cientista social “objetivo”, positivista ou intuicionista. Os dois extremos interpretavam mal as subjetividades culturais, vendo-a como totalmente autônoma ou contingente. Apesar de ser parte da sociedade, o pesquisador não era incapaz de se elevar nela. Na verdade, era seu dever revelar as forças e tendências negativas da sociedade para outra realidade.             

Na mesma conjuntura, assumiu a diretoria do Centro de Cultura e Tecnologia da Universidade de Toronto. Em 1964, publicou Understanding Media: The Extension of Man, no qual prosseguia suas análises a respeito das consequências da televisão, do telefone, do rádio e dos computadores para a reestruturação da percepção humana do mundo contemporâneo. Em 1966, proferiu palestras no Simpósio sobre Tecnologia e Comércio Mundial do National Bureau of Standards, na Associação de Linguagem Moderna e na Sociedade de Relações Públicas da América. Também foi convidado a assumir a cátedra de humanidades Albert Schweitzer (1875-1965), importante teólogo, organista, filósofo e médico alemão, na Fordham University, universidade privada, sem fins lucrativos e católica dos Estados Unidos, com três campi ao redor da cidade de Nova Iorque. Fundada pela Diocese Católica Romana de Nova Iorque em 1841. No ano seguinte, publicou The Medium is The Message: An Inventory of Effects. Em 1968, publicou Guerra e Paz na Aldeia Global, prevendo que o mundo deixaria de se tornar tribal e fragmentado passando a uma aldeia integrada pela tecnologia elétrica. Marshall McLuhan permaneceu na Universidade de Toronto até 1979, quando teve um derrame que afetou sua habilidade de falar. Nunca mais se recuperou falecendo em 1980.

Bibliografia geral consultada.

VAN GENNEP, Arnold, Os Ritos de Passagem. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1978; ATTEBERY, Brian, The Fantasy Tradition in Amoricnn Literature; from Irving to Le Guin. Bloominccton: Indiana University Press, 1980; TURNER, Victor, El Proceso Ritual. Estructura y Antiestructura. Versión revisada por Beatriz García Ríos. Madrid: Ediciones Taurus Alfaguara, 1988; Idem, Selva de los Símbolos. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1990; MASKE, Wilson, Bíblia e Arado. Os Menonitas e a Construção do Seu Reino. Trabalho de Mestrado. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 1999; WEBER, Max, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição. São Paulo: Editora Pioneira, 2003; MESQUITA, Luciano Pires, A Guerra no Pós-Guerra: O Cinema Norte-americano e a Guerra do Vietnã. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2004; PEREIRA, Vinícius Andrade, “Consciência e Memória como Objetos da Comunicação: O Approach de Marshall McLuhan”. In: Revista Famecos. Porto Alegre, nº 24, julho 2004; SANTOS, Bruno César Leon Monteiro, Oneida: A Mobilização Indígena no Processo de Independência Estadunidense (1766-1777). Dissertação de Mestrado. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Departamento de História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2016; LÖWEN SAHR, Cecilian; HEIDRICH, Álvaro Luiz, “Translocalidades Menonitas no Contexto da América Latina e do Caribe: Reflexões a partir do Caso do Paraguai”. In: Revista Geousp – Espaço e Tempo. Volume 20, nº 3, pp. 536-550, 2016; MILHOMEM, Fredson Coelho Heymbeeck, A Crise da Comunidade na Religiosidade Pós-Moderna sob a Perspectiva de Zygmunt Bauman. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Escola de Formação de Professores e Humanidade. Goiânia: Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2016; ALONSO, Nicolás, “Os Amish Ganham Disputa com o Mundo Moderno”. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/25/; CARDOSO, Tatiana Cristina, Americanismo e Cinema Hollywoodiano no filme A Felicidade não se Compra. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em História. Faculdade de História. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2018; TIRABOSCHI, Fernanda Franco, (De)colonialidades na Educação Literária em Língua Inglesa: Construção Crítico-colaborativa de Sentidos Rumo a Travessias Interculturais. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2022; entre outros.