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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Miriam Leitão – Interpretação Política & Jornalismo de Estilo Crítico.

Bolsonaro tem a violência como projeto político e as mulheres e a imprensa são alvos”. Miriam Leitão

        Os historiadores, como os filósofos e os historiadores da literatura, estavam habituados a uma história das sumidades. Mas hoje, diferentemente dos outros, aceitam mais facilmente trabalhar sobre um material “não nobre”. A emergência deste material plebeu na história já data bem de uns cinquenta anos. Temos assim menos dificuldade de lidar com os historiadores. Você não ouvirá jamais um historiador dizer o que alguém, cujo nome não importa, disse em uma revista incrível, Raison Présente, a propósito de Buffon e de Ricardo: Foucault se ocupa apenas dos medíocres. Atualmente, lembra o filósofo da analítica do poder, retoma-se muito a monografia, mas a monografia tomada menos como o estudo de um objeto particular do que como uma tentativa de fazer vir novamente à tona os pontos em que se produziu e se formou. O que seria então um estudo sobre uma prisão ou sobre um hospital psiquiátrico? Fizeram centenas deles no século XIX, sobretudo acerca dos hospitais, estudando a história das instituições, a cronologia dos diretores etc. Fazer a história monográfica de um hospital consistiria em fazer emergir o arquivo do hospital no movimento mesmo de sua formação, como um discurso se constituindo e se confundindo com o movimento do hospital, com as instituições, alterando-as, reformando-as. Tentar-se-ia reconstituir o limiar do discurso, no decorrer e no âmbito da história. Lembra a fase arqueológica foucaultiana que é situada além do estruturalismo e da hermenêutica, para não falarmos do que Jean-Pierre Faye (1994) fez com o discurso totalitário.

           A constituição de um corpus coloca, segundo Foucault, um problema para minhas pesquisas, mas um problema sem dúvida bem diferente da pesquisa linguística, por exemplo. Quando queremos fazer um estudo linguístico, ou um estudo do mito, vemo-nos obrigados a escolher um determinado corpus, a defini-lo e a estabelecer seus critérios de constituição. No domínio muito mais vago que estudo, o corpus é num certo sentido indefinido; não se chegará jamais a constituir o conjunto de discursos formulados sobre a loucura, mesmo limitando-nos a uma época e a um país determinados. No caso da prisão, não haveria sentido em limitarmo-nos aos discursos formulados sobre a prisão. Há igualmente aqueles que se originam da prisão: as decisões, os regulamentos que são elementos constituintes da prisão, o funcionamento mesmo da prisão, que possui suas estratégias, seus discursos não formulados, suas astúcias que finalmente não são de ninguém, mas que são, no entanto, vividas, assegurando o funcionamento e a permanência da instituição. É tudo isso metodologicamente que é preciso ao mesmo tempo recolher e fazer aparecer. E o trabalho, que para Foucault, consiste antes em fazer aparecer esses discursos em suas conexões estratégicas do que constituí-los excluindo outros discursos.

            O momento em que se percebeu ser, segundo a economia do poder, mais eficaz e mais rentável vigiar que punir. Esse momento corresponde à formação, ao mesmo tempo rápida e lenta, no século XVIII e no início do século XIX, de um tipo de exercício do poder. Todos conhecem as grandes transformações, os reajustes institucionais que implicaram a mudança de regime político, a maneira pela qual as delegações de poder no ápice do sistema estatal foram modificadas. O século XVIII encontrou um regime por assim dizer sináptico de poder, de seu exercício no corpo social, e não sobre o corpo social. A mudança de poder oficial esteve ligada a esse processo, mas por meio de decalagens. Trata-se de uma mudança de estrutura fundamental que permitiu a realização, com uma certa coerência, da modificação dos pequenos exercícios de poder. Também é verdade que foi a constituição deste novo poder microscópico, capilar, que levou o corpo social a expulsar elementos como a corte e o personagem do rei. A mitologia do soberano não era mais possível a partir do momento em que certa forma de poder se exercia no corpo social. O soberano tornava-se um personagem fantástico, ao mesmo tempo monstruoso e arcaico.  Não se pode dizer que a mudança, no nível do poder capilar, esteja absoluta e ligada às mudanças institucionais no nível das formas centralizadas do Estado.

                                                    

           O que há de novo na interpretação foucaultiana (2016; 2021) é que a sua hipótese de trabalho reitera o fato social que a prisão esteve, desde sua origem, ligada a um projeto de transformação dos indivíduos. Habitualmente se acredita que a prisão era uma espécie de depósito de criminosos, de tal forma que se teria dito ser necessário reformar as prisões, fazer delas um instrumento de transformação social dos indivíduos. Isso não é verdade: os textos, os programas, as declarações de intenção estão aí para demonstrar. Desde o começo, a prisão devia ser um instrumento tão aperfeiçoado quanto a escola, a caserna ou o hospital, e agir com precisão sobre os indivíduos. O fracasso foi imediato e registrado quase ao mesmo tempo que o próprio projeto. Desde 1820 se constata que a prisão, longe transformar os criminosos em “gente honesta”, na verdade serve para “fabricar novos criminosos” ou para afundá-los ainda mais na criminalidade. Foi então que houve, como sempre nos mecanismos de poder, uma utilização estratégica daquilo que era inconveniente. A prisão fabrica delinquentes, mas os delinquentes são úteis tanto no domínio econômico como no político. Os delinquentes servem para alguma coisa. No proveito que se pode tirar da exploração do prazer sexual: a instauração, no século XIX, do grande edifício da prostituição só foi possível graças aos delinquentes que permitiram a articulação entre o prazer sexual quotidiano e a capitalização. E basta ver o medo e o ódio que os operários do século XIX sentiam em relação aos delinquentes, para compreender que estes eram utilizados contra aqueles nas lutas políticas e sociais, em missões de vigilância, infiltração, para impedir ou furar as greves etc.  

Anos depois de ser vítima de tortura pelo regime autoritário militar, a jornalista Miriam Azevedo de Almeida Leitão veio a público revelar, com detalhes, o sofrimento vivido nas dependências do quartel do Exército em Vila Velha durante a ditadura militar (1964-1984). Grávida, a jornalista foi agredida, assediada moral e sexualmente, e até colocada nua dentro de uma sala escura com uma jiboia, onde foi mantida por horas. O episódio voltou a ser comentado depois que, na tarde de domingo do dia 3 de abril de 2022), deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou redes sociais para debochar da tortura vivida por Miriam Leitão. - “Ainda com pena da cobra”, escreveu. O ataque foi motivado por um artigo publicado por Miriam no jornal O Globo na qual ela critica o posicionamento de integrantes da chamada “terceira via” de comparar e tentar igualar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o inexperiente presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), chamado por ela de “inimigo declarado da democracia”. Em agosto de 2014, a jornalista quebrou o silêncio que perdurou 42 anos e deu seu relato etnográfico ao jornalista Luiz Cláudio Cunha, após o repórter tentar diversas vezes ao longo de um mês. O depoimento foi publicado originalmente no Observatório da Imprensa e reproduzido, na ocasião, pelo Congresso em Foco. Um dos jornalistas mais premiados do país, Luiz Cláudio Cunha é autor de Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios (2008). O Congresso em Foco volta a publicar o artigo, devido à crueldade imposta à Miriam Leitão na década de 1970 por militares associados à tortura. É um site independente e apartidário com notícias relacionadas ao Congresso Nacional no Brasil.

          O site foi lançado em 2004. É financiado por uma empresa privada criada pelo jornalista Sylvio Costa, que é o fundador e principal sócio. Tem como principais fontes de receita a publicidade que é exibida no site e na revista Congresso em Foco, disponível para venda e assinatura, além de eventos e parcerias com outros veículos de comunicação. Em 2010, iniciou uma parceria com o Universo Online (UOL), uma empresa brasileira de conteúdo, produtos e serviços de Internet do Grupo UOL PagSeguro, uma empresa brasileira que atua como meio de pagamento eletrônico e instituição bancária (PagBank) sendo uma das responsáveis pela captura, transmissão e liquidação financeira de transações com cartões de crédito e débito, tanto no meio físico (com suas máquinas sem aluguel), quanto no meio eletrônico (com suas soluções de pagamento on-line), sendo o braço mais rentável do grupo Universo Online (UOL). Em 1º de janeiro de 2006 foi lançada no mercado a BRPay fundada pelos sócios Sergio Costa, Armando Hilel e Leonardo Pascoal, a primeira plataforma de pagamentos online do Brasil. No mês de janeiro de 2007 o UOL realizou a compra da BRPay. Em 15 de julho de 2007 o UOL mudou o nome de BRPay para PagSeguro com uma campanha “BRPay agora é PagSeguro” se tornando a plataforma oficial de serviços financeiros da empresa. Em 2010, o PagSeguro contava com mais de 12 milhões de usuários cadastrados. Dois anos depois, em 2012, fez parceria com a Horus, empresa de prevenção a fraudes em meios eletrônicos de pagamentos para garantir a segurança de suas transações bancárias.  

Também em 2012, fez parceria com a Nokia para processar pagamento via Near Field Communication (NFC), tecnologia que permite a transmissão dos dados de forma segura através da aproximação de dois celulares. O PagSeguro foi a primeira empresa a implantar a tecnologia NFC no Brasil. Em 2013, o PagSeguro lançou o leitor de cartão de crédito e débito para recebimento de pagamentos através de aplicativos móveis. No mesmo ano, fez parcerias com o Cartão Mais! e com o iPAGARE Magento. Os lojistas que possuem uma loja Magento com a tecnologia do iPAGARE podem utilizar o PagSeguro no checkout. No mesmo ano, 2013, recebeu a certificação PCI-DSS (Padrão de Segurança de Dados para a Indústria de Cartões de Pagamento) e também lançou o Envio Fácil, um serviço de frete com descontos para os lojistas no envio de encomendas, sem limite de peso para todo o país. O Envio Fácil faz o rastreio das entregas através do site do PagSeguro. Em 2014, o PagSeguro lançou o aplicativo Carteira PagSeguro, o aplicativo armazena os dados disponíveis do cartão de crédito e permite a facilidade de realizar o pagamento direto em estabelecimentos através do telefone celular.   

No ano seguinte, 2015, foi destaque no XVI Prêmio Consumidor Moderno (2016) como a melhor empresa na categoria Serviços Financeiros e de Excelência em Serviços ao Cliente e foi eleita a melhor empresa na Categoria Pagamentos online, de acordo com Prêmio Época ReclameAQUI 2015. Em dezembro de 2017, o PagSeguro anuncia a compra de 50,5% do controle da startup de empréstimos Biva, centrada em micro e pequenos empresários, tendo a maior parte de suas operações voltada para a antecipação de recebíveis. Em janeiro de 2018, o PagSeguro anuncia a abertura de seu capital através de uma oferta pública de ações (IPO) na New York Stock Exchange. A operação resultou na arrecadação de cerca de US$ 2,7 bilhões, e até aquela data, considerado o maior IPO brasileiro. Em janeiro de 2019, adquiriu do Grupo Rendimento o controle do BBN - Banco Brasileiro de Negócios, depois de uma tentativa falha de adquirir o Agibank, com o intuito de acelerar sua entrada no sistema financeiro. Em maio do mesmo ano, o PagSeguro lançou o PagBank, uma conta digital oferecida gratuitamente, que permite ao cliente fazer transferências, pagamentos e recarga de celular, além de dar direito a um cartão de crédito internacional. A adesão social foi bastante significativa e, em quatro meses, o PagBank já tinha incorporado em torno de 1,4 milhões de clientes ativos.

No dia 4 de julho de 2019, anunciou um novo cartão gratuito com bandeira Visa para sua conta digital, a PagBank. O novo serviço possibilita a movimentação de contas internacionais para pagamento em lojas físicas e virtuais. Além disso, funções como, pagamento de contas, recarga de celulares, solicitação de empréstimos, portabilidade de salários e fazer e receber TED para qualquer banco serão possíveis.  Em 21 de agosto de 2020, compra a operação brasileira (MOIP) da alemã Wirecard em operação sem divulgação dos valores envolvidos. A empresa de pagamentos Wirecard surpreendeu o  “mundo financeiro” com seu sucesso vertiginoso, até uma equipe de jornalistas determinados expor a grande fraude. A incorporação adiciona R$ 120 milhões em receitas, carteira com 200 mil clientes e R$ 5 bilhões em volume total de pagamentos segundo informações publicadas pelo Valor Econômico. Ainda em agosto, o PagBank atingiu a marca de 6 milhões de clientes ativos. No mesmo ano, foi eleito pela renomada revista Forbes como um dos 4 melhores bancos do Brasil. O segundo semestre de 2020, finalizou a aquisição a Wirecard Brazil, subsidiária Wirecard, por valor não divulgado.

O escândalo da Wirecard foi uma série de práticas comerciais corruptas e relatórios financeiros fraudulentos que levaram à insolvência da Wirecard, uma processadora de pagamentos e provedora de serviços financeiros, com sede em Munique, Alemanha. A empresa fazia parte do índice Deutscher Aktienindex (DAX). Eles ofereciam aos clientes transações eletrônicas de pagamento e serviços de gerenciamento de risco, bem como a emissão e processamento de cartões físicos. A subsidiária, Wirecard Bank AG, detinha uma licença bancária comercial e tinha contratos com várias empresas internacionais de serviços financeiros. Alegações de más práticas contábeis acompanham a empresa desde os primeiros dias de sua constituição, atingindo um pico em 2019, depois que o jornal Financial Times publicou uma série de investigações junto com denúncias de denunciantes e documentos internos. Em 25 de junho de 2020, a Wirecard entrou com pedido de insolvência após revelações de que € 1,9 bilhão estava “desaparecido”, e a rescisão e prisão de seu Chief Executive Officer (CEO) Markus Braun.  Foram levantadas questões legítimas sobre algumas falhas regulatórias por parte da Autoridade Federal de Supervisão Financeira (BaFin), o principal órgão de fiscalização financeira da Alemanha, e possível negligência do auditor de longa data da Wirecard, Ernst & Young.

A empresa foi fundada em 1999. Depois que Markus Braun ingressou como CEO em 2002, a empresa se concentrou em serviços de pagamento online, começando com sites de pornografia e jogos de azar como clientes. Ao assumir a listagem da InfoGenie AG, um grupo de call center extinto, a Wirecard entrou no segmento de mercado de ações da Neuer Markt, uma ação que foi criticada por evitar o escrutínio adequado durante uma oferta pública inicial. Isso foi alcançado através de uma decisão em uma assembleia geral da InfoGenie de transferir a Wirecard não listada para a InfoGenie AG por meio de um aumento de capital contra investimento em espécie, tornando a Wirecard uma sociedade por ações listada no Prime Standard, segmento de mercado de ações por meio de IPO reverso. Uma auditoria limpa da EY em 2007 acalmou as preocupações dos investidores. A Wirecard foi incluída no TecDAX desde 2006 e no DAX desde 2018. Neste ano, as ações da Wirecard atingiram um pico, avaliando a empresa em € 24 bilhões. A Wirecard atribuiu seu rápido crescimento à rápida expansão internacional alcançada por meio da aquisição de empresas locais, resultando no crescimento de sua receita muitas vezes superando as tendências gerais do setor. Em março de 2017, a Wirecard adquiriu a Citi Prepaid Card Services e criou a Wirecard North America, entrando no mercado norte-americano. Em 2007, a Wirecard expandiu-se ao adquirir o XCOM Bank AG, permitindo-lhe emitir cartões de crédito e débito através de Acordos de Licenciamento com Visa e Mastercard. Em novembro de 2019, a Wirecard entrou no mercado chinês ao adquirir a AllScore Payment Services, com sede em Pequim.

Suspeita-se que a Wirecard tenha se envolvido em uma série de atividades contábeis fraudulentas para inflar seu lucro. Apesar das alegações, a BaFin acabou tomando poucas medidas contra a empresa antes de seu eventual colapso, optando por apresentar queixas contra os críticos da empresa e vendedores a descoberto das ações da empresa. As operações bancárias combinadas da Wirecard, por meio de sua subsidiária Wirecard Bank e aquelas não bancárias, principalmente processamento de pagamentos, dificultam a comparação de seus resultados financeiros com os de seus pares, de modo que os investidores tiveram que confiar em versões ajustadas das demonstrações financeiras da empresa. As contas “ajustadas”, ao contrário dos Relatórios que seguem as Normas Internacionais de Relato Financeiro, resultaram em lucros inflacionados e valores de fluxo de caixa. Alertas vermelhos foram levantados já em 2008, quando o chefe de uma associação de acionistas alemã atacou as irregularidades do balanço patrimonial da Wirecard. Após a realização de uma Auditoria Especial em resposta às críticas, a Ernst & Young (EY) assumiu o cargo de auditor principal da Wirecard e permaneceria pelo resto da história da empresa. Como resposta, as autoridades alemãs processaram duas pessoas devido à divulgação precária da posse de ações da Wirecard.

Apesar das denúncias bem concretas, a Wirecard negou e tentou passar um pano na história. O caso só estourou mesmo quando a empresa, após adiar quatro vezes a divulgação de seu balanço, admitiu que 1,9 bilhão de euros (US$ 2,1 bilhões) haviam desaparecido de seu resultado. Isso levou o então CEO Markus Braun a pedir demissão, para ser preso por suspeita de falsificação de contas logo em seguida. Ele foi solto em seguida após pagar fiança de cinco milhões de euros. O caso levou as ações da Wirecard, até então negociadas em torno de 104 euros, a caírem 98%, batendo uma mínima de 1,28 euro. A queda da companhia colocou a “governança corporativa” e a regulamentação do setor na Alemanha em xeque-mate. Em 2020, a empresa entrou com pedido insolvência com dívidas de cerca de 3,5 bilhões de euros (em torno de R$ 18 bilhões). Sobre o documentário O Escândalo da Wirecard, por sua vez, há muito o que comentar. O filme é um mosaico benjaminiano (enquanto entrecruzamento de teorias filosóficas) mobilizado em torno de entrevistas com os jornalistas que participaram da investigação e pelo fato de como se decorreu o caso. Entretanto, a montagem bem-feita e ágil traz o espectador consigo, tornando um assunto que já era interessante em algo ainda muito mais atrativo. Quem gosta do gênero, certamente vai adorar O Escândalo da Wirecard. Para os jornalistas e para quem critica a mídia, é uma aula de como a imprensa é historicamente importante para assuntos tão relevantes.

Em 2015, o Financial Times relatou o que viu como uma lacuna significativa entre os ativos e passivos de curto prazo no negócio de pagamentos da Wirecard. Isso foi resultado do fato de a Wirecard receber apenas uma pequena comissão de seu volume de processamento de pagamentos, e o fluxo transitório de pagamentos através das contas da Wirecard foi ajustado para refletir o pequeno corte da Wirecard. Em resposta, a Wirecard contratou os serviços da Schillings, um escritório de advocacia do Reino Unido, e da agência de relações públicas da FTI Consulting em Londres. Mais tarde, em 2015, a J Capital Research publicou um Relatório que recomendava a venda a descoberto das ações da Wirecard, pois considerava as operações asiáticas da empresa muito menores do que o alegado. Em 2016, um relatório publicado por uma entidade desconhecida chamada Zatarra Research levou a quedas nos preços das ações, levando a BaFin a iniciar uma investigação sobre uma possível manipulação de mercado. Em julho de 2021, a Wirecard contratou a empresa de investigações corporativas Alix Partners para realizar uma investigação forense das práticas contábeis que levaram à sua insolvência.

Em abril de 2021, anunciou o lançamento do PagPhone, primeiro equipamento do mundo, baseado em Android, a oferecer de forma unificada as funções de telefonia inteligente com o ecossistema financeiro completo da companhia. Em outubro de 2021, “o empresário Fábio Souza Lima acusa a PagSeguro de racismo e conspiração após a venda de sua startup Tilix, que consequentemente levou a sua prisão”. De acordo com o Comscore, a empresa ocupa a 3ª posição entre aquelas que operam propriedades multiplataforma na Internet do Brasil, atrás do Google (Google Brasil, Google dos Estados Unidos da América e YouTube) e da Meta (Facebook e Instagram), e ficando à frente do Grupo Globo (Globo.com), da Microsoft (MSN), do Grupo Record (R7), do MercadoLivre, da Telefônica (Terra), dos sítios eletrônicos operados pelo Governo Federal do Brasil, onde o mais acessado é o da Caixa Econômica Federal: “vem pra caixa você também”, da B2W Digital (Americanas.com, Shoptime e Submarino), da Shopee, da Byte Dance (Tik Tok), da Netflix, do Samsung Group e da Magazine Luiza.

Ainda de acordo com o Comscore, o Universo Online (UOL) é o maior portal do Brasil com mais de 108 milhões de visitantes únicos por mês e 7,4 bilhões de páginas visitadas mensalmente. O UOL foi fundado por Luiz Frias em abril de 1996, sendo o primeiro portal de conteúdo midiático do país. Sete meses após sua fundação, o UOL uniu-se ao portal Brasil Online (BOL) da Editora Abril, é uma editora brasileira, sediada na cidade de São Paulo, parte integrante do Grupo Abril. A empresa atualmente publica 18 títulos, com circulação de 188,5 milhões de exemplares, em um universo de quase 28 milhões de leitores e 4,1 milhões de assinaturas, “sendo a maior do segmento na América Latina”. embora a editora não possua mais participação no grupo. O Grupo UOL PagSeguro é controlado pela OFL S.A. uma holding controlada por Luiz Frias empresário e banqueiro com participação minoritária e em ações preferenciais da Empresa Folha da Manhã S. A. e tem também outros acionistas minoritários. Historicamente desde 1996, o Universo Online ganhou mais de 120 prêmios como “um dos maiores portais comerciais do Brasil”. Em 28 de abril de 1996, o UOL entrou comercialmente no mercado. Três meses depois, em julho, o UOL colocou em operação uma conexão de 2 megabits por segundo com a rede mundial Internet e, no mês seguinte, lançou o provedor de acesso à Internet em São Paulo e no Rio de Janeiro com conta de e-mail e instalação do Netscape 2.2. Foi no ano de sua fundação que surgiu um dos produtos mais icônicos da Internet no Brasil: o Bate-Papo Universo Online.

Em 1997, o UOL criou fóruns com grupos de discussões e enquetes, estreou a versão Web da “Nova Enciclopédia Ilustrada Folha”, lançou a TV UOL (1997), a primeira emissora de televisão da rede de computadores brasileira com a programação transmitida exclusivamente pela Internet, em 2019 é substituída pelo selo MOV, com programação de clipes, entrevistas e trailers e apresentou a operação AcessoNet, empresa de rede que ampliou o acesso à Internet nas principais cidades do Brasil. O UOL também expandiu a capacidade de conexão para 20 megabits e recebeu o prêmio de melhor provedor e site preferido dos internautas da revista Informática Exame em 1997. O UOL absorveu os assinantes da provedora Compuserve no Brasil, aumentou sua capacidade de conexão para 74 megabits e através do UOL Discador, acabou com a linha ocupada no acesso à rede mundial de computadores - Internet em 1998. No ano seguinte, o UOL alcançou mais de 350 mil assinantes, lançou o UOL Educação, canal de notícias do setor educacional, e estreou o Placar UOL Esporte, site que mostra em tempo real o placar multinacional de jogos de futebol no país e no mundo ocidental. Nesse período iniciou o sistema de acesso ilimitado à Internet, criou a versão online da Bíblia, passou a oferecer e-mail gratuito, através do Brasil Online (BOL), nova empresa do grupo, e expandiu as operações internacionais com portais na Argentina, México, Venezuela, Chile e Estados Unidos da América (EUA).

          Rosângela Lula da Silva, reconhecida pelo apelido Janja, nascida em União da Vitória, no Paraná, em 27 de agosto de 1966, é uma socióloga brasileira filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). É a terceira e atual esposa do 35º presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores em 1983, quando tinha apenas 17 anos. Em 1990, ingressou no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e se especializou em História na mesma instituição de ensino superior. Além disso, Rosângela possui Master of Business Administration (MBA) em Gestão Social e Sustentabilidade Social. Entre 1995 e 1996, Rosângela Lula da Silva participou como docente colaboradora do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Em 1º de janeiro de 2005, aos trinta e oito anos, Rosângela ingressou na Itaipu Binacional. Na época, não havia concurso público para o preenchimento do cargo administrativo, de maneira que ela foi selecionada por meio de análise de currículo vitae e entrevista presencial.

Na hidrelétrica, atuou como Assistente do diretor-geral e coordenadora de programas voltados ao desenvolvimento sustentável. Entre 2012 e 2016, ela atuou como assessora de comunicação e relações institucionais da Eletrobrás, no Rio de Janeiro. Em 2016, voltou à Itaipu. Em 1º de janeiro de 2020, deixou oficialmente a hidrelétrica, onde tinha um salário de 20 mil reais como servidora. Janja e seu marido Luiz Inácio Lula da Silva, conheceram-se há décadas, mas começaram o relacionamento em abril de 2018, quando o ex-presidente já era viúvo de Marisa Letícia Lula da Silva, sua segunda esposa, falecida em fevereiro de 2017. Após a prisão arbitrária de Lula, ela o visitava com frequência à sede da Polícia Federal em Curitiba, tendo a primeira visita ocorrido no Dia dos Namorados de 2018. Em uma ocasião, Janja visitou Lula durante seu horário de expediente na empresa estatal. No dia 17 de maio de 2022, foi anunciado que Lula e Janja iriam se casar no dia seguinte. O casamento ocorreu em 18 de maio de 2022, em uma casa de festas de São Paulo. O casal estabeleceu residência em um sobrado de 700m² alugado no bairro Alto de Pinheiros, na capital paulista. Em 2 de julho de 2022, aos gritos por pedidos de beijos durante comício em Porto Alegre, Lula comparou-o  com Janja ao dos personagens Juma e Joventino, na interpretação da novela Pantanal.

Pantanal é uma representação dramática da telenovela brasileira produzida pela TV Globo e exibida de 28 de março a 7 de outubro de 2022, em 167 capítulos. Substituiu Um Lugar ao Sol que por sua vez foi substituída por Travessia, sendo a 19ª novela das 21 horas da emissora. É um remake da telenovela de mesmo nome criada e escrita por Benedito Ruy Barbosa e exibida na Rede Manchete em 1990. Adaptada por Bruno Luperi, tem direção de Davi Lacerda, Noa Bressane, Roberta Richard, Walter Carvalho e Cristiano Marques. A direção artística é de Rogério Gomes e Gustavo Fernandez. Conta com as atuações de Marcos Palmeira, Dira Paes, Jesuíta Barbosa, Alanis Guillen, Irandhir Santos, Camila Morgado, José Loreto e Guito nos papéis principais. Joventino, maior peão do Pantanal, desaparece sem deixar rastros, deixando o filho José Leôncio. Dois anos depois, em uma viagem ao Rio de Janeiro, ele se casa com Madeleine, que vai com ele para o Pantanal, onde nasce seu filho, Jove, batizado com o nome do avô paterno. Benedito Ruy Barbosa é escritor, dramaturgo, jornalista e publicitário brasileiro. Chegou à dramaturgia com a peça Fogo Frio, encenada pelo Teatro de Arena de São Paulo. 

A estreia como autor de telenovelas se deu como Somos Todos Irmãos (1966), na TV Tupi, uma livre adaptação de A Vingança do Judeu, romance mediúnico da russa Vera Krijanóvscaia (1861-1924) atribuído ao espírito de John Wilmot, Segundo Conde de Rochester (1647-1680). Em seguida foi ao vivo outra novela de sua autoria, O Anjo e o Vagabundo, representando um grande sucesso de audiência. O tema mais constante nas novelas é a abordagem da vida rural e interiorana e cultura dos caboclos, bem como a imigração portuguesa no Brasil e a imigração italiana no Brasil, abordada em Os Imigrantes (1981), Vida Nova (1988), Terra Nostra (1999) e Esperança (2002), onde foi substituído por Walcyr Carrasco por problemas de saúde. Outro grande sucesso foi exibido em 1990 na Rede Manchete, como vemos é a novela Pantanal, cuja sinopse foi recusada pela TV Globo, feito este que ocorreu também com Os Imigrantes, que acabou produzida ao vivo na Rede Bandeirantes. Até então, Benedito Ruy Barbosa só havia escrito novelas para o horário das 18 horas na emissora, à qual retornou três anos depois para escrever outro grande sucesso: Renascer (1993), que marcava a estreia do autor no Horário Nobre, abordando a crendice popular, feita também em Paraíso (1982), e a saga da história de uma família nos dias antigos e atuais, com O Rei do Gado (1996).

Com saudade da vida urbana e não se acomodando a ser esposa de peão, sempre em comitivas, Madeleine convive com Filó, funcionária de sua casa. Ela era mulher de corrutela, por onde passavam comitivas de peões, e se relacionou amorosamente com José Leôncio em uma de suas viagens. Madeleine foge do Pantanal levando Jove, ainda bebê, de volta para a mansão de sua família. O menino cresce longe do pai, que, após se ver incapaz de brigar pela guarda do filho, passou a enviar fielmente uma quantia de pensão mensal, mas Jove cresce acreditando que seu pai havia morrido. Após a partida de Madeleine, Filó diz que seu filho Tadeu também é de José Leôncio. A informação é mantida em segredo, de forma que, da porta para fora, Tadeu segue como afilhado do patrão. Duas décadas depois, Jove descobre que seu pai está vivo e vai à sua procura, em um reencontro marcado por uma grande festança. Embora felizes com o momento, José Leôncio e Jove são confrontados por um abismo de diferenças comportamentais e culturais. Em meio aos ocorridos, Jove conhece Juma Marruá e eles se apaixonam. Filha de Maria e Gil, a jovem aprendeu com a mãe a se defender do “bicho homem”, que matou toda a família devido a conflitos de terras, tornando-se uma mulher selvagem e arredia. Logo depois, José Lucas de Nada, filho desconhecido de José Leôncio, chega à fazenda por obra do destino e descobre ali os laços genéticos familiares que nunca teve.

O Congresso em Focomutatis mutandis - também edita o Painel do Poder. Em abril de 2009, ao lado de outros veículos de comunicação, denunciou gastos irregulares na Câmara dos Deputados do Brasil, no que ficou reconhecido como Escândalo das Passagens Aéreas é nome popular usado para designar uma crise política do Brasil sobre o uso irregular da cota de passagens aéreas a que todo parlamentar tem direito no Congresso Nacional. As cotas que os deputados tem direito são bancadas pelo erário público, e em vez de serem usadas pelos deputados para retornar as suas bases eleitorais, por muitas vezes patrocinaram viagens ao exterior, ou viagens de amigos e parentes dos deputados. No dia 4 de abril de 2009, o jornal O Estado de S. Paulo, revelou que ao menos quatro senadores teriam usado o dinheiro destinado à compra de bilhetes aéreos para fretar aviões particulares, com agravante de ter sido feito com o aval da mesa diretora do senado. Segundo a publicação, o Ato da Comissão Diretora do Senado, datado de 15 de dezembro de 1988, que extingue à ajuda de custo para transporte aéreo, não prevê, que os bilhetes possam ser transformados em dinheiro para fretar jatinhos. Apesar de tudo, quatro senadores - Tasso Jereissati (PSDB-CE), Mário Couto (PSDB-PA), Jefferson Praia (PDT-AM), Heráclito Fortes (DEM-PI) - segundo o próprio senador Jereissati “ele teria gasto cerca de R$ 358 mil reais nessa modalidade”, mas teria sido autorizado pela mesa diretora do Senado, através do seu primeiro-secretário o senador Efraim Morais (DEM-PB).

No dia 14 de abril de 2009, o site Congresso em Foco, denuncia que o deputado Fábio Faria (PMN-RN), teria usado sua cota de passagens aéreas para pagar viagens de atores da TV Globo - Kayky Brito, Sthefany Brito e Samara Felippo - para o Carnatal, “carnaval fora de época da cidade de Natal”, também para pagar sete viagens da sua ex-namorada Adriane Galisteu, e de sua mãe Emma Galisteu, entre outras pessoas, entre os anos de 2007 e 2008. No dia 15 de abril do mesmo ano, o Congresso em Foco, revela que deputados que se tornaram ministros continuaram usufruindo da cota de passagens aéreas a qual tem eles tinham direito como deputados, mas o Ato 42 da Mesa da Casa, de 2000, afirma que os deputados não podem utilizar a cota enquanto seus suplentes estiverem em exercício. O ministro José Mucio (PTB-PE), após assumir o cargo no Palácio do Planalto utilizou o expediente 54 vezes, o ministro Reinhold Stephanes fez uso do mesmo 15 vezes, o ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) usou 4 vezes. Das 54 viagens feitas através da cota de José Mucio apenas 4 o tiveram como passageiro. De acordo com o Congresso em Foco, os voos contratados pelo ministro saíam de Brasília-Rio, Recife, São Paulo-Porto Alegre. E ainda existem sete viagens realizadas por parentes do ministro.

No dia 16 de abril, é revelado que cinco dos onze integrantes da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, usaram a sua cota de passagens aéreas para viajar ao exterior, ou bancar viagens de amigos e parentes. O deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE) na época segundo-secretário da Câmara usou sua cota para patrocinar viagens internacionais de sua mulher, uma neta e suas três filhas. - “Sua mulher Ana Elisa e sua a filha Shely viajaram para Frankfurt, Milão e Nova York através das cotas”. Outras duas filhas “receberam passagens para Frankfurt e Nova York, e a neta Amanda recebeu passagem para Miami”. O terceiro-secretário, Odair Cunha (PT-MG), o quarto-secretário, Nelson Marquezelli (PTB-SP), o terceiro suplente, Leandro Sampaio (PPS-RJ), e o quarto suplente, Manoel Junior (PSB-PB) também usaram suas cotas para viagens ao exterior. O deputado Leandro Sampaio usou a cota para emitir onze bilhetes para Alemanha, Chile e Argentina para ele, seus amigos e sua família. Em resposta disse que estava participando de encontros antiaborto. Nelson Marquezelli viajou a Nova York e Buenos Aires com a mulher, Maria Alice, em resposta disse que Maria Alice comprou seus próprios bilhetes e usou milhagens para os seus bilhetes. E disse desconhecer três pessoas da mesma família - Luana, Luma e Robert Leroy - que viajaram para Paris com cotas de seu gabinete.

O deputado Odair Cunha teve sua cota usada para emitir um bilhete para Geraldo Silva viajar de Buenos Aires para o Rio, em maio de 2008, o deputado explicou que cedeu milhagem para um padre conhecido. “O uso da cota foi para pagar a taxa de embarque, de R$ 92, mas mandei devolver”. Manoel Junior, o quarto suplente da Mesa, teve passagem de Buenos Aires para São Paulo emitida em sua cota. A assessoria do deputado em resposta disse que ele não lembra o motivo da viagem. No dia 17 de abril, é revelado que passagens da cota da deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS) foram emitidas em nome do Protógenes Queiroz quando este viajou para Porto Alegre para participar de uma palestra na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e de um ato contra a corrupção. No dia 20 de abril, o presidente da Câmara Michel Temer (PMDB-SP) que ele destinou “parte da cota de passagens aéreas a familiares e terceiros não envolvidos diretamente com a atividade do parlamento”, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) também admite que usou sua cota de passagens aéreas para levar sua filha ao exterior.

Segundo um estudo do Ponto de Inflexão, publicado pela Sembra Media em parceria com a empresa filantrópica Omidyar Network, o Congresso em Foco foi alvo de 50 processos judiciais até 2017, após “denunciar salários de políticos que estavam acima da média”. Em 2019, lançou a primeira campanha de crowdfunding para apoiar o site, no Catarse. Crowdfunding, ou melhor, em bom português, financiamento coletivo, é a prática ordinária que promove o fato econômico de arrecadar dinheiro de vários indivíduos ou fontes para financiar um novo projeto. Frequentemente, os benditos empreendedores recorrem às redes sociais para compartilhar sua plataforma ou ideia visando inspirar outras pessoas a contribuir para uma campanha de crowdfunding. Em vez de esperar uma ideia de produto para uma equipe de investidores, os empreendedores podem levar suas ofertas diretamente ao público para buscar apoio financeiro de pessoas, empresas e organizações interessadas. Em outras palavras, o tempo de espera entre uma ideia e recursos para torná-la realidade pode ser muito reduzido.

            Luiz Cláudio Cunha é jornalista brasileiro e trabalhou para diferentes órgãos de imprensa como os jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Correio Braziliense, Zero Hora, Diário da Indústria e Comércio, e as revistas Veja, IstoÉ e Afinal. Comandou a redação da Veja em Porto Alegre (1973-1980) e em Brasília (1981-1983). Também em Brasília, chefiou a redação de IstoÉ (1984) e, Afinal (1985-1986), e de O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Zero Hora e Diário da Indústria e Comércio. Sua carreira jornalística está marcada pela reportagem investigativa e pelo jornalismo político. Ganhador de vários prêmios jornalísticos, cobriu episódios políticos marcantes da história recente do Brasil e escreveu sobre crimes contra os direitos humanos realizados pelas ditaduras militares do Cone Sul. Dentre seus trabalhos mais importantes, destaca-se a série de reportagens realizadas entre 1978 e 1980, sobre o episódio reconhecido como “Sequestro dos Uruguaios”, uma tentativa ilegal de militares brasileiros e uruguaios para a prisão de ativistas uruguaios, no âmbito da clandestina Operação Condor. O trabalho, realizado em conjunto com o fotógrafo J.B. Scalco, rendeu-lhe o prêmio principal do Esso de Jornalismo de 1979. Em 2008, o livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios - uma reportagem dos tempos da ditadura, recebe da Câmara Brasileira do Livro Prêmio Jabuti, e menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ambos na categoria de Livro-Reportagem. É detentor do Título de Notório Saber em Jornalismo pela Universidade de Brasília.

            Em novembro de 1978, alertado por um telefonema anônimo, Luiz Cláudio Cunha testemunhou com o fotógrafo da Revista Placar J. B. Scalco uma ação em Porto Alegre da Operação Condor, um grande aparato de terrorismo de Estado conjunto entre diversos países do Cone Sul. Era o sequestro dos ativistas políticos uruguaios Universindo Díaz e Lilian Celiberti e seus dois filhos, Camilo e Francesca. Os uruguaios são hoje os únicos sobreviventes uruguaios da Operação Condor, graças ao testemunho de Cunha e Scalco e à investigação jornalística empreendida por sua equipe da Revista Veja. Pela série de reportagens sobre o Sequestro dos Uruguaios publicadas em Veja durante 86 semanas, 630 dias, quase vinte meses, cerca de dois anos, Cunha recebeu, junto com o fotógrafo João Batista Scalco, o Prêmio Esso de Jornalismo de 1979, na categoria principal. O júri foi presidido pelo repórter Joel Silveira e composto por Paulo Henrique Amorim, Carmo Chagas, Luiz Carlos Lisboa e Mário Moraes. O trabalho de Cunha conquistou ainda premiação principal do Prêmio Nacional TELESP; o I Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, e ainda o Prêmio Hors Concours da Editora Abril. O trabalho de Luiz Cláudio Cunha recebeu voto de louvor encaminhado pelo jurista Jean-Louis Weil em nome do Secretariat International des Juristes pour l’Amnistie en Uruguay, durante o Colóquio sobre la Política de Institucionalizacion del Estado de Exception y su Rechazo por el Pueblo Uruguayo, realizado em Genebra, Suíça, em 27-28 de fevereiro de 1981.

         Em dezembro de 2010, o Grupo UOL, por meio de suas subsidiárias UOL Host Data e DHC Outsourcing, comprou a Diveo Broadband Networks, empresa americana de outsourcing de tecnologia, o que deu origem ao UOL Diveo, empresa que oferece soluções em TI, desde serviços básicos de infraestrutura até tecnologias estado-da-arte dentro dos pilares de Big Data, IoT, Inteligência Artificial e Transformação digital. No ano seguinte, lançou aplicativos de notícias para iPhone e iPad, o GigaMail e o UOL Cursos Online, portal que oferece cursos livres de idiomas, técnicos, graduação, extensão e pós-graduação. Em 2012, o UOL ampliou sua parceria com o Discovery Kids, lançou o curso de inglês online, anunciou o novo portal UOL Mulher, que mais tarde se tornaria o Universa, criou um aplicativo sobre a Formula 1 e lançou o UOL Viagens, portal com dicas, roteiros e notícias de viagens. Foi nesse ano também que nasceu o UOL EdTech, plataforma que oferece soluções de aprendizagem online para atender aos desafios e necessidades de todas as fases da vida das pessoas. O UOL renovou o layout do seu portal e passou a hospedar o Portal da Turma da Mônica em 2013. No ano seguinte, em 2014, lançou um aplicativo móvel para o bate-papo e foi eleito pela pesquisa do Ibope Conecta o site que mais auxilia na busca de informações para os internautas paulistanos.

No mesmo ano, fez parcerias com a RedeTV! que passou a ser hospedada em seu portal e com o Clarín, um dos maiores jornais da Argentina, para disponibilizar o conteúdo do UOL em seu portal em português. Foi também em 2014 o lançamento do UOL TAB, o novo projeto de conteúdo multimídia do UOL com reportagens especiais em formatos que promovem a interação com o usuário. Em 6 de janeiro de 2017, o portal sofreu um ataque de crackers, que redirecionaram para sites pornográficos os sites do UOL e de seus parceiros, como os da Folha de S. Paulo, ESPN Brasil e RedeTV! além de serviços de e-mail. Como o ataque redirecionava sites, é provável que tenha se tratado a um ataque aos servidores de DNS do portal. O ataque ocorreu às 2h50 da madrugada e foi corrigido por volta das 4 horas.  No final de 2017, o UOL aderiu, em fase de testes, ao modelo  paywall, já adotado por veículos tradicionais da mídia brasileira, restringindo o acesso de usuários não-assinantes aos conteúdos do portal. Em novembro de 2017, o lançamento de UOL Viva Bem, a plataforma do UOL voltada à saúde e bem-estar que no dia 8 de março de 2018, aproveitando o Dia Internacional da Mulher, o UOL lançou a plataforma Universa, com pautas desde saúde e beleza a política e carreira feminina.

Em 8 de agosto de 2014, uma matéria do portal de O Globo afirmou que um dispositivo conectado à internet através da “rede sem fio” do Palácio do Planalto alterou, em maio de 2013, informações das páginas de Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg na Wikipédia, com o objetivo de difamá-los. As informações inseridas no artigo de Miriam qualificavam suas análises e previsões econômicas como “desastrosas”, além de acusá-la de ter defendido “apaixonadamente” o banqueiro Daniel Dantas quando este foi preso pela Polícia Federal. Esta última acusação ocorreu em razão de comentário de Miriam Leitão na Rádio CBN onde ela defendia a inocência de Dantas. A CBN é uma rede de rádio brasileira, pertencente ao Sistema Globo de Rádio. Foi criada em 1.º de outubro de 1991 pelo jornalista Roberto Marinho, como projeto de rádio All News, com programação jornalística 24 horas por dia, além de se dedicar às transmissões de futebol. O Palácio do Planalto, em nota, explicou que não possui maneiras de identificar o autor das críticas, uma vez que o IP usado na alteração era tanto pela sua rede interna quanto pela rede sem fio do Palácio e possibilitaria a qualquer visitante do Planalto realizar tal alteração. As Organizações Globo foram criticadas por divulgar alterações das biografias de seus contratados na Wikipédia, com utilidade de uso, de caráter colaborativo e aberta à edição de todos e que, segundo seu próprio criador, Jimmy Wales, lembrando que as informações veiculadas não devem ser usadas como fonte primária de informação.

Jimmy Donal Wales, nascido em Huntsville, a cidade mais populosa do estado norte-americano do Alabama e sede do condado de Madison, em 7 de agosto de 1966 é um empresário norte-americano da rede mundial de computadores, reconhecido pelo público pelo fato de ter sido um dos fundadores da Wikipédia, em 2001. Atualmente, ele é membro do conselho de administradores da Fundação Wikimedia e é um dos fundadores da Wikia, uma propriedade privada de serviço livre de hospedagem de sites criado em 2004. Com Larry Sanger, ajudou a popularizar a tendência do desenvolvimento comercial da web que visa facilitar a criatividade, a educação e o conhecimento humano de acesso livre, por meio da colaboração compartilhada entre usuários. Jimmy criou a Wikipédia inspirado pela Teoria da Ordem Espontânea, do economista e filósofo Friedrich Hayek (1899-1992), diz respeito ao surgimento espontâneo de ordem no caos aparente; o surgimento de vários tipos de ordem sociais a partir de uma combinação de indivíduos autointeressado que não estão intencionalmente tentando criar ordem, pois segundo Hayek, o conhecimento se encontra disperso pela sociedade. Com o produto de seu trabalho com a Wikipédia, que se tornou a maior Enciclopédia do mundo, a revista Time listou Jimmy Wales como uma das pessoas mais influentes do mundo em 2009. Neste mesmo ano, recebeu uma premiação da Fundação Nokia por suas contribuições para a evolução da World Wide Web (WWW) como plataforma participativa e verdadeiramente democrática. A Fundação Matias Machline, ou Fundação Nokia, é uma instituição localizada na região Norte, na Zona Franca de Manaus, Amazonas, Brasil.

Era mantida pela empresa Nokia e posteriormente pela Microsoft. A entidade conta com mais de 800 alunos e é considerada a melhor escola técnica das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A instituição possui laboratórios, biblioteca com mais de 14 mil títulos e equipamentos interativos e oferece vagas para ensino médio, ensino médio integrado ao técnico, cursos técnicos, cursos profissionalizantes e cursos online. A Fundação Nokia é uma das melhores em desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) da Região Norte e vitórias em diversas olimpíadas do conhecimento e feiras científicas. A 9 de maio de 2010, no decurso da polêmica gerada pela sua intervenção no projeto Commons sobre remoção de imagens de caráter pornográfico, Jimmy Wales removeu os privilégios executivos do estatuto de fundador da Wikipédia, conservando os relativos à visualização de edições, de modo a que a discussão sobre o seu estatuto não interferisse no debate em curso sobre o conteúdo editorial. Em 2 de fevereiro de 2016 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Université Catholique de Louvain. Também foram criticadas por só terem noticiado as alterações em plena campanha eleitoral de 2014 quando concorriam os três principais candidatos à Presidência da República: a presidente Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos. No dia seguinte ao da reportagem d`O Globo, o jornalista Miguel do Rosário divulgou um usuário que navegava na rede da Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo, ligado ao governo do estado e ocupado pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), um partido político de centro, centro-direita.

Fundado em 1988 e registrado definitivamente em 1989, surgiu a partir de uma cisão do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) que mesclava pari passu o ideário da social-democracia, da democracia cristã e o fundamentalmente o liberalismo econômico e social e que faz oposição ao Partido dos Trabalhadores (PT) inseriu uma calúnia na biografia do músico Raul Seixas (1945-1989) e apontou que a rede Globo não deu a mesma atenção ao caso. Ele também relatou que já visitou o Palácio do Planalto e que teve acesso à senha da rede sem fio do gabinete presidencial e que qualquer visitante poderia ter efetuado a edição. Em 11 de setembro de 2014, uma Comissão de Sindicância Investigativa identificou um servidor público como autor das alterações dos verbetes da Wikipédia sobre Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Em audiência realizada no Juizado Especial Criminal de Brasília, em 20 de agosto de 2015, o servidor público aceitou a proposta de transação penal. A comprovação da obrigação, com vista à extinção do processo por calúnia, difamação e injúria, é feita mediante Relatório e Folha de Frequência no cartório do Juizado Especial Criminal.

            Miriam Azevedo de Almeida Leitão nasceu em Caratinga em 7 de abril de 1953. É um município no interior do estado de Minas Gerais, região Sudeste do país. Localiza-se no Vale do Rio Doce e pertence ao colar metropolitano do Vale do Aço, estando situado a cerca de 310 km a leste da capital do estado. Miriam Leitão é jornalista e apresentadora de televisão brasileira. Formada na Universidade de Brasília, exerce a profissão há 40 anos. Iniciou sua carreira em Vitória, estado do Espírito Santo, tendo atuado em diversos meios de trabalho e de comunicação, seja em jornal, rádio e televisão, tais como Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil, Veja, O Estado de S. Paulo, O Globo, Rádio CBN, Globo News e Rede Globo. Foi repórter de assuntos diplomáticos da Gazeta Mercantil e editora de economia do Jornal do Brasil. Em 1972, quando estava grávida, foi presa e torturada física e psicologicamente pelos próceres da ditadura militar brasileira por ser militante do Partido Comunista do Brasil. O nome Partido Comunista do Brasil havia sido usado primeiramente pelo PCB, fundado em 25 de março de 1922. Dos nove membros que fundaram o PCB só o barbeiro Abílio de Nequette (1888-1960) e Manoel Cendón são socialistas, enquanto outros vinculam-se aquele movimento. Uma leitura atenta da obra de Otávio Brandão, escrita em 1924 sob pseudônimo de Fritz Mayer, Agrarismo e Industrialismo, as revoluções pequeno-burguesas de 1922 e 1924, cometeram erros graves, anterior à sua adesão afetiva ao PCB em 15 de outubro de 1922, verifica as influências anarquista e mística nos ensaios e livros, que traduzem o predomínio do questionamento, esquemático e acentuadamente ideológico, resistindo traços políticos da doutrina anarquista mesmo considerado na análise comparativa em algumas das posições políticas partidárias pós-adesão ao ideário emergente comunista.

Não poderíamos repetir o mesmo com Astrojildo Pereira, homem de leitura mais vasta, bom conhecedor da literatura socialista europeia em geral, e em particular a teoria da história e o método de análise materialista e dialético de Marx e Engels. Em 1929, publicou em A Classe Operária o artigo “Sociologia ou apologética?”, estudo crítico da obra de Oliveira Vianna, Populações Meridionais do Brasil, em que eram contestadas as opiniões do autor, que negava a existência de luta de classes na história do Brasil. O trabalho foi depois incluído nos livros Interpretações (1944) e Ensaios históricos e políticos (1979). Lembra Vanilda Paiva no artigo: Oliveira Vianna: Nacionalismo ou Racismo?  (1978), que a presença de Oliveira Vianna na vida intelectual brasileira é frequentemente subestimada, especialmente entre os que passaram a viver os problemas políticos e culturais de forma plenamente consciente a partir dos anos 1960. Sobre ele são amplamente reconhecidos o ensaio de Nelson Werneck Sodré, Oliveira Vianna – o racismo colonialista (1961) e o estudo de Astrojildo Pereira intitulado: Sociologia ou Apologética? (1929) e reunido com Interpretações (1944). Ambos os autores se concentraram com justiça sobre o caráter racista e de apologia das classes dominantes que permeia a obra Populações Meridionais do Brasil que levou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (1978) a caracterizá-lo como “autoritarismo instrumental”.

O colunista é um profissional do jornalismo que trabalha escrevendo regularmente para empresas de comunicação social, produzindo textos não necessariamente noticiosos denominados colunas. Ipso facto nos periódicos do século XIX, tudo que não era notícia era diagramado numa única coluna vertical. Era literal de alto a baixo da página, à parte do resto do conteúdo, exceto pelos folhetins, publicados na parte inferior da primeira página, ocupando a maioria das colunas da esquerda à direita. O colunista não precisa ser jornalista, o que significa, no caso brasileiro, não precisar ser bacharel em Jornalismo. Alguns dos colunistas brasileiros reconhecidos, como Luís Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor, não são jornalistas. A Coluna surgiu em virtude da diagramação dos textos não-noticiosos publicados em espaço predeterminado no jornal. Com o passar do tempo, os textos de colunas deixaram de ser limitados a uma coluna de diagramação. Quando passaram mudaram o formato, mantiveram o caráter de colunas curtas, em notas, ou observações do cotidiano, em linguagem de crônica. Até a década de 1990, era mais comum que cada coluna jornalística tivesse um tema específico, a despeito dos autores que assinassem os textos. Assim, o mesmo espaço era preenchido por diversos profissionais, versando sobre os mesmos assuntos, por exemplo, a coluna social de Carlos Swann, publicada no jornal O Globo, assinada por mais de um autor. 

Na verdade, o nome que imprimia a assinatura era fictício, homenagem ao protagonista Charles Swann de “Em busca do tempo perdido”, a obra-prima de Marcel Proust, a partir da ideia de Álvaro Americano, o primeiro titular do lugar praticado, que foi publicado de 20 de maio de 1963 a 8 de maio de 1989. Desde 1991 Miriam Leitão é funcionária do Grupo Globo, quando na época ela ganhou uma coluna no Jornal O Globo. Em 1996, ela passou a ser comentarista de economia do Jornal Hoje (JH) ao lado de Fátima Bernardes. Após a saída do JH, Miriam Leitão optou pela análise econômica e se tornou colunista do Bom Dia Brasil, assumindo função que era de Ana Paula de Vasconcelos Padrão, jornalista, repórter, editora e empresária brasileira. Foi jornalista de TV por 27 anos, com passagens pela Manchete, Globo, SBT e Record. Em 2003 Miriam Leitão assumiu o Espaço Aberto Economia, substituindo Joelmir José Beting, um jornalista e sociólogo, profissionalmente de grande contribuição para o jornalismo bem como para a economia e a comunicação social, tendo em vista que Joelmir foi um pioneiro na tradução dos difíceis termos técnicos econômicos para a vida cotidiana, mas que subaproveitado pela emissora “havia sido demitido por participar de comercial”.

            Não por acaso atualmente colunistas têm recebido mais destaque do que as colunas. O que lhes permite escrever sobre praticamente qualquer tema, auspicioso, desde que o leitor identifique neles um estilo próprio do autor. Este fenômeno tem aproximado os textos de coluna do chamado jornalismo literário. Um tema auspício na antiga Roma era um sinal dos deuses que os áugures tiravam do céu. Era necessário, sobretudo ao cruzar certos limites, para conhecer a vontade dos deuses. Não o fazer seria uma afronta para eles e, segundo a mentalidade dos romanos, teria causado terríveis desastres. Um áugure oficiava a cerimônia, reconhecida como na interpretação para “tomar os auspícios” e lia as pautas das aves no céu. Dependendo do pássaro, os auspícios dos deuses podiam ser favoráveis ou desfavoráveis. Por vezes, subornados, ou por motivos políticos, os áugures fabricariam auspícios desfavoráveis para retardar certas funções estatais como no âmbito das eleições. Um dos mais famosos auspícios é o que se relaciona com a fundação de Roma. Quando os fundadores, Rômulo e Remo, chegaram ao Palatino, discutiram sobre onde queriam exatamente alçar a cidade no estratégico e facilmente fortificável Aventino. Os dois concordaram decidir a discussão pelo desejo dos deuses, provando as suas habilidades como áugures. Cada um sentou-se no chão, separados entre si e, segundo Plutarco, Remo viu seis abutres, enquanto Rômulo viu doze.  

Segundo Juan Bautista Carrasco (cf. Gomes, 2018), os adivinhos cingiam a sua cabeça com coroas de louro, porque esta árvore estava consagrada a Apolo, e ademais levavam um ramo do mesmo na mão, às vezes mastigavam as suas folhas, o seu alimento ordinário eram as partes principais dos animais proféticos; as cabeças dos corvos, abutres. Era a sede dos prítanes, ou seja, dos membros do governo das cidades-Estado da Grécia Antiga. No Pritaneu de Atenas os adivinhos eram pagos pelo tesouro público.  Rômulo tinha ditado uma lei que proibia expressamente aos funcionários públicos que admitissem qualquer cargo ou emprego público, até mesmo a mesma dignidade real, sem ter antes obtido os auspícios favoráveis; a sua prática foi observada com a maior escrupulosidade no tempo de Tarquínio Prisco, por causa do engano atribuído ao célebre Ácio Návio, de ter partido uma pedra com uma navalha, de modo que para a criação dos magistrados, declarar e empreender a guerra ou a celebração das eleições, era indispensável que os precedessem os auspícios. Esta lei de Rômulo, permitindo-lhe se erigir em arbitro para declarar bons ou maus os presságios, foi observada estritamente no tempo da República Romana, até que os tribunos conseguiram participar dos cargos e dignidades que serviam os patrícios, privando a estes dos vários meios empregues para saciar a sua ambição pelos cargos e os simulacros em termos de biopoder. Os auspícios, sempre necessários para todos os negócios públicos e privados, até mesmo para a celebração do matrimônio, como diz Cícero, sofreram modificações segundo os objetos e maneiras em que se praticavam.

            Miriam Leitão é reconhecida por ser uma “comentarista econômica” e pela “fama de brigona”, o choro da jornalista ao falar sobre a morte de Zilda Arns (1934-2010), médica, pediatra e sanitarista brasileira, contrapõe, segundo Alberto Dines, “o mito da objetividade” e “torna a profissão do jornalista menos burocrática, menos fleumática”. Para o comentarista econômico Carlos Alberto Sardenberg, ela “nunca se contentou com as explicações oficiais. No jornal O Globo onde é colunista e em seu blog, Mirian Leitão publicou uma matéria denominada “Miséria do Debate” onde acusava a algumas pessoas de distorcer certas realidades. Declarou que os jornalistas Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino são pessoas que pertencem a “direita hidrófoba” pelas denúncias que faziam sobre o governo petista. Ela citou a declaração da Suzana Singer, ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, que denominou Reinaldo Azevedo de “rottweiler”, pois este fora contratado por aquele jornal para publicar uma coluna semanal. Escreveu de forma considerada forte como a frase: - Os epítetos petralhas e privataria se igualam na estupidez reducionista. Termos este utilizados por ambos jornalistas em suas matérias.

            Durante a crise financeira internacional, em 29 de junho de 2009, Miriam Leitão escreveu o seguinte sobre a previsão de crescimento do Ministro Guido Mantega de 4,5% do PIB de 2010: - “Ele fez uma afirmação de que em 2010 o Brasil está preparado para crescer 4,5%. É temerário dizer isso”. De fato, o alto crescimento de 7,5% daquele ano foi acima do potencial do Produto Interno Bruto e fez a inflação se distanciar do centro da meta durante todo o mandato da presidente Dilma Rousseff. Em abril de 2007, Dilma já era apontada como possível candidata à presidência da República na eleição de 2010. Naquele mesmo ano, o presidente Lula passou a dar destaque a então ministra com o objetivo de testar seu potencial como candidata. Em abril de 2009, Lula afirmou: “Todo mundo sabe que tenho intenção de fazer com que Dilma seja candidata do PT e dos partidos, mas se ela vai ganhar vai depender de cada brasileiro”. Para cumprir com a lei eleitoral de desincompatibilização, Dilma deixou o Ministério da Casa-Civil em 31 de março de 2010, sendo sucedida por Erenice Guerra. A Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada em Brasília dia 13 de junho de 2010, oficializou Dilma Rousseff a candidata à presidência, bem como oficializou o então presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, como seu candidato a vice-presidente.

 A coligação de Dilma e Temer recebeu o nome “Para o Brasil Seguir Mudando” e foi composta por dez partidos. Em seu discurso de aceitação como candidata, declarou: “Não é por acaso que depois desse grande homem o Brasil possa ser governado por uma mulher, uma mulher que vai continuar o Brasil de Lula, mas que fará o Brasil de Lula com alma e coração de mulher”. Ainda em 2009, Míriam Leitão alertava que os fortes empréstimos dados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao grupo de Eike Batista não eram saudáveis à economia e expunham o banco a riscos de poucos grandes grupos. Em 2013, várias empresas do grupo entraram em concordata. Em decorrência da morte do ex-presidente argentino Néstor Kirchner no dia 27 de outubro de 2010, Miriam postou em seu blog que com a morte do ex-presidente “acaba o Kirchnerismo”, no sentido de que o estilo de governar do presidente argentino estaria chegando ao fim. No dia 23 de outubro de 2011, Cristina Elisabet Fernández de Kirchner foi reeleita presidente da Argentina no primeiro turno das eleições presidenciais, mas a grave crise econômica que atingiu o país nos anos seguintes fez sua popularidade política cair drasticamente. Pesquisa de 2014 já apontava que 67,5% dos argentinos desaprovavam o seu governo. O país entrou em nova moratória e o que agravou sua crise cambial. Após deixar a presidência da República, Cristina Kirchner fundou um think tank, o Instituto Pátria, e foi novamente eleita senadora pela província de Buenos Aires em 2017. Em 2019, surpreendeu ao anunciar que seria candidata à vice-presidência na eleição em vez de presidente, alegando que a decisão se deu pela necessidade de formar ampla aliança governamental peronista. Com Alberto Fernández como cabeça da chapa, Cristina se elege como vice-presidente da Argentina, a terceira mulher a ocupar o cargo. 

Na tentativa de observar – mutatis mutandis - o que se dá na relação vivida, segundo Mariano (2020) em uma entrevista jornalística, quais são seus motivos, seus riscos e suas virtudes, a autora percorre o conteúdo das interações e o quão “verídico” ele pode ser, dialogando com conceitos dos estudos sobre a questão da memória: a) as diferentes manifestações da memória; b) a indissociabilidade entre memória e identidade; e, c) as ideias de memória coletiva, memórias abertas e fechadas, esquecimentos e silenciamentos. Ao longo deste texto nos reportaremos a uma entrevista veiculada em 2018, durante a campanha eleitoral à Presidência do Brasil, com o então candidato à Vice-Presidência, Antônio Hamilton Mourão. Longe de ser uma escolha aleatória, acreditamos que o trecho sintetiza aspectos importantes para compreender uma vigorosa disputa de memórias que se acentua no Brasil contemporâneo e que tem repercutido nos veículos de comunicação e redes sociais, já anunciando ambições de influenciar políticas públicas.

Durante a campanha eleitoral à Presidência de 2018, os candidatos à Presidência e à Vice-Presidência foram entrevistados em diversos veículos de comunicação social. Na verdade, um trecho, muito expressivo, de diálogo entre a jornalista Miriam Leitão e o candidato Antonio Hamilton Mourão (AHM). A sequência de perguntas e respostas durou 1 minuto e 37 segundos e ocorreu no programa Sabatina Globo News, exibido pela TV a cabo Globo News em 7 de setembro de 2018, com duração aproximada de 1 hora (cf. Globonews, 2018). O então candidato Mourão estava sendo entrevistado por 7 jornalistas quando, após 27 minutos de entrevista, ocorreu o  diálogo exclusivo com Miriam Leitão: Antônio Hamilton Mourão (AHM) – Tivemos o governo Geisel, extremamente estatizante, mas também tivemos o Castelo Branco, que tinha Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, que foi o passo inicial, né? Miriam Leitão – Foi um período muito curto de pensamento mais liberal. AHM – Foi pouco, é…Miriam Leitão – O senhor acha que eles erraram? AHM – Acho que Geisel errou. Acho. Acho. É minha visão. Miriam Leitão – Só Geisel? Médici não? Ninguém? AHM – Médici foi diferente, foi um governo diferente. Agora, o Geisel foi o homem que realmente…Miriam Leitão – O senhor acha que foi melhor? Médici foi um melhor governo do que Geisel? AHM – Foi. Na minha visão, sim. ML – Mas não foi o período mais duro da ditadura, da repressão? AHM – É… Miriam, essa questão da ditadura, né? Isso é história, né? Eu sei que você teve a sua passagem difícil aí nesse período, não é? Mas isso é história. Miriam Leitão – Não falo por mim, falo pela história.

AHM – A história terá que ser bem contada a esse respeito. Nós tivemos grupos organizados que tentavam implantar um outro tipo de ditadura, vamos colocar assim. Atacaram o Estado. O Estado se defendeu. E quando ocorre guerra, a primeira coisa que é vítima é a razão. ML – O senhor tem dito, e também o candidato Bolsonaro, que o coronel Carlos Brilhante Ustra é um herói. [Mourão sacode a perna, começa a balançar os dedos da mão direita, desvia o olhar, balança a cabeça em sinal de concordância].  No período em que ele ficou no DOI-CODI, 47 pessoas morreram. [Órgão subordinado ao Exército, de inteligência e repressão do governo brasileiro durante a ditadura que se seguiu ao golpe militar de 1964]. Elas estavam sob a custódia do Estado. O senhor acha isso normal, que um herói deve fazer isso? Comandar um instamento militar, um local do Estado em que 47 pessoas morrem sob a custódia do Estado? [Ao final da pergunta, Mourão já voltou a olhar para a jornalista e diminuiu a agitação nas mãos]. AHM – Olha, os meus heróis não morreram de overdose, Miriam. [Sorri com ironia] Carlos Alberto Brilhante Ustra foi meu comandante quando eu era tenente em São Leopoldo. Um homem de coragem, um homem de determinação, que me ensinou muita coisa. ML – E os mortos?

AHM – Tem gente que gosta de Carlos Marighella, assassino, terrorista, autor do manual que é explorado…Miriam Leitão – Eu pergunto pelo Estado, o papel do Estado brasileiro naquele momento. AHM – Houve uma guerra, Miriam. Houve uma guerra. Excessos foram cometidos? Excessos foram cometidos. [O trecho a seguir está encoberto pela interrupção da jornalista]. Houve tortura? Houve tortura. ML – Então o seu herói matou pessoas. AHM – Heróis matam. [Desvia o olhar; silêncio de 5 segundos].  ML – Eu queria também perguntar uma coisa para o senhor sobre Reforma da Previdência… Algumas das afirmações de Mourão sobre o que teria ocorrido no Brasil durante os governos militares – “excessos”, “um homem de coragem” – e as motivações – “tentavam implantar um outro tipo de ditadura”, “o Estado se defendeu”, “tem gente que gosta de Carlos Marighella, assassino”, “heróis matam” – são distintas das versões frequentemente citadas na mídia, nos livros de história, nas produções artísticas e, especialmente, nas universidades. Ainda assim, traduzem a perspectiva de muitos brasileiros, que não só elegeram Jair Messias Bolsonaro e Antônio Hamilton Mourão como têm deixado comentários e depoimentos de plena concordância com essas e outras declarações e versões sobre o passado. Nas várias postagens dessa entrevista no YouTube, por exemplo, predominam comentários elogiosos ao general e depreciativos em relação aos jornalistas. Em tom irônico, deputado Eduardo Bolsonaro (PL) disse ter “pena” da cobra utilizada para amedrontar a jornalista quando ela tinha 19 anos, quando foi presa por militares.

Bibliografia geral consultada.

SILVA, Edna Melo, “Vertentes do Jornalismo Econômico no Telejornalismo Brasileiro: As Colunas de Míriam Leitão e Joelmir Beting”. In: Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. São Luís, 2010; SANTOS, Angelo de Assis Fernandes dos, O Blog de Míriam Leitão e a Linguagem do Jornalismo Econômico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação. Bauru: Universidade Estadual Paulista, 2011; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; MARI, Hugo; SANTANA, Eliara, “Discurso e Mídia: Totalitarismo e Linguagem Totalitária”. In: Scripta, 22(45), 205-218; 2018; VECHI, Fernando, Política, Judiciário e Mídia: A Divulgação das Interceptações  Telefônicas entre Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2018; SCHETTINI, Andrea Bandeira de Mello, Comissão de Verdade e o Processo de “Acerto de Contas” com o Passado Violento: Um Olhar Genealógico, Jurídico-Institucional e Crítico. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2019; ROCHA, Luís Gustavo Souza, Formação Cultural e Mídia: Uma Reflexão sobre o Processo Formativo do Indivíduo/Leitor a Partir das Colunas de Míriam Leitão. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019; ALVIM, Mariana, “Míriam Leitão e Eliane Brum são Consideradas as Jornalistas mais Premiadas da História do Brasil. Disponível em: https://oglobo.globo.com/16/01/2017VENTURINI, Lilian, “O Assassinato de Marielle Franco num Rio sob Intervenção em 4 Pontos Centrais”. In: Nexo Jornal, 15 de março de 2018; VASCONCELOS, Fabíola Mendonça de, Mídia e Conservadorismo: O Globo, a Folha de S. Paulo e a Ascensão Política de Bolsonaro e do Bolsonarismo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2021; Artigo: “Miriam Leitão recebe apoio de Lula contra ofensas de Eduardo Bolsonaro”. Disponível em: https://vermelho.org.br/2022/04/04/; AQUINO, Marla Mendes, História Genética e Assinaturas Adaptativas de Nativos da América do Sul. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Genética. Instituto de Ciências Biológicas. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2022; entre outros.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Grande Otelo – Consciência, Liberdade & Arte Cinematográfica.

                                                             Grande Otelo é o maior ator do Brasil”. George Orson Welles (1915-1985)                                   

           Com o descobrimento do arquivo pessoal de Sebastião Bernardes de Souza Prata (1915-1993), reconhecido artisticamente como Grande Otelo, e sua recuperação com o apoio da empresa estatal de economia Petrobras, o jornalista e crítico musical Sérgio Cabral pôde recompor passo a passo a démarche pessoal e profissional deste notável artista, um lendário “duende encantado e encantador” como definiu o ator Paulo José Gómez de Souza (1937-2021). Da infância em Uberabinha, onde aos seis ou sete anos de idade, já cantava para hóspedes de hotel “em troca de um tostão”, passando pelo mundo dos circos e das companhias teatrais da década de 1920, pelo teatro de revistas, o rádio, o cinema e a televisão, este livro narra a história social do garoto que trocou família mais de uma vez, compôs a dramatis personae “morador de rua” e Abrigo de Menores, e que, movido por uma extraordinária vocação para o palco, chegou ao Rio de Janeiro, de onde sua fama se espalharia pelo resto do país e do mundo. Sérgio Cabral (2007) nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1937. É jornalista, escritor, compositor e pesquisador brasileiro, pai do também jornalista e político Sérgio Cabral Filho, nascido no bairro suburbano de Cascadura, na Zona Norte, no Rio de Janeiro, foi criado no subúrbio de Cavalcante. Órfão de pai com 4 anos de idade, começou sua carreira em 1957, como repórter policial do Diário da Noite, um jornal vespertino carioca fundado em 1929 dos Diários Associados, o 3º maior conglomerado de mídia e corporação maior da história da imprensa no Brasil. 

Historicamente, em 1969, já como Editor político do jornal Última Hora, fundado pelo jornalista Samuel Wainer (1910-1980), em 12 de junho de 1951 no Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, juntou-se a Jaguar (pseudônimo de Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe) e Tarso de Castro (1914-1991) para a criação extraordinária d`O Pasquim. Para integrar a equipe artística do periódico, Samuel contratou profissionais de países vizinhos e valorizou a charge num momento em que outros jornais as deixavam de lado por conta da censura. Durante os Anos de Chumbo com o golpe civil-militar de Estado em 1º de abril de 1964, foi preso por seu ativismo neste jornal. Apaixonado por futebol, torcedor ilustre do Clube de Regatas Vasco da Gama, fundado em 21 de agosto de 1898 por um grupo de remadores, participou de Mesas Redondas na TV ao lado de Armando Nogueira, Luís Mendes, João Saldanha (1917-1990), Rui Porto, Sandro Moreira, Sérgio Noronha e tantos outros reconhecidos comentaristas que fizeram do futebol algo além do tempo e socialidade dos 90 minutos. Trabalhou como produtor entre 1973 e 1981. Como compositor, foi parceiro de Rildo Hora, gaitista, violonista, cantor, compositor, arranjador, maestro e produtor musical, escrevendo letras de sambas Janelas Azuis, Visgo de Jaca, Velha-Guarda da Portela e Os Meninos da Mangueira, entre outras. Também foi eleito vereador no município da cidade do Rio de Janeiro por 3 legislaturas políticas entre 1983 e 1993. Neste ano foi indicado para ser Conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro cargo que ocupou até maio de 2007, quando se aposentou compulsoriamente ao completar 70 anos de idade.

Do ponto de vista histórico e filosófico dialético a análise de Friedrich Hegel (2007) que parte da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica e que distingue da interpretação religiosa. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. A Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que existe de forma coincidente entre a história da filosofia e em seu ersatz a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo e as diferentes etapas, bem como os vínculos destas etapas que conduzem à síntese do espírito Absoluto. Para compreender seu sistema é necessário começar pela noção conspícua de representação, na filosofia que, ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para podermos alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Apreendemos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do “acúmulo de determinações”. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a “alma vivente” de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que representada por um “giro negativo” sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. O espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua real universalidade. Mas, enquanto consciência metafísica, por sua faculdade representativa do ser, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. O espírito finito se encontra numa união imediata com a natureza, em oposição com esta e finalmente em identidade com esta. Porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, na esfera de apreensão do real o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre aquela inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Friedrich Hegel (2007) ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à nossa existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está à frente. Enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada.

O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, são razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo.

Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade. O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. Nesta relação o em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por que haveria ali uma variação, mudança de tempo e espaço. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta e assimila, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.                 

Deve ser suprassumida como essa unidade imediata do indivíduo com seu gênero e com o mundo em geral; é preciso que o indivíduo progrida a ponto de se contrapor ao universal, como a Coisa assente-para-si, pronto e subsistente; e de apreender-se em sua autonomia. Essa autonomia, essa oposição, primeiro se apresenta em uma figura tão unilateral quanto, na criança, a unidade do subjetivo e do objetivo. O jovem desagrega a ideia efetivada no mundo da vida, de modo a atribuir-se a si mesmo a determinação do substancial: o verdadeiro e o bem; e atribui ao mundo, pelo contrário, a determinação do contingente, do acidental. Não se pode ficar nessa oposição não-verdadeira: o jovem deve, antes, elevar-se acima da dela à inteligência de que, ao contrário, deve-se considerar o mundo como o substancial, e o indivíduo, inversamente, só como um acidente; e que, portanto, o homem só pode encontrar sua ativação e contentamento essenciais no mundo que se lhe contrapõe, que segue seu curso com autonomia; e que, por esse motivo, deve conseguir a aptidão necessária para a Coisa. Chagado a esse ponto de vista, o jovem tornou-se homem. Pronto em si mesmo, o homem considera também a ordem ética do mundo não como a ser produzida só por ele, mas como uma ordem pronta, no essencial.

Assim ele é ativo pela Coisa, não contra ela; assim se mantém elevado, acima da subjetividade unilateral do jovem, no ponto de vista da espiritualidade objetiva. A velhice, ao contrário, é o retorno ao desinteresse pela Coisa; o ancião habituou-se a viver dentro da Coisa, e por causa dessa unidade que faz perder a oposição em relação à Coisa renuncia à atividade de interesse por ela. É bem verdade que a liberdade no pensamento tem somente o puro pensamento por sua verdade; e verdade sem a implementação da vida. Por isso, para Hegel, é ainda só o conceito da liberdade, não a própria liberdade viva. Com efeito, para ela a essência é só o pensar em geral, a forma como tal, que afastando-se da independência das coisas retornou a si mesma. Mas porque a individualidade, como individualidade atuante, deveria representar-se como viva; ou, como individualidade pensante, captar o mundo vivo como um sistema de pensamento; então teria de encontrar-se no pensamento mesmo, para aquela expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do pensar do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do pensamento, um conteúdo do que é verdadeiro. Com isso não haveria, absolutamente nenhum outro ingrediente, naquilo que é para a consciência, a não ser o conceito que é a essência. O conceito enquanto abstração, separando-se da multiplicidade variada das coisas, não tem conteúdo nenhum em si mesmo, exceto um conteúdo que lhe é dado. A consciência, quando pensa o conteúdo, o destrói como um ser alheio; mas o conceito é conceito determinado e essa determinidade é o alheio que o conceito possui nele.             

Esta unidade do existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e, no entanto, uma. É um conceito da razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo que resulta. Assim, o terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da evolução, o resultado de todo este movimento. E a isto chama “o ser por si”. É o “por si” do homem, do espírito mesmo. Somente o espírito chega a ser verdadeiro por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu objeto de pensamento, é ele mesmo. Ele é um desembocar em seu outro. O devir do espírito é um desprendimento, um desdobrar-se, ao mesmo tempo, um desafogo.

No que toca mais precisamente ao mais preciso e precioso lado da educação, a disciplina, não se há de permitir ao adolescente abandonar-se a seu próprio bel-prazer; ele “deve obedecer para aprender a mandar”. A obediência é o começo de toda a sabedoria; pois, através dela, a vontade que ainda não conhece o verdadeiro, o objetivo, e não faz deles o seu fim, pelo que ainda não é verdadeiramente autônoma e livre, mas, antes, uma vontade despreparada, faz que em si vigore a vontade racional que lhe vem de fora, e que pouco a pouco esta se torne a sua vontade. O capricho deve ser quebrado pela disciplina; por ela deve ser aniquilado esse gérmen do mal. No começo, a passagem de sua vida ideal à sociedade civil pode parecer ao jovem como uma dolorosa passagem à vida de filisteu, mas eles não tinham medo da morte. Até então preocupado apenas com objetos universais, e trabalhando só para si mesmo, o jovem que se torna um homem deve, ao entrar na vida prática, ser ativo para os outros e ocupar-se com singularidades, pois concretamente se se deve agir, tem-se de avançar em direção ao singular. Nessa conservadora produção e desenvolvimento do mundo consiste no trabalho humano. Podemos de um lado dizer que o homem só produz o que já existe. Mas é necessário que um progresso individual seja efetuado. Mas se o progredir no mundo só ocorrer nas massas, só se faz notar em uma grande soma de coisas produzidas.            

A Escolinha do Professor Raimundo representou uma alegoria da vida do brasileiro e um quadro cômico experenciado por Chico Anysio e exibido em diversos programa humorístico long time ago de 38 anos, período em que reuniu muitos dos maiores nomes artísticos do formato pragmático de interpretação da chamada “escolinha” no Brasil (cf. Castro, 2020). Estreou como programa próprio na televisão em 4 de agosto de 1957 e na Rede Globo a partir de 1973, até 28 de maio de 1995. Voltou ao vivo em 1999 como parte do humorístico Zorra Total, permanecendo até outubro de 2000. Pouco tempo depois de ter ficado sem mais haver o processo de transmissão na Rede Globo por conta da rotinização do trabalho e baixos resultados de audiência registrados, apesar disso, retornou a seu formato original e independente como programa de televisão sendo exibido entre 26 de março e 28 de dezembro de 2001, quando foi exibida sua última temporada. A partir de 4 de outubro de 2010, passou a ser reprisado pelo canal de tv pago por assinatura Viva. Quatro Dvds da Escolinha foram lançados pela Globo Marcas, cada um com episódios de determinado ano, o primeiro intitulado Turma de 1990

O segundo, Turma de 1991, incluiu um disco bônus com o especial Chico e Amigos, de 2009 que, todavia, incluía entre seus quadros humorísticos uma imitação da Escolinha com vários personagens de Chico Anysio. Em 2015, o Canal Viva produziu em parceria com a Rede Globo um remake da antiga Escolinha, com 7 episódios, sendo que 2 dos quais passaram apenas na exibição pela TV Globo. A equipe incluiu três familiares de Chico Anysio, todos com experiência na série pioneira original sob direção de sua sobrinha Cininha de Paula, redação do filho Nizo Neto que interpretava Seu Ptolomeu, e o professor Raimundo interpretado pelo filho Bruno Mazzeo, anteriormente era redator na velha Escolinha. O cinema do Brasil – mutatis mutandis - como exibição e entretenimento existe desde julho de 1896, e realização desde 1897. Na primeira década do século XXI, a atividade cinematográfica envolve pouco mais de 2 mil salas, que comercializam uma média de 100 milhões de ingressos anuais dos quais 15 e 20% são para filmes brasileiros. A estruturação do mercado exibidor no país acontece entre os anos 1907 e 1910, quando o fornecimento de energia elétrica no Rio de Janeiro e São Paulo passa a ser confiável com a inauguração da Usina de Ribeirão das Lajes. Em 1908 já havia 20 salas de cinema no Rio, boa parte delas com suas próprias equipes de filmagem. Exibiam filmes de ficção das companhias Pathé e Gaumont (França), Nordisk (Dinamarca), Cines (Itália), Bioskop (Alemanha), Edison, Vitagraph e Biograph (EUA), complementados por “naturais” documentários realizados na cidade dias anteriormente, tais como: “A chegada do Dr. Campos Sales de Buenos Aires”, ou “A Parada de 15 de Novembro” ou assim mesmo, um clássico do futebol carioca “Fluminense x Botafogo”.  

A primeira exibição de cinema no Brasil aconteceu em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, por iniciativa do exibidor itinerante belga Henri Paillie. Naquela noite, numa sala alugada do Jornal do Commercio, na Rua do Ouvidor, foram projetados oito curtas-metragens de cerca de um minuto cada, com interrupções entre eles e retratando apenas cenas pitorescas do cotidiano de cidades da Europa. A elite carioca participou deste fato histórico para o Brasil, pois os ingressos não eram baratos. Um ano depois já existia no Rio de Janeiro uma sala de exibição fixa de cinema, o “Salão de Novidades Paris”, de Paschoal Segreto, empresário ítalo-brasileiro e pioneiro do cinema no Brasil. Nascido na província italiana de Salerno, Paschoal aos 15 anos decidiu imigrar, junto ao irmão Gaetano, embarcando no vapor Savoie para o Rio de Janeiro. Unindo-se ao banqueiro de jogo do bicho José Roberto Cunha Sales, registravam invenções de outros países como deles, e exploravam diversões que eram novidades na Europa. Em apenas sete meses após os irmãos Lumière estrearem o cinema em Paris os dois trouxeram a novidade ao país, com uma exibição ocorrida em 8 de julho de 1896. Em 1897, José Roberto Cunha Sales dirige Ancoradouro de Pescadores na Baía de Guanabara, primeiro filme brasileiro. Inaugura a primeira sala cinematográfica, o Salão Novidades de Paris e em 1898 lança a revista Animatographo, considerada a primeira revista especializada em cinema do Brasil.

            Paschoal Segreto investiu no Teatro de Revista, sendo chamado por Procópio Ferreira (1898-1979) de “papa do teatro brasileiro”. Do início envolvendo-se com a contravenção, logo torna-se figura influente na esfera social e política, frequentando figuras como Hermes da Fonseca e aparecendo com frequência na revista Fon-Fon, concebida por Jorge Schmidt e fundada no Rio de Janeiro. Tendo como um de seus idealizadores o célebre escritor e crítico de arte Gonzaga Duque, tinha no escopo dado a ilustração de pessoas uma de suas principais características. A revista, inclusive, tornou célebres ilustradores como Nair de Tefé, J. Carlos, Raul Pederneiras e K. Lixto e contou, inclusive, com a colaboração do pintor Di Cavalcanti em 1914, circulando entre 13 de abril de 1907 e setembro de 1958. Além do Salão de Novidades, tinha no Rio de Janeiro o Parque Fluminense, a Maison Moderne e o Moulin Rouge, reformado em 1904; era arrendatário dos três grandes teatros o Carlos Gomes, São José e São Pedro. Noutras cidades controlou também várias casas de espetáculos e jogos de azar, como o Politeama e Eldorado, em São Paulo; o Varietés, em na cidade de Santos; o também chamado Salão das Novidades, em Campos, ou um salão para jogo de pelota basca, em Niterói (RJ). Morador do bairro de Santa Teresa, vivia com Carmela, não teve filhos, criando os sobrinhos, filhos de Gaetano e órfãos do pai desde 1908.                 

George Orson Welles (1915-1985) foi um ator, diretor, escritor e produtor norte-americano, considerado um dos artistas mais versáteis do século XX no campo do teatro, do rádio e do cinema. Ele alcançou o sucesso aos 20 anos graças à obra radiofônica, A Guerra dos Mundos (1938), que causou comoção nos Estados Unidos quando “muitos ouvintes pensaram que se tratava de uma retransmissão verdadeira de uma invasão alienígena”. Esta sensacional estreia lhe valeu um contrato social de três filmes com o estúdio RKO, que lhe deu a liberdade absoluta em matizar suas realizações. Apesar destes benefícios, apenas um dos projetos planejados conseguiu ver a luz do dia: Citizen Kane (1941), seu filme mais bem sucedido. Seguiu Cidadão Kane os aclamados pela crítica, incluindo The Magnificent Ambersons (1942) e Touch of Evil (1958). Embora estes três filmes sejam os mais aclamados, os críticos têm argumentado que outras obras suas, como The Lady from Shanghai (1947) e Chimes at Midnight (1966) foram subvalorizados.

Não por acaso ocorre a trilogia idealizada de Rogério Sganzerla sobre a visita de Orson Welles ao Brasil. O primeiro filme foi Nem Tudo É Verdade, de 1986, e o segundo Linguagem de Orson Welles, de 1991. Tudo É Brasil é um filme documentário brasileiro de 1997. Analisa It`s All True, de Orson Welles, rodado na década de 1940. Traz cenas inéditas e imagens dos bastidores do filme, com depoimentos do próprio Orson Welles e de colaboradores brasileiros e estadunidense, retrata o cotidiano dos negros dos subúrbios cariocas e dos jangadeiros de Fortaleza. Foi o terceiro filme da trilogia idealizada por Rogério Sganzerla sobre a visita de Orson Welles ao Brasil; o primeiro foi Nem Tudo É Verdade, de 1986, e o segundo foi Linguagem de Orson Welles, de 1991. Em 2002, Welles foi eleito o maior diretor de todos os tempos em duas votações realizadas pelo consagrado British Film Institute entre diretores e críticos, pesquisa etnográfica de “consenso crítico, listas de melhores e retrospectivas históricas” o consideram o diretor mais aclamado de todos os tempos na cinematografia.        

O British Film Institute (BFI) é uma entidade filantrópica, estabelecida pela Carta Régia para incentivar o desenvolvimento das artes cinematográficas, a televisão e a “imagem em movimento” em todo o Reino Unido, promover sua “utilidade de uso”, no sentido marxista, como um registro dos costumes contemporâneos, para estimular o ensino sobre cinema, televisão e a imagem e sobre seu impacto social sobre a utilidade de uso na sociedade, promovendo o acesso e valorização do cinema britânico ou cinema internacional, para cuidar e desenvolver coleções sobre a história e o património da imagem do Reino Unido. O BFI foi fundado em 1933. A fundação teve lugar na sequência de um relatório público, sobre o cinema e a vida nacional. Inicialmente, foi estabelecido como uma sociedade privada, mas no decorrer de sua história, passou a receber fundos públicos. Após o Relatório de Radcliffe em 1948, que recomendou que “se centrasse apenas na apreciação da arte cinematográfica, em vez de produzir filmes”. Perdeu uma parte, para promover a produção cinematográfica, a favor da British Film Academy (BFI) e do controle da produção de filmes educativos em benefício do National Committee for Audiovisual Aids in Education. Em 1988, inaugurou o Museum of the Moving Image.  

Em sua fundação na década de 1930, o BFI não tinha mandato para financiar a produção de filmes no Reino Unido. No entanto, o Relatório Radcliffe de 1948 “cria [d] um clima mais favorável para a produção cinematográfica potencial ao recomendar que o Instituto deve concentrar suas atividades exclusivamente na promoção do filme como forma de arte”. Como parte dos planos para o Festival da Grã-Bretanha em 1951, o BFI recebeu financiamento para produzir um lado cinematográfico do festival, usando £ 10.000 para encomendar vários curtas-metragens experimentais “a serem exibidos no Telecinema, um estúdio temporário de quatrocentos lugares cinema na margem sul”. Após o fechamento da Crown Film Unit, não havia mais nenhum órgão estatal de financiamento de filmes no Reino Unido. Quando um novo esquema, o Eady Levy, foi introduzido em dezembro de 1951, fornecendo duas bolsas de £ 12.500 para fazer filmes experimentais para o Telecinema, o BFI convidou o produtor Michael Balcon para presidir o comitê de seleção, e o Experimental Film Fund foi criado. Não recebeu mais financiamento do BFI e ofereceu pouco apoio, apesar de suas ambições. – “Os primeiros projetos considerados foram nas áreas de tecnologia estereoscópica e documentários de arte”. O surgimento do Movimento Cinema Livre, que incluía vários jovens cineastas como Lindsay Anderson, Karel Reisz, Tony Richardson e Walter Lassally, contribuíram de forma proeminente para a Revista Sight & Sound da BFI. O Fundo de Cinema Experimental apoiou filmes de Cinema Livre como Reisz e Momma Don`t Allow, de Richardson, Juntos, de Lorenza Mazetti (1956) e Ten Bob in Winter (1963) de Lloyd Reckord (1929-2015), primeiro filme britânico realizado por um cineasta negro. 

Lloyd Malcolm Reckord nasceu em Kingston, Jamaica, em 26 de maio de 1929. Começou sua carreira teatral com a pantomima Little Theatre Movement (LTM) no Ward Theatre. Conforme relatado por Michael Reckord no Jamaica Gleaner, “o primeiro grande papel de Reckord foi como Tobias em uma produção de Tobias and the Angel, no Garrison Theatre, Up-Park Camp, quando ele estava no final da adolescência. Demitido de seu emprego na loja de ferragens de seu tio porque insistiu que tinha que sair mais cedo para interpretar seu papel na pantomima da LTM, Alice no País das Maravilhas, Lloyd deixou a Jamaica em 1951 quando tinha 21 anos para se juntar ao irmão Barry, também dramaturgo e ator, na Inglaterra”. Fez o teste e aceito como aluno na Bristol Old Vic Theatre School, posteriormente ingressando na Old Vic Company em Londres. Ele também estudaria teatro nos Estados Unidos da América, anos depois, na Howard University, Universidade de Yale e a ala norte-americana do teatro.

Lloyd  Reckord apareceu na peça de Ted Willis, Hot Summer Night no New Theatre, St Martin`s Lane, Londres, em 1958, com Andrée Melly “como sua namorada branca”; uma adaptação posterior do Armchair Theatre no ano seguinte, em 1958, concentrou-se no relacionamento do casal. A adaptação do ITV Armchair Theatre desta peça, transmitida em 1º de fevereiro de 1959, é atualmente o primeiro exemplo reconhecido de um beijo interracial na televisão, e três anos depois, ele participou de “outro beijo interracial televisionado em You in Your Small Corner, uma peça da semana de Granada transmitida em junho de 1962, na qual ele beijou a atriz Elizabeth MacLennan . Essa reivindicação já havia sido feita para Emergência – Ala 10, que é posterior aos beijos anteriores de Reckord. A peça foi escrita a quatro mãos, pelo irmão de Reckord, Barry, e dirigida por Claude Whatham. Também atuou em várias séries de televisão, incluindo 4 episódios de Danger Man (1960-1961, 1964-1965), e The Human Jungle (1964), mas sentindo-se na teoria da rotulação como ator, ele queria mover em direção.

Que Jornada nas Estrelas foi a pioneira a mostrar um beijo interracial na televisão, entre o capitão Kirk e a tenente Uhura, já se reconhecia. O que ninguém sabia é que aquele momento revelava também que William Shatner era tão mulherengo quanto seu personagem, o bom e velho Jim. Conforme a data de exibição do episódio, “Plato’s Stepchildren”, foi se aproximando, as risadas foram substituídas por preocupações de como o público iria reagir. - “Chegamos ao dia –você sabe, o Grande dia. E de repente havia aquele zunzunzum no estúdio, eles estavam preocupados sobre como o Sul ia reagir”. Mas a atriz fez questão de dizer que a resposta acabou sendo muito positiva. - “As cartas despencavam. Tivemos mais cartas sobre aquele episódio do que de qualquer outro episódio em todos os tempos de Jornada nas Estrelas. Mas Gene me disse sobre uma carta vinda de um fã, ‘Essa carta aqui, essa é o máximo de cartas negativas que recebemos’. Era de um homem no Sul, que disse, ‘Eu não acredito na integração das raças e na fraternidade das raças, mas toda vez que algum rapaz americano de sangue vermelho como o capitão Kirk pega uma garota em seus braços que se parece com a tenente Uhura, ele não vai resistir a ela.’ Então, muitas das preocupações e temores sobre se as pessoas saberiam lidar com aquilo se dissiparam, e eu acho que sabíamos estar no caminho certo”.

Alguém que também pensava que Jornada estava no caminho certo com Uhura era Martin Luther King (1929-1968), que persuadiu Nichols a permanecer na série. - “Eu conheci o dr. King em uma entidade beneficente e ele me disse que ele era uma das pessoas mais importantes na família dele. Que eles assistiam Jornada nas Estrelas e que eu era um modelo e uma heroína para eles. E eu disse que estava muito orgulhosa disso e que era muito legal, e então eu disse que eu estava ... muito deixar a série, e ele disse abruptamente, ‘Você não pode! Você não deve de jeito nenhum. Você sabia que você tem o primeiro papel não-estereótipo na televisão? Você é a primeira. Isso não é um papel feminino. Isso não é um papel negro. É um papel de qualidade, e é um papel igualitário, e é em uma posição de comando. Você tem de continuar, porque não só crianças negras e mulheres veem você e aspiram e você tem significado para elas, mas todo o resto nos olha pela primeira vez do jeito que deveríamos –em uma base igual e em um nível de dignidade e autoridade e com a mais alta das qualificações`”. 

Mas este museu não foi um sucesso no Reino Unido e o fechamento temporário em 1999, se tornou definitivo em 2002. O Instituto recebeu a Carta Régia em 1983. Ele foi alterado em 2000, quando a Film Council foi criada para gerir as suas atividades. O Instituto de Cinema Britânico mantém o maior acervo cinematográfico do mundo, o BFI National Archive, anteriormente reconhecido como National Film Library (1935-1955), National Film Archive (1955-1992) e National Film and Television Archive (1993-2006). O acervo contém mais de 50.000 filmes de ficção, 100.000 títulos não-ficcionais e cerca de 625 mil programas das redes de televisão. A maior parte da coleção, são materiais britânicos, mas possuem participações internacionais significativas de todo o mundo. O acervo também recolhe filmes que apresentam atores britânicos e obras de diretores do Reino Unido. O BFI dirige o BFI Southbank, anteriormente reconhecido por National Film Theatre, o principal repertório cinematográfico do Reino Unido e o cinema Maximum, de Londres, é um formato de filme criado pela empresa canadense IMAX Corporation que tem a capacidade de mostrar imagens muito maiores em tamanho e resolução do que os sistemas convencionais de exibição de filmes, ambos localizados na margem sul do Rio Tâmisa em Londres. A IMAX tem a maior tela de cinema do Reino Unido, e mostra recentes estreias populares e os curtas-metragens que exibem sua tecnologia, onde inclui projeções em 3D e 11.600 watts de som surround digital. O BFI Southbank (National Film Theatre) também mostra filmes do mundo ocidental e filmes históricos e especializados, particularmente aclamados pela crítica cinematográfica, que de outra forma, não poderiam obter uma exibição tão plena no cinema. O BFI também distribui os arquivos de filmes culturais anualmente em outros locais e regiões.

Órfão aos quinze anos, após a morte do seu pai, pois sua mãe morreu quando ainda tinha 9 anos, Orson Welles começou a estudar pintura em 1931, primeira arte em que se envolveu. Adolescente, não via interesse nos estudos e em pouco tempo logo passou a atuar. Tal paixão o levou a criar sua própria companhia de teatro em 1937. Em 1938, Orson Welles produziu uma transmissão radiofônica intitulada A Guerra dos Mundos, adaptação da obra homônima de Herbert George Wells e que ficou famosa mundialmente “por provocar pânico nos ouvintes, que imaginavam estar enfrentando uma invasão de extraterrestres”. Um Exército que ninguém via, mas que, do ponto de vista comunicativo, de acordo com a dramatização radiofônica, em tom jornalístico, acabara de desembarcar no nosso planeta Terra. O sucesso da cadeia de “transmissão foi tão grande que no dia seguinte todos queriam saber quem era o responsável”. A fama do jovem cineasta Orson Welles começava. Foi casado com a atriz Rita Hayworth e tiveram a filha Rebecca.

Rita Hayworth (1918-1987) foi uma atriz, dançarina e produtora norte-americana. Alcançou a fama durante a década de 1940, como uma das principais estrelas de seu tempo, aparecendo em 61 filmes ao longo de 37 anos. A imprensa cunhou o termo “A Deusa do Amor” para descrever Rita Hayworth depois que ela se tornou “a ídolo mais glamourosa das telonas”, na década de 1940. Ela foi a maior garota pin-up para os militares durante a 2ª guerra mundial. É talvez mais reconhecida por sua atuação no filme noir Gilda, de 1946, ao lado de Glenn Ford, no qual ela interpretou uma femme fatale em seu primeiro grande papel dramático. Hayworth nasceu como Margarita Carmen Cansino em Brooklyn, Nova Iorque, sendo a filha mais velha de dois dançarinos. Seu pai, Eduardo Cansino, era descendente de ciganos em Castilleja de la Cuesta, uma pequena cidade perto de Sevilha, Espanha. Sua mãe, Volga Hayworth, era uma norte-americana de ascendência irlandesa e inglesa que havia se apresentado com Ziegfeld Follies. Casaram-se em 1917. Eles também tiveram outros dois filhos: Eduardo Jr. e Vernon. Seu tio materno Vinton Hayworth também era ator. O pai de Margarita queria que ela se tornasse dançarina profissional. Conquanto sua mãe esperava que ela se tornasse atriz. Seu avô paterno, Antônio Cansino, era reconhecido como um prestigioso dançarino clássico espanhol. Ipso facto, ele popularizou o gênero musical bolero, e sua Escola de Dança em Madrid era mundialmente famosa. Antônio Cansino deu a primeira aula de dança de Rita Hayworth.

Durante seu tempo na Fox Entertainment Group, Rita Hayworth foi anunciada como Rita Cansino e apareceu em papéis comuns, muitas vezes escalados como “a estrangeira exótica”. No final de 1934, aos 16 anos, performou uma sequência de dança em “A Nave de Satã” (1935), filme de Spencer Tracy, e foi contratada em fevereiro de 1935. Ela teve seu primeiro papel como uma garota argentina em “Under the Pampas Moon”, de 1935. Ela interpretou uma garota egípcia em “Charlie Chan in Egypt” e uma dançarina russa em “Paddy O`Day”, ambos também de 1935. Sheehan estava preparando-a para o papel principal no filme tecnicolor “Ramona”, de 1936, esperando estabelecê-la como uma nova Dolores del Río da Fox Film.  No final de seu contrato de 6 meses, a Fox se fundiu com a 20th Century Fox, com Darryl Francis Zanuck atuando como produtor executivo. Descartando o interesse de Sheehan por ela e dando a Loretta Young a liderança em “Ramona”, Zanuck não renovou o contrato social com Cansino. Sentindo seu potencial na tela, o vendedor e promotor Edward Charles Judson, com quem ela fugiria em 1937, conseguiu trabalho freelance para ela em vários filmes pequenos de estúdios e uma parte no filme da Columbia Pictures “Meet Nero Wolfe”, de 1936.

O chefe de estúdio da Columbia Harry Cohn assinou um contrato de sete anos com ela e a testou em pequenos papéis. Cohn argumentou que sua imagem era “muito mediterrânea”, o que a limitava a ser escalada para papéis típicos “exóticos” em menor número. Ouviram-no dizer que o sobrenome dela soava muito espanhol. Judson agiu de acordo com o conselho de Cohn: Rita Cansino tornou-se Rita Hayworth quando adotou o nome de solteira de sua mãe, para consternação de seu pai. Com um nome que enfatizava sua ascendência anglo-americana, as pessoas estavam mais propensas a considerá-la uma “clássica” americana. Com o incentivo de Cohn e Judson, Hayworth mudou “a cor do cabelo para vermelho escuro” e fez eletrólise para aumentar a linha do cabelo e ampliar a aparência da testa. Hayworth apareceu em cinco filmes menores da Columbia e três filmes independentes em 1937. No ano seguinte, ela apareceu em cinco filmes B da Columbia. Em 1939, Cohn pressionou Howard Hawks a usar Hayworth em papel pequeno, mas importante, daí o drama de aviação “Paraíso Infernal” (1939), atuando com Cary Grant e Jean Arthur, quando construiu o rosto (cf. Courtine, 2016) de Hayworth em 1940 nos filmes: “Music in My Heart”, “The Lady in Question”, e “Angels Over Broadway”.

Não queremos perder de vista sociologicamente que o rosto é objeto de um trabalho pessoal, indispensável à conversação e ao comércio entre os homens. Manuais de retórica, obras de fisiognomonia, um antigo tratado grego, livros e civilidade e artes da conversação lembram incansavelmente do século XVI ao XVIII que o rosto está no “centro das percepções de si, da sensibilidade ao outro, dos rituais da sociedade civil, das formas do político”. Trata-se de um privilégio antigo que reveste, per se, uma nova tonalidade a partir do início do século XVI. Ou, mais precisamente, que pelo rosto é o indivíduo que se exprime. Um laço se esboça e depois é traçado mais nitidamente a relação social entre sujeito, linguagem e rosto, um laço crucial para a elucidação da personalidade moderna. As percepções do rosto são lentamente deslocadas, assim como sensibilidades à expressão se desenvolvem progressivamente. Um dos traços essenciais do avanço do individualismo no âmbito da história social das mentalidades. Melhor dizendo, trata-se de um “individualismo dos costumes” que o historiador Philippe Ariès atribui a um processo geral de privatização que vai transformar profundamente a identidade individual entre aqueles dois séculos, e reconfigurar de maneira paradoxal as relações entre comportamentos públicos e privados: o que vai, por um lado, afirmar a preeminência do indivíduo e incitar a expressão pessoal.

Se o final do século XVIII vê a vitória política do indivíduo, trata-se também de um triunfo da expressão quando Denis Diderot (1713-1784) pode afirmar: - “Num indivíduo, cada instante tem sua fisionomia, sua expressão”. Ipso facto, o indivíduo é, daí em diante, indissociável da expressão singular de seu próprio rosto, tradução corporal de seu íntimo. Exprimir e calar, descobrir e mascarar, esses paradoxos do rosto são os do indivíduo e constituem metodologicamente uma arqueologia importante. Para sermos breves, elementos desses paradoxos estão presentes, sob diferentes formas em diferentes ensaios publicados no começo do século XX, tanto de Norbert Elias quanto de Max Weber, pois, comparativamente ocorre sob a denominação geral de “civilização dos costumes” e de “racionalização dos comportamentos práticos”, que um e outro sociólogo, se referiram a esse processo de afirmação individual, e, mais, de autocontrole, de repressão dos impulsos, de contenção. Esses paradoxos estão no quadro de análise da sociedade cortesã e do desenvolvimento da civilização, para Elias, e daquilo que para Weber equivale aos “fatores religiosos” na gênese de uma ética protestante e capitalista.   

Naquele ano, apareceu pela primeira vez em uma reportagem de capa da Revista Life. Fundada por John Ames Mitchell em 4 de janeiro de 1883 e editada semanalmente pela Life Publishing Company, a Revista Life ficou reconhecida pelos Cartoons, séries de Pin-up, textos humorísticos e pelas críticas de teatro e cinema. Enquanto estava emprestada à Warner Bros., Hayworth apareceu como a segunda protagonista feminina em “Uma Loira com Açúcar” (1941), ao lado de James Cagney e Olivia de Havilland. Ela voltou triunfante para o estúdio da Columbia Pictures e foi escolhida para o musical “Ao Compasso do Amor”, em 1941, ao lado de Fred Astaire em um dos filmes de maior orçamento que a Columbia realizou. O filme fez tanto sucesso de bilheteria que o estúdio produziu e noutro filme com Astaire-Hayworth, “Bonita Como Nunca”. Peter Levinson, o biógrafo de Astaire, escreveu que a combinação de dança entre Astaire e Hayworth representava o “magnetismo absoluto na tela”. Embora Astaire tenha feito 10 filmes com Ginger Rogers, sua outra principal parceria de dança, a sensualidade de Rita Hayworth superou a habilidade técnica legal e disciplinar de Rogers. – “A exuberância juvenil de Rita combinava perfeitamente com a maturidade e elegância de Fred”, diz Levinson.

Quando perguntaram a Astaire quem era sua parceira de dança favorita, ele tentou não responder à pergunta, mas depois admitiu que era Rita Hayworth: - “Tudo bem, eu vou te dar um nome”, disse ele. – “Mas se você deixar escapar, eu vou jurar que menti. Foi Rita Hayworth”. Astaire comentou que “Rita dançou com perfeição e individualidade treinadas (...). Ela era melhor quando estava gravando do que nos ensaios”.  O biógrafo Charlie Reinhart descreve o efeito que ela teve no estilo de Astaire: - “Havia uma espécie de reserva em Fred. Era encantador. Isso se transferiu para sua dança. Com Hayworth não havia reservas. Ela era muito explosiva. E é por isso que eu acho que eles realmente se complementavam”. Em agosto de 1941, Hayworth foi destaque em uma foto icônica da Revista Life, na qual ela posou em “uma camisola de cetim com um corpete de renda preta”. A foto de Bob Landry fez dela uma das duas melhores garotas pin-up dos anos da 2ª guerra mundial; a outra era Betty Grable, em uma fotografia de 1943. Por dois anos, a fotografia de Hayworth foi a fotografia pin-up mais solicitada em circulação. Em 2002, a camisola de cetim que Hayworth usou para a foto foi vendida por US$ 26.888. Eram modelos que estamparam pôsteres sensuais com uma estética muito própria nas décadas de 40 e 50. Embora sua origem remeta à Gibson Girl, uma mulher provocante pintada pelo artista norte-americano Charles Dana Gibson, em 1887, as pin-ups se popularizaram, quando soldados norte-americanos penduravam seus pôsteres nos alojamentos (daí o nome “pin-up”, que significa “prender com tachinhas”. Elas estabeleceram um processo de trabalho e comunicação com estilo de erotismo sutil que ainda hoje é reverenciado.

Em março de 1942, Hayworth visitou o Brasil como uma “embaixadora cultural” pela política de boa vizinhança do governo de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), sob os auspícios do Escritório para Assuntos Interamericanos. Durante a década de 1940, Hayworth também contribuiu para a iniciativa da diplomacia cultural do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs, agência dos Estados Unidos que promovia a cooperação interamericana durante a década de 1940, em apoio ao Pan-americanismo por meio de suas transmissões para a América do Sul na rádio “Cadena de las Américas”, da Columbia Broadcasting System (CBS). Hayworth teve o maior faturamento em um de seus filmes mais reconhecidos, o musical tecnicolor “Modelos”, lançado em 1944. O filme a estabeleceu “como a principal estrela da Columbia na década de 40”, e deu a ela a distinção de ser a primeira de apenas seis mulheres a dançar na tela com Gene Kelly e Fred Astaire. – “Acho que as únicas joias da minha vida”, disse Hayworth em 1970, “foram as fotos que fiz com Fred Astaire... E “Modelos` também”. Por três anos consecutivos, começando em 1944, Hayworth foi considerada uma das principais atrações de bilheteria do mundo. Ela era adepta do balé, sapateado, dança de salão, e rotinas espanholas. Cohn continuou a mostrar os talentos de dança de Hayworth. A Columbia nos filmes “O Coração de Uma Cidade”, de 1945, com Lee Bowman; e “Quando os Deuses Amam”, de 1947, com Larry Parks. Grande Otelo e Oscarito em cena de Barnabé, Tu És Meu (1951). Foto: Arquivo Estadão.                         

Grande Otelo, nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, em 18 de outubro de 1915 e faleceu em Paris, em 26 de novembro de 1993. Foi ator, comediante, cantor, produtor e compositor. Grande artista de cassinos cariocas e do chamado Teatro de Revista, participou de diversos filmes brasileiros de sucesso, entre eles, as famosas chanchadas nas décadas de 1940 e 1950, quando estrelou em parceria com o artista cômico Oscarito, e a versão cinematográfica de Macunaíma, realizada em 1969 do gênero comédia e fantasia, escrito e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), baseado na obra de Mário de Andrade. É citado como um dos mais importantes atores da história do Brasil. Sua vida teve várias tragédias. Seu pai morreu esfaqueado e a mãe era alcoólatra. Quando já era um ator consagrado, sua mulher cometeu suicídio “logo após matar com veneno seu filho de seis anos de idade, que era enteado do ator”. Grande Otelo vivia em Uberlândia quando conheceu uma companhia de teatro Mambembe e fugiu com eles, com “o consentimento da diretora do grupo, Abigail Parecis, que o levou para São Paulo”. Ele voltou a fugir e acabou no Juizado de Menores, até “ser adotado pela família do político Antônio de Queiroz”. O artista Grande Otelo estudou no Liceu Coração de Jesus, até a 3ª Série Ginasial. Participou na década de 1920, da Companhia Negra de Revistas (cf. Barros, 2005), que tinha a colaboração de Pixinguinha como maestro. Foi em 1932 que entrou para a Companhia Jardel Jércolis, tornando-se um dos pioneiros do Teatro de Revista. Nasce o nome que levaria a boa fama como Grande Otelo, reiterado por Sebastião Bernardes de Souza Prata que adotou consciente o nome na Sétima Arte. 

Em 1926, com apenas seus 11 anos de idade, ingressou na Companhia Negra de Revista, composta exclusivamente por artistas negros, entre eles, Pixinguinha, um maestro, flautista, saxofonista, compositor e arranjador considerado um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira (MPB). Contribuiu diretamente para que o choro encontrasse uma forma musical definitiva, o músico Donga e a atriz e cantora Rosa Negra. Em 1932 entrou para a Companhia Jardel Jércolis, um dos pioneiros do teatro de revista. Com esta Companhia chegou ao Rio de Janeiro, realizando “seu sonho de infância”. Era um assíduo frequentador das noites cariocas, na famosa gafieira Elite, no bar Vermelho ou nos bares da Lapa (Centro). Entre 1938 e 1946, fazia trabalhos na Rádio Nacional, na Rádio Tupi, entre outras. Atuou no Cassino da Urca em diversos espetáculos. Em 1939, contracenou com a atriz e dançarina norte-americana Josephine Baker (1906-1975), que considerou uma das mais importantes apresentações de sua carreira. Negro, com apenas 1,50 metros de altura viveu numa época de dominação colonialista e preconceituosa, em que negros não podiam se quer entrar pela porta da frente do Cassino, fato social que “mudou depois da contratação do artista”. Nessa época, compôs junto com Herivelto Martins o famoso samba “Praça Onze”, um grande sucesso no carnaval de 1942.

O Cassino da Urca foi uma casa de jogos com representação comercial de fama internacional localizado no bairro carioca da Urca na cidade do Rio de Janeiro e que funcionou de 1933 a 1946, quando os jogos foram proibidos. O prédio onde se localizava o Cassino foi construído no ano de 1922, abrigando inicialmente o Hotel Balneário. Transformado em Cassino no ano de 1933, passou por um período de adaptações e poucas visitas até que o empresário Joaquim Rolla ganhasse numa rodada de cartas parte de suas ações. A partir daí, o Cassino viveu dias de glória e funcionou até o ano de 1946, quando os jogos de azar foram proibidos pelo Presidente Dutra. Entre 1954 e 1980, após ter sido comprado pelos Diários Associados, o prédio foi adaptado para receber os estúdios da TV Tupi. Após décadas de abandono e deterioração o antigo Cassino, lado praia, foi restaurado pelo Istituto Europeo di Design para sua sede no Rio de Janeiro. Desde 2013 as instalações são utilizadas pelo Istituto Rio. O famoso salão de público e o palco do teatro que recebia grandes atrações e shows de artistas brasileiros Grande Otelo, Carmen Miranda e sua irmã Aurora Miranda, Dick Farney, Virginia Lane, Dalva de Oliveira e o Trio de Ouro, Ary Barroso e a famosa dançarina Josephine Baker. Com a criação da TV Tupi, o palco era o centro de programas incluindo o “Cassino do Chacrinha” líder de audiência da televisão durante muitos anos. Grande Otelo em cena de bastidores com Joaquim Pedro de Andrade, Dina Sfat e Cristina Ache, ao fundo. Foto: Arquivo Estadão.                    

Josephine Baker era filha de Carrie McDonald, “mas seu pai é de nome incerto”. Alguns biógrafos afirmam que seria Eddie Carson, que foi certamente amante de sua mãe, mas Josephine acreditava que “seu pai teria sido um homem branco”. O pai de Josephine, segundo a biografia oficial, era o ator Eddie Carson. Várias fontes, no entanto, afirmam que seu pai teria sido “um vendedor ambulante de joias”. Ela era efetivamente fruto de grande miscigenação racial: tinha além da herança negra, de escravizados da Carolina do Sul, também a herança genética de índios americanos apaches. Os apaches são um grupo étnico na-dene, sendo um dos povos nativos dos Estados Unidos. Falam a língua apache e habitam reservas indígenas, no sudoeste dos Estados Unidos da américa. Os povos Apaches ocupavam territórios em Arizona, norte do México, Novo México, oeste e sudoeste do Texas e sul de Colorado. Os locais tradicionais dos Apaches consistiam em montanhas altas, vales abrigados e fornecidos de água, grandes ravinas, desertos e as Grandes Planícies do Sul. Há controvérsia sobre a inclusão ou não dos navajos entre os apaches. Josephine começou sua carreira ainda criança, como artista de rua. Participou de espetáculos de vaudeville de St. Louis Chorus, aos 15 anos. Atuou em Nova York, em alguns espetáculos da Broadway, em 1921 e 1924. Em 2 de outubro de 1925, estreou em Paris, no Théâtre des Champs-Élysées, fazendo imediato sucesso com sua dança erótica, aparecendo praticamente nua em cena. Graças ao sucesso da sua temporada europeia, rompeu o contrato e voltou para a França, tornando-se a estrela da Folies Bergère. Suas apresentações foram memoráveis, dentre elas uma que vestia uma saia feita de bananas.

Por suas atuações no Teatro de Revista, foi contemporânea da grande vedete francesa Jeanne Bourgeois, artisticamente reconhecida como Mistinguett. O charme de Mistinguett estava em sugerir nudez, exibindo as suas belíssimas pernas, ao passo que Josephine ia muito mais longe em matéria de nudez. Na verdade, eram duas formas de arte diferentes. Mistinguett era mais elitista enquanto Josephine era mais visivelmente popular. Durante a 2ª guerra mundial, teve um papel importante na resistência à ocupação, atuando como espiã. Depois da guerra, foi condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Francesas e a Medalha da Resistência. Recebeu também, do presidente Charles de Gaulle, o grau de Cavaleiro da Legião de Honra. Nos anos 1950, usou sua grande popularidade na luta social contra o racismo e pela emancipação dos negros, apoiando o Movimento dos Direitos Civis, de Martin Luther King. Também trabalhou na National Association for the Advancement of Colored People. Curiosamente adotou 12 órfãos de várias etnias que chamava “tribo arco-íris”. Eram eles: Janot, coreano; Akio, japonês; Luís, colombiano; Jari, finlandês; Jean-Claude, canadense; Moïse, judeu francês; Brahim, argelino; Marianne, francesa; Koffi, costa-marfinense; Mara, venezuelana; Noël, francês; e Stellina, marroquina. Tinha um guepardo de estimação com o nome de Chiquita.

Jeanne Bourgeois começou a trabalhar como florista em restaurante, na sua cidade natal, cantando “cançonetas populares enquanto vendia as flores”. Seu grande sonho era brilhar em grandes palcos. Sabendo não ter um talento aguçado, fez os pais investirem em aulas de dança e de canto. Posteriormente, alterou a sua profissão, a sua voz e nome artístico, tendo utilizado sucessivamente Miss Helyett, Miss Tinguette, “Mistinguette” e, finalmente, Mistinguett, sem a vogal “e” no final. Estreou no Cassino de Paris, em 1895, aparecendo também em espetáculos no Folies Bergère, no Moulin Rouge, e no Eldorado. A sensualidade de suas apresentações cativou Paris, tornando-a “a mais popular vedete de sua época e a mais bem paga do mundo”. Em 1919, as suas pernas foram cobertas por uma apólice de seguros, pela importância segurada de 500 000 francos, milionária. Nos anos 1920, encenou operetas de sucesso: Paris qui Danse, Paris qui Jazz, En Douce, Ça, c`est Paris, e Oui, Je suis de Paris. A maioria das músicas utiliza-se da corneta como acompanhamento musical, característica desse bom tempo. Suas músicas são marcadas pela sensualidade e alegria nas letras. Tinha também um talento enorme para escolher as canções pela popularidade que residiam das mesmas. Por isso, Mistinguett também é reconhecida como um símbolo dos anos loucos, os loucos anos 1920. Mesmo sendo um símbolo dos anos 20, Mistinguett teve uma carreira muito longa. Reconhecida desde o fim do século XIX, não deixou de trabalhar até a sua morte, em meados dos anos 1950.

Também lançou muito no âmbito da moda. E isso bem antes de Coco Chanel, Mistinguett já usava seus cabelos curtos e cruzava elegantemente as pernas, além de fumar muito, hábito que, antes dela, era restrito apenas aos homens. Foi um símbolo de ousadia e de vanguarda, isso quando o século XX ainda nem despontara completamente. Após 1933, sua carreira começou a entrar em lentíssimo declínio. Mesmo assim, nunca parou de trabalhar. Numa quadra sem cirurgias plásticas e cosméticos avançados, chamou atenção a jovialidade que ela demonstrava natural mesmo após ter passado dos 60 anos. Aparentava ter 20 anos a menos, tanto que no filme Rigolboche, de 1936, quando ela provavelmente tinha 61 anos, ela fazia o papel de uma cantora que mostrava belas pernas e era mãe de um garoto de 6 anos. Era apelidada devido à forma física de “indestrutível”. Trabalhou nos filmes da indústria cinematográfica francesa, numa conjuntura em que filmes de cinema em sua progênie ainda eram filmes mudos. No cinema falado, trabalhou em Rigolboche, em 1936 e em Carrocelo del Varietà, de 1955, um ano antes de morrer.

No entanto, não gostava de atuar em filmes, dizendo que não tinha a mínima graça trabalhar “olhando para uma máquina de olho de vidro”, conforme ela própria dizia. Jeanne Bourgeois foi sobretudo uma artista que precisava de contato direto com o público. Isso explica o seu sucesso: mesmo sem ter voz potente e sem dançar com desenvoltura, hipnotizava plateias. Manteve um longo relacionamento afetivo com o jovem Maurice Chevalier (1888-1972), treze anos mais novo que ela, muito embora tenha mantido outros tórridos envolvimentos amorosos, que se tornaram lendários em seu tempo, como o caso com um marajá indiano e o filho da Rainha Vitória, da Inglaterra. No início do século XX, teve um romance com o engenheiro e diplomata Leopoldo José de Lima e Silva, de rica família do Rio de Janeiro e cônsul do Brasil em Paris, com quem teve um filho, nascido em 1901. Não é de se estranhar que em algumas de suas canções seja citado um riche brésilien, como em Gosse de Paris e Sur le boulevard des italiens. Em 1923, esteve no Brasil na inauguração do hotel Copacabana Palace, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro. Sua presença foi muito alardeada, mas mesmo assim Mistinguett, famosa “por ter as mais belas pernas do mundo”, foi proibida de exibi-las. A maneira mais teimosa, porém, de nos entregarmos à técnica, de acordo com uma lição antiga, é entendermos que a essência de alguma coisa é aquilo que ela é, como aquilo que é afirmativo na dialética hegeliana. Questionar a técnica significa perguntar o que ela é. Pertence à técnica a produção e o uso de ferramentas, aparelhos e máquinas, como a ela pertencem estes produtos e utensílios em si mesmos e as necessidades a que eles servem. O conjunto de tudo isso é a técnica. A própria técnica é também um instrumento. Enfim, a concepção corrente da técnica de ser ela um meio de trabalho e uma atividade humana pode se chamar a determinação instrumental e antropológica da técnica.

Na arte cinematográfica lembramos que Fritz Lang é considerado dentre os mais famosos cineastas contemporâneos vinculado ao expressionismo alemão, cujo auge se deu na década de 1920. É caracterizado pela distorção de cenários e personagens, através da maquiagem, dos recursos de fotografia e de outros mecanismos, com o objetivo de expressar a maneira como os realizadores viam o mundo. Em 1919 estreou na direção com o filme: Halbblut, obtendo o primeiro sucesso com Os Espiões, do mesmo ano inicial de sua estreia. Baseado no romance de Thea Gabriele von Harbou, sua parceira e esposa   que também assina o roteiro, a história social gira em torno do “desaparecimento de certos documentos e a iminente assinatura de um tratado internacional”. Alemães, russos, franceses e japoneses do ponto de vista da análise comparada têm interesses na correlação de forças sociais e políticas. A montagem inicial é ágil e já nos deixa a par dos fatos políticos e uma antecipação da ação em seu devir. É um filme que não envelhece. Chega com fôlego na história do cinema e da modernidade aos oitenta anos de sua démarche. Seu ritmo extraordinário e o uso da técnica garantem a adrenalina.  

Fritz Lang representava o segundo filho do arquiteto e gerente de uma empresa de construção civil Anton Lang e de Pauline Lang, católicos romanos praticantes, apesar de sua mãe ter nascido judia Ish e depois se convertido ao catolicismo quando Fritz tinha 10 anos de idade. Lang nunca demonstrou interesse sociológico pela herança judaica e identificou-se mais com o catolicismo cristão, não sendo um devoto praticante, apesar de ter utilizado regularmente imagens católicas e temas correlatos em seus filmes. Fritz começou estudando Engenharia Civil na Universidade Técnica de Viena, fundada em 1815 como Instituto Politécnico Real e Imperial. O escopo da universidade é o ensino e a pesquisa em engenharia e ciências naturais, mas depois acabou “migrando” para a arte. Por volta de 1910 resolveu sair de Viena e viajou para conhecer a Europa e também a África, indo depois para a Ásia quando conheceu parte do Pacífico, e em 1913 resolveu ir para Paris, onde passou a estudar pintura. A efervescência cultural, política e social da Berlim do pós-guerra, se reflete nas suas primeiras obras. Em 1919 estreou na direção cinematográfica como vimos com Halbblut, perdido, acerca do qual se sabe muito pouco. Alcançou o primeiro sucesso com o filme Os Espiões, do mesmo ano de sua estreia.

Dirige na sequência a produção Die Nibelungen (1924) tematizando sobre o “fantástico mitológico”, ou, a linguagem de distopia futurista Metropolis (1927) contendo os trabalhadores, que vivem debaixo de terra e põem as máquinas para funcionar, e a “classe dirigente”, para lembramos do conceito marxista de Antônio Gramsci (1975) que vive à superfície – talvez o expoente máximo do cinema dos anos 1920. Nasceu em Viena, na Áustria, filho de um engenheiro civil. Aos 21 anos mudou-se para Munique (1911), onde estudara pintura e escultura diante da efervescência cultural, política e social da Berlim do pós-guerra. Em 1921 casou-se com a roteirista Thea Von Harbou, que escreveu os argumentos dos filmes desta primeira fase da carreira. Era uma família da base da nobreza, com oficiais no governo, que lhe deu conforto enquanto crescia. Quando criança, foi educada em um convento, com tutores particulares, onde aprendeu a falar diversos idiomas, a tocar piano e violino, sendo “considerada uma criança prodígio”. Seus primeiros trabalhos foram contos publicados em revista e um livro de poemas publicado por conta, tematizado em suas percepções a respeito da arte, algo quase incomum para uma criança de 13 anos. Apesar de levar uma vida privilegiada, queria ganhar seu próprio dinheiro, tornando-se atriz, apesar dos protestos conservadores de sua pródiga família.

Após estreia em 1906, Thea conheceu Rudolf Klein-Rogge, com quem se casou durante a 1ª guerra mundial (1914-18). Em 1917, o casal se mudou para Berlim, onde Thea se dedicou a “construir uma carreira de escritora”. Começou a escrever sobre mitos épicos e lenda, em geral com um tom ultranacionalista. Segundo historiadores, seus livros começaram a se tornar patrióticos e com a intenção de levantar a moral do povo alemão, pedindo que as mulheres se dedicassem e se sacrificassem a promover a “glória eterna da pátria”. Sua primeira interação social com o cinema ocorreu através do diretor alemão Joe May, que decidiu adaptar o livro de Thea, Die heilige Simplizia. Sua produção de ficção começou a cair, conforme ela se tornavam uma das maiores roteiristas alemãs, não apenas por sua parceria com Fritz Lang, mas por seus roteiros escritos para Friedrich Wilhelm, Carl Dreyer e Ewald André Dupont, considerados os luminares alemães. O irmão Horst von Harbou, foi trabalhar para a empresa Film Aktiengesellschaft (UFA) como fotógrafo e começou uma parceria com o casal Thea e Fritz em várias de suas produções. Os estúdios UFA foram criados no decurso da guerra por indicação do alto comando alemão de “produzir filmes de propaganda e, simultaneamente, obras de arte que permitissem promover a imagem da Alemanha no estrangeiro”. São películas do “cinema mudo”, que entrariam para a história dentre os maiores expoentes do expressionismo. O cineasta deixou a marca estética na história do cinema. Influenciou diretores tão distintos de formação e influência mundial como o inglês Alfred Hitchcock, o espanhol Luís Buñuel e o norte-americano Orson Welles.

No cinema, o magnífico ator Grande Otelo representou um dos grandes destaques da Atlântida Cinematográfica, fundada no Rio de Janeiro em 18 de setembro de 1941, por Moacir Fenelon e os irmãos José Carlos e Paulo Burle. O objetivo da Companhia era bem definido e de forma pragmática: promover o desenvolvimento industrial do cinema brasileiro, quando protagonizou o filme Moleque Tião (1943), de José Carlos Burle, o primeiro sucesso nacional da produtora. Na década de 1950, Grande Otelo atuou na Televisão Tupi (1950-1980) do Rio de Janeiro e na TV Rio (1955-1977). A partir de 1960 começou a realizar diversos trabalhos na TV Globo. Participou da novela Sinhá Moça (1986), do humorístico Escolinha do Professor Raimundo (1990/1993) e da Renascer novela de 1993. Grande Otelo foi casado com a atriz e dançarina Maria Helena Soares (Joséphine Hélene), e com Olga Prata, com quem teve quatro filhos, entre eles o ator José Prata. Em 1993 viajou para a França para receber uma homenagem no Festival dos Três Continentes realizado na cidade de Nantes. Durante uma semana, 10 filmes, todos inéditos em França e dois deles sem estreia comercial a nível mundial competiram. O continente asiático é o que está mais representado, com um total de 7 longas-metragens em competição. Foram retrospectivos os filmes de sabre e samurais de Hong Kong e a história do cinema da Malásia. Tem objetivo homenagear à atriz mexicana Katy Jurado, que foi durante 1950 a “mulher fatal” e ao ator egípcio Nour El-Chérif. 

Fascinado pela vida boêmia da Lapa e dentre outros bairros cariocas, Grande Otelo se mudou para o Rio de Janeiro em meados da década de 1930. Lá conheceu seu grande parceiro, o músico Herivelto Martins, com quem compôs o famoso samba Praça Onze (1944) em uma das muitas idas ao badalado Cassino da Urca. Aliás, até a contratação de Grande Otelo para apresentações, os negros não podiam sequer entrar pela porta da frente do Cassino. Práticas do racismo brasileiro (cf. Habib, 2003; Hirano, 2013). Herivelto de Oliveira Martins (1912-1992) foi um dos maiores compositores brasileiros e também cantor, músico e ator. Ficou reconhecido como criador do célebre conjunto vocal Trio de Ouro, formado em 1937, que durante as primeiras décadas do século XX foi um dos mais importantes grupos musicais brasileiros. Suas canções já foram regravadas por diversos artistas dos mais variados estilos musicais, sendo sua obra considerada uma das mais importantes da Era de Ouro da Música Popular Brasileira (MPB). Em 1935, no Cine Pátria, na enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, Herivelto Martins conheceu Dalva de Oliveira e passaram a cantar em dueto. Iniciaram um namoro e, no ano seguinte, iniciaram uma convivência conjugal, oficializada em 1937 num ritual de umbanda (cf. Pordeus Junior, 1988), que gerou os filhos Pery Ribeiro e Ubiratan de Oliveira Martins.

A União formal durou até 1947, quando as constantes brigas e traições da parte dele deram fim ao casamento. Em 1949, depois da separação oficial do casal e o fim da primeira formação do Trio de Ouro, Herivelto Martins e Dalva de Oliveira iniciaram uma discussão, inclusive através das composições que gravaram, bastante explorada pelos jornais e revistas de entretenimento da época. Depois de uma pequena turnê na Venezuela, Herivelto saiu de casa, e tirou de Dalva a guarda dos filhos, e os manda para um internato. Passa a publicar em todos os jornais que Dalva é prostituta e que promove orgias dentro de casa, o que resultou nas mencionadas “canções de guerra” um para o outro. Em 1946, Herivelto passou a namorar a aeromoça Lurdes Nura Torelly, uma mulher desquitada, que tinha um filho do primeiro casamento. Vinha de família rica, sendo prima do conhecido comediante de alcunha Barão de Itararé. Em 1952, o casal passou a viver juntos, tendo oficializado a união em 1978. Herivelto e Lurdes geraram três filhos: Fernando José, Yaçanã Martins e Herivelto Filho, além dele criar o filho de Lurdes como filho. O casamento durou 38 anos, até a morte de Lurdes, em 1990.

O cinema surgiu na vida de Grande Otelo ainda nos anos 1940, tempo em que estrelou filmes como Moleque Tião e Também Somos Irmãos, ao lado da grande amiga atriz Ruth de Souza. A interpretação reconhecida do ator foi Macunaíma, de 1969. Adaptação da célebre obra de Mário de Andrade, que narra as mudanças sociais de “um herói preguiçoso e sem caráter, que nasce negro, mas se transforma em branco para emigrar da selva para a cidade”. Pela atuação e interpretação, Grande Otelo venceu o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 1969. No cinema, o mineiro radicado no Rio de Janeiro também fez parte do elenco de um filme não finalizado, It’s All True, de Orson Welles, que apontou Grande Otelo como um dos maiores atores do mundo. Elogiado por Welles, Grande Otelo protagonizou outro momento marcante para a história das artes cinematográficas brasileiras. Ao lado do então presidente Juscelino Kubitschek e de Pixinguinha, se encontrou com o músico norte-americano Louis Armstrong, que desembarcara no Brasil para uma temporada de shows. Na TV acumula atuações, entre outros, ao lado de nomes como Chico Anysio, Geisa Bôscoli e Ruth de Souza.

Foi na empresa cinematográfica Atlântida que Grande Otelo fez uma grande parceria com Oscarito, tornando-se a dupla mais famosa e mais bem sucedida do cinema brasileiro, estrelando grandes sucessos como, Noites Cariocas (1935), Este Mundo é um Pandeiro (1946), Três Vagabundos (1952), A Dupla do Barulho (1953) e Matar ou Correr (1954), Assalto ao Trem Pagador (1962), O Dono da Bola (1961), Quilombo (1984). Entre suas peças teatrais destacam-se: Um Milhão de Mulheres (1947), Muié Macho, Sim Sinhô (1950), Banzo Aiê (1956) e O Homem de La Mancha (1973). No teatro, atuou com diversos diretores, entre eles, o precursor Walter Pinto (1913-1994), um produtor e autor de teatro brasileiro, responsável direto pela renovação cultural no país do Teatro de Revista. Consagrou-se neste gênero, que renovou e proporcionou seu auge e dinamismo, com espetáculo em que a cenografia e grandes efeitos visuais eram o atrativo, e per se não um enredo ou a presença de desta estrela em cena.

           TV Brasil é a rede de televisão pública do Poder Executivo Brasileiro. Pertence à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) um “conglomerado de mídia do governo do país”. Tem cobertura nacional pela retransmissão de três emissoras próprias: matriz na capital federal Brasília e filiais nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, e 63 afiliadas, sendo parte delas componentes da Rede Nacional de Comunicação Pública. A emissora foi formada em 2007 a partir da fusão da TVE Brasil, do Rio de Janeiro, e da TVE Maranhão, de São Luís, com canais educativos mantidos pela Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, com a TV Nacional, de Brasília, canal público da extinta Radiobrás, que passaram a integrar a EBC, também criada no mesmo ano, junto a outros veículos pertencentes a suas mantenedoras, como as rádios Nacional e MEC. A rede está presente em sinal aberto e via antenas parabólicas, além de ser obrigatoriamente transmitida pelos serviços de operadoras de TV paga, segundo a Lei do Serviço de Acesso Condicionado, conjuntamente ao seu canal secundário estatal, a TV Brasil 2, subordinado à Presidência da República e a suas ações oficiais. Em maio de 2007, foi anunciado que o Governo do Brasil planejava criar uma rede de televisão pública com programação gerada a partir da capital federal Brasília e das cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e de São Luís, que recebeu TV Brasil como nome. Para tal, seria realizada uma fusão incluindo a TV Nacional, pertencente à Radiobrás, a TVE Brasil e a TVE Maranhão, mantidas pela Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (ACERP), das quais equipes e espaços seriam utilizados pela futura rede popular de televisão brasileira.  

O responsável por gerir o projeto social foi Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Em 10 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) assinou Medida Provisória que criou a Empresa Brasil de Comunicação, integrando os veículos da Radiobrás e da ACERP, como as rádios Nacional e MEC e a TV Nacional do Brasil. A empresa teria um conselho curador composto por quinze membros da sociedade civil, quatro representantes do governo e um indicado dos funcionários, e seria financiada por recursos públicos, doações e patrocínios.  Seu orçamento seria de R$ 350 milhões. Em 24 de outubro, a medida provisória torna-se o Decreto n.º 6.246, instituindo definitivamente a criação da EBC, publicado no Diário Oficial da União no dia seguinte. A TV Brasil foi inaugurada ao meio-dia de 2 de dezembro em Brasília, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em São Luís. A data foi escolhida por ser a de lançamento, na capital paulista, do sistema de transmissão digital de televisão no país. No período pós-estreia, sua grade de programação, improvisada, era composta por atrações da Nacional e da TVE. Sua primeira e até aquele momento única produção própria foi criar o Repórter Brasil, telejornal apresentado em duas edições direto das três primeiras capitais.

Até o fim de 2008, apenas Rio de Janeiro, Brasília e São Luís podiam sintonizar a TV Brasil em canal aberto analógico. O sinal aberto chegou a ser disponibilizado em São Paulo, mas sofreu interferências provocadas por uma companhia telefônica, obrigando a mudança para o canal 62. Em 2008, a emissora passou a cobrir eventos como o carnaval em Recife e em Salvador e festas juninas na Bahia, em Pernambuco e em Sergipe, com o auxílio de suas afiliadas. A emissora transmitiu as cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Paralímpicos de 2008. A emissora também fez coberturas integradas com outros veículos da EBC como nos Jogos Olímpicos e nas Eleições 2008. Ainda no primeiro semestre de 2008, o então editor-chefe do telejornal Repórter Brasil, Luís Lobo, foi demitido. Na época, Lobo acusou o governo federal de interferir na divulgação de assuntos contrários ao governo. O conselho curador da TV Brasil refutou as acusações de Lobo. Em 3 de dezembro de 2008, comemorando um ano, a emissora inaugurou seu canal digital em São Paulo. Nessa data estreou também uma nova logomarca que ficaria até julho do ano seguinte. Em 16 de outubro, a então presidente da EBC, Tereza Cruvinel, anunciou a criação do canal internacional, voltado para emigrantes e a África foi o primeiro continente a receber as transmissões, em 2010.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a presidente da EBC Tereza Cruvinel no lançamento da TV Brasil Internacional em 2010. Em 3 de maio, a emissora começa a operar oficialmente a Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), formada pelos quatro canais da EBC, sete emissoras universitárias e 15 estações estaduais. Em 13 de maio, foi anunciado o início das operações da TV Brasil Internacional a partir de 24 de maio, pela África, como previsto. Com um evento realizado no Itamaraty, foi realizada uma conversa ao vivo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente de Moçambique, Armando Guebuza, em Maputo. O canal só não estará disponível em cinco países do continente: Egito, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos. O início pela África foi justificado por ser o primeiro contrato fechado de retransmissão local por cabo, com a distribuidora Multichoice. Diferentemente de outras estações internacionais de comunicação social, que transmitem nos seus idiomas, mas com legendas em línguas dos países receptores, tendo em vista neste momento inicial, que não haverá legendas.

Venceu, pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT) os prêmios de melhor produtor de teatro musicado do ano em 1949, 1950, 1951 e 1953, com a medalha de ouro. José Carlos Penafiel Machado (1908-1992) foi um produtor e diretor de espetáculos musicais brasileiro, reconhecido como “O Rei da Noite”, e pai da atriz Djenane Machado. O auge de sua fama na carreira ocorreu entre o final da chamada Era dos Cassinos, em 1946, e a mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília, em 1960. Foi produtor de espetáculos musicais no formato de Teatro de Revista, apreciados pela nata da sociedade carioca, entre eles estadistas, políticos, milionários e diplomatas, e onde podia ser encontrado o que de melhor havia entre músicos, cenógrafos, coreógrafos, atores e mulheres bonitas, mais conhecidas como as vedetes de Carlos Machado. Produziu e dirigiu mais de 150 espetáculos. Seus shows eram realizados na Boate Night and Day, que funcionou no Edifício Serrador entre as décadas de 1940 a 1960, na cidade do Rio de Janeiro e o talentoso Chico Anysio (1931-2012), humorista, ator, radioator, produtor, locutor, roteirista, escritor, dublador, apresentador, compositor e pintor brasileiro, notório por seus inúmeros quadros artísticos e programas humorísticos na Rede Globo, emissora onde trabalhou por mais de 40 felizes anos. Ipso facto tendo criado e reinventado mais de 200 personagens cômicos em 65 anos de gloriosa carreira, é considerado um dos maiores humoristas. Dirigiu e atuou ao lado de importantes humoristas brasileiros no rádio e na televisão, como Paulo Gracindo, Grande Otelo, Costinha, Walter D`Ávila, Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro, Ivon Curi, José Vasconcellos entre outros. Com 63 anos de carreira, é considerado um dos mais geniais humoristas brasileiros. Em 2009 recebeu a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta honraria da cultura no Brasil.

Em abril de 1942, historicamente as Filipinas, Indochina e Cingapura caem sob domínio japonês. A Alemanha nazista e seus parceiros do Eixo declaram guerra aos Estados Unidos. Os britânicos bombardeiam a cidade de Köln, ou Colônia, trazendo a guerra para dentro do território alemão pela primeira vez. Em 1942 Grande Otelo participou do filme It`s All True, de Orson Welles. O intérprete e diretor norte-americano considerava o ator Grande Otelo “o maior ator brasileiro”. Fez inúmeras parcerias no cinema, sendo a mais reconhecida com Oscarito, nome artístico de Oscar Lorenzo Jacinto de la Inmaculada Concepción Teresa Díaz (1906-1970), um ator espanhol, naturalizado brasileiro. É considerado um dos mais populares cômicos do Brasil, ficando famoso pela dupla que fez com Grande Otelo, em comédias dirigidas por Carlos Manga e Watson Macedo. Depois os produtores formariam uma nova dupla dele com o cômico paulista Ankito, nome artístico de Anchizes Pinto (1924-209) um notável ator brasileiro, considerado um dos cinco maiores nomes das chanchadas que eram comédias musicais, misturadas com elementos sociológicos de filmes policiais e de ficção científica.

No final dos anos 1950, Grande Otelo formou dupla em vários espetáculos musicais e também no cinema, com Vera Regina (1925-1988), “uma negra alta que lembrava a famosa dançarina norte-americana naturalizada francesa Josephine Baker”. Atriz que começou sua carreira como dançarina, primeiro nos musicais de Silveira Sampaio e, em seguida, na companhia de Carlos Machado. Foi nas revistas de Carlos Machado que fez parceria de grande sucesso com Grande Otelo, revivida nas telas de cinema em várias chanchadas. Ankito foi outro parceiro de sucesso. Com o fim da parceria, Grande Otelo passou por um período de crise, até voltar ao sucesso no cinema com sua grande atuação como o personagem título de Macunaíma (1969), baseado na obra de Mário de Andrade. Em 1974, estrelou ao lado de Miriam Batucada o exitoso espetáculo Samba, Coisa e Tal, produzido por Haroldo Costa. Participou também do filme dirigido por Werner Herzog, Fitzcarraldo, de 1982, filmado na extraordinária floresta amazônica. Nos anos 1960, contratado da rede Globo de televisão, emissora na qual atuou em diversas telenovelas de grande sucesso, como Uma Rosa com Amor (1972). Também participou do humorístico Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio no início dos anos 1990. Partiu no trabalho na TV com Renascer pouco antes de morrer.

Um problema particular surge quando a teoria deve desbravar um território onde não há mais discursos. A operação teorizante se encontra aí nos limites do território onde funciona normalmente. É um espaço delimitado na natureza por um grupo social ou indivíduo, animal ou humano. Território com o qual se identificam & via de regra são identificados. Onde encontram e ou produzem os meios materiais à sua existência. A interrogação abstrata teórica, não esquece, não pode esquecer, que além da relação desses discursos, uns com os outros, existe a sua relação comum com aquilo que eles tomaram cuidado para excluir de seu campo para constituí-lo. Uma reflexão teórica não escolhe manter as práticas à distância de seu lugar, de maneira que tenha de sair para analisa-las, mas basta-lhe invertê-las para se encontrar em casa. Os procedimentos sem discurso são coligidos e fixados e uma região abstrata que o passado organizou e que lhes dá o papel, condicionante da teoria, de ser constituídos em “reservas” selvagens para o saber abstrato e policompetente da ciência esclarecido. À medida em que a razão que surgiu da Aufklärung determina suas disciplinas, suas coerências e seus poderes sociais. A distinção não se refere mais essencialmente ao binômio tradicional que divide o ponto de vista abstrato do concreto, especificado pela separação entre a imaginação que decifra o livro do cosmos, e as aplicações concretas, mas visa duas operações diferentes, uma discursiva (na e pela linguagem) e a práxis não discursiva. Desde o século XVI, a ideia de método abala a relação prática entre o conhecer e o fazer, impõe-se o esquema fundamental de um discurso que organiza a maneira de pensar em maneira de fazer, em gestão racional de uma produção e em operação regulada sobre campos apropriados.

Fato notável, desde o século XVIII e no decorrer do século XIX, os etnólogos, os filósofos materialistas, ou os historiadores da ciência ou da técnica consideram as técnicas respeitáveis em si mesmas. Destacam aquilo que fazem. Não sentem necessidade exclusivamente de interpretar. Basta saber-poder-descrever. Enquistada na particularidade, desprovida das generalizações que fazem a competência exclusiva do discurso, a arte nem por isso deixa de formar um “sistema” e organizar-se por “fins” – dois postulados que permitem a uma ciência e a uma ética conservar em seu lugar o discurso “próprio” de que está privada, isto é, escrever-se no lugar e em nome dessas práticas. A arte constitui em relação à ciência um saber em si mesmo essencial, mas ilegível sem ela. Entre a ciência e a arte, considera-se não uma alternativa, mas a complementaridade e, se possível, a articulação. O lugar que lhe foi atribuído é relativo ao trabalho que, durante o século XIX, de um lado isolou da arte as suas técnicas e, de outro, “geometrizou” e matematizou essas técnicas. No saber-fazer se conseguiu isolar tecnicamente aquilo que poderia ser destacado da chamada “performance individual”, e isto se “aperfeiçoou” em máquinas com utilidade de uso, para lembramos de Marx,  que constituem combinações controláveis de formas materiais e forças sociais.


Encontra-se disponível para acesso pela World Wide Web designa um sistema de documentos em hipermídia que são interligados e executados na rede mundial de computadores (Internet) grande parte do Acervo Grande Otelo, recebido oficialmente pela Fundação Nacional da Arte (Funarte) em dezembro de 2007. O material estava armazenado há vários anos em um apartamento no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, guardado em caixas de papelão, nas quais foram descobertos manuscritos, livros de autoria de Grande Otelo, e outros com dedicatórias de amigos e personalidades reconhecidas da cultura brasileira; letras de música suas compostas por ele e em parcerias, discos de formato em vinil, fitas-cassete com os mais variados conteúdos etnográficos de entrevistas, músicas e programas apresentados pelo artista; prêmios e homenagens referidas em troféus, placas, diplomas e certificados, recebidos durante a sua longa e produtiva carreira, roteiros de cinema, TV, teatro, rádio, shows, partituras, correspondências, livros, monografias, poemas, fotos, obras de arte, recortes de jornais e revistas. A Fundação Grande Otelo é a detentora dos direitos de nome, imagem, obra e acervo, após doação dos direitos por seus herdeiros.

O trabalho iconográfico de restauração e catalogação do material se iniciou em 2004 pela produtora artística carioca Sarau Agência de Cultura Brasileira. O acervo foi fundamental para o conteúdo de sentido do Projeto 90 anos de Grande Otelo, idealizado pela mesma produtora, fornecendo informações inéditas e pontuais para a biografia do artista, realizada pelo escritor Sérgio Cabral. O acervo serviu de base também para a criação de um site, um documentário e um espetáculo teatral. Após o término do projeto, o acervo restaurado, higienizado e digitalizado foi entregue à Funarte, oficialmente no dia 17 de dezembro. O público tem acesso físico ao material desde fevereiro de 2008. Esses “órgãos técnicos” são retirados da competência manual e colocados num espaço próprio. Passam a subordinar-se ao domínio de uma nova tecnologia. E agora o saber-fazer se acha lentamente privado que o articulava objetivamente num fazer crer. Aos poucos essas técnicas lhe são tiradas para serem transformadas em máquinas, o saber-fazer parece retirar-se para um saber no plano subjetivo, separado da divisão do trabalho e da particularidade da linguagem técnica e de seus procedimentos científicos.

A otimização técnica ocorrida no século XIX, indo inspirar-se no tesouro das artes e ofícios para criar os modelos, pretextos ou regras obrigatórias para suas invenções mecânicas, deixa às práticas cotidianas apenas um solo privado de meios ou de produtos próprios. Ela o constitui em região folclórica ou em uma terra duplamente silenciosa, sem discurso verbal como outrora e agora sem linguagem manual. O “retorno” dessas práticas na narração, segundo a fenomenologia de Michel de Certeau, está ligado a um fenômeno mais amplo, e historicamente menos determinado, que a crítica se poderia designar como “estetização do saber” implícito no saber-fazer. Separado de seus procedimentos, este saber é considerado um “gosto” ou um “tato”, quem sabe mesmo “genialidade”. A ele se emprestam os caracteres sociais de uma intuição ora artística, ora reflexa. Trata-se, como se costuma dizer, de um conhecimento que não se conhece. Este “fazer cognitivo” não viria acompanhado de uma autoconsciência que lhe desse um domínio por meio de uma reduplicação ou “reflexão” interna. Entre a questão reconhecida entre a prática e a teoria, esse conhecimento ocupa ainda uma “terceira” posição, não discursiva, mas primitiva.

Acha-se recolhido, originário, como representante de uma “fonte” daquilo que se diferencia e se elucida como um próprio. Que admitimos tratar-se de um saber não sabido. Há, nas práticas cotidianas, um estatuto análogo aquele que se atribui às fábulas ou aos mitos, como os dizeres de conhecimentos que não se conhecem em si mesmos. Tanto num caso como no outro, trata-se de um saber sobre os quais os sujeitos não refletem. Dele dão testemunho per se sem poderem apropriar-se dele. São afinal locatários e não os proprietários do seu próprio saber-fazer. A respeito não se pergunta se há saber (supõe-se que deva haver), mas este é sabido apenas por outros e não por seus portadores. Tal como o dos poetas ou pintores, o saber-fazer das práticas cotidianas não seria reconhecido senão pelo intérprete que o esclarece no seu espelho discursivo, mas que não o possui tampouco. Pode-se dizer como possibilidade que não pertence a ninguém. Fica circulando entre a inconsciência dos praticantes e a reflexão dos não praticantes. Trata-se de saber anônimo referencial, uma condição de possibilidade das práticas técnicas ou eruditas.

Bibliografia geral consultada.

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