domingo, 2 de novembro de 2025

Día de Muertos – Celebração & Tradição Mexicana de Povos Indígenas.

 Um país sem acesso às várias formas de cultura é um país fadado a ser conservador”. Lilia Schwarcz         

 Día de los Muertos ou Dia dos Mortos é um feriado tradicionalmente celebrado nos dias 1° e 2 de novembro, embora outros dias, como 31 de outubro ou 6 de novembro, possam ser incluídos dependendo da região. O feriado de vários dias envolve a reunião de familiares e amigos para prestar homenagens e rememorar amigos e familiares que morreram. Essas celebrações podem ter um tom humorístico, pois os celebrantes lembram eventos divertidos e anedotas sobre os que partiram. É observado no México, onde se desenvolveu amplamente, e também em outros lugares, especialmente por pessoas de ascendência mexicana. A observância ocorre durante o período cristão do Dia de Todos os Santos. A “observação participante” é um tipo de coleta de dados tipicamente usado em pesquisa qualitativa e na etnografia. Este tipo de metodologia é empregado em muitas disciplinas, particularmente na antropologia, incluindo antropologia cultural e etnologia europeia, sociologia, estudos comunicativos, geografia humana e psicologia social. Seu objetivo é ganhar uma intimidade familiar e próxima com um certo grupo de indivíduos, como religiosos, ocupacionais, subgrupos culturais ou uma comunidade particular, e suas práticas através de envolvimento intenso com pessoas em seu espaço cultural, usualmente sob certo período de tempo. Alguns estudiosos argumentam que há influências indígenas mexicanas ou astecas sobre o costume, embora outros o vejam como uma expressão da temporada do Dia de Todos os Santos que foi trazida para a região pelos espanhóis; O Dia dos Mortos tornou-se uma forma de recordar os antepassados da cultura mexicana.

No México, onde a maioria dos habitantes pertencem à religião católica, mas mantém forte apelo de ricas tradições mesoamericanas, há cerimônias sincréticas em torno da morte, que misturam o sagrado e o profano de uma maneira irônica, que pode ser considerado um deboche desse sentimento; a ironia, a brincadeira, o tratamento familiar e amistoso, respeito, temor e deboche, são formas de “exorcizar” a morte, tornando-a distante e ao mesmo tempo próxima. Esta forma de celebração remonta às culturas do México antigo. De fato, a forma de celebrar o dia dos mortos encontra suas origens pré-hispânicas nas culturas indígenas. Há relatos de que os povos indígenas Astecas, Maias, Nahuatls e Totonecas praticavam o culto aos mortos. Os rituais que celebram a vida dos ancestrais se realizavam nestas civilizações pelo menos há três mil anos. Na Era pré-hispânica era comum a prática de conservar “os crânios como troféus, e mostrá-los durante os rituais que celebravam a morte e o renascimento”. A festa dos mortos, por exemplo, era vinculada ao calendário agrícola pré-hispânico e realizada na época da colheita. Seria como o primeiro período de fartura, o primeiro banquete, depois da escassez dos meses anteriores. O catolicismo introduzido pelos espanhóis, não mudou o passado pré-hispânico; ao contrário, fomentou a forma religiosa de culto indígena aos mortos, criando um sincretismo religioso. Antes da invasão dos Espanhóis, os indígenas acreditavam que a vida continuava após a morte, de fato, a vida mesma se alimentava da morte. Se para nós, cristãos, a morte é a passagem para a vida eterna, para os astecas a morte era a maneira de participar das forças criadoras dos deuses.

Eles acreditavam que nem a vida, nem a morte, lhes pertencia, tudo era “um capricho dos deuses”. A religião dos povos indígenas Maias e Astecas era politeísta, tendo os deuses uma base na natureza. Os deuses da morte estavam representados por meio de caveiras; de fato, a morte para estas culturas era identificada por medo da imagem da caveira. O deus da morte dos Maias era representado pela imagem de um corpo humano esquelético. Para os povos Mexicas, os que morressem poderiam ir para um dos três lugares nos quais se acreditava, dependendo da causa da morte. Se se morresse por enfermidade ia-se para um lugar sem luz e sem janelas, sem oportunidade de sair; se se morresse por afogamento ou por doenças contagiosas ia-se para o paraíso, onde havia muita comida e diversões; quando se morria em batalhas ou as mulheres morriam durante o parto, iam subir ao céu onde vive o Sol. Os Mexicas foram um povo que habitou a América do Norte conemporaneamente e estabeleceu o Império Asteca, fundando a cidade de Tenochtitlán no Vale do México por volta de 1325. Eles desenvolveram uma sociedade urbana complexa com instituições políticas, religiosas e económicas, que se tornou um grande centro de desenvolvimento cultural, e foram uma civilização que dominou grande parte da região, formando um império com diversos povos. As culturas pré-colombianas acreditavam na imortalidade da alma e na sua vida além-túmulo ao se desprender do corpo. Para eles, a morte não significava o fim da existência, mas uma mudança. Os Maias enrolavam os corpos em panos e enchiam suas bocas de alimento para que na outra vida não lhes faltasse o que comer. Os corpos eram incinerados ou enterrados no fundo das casas ou em túmulos comuns. Os Astecas incineravam ou enterravam seus mortos, embora as práticas dependessem do estrato social ao qual celebração historicamente a qual se pertencia.                                



As pessoas eram enterradas com suas roupas e joias, as cinzas dos que eram incinerados eram depositadas em panelas (ou recipientes) de barro e nelas ficavam também as joias como propriedades do falecido. Outra tradição era de cantar, comer e beber durante o transcurso da cerimônia. Os quatro planetas “mais próximos” do Sol: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte, possuem em comum uma crosta sólida e rochosa, razão pela qual se classificam no grupo dos planetas telúricos ou rochosos. Mais afastados, os quatro gigantes gasosos, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, são os componentes de maior massa do sistema logo após o próprio Sol. Dos cinco planetas anões, Ceres é o que se localiza “mais próximo” do centro do Sistema Solar, enquanto Plutão, Haumea, Makemake e Éris, encontram-se além da órbita de Netuno. Permeando praticamente toda a extensão do Sistema Solar, existem incontáveis objetos que constituem a classe técnica dos corpos menores. Os asteroides, essencialmente rochosos, concentram-se numa faixa entre as órbitas de Marte e Júpiter que se assemelha a um cinturão. Além da órbita do “último planeta”, a temperatura é suficientemente baixa para permitir a existência de fragmentos de gelo, que se aglomeram sobretudo nas regiões do Cinturão de Kuiper, teorizado na década de 1950 e teve sua comprovação final somente nos anos 1990, como disco disperso e na nuvem de Oort; esporadicamente são desviados para o interior do sistema onde, pela ação do calor do Sol, transformam-se em cometas. Muitos corpos, por sua vez, possuem força gravitacional suficiente para manter orbitando em torno de si objetos menores, os satélites naturais, com as mais variadas formas e dimensões. Os planetas gigantes apresentam sistemas de anéis planetários, uma faixa composta por minúsculas partículas de gelo e poeira.

As teorias que buscam explicar como ocorreu a formação do Sistema Solar começaram a surgir no século XVI, a partir da observação mais acurada do movimento dos corpos. Ao longo do tempo, algumas dessas hipóteses foram ganhando importância. René Descartes, por exemplo, sugeriu que o Sol e os planetas surgiram a partir de um vórtice existente no universo primordial. A teoria da captura dos protoplanetas, por seu lado, sugere que estes corpos coalesceram de uma nuvem molecular e, posteriormente, foram capturados pela gravidade do recém-formado Sol, juntaram-se e formaram os planetas. Uma variante deste conceito propõe que os protoplanetas foram capturados pelo Sol a uma estrela de baixa densidade que passou nas proximidades. Laplace foi o responsável por desenvolver a hipótese de que o Sol teria se formado a partir de uma nuvem que girava e se contraía e, ao seu redor, os restantes materiais se condensaram nos demais corpos. Essa teoria, comumente referida como hipótese nebular, passou por algumas adaptações e se tornou a mais aceita no meio científico, especialmente após observações recentes da composição de meteoritos, que conservam características do período em que se formaram, nos primórdios do Sistema Solar, de acordo com a teoria moderna mais aceita, teve origem a partir de uma nuvem molecular que, por alguma perturbação gravitacional, entrou em colapso e formou a estrela central, enquanto seus remanescentes geraram os demais corpos. Em sua configuração atual, todos os componentes descrevem órbitas praticamente elípticas ao redor do Sol, constituindo um sistema no qual os corpos estão em mútua interação mediada pela força gravitacional.

A hipótese moderna para a origem do sistema solar é baseada na hipótese nebular, sugerida em 1755 pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), e desenvolvida em 1796 pelo matemático francês Pierre-Simon de Laplace (1749-1827), em seu livro Exposition du Système du Monde. Laplace, que desenvolveu a teoria das probabilidades, calculou que como todos os planetas descobertos estão no mesmo plano, giram em torno do Sol na mesma direção, e também giram em torno de si mesmo na mesma direção, com exceção de Vênus, mas que só poderiam ter se formado de uma mesma grande nuvem discoidal de partículas em rotação, a nebulosa solar. A versão moderna da teoria nebular propõe que uma grande nuvem rotante de gás interestelar colapsou para dar origem ao Sol e aos planetas. Uma vez que a contração iniciou, a força gravitacional da nuvem atuando em si mesma acelerou o colapso. À medida que a nuvem colapsava, a rotação da nuvem aumentava por conservação do momentum angular e, com o passar do tempo, a massa de gás rotante assumiria uma forma discoidal, com uma concentração central que deu origem ao Sol. Os planetas teriam se formado a partir do material no disco. As observações indicam que muitas nuvens de gás interestelar estão no processo de colapsar em estrelas, e os físicos que predizem o achatamento e o aumento da taxa de spin estão corretos.

A contribuição moderna à hipótese nebular diz respeito principalmente a como os planetas se formaram a partir do gás no disco, e foi desenvolvida nos anos 1940 pelo físico alemão Carl Friedrich Freiherr von Weizsäcker (1912-2007). Após o colapso da nuvem, ela começou a esfriar; apenas o Proto-sol, no centro, manteve sua temperatura. O resfriamento acarretou a condensação rápida do material, o que deu origem aos planetesimais, agregados de material com tamanhos da ordem de quilômetros de diâmetro, cuja composição dependia da distância ao Sol: regiões mais externas tinham temperaturas mais baixa, e mesmo os materiais voláteis tinham condições de se condensar, ao passo que nas regiões mais internas e quentes, as substâncias voláteis foram perdidas. Os planetesimais a seguir cresceram por acreção de material para dar origem a objetos maiores, os núcleos planetários. Na parte externa do sistema solar, onde o material condensado da nebulosa continha silicatos e gelos, esses núcleos cresceram até atingiram massas da ordem de 10 vezes a massa da Terra, ficando tão grandes a ponto de poderem atrair o gás a seu redor, e então cresceram mais ainda por acreção de grande quantidade de hidrogênio e hélio da nebulosa solar. É neste sentido que os cientistas deram origem assim aos planetas jovianos. Na parte interna, onde apenas os silicatos estavam presentes, os núcleos planetários não puderam crescer muito, dando origem aos planetas terrestres.

A sua estrutura tem sido objeto de estudos desde a Antiguidade, mas somente há cinco séculos a humanidade reconheceu o fato astronômico de que o Sol, e não o planta Terra, constitui o centro do movimento planetário. Desde então, a evolução dos equipamentos de pesquisa, como telescópios, possibilitou uma maior compreensão do sistema. Entretanto, detalhes sem precedentes foram obtidos somente após o envio de sondas espaciais a todos os planetas, que retornam imagens e dados com uma precisão nunca antes alcançada. Há cerca de 4,66 bilhões de anos, toda a matéria que hoje forma o Sistema Solar se encontrava sob a forma de gás e poeira pertencentes a uma grande nebulosa com extensão estimada entre cinquenta e cem anos-luz, composta sobretudo por hidrogênio e uma considerável fração de hélio, além de traços de elementos mais pesados como carbono e oxigênio e alguns compostos silicados que formavam a “poeira interestelar”. Em algum momento, por conta de uma provável influência externa, como uma onda de choque provocada pela explosão de uma supernova nas proximidades, uma região em seu interior começou a se tornar mais densa e, por causa da gravidade, progressivamente passou a atrair mais gás em sua direção, dando origem a um núcleo que se aquecia conforme ganhava massa.

Os missionários católicos durante a colonização espanhola, embora tentassem acabar com os costumes indígenas do culto aos mortos, apenas conseguiram modificar essas tradições e transferir o culto aos mortos para a data da festa cristã do dia de “todos os santos” e dos “fiéis defuntos”, nos dias 01 e 02 de novembro de cada ano. A tradição da celebração dos mortos, entretanto, permaneceu mais ou menos igual aos costumes originais dos diversos povos indígenas. Assim, a população deu destaque à festa do dia dos mortos, sendo parte do imaginário e da cultura popular mexicana, passando a ser vivida de maneira sincrética, misturando culturas indígenas e catolicismo popular. Esta festa é parte da “resistência indígena”, na falta de melhor expressão, das raízes nativas das culturas Asteca e Maia e outras, destruídas, em grande parte, pelos colonizadores espanhóis. Atualmente é a festa em que a morte invade a vida e a vida invade a morte, como dois movimentos do mesmo evento. As tradições incluem homenagear os falecidos usando calaveras e flores de calêndula como cempazúchitl, construir altares chamados ofrendas com as comidas e bebidas favoritas e visitar túmulos com esses itens como presentes para os falecidos.  

Em razão sua para a cultura, Día de los Muertos foi eleito em 2003 pela Unesco, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A celebração não é centralizada apenas nos mortos, pois também é comum dar presentes aos amigos, como caveiras de açúcar, compartilhar o tradicional “pan de muerto” com a família e amigos e escrever versos alegres e muitas vezes irreverentes na forma de epitáfios falsos, dedicados a amigos e conhecidos vivos, uma forma literária conhecida como calaveras literarias, que são composições poéticas tradicionais do México, especialmente celebradas no Dia dos Mortos. Caracterizam-se por versos curtos, rimas, tom irônico e satírico, escritos em forma de epitáfios para os vivos e mortos, abordando temas e pessoas de forma humorística para expressar sentimentos difíceis. Elas combinam arte e literatura, muitas vezes acompanhadas de desenhos de caveiras, e servem para homenagear, criticar e canalizar emoções sociais de forma criativa. Em 2008, a tradição foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, uma agência especializada das Nações Unidas com sede em Paris, fundada em 16 de novembro de 1945 com o objetivo de contribuir para a paz e segurança com a educação, ciências naturais, sociais/humanas e comunicações/informação.

A celebração ocorre durante a festividade de 31 de outubro a 2 de novembro, celebrada há cerca de três mil anos pelos povos mesoamericanos pré-hispânicos: astecas, maias, purépechas, náuatles e totonacas. Além do México, também é celebrada em outros países da América Central e em algumas regiões dos Estados Unidos das América, onde a população mexicana é grande. Inicialmente, a celebração era realizada durante todo o mês de agosto pelos povos mesoamericanos pré-hispânicos, que faziam muitos sacrifícios de seres humanos para aplacar a fúria dos deuses, onde os crânios eram guardados como troféus e expostos em templos e nas estátuas do deus da morte durante rituais que celebravam a morte e renascimento. Com a chegada dos colonizadores espanhóis, foi alterada para a passagem do mês de outubro ao mês de novembro, devido o choque cultural com o ritual indígena e, de forma a ficar próximo ao Dia dos Fiéis Defuntos/Dia de Finados e ao Dia de Todos os Santos, celebrados pelo catolicismo nos dias primeiro e dois de novembro respectivamente.  A festividade que se tornou o Dia dos Mortos era comemorada no nono mês do calendário solar asteca, por volta do início do mês de agosto, e era celebrado por um mês completo. As festividades eram presididas pela deusa Mictecacíhuatl, reconhecida como a “Dama da Morte”, atualmente relacionada à La Catrina, personagem de José Guadalupe Posada e esposa de Mictlantecuhtli, isto é, senhor do reino dos mortos. As festividades eram dedicadas às crianças e aos parentes falecidos.

É uma das festas mexicanas mais animadas, pois segundo relatos, os mortos vêm visitar os parentes. Esta é celebrada com comida, bolos, festa, música e doces preferidos dos mortos, os preferidos das crianças são as caveirinhas de açúcar. Segundo a crença popular, nos dias 1 e 2, chamados de Días de Muertos, os mortos têm permissão divina para visitar parentes e amigos. Por isso, as pessoas enfeitam suas casas com flores, velas e incensos, e preparam as comidas preferidas dos que já partiram. As pessoas fazem máscaras de caveira, vestem roupas com esqueletos pintados ou se fantasiam de morte. Para os mesoamericanos a morte não tinha as conotações morais da religião cristã, comparativamente, nas quais as ideias do inferno e do paraíso servem para punir ou recompensar. Pelo contrário, eles acreditavam que os cursos destinados às almas dos mortos eram determinados pelo tipo social de morte que tiveram, e não pelo seu comportamento na vida cotidiana. As principais civilizações representativas da área mesoamericana, asteca e maia desenvolveram um rico ritualístico em torno da adoração dos ancestrais e da própria morte, que foi o precedente do atual Dia dos Mortos, no qual a visão de mundo desses povos ainda sobrevive. Os astecas acreditavam que a vida exterior do falecido poderia ter quatro destinos. Tlalocan ou paraíso de Tláloc, deus da chuva. 

Este local era chefiado por aqueles que morreram em circunstâncias relacionadas à água: os afogados, aqueles que morreram de raios, aqueles que morreram de doenças como gota ou hidropisia, sarna ou boubas, bem como crianças sacrificadas ao deus. O Tlalocan era um lugar de descanso e abundância. Omeyocán, paraíso do Sol, presidido por Huitzilopochtli, o deus da guerra. Apenas os mortos em combate, os cativos que se sacrificaram e as mulheres que morreram no parto chegaram aqui. O Omeyocan era um lugar de alegria permanente, onde o sol era celebrado e acompanhado de música, canções e danças. Os mortos que foram para o Omeyocan, depois de quatro anos, voltaram ao mundo, transformaram-se em pássaros de belas penas multicoloridas. Mictlán, destinado àqueles que morreram de morte natural. Este lugar era habitado por Mictlantecuhtli e Mictecacíhuatl, “senhor e senhora da morte”. Era um lugar muito escuro, sem janelas, do qual não era mais possível sair. Chichihuacuauhco, onde as crianças mortas foram antes de sua consagração à água onde havia uma árvore cujos galhos o leite estava pingando, para se alimentar. As crianças que vieram aqui voltariam à Terra quando a raça que a habitava fosse destruída. Desta forma, a morte renasceria. O caminho para o Mictlán era tortuoso e difícil, porque para alcançá-lo as almas tinham que viajar por lugares por quatro anos. Depois desse tempo, as almas chegaram a Chicunamictlán, onde descansavam ou desapareçam. Para trilhar esse caminho, o falecido foi enterrado com um cão chamado Xoloitzcuintle, que o ajudaria a atravessar um rio e chegar a Mictlantecuhtli, a quem ele deveria dar, como oferenda, amarrado com chás e bucos de perfume, algodão (ixcátl), fios vermelhos e cobertores.      

Aqueles que foram ao Mictlán receberam, como oferenda, quatro flechas e quatro chás amarrados com fio de algodão. Os enterros pré-colombianos, eram acompanhados por oferendas contendo dois tipos de objetos: aqueles que, em vida, tinham sido usados pelos mortos, e aqueles que ele poderia precisar em seu trânsito para o submundo. Dessa forma, a elaboração de objetos funerários foi muito variada: instrumentos musicais de argila, como ocarinas, flautas, timbales e sonajas na forma de crânios; esculturas representando os deuses mortuários, crânios de vários materiais (pedra, jade, vidro), braseiros, incensários e urnas. A cena que inicia o filme “007 Contra Spectre” da saga James Bond foi um divisor de águas depois na Cidade do México. No filme lançado em 2015, o ator Daniel Craig aparece disfarçado de esqueleto humano ao lado da atriz e modelo mexicana Stephanie Sigman, a Bond girl chamada Estrella, no centro histórico da capital mexicana. Ambos caminham no meio de um grande tumulto. Nas ruas, há centenas de pessoas curtindo um desfile. Enormes caveiras e esqueletos em carros alegóricos avançam. Há pessoas com máscaras e fantasias em todos os lugares. A música dá ritmo ao burburinho de uma grande festa pelo tradicional Dia dos Mortos. Embora cheguem juntos a um hotel, James Bond não tem tempo para par romântico com Estrella, pois deve perseguir um vilão, Marco Sciarra, que está perdido na multidão do desfile no movimentado centro da Cidade do México.

Começa então uma perseguição espetacular que enche de emoção os primeiros 10 minutos do filme. O diretor Sam Mendes usou a tradição mexicana do Dia dos Mortos como pano de fundo com alguma licença poética, como um desfile que era fictício. Desde a estreia do filme, no entanto, as autoridades culturais e turísticas do México começaram a realizar um enorme Desfile do Dia dos Mortos todos os anos. A celebração que lembra os mortos, realizada todo dia 2 de novembro, é uma tradição das regiões onde as culturas pré-hispânicas do México estavam presentes, principalmente no centro e sul do país. Na cultura indígena mexicana havia um ritual para guiar os mortos em sua jornada para Mictlan, o “submundo” de sua mitologia. De acordo com seu calendário, a comemoração ocorreu no final do que é julho ou início de agosto. Com a conquista espanhola e o estabelecimento do catolicismo, a tradição foi adaptada. Passou para o penúltimo mês do ano para coincidir com a tradição da “Comemoração de Finados”, em 2 de novembro. A combinação de rituais deu origem a uma tradição cujo centro é uma oferenda de flores e alimentos em um altar, em casa ou no cemitério, iluminado por velas para os entes falecidos fazerem uma visita naquela data. Embora essas ofertas tenham motivado alguns festivais, em que vários participantes apresentam sua melhor oferta do Dia dos Mortos em grande escala, nunca houve um desfile como o do roteiro cinematográfico 007 Contra Spectre

Do ponto de vista técnico-metodológico mais de 1.500 pessoas participaram das filmagens como figurantes, muitas delas com os rostos pintados ou vestindo alguma roupa ou fantasia. Tracy Smith, uma das supervisoras de figurino, disse que eles tinham muita vontade e “liberdade criativa”. Para a coreógrafa mexicana Priscila Hernández, o trabalho teve “uma inspiração” nas raízes da tradição, mas ao mesmo tempo foi-se identificando esteticamente “uma mistura com uma visão mais contemporânea” que refletiu o grande momento cultural e artístico do México. Os pedaços gigantes de crânios e esqueletos foram feitos por mexicanos, segundo os produtores, dando a entender que sua visão da representação simbólica/etnográfica do Dia dos Mortos foi respeitada. - “Os artistas e artesãos foram fantásticos e realmente apreciaram o que estávamos fazendo e queriam fazer o melhor possível porque era o país deles e eles queriam vê-lo na tela”, disse a produtora Barbara Broccoli. Ortiz acredita que o trabalho essencialmente foi “Hollywood assimilar um estilo típico de como os mexicanos encaram a morte”. Quer dizer, no filme de James Bond, “há caveiras com charutos e gravatas. Essas caveiras gigantescas mudam e são decoradas com caveiras de açúcar, com muitos elementos mexicanos, como a flor cempasuchil”, diz Ortiz. “O figurino está se tornando parte daquela que é a grande tradição mexicana do Dia dos Mortos. Está tomando não apenas forma, mas também substância”. Para Sam Mendes, a capital mexicana era o local perfeito para “recapturar um pouco do glamour” de James Bond. “Se eu quiser que haja um grande e magnífico festival em uma cidade grande, bem, não há nada maior do que a Cidade do México e o Dia dos Mortos”.

No ano seguinte ao lançamento de 007 Contra Spectre, a Cidade do México teve seu primeiro desfile do Dia dos Mortos com alguns dos grandes cenários usados ​​no filme. O governo da Cidade do México e as autoridades federais de promoção do turismo pensaram que o filme do agente 007 mostrava algo que poderia se tornar um sucesso. Com o longa-metragem criou-se uma “expectativa de que haveria algo mais”, disse a então diretora geral do Conselho Mexicano de Promoção do Turismo, Lourdes Berho. - “Sabíamos que isso iria gerar um desejo por parte de mexicanos e turistas de vir e participar de uma festa ou um grande desfile”. Para a coreógrafa Priscila Hernández, o desfile “foi um burburinho internacional depois do filme”. Ela fez parte da produção das três primeiras edições do festival na Cidade do México. “Foi muito bom poder transmitir aos mexicanos e estrangeiros um pouco de nossas tradições, mas respeitando Mictlantecuhtli, Coatlicue, Mictlan, o que a morte significa para nós mexicanos por meio de uma perspectiva visual”, disse ele à revista Chilango. “Não vejo mal, são simplesmente as mudanças que uma tradição secular está passando, são as mudanças dos novos tempos”, diz Ortiz. No século XVIII, durante o vice-reinado, a tradição era ir à igreja rezar no dia 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, pedir a intercessão pelos pecados dos mortos e que eles recebessem essas indulgências no dia 2 de novembro.

Bibliografia Geral Consultada.

TURNER, Victor, La Selva de los Símbolos. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1980; CABRERO, María Teresa, La Muerte en el Occidente del México Pré-hispânico. México: Universidad Nacional Autónoma de México, 1995; ESPARZA, José Luís, El México Festivo. México (DF): Ciencia y Cultura Latinoamericana, 1996; MORIN, Edgar, O Homem e a Morte. Rio de Janeiro (RJ): Editora Imago, 1997; PAZ, Octavio, El Laberinto de la Soledad. México: Fondo de Cultura Económica, 2000; DE LEÓN, Juan Luis, La Muerte, su Imaginario y la História de las Religiones. España: Universidad de Deusto Bilbao, 2000; AMBROSIO, Juan, La Santa Muerte. Biografía y Culto. México: Editorial Planeta, 2003; ZARAUZ LÓPEZ, Héctor Luis, La Fiesta de la Muerte. México: Editor Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 2004; GALLEGO, Mariano, José Guadalupe Posada, la Muerte y la Cultura Popular Mexicana. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social. Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, 2007; GALLEGO, Mariano, José Guadalupe Posada, la Muerte y la Cultura Popular Mexicana. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social. Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, 2007; ALVES, Júlia Batista, Rir ou Chorar: Dia de Finados Brasileiro e Dia dos Mortos Mexicano, Semelhanças e Diferenças entre São Paulo - Brasil e Mixquic – México. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Integração na América Latina. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; PANCERI, Rafaella, “Dia dos Mortos é Comemorado em Festa Cheia de Alegria no México”. In: Correio Braziliense (DF), 30 de outubro de 2016; ARAÚJO, Michelle de, Em Nome da Fé: As Heresias e sua Dimensão Política em Portugal e Castela (sec. XIV e XV). Programa de Pós-Graduação em História. Brasília: Universidade de Brasília, 2019; MURRAY, Tom; MONTENEGRO, José Luis, “Dia dos Mortos: Como Filme de James Bond Influenciou Festa no México”. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/2022/11/03; STEIN, Murray, Jung e o Caminho da Individuação - Uma Introdução. São Paulo: Editora Cultrix, 2020; MONTEBELLO, Pierre, Nietzsche - O Mundo da Terra. São Paulo: Editora Unesp, 2021; SILVA, Yolanda Maria da, Imaginário na Trilogia Fronteiras do Universo de Philip Pullman. Tese de Doutorado em Literatura e Interculturalidade. Centro de Educação. Departamento de Letras e Artes. Campina Grande: Universidade Estadual da Paraíba, 2023; TRECCO, Giulia, “O maior festival mexicano do Brasil está de volta com entrada gratuita! Não perca a Fiesta de Muertos no Memorial da América Latina”. Disponível em: https://saopaulosecreto.com/07/08/2025; entre outros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário